Romantismo.
Em fins do século XVIII tinha-se , em toda a Europa, a impressão de
que o Classicismo era terreno sáfaro. A rigidez clássica, que
tolhia a liberdade de composição, já não agradava a ninguém:
todos ansiavam por qualquer coisa nova. Na Alemanha, o filósofo
Johann Gottlieb Fichte
fazia discursos de fogoso patriotismo, incitando os jovens à
revolta, à luta contra o absolutismo dos poderosos, o personalismo
de um rei, contra tudo que revelasse influência francesa ou ambição
napoleônica. O sistema filosófico de Fichte e seus discípulos
transformava-se numa espécie de panteísmo: era a revolução
filosófica, a revolução política, a revolução das letras.
Surgia um lirismo novo, absolutamente pessoal. Nada de heróis, de
seres perfeitos; o homem é a medida de todas as coisas – dizia-se;
o homem é fraco, tem momentos de covardia e desânimo, mas instantes
há em que, livre e bela, a sua alma se expande e ele é gigante, e
ele é deus. O escritor, desse modo, procurava emancipar-se da
proteção de mecenas e da situação de dependente do público
burguês para, aureolado de admiração, ganhar nova consciência de
seu papel relativamente às massas. Têm-se como chefes da escola
romântica alemã a Friedrich Schiller,
Johann Wolfgang von Goethe,
o genial autor de “Werther”
que, na verdade, prepararam o terreno
para o Romantismo. Na verdade
seus dirigentes foram os irmãos
Schlegel
(Friedrich
e August
Wilhelm),
os irmãos
Grimm
(Jacob
e Wilhelm),
o filósofo Friedrich
Wilhelm Joseph von Schelling
e, ainda, Christian Johann Heinrich Heine.
Mas
foi na França que o Romantismo adquiriu vulto e consistência. O pai
e estruturador do Romantismo francês foi Victor
Hugo
(Victor-Marie
Hugo),
que lançou o que se conhece como “Manifesto
do Romantismo”,
no prefácio de seu drama “Cromwell”
(1827): “destruamos
as teorias, as poéticas e os sistemas; abaixo o velho estudo que
mascara a fachada da arte. Não há regras nem modelos, além das
leis gerais da natureza e das leis especiais que para cada composição
derivam das condições de cada assunto”.
Estavam abaladas as velhas crenças, as antigas tradições
literárias, o Classicismo. Surgia a Era do Ego, da Individualidade,
do Subjetivismo. Outros românticos franceses foram: Lamartine
(Alphonse
Marie Louis de Prat de Lamartine),
Chateaubriand
(François
René Auguste de Chateaubriand),
Madame
de Staël
(Anne-Louise
Germaine Necker).
Na Inglaterra o Romantismo surge caracterizado pela luta
antinapoleônica e dirigido para a poesia popular. Seus maiores
representantes foram Lord
Byron
(George
Gordon Byron)
e Walter
Scott;
o primeiro representava para a juventude de sua época o herói
romântico, perseguido pela fatalidade; o segundo fez nascer os
sonhos de liberdade, com seus relatos em prosa e verso.
| Johann Gottlieb Fichte |
Características
do Romantismo – Religiosidade:
Elemento de exigência sentimental, pois que o povo é romântico e a
literatura deve refletir o povo.
Entusiasmo
pela Natureza:
As descrições da natureza se tornaram uma constante nos dois
gêneros preferidos pela escola: a poesia lírica e o romance.
Medievalismo:
Retorno
aos temas da Idade Média (tradições, romances de cavalaria,
superstições, costumes, lendas etc.).
Nacionalismo:
Exaltada consciência de uma Pátria.
Subjetivismo:
O autor sentia e vibrava, antes de provocar alheio sentimento, alheia
vibração: o autor volvia sobre sua intimidade, focalizando a si
mesmo como assunto principal pela análise do “Eu”.
Liberdade
de Fundo, de Inspiração e de Forma: O escritor não estava mais
obrigado a buscar temas na Roma ou na Grécia: a mitologia pagã foi
substituída pelas tradições populares.
Imaginação:
Esta sobrepujou a razão num programa atrevido formulado por Victor
Hugo: nada de regras nem de modelos.
Sentimentalismo:
O sentimentalismo tomou proporções de epidemia, numa tristeza vaga,
numa insaciedade tediosa e às vezes mórbida (“mal do século”).
Simplificação
dos Gêneros Literários: Principalmente no teatro, onde se extingue
a lei das três unidades. Nasceu o drama, fusão da tragédia e da
comédia, que pintava o mundo, a realidade da vida.
Contexto
histórico
| A Revolução Belga, por Gustaf Wappersde Wappers. |
O
romantismo seria dividido em três gerações:
- 1ª geração — As características centrais do romantismo viriam a ser o lirismo, o subjetivismo, o sonho de um lado, o exagero, a busca pelo exótico e pelo inóspito de outro. Também destacam-se o nacionalismo, presente da colectânea de textos e documentos de caráter fundacional e que remetam para o nascimento de uma nação, fato atribuído à época medieval, a idealização do mundo e da mulher e a depressão por essa mesma idealização não se materializar, assim como a fuga da realidade e o escapismo. A mulher era uma musa, ela era amada e desejada mas não era tocada.
- 2ª geração — Posteriormente também seriam notados o pessimismo e um certo gosto pela morte, religiosidade e naturalismo. A mulher era alcançada mas a felicidade não era atingida.
- 3ª geração — Seria a fase de transição para outra corrente literária, o realismo, a qual denuncia os vícios e males da sociedade, mesmo que o faça de forma enfatizada e irônica (vide Eça de Queirós), com o intuito de pôr a descoberto realidades desconhecidas que revelam fragilidades. A mulher era idealizada e acessível.
Individualismo
Os
românticos libertam-se da necessidade de seguir formas reais de
intuito humano, abrindo espaço para a manifestação da
individualidade, muitas vezes definida por emoções e sentimentos.
Subjetivismo
O
romancista trata dos assuntos de forma pessoal, de acordo com sua
opinião sobre o mundo. O subjetivismo pode ser notado através do
uso de verbos na primeira pessoa. Trata-se sempre de uma opinião
parcelada, dada por um individuo que baseia sua perspectiva naquilo
que as suas sensações captam. Com plena liberdade de criar, o
artista romântico não se acanha em expor suas emoções pessoais,
em fazer delas a temática sempre retomada em sua obra.
Idealização
Empolgado
pela imaginação, o autor idealiza temas, exagerando em algumas de
suas características. Dessa forma, a mulher é vista como uma virgem
frágil, o índio é visto como herói nacional e a noção de pátria
também é idealizada.
Sentimentalismo exacerbado
Praticamente
todos os poemas românticos apresentam sentimentalismo já que essa
escola literária é movida através da emoção, sendo as mais
comuns a saudade, a tristeza e a desilusão. Os poemas expressam o
sentimento do poeta, suas emoções e são como o relato sobre uma
vida. O romântico analisa e expressa a realidade por meio dos
sentimentos. E acredita que só sentimentalmente se consegue traduzir
aquilo que ocorre no interior do indivíduo relatado. Emoção acima
de tudo.
Egocentrismo
Como
o nome já diz, é a colocação do ego no centro de tudo. Vários
artistas românticos colocam, em seus poemas e textos, os seus
sentimentos acima de tudo, destacando-os na obra. Pode-se dizer,
talvez, que o egocentrismo é um subjetivismo exagerado.
Natureza interagindo com o eu lírico
A
natureza, no romantismo, expressa aquilo que o eu-lírico está
sentindo no momento narrado. A natureza pode estar presente desde as
estações do ano, como formas de passagens, à tempestades, ou dias
de muito sol. Diferentemente do Arcadismo, por exemplo, que a
natureza é mera paisagem. No romantismo, a natureza interage com o
eu-lírico. A natureza funciona quase como a expressão mais pura do
estado de espírito do poeta.
Grotesco e sublime
Há
a fusão do belo e do feio, diferentemente do arcadismo que visa a
idealização do personagem principal, tornando-o a imagem da
perfeição. Como exemplo, temos o conto de “A Bela e a
Fera”, no qual uma jovem idealizada, se apaixona por uma
criatura horrenda.
Medievalismo
Alguns
românticos se interessavam pela origem de seu povo, de sua língua e
de seu próprio país. Na Europa, eles acharam no cavaleiro fiel à
pátria um ótimo modo de retratar as culturas de seu país. Esses
poemas se passam em eras medievais e retratavam grandes guerras e
batalhas.
Indianismo
É
o medievalismo "adaptado" ao Brasil. Como os brasileiros
não tinham um cavaleiro para idealizar, os escritores adotaram o
índio como o ícone para a origem nacional e o colocam como um
herói. O indianismo resgatava o ideal do "bom selvagem"
(Jean-Jacques Rousseau), segundo o qual a sociedade
corrompe o homem e o homem perfeito seria o índio, que não tinha
nenhum contato com a sociedade européia.
Byronismo
Inspirado
na vida e na obra de Lord Byron, poeta inglês. Estilo
de vida boêmio, voltado para vícios, bebida, fumo , podendo estar
representado no personagem ou na própria vida do autor romântico. O
byronismo é caracterizado pelo narcisismo, pelo egocentrismo, pelo
pessimismo, pela angústia.
Romantismo
nas belas-artes
| A Liberdade Guiando o Povo por Eugène Delacroix. |
Segundo
Giulio
Carlo Argan
na sua obra “Arte
Moderna”.
O romantismo e o neoclassicismo são simplesmente duas faces de uma
mesma moeda. Enquanto o neoclássico busca um ideal sublime,
objetivando o mundo, o romântico faz o mesmo, embora tenda a
subjetivar o mundo exterior. Os dois movimentos estão interligados,
portanto, pela idealização da realidade (mesmo que com resultados
diversos). As primeiras manifestações românticas na pintura
ocorreram quando Francisco
Goya
passou a pintar depois de começar a perder a audição. Um quadro de
temática neoclássica como Saturno devorando seus filhos, por
exemplo, apresenta uma série de emoções para o espectador que o
fazem se sentir inseguro e angustiado. Goya cria um jogo de
luz-e-sombra, linhas de composição diagonais e pinceladas
"grosseiras" de forma a acentuar a situação dramática
representada. Apesar de Goya ter sido um acadêmico, o romantismo
somente chegaria à Academia mais tarde. O francês Eugène
Delacroix
é considerado um pintor romântico por excelência.
Sua tela “A
Liberdade Guiando o Povo”
reúne o vigor e o ideal românticos em uma obra que estrutura-se em
um turbilhão de formas. O tema são os revolucionários
de 1830
guiados pelo espírito da Liberdade (retratados aqui por uma mulher
carregando a bandeira da França). O artista coloca-se
metaforicamente como um revolucionário ao se retratar em um
personagem da turba, apesar de olhar com uma certa reserva para os
acontecimentos (refletindo a influência burguesa no romantismo).
Esta é provavelmente a obra romântica mais conhecida. A busca pelo
exótico, pelo inóspito e pelo selvagem formaria outra
característica fundamental do romantismo. Exaltavam-se as sensações
extremas, os paraísos artificiais, a natureza em seu aspecto mais
bruto. Lançar-se em "aventuras" ao embarcar em navios com
destino aos polos, por exemplo, tornou-se uma forma de inspiração
para alguns artistas. O pintor inglês William Turner
refletiu este espírito em obras como “Mar
em Tempestade”
onde o retrato de um fenômeno da Natureza é usado como forma de
atingir os sentimentos supracitados. Géricault
(Jean-Louis
André Théodore Géricault)
é outro dos grandes nomes do romantismo na pintura. A sua obra A
Jangada da Medusa, pintada por volta de 1819, com a mistura entre os
elementos barrocos, o naturalismo e o dramatismo pessoal das
personagens, é uma das mais célebres pinturas do movimento
romântico.
| Eugène Delacroix (auto-retrato). |
Romantismo
na literatura
| William Blake |
| Victor Hugo |
| Beethoven (1820), por Joseph Karl Stieler. |
As
primeiras evidências do romantismo na música aparecem com Ludwig
van Beethoven.
Suas sinfonias, a partir da terceira, revelam uma música com
temática profundamente pessoal e interiorizada, assim como algumas
de suas sonatas para piano também, entre as quais é possível citar
a “Sonata
Patética”.
Outros compositores como Chopin
(Fryderyk
Franciszek Chopin
ou Szopen),
Tchaikovsky
(Pyotr
Ilyich Tchaikovsky),
Felix
Mendelssohn
(Jakob
Ludwig Felix Mendelssohn Bartholdy),
Franz
Liszt,
Edvard
Hagerup Grieg
e Johannes
Brahms
levaram ainda mais adiante o ideal romântico de Beethoven, deixando
o rigor formal do classicismo para escreverem músicas mais de acordo
com suas emoções. Na ópera, os compositores mais notáveis foram
Verdi
(Giuseppe
Fortunino Francesco Verdi)
e Wagner
(Wilhelm
Richard Wagner).
O primeiro procurou escrever óperas, em sua maioria, com conteúdo
épico ou patriótico - entre as quais as óperas “Nabucco”,
“I
Vespri Sicilianni”,
“I
Lombardi nella Prima Crociata”
- embora tenha escrito também algumas óperas baseadas em histórias
de amor como “La
Traviata”;
O segundo enfocava histórias mitológicas germânicas, caso da
Tetralogia do “Anel
do Nibelungo”
e outras óperas como “Tristão
e Isolda”
e “O
Holandês Voador”,
ou
sagas medievais como
“Tannhäuser”,
“Lohengrin”
e
“Parsifal”.
Mais tarde na Itália o romantismo na ópera se desenvolveria ainda
mais com Puccini
(Giacomo
Antonio Domenico Michele Secondo Maria Puccini).
Referências
