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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Biografia de Coelho Neto


Coelho Neto (cerca de 1920).
Henrique Maximiano Coelho Neto. Nasceu em Caxias, Maranhão, a 21 de Fevereiro de 1864, e, faleceu no Rio de Janeiro (RJ), a 28 de Novembro de 1934. Coelho Neto foi um escritor (cronista, folclorista, romancista, crítico e teatrólogo), político e professor brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras onde foi o fundador da Cadeira número 2. Foi considerado o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", numa votação realizada em 1928 pela revista O Malho. Apesar disto, foi consideravelmente combatido pelos modernistas, sendo pouco lido desde então, em verdadeiro ostracismo intelectual e literário. Nas palavras de Arnaldo Niskier: "A vitória do modernismo se fez como se houvesse necessidade de abater um grande inimigo, no caso, Coelho Neto".


Biografia


Filho do português Antônio da Fonseca Coelho com a índia Ana Silvestre Coelho, que mudaram-se do Maranhão para o Rio de Janeiro quando o filho contava apenas seis anos de idade. Estudou no Colégio Pedro II, onde realizou os cursos preparatórios e ingressou na Faculdade de Medicina, que abandonou em seguida, matriculando-se em 1883 na Faculdade de Direito de São Paulo. No curso jurídico Coelho Neto expande suas revoltas, logo se envolvendo no movimento de alunos contra um professor e, para evitar represálias, transfere-se para a faculdade do Recife, e ali conclui o primeiro ano tendo por principal mestre Tobias Barreto. Após este lapso, retorna para São Paulo, e logo participa de movimentos abolicionistas e republicanos, entrando em choque com os professores, não chegando a concluir o curso. Sem se formar, retorna em 1885 para o Rio onde, ao lado de escritores como Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney forma um grupo cujas experiências vem a retratar no romance “A Conquista”, de 1899. Ativo na campanha pela extinção da escravatura, alia-se a José do Patrocínio; labora como colaborador do jornal Gazeta da Tarde e, depois, para o A Cidade do Rio, onde foi secretário, ocasião em que inicia a publicação de seus textos literários. Casou-se em 1890 com Maria Gabriela Brandão, filha do professor Alberto Olympio Brandão, com quem teve catorze filhos. Neste mesmo ano é nomeado secretário de governo do Estado e em 1891 ocupa a direção de Negócios do Estado. Em 1892 é nomeado para o magistério de História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes. Depois leciona literatura no Colégio Pedro II; nesta atividade é nomeado, em 1910, para as cátedras de História do Teatro e Literatura Dramática na Escola de Arte Dramática do Rio, da qual foi mais tarde seu diretor. Na política tornou-se deputado federal pelo estado natal, em 1909, reeleito em 1917. Ocupou ainda diversos cargos, e integrou diversas instituições culturais. Em 1923 converteu-se ao Espiritismo, proferindo um discurso no Salão da Guarda Velha no Rio de Janeiro sobre sua adesão. Sobre a matéria, o "Jornal do Brasil" publicou entrevista com o escritor (7 de junho de 1923), anteriormente intransigente adversário do Espiritismo, e que a ele se converteu após ter participado, na extensão do seu escritório, de uma conversa ao telefone entre a sua neta, falecida em tenra idade, e a mãe dela. Sua vida divide-se, assim, em três fases distintas: na primeira, aquela em que procura se firmar como escritor; a segunda, quando integra o movimento pela Academia, participa da política e obtém reconhecimento e consagração e, finalmente, a terceira, na qual experimenta os ataques modernistas e o consequente esquecimento.


Academia Brasileira de Letras

Coelho Neto esteve ao lado de Lúcio de Mendonça, idealizador da Academia Brasileira, nas primeiras reuniões que trataram da criação desta entidade literária, e realizadas nos dois últimos meses de 1896. Foi eleito seu presidente no ano de 1926, sucedendo à primeira gestão de Afonso Celso, e foi seguido por Rodrigo Otávio. Em 1928, Coelho Neto, que havia sempre recebido hostilidades de Oswald de Andrade, emitiu um parecer em que confere ao escritor menção honrosa no julgamento do concurso de romance da ABL; apesar de participar do movimento modernista, publicamente antiacademicista, Andrade por duas vezes concorreu a uma vaga naquele sodalício.


Literatura


O autor, o mais lido no país durante muitos anos, usou de diversos pseudônimos ao longo de sua vida, nas publicações tanto do Rio de Janeiro quanto de outras cidades, dentre os quais Amador Santelmo, Anselmo Ribas, Ariel, Blanco Canabarro, Caliban, Charles Rouget, Democ, Fur-Fur, Manés, N. Puck ou Tartarin. Sua extensa obra não se prendia a um só gênero, embora seja considerado integrante do parnasianismo. Sua fecunda produção valeu-lhe a crítica de ser um “fabricante de romances”. Mesmo nos tempos atuais, sua obra é vista como cheia de "pompa e formalismos", dotado de "artifícios retóricos" que foram rejeitados posteriormente pelos autores regionalistas e modernistas. Lima Barreto, por exemplo, chegou a publicar artigos em periódicos literários, como a Revista Contemporânea e A Lanterna em os quais direciona ataques a Coelho Neto, e sua visão tradicional da literatura; dizia que este preocupava-se somente com o estilo, vocabulário e passava ao largo das questões sociais, políticas e morais, deixando de usar a escrita como instrumento de transformação social. Num de seus artigos, Barreto escreveu: “Em um século deste, o Senhor Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico, um contemplativo, magnetizado pelo Flaubert da Mme Bovary, com as suas Chinesices de estilo, querendo como os Goncourts, pintar com a palavra escrita (...) mas que não fez de seu instrumento artístico um veículo de difusão das idéias de seu tempo...” Um outro fator é apontado por estudiosos como responsável pelo desconhecimento póstumo de sua obra, apesar da grande qualidade dos textos, e reside no fato de que as mesmas era editadas pela Lello, na cidade portuguesa do Porto; esse esquecimento, que perpassa mesmo no meio erudito e acadêmico, continuou mesmo após a publicação em 1958, pela editora Nova Aguilar, de uma coletânea em três volumes intitulada Obra Seleta. Em sua obra distingue-se claramente o romantismo, movimento vigente no final do século XIX e começo do XX, eivado de sentimentos de formação de uma identidade nacional; também se pode ver o registro do rural e o urbano, com os retratos da então capital federal. Teve colaboração no semanário Branco e Negro (1896-1898).


Opiniões


Foi dos primeiros autores a manifestar preocupações ecológicas; assim como Euclides da Cunha, escrevia contra o desmatamento e as queimadas na Amazônia, deixando manifestos tais como o que diz: “Com a morte das árvores, desaparecem as fontes: rios que rolavam águas abundantes derivam agora de filetes rasos e tão escassos que uma quente semana de verão é bastante para secá-los; a caça rareia”. Coelho Neto foi um dos folcloristas que, com visão romântica, procuraram resgatar a imagem da capoeira no país, até então vista como uma prática de marginais, como sendo um esporte genuinamente brasileiro; defendia que fosse ensinada nas escolas e nas forças armadas, nestas últimas como técnica de defesa pessoal.

Obras

Romances e contos

  • Rapsódias, contos (1891);
  • A Capital Federal, romance (1893);
  • Baladilhas, contos (1894);
  • Praga (1894);
  • Fruto Proibido, contos (1895);
  • Miragem, romance (1895);
  • O Rei Fantasma, romance (1895);
  • Sertão (1896);
  • Inverno em Flor, romance (1897),
  • Álbum de Caliban, contos (1897);
  • A Descoberta da Índia (1898);
  • O Morto, romance (1898);
  • Romanceiro (1898);
  • Seara de Rute (1898);
  • A Descoberta da Índia, narrativa histórica (1898);
  • O Rajá do Pendjab, romance (1898);
  • A Conquista, romance (1899);
  • Saldunis (1900);
  • Tormenta, romance (1901);
  • Apólogos (1904);
  • O Bico de Pena (1904);
  • Água Juventa (1905);
  • Teatrinho (1905), coletânea de textos dramáticos para crianças, parceria com Olavo Bilac.
  • Treva (1906);
  • Turbilhão, romance (1906);
  • As Sete Dores de Nossa Senhora (1907);
  • Fabulário (1907);
  • Jardim das Oliveiras (1908);
  • Esfinge (1908);
  • Vida Mundana, contos (1909);
  • Cenas e Perfis (1910);
  • Mistério do Natal (1911);
  • Banzo, contos (1913);
  • Meluzina (1913);
  • Contos Escolhidos (1914);
  • Rei Negro, romance (1914);
  • O Mistério (1920);
  • Conversas (1922);
  • Vesperal (1922);
  • Pastoral (1923);
  • Amos (1924);
  • Mano, Livro da Saudade (1924);
  • O Povo, romance (1924);
  • Imortalidade, romance (1926);
  • O Sapato de Natal (1927);
  • Contos da Vida e da Morte, contos (1927);
  • Velhos e Novos (1928);
  • A Cidade Maravilhosa, contos (1928);
  • Vencidos (1928);
  • A Árvore da Vida (1929);
  • Fogo Fátuo, romance (1929).

Peças teatrais

  • Teatro, vol. I (1911):

    • O relicário
    • Ao raio X
    • O diabo no corpo;
  • vol. II (1907):

    • As estações,
    • Ao luar,
    • Ironia,
    • A mulher,
    • Fim de raça;
  • vol. III (1907):

    • Neve ao sol,
    • A muralha;
  • vol.IV (1908):

    • Quebranto e
    • Nuvem;
  • vol.V (1918):

    • O dinheiro,
    • Bonança,
    • O intruso;
  • vol.VI (1924):

    • O patinho torto,
    • A cigarra e a formiga,
    • O pedido,
    • A guerra,
    • O tango,
    • Os sapatos do defunto.
Crônicas

  • O meio (1899);
  • Bilhetes postais (1894);
  • Lanterna mágica (1898);
  • Por montes e vales (1899);
  • Versas (1918);
  • A política (1919);
  • Atlética (1920);
  • Frutos do tempo (1920);
  • O meu dia (1922);
  • Frechas (1923);
  • As quintas (1924);
  • Feira Livre (1926);
  • Bazar (1928).



Referências







domingo, 5 de outubro de 2014

Biografia de Petrônio


Petrônio
Petrônio. (em latim: Petronius). Petrônio foi um escritor romano, mestre na prosa da literatura latina, satirista notável, autor de “Satíricon”. Não existem provas seguras acerca da identidade de Petrônio, mas acredita-se que se trata de Caio Petrônio Árbitro (Gaius Petronius Arbiter) ou de Tito Petrônio (Titus Petronius, c. 27-66 d.C.), distinto frequentador da corte do imperador Nero. *Acusado de participar da conspiração do ano 65, viu-se condenado ao suicídio. Suas últimas horas de vida, festejou-as em Cumas, de onde enviou ao imperador a lista de seus vícios, antes de cortar os pulsos. Deixou uma obra, o “Satíricon”, de realismo insólito e cru, mas dotado de estranha e álacre atualidade. Nela continua a tradição formal e maneirística das “Sátiras Menipéias” de Varrão, alternando trechos em prosa e em verso. A mais extensa das passagens em verso, sobre as guerras civis, constitui talvez tentativa de parodiar a “Farsália”, de Lucano. Contudo, o que mais releva no “Satíricon” é o que nele subsiste de crítica social e de fonte documental. Sátira isenta de intenções moralistas, o romance de Petrônio é um admirável retrato da Roma antiga, com seus parasitas, prostitutas, novos-ricos e literatos, mergulhados no ambiente devasso dos bordéis e das estações de água. O narrador, Encólpio, é um libertino que viaja com seus companheiros, Ascilto e Gíton, pelo sul da Itália, perseguidos por Príapo. Capítulos famosos dos extensos textos subsistentes são os da “Matrona de Éfeso” e de “O Festim de Trimalcião”, arrivista a quem aprazia imitar os literatos e os estóicos. Esse 'festim' ou 'ceia' é fonte de informações preciosas sobre os requintes gastronômicos e sensuais da época. Mas é quase certo, ao mesmo tempo, que a obra pretendia, vindicativamente, ridicularizar a oposição dos intelectuais (aos quais Petrônio pertencia) a Nero.
 

Vida

Morte de Petrônio (1904) por Konstantin Makovsky.
Nascido de uma família aristocrática e abastada, mostrou toda sua competência política ao ocupar os cargos de governador e depois o de cônsul da Bitínia, na atual Turquia. Depois ocupou o cargo de conselheiro de Nero, sendo nomeado arbiter elegantiae (árbitro da elegância), em 63. Dois anos mais tarde, acusado de participar na conspiração contra o imperador e caindo em desfavor, acabou com sua estranha vida, uma mistura de atividade e de libertinagem, no ano de 66 d.C., cometendo um lento e relaxado suicídio, abrindo e fechando as veias, enquanto discursava sobre temas joviais, mandando para Nero um documento no qual detalhava seus abomináveis passatempos. Sobre ele, na famosa obra “Anais”, o historiador Tácito (Publius [Gaius] Cornelius Tacitus) traçou uma imagem viva, que vale a pena ser lembrada e transcrita.
Petrônio consagrava o dia ao sono, e a noite aos deveres e aos prazeres. Se outros chegam à fama pelo trabalho, ele adquiriu-a pela sua vida descuidada. Não tinha a reputação de dissoluto ou de pródigo, como a maioria dos dissipadores, mas a de um voluptuoso refinado em sua arte. A própria incúria, o abandono que se notava nas suas ações e nas suas palavras, davam-lhe um ar de simplicidade, emprestando-lhe um valor novo. Contudo, procônsul na Bitínia e depois cônsul, deu prova de vigor e de capacidade. Voltando aos seus vícios ou à imitação calculada dos vícios, foi admitido entre os poucos íntimos de Nero e tornou-se na corte o árbitro do bom gosto: nada mais delicado, nada mais agradável do que aquilo que o sufrágio de Petrônio recomendava ao príncipe, sempre embaraçado na escolha. Nasceu daí a inveja de Tigelino, o prefeito do pretório e poderoso conselheiro de Nero, que receava um concorrente mais hábil do que ele na ciência da volúpia. Conhecendo a crueldade do imperador, sua qualidade dominante, insinuou que Petrônio era amigo do conjurado Flávio Scevino; em seguida comprou um delator entre os escravos do acusado, sendo-lhe vedada qualquer defesa e mandando prender membros da sua família. O imperador encontrava-se então na Campânia e Petrônio tinha-o acompanhado até Cumes, onde recebeu ordem de ficar. Ele, sabendo que o seu destino já estava marcado, repeliu tanto o temor quanto a esperança, mas não quis se afastar bruscamente da vida. Abriu as veias, fechou-as depois, abrindo-as novamente ao sabor da sua fantasia, falando aos amigos e ouvindo por sua vez, mas nada havia de grave nas suas palavras, nenhuma ostentação de coragem; não quis ouvir reflexões sobre a imortalidade da alma, nem sobre as máximas dos filósofos: pediu que lhe lessem somente versos zombeteiros e poesias ligeiras. Recompensou alguns escravos e mandou castigar outros; chegou a passear, entregou-se ao sono a fim de que sua morte, ainda que provocada, parecesse natural. Não adulou no seu testamento Nero ou Tigelino ou qualquer outro poderoso do dia, como fazia a maioria dos que pereciam. Mas, em nome de jovens impudicos ou de mulheres perdidas, narrou as devassidões do príncipe e os seus refinamentos; mandou o escrito a Nero, fechado, imprimindo-lhe o sinete de seu anel, que destruiu a fim de que não fizesse vítimas mais tarde”. Era esse o ambiente da corte de Nero. Porém havia nela um personagem desse mundo cheio de contrastes – Petrônio. A maioria de seus críticos admite que foi ele o “arbiter elegantiarum” da época, o autor do “Satiricon”. E entre os muitos estudiosos interessados no assunto houve inclusive opiniões divergentes, mas o parecer mais acertado parece ter sido o do estudioso italiano Marchesi: “Petrônio, nos últimos momentos da vida, teria acrescentado alguma página ao seu romance, enviando-a ao imperador, feroz e desequilibrado, como presente de uma vítima aristocrática e refinada. O filósofo Sêneca enviou alguma página de moral; Petrônio, a pintura e a descrição daquele mundo terrivelmente corrupto”. O Satiricon não nos chegou íntegro e sim fragmentário. Mesmo assim, o que ficou do mesmo basta para considerar as páginas de Petrônio como um monumento literário de incomparável beleza artística e de inestimável valor para a reconstrução da vida particular da antiga Roma. (Extraído do prefácio do prof. Giulio D. Leoni).


Obra

Sua única obra remanescente, o “Satíricon”, uma história mundana de entretenimento, nada fala diretamente sobre a vida do autor. De Petrônio sobraram os livros XV e XVI de um longo romance, chamado de “Saturae” e que, sob o nome de “Satyricon” parodia os romances gregos, sentimentais e sensacionais, que estavam na moda. Em vez de heróis em extraordinárias aventuras, temos os feitos pouco recomendáveis de três jovens patifes: Encolpius, que conta a história, Asciltos e Giton. Mas, o mais conhecido episódio, que é também o menos censurável, é o famoso “Jantar de Trimalchão”, uma festa elaborada na mansão de um rico cidadão, um típico “self-made man”. O estilo varia entre uma retórica pretensiosa e uma gíria das mais vulgares. Mas, apesar de todas as críticas, em razão da língua, do humor e do realismo, o Satiricon é uma das mais notáveis obras da literatura latina. (Guido Definetti).


Satíricon (obra)

(Imagem: TouzaxA).
Satíricon é uma obra da literatura latina de autoria de Petrônio, escrita provavelmente próximo do ano 60 d.C., que descreve as aventuras e desventuras do narrador, Encólpio, do seu amante Ascilto e do servo, o jovem Gitão, que se intromete entre os dois amantes provocando ciúme e discussão. Juntamente com o poeta Eumolpo, embarcam em aventuras diversas acabando naufragados nas mão de Circe, uma sacerdotisa do deus Príapo. Dessa sátira notável dos tempos do imperador Nero, sobrevivem apenas fragmentos, dos quais o mais significativo é o afamado “Banquete de Trimalquião”, onde se fazem descrições detalhadas dum jantar luxuoso, extravagante e decadente oferecido pelo que se poderia chamar um “novo-rico” romano. Satíricon é um dos mais antigos romances conhecidos. Pode-se considerar Satíricon uma sátira — uma grande crítica aos costumes e à política da Roma antiga. Os episódios narrados estão em sintonia híbrida, ou seja, passagens cômicas são intercaladas com outras trágicas de forma natural e harmônica. O narrador parte do retrato puramente zombeteiro da cena para narrar uma desgraça, articulando-se por meio de expressões solenes, artifícios retóricos, da mesma forma que se apresentam palavras do idioma popular, às vezes vulgares demais. Passagens maliciosas, baixas, descritas e acobertadas por um fantástico domínio da arte retórica por parte de Encólpio, o narrador-personagem, que se mantém ao mesmo tempo fiel e avesso à retórica.

Enredo
Delicioso também é o episódio, em que (provavelmente) Eumolpo, quando servia em Pérgamo, seduz um jovem rapaz prometendo-lhe diversas prendas. Quando consegue finalmente concretizar a tão desejada relação sexual, a troco da promessa de um magnífico corcel, descobre que prometeu demais e não cumpre a sua promessa. Aborrecido o jovem ameaça contar ao seu pai. No entanto não há zanga que não possa ser ultrapassada, e uma noite, com muita arte e sedução, Eumolpo lá consegue que o jovem lhe permita satisfazer uma vez mais seus desejos. Apesar dos protestos iniciais e das ameaças de contar ao pai, o jovem indica a Eumolpo que, se quiser, pode voltar a possuí-lo. Eumolpo não se faz rogado e, cansado, cai a dormir. Mas o jovem adolescente, descobertos os prazeres do sexo passivo, quer mais, e Eumolpo, no meio de muito arfar e suspirar, lá consegue arrefecer pela terceira vez os ardores do moço, caindo outra vez logo de seguida em sono pesado. Passado menos de uma hora é de novo acordado: “Porque é que estamos parados?” pergunta o jovem. Agastado e estafado, Eumolpo responde: “Ou dormes ou vou já contar ao teu pai”.


Citações
  • O mundo quer ser enganado: portanto, que seja enganado”!
- Mundus vult decipi, ergo decipiatur!
- Atribuído a Petronius.
  • O sol dá luz a todos”.
- Sol omnibus lucet.
- Satyricon, 100.
  • Quem tem dinheiro, vela com um vento favorável”.
- Quisquis habet nummos, secura naviget aura.
- Satiren, 137.

Referências

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Biografia de Graciliano Ramos


Vidas Sêcas, de Graciliano Ramos.
Graciliano Ramos. (Graciliano Ramos de Oliveira). Nasceu em Quebrangulo, Estado de Alagoas, a 27 de Outubro de 1892, e, faleceu no Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, a 20 de Março de 1953. Graciliano Ramos foi um romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista brasileiro do século XX, mais conhecido por seu livro Vidas Secas (1938). * “A sua obra, pensada em particular ou em conjunto, nos dá a sensação de coisa pesada, opressiva ainda que lúcida; em perfeita coerência com a natureza introspectiva, analista, cética e desconfiada do autor, moldado como foi pelo meio e uma educação cheios de violência, ignorância, incompreensão e injustiças”. (Nelly Novais Coelho).



Biografia



Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, em 27 de Outubro de 1892. Primeiro de dezesseis irmãos de uma família de classe média do sertão nordestino, ele viveu os primeiros anos em diversas cidades do Nordeste brasileiro, como Buíque (PE), Viçosa e Maceió (AL). Terminando o segundo grau em Maceió, seguiu para o Rio de Janeiro, onde passou um tempo trabalhando como jornalista. Em Setembro de 1915, motivado pela morte dos irmãos Otacília, Leonor e Clodoaldo e do sobrinho Heleno, vitimados pela epidemia de peste bubônica, volta para o Nordeste, fixando-se junto ao pai, que era comerciante em Palmeira dos Índios, Alagoas. Neste mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, deixando-lhe quatro filhos. Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927, tomando posse no ano seguinte. Ficou no cargo por dois anos, renunciando a 10 de Abril de 1930. Segundo uma das auto-descrições, "(...) Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas". Os relatórios da prefeitura que escreveu nesse período chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar Caetés (1933). Entre 1930 e 1936 viveu em Maceió, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial, professor e diretor da Instrução Pública do estado. Em 1934 havia publicado São Bernardo, e quando se preparava para publicar o próximo livro, foi preso em decorrência do pânico insuflado por Getúlio Vargas após a Intentona Comunista de 1935. Com ajuda de amigos, entre os quais José Lins do Rego, consegue publicar Angústia (1936), considerada por muitos críticos como sua melhor obra. Em 1938 publicou Vidas Secas. Em seguida estabeleceu-se no Rio de Janeiro, como inspetor federal de ensino. Em 1945 ingressou no antigo Partido Comunista do Brasil - PCB (que nos anos sessenta dividiu-se em Partido Comunista Brasileiro - PCB - e Partido Comunista do Brasil - PCdoB), de orientação soviética e sob o comando de Luís Carlos Prestes; nos anos seguintes, realizaria algumas viagens a países europeus com a segunda esposa, Heloísa Medeiros Ramos, retratadas no livro Viagem (1954). Ainda em 1945, publicou Infância, relato autobiográfico. Adoeceu gravemente em 1952. No começo de 1953 foi internado, mas acabou falecendo em 20 de Março de 1953, aos 60 anos, vítima de câncer do pulmão.



Vidas Secas (livro)


Vidas Secas é o quarto romance de Graciliano Ramos, escrito entre 1937 e 1938, publicado originalmente em 1938 pela Editora José Olympio. As ilustrações na primeira edição foram feitas pelo artista plástico Aldemir Martins.


Tema


A obra é inspirada em muitas histórias que Graciliano acompanhou na infância sobre a vida de retirantes, na história, o pai de família Fabiano acompanhado pela cachorra Baleia, estes são considerados os personagens mais famosos da literatura brasileira. Escrito em terceira pessoa, Graciliano não focaliza os efeitos do flagelo da seca através da crítica mas em narrar a fuga da família, a desonestidade do patrão e arbitrariedade da classe dominante, impossibilitada de adquirir o mínimo de sobrevivência.


Crítica


O professor Leopoldo M. Bernucci considerou a obra naturalista mas não fatalista:


Embora a idéia de determinismo em Graciliano, socialmente falando, leve em si as marcas de uma visão trágica nos moldes do romance naturalista, ela não se traduz aqui, pura e simplesmente, em fatalista.




Alfredo Bosi considerou que "o roteiro do autor de Vidas Secas norteou-se por um coerente sentimento de rejeição que adviria do contato do homem com a natureza ou com o próximo".



Angústia (livro)


Angústia é um romance publicado por Graciliano Ramos em 1936. À época Graciliano estava preso pelo governo de Getúlio Vargas e contou com ajuda de amigos, entre os quais José Lins do Rego, para a publicação. A obra apresenta um narrador em primeira pessoa, Luís da Silva, funcionário público de 35 anos, solitário, desgostoso da vida e que acaba se envolvendo com sua vizinha, Marina. Com traços existencialistas, Luís mistura fatos do passado e do presente, narra num ritmo frenético como um grande monólogo interior. O leitor de Angústia certamente lembrará de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, pois em ambos há as angústias de um crime, o medo de ser pego, a febre; em Angústia o crime é o clímax, enquanto em Crime e Castigo é o ponto de partida para a história, e a personagem consegue a redenção. Outra influência marcante é a dos naturalistas brasileiros, especialmente à Aluízio Azevedo, o determinismo e a animalização do homem. O narrador não quer ser um rato, luta contra isso; compara-se o tempo todo os homens aos bichos, porcos, formigas, ratos, e usa-se verbos de animais para as reações humanas.


Crítica


Alfredo Bosi afirma que Angústia foi a experiência mais moderna e até certo ponto marginal de Graciliano Ramos e que "tudo nesse romance sufocante lembra o adjetivo 'degradado' que se apõe ao universo do herói problemático; estamos no limite entre o romance de tensão crítica e o romance intimista. Foi a experiência mais moderna, e até certo ponto marginal, de Graciliano. Mas a sua descendência na prosa brasileira está viva até hoje". Apesar de ter lido Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski, Ramos inicialmente recusou qualquer semelhança da obra com Angústia, em 12 de Novembro de 1945, ele escreveu a Antonio Candido avaliando as considerações do crítico a respeito de Angústia:


Onde as nossas opiniões coincidem é no julgamento de Angústia. Sempre achei absurdos os elogios a este livro, e alguns, verdadeiros disparates, me exasperam, pois nunca tive semelhança com Dostoiévski nem com outros gigantes. O que sou é uma espécie de Fabiano, e seria Fabiano completo se a seca houvesse destruído a minha gente, como v. bem conhece.
Graciliano Ramos


Inicialmente Graciliano declara ter lido Dostoiévski, mas negou qualquer influência até as vésperas da morte, segundo seu filho Ricardo Ramos. Por fim, o autor reconhece ter sofrido influência de Dostoiévski, Tolstoi, Balzac e Zola e também seu permanente interesse pela literatura russa. O próprio autor diz sobre a obra para Antonio Candido:


Acho em Angústia numerosos defeitos, repetições excessivas, minúcias talvez desnecessárias. E tudo mal escrito. Mas se, apesar disso, der ao leitor uma impressão razoável, devo concordar com v. É possível até que as falhas tenham concorrido para levar na história aparência de realidade. E alguns capítulos não me parecem ruins.
Graciliano Ramos

Caetés (livro)



Caetés é o primeiro romance do escritor brasileiro Graciliano Ramos publicado em 1933 pela Livraria Schmidt Editora. A história desenvolve-se em Palmeira dos índios, cidade em que viveu Graciliano Ramos.


Sinopse


João Valério, o personagem principal, introvertido e fantasioso, apaixona-se por Luisa, mulher de Adrião, dono da firma comercial em que trabalha. O caso amoroso é denunciado por uma carta anônima, levando o marido traído ao suicídio. Arrependido, João Valério, afasta-se de Luisa, continuando, porém, como sócio da firma. Neste romance em primeira pessoa, aparecem duas instâncias de narração, diferentes entre si: o livro que o narrador-personagem João Valério escreve (cujo título é também Caetés) não se assemelha ao romance Caetés que Graciliano está escrevendo, entretanto, o narrador personagem acaba por se inscrever entre essas duas linhas, colocando-se ele próprio e toda a sociedade de Palmeira dos índios analogicamente como índios caetés. No romance homônimo escrito pelo personagem, o tema principal é a deglutição do bispo Sardinha pelos índios, episódio presente no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade enquanto no romance de Gracialiano, o índio deixa de ser um ícone do processo constitutivo da nação, para se transformar em um personagem. Benjamin Abdala Júnior diz que "na interação dos caracteres, como ocorrem em relação ao João Valério, de Caetés, afirmam-se as marcas do autor implícito".


Crítica


Os críticos não acolheram bem Caetés e os detratores chegam a dizer que, em Caetés, temos mais de Eça de Queirós do que Graciliano Ramos. Antonio Candido foi um desses críticos ao afirmar que o romance é um "exercício de técnica literária mediante o qual [o autor] pode aparelhar-se para os grandes livros posteriores". Já Osman Lins exprimiu seu apreço por Caetés indicando o excesso de rigor com que a crítica o teria apreciado: "críticos exigentes fazem certas restrições à obra, entretanto límpida, arguta e equilibrada”.




São Bernardo (livro)


São Bernardo é um romance escrito por Graciliano Ramos publicado em 1934 e situado na segunda etapa do modernismo brasileiro.


Adaptação para o cinema


São Bernardo foi adaptado para o cinema por Leon Hirszman em 1972 e ganhou 9 prêmios em festivais nacionais e internacionais, com Othon Bastos e Isabel Ribeiro nos papéis centrais.




A Terra dos Meninos Pelados (livro)


A Terra dos Meninos Pelados é um livro de contos infanto-juvenis de Graciliano Ramos publicado em 1937.


Sinopse


Conta a história um menino chamado Raimundo, que era careca e tinha um olho azul e outro preto. Por ser considerado estranho, seus vizinhos não falam com ele e o apelidam de Raimundo Pelado. Por não ter amigos, começa a falar sozinho, cria um país imaginário chamado Tatipirun, onde as pessoas têm um olho preto e outro azul, onde não existem cabelos em suas cabeças, e onde as plantas e animais falam. Quando Raimundo "chega" na cidade de Tatipirun se depara com um carro vindo em sua direção,e acha que vai ser atropelado,só que ai o carro "explica" (os carros, animais, plantas e outros falam) que em Tatipirun ninguém é machucado nem ofendido. Andando um pouquinho mais, Raimundose se depara com a Laranjeira, ele pensa que a laranjeira tem espinhos e ela se sente ofendida, mas, com um pedido de desculpa, tudo se resolve.


História


Escrito por Graciliano logo após ser solto da prisão da Ilha Grande, num quarto de pensão no Rio de Janeiro, onde morava com a esposa e as filhas, a obra lhe rendeu um prêmio do então chamado Ministério de Educação e Cultura, ainda em 1937. No ano seguinte iria elaborar o romance Vidas Secas e apenas em 1946 é que cuidaria de iniciar Memórias do Cárcere, publicado apenas em 1953.




Brandão Entre o Mar e o Amor (livro)


Brandão Entre o Mar e o Amor é um romance único escrito pelos cinco mais renomeados autores brasileiros Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz. A obra literária foi publicada em 1981.


Sinopse


Atendendo a uma "vocação irremediável", Brandão abandona a casa paterna e, após breve itinerância circense, lança-se a uma vida de aventuras no mar, um sonho de infância, onde vem a conhecer aquela que viria ser a grande paixão de sua vida. Lúcia é um mistério oriental, que Brandão recebe como um presente e com ela retorna à sua terra para assumir uma fazenda, que lhe coubera como herança de família. A beleza exótica de Lúcia atrairia também Mário, amigo de Brandão dos tempos de faculdade, que se deixa consumir na luta por um amor impossível, quase uma autoflagelação imposta por uma vida de fracassos. A teia amorosa se completa - ou se complica - quando Glória, mulher autoritária, frívola e irrealizada aparece na história usando de todos os meios ao seu alcance para conquistar o homem por quem se apaixonara... O livro conta a história de Brandão, que se lança a uma vida de aventuras no mar, onde vem conhecer Lúcia, sua grande paixão.




Histórias de Alexandre (livro)


Histórias de Alexandre é um livro de contos de Graciliano Ramos, publicado em 1944. Compendiando histórias coletadas do folclore alagoano, Graciliano reúne neste livro contos e fanfarronices de um típico mentiroso do sertão. A obra foi reeditada em 1962 com o título de Alexandre e Outros Heróis, reunindo, além dos contos de Alexandre, a história de A Terra dos Meninos Pelados e Pequena História da República.



Infância (livro)


Infância é um livro de Graciliano Ramos. Foi publicado em 1945. O livro percorre um período que vai dos dois anos do narrador até a puberdade. Sua construção acompanha os passos do autor, redescobridor de seu mundo de menino nordestino, repleto de lembranças dolorosas: "Medo. Foi o medo que me orientou nos meus primeiros anos, pavor". Num misto de imaginação e memória, o retrato de sua meninice revela o desprezo pela criança como sujeito social, na passagem do século XIX para o XX, onde o autor deixa perceber claramente a severidade como instrumento mais eficaz para o modelo de educação aí vigente: "Aquele que ama o seu filho, castiga-o com freqüência (...)". Graciliano esboça um quadro de nossa história dos costumes, em que uma ética pedagógica grosseira surge identificada com práticas punitivas contra crianças: cascudos, bolos de palmatória, puxões de orelhas e castigos de toda sorte.




Histórias Incompletas (livro)


Histórias Incompletas é um livro de contos de Graciliano Ramos, publicado em 1946. É composto pelos contos:


  • Um ladrão
  • Luciana
  • Minsk
  • Cadeia
  • Festa
  • Baleia
  • Um incêndio
  • Chico Brabo
  • Um intervalo
  • Venta-romba




Insônia (livro)


Insônia é um livro de contos de Graciliano Ramos que foi publicado em 1947, pela Editora José Olympio, reunindo 13 contos:


  • Insônia
  • Um ladrão
  • O relógio do hospital
  • Paulo; Luciana
  • Minsk
  • A prisão de J. Carmo Gomes
  • Dois dedos
  • A testemunha
  • Ciúmes
  • Um pobre-diabo
  • Uma visita
  • Silveira Pereira


Com exceção de Uma visita, Luciana e A testemunha, todos os textos já haviam sido publicados na coletânea Dois dedos, de 1945.




Memórias do Cárcere (livro)


Memórias do Cárcere é um livro de memórias de Graciliano Ramos, publicado postumamente (1953) em dois volumes. O autor não chegou a concluir a obra, faltando o capítulo final. Graciliano havia sido preso em 1936 por conta de seu envolvimento político, exagerado por parte das autoridades após o pânico insuflado com a chamada Intentona Comunista, de 1935. A acusação formal nunca chegou a ser feita.


Enredo


No livro, Graciliano descreve a companhia dos mais variados tipos encontrados entre os presos políticos: descreve, entre outros acontecimentos, a entrega de Olga Benário para a Gestapo, insinua as sessões de tortura aplicadas a Rodolfo Ghioldi e relata um encontro com Epifrânio Guilhermino, único sujeito a assassinar um legalista no levante comunista do Rio Grande do Norte. Durante a prisão, diversas vezes Graciliano destrói ou afirma destruir as anotações que poderiam lhe ajudar a compor uma obra mais ampla. Também dá importância ao sentimento de náusea causado pela imundície das cadeias, chegando a ficar sem alimentação por vários dias, em virtude do asco. Da cadeia, Graciliano faz comentários sobre a feitura e a publicação de Angústia, uma de suas melhores obras.


Censura


Diz o crítico Wilson Martins, a respeito da censura que o livro sofreu, adulterando o original do autor para sempre:


Houve também na história dessas relações, a grande crise provocada por Memórias do Cárcere. Sabia-se que o PCB exerceu forte pressão sobre a família de Graciliano Ramos para impedir-lhe a publicação, acabando por aceitá-la à custa de cortes textuais e correções cuja verdadeira extensão jamais saberemos. Nas idas e vindas entre a família e os censores do Partido, resultaram, pelo menos, três “originais”, datilografados e redatilografados ao sabor das exigências impostas. Supõe-se que o último deles recebeu o imprimatur canônico, acontecendo, apenas, que, na confusão inevitável de tantos “originais”, as páginas escolhidas para ilustrar os volumes diferiam sensivelmente das impressas, suscitando dúvidas quanto à respectiva autenticidade.
Wilson Martins, in: Gazeta do Povo




Ainda segundo o crítico, fez publicar a denúncia no jornal O Estado de S. Paulo, recebendo então acerbas críticas do PCB, o que para ele era a comprovação da veracidade das alterações feitas na obra que, após reveladas, haviam incomodado o editor, José Olympio. Os filhos de Graciliano, Ricardo e Clara, teriam mais tarde confirmado a intervenção política no texto.


Filme


Memórias do Cárcere também foi filmado por Nelson Pereira dos Santos em 1984. Graciliano é interpretado por Carlos Vereza, e sua mulher Heloísa (que lhe faz algumas visitas na prisão) é interpretada por Glória Pires.




Viagem (livro)


Viagem é o um livro de crônicas de Graciliano Ramos. Publicado postumamente em 1954 narra a viagem que Graciliano fez em 1952 à Tchecoslováquia e à URSS. Apesar de ser filiado ao Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes, sua narrativa se pretende neutra. Apesar do tom neutro, o livro não é isento de críticas ao pensamento político brasileiro; ao falar do culto soviético à imagem de Josef Stalin, Graciliano provoca: "Realmente não compreendemos, homens do Ocidente, o apoio incondicional ao dirigente político; seria ridículo tributarmos veneração a um presidente da república na América do Sul" (RAMOS:2007,54).




Alexandre e Outros Heróis (livro)


Alexandre e Outros Heróis é o nome de um livro que foi dado à reunião de três obras do escritor brasileiro Graciliano Ramos: Histórias de Alexandre (contos do folclore infanto-juvenil), Pequena História da República (sátira à história do Brasil, inédita até então) e A Terra dos Meninos Pelados (infantil). O livro Alexandre e Outros Heróis foi reeditada postumamente, em 1962.




Citações

Obras


Caetés


1933

    Publicações Europa-América, Editor: Francisco Lyon de Castro, Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra, Edição n°40 890/3580

  • "Luisa queria mostrar-me uma passagem no livro que lia.Curvou-se. Não me contive e dei-lhe dois beijos no cachaço. Ela ergueu-se, indignada:

-O senhor é doido?Que ousadia é essa?Eu...

Não pôde continuar. Dos olhos, que deitavam faíscas, saltaram lágrimas. Desesperadamente perturbado, gaguejei tremendo:

-Perdoe, minha senhora. Foi uma doidice.

- Cap. 1,página 13

  • "Ateu! Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, idolos que depois derrubo. Uma estrela no ceu, algumas mulheres na terra.."

- Últimas três linhas de Caétes


São Bernardo


1934

    Publicações Europa-América, Editor: Francisco Lyon de Castro, Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra, Edição n°40 836/3277

- Cap. 3,página 14

  • Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo S.Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo, têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor.”

- Cap. 4,página 16

  • Resolvi estabelecer-me aqui na minha terra, município de Viçosa, Alagoas, e logo planeei adquirir a propriedade São Bernardo, onde trabalhei, no eito, com salário de cinco tostões.”

- Cap. 6,página 23

  • Naquele segundo ano houve dificuldades medonhas. Plantei mamona e algodão, mas a safra foi ruim, os preços baixos,vivi meses aperreado, vendendo macacos e fazendo das fraquezas forças para não ir ao fundo”.

Angústia


1936

  • "Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição."

- Cap. 1

  • "Os defeitos, porém, só me pareceram censuráveis no começo das nossas relações. Logo que se juntaram para formar com o resto uma criatura completa, achei-os naturais, e não poderia imaginar Marina sem eles, como não a poderia imaginar sem corpo."

- Cap. 14

  • "Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de prostituição."

- Cap. 17

  • "É uma tristeza. A senhora lavando, engomando, cozinhando, e seu Ramalho na quentura da usina elétrica, matando-se para sustentar os luxos daquela tonta. Sua filha não tem coração."

- Cap. 18

  • "Nunca presto atenção as coisas, não sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso, como sou besta! Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda a projeção, instruir-me vedos as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba."

Vidas Secas


1938


  • Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Arrastaram-se para lá, devagar, Sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda da pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.” Cap. 1
  • Se não fosse aquilo... Nem sabia. O fio da idéia cresceu, engrossou – e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.” Cap. 3

Infância


1945


    Publicações Europa-América, Editor: Francisco Lyon de Castro, Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra, Edição n°40 914/3768
  • A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta”. Pág.13
  • Disseram-me depois que a escola nos servira de pouso numa viagem. Tinhamos deixado a cidadezinha onde vivíamos, em Alagoas, entrávamos no sertão de Pernambuco, eu, meu pai, minha mãe,duas irmãs”. Pág.14

Memórias do Cárcere


1953


  • "Quem dormiu no chão deve lembra-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, controná-las, envovê-las em gaze".

Em Liberdade



  • "Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano."

  • "Se a igualdade entre os homens- que busco e desejo- for o desrespeito ao ser humano, fugirei dela."

Obras



As obras de Graciliano Ramos:


  • Caetés - romance - Editora Schmidt, 1933; (ganhador do Prêmio Brasil de Literatura);
  • São Bernardo - romance - Editora Arial, 1934;
  • Angústia - romance - Editora José Olympio, 1936;
  • Vidas Secas - romance, - Editora José Olympio, 1938;
  • A Terra dos Meninos Pelados - contos infanto-juvenis - Editora Globo, 1939;
  • Brandão Entre o Mar e o Amor - romance - Editora Martins, 1942 - Escrito com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz;
  • Histórias de Alexandre - contos infanto-juvenis - Editora Leitura, 1944;
  • Dois Dedos - coletânea de contos - R.A. Editora, 1945;
  • Infância - memórias - Editora José Olympio, 1945;
  • Histórias Incompletas - coletânea de contos - Editora Globo, 1946;
  • Insônia - contos - Editora José Olympio, 1947;
  • Memórias do Cárcere - memórias - Editora José Olympio, 1953; (obra póstuma)
  • Viagem - crônicas - Editora José Olympio, 1954; (obra póstuma)
  • Linhas Tortas - crônicas - Editora Martins, 1962; (obra póstuma)
  • Viventes das Alagoas - crônicas - Editora Martins, 1962; (obra póstuma)
  • Alexandre e Outros Heróis - contos infanto-juvenis - Editora Martins, 1962); (obra póstuma)
  • Cartas - correspondência - Editora Record, 1980; (obra póstuma)
  • O Estribo de Prata - literatura infantil - Editora Record, 1984; (obra póstuma)
  • Cartas de Amor à Heloísa - correspondência - Editora Record, 1992; (obra póstuma)
  • Vidas Secas - edição especial 70 anos - romance - Editora Record, 2008; (obra póstuma)
  • Angústia - edição especial 75 anos - romance - Editora Record, 2011; (obra póstuma)
  • Garranchos - textos inéditos - Editora Record, 2012. (obra póstuma)

Traduções



Graciliano Ramos também dominava o inglês e o francês. Realizou algumas traduções:


  • Memórias de um Negro, de Booker T. Washington, Companhia Editora Nacional, 1940;
  • A Peste, de Albert Camus, Editora José Olympio, 1950.

Publicações sobre Graciliano Ramos



  • Graciliano Ramos: Cidadão e Artista - Carlos Alberto dos Santos Abel, UNB, 1999.
  • Graciliano Ramos e o Partido Comunista Brasileiro: as Memórias do Cárcere, Ângelo Caio Mendes Corrêa Junior, 2000. (Dissertação de Mestrado em Letras, Universidade de São Paulo | orientador: Alcides Celso de Oliveira Vilaça.
  • Graciliano Ramos: Infância pelas Mãos do Escritor - Taisa Viliese de Lemos, Musa Editora, 2002.
  • Graciliano Ramos - Wander Melo Miranda, Coleção Folha Explica, Publifolha, 2004.
  • A Infância de Graciliano Ramos - Audálio Dantas, Callis, 2005. (Menção Altamente Recomendável, em 2006, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, na categoria Informativo.)
  • Graciliano Ramos - Myriam Fraga, Moderna, 2007.
  • Cartas Inéditas de Graciliano Ramos a seus Tradutores Argentinos Benjamin de Garay e Raúl Navarro - Pedro Moacyr Maia, EDUFBA, 2008.
  • Graciliano Ramos: um Escritor Personagem - Maria Izabel Brunacci, Autêntica, 2008.
  • Graciliano Ramos e o Mundo Interior: o Desvão Imenso do Espírito - Leonardo Almeida Filho, UNB, 2008.
  • Graciliano Ramos e o Desgosto de ser Criatura - Jorge de Souza Araujo, EDUFAL, 2008.
  • A Imagem da Linguagem na Obra de Graciliano Ramos - Maria Celina Novaes Marinho, Humanitas FFLCH, 2.ed., 2010.
  • Graciliano Ramos e a Novidade: o Astrônomo do Inferno e os Meninos Impossíveis - Ieda Lebensztayn, Hedra, 2010.
  • Graciliano: Retrato Fragmentado - Ricardo Ramos, Globo, 2011.
  • O Velho Graça - Denis de Moraes, Boitempo, 2012.

Prêmios



Os prêmios concedidos a Graciliano Ramos:


  • 1936 - Prêmio Lima Barreto (Revista Acadêmica) - Angústia
  • 1939 - Prêmio Literatura infantojuvenil (Ministério da Educação) - A Terra dos Meninos Pelados
  • 1942 - Prêmio Felipe de Oliveira - Conjunto da Obra
  • 1962 - Prêmio da Fundação William Faulkner (Estados Unidos) - Vidas Secas, como livro representativo da Literatura Brasileira Contemporânea.
  • 1964 - Prêmios Catholique International du Cinema e Ciudad de Valladolid (Espanha), concedidos a Nelson Pereira dos Santos, pela adaptação para o cinema do livro Vidas Secas.
  • 2000 - Personalidade Alagoana do Século XX
  • 2003 - Prêmio Nossa Gente, Nossas Letras / Prêmio Recordista
  • 2003 - Medalha Chico Mendes de Resistência
  • 2013 - Escolhido pelo Governo Federal para o PNBE - Programa Nacional Biblioteca da Escola - Memórias do Cárcere.

Referências