| Molière, pintado por Pierre Mignard (1658). |
Molière.
(Jean-Baptiste
Poquelin).
Nasceu em Paris, a 15 de Janeiro de 1622, e, faleceu, também em
Paris, a 17 de Fevereiro de 16731. Molière foi um dramaturgo
francês, além de ator e encenador, considerado um dos mestres da
comédia satírica. Teve um papel de destaque na dramaturgia
francesa, até então muito dependente da temática da mitologia
grega. Molière usou as suas obras para criticar os costumes da
época. É considerado o fundador
indireto da Comédie-Française.
Dele, disse Boileau
(Nicolas
Boileau-Despréaux):
Dans
le sac ridicule où Scapin s'enveloppe je ne reconnais plus l'auteur
du Misanthrope
- ("No saco ridículo onde se envolve Escapino,
não reconheço mais o autor de O Misantropo").
Como encenador, ficou também conhecido pelo seu rigor e
meticulosidade.
-
O maior comediógrafo do teatro francês e da dramaturgia de todos os
tempos, também ator cômico (nascido em Paris, morreu nesta cidade
durante a temporada de representação de sua última peça, O
Doente Imaginário,
em que vivia o papel do hipocondríaco Argan).
Seu pai, criado de quarto no palácio real, destinava-o a mesma
profissão; mas, o seu avô, amante dos espetáculos, despertou nele
o gosto pelo teatro. Adotou o pseudônimo de Molière
aos vinte e dois anos. Diretor de uma companhia de teatro ambulante,
durante doze anos percorreu a França, compondo e representando as
suas peças. Em 24 de Outubro de 1658, representou para o Rei
Luís XIV
no Louvre, de quem passa a ser protegido. Estabelecendo-se em Paris
como diretor da Companhia de Monsieur, no Petit-Bourbon, obtém
êxitos retumbantes. As
Preciosas Ridículas,
em que zomba da afetação e literatice das mocinhas do tempo; A
Escola dos Maridos,
Os
Importunos,
A
Escola das Mulheres,
em que satiriza o enclausuramento e o moralismo que caracterizavam a
educação das moças; Tartufo,
uma das maiores sátiras contra a hipocrisia (no vocabulário de
todas as línguas, tartufo
passaria a ser sinônimo de hipócrita),
representada para o rei em 1664; retida e retardada por seus
inimigos, só conseguiu uma primeira representação pública três
anos depois; O
Avarento,
em que fustiga o grande vício burguês, na sua personagem imortal,
Harpagon;
O
Misantropo,
tragicomédia em que um sonhador sucumbe ante as convenções
sociais; Jorge
Dandin,
o burguês logrado no casamento aristocrático; Os
Amantes Magníficos,
O
Burguês Fidalgo,
As
Velhacarias de Escapino,
As
Sabichonase inúmeras outras. Na apreciação de um eminente crítico de arte,
foi Molière que “criou verdadeiramente na França a comédia de
costumes, pintando ousadamente os ridículos do seu século; e ao
mesmo tempo, a comédia de caráter, representando de uma forma larga
e simples as grandes paixões da humanidade. Espectador penalizado
das fraquezas humanas, pintor imparcial das torpezas sociais e das
raras virtudes burguesas, é um espelho temível, mas salutar.
Mostrando as consequências dos vícios na família burguesa, ocupada
de questões práticas, da educação das moças, do casamento etc.,
a sua moral é eminentemente social”.
Biografia
Formação
| Molière |
Filho
de um artesão parisiense (Jean-Baptiste Poquelin), Poquelin ficou
órfão da mãe (Marie Cressé) quando ainda era criança. Em 1633
entrou na prestigiada escola de Jesuítas do Collège de Clermont,
onde completou a sua formação acadêmica em 1639. Existem várias
anedotas sobre a sua estadia no colégio, as quais não tem, contudo,
qualquer confirmação histórica. Por exemplo, que o seu pai era
muito exigente; que conheceu, aí, o príncipe de Conti ou que foi
aluno do filósofo Pierre
Gassendi.
É certo, contudo, que foi amigo íntimo do abade
La
Mothe Le Vayer,
filho de François
de La Mothe-Le-Vayer,
na altura em que este publicava as obras de seu pai. Poquelin poderá
ter sido influenciado pelos dois. Entre as suas primeiras obras
encontrava-se uma tradução, hoje perdida, do De
Rerum Natura
do filósofo romano Lucrécio.
Quando chegou aos 18 anos, o seu pai passou-lhe o título de
Tapissier
du Roi
(Tapeceiro ordinário do rei), e o cargo associado de valet
de chambre
(criado de quarto), pelo que teve desde cedo contacto com o rei. Há
quem afirme que terá tido formação em direito em Orleães em 1642,
mas subsistem algumas dúvidas quanto a isso.
Desde
cedo se interessou pelo teatro que estava muito na moda na altura,
principalmente depois de Luís XIII, a pedido de Richelieu (que
também era apreciador desta arte), ter honrado a profissão de
comediante com um código de moralidade. Em Junho de 1643, juntamente
com a sua amante Madeleine
Béjart
e um irmão e uma irmã dela, fundou a companhia (troupe)
de teatro L'Illustre
Théâtre.
Fazem algumas atuações na província e, em 1644, apresentam-se em
Paris, no Jogo da Péla
dos Métayers.
Nesta altura passa a dirigir a companhia, que, entretanto, entra na
bancarrota em 1645. A partir dessa altura assumiu o pseudônimo de
Molière,
inspirado no nome de uma pequena aldeia do sul de França. A falência
da companhia valeu-lhe algumas semanas de prisão por causa das
dívidas. Foi libertado graças à ajuda do pai. Partiu, então, numa
turnê pelas aldeias como comediante itinerante. Esta vida errante
durou cerca de 14 anos, durante os quais atuou com a companhia de
Charles
Dufresne.
Mais tarde, voltaria a criar uma companhia própria. Durante estas
viagens conheceu o Príncipe de Conti, governador do Languedoc, que
se tornou seu mecenas de 1653 a 1657, pelo que deu o seu nome à
companhia. Esta amizade terminaria mais tarde, quando Conti se uniu
aos inimigos de Molière no Parti
des Dévots
(a "Cabala dos Devotos"). Nessa altura foi escrevendo
algumas pequenas peças que não se distinguem muito na sua obra. Em
Lyon, Mme
Duparc,
conhecida como la
Marquise,
juntou-se à companhia. A marquesa tinha sido cortejada, em vão, por
Pierre
Corneille,
tendo-se tornado, mais tarde, amante de Jean
Racine,
que ofereceu a Molière a sua tragédia Théagène
et Chariclée
(uma das suas primeiras obras depois de ter terminado os seus estudos
de teologia), mas Molière não a encenou, ainda que tivesse
encorajado Racine a seguir a carreira de escritor. Diz-se que pouco
depois Molière teve uma zanga com Racine que terá também
apresentado, secretamente, a sua obra à companhia do Hôtel de
Bourgogne.
| Frontispício de uma edição das obras de Molière, de 1734. |
Molière
chegou a Paris em 1658 onde apresenta no Louvre a tragédia Nicomède
de Corneille e a sua pequena farsa Le
docteur amoureux
(O Médico Apaixonado), com algum sucesso. Data desta altura o
término da relação de mecenato que mantinha com o príncipe de
Conti, já que a companhia passa a ser a Troupe
de Monsieur
(o Monsieur
era o irmão do rei) e com a ajuda do novo mecenas, junta-se a uma
famosa companhia local italiana dedicada à commedia dell'arte.
Estabelece-se definitivamente no teatro do Petit-Bourbon,
onde, a 18 de Novembro de 1659, faz a estreia da sua peça Les
Précieuses ridicules
("As Preciosas Ridículas") - uma das suas obras primas que
não era mais que a primeira incursão do autor na crítica dos
maneirismos e modos afectados que então eram comuns em França e
considerados "distintos". A peça foi inicialmente
proibida, mas pouco depois recebeu autorização para ser posta em
cena. O estilo e conteúdo deste seu primeiro sucesso relativo
tornou-se rapidamente no centro de uma vasta controvérsia literária.
Apesar da sua preferência pelo gênero trágico, Molière tornou-se
famoso pelas suas farsas, geralmente de um só acto e apresentadas
depois de uma tragédia. Algumas destas farsas eram apenas
parcialmente escritas, sendo encenadas ao estilo da commedia
dell'arte' com improvisação a partir de um canovaccio (esboço
muito geral da peça). Escreveu também duas comédias em verso, mas
tiveram pouco sucesso e são consideradas de pouca importância pelos
críticos em geral. "Les
Précieuses" suscitou interesse e críticas em relação a
Molière, mas não foi, contudo, um sucesso popular. Pediu, então, a
ajuda do seu sócio italiano, Tiberio
Fiorelli,
famoso pela sua peça Scaramouche,
para se inteirar da técnica própria da Commedia
dell'arte.
A sua peça de 1660, Sganarelle,
ou le Cocu imaginaire
("O cornudo imaginário") parece um tributo à Commedia
dell'arte
e ao seu mestre. O tema das relações matrimoniais era aqui
enriquecido pela perspectiva de Molière em relação à falsidade
das relações humanas, descrita com um certo grau de pessimismo.
Isso tornar-se-ia evidente nas suas obras seguintes e tornar-se-ia a
fonte de inspiração de futuros dramaturgos como, por exemplo (e
ainda que noutro campo e a outro nível), Luigi
Pirandello.
Em 1661, com a intenção de agradar ao seu mecenas (Monsieur),
escreveu e encenou Dom
García de Navarre, ou le Prince jaloux
("O Príncipe ciumento"), uma comédia heróica derivada de
uma obra de Cicognini.
Monsieur, que era Philippe, Duque de Orleães, estava de tal forma
seduzido pela arte e pelo entretenimento que rapidamente foi excluído
das suas responsabilidades de estado. 1661
foi ainda o ano da bem sucedida L'École des maris ("Escola
de Maridos") e de Les Fâcheux ("Os Importunos"),
com o subtítulo Comédie faite pour les divertissements du Roi
(Comédia para divertimento do Rei), já que foi encenada por ocasião
de uma série de festas dadas por Nicolas Fouquet em honra do
soberano. Estes divertimentos deram azo a que Jean-Baptiste Colbert
ordenasse a prisão de Fouquet por gasto desnecessário do erário, e
que terminaria com uma sentença de prisão perpétua.
Em
1662, Molière mudou-se para o Théâtre du Palais-Royal, ainda com
os seus colegas italianos, e casou-se com Armande,
acreditando ser irmã de Madeleine
Béjart
- na verdade, seria sua filha ilegítima, nascida de um caso
passageiro com o Duque
de Modena,
em 1643, quando Molière e Madeleine iniciaram a sua relação
amorosa. No mesmo ano, encenou L'École
des femmes
("Escola de Mulheres"), que é, sem dúvida, uma das suas
obras-primas. Tanto a peça quanto o casamento foram razão para
críticas. Molière respondeu às críticas que se relacionavam com a
peça, escrevendo duas obras menores mas, ainda assim, de interesse
reconhecido: La
Critique de "l'École des femmes"
(na qual imaginava a reação dos espectadores vendo a peça
referida) e L'Impromptu
de Versailles
("O Improviso de Versalhes") (sobre um improviso feito pela
sua companhia teatral). Estava aberta a la
guerre comique
(Guerra cômica), onde Molière tinha como rivais Donneau
de Visé,
Boursault
e Montfleury.
Um chamado parti
des Dévots
começou a emergir de entre a alta sociedade francesa, protestando
contra o excessivo realismo e irreverência de Molière, "defeitos"
que já estariam a causar embaraços. Outros acusavam-no de se ter
casado com a própria filha. O Príncipe de Conti, que o apoiara no
seu início de carreira teatral, voltou-se também contra ele. Entre
outros inimigos, podiam-se ainda contar os jansenistas e alguns
dramaturgos da escola tradicional. Os "devotos"
insurgiam-se contra a "impiedade" do autor que, aliás,
pertencia a um círculo de amigos que defendia ideias epicuristas, de
acordo com as teorias de Gassendi. O rei, Luís
XIV
que lhe tinha ainda há pouco concedido uma pensão (privilégio pela
primeira vez efetuado por um rei a um comediante), não deixou,
contudo, de tomar o partido de Molière. Mesmo com a inclusão de
Molière no Índex da Universidade de Paris, Luís XIV decide mostrar
o seu apoio ao tornar-se padrinho do primogênito do dramaturgo.
Boileau também o apoiou, como se pode verificar em várias passagens
da sua Art
poétique.
Le
Tartuffe
("Tartufo"), foi também encenado em Versalhes, em 1664,
tornando-se no maior escândalo da carreira artística de Molière. A
descrição da hipocrisia geral das classes dominantes e,
principalmente, do clero, foi considerada ofensiva e imediatamente
contestada. Por influência da rainha-mãe e do Partido dos Devotos,
o rei vê-se obrigado a suspender as atuações desta peça. Molière
escreve, logo de seguida, em 1665, Dom
Juan
(traduzido também por "Dom João"), ou Le
Festin de Pierre
("O Festim de Pedro") para substituir "Tartufo".
Esta obra, considerada uma das mais intemporais de Molière,
baseava-se numa peça de Tirso
de Molina,
passada para prosa, inspirada na vida de Giovanni
Tenorio.
Descreve a história de um ateu que ao assumir hipocritamente o papel
de religioso, é punido por Deus. A obra é interdita logo depois. O
Rei, ainda assim, mantendo o seu apoio a Molière, torna-se o
patrocinador oficial da companhia, concedendo-lhe £6000,00 de
pensão. A amizade que estabelecera com Jean
Baptiste Lully
levou-o a escrever Le
Mariage forcé
("O Casamento Forçado", de 1664) e La
Princesse d'Élide
("A Princesa Élida", com o subtítulo "Comédie
galante mêlée de musique et d'entrées de ballet" - "Comédia
galante com música e números de dança"), apresentadas nos
"divertissements" de Versalhes. Também com música de
Lully, Molière apresenta, depois, L'Amour
médecin
("O Amor Médico"). Cartazes da época indicam que a obra
tinha sido pedida "par ordre du Roi", por ordem do Rei, o
que poderá explicar, também, o acolhimento mais favorável do
público. Em 1666, apresenta Le
Misanthrope
("O Misantropo"). Considerada, hoje em dia, uma das obras
mais refinadas e com um conteúdo moral mais elevado das peças de
Molière, foi, contudo, pouco apreciada no seu tempo, tendo sido um
fracasso comercial. Retrata uma personagem que se recusa a
integrar-se no mundo devido à sua exigência de sinceridade e
aversão à hipocrisia. Donneau de Vasé, que fazia parte dos seus
opositores rende-se, devido a esta peça, ao génio de Molière e
torna-se um dos espectadores mais assíduos do seu teatro. Molière
no mesmo ano escreve Le
Médecin malgré lui
("Médico à Força") para fazer face ao insucesso da obra
precedente. O Príncipe de Conti escreve nessa altura um tratado de
moral onde critica o teatro em geral e Molière em particular.
"Médico à força" é, no entanto, um sucesso. Depois de
Mélicerte
e da Pastorale
comique,
tenta pôr em cena, mais uma vez o seu "Tartufo", agora
designado de Panulphe
ou L'imposteur.
Assim que o rei deixa Paris, devido a viagem, Lamoignon e o arcebispo
decidem censurar de novo a peça (o rei faria impor o respeito por
esta peça uns anos mais tarde, quando passou a ter poder absoluto
também sobre o clero).
| Tumba de Molière no Cemitério do Père-Lachaise. |
Tendo
adoecido, a produção teatral de Molière teve uma quebra na
quantidade. Le
Sicilien
ou L'Amour
peintre
("O Siciliano" ou "O Amor Pintor") foi escrito
para as festividades do castelo de Saint-Germain, tendo sido seguido,
em 1668, por Amphitryon
("O Anfitrião"), peça inspirada na peça homônima de
Plauto
e com alusões mais ou menos óbvias aos casos amorosos do rei.
George Dandin ou Le
Mari confondu
("O Marido Confundido") foi pouco apreciado na altura, mas
voltou a ter sucesso com L'Avare
("O Avarento"), comédia (mais na forma que no conteúdo)
ainda hoje muito representada, inspirada na peça Aulularia,
de Plauto. Com Lully a compor a música, escreveu ainda Monsieur
de Pourceaugnac,
Les
Amants magnifiques
("Os Magníficos Amantes") e Le
Bourgeois Gentilhomme
(traduzido literalmente por "O Cavalheiro Burguês", "O
Burguês Gentil-Homem" ou "O Burguês Fidalgo", mas
também conhecido pela tradução não literal de "O Burguês
Ridículo"). Esta última, também muito louvada pela crítica
atual, é considerada por muitos como um ataque pessoal a Colbert, o
ministro que condenou o seu antigo patrocinador, Fouquet. Retrata a
classe dos novos-ricos, desejosos de imitar os hábitos da nobreza,
como o interesse pelas artes e pelas armas. Há quem veja
influências, nesta obra, de "O
Fidalgo Aprendiz" de D.
Francisco Manuel de Melo
(que viveu em Paris em 1663), ainda que se possam indicar outras
fontes de inspiração, como a "Cortigiana" de Aretino ou a
obra de Erasmo de Roterdão, "Emerita nobilitas". A última
colaboração com Lully consistiu num ballet trágico, Psyché,
escrita com a ajuda de Thomas
Corneille
(irmão de Pierre). Em 1671, Madeleine Béjart morre, acrescentando
mais um motivo de dor à doença que continuava a agravar-se. Mesmo
assim, ainda consegue escrever o bem sucedido Les
Fourberies de Scapin
("As Artimanhas de Escapino" ou "As Velhacarias de
Scapino"), uma farsa cômica em 5 atos, em estilo italiano. A
obra seguinte, La
Comtesse d'Escarbagnas
("A Condessa de Escarbagnas") não é, contudo, tão
elogiada. Passa depois a criticar a soberba e a arrogância do
chamado "Bel esprit", tipo de humor corrosivo e erudito
próprio da alta sociedade francesa da época, em Les
Femmes savantes
("As Sabichonas" ou "As Eruditas") de 1672 - uma
obra-prima nascida perante a possibilidade de que o uso da música e
da dança fosse privilégio das encenações operáticas de Lully.
Efetivamente, o compositor obtém essa exclusividade, ao patentear a
Ópera em França. O sucesso desta peça levará à última obra de
Molière, Le
Malade Imaginaire
("O Doente Imaginário" ou "O Doente de Cisma"),
também hoje uma das suas peças mais conhecidas. Trata-se de um peça
com números musicais de Marc-Antoine
Charpentier
(uma excepção dada pelo rei para esta peça), onde a personagem
descobre os verdadeiros sentimentos de quem com ele convive, ao
fingir-se de morto. Um dos mais famosos momentos da biografia de
Molière é a sua morte, que se tornou numa referência no meio
teatral. É dito que morreu no palco, representando o papel principal
da sua última peça. De facto, apenas desmaiou aí, tendo morrido
horas mais tarde em sua casa, sem tomar os sacramentos já que dois
padres se recusaram a dar-lhe a última visita, e o terceiro já
chegou tarde. Diz-se que estava vestido de amarelo, o que gerou a
superstição de que esta cor é fatídica para os atores. Os
comediantes (atores) da época não podiam, por lei, ser sepultados
nos cemitérios normais (terreno sagrado), já que o clero
considerava tal profissão como a mera "representação do
falso". Como Molière persistiu na vida de ator até à morte,
estava nessa condição. A sua mulher, Armande, pede, contudo, a Luís
XIV que lhe providencie um funeral normal. O máximo que o rei
consegue fazer é obter do arcebispo a autorização para que o
enterrem no cemitério reservado aos nados-mortos (não baptizados).
Ainda assim, o enterro é realizado durante a noite. Em 17 de Janeiro
de 1673, enquanto representava no palco o protagonista de sua última
obra, Le
Malade imaginaire
(O doente imaginário), Molière sofreu um repentino colapso e morreu
poucas horas depois, em sua casa de Paris. Como se assinalou com
frequência, não é de estranhar que o mestre do duplo sentido e da
dissimulação tenha encerrado a vida e a carreira no momento em que
encarnava um falso doente. Em 1792, os seus restos mortais são
levados para o Museu dos Monumentos Franceses e, em 1817,
transferidos para o cemitério
do Père Lachaise,
em Paris, ao lado da sepultura de La
Fontaine.
| Monumento d'Injalbert à Pézenas. (Imagem: Fagairolles 34). |
Comédie-Française
| Pézenas (Hérault) - boutique du barbier Gely, l'ami de Molière. (Imagem: Fagairolles 34). |
A
Comédie-Française,
ou Théâtre-Français,
é um teatro estatal de França e um dos únicos que têm uma
companhia permanente de atores. Situa-se no 1.º arrondissement de
Paris. O dramaturgo com maior ligação à Comédie-Française foi
Molière, considerado o patrono dos atores franceses, no entanto,
Molière havia falecido há sete anos quando nasceu La
Maison de Molière.
A Comédie-Française foi fundada por decreto de Luís XIV a 24 de
Agosto de 1680 para fundir numa só as duas únicas companhias
parisienses da altura, a companhia do Hôtel Guénégaud e a do Hôtel
de Bourgogne. O repertório da altura incluía peças de Molière
e de Jean
Racine,
além de outras de Pierre
Corneille,
Paul
Scarron
e Jean
de Rotrou.
A 3 de Setembro de 1793, durante a Revolução Francesa, a
Comédie-Française foi fechada por ordem do "Comité de salut
public", com ordem de prisão para os atores. A 31 de Maio de
1799, o novo governo colocou à disposição dos atores que
pretendiam reconstituir a companhia, a sala Richelieu. Atualmente, a
Comédie-Française dispõe de um repertório de cerca de 3.000 peças
e de três salas de teatro, a sala Richelieu, o Théâtre du
Vieux-Colombier e o Studio-Théâtre.
Citações
Na obra Escola de Mulheres
- "Não encontramos [maridos] de todas as variedades, acomodados cada um de um jeito? Este junta mil bens para que a esposa os divida, adivinha com quem? Com quem o corneia."
- Ato I, Cena I.
- "Quem ri o que quer é rido o que não quer."
- Ato I, Cena I.
- "Pretendo que a minha [futura mulher] seja bastante opaca para não saber nem mesmo o que é uma rima. E, quando estiver jogando o corbillon e alguém perguntar, ao chegar a vez dela: 'Que botamos agora na panela?', ela, ao invés de, como as outras, dar uma resposta brilhante e maliciosa, responda, muito simples: 'Um pouco de batata"' [...]
- - Ato I, Cena I: Fala de Arnolfo para o personagem Crisaldo, em que o primeiro dos dois reforça seu desejo de ter uma esposa que lhe sirva e que lhe seja obediente.
- Quando o personagem Arnolfo retorna de uma viagem, bate à porta e nenhum de seus criados, Alain e Georgette, vão abrir-lhe a porta:
- Georgette: Estou soprando o fogo.
- Alain: Estou tomando conta do pardal, senão o gato o come.
- Arnolfo: Se não abrirem a porta imediatamente ficarão sem comida quatro dias. Ah!
- Georgette: (A Alain:) Por que você vem agora, quando eu já estou correndo?
- Alain: (A Georgette:) E vou deixar você abrir em meu lugar, só porque vem correndo? Bonita estratégia.
- "[...] [o ciúme] é uma coisa... que deixa a gente inquieto... [...] Vou te dar um exemplo, pra que você entenda com facilidade: você está na mesa, a mesa arrumadinha, vai começar a comer seu mingau, quando passa por lá um esfomeado e começa também a querer comer a comida que é tua.[...]"
- -Ato II, Cena III: o personagem Alain explica à Georgette o que é o ciúme.
- "O mundo [...], que coisa estranha é o mundo! A maledicência geral, por exemplo. Como todo mundo gosta de falar dos outros!"
- -Ato II, Cena V: fala de Arnolfo à sua esposa Inês
- "Em qualquer empreendimento o dinheiro é a chave mestra."
- -Ato I, Cena IV
- "[...] Para quem acha os chifres a suprema vergonha, não casar é a única maneira de estar bem seguro."
- -Último Ato, Última Cena, Última Fala, do personagem Crisaldo
Atribuídas
- "Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer."
- - Nous ne somme pas seulement responsable de ce que nous faisons, mais aussi de ce que nous ne faisons pas!
- - citado em "Faire évoluer les esprits: en politique, dans l'entreprise et dans l'entreprise et dans la vie privée" - Página 300, Howard Gardner - Odile Jacob, 2007, ISBN 2738117899, 9782738117892 - 337 páginas
Lista de obras principais
- La jalousie du Barbouillé
- Le médecin volant
- L'étourdi
- Le dépit amoureux
- Les précieuses ridicules
- Sganarelle
- Dom Garcie de Navarre
- L'école des maris
- Les Fâcheux
- L'école des femmes
- La critique de l'école des femmes
- L'impromptu de Versailles
- Le mariage forcé
- La princesse d'Élide
- Tartuffe
- Dom Juan ou le Festin de Pierre
- L'amour médecin
- Le misanthrope
- Le médecin malgré lui
- Mélicerte
- Pastorale comique
- Le sicilien
- Amphitryon
- Georges Dandin
- L'avare
- Monsieur de Pourceaugnac
- Les amants magnifiques
- Le bourgeois gentilhomme
- Psyché
- Les fourberies de Scapin
- La comtesse d'Escarbagnas
- Les femmes savantes
- Le malade imaginaire
Representação nas artes
Em
2007 foi lançado o filme Molière,
com duração de 116 minutos, dirigido por Laurent
Tirard,
com roteiro de Laurent Tirard e Grégoire Vigneron. Do elenco
participam Romain Duris (no papel de Molière), Fabrice Luchini,
Laura Morante, Edouard Baer e Ludivine Sagnier.