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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Biografia de Gilberto Freyre

Gilberto Freyre
Gilberto de Mello Freyre. (KBE: Ordem do Império Britânico). Nasceu em Recife, a 15 de Março de 1900, e, nesta mesma cidade, faleceu a 18 de Julho de 1987. Gilberto Freyre foi um polímata brasileiro. Como escritor, dedicou-se à ensaística da interpretação do Brasil sob ângulos da sociologia, antropologia e história. Foi também autor de ficção, jornalista, poeta e pintor. É considerado um dos mais importantes sociólogos do século XX. Recebeu da Rainha Elizabeth II o título de "Sir", sendo um dos poucos brasileiros detentores desta alta honraria da coroa britânica. Sobre Freyre, falou Monteiro Lobato: "O Brasil do futuro não vai ser o que os velhos historiadores disserem e os de hoje repetem. Vai ser o que Gilberto Freyre disser. Freyre é um dos gênios de palheta mais rica e iluminante que estas terras antárticas ainda produziram".

Biografia
Filho de Alfredo Freyre (juiz e catedrático de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife) e de Francisca de Mello Freyre, Gilberto Freyre é de família brasileira antiga, descendente dos primeiros colonizadores portugueses do Brasil. Em suas palavras: "um brasileiro que descende de gente quase toda ibérica, com algum sangue ameríndio e fixada há longo tempo no país". Tem antepassados portugueses, espanhóis, indígenas e holandeses. Custou a aprender a escrever, fazendo-se notar pelos desenhos. Teve aulas particulares com o pintor Telles Júnior, que reclamava de sua insistência em deformar os modelos. Começou a aprender a ler e escrever em inglês com Mr. Williams, que elogiava seus desenhos. Em 1909, faleceu sua avó materna, que vivia a mimá-lo por supor que tinha problemas sérios de aprendizado, pela dificuldade em aprender a escrever. Ocorrem suas primeiras experiências rurais de menino de engenho, nessa época, quando passa temporada no Engenho São Severino do Ramo, pertencente a parentes seus. Mais tarde escreverá sobre essa primeira experiência numa de suas melhores páginas, incluída em Pessoas, Coisas & Animais. Quando jovem, tornou-se protestante batista, chegando a ser missionário e a frequentar igrejas batistas norte-americanas. Foi estudar nos Estados Unidos, quando desencantou-se com o protestantismo batista e tornou-se sem religião, embora esposando uma cosmovisão cristã e vendo com simpatia o catolicismo popular e o xangô do Recife. Foi casado com Magdalena de Guedes Pereira Freyre, mãe de seus dois filhos, Sônia e Fernando.

Educação

Gilberto Freyre inicia seus estudos frequentando, em 1908, o jardim da infância do Colégio Americano Batista Gilreath, que seu pai havia ajudado a fundar. Aos dezoito anos, com bolsa da igreja batista, vai estudar na Universidade Baylor no Texas, onde se formou bacharel em artes liberais. Freyre estudou na Universidade de Columbia nos Estados Unidos, onde conheceu Franz Boas, referência intelectual para ele. Em 1922 publica sua tese de mestrado Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century (Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX), dentro do periódico Hispanic American Historical Rewiew, volume 5. Com isto obteve o título Masters of Arts (Mestre de Artes).

Casa-Grande & Senzala
(Magnum opus) 

Seu primeiro e mais conhecido livro é Casa-Grande
Casa-Grande & Senzala*
& Senzala
, publicado no ano de 1933 e escrito em Portugal. Nele, Freyre rechaça as doutrinas racistas de branqueamento do Brasil. Baseado em Franz Boas, demonstrou que o determinismo racial ou climático não influencia no desenvolvimento de um país. Ainda, essa obra foi precursora da noção de democracia racial no Brasil, com relações harmônicas interétnicas que mitigariam a influência social do passado da escravidão no Brasil, que, segundo Freyre, fora menos segregadora que a norte-americana. Embora seja sua obra mais importante, também recebeu críticas por sua linguagem tida como vulgar e obscena. Em Recife chegou a ter seu livro queimado em praça pública, ato apoiado por um colégio religioso de Recife.
Ao contrário do que popularmente se imagina, Casa Grande & Senzala não é um estudo sociológico ou antropológico. Baseado em fontes históricas e suas reflexões, Gilberto Freyre se apresentou como um "escritor treinado em ciências sociais" e não como sociólogo ou antropólogo, como refletiu em seu Como e Porque Sou e Não Sou Sociólogo (1968) . Além disso, por influência de Franz Boas sabia da necessidade de pesquisas empíricas para validar um estudo como sendo sociológico ou antropológico.

Sobrados e Mucambos (obra)

Sobrados e Mucambos é um livro de Gilberto
Sobrados e Mucambos
Freyre publicado originalmente em 1936. O livro tem como tema a decadência do patriarquismo do Brasil rural, ocorrida no século XIX. O título é uma referência aos antigos aristocratas, que, com a declínio do regime escravocrata brasileiro, tiveram que se mudar da casa-grande para sobrados em áreas urbanas. Por conseguinte, os ex-escravos também deixaram as senzalas para morarem em casebres de palha e barro em bairros pobres de áreas urbanas.

Ordem e Progresso (obra)

Ordem e Progresso é um livro de Gilberto Freyre
Ordem e Progresso
publicado em 1957, em que o autor discorre sobre a transição do regime monarquista ao republicano no Brasil.
Sobre tal transição, Freyre aponta aqueles elementos que permanecem a despeito da mudança política operada a 1889. Diz que sociologicamente as mudanças não haviam sido tão significativas dada a permanência de um modo de organização social ainda predominantemente paternalista, agora apenas atenuado pelo fato de se ter uma urbanização e industrialização mais acentuada e a ascensão social de alguns setores da sociedade que antes permaneciam excluídos. Esta integração de outros setores da sociedade, no entanto, não se dava de maneira transformadora, mas conservadora, na medida em que a república conservava o modo de organização da monarquia, sendo a figura do presidente a expressão do monarquista de outrora. 

Brasis, Brasil e Brasília (obra)

Brasis, Brasil e Brasília: sugestões em tôrno de problemas brasileiros de unidade e diversidade e das relações de alguns deles com problemas gerais de pluralismo étnico e cultural) é um livro do escritor brasileiro Gilberto Freyre, publicado originalmente em 1960, em Lisboa. Nele, aborda-se temas sociológicos, sociais e antropológicos, voltados não para nacional ou cívico, mas com critérios da ciência. "(...) sendo uno, é também uma constelação de Brasis; possuindo um valioso passado "útil" ou "utilizável", defronta-se com um futuro cheio de desafios à sua capacidade de ação orientada pelo, que, nas suas elites e no seu povo, seja imaginação criadora. Imaginação científica associada à poética". - Gilberto Freire, no prefácio do livro.

Vida pública 

Em 1930, após a tomada do poder por Getúlio Vargas, Freyre viaja aos Estados Unidos e Portugal, onde trabalhou no manuscrito de Casa Grande & Senzala. Em Pernambuco, Gilberto Freyre ocupou vários cargos comissionados e chegou à presidência da UDN (União Democrática Nacional) pernambucana. Em 1942 foi preso e espancado, junto de seu pai, após escrever um artigo no Diário de Pernambuco acusando um monge beneditino de Olinda de ser racista e pró-nazista. Em 1946 é eleito pela própria UDN para a Assembleia Constituinte. Em 1964, defendeu a queda de João Goulart, em 1969 passou a integrar o Conselho Federal de Cultura a convite do presidente general Emílio Médici. Gilberto Freyre foi também reconhecido por seu estilo literário. Foi até poeta, sendo que o seu poema "Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados" entusiasmou Manuel Bandeira. Gilberto Freyre escreveu um longo poema inspirado por sua primeira visita à cidade de Salvador: Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados. Impresso no mesmo ano em reduzidíssima edição da recifense Revista do Norte, o poema deixou Manuel Bandeira entusiasmado. Tanto que em carta de 4 de Junho de 1927 escreveu: “Teu poema, Gilberto, será a minha eterna dor de corno. Não posso me conformar com aquela galinhagem tão gozada, tão envergonhosamente lírica, trescalando a baunilha de mulata asseada. S!” (cf. Manuel Bandeira, Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958, v. II: Prosa, p. 1398). O poema tem três versões: a primeira foi reproduzida por Manuel Bandeira em sua Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (1946); a segunda, modificada pelo autor, foi publicada na revista carioca O Cruzeiro de 20 de Janeiro de 1942; e a terceira aparece nos livros Talvez Poesia (José Olympio, 1962) e Poesia Reunida (Edições Pirata, 1980). Portugal ocupa um lugar importante no pensamento de Freyre. Em vários de seus livros, como em "O Mundo que o Português Criou", e "O Luso e o Trópico" demonstra o importante papel que os portugueses tiveram na criação da "primeira civilização moderna nos trópicos". Freyre foi um dos pioneiros no estudo histórico e sociológico dos territórios de colonização portuguesa como um todo, chegando mesmo a desenvolver um ramo de pesquisa que denominou de "Lusotropicologia". Ocupou a cadeira 29 da Academia Pernambucana de Letras em 1986.

Morte
 
Gilberto Freyre morreu em decorrência de uma isquemia cerebral, infecção respiratória e insuficiência renal às 4h10 da manhã de 18 de Julho de 1987 em Recife.
 

Obras

  • Casa-Grande & Senzala, 1933.
  • Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, 1934.
  • Sobrados e Mucambos, 1936.
  • Nordeste: Aspectos da Influência da Cana Sobre a Vida e a Paisagem…, 1937.
  • Açúcar, 1939.
  • Olinda, 1939.
  • O Mundo que o Português Criou, 1940.
  • Um Engenheiro Francês no Brasil,1940. e 1960 (2ªedição).
  • Problemas Brasileiros de Antropologia, 1943.
  • Sociologia, 1945.
  • Interpretação do Brasil, 1947.
  • Ingleses no Brasil, 1948.
  • Ordem e Progresso, 1957.
  • O Recife Sim, Recife Não, 1960.
  • Os Escravos nos Anúncios de Jornais Brasileiros do Século XIX, 1963.
  • Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX, 1964.
  • Brasis, Brasil e Brasília, 1968.
  • O Brasileiro Entre os Outros Hispanos, 1975.
  • Oh de Casa, 1979.
  • Homens, Engenharias e Rumos Sociais, 1987.

 

 

Prêmios e títulos 

  • Prêmio da Sociedade Filipe d'Oliveira, Rio, 1934.
  • Prêmio Anisfield-Wolf, USA, 1957.
  • Prêmio de Excelência Literária, da Academia Paulistana de Letras, 1961.
  • Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (conjunto de obras), 1962.
  • Prêmio Moinho Santista de "Ciências Sociais em Geral", 1964.
  • Prêmio Aspen, do Instituto Aspen, USA, 1967
  • Prêmio Internacional La Madonnina, Itália, 1969
  • Sir - "Cavaleiro Comandante do Império Britânico", distinção conferida pela Rainha da Inglaterra, 1971.
  • Medalha Joaquim Nabuco, Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco, 1972.
  • Troféu Novo Mundo, por "obras notáveis em Sociologia e História", São Paulo - Troféu Diários Associados, por "maior distinção atual em Artes Plásticas" - Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, 1973.
  • Vencedor do Prêmio Esso em 2005.
  • Medalha de Ouro José Vasconcelos, Frente de Afirmación Hispanista de México, 1974.
  • Educador do Ano, Sindicato dos Professores do Ensino Primário e Secundário em Pernambuco e Associação dos Professores do Ensino Oficial, 1974.
  • Medalha Massangana, Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1974.
  • Grã-cruz Andrés Bello da Venezuela, 1978.
  • Grã-cruz da Ordem do Mérito dos Guararapes do Estado de Pernambuco, 1978.
  • Prêmio Brasília de Literatura para Conjunto de Obras, Fundação Cultural do Distrito Federal, 1979.
  • Prêmio Moinho Recife, 1980.
  • Medalha da Ordem do Ipiranga do Estado de São Paulo, 1980.
  • Medalha Biblioteca Nacional, 1984.
  • Grã-cruz de D. Alfonso, El Sabio, Espanha, 1983.
  • Grã-cruz de Santiago da Espada, Portugal, 1983.
  • Grã-cruz da Ordem do Mérito Capibaribe da cidade do Recife, 1985.
  • Grande Oficial da Legião de Honra, França, 2008.


Referências

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gilberto_Freyre
https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa-Grande_&_Senzala 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sobrados_e_Mucambos 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_e_Progresso_(livro) 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasis,_Brasil_e_Brasília 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Leonardo da Vinci: Vida Pessoal


Vida pessoal de Leonardo da Vinci



Estátua de Leonardo no exterior da Galleria degli Uffizi, em Florença, baseada em descrições de contemporâneos do artista.
Leonardo da Vinci é considerado como um arquétipo do Homem da Renascença. Pouco se sabe sobre a sua vida pessoal e ele mesmo parece ter sido extremamente reservado no que respeita às suas relações mais íntimas. No entanto, tem sido investido bastante esforço de pesquisa e especulação sobre este aspecto da sua vida, tanto pelo fascínio que o seu gênio artístico e científico exerce, como pelo seu aparente magnetismo pessoal. A descrição e a análise da personalidade de Leonardo, dos seus desejos pessoais e comportamento íntimo baseia-se num grande número de fontes: registos sobre ele, as suas biografias, os seus próprios diários, as suas pinturas e desenhos, os seus associados e especulações de contemporâneos seus. Este conjunto de informação revela o quadro de um homem que parece ter tido uma vida familiar encorajadora, que trabalhou cooperativamente com terceiros, tanto como aprendiz como mestre, e que providenciou bem pelas necessidades dos que estavam à sua responsabilidade. Leonardo teve um conjunto importante de mecenas poderosos, incluindo o rei de França, e teve também, ao longo dos anos, um grande número de seguidores e alunos. Em particular, com dois destes alunos, Salai e Melzi, manteve uma relação de grande proximidade.


Descrições contemporâneas


As descrições de contemporâneos de Leonardo e os seus retratos combinam-se para criar uma imagem de um homem alto, atlético e extremamente atraente. Os seus retratos mostram que, na sua velhice, usava o cabelo comprido num tempo em que a maioria dos homens o usava curto ou pelos ombros, e a barba curta ou a cara barbeada. A barba de Leonardo, por seu lado, descia-lhe até ao peito. A sua roupa era descrita como diferente, na escolha de cores vivas e de túnicas curtas, ao gosto dos mais novos, já que os homens da sua idade vestiam normalmente trajes compridos. A imagem de Leonardo, na sua velhice, foi recriada na estátua que se encontra no exterior da Galleria degli Uffizi, em Florença.


As descrições de Vasari


Auto-retrato de Giorgio Vasari.
De acordo com Giorgio Vasari, "no decurso normal dos tempos nascem muitos homens e mulheres possuidores de talentos características notáveis; mas ocasionalmente, de uma forma especial que transcende o natural, uma única pessoa é maravilhosamente dotada pelos céus com beleza, graça e talento em tanta abundância que deixa os outros homens muito para trás... todos reconhecem que esta é a verdade acerca de Leonardo da Vinci, um artista de beleza física invulgar que se comporta com infinita elegância em tudo o que faz e que cultiva o seu gênio tão brilhantemente que todos os problemas que estudou foram resolvidos com simplicidade. Possuía grande força e destreza; foi um homem de esplêndido espírito e com uma tremenda inteligência...".

Retratos

Capa de As Vidas dos Artistas.
A representação mais conhecida da cara de Leonardo é um desenho a giz vermelho que parece ser um auto-retrato. No entanto, a identificação é controversa dado que o homem representado aparenta ter mais idade que os 67 anos que Leonardo viveu. Foi sugerido, no entanto, que Leonardo teria "envelhecido" o seu retrato propositadamente, tal como um artista forense moderno o faria, para providenciar um modelo a Rafael Sanzio no seu fresco A Escola de Atenas, em que Platão é representado com as feições de Leonardo. É geralmente aceite que um retrato em perfil existente na Pinacoteca Ambrosiana, em Milão, representa Leonardo, também com cabelos compridos e barba esvoaçante. A imagem foi repetida na gravura utilizada para a primeira edição da obra de Vasari, Vidas.


Talentos e hábitos pessoais

Personalidade

Leonardo era um homem de grande magnetismo pessoal, simpatia e generosidade, e foi geralmente respeitado e acarinhado pelos seus contemporâneos. De acordo com Vasari, "o temperamento de Leonardo era tão adorável que ele era dispunha do afecto de toda a gente". Era um "conversador brilhante" que encantava Ludovico il Moro com a sua inteligência. Vasari resume a sua descrição dizendo "Na aparência era notável e belo, e a sua magnificente presença confortava as almas mais perturbadas; era tão persuasivo que conseguia vergar os outros à sua própria vontade. Era tão forte fisicamente que conseguia enfrentar a violência e, com a sua mão direita, entortava ferraduras e batentes de ferro como se fossem de chumbo. Era tão generoso que alimentava todos os seus amigos, ricos ou pobres... O seu nascimento deu a Florença uma excelente prenda, e a sua morte castigou-a com uma perda incalculável". Alguma da sabedoria pessoal de Leonardo transparece de um conjunto de fábulas que escreveu. Um dos temas prevalecentes é o erro de uma auto-estima exagerada e os benefícios que se podem ganhar com humildade, atenção e iniciativa.

Prodígio infantil

A casa da infância de Leonardo, em Anchiano. (Imagem: User:Lucarelli).
Vasari relata que o jovem Leonardo "teria sido brilhante nas suas primeiras lições, se não fosse tão volátil e flexível; pois estava constantemente a tentar aprender uma multitude de coisas diferentes, desistindo da maior parte ao fim de pouco tempo. Quando começou a estudar aritmética, conseguiu, em poucos meses, um progresso tão notável que deixava espantado o seu mestre com as perguntas que fazia e os problemas que colocava... Constantemente, durante estas suas iniciativas, Leonardo nunca parava de desenhar...". O pai de Leonardo, Ser Piero, percebendo que os talentos do seu filho eram extraordinários, decidiu mostrar alguns dos seus desenhos ao seu amigo, Andrea del Verrocchio, que tinha um dos maiores atelies de arte de Florença. Leonardo foi aceite com aprendiz e "rapidamente provou ser um geômetra de primeira classe". Vasari afirma que durante a sua juventude, Leonardo fez um certo número de bustos de barro representando mulheres e crianças sorridentes, dos quais foram feitos moldes que ainda eram vendidos pelo atelier passados 80 anos. De entre as suas primeiras pinturas conhecidas, está uma Anunciação atualmente exposta nos Uffizi em Florença, o anjo que pintou em colaboração com Verrocchio no Batismo de Cristo e uma pequena predela da Anunciação (provavelmente a sua peça mais antiga conhecida) para ser colocada por baixo de uma altar por Lorenzo di Credi.

Interesses diversos

A diversidade dos interesses de Leonardo, notada por Vasari desde a infância, expressar-se-ia nos seus diários, que registam as suas observações científicas sobre a natureza, as suas dissecações de cadáveres para compreender a sua anatomia, as suas experiências com máquinas voadoras, para gerar energia a partir da força da água e para o cerco de cidades, os seus estudos de geometria e os seus projetos de arquitetura, bem como memorandos pessoais e escrita criativa, incluindo fábulas.

Talentos musicais

É aparente pelas descrições de Vasari que Leonardo aprendeu a tocar lira na infância e que tinha grande capacidade de improvisação. Por volta de 1479, Leonardo criou uma lira com a forma de cabeça de cavalo, feita "quase inteiramente em prata", cujo tom era "sonoro e ressonante". Lorenzo de Medici soube desta lira e querendo melhorar as suas relações com Ludovico Sforza, o usurpador do Ducado de Milão, enviou por Leonardo a lira como oferta ao Duque. O desempenho musical de Leonardo foi de tal forma superior aos dos músicos da corte de Ludovico que deixou o Duque encantado.

Amor pela natureza

Leonardo sempre amou a natureza. Nas proximidades da sua casa de infância há montanhas, árvores, rios e animais selvagens. Este ambiente de juventude terá estado na origem do interesse de Leonardo pela natureza, proporcionado-lhes as condições perfeitas para observação e estudo do mundo natural e, talvez, pela pintura. As duas recordações mais antigas que relatou são de um papagaio de papel pairando sobre o seu berço e de uma gruta nos bosques.

Vegetarianismo

O amor de Leonardo pelos animais está documentado em relatos dos seus contemporâneos, nas suas biografias mais antigas e nos seus livros de notas. Contrariamente aos costumes da época, Leonardo chegou mesmo a questionar a moralidade de comer animais quando tal não era indispensável à saúde. Coerente com as suas ideias, Leonardo tornou-se vegetariano. Edward MacCurdy indica que "...a mera ideia de permitir sofrimento desnecessário, mais ainda do que matar (animais), era repugnante para ele. Vasari indica, como exemplo do amor de Leonardo pelos animais, que quando em Florença, ao passar por vendedores de pássaros, Leonardo os retirava das gaiolas com as suas próprias mãos e, depois de pagar o preço pedido, os deixava voar, devolvendo-os à liberdade". Que este horror a infligir dor era tal que o levou a tornar-se vegetariano pode ser inferido de uma referência que aparece numa carta enviada por Andrea Corsali a Giuliano di Lorenzo de' Medici, na qual, depois de descrever uma raça indiana chamada Gujerats (provavelmente uma referência ao Jainismo do estado Indiano do Gujarat) que não comem nada que contenha sangue nem ferem nenhum ser vivo como, refere, "o nosso Leonardo da Vinci". Leonardo escreveu nos seus livros de notas, que apenas foram decifrados no início do século XIX: "Se és, como te descreves a ti próprio, o rei dos animais -- seria preferível que te chamasses a ti próprios rei das feras selvagens porque és a maior de todas! -- porque não os ajudas para que eles possam ser capazes de oferecer os seus filhos ao teu palato, por mor do qual te transformaste num cemitério para todos os animais? Poderia ainda afirmar mais, se tal me fosse permitido". Poder-se-ia questionar o valor atribuído por Leonardo à vida humana tendo em atenção os seus inúmeros projetos de armas mas, no entanto, nenhum dos seus projetos concebia armas ofensivas. É provável que a sua investigação no campo do armamento se inserisse na sua busca de mecenas ou, talvez, ele gostasse apenas de desenhar armas, como gostava de desenhar gárgulas. Leonardo projetava, contudo, vastas fortificações. Nas suas próprias palavras: "Quando cercado por tiranos ambiciosos, procuro formas de ataque e defesa com o objectivo de preservar o principal bem da natureza, a liberdade; e falo primeiro da localização das muralhas, e só depois de como os povos podem manter os seus bens e os seus reis". Leonardo referia-se à guerra como uma pazzia bestialissima (uma "loucura bestialíssima").

Canhoto

Tem-se afirmado que Leonardo "pode ser o artista canhoto mais reconhecido universalmente de todos os tempos", um facto documentado por numerosos autores da Renascença, e conspicuamente manifesto nos seus desenhos e na sua caligrafia. Nos seus livros de notas, escreveu em modo espelho devido a ser canhoto (era mais fácil), pelo que foi falsamente acusado de tentar ocultar o seu trabalho. Alguns especialistas antigos italianos discutiram se Leonardo também desenharia com a mão direita; historiadores anglo-americanos recentes não dão crédito a estas alegações de ambidestria.

Reconstrução da impressão digital

Alguns antropólogos italianos afirmam que conseguiram reconstruir a impressão digital do indicador esquerdo de Leonardo. A reconstrução resultou de três anos de pesquisas e pode ajudar na atribuição de pinturas e manuscritos ao artista, afirmou Luigi Capasso, diretor do Instituto de Pesquisa Antropológica da Universidade de Chieti, na Itália central. "Acrescenta o primeiro toque de humanidade. Sabíamos como Leonardo encarava o mundo e o futuro ... mas quem era ele? Este pedaço de informação biológica fala de um homem como qualquer outro, não sobre um gênio", disse Capasso. A descoberta pode lançar nova luz sobre uma grande variedade de temas, incluindo o tipo de comida preferido pelo artista ou sobre a se a sua mãe era de origem árabe. A pesquisa baseou-se em fotos de 200 impressões digitais, a maioria obtida de documentos manuseados por Leonardo. Capasso e outros peritos, afirmam que as impressões digitais podem conter traços de saliva, sangue ou da comida que estava a comer. O padrão da impressão digital, por sua vez, sugere uma origem oriental: "nem todas as populações tem impressões digitais típicas, mas as suas marcas partilham proporções específicas. As que encontramos nesta (de Leonardo) impressão digital aplicam-se a 60% da população árabe, o que sugere a possibilidade que a sua mãe tenha origens no Médio Oriente", afirmou Capasso. A noção de que a mãe de Leonardo possa ter sido uma escrava trazida de Constantinopla para a Toscânia não é nova, e tem sido objecto de pesquisa autônoma.

Relações pessoais

São João Batista 1513-1516.
A informação sobre as relações pessoais de Leonardo provem de registos históricos e dos escritos dos seus muitos biógrafos, cuja disposição para discutir os aspectos relacionados com a identidade sexual do artista variou com as atitudes da época em que viveram. O seu biógrafo quase contemporâneo, Vasari, descreve dois belos jovens como "amados" de Leonardo em vários pontos dos escritos sobre a sua vida. No século XX, vários biógrafos tornaram mais explicita a referência à homossexualidade de Leonardo, embora outros tenham concluído que em grande parte da sua vida, Leonardo foi celibatário. A nota biográfica mais explícita em relação à vida íntima de Leonardo é um registo de um tribunal florentino que descreve a acusação anônima de sodomia com prostituto masculino (Jacopo Saltarelli) feita contra Leonardo (e outros dois acusados), quando ainda se encontrava na oficina de Verrocchio. Dois meses depois Leonardo foi ilibado por falta de provas. A sodomia era considerada um crime muito grave, passível de condenação a pena de morte, razão pela qual eram exigidas provas claras da sua prática e raramente eram condenados os acusados. A homossexualidade na Florença de Leonardo era de tal forma tolerada que Florenzerera utilizado à época na Alemanha para referir em calão um homossexual. As denúncias falsas eram bastante frequentes nesse tempo, utilizadas anonimamente pelos inimigos do denunciado. É possível que tenha sido esse o caso com Leonardo. Não existe evidência que, na sua longa carreira depois de deixar Florença, Leonardo tenha sido acusado de novo do mesmo crime. Elizabeth Abbott, na sua History of Celibacy (História do Celibato), argumenta que embora Leonardo fosse, provavelmente, homossexual, o trauma do caso da acusação de sodomia condenou-o ao celibato para o resto da sua vida. Uma opinião semelhante sobre um Leonardo homossexual mas casto aparece no famoso artigo de 1910 de Sigmund Freud, Leonardo da Vinci e uma Memória da sua Infância, que analisa uma recordação de Leonardo em que ele descreve como, quando ainda bebé, foi atacado por uma ave de rapina que lhe abriu a boca e "me enfiou a cauda por entre os lábios repetidamente". Freud indicou que o simbolismo era claramente fálico, mas argumentou que a homossexualidade de Leonardo seria apenas latente: que ele nunca teria agido em conformidade com os seus desejos sexuais. Os escritos e os livros de notas
The Incarnate Angel, (desenho a carvão, c. 1515) claramente relacionado com o quadro "São João Batista".
deixados por Leonardo revelam uma luta com a sexualidade: numa passagem famosa dos seus livros de anotações, Leonardo afirma “o ato da procriação e tudo com ele relacionado é tão nojento que a raça humana rapidamente desapareceria se não existissem caras bonitas e inclinações sensuais". Na sua vida adulta, Leonardo relacionou-se pouco com mulheres e nunca casou; entre os seus numerosos esboços anatômicos apenas se encontram dois desenhos detalhados dos órgãos reprodutivos femininos, um dos quais invulgarmente distorcido. No entanto, David M. Friedman refere que isso não é evidência de uma sexualidade diminuída, apenas de uma redução de interesse pelas mulheres. Argumenta que os livros de anotações de Leonardo revelam que o interesse de Leonardo por homens e pela sexualidade não foi perturbado pelo julgamento em tribunal, e concorda com o historiador de arte Kenneth Clark quando este refere que Leonardo nunca se tornou um assexuado. Serge Bramly também refere que "o fato de Leonardo advertir contra a a luxúria não significa que ele próprio fosse casto". Michael White, em Leonardo: The First Scientist indica que é provável que o julgamento tenha provocado em Leonardo um sentimento de cautela e defesa em relação às suas relações pessoais e à sua sexualidade, mas não o terá dissuadido de manter relações íntimas com homens: "não há muitas dúvidas de que Leonardo continuou a ser um homossexual praticante". Os registos históricos mostram que, depois do julgamento, Leonardo manteve duas ligações de longa duração com rapazes: os seus dois alunos Gian Giacomo Caprotti da Oreno, de alcunha Salai ou Il Salaino (com o sentido de "diabinho"), que chegou à sua casa em 1490 com apenas 10 anos, e Francesco Melzi, o filho de um aristocrata de Milão, que se tornou seu aprendiz em 1506. Outras relações, com um homem desconhecido chamado Fioravante Domenico e com um falcoeiro, Bernardo di Simone, são sugeridas na biografia escrita por Michael White, embora as relações com Salai e Melzi tenham sido as mais duradouras. Vasari descreve Salai como um "gracioso e bonito rapaz com um belo cabelo ondulado"e o seu nome é referido (embora riscado) no verso de um desenho erótico por Leonardo, The Incarnate Angel; redescoberto em 1991 numa coleção alemã, trata-se de um de uma série de desenhos eróticos de Salai (e outros?) por Leonardo, originalmente na British Royal Collection, sendo possivelmente uma variante bem-humorado do seu "São João Batista". O "Diabinho" fez jus ao seu nome: um ano após o ter recebido, Leonardo elaborou uma lista das suas qualidades, incluindo "ladrão, mentiroso, teimoso e glutão". Apesar do seu mau comportamento geral - foi apanhado a roubar dinheiro e valores em, pelo menos, cinco ocasiões, gastou fortunas em vestuário e morreu, talvez, num duelo - Salai manteve-se como companheiro, assistente e serviçal de Leonardo por trinta anos, tendo recebido, em testamento, a Mona Lisa, já então muito valorizada. Vinte anos mais tarde, o conde Melzi foi um companheiro mais tranquilo, embora talvez menos excitante, para o velho Leonardo. Numa carta, Melzi descreve a intimidade da sua relação com Leonardo como sviscerato et ardentissimo amore (profundo e ardentíssimo amor), e foi ele, mais que Salai, que acompanhou Leonardo nos seus últimos dias em França. Melzi teve subsequentemente um papel importante como guardião dos livros de apontamentos de Leonardo, preparando-os para publicação de acordo com os desejos do seu mestre. No entanto, apesar de ser Melzi quem acompanhou Leonardo no seu leito de morte, um dos dois retratos que o artista manteve sempre na sua mesa de cabeceira foi o retrato de Salai como São João Batista, sorrindo enigmaticamente e apontando para o céu com um dos dedos.

Referências

Leonardo da Vinci: Cientista e Inventor


Leonardo o observador, cientista e inventor


Ele foi um homem que acordou cedo demais na escuridão, enquanto os outros continuavam a dormir”. - (Sigmund Freud).

"Homem Vitruviano", de Leonardo da Vinci, é possivelmente o desenho mais conhecido no mundo.
O Humanismo Renascentista não via polaridades mutuamente exclusivas entre as ciências e as artes, sendo os estudos de Leonardo, em ciências e engenharia, tão impressionantes e inovadores como o seu trabalho artístico, gravados em cadernos compostos por cerca de 13.000 páginas de notas e desenhos que fundem arte e filosofia natural (precursora da ciência moderna). Estas notas foram feitas e mantidas cotidianamente durante toda a vida de Leonardo e suas viagens, como ele fez em suas observações contínuas do mundo ao seu redor. Os cadernos são, em sua maioria, escritos de forma invertida. A razão pode ter sido mais uma oportunidade prática, do que por razões de sigilo como muitas vezes é sugerido. Sendo Leonardo provavelmente canhoto, é possível que lhe era mais fácil escrever da direita para a esquerda. Suas anotações e desenhos mostram uma enorme gama de interesses e preocupações, algumas tão banais como as listas de compras e as pessoas que lhe deviam dinheiro, e outras tão intrigantes como desenhos de asas e sapatos para caminhar sobre a água. Há composições de pinturas, estudos de detalhes e planejamentos, estudos de rostos e gestos, de animais, bebês, dissecações, estudo de plantas, formações rochosas, piscinas de hidromassagem, máquinas de guerra, helicópteros e
Representação de um Rombicuboctaedro por Leonardo, publicado em De Divina Proportioni de Luca Pacioli.
arquitetura. Essas páginas de cadernos originalmente soltas, de diferentes tamanhos, distribuídas após sua morte, encontraram caminho em coleções importantes, como a Royal Library do Castelo de Windsor, o Museu do Louvre, a Biblioteca Nacional da Espanha, o Museu Vitória e Alberto, a Biblioteca Ambrosiana de Milão, que detém os doze volumes Codex Atlanticus, e a Biblioteca Britânica em Londres, que disponibilizou de forma on-line uma seleção a partir do seu caderno BL Arundel MS 263. O Codex Leicester é a única grande obra científica de Leonardo em mãos privadas. É propriedade de Bill Gates e é exibido uma vez por ano em diferentes cidades pelo mundo. Os estudos de Leonardo parecem ter sido destinados a publicação, porque muitas das folhas têm uma forma e ordem que facilitam à mesma. Em muitos casos, um único tópico, por exemplo, o coração ou o feto humano, é abordado em detalhes em palavras e imagens, em uma única folha. O motivo de eles não terem sido publicados durante a vida de Leonardo é desconhecido.


Estudos científicos


Estudo de ossos do braço (c. 1510).
Leonardo tentou entender os fenômenos e descrevendo em detalhe extremo, e não enfatizou experiências ou explicações teóricas. Ao longo de sua vida, planejou uma enciclopédia baseado em desenhos detalhados de tudo. Como não dominava o latim e a matemática, o Leonardo da Vinci cientista era ignorado pelos estudiosos contemporâneos, como evoca sua famosa frase uomo senza lettere, em que claramente se refere a tais limitações. Na década de 1490, estudou matemática com seu amigo, o matemático Luca Pacioli e preparou uma série de gravuras — incluindo o Homem Vitruviano — para ilustrar o livro de Pacioli, De Divina Proportioni, publicado em 1509. Parece que a partir do conteúdo de seus diários estava planejando uma série de tratados que seriam publicados em uma variedade de assuntos. Um tratado coerente sobre a anatomia foi dito ter sido observado durante a visita do cardeal secretário Louis D'Aragon, em 1517. Aspectos do seu trabalho sobre os estudos de anatomia, luz e de paisagem foram montados para a publicação por seu pupilo Francesco Melzie, finalmente publicado como Trattato della Pittura de Leonardo da Vinci, postumamente na França e na Itália em 1651, e na Alemanha em 1724, com gravuras baseadas em desenhos do pintor clássico Nicolas Poussin. Segundo Arasse, o tratado, que na França foi publicado em sessenta e duas edições em cinquenta anos, ocasionou que Leonardo fosse visto como o precursor do pensamento acadêmico francês sobre a arte. Uma análise recente e exaustiva de Leonardo como cientista por Frtijof Capra defende que Leonardo era um tipo fundamentalmente diferente de cientistas como Galileu, Newton e outros cientistas que o seguiram. Sua experimentação seguiu claro, abordagens com métodos científicos, e juntamente a sua teorização e hipotética voltada as artes, particularmente na pintura, o fizeram um Leonardo único e integrado, em que pontos de vista holísticos da ciência, fazem dele um precursor dos modernos sistemas teóricos e complexas escolas de pensamento.


Anatomia


Estudos de embriões (1510–1513) nos quais retrata imagens impossíveis de se ver na época, mas completamente atuais.
A formação de Leonardo da anatomia do corpo humano iniciou-se com o seu aprendizado no ateliê de Andrea del Verrocchio, seu mestre insistia que todos os alunos deviam aprender anatomia. Como artista, ele rapidamente se tornou mestre da anatomia topográfica, realizando muitos estudos de músculos, tendões e outras características anatômicas visíveis. Como um artista de sucesso, ele recebeu a permissão para dissecar cadáveres humanos no Hospital de Santa Maria Nuova, em Florença e mais tarde no hospital de Milão e Roma. Entre 1510 e 1511, colaborou em seus estudos o médico Marcantonio della Torre, e juntos elaboraram um trabalho teórico sobre a anatomia, em que Leonardo fez mais de 200 desenhos. Foi publicado apenas em 1680 (161 anos após sua morte), integrando o Trattato della Pittura. Leonardo desenhou muitos estudos sobre o esqueleto humano e suas partes, bem como os músculos e nervos, o coração e o sistema vascular, os órgãos sexuais, e outros órgãos internos. Ele fez um dos primeiros desenhos científicos de um feto no útero. Como artista, Leonardo observou e registrou cuidadosamente os efeitos da idade e da emoção humana sobre a fisiologia, estudando em particular os efeitos da raiva. Ele também desenhou muitas figuras importantes que tinham deformidades faciais ou sinais de doença. Ele também estudou e desenhou a anatomia de animais diversos, bem como, dissecando vacas, aves, macacos, ursos e rãs, e comparava seus desenhos em sua estrutura anatômica com o dos seres humanos. Ele também fez uma série de estudos de cavalos.


Engenharia e invenções



Modelos de máquinas voadoras planejados por Leonardo.
Durante sua vida, Leonardo era valorizado como um engenheiro. Em uma carta a Ludovico, il Moro, afirmou ser capaz de criar todos os tipos de máquinas, tanto para a proteção de uma cidade, quanto para o cerco. Quando ele fugiu para Veneza em 1499, encontrou emprego como engenheiro e arquiteto militar e concebeu um sistema de barricadas móveis para proteger a cidade de um ataque naval. Ele também tinha um esquema para desviar o fluxo do rio Arno, um projeto no qual também trabalhou Nicolau Maquiavel. Os cadernos de Leonardo incluem um vasto número de invenções, alguns de possível construção, outros impossíveis. Eles incluem instrumentos musicais, bombas hidráulicas, canhões, entre outros. Em 1502 Leonardo da Vinci produziu um desenho de uma ponte como parte de um projeto de engenharia civil para Sultão Bayezid II de Istambul. Nunca foi construída, mas a visão de Leonardo foi ressuscitada em 2001 quando uma ponte menor, baseada no projeto dele, foi construída na Noruega. Em 17 de Maio de 2006, o governo turco decidiu construir a ponte de Leonardo para medir o Corno de Ouro. Por maior parte de sua vida, Leonardo foi fascinado pelo fenômeno de voo, produzindo muitos estudos detalhados do voo dos pássaros, incluindo o seu Codex sobre o Voo dos Pássaros de 1505, bem como planos para várias máquinas voadoras, tentou aplicar seus estudos para os protótipos que desenhou, o primeiro batizado de Swan Di Volo (Cisne voador), segundo especialistas é de 1510, inclusive um helicóptero movimentado por quatro homens, e um planador cuja viabilidade já foi provada.


Leonardo, o mito


Monumento dedicado a Leonardo da Vinci e seus pupilos na Piazza della Scala em Milão, obra de Pietro Magni.
Em vida, a fama de Leonardo foi tamanha que o rei da França levou-o como um troféu, o mantendo na velhice, e o tinha preso nos braços quando morreu. O interesse por Leonardo nunca afrouxou. As multidões ainda fazem filas para ver suas obras mais famosas, seu desenho mais famoso, hoje é estampa de camisetas e escritores, como Vasari, continuam a maravilhar-se com seu gênio e especular sobre sua vida privada e, particularmente, sobre o que uma pessoa tão inteligente realmente acreditava intimamente. Giorgio Vasari, na edição ampliada de Le vite de' più eccellenti pittori, scultori e architettori, 1568, apresenta o seu capítulo sobre Leonardo da Vinci com as seguintes palavras: “No curso natural dos acontecimentos, muitos homens e mulheres nascem com talentos notáveis, mas, ocasionalmente, de uma maneira que transcende a natureza, uma única pessoa é maravilhosamente dotada pelo céu com a beleza, graça e talento em abundância tal que ele deixa os outros homens para trás, todas as suas ações parecem inspiradas e, na verdade tudo o que faz claramente vem de Deus e não da habilidade humana. Todos reconhecem que isso era verdade em Leonardo da Vinci, um artista de beleza física excepcional, que mostrou infinita graça em tudo que ele fez e que cultivou seu gênio tão brilhante que todos os problemas que estudou, ele resolveu facilmente”. A admiração por Leonardo continuou comandada a partir de pintores, críticos e historiadores, refletida em muitas outras homenagens escritas. Baldassare Castiglione, autor de Il Cortegiano (O Cortesão), escreveu em 1528: (...) Outro dos maiores pintores nesse mundo olha para baixo sobre esta arte em que ele é inigualável (...), enquanto o biógrafo conhecido como "Anônimo Gaddiano", escreve em 1540: Seu gênio era tão raro e universal, que pode-se dizer que a natureza fez um milagre em seu nome (...). O século XIX trouxe uma admiração especial pelo gênio de Leonardo, fazendo com que Henry Fuseli escrever-se em 1801: Tal foi o alvorecer da arte moderna, quando Leonardo da Vinci quebrou adiante com um esplendor que afastasse a excelência anterior: formada por todos os elementos que constituem
Retrato de Leonardo da Vinci em Le vite, compêndio biográfico escrito por Giorgio Vasari.
a essência do gênio (…)
Isto é ecoado por A. E. Rio, que escreveu em 1861: Ele elevou-se acima de todos os outros artistas com a força e a nobreza de seus talentos. Por volta do século XIX, os cadernos de Leonardo já eram conhecidos, bem como suas pinturas. Hippolyte Taine escreveu em 1866: Não pode haver no mundo um exemplo de outro gênio tão universal, tão incapaz de cumprimento, tão cheio de desejo para o infinito, tão naturalmente refinado, tanto à frente do seu século, e os séculos seguintes. O famoso historiador de arte Bernard Berenson escreveu em 1896: Leonardo é o artista, um dos quais pode-se dizer perfeito literalmente: nada do que tocou se transformou, se não em uma coisa de beleza eterna. Quer seja a seção transversal de um crânio, a estrutura de uma erva daninha, ou um estudo de músculos, ele, com seu sentimento de linha e de luz e sombra, sempre transformou isso em vida, comunicando valores. O interesse pelo gênio de Leonardo continuou inabalável; especialistas estudam e traduzem seus escritos, analisam suas pinturas com técnicas científicas, discutem sobre atribuições e buscam por trabalhos que nunca foram encontrados. Liana Bortolon, escrevendo em 1967, disse: Por causa da multiplicidade de interesses que lhe incentivou a buscar cada campo do conhecimento(...) Leonardo pode ser considerado, muito justamente, ter sido um gênio universal por excelência, e com todas as implicações inerentes a esse inquietante termo. O homem é como um incômodo hoje, enfrentado como o gênio, como era no século XVI, cinco séculos se passaram, mas continuamos a ver Leonardo com temor.

Leonardo da Vinci: Biografia


Provável auto-retrato de Leonardo da Vinci, cerca de 1512 a 1515.
Leonardo di Ser Piero da Vinci, ou simplesmente Leonardo da Vinci. Nasceu em Anchiano, a 15 de Abril de 1452, e, faleceu em Amboise, a 2 de Maio de 1519. Da Vinci foi um polímata italiano, uma das figuras mais importantes do Alto Renascimento, que se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. É ainda conhecido como o precursor da aviação e da balística. Leonardo frequentemente foi descrito como o arquétipo do homem do Renascimento, alguém cuja curiosidade insaciável era igualada apenas pela sua capacidade de invenção. É considerado um dos maiores pintores de todos os tempose como possivelmente a pessoa dotada de talentos mais diversos a ter vivido. Segundo a historiadora de arte Helen Gardner, a profundidade e o alcance de seus interesses não tiveram precedentes e sua mente e personalidade parecem sobre-humanos para nós, e o homem em si (nos parece) misterioso e distante. Nascido como filho ilegítimo de um notário, Piero da Vinci, e de uma camponesa, Caterina, em Vinci, na região da Florença, foi educado no ateliê do renomado pintor florentino, Verrocchio. Passou a maior parte do início de sua vida profissional a serviço de Ludovico Sforza (Ludovico il Moro), em Milão; trabalhou posteriormente em Veneza, Roma e Bolonha, e passou seus últimos dias na França, numa casa que lhe foi presenteada pelo rei Francisco I. Leonardo era, como até hoje, conhecido principalmente como pintor. Duas de suas obras, a Mona Lisa e A Última Ceia, estão entre as pinturas mais famosas, mais reproduzidas e mais parodiadas de todos os tempos, e sua fama se compara apenas à Criação de Adão, de Michelangelo. O desenho do Homem Vitruviano, feito por Leonardo, também é tido como um ícone cultural, e foi reproduzido por todas as partes, desde o euro até camisetas. Cerca de quinze de suas pinturas sobreviveram até os dias de hoje; o número pequeno se deve às suas experiências constantes - e frequentemente desastrosas - com novas técnicas, além de sua procrastinação crônica. Ainda assim, estas poucas obras, juntamente com seus cadernos de anotações - que contêm desenhos, diagramas científicos, e seus pensamentos sobre a natureza da pintura - formam uma contribuição às futuras gerações de artistas que só pode ser rivalizada à de seu contemporâneo, Michelangelo. Leonardo é reverenciado por sua engenhosidade tecnológica; concebeu ideias muito à frente de seu tempo, como um protótipo de helicóptero, um tanque de guerra, o uso da energia solar, uma calculadora, o casco duplo nas embarcações, e uma teoria rudimentar das placas tectônicas. Um número relativamente pequeno de seus projetos chegou a ser construído durante sua vida (muitos nem mesmo eram factíveis), mas algumas de suas invenções menores, como uma bobina automática, e um aparelho que testa a resistência à tração de um fio, entraram sem crédito algum para o mundo da indústria. Como cientista, foi responsável por grande avanço do conhecimento nos campos da anatomia, da engenharia civil, da óptica e da hidrodinâmica. Leonardo da Vinci é considerado por vários o maior gênio da história, devido a sua multiplicidade de talentos para ciências e artes, sua engenhosidade e criatividade, além de suas obras polêmicas. Num estudo realizado em 1926 seu QI foi estimado em cerca de 180.

Biografia


De tempos em tempos, o Céu nos envia alguém que não é apenas humano, mas também divino, de modo que através de seu espírito e da superioridade de sua inteligência, possamos atingir o Céu”.(Giorgio Vasari).

Nasceu um neto meu, filho de Ser Piero (…) Seu nome foi 'Lionardo”.(Antonio da Vinci).

Leonardo nasceu em 15 de Abril de 1452, "na terceira hora da noite", de um sábado, no vilarejo de Anchiano, na comuna italiana de Vinci, na Toscana, situada no vale do rio Arno, dentro do território dominado à época por Florença. Era filho ilegítimo de Messer Piero Fruosino di Antonio da Vinci, um notário florentino, e Caterina, uma camponesa que pode ter sido uma escrava oriunda do Oriente Médio. Leonardo não tinha um sobrenome no sentido atual; "da Vinci" significa simplesmente "de Vinci": seu nome completo de batismo era "Leonardo di ser Piero da Vinci", que significava "Leonardo, (filho) de (Mes)ser, Piero de Vinci". O próprio Leonardo da Vinci assinava seus trabalhos simplesmente como Leonardoou Io Leonardo ("Eu, Leonardo"); presume-se que ele não usou o nome do pai por causa do estado ilegítimo.

Infância, 1452–1468

Pouco se sabe da infância de Leonardo. Provavelmente passou os seus primeiros quatro ou cinco anos no vilarejo de Anchiano, e depois do casamento de sua mãe com um lavrador de nome Accattabriga di Piero del Vaca, mudou-se para a casa da família de seu pai então casado com uma jovem de dezesseis anos chamada Albiera di Giovanni Amadori, com a qual Leonardo tinha uma boa relação, em que a chamava de madrinha, em companhia de seu avô, Antonio, e tio, Francesco, na paróquia de Santa Croce em Vinci, em um ambiente bucólico aconchegante, o que é significativo na personalidade de um Leonardo ligado a natureza. Albiera morreu muito cedo sem filhos . A morte do seu avô Antonio a quem muito estimava se deu logo após em 1468, e Leonardo apesar de ilegítimo continuara filho único no segundo casamento do seu pai Piero, com Francesca di Giuliano Lanfredini; testemunharia a mais dois casamentos deste, até que em 1476, quando viviam em Florença, Piero teve o tão esperado filho legítimo. Em sua vida adulta, Leonardo só se recordaria de dois incidentes de sua infância, um deles, tinha como presságio: Parece-me que sempre fui destinado a me interessar muito profundamente por falcões, pois me lembro como uma de minhas primeiras recordações que, quando estava no berço, um falcão desceu sobre mim e abriu minha boca com a cauda, e me bateu muitas vezes entre os lábios com ela. O segundo ocorreu enquanto ele brincava nas montanhas da região, e depois de vagar por alguma distância entre as rochas projetadas acima, cheguei à boca de uma imensa caverna, diante da qual me quedei por algum tempo estupefato, pois ignorava a sua existência (…) e após ficar ali algum tempo, de repente despertaram dentro de mim duas emoções — medo e desejo — medo da escura e ameaçadora caverna, desejo de ver se haveria alguma coisa maravilhosa lá dentro. A infância e a juventude de Leonardo foram tema de diversas conjunturas históricas. Giorgio Vasari, biógrafo do século XVI que escreveu sobre os pintores do Renascimento, conta como um camponês local teria pedido a SerPiero que mandasse seu filho pintar um quadro numa placa redonda ou escudo. Leonardo respondeu com uma pintura de serpentes soltando fogo - ou mesmo um dragão - tão terrível e mesmo assim tão surpreendente que SerPiero decidiu vender para um negociante de arte florentino que, por sua vez, a vendeu ao Duque de Milão. Enquanto isso, com parte do lucro da venda, SerPiero comprou uma placa, decorada com um coração penetrado por uma flecha, que ele deu ao camponês. Leonardo tornou-se um jovem instruído e sempre referido pelos estudiosos como dono de uma bela aparência de fartos cabelos louros e olhos claros, além de uma personalidade afável com o trato das pessoas.

Ateliê de Verrocchio, 1469–1476

O Batismo de Cristo (1472–1475)—Uffizi, de Verrocchio e Leonardo.
Na sua adolescência, Leonardo foi fortemente influenciado por duas grandes personalidades da época, Lourenço de Médici e o grande artista Andrea del Verrocchio. Em 1469, com dezessete anos, Leonardo passou a ser aprendiz de um dos mais bem-sucedidos artistas de seu tempo, Andrea di Cione, conhecido como Verrocchio (Olho verdadeiro). O ateliê de Verrocchio estava no centro das correntes intelectuais de Florença, o que garantiu ao jovem Leonardo uma educação nas ciências humanas. Outros pintores famosos que passaram por um aprendizado neste mesmo ateliê foram Domenico Ghirlandaio, Pietro Perugino, Sandro Botticelli e Lorenzo di Credi. Leonardo foi exposto desde cedo a uma vasta gama de técnicas, e teve a oportunidade de aprender desenho técnico, química, metalurgia, mecânica, carpintaria, a trabalhar com materiais como couro e metal, fazer moldes, além das técnicas artísticas de desenho, pintura, escultura e modelagem. Boa parte da produção de pinturas do ateliê de Verrocchio era feita por seus funcionários. De acordo com Vasari, Leonardo colaborou com Verrocchio em seu O Batismo de Cristo, pintando o jovem anjo da esquerda, que segura a túnica de Jesus de maneira tão superior ao seu próprio mestre que Verrocchio teria decidido nunca mais pintar. Isto provavelmente é um exagero; mas um exame atento da pintura mostra que existem diversos retoques feitos sobre a têmpera utilizando a nova técnica de pintura a óleo, como o cenário, as rochas que podem ser vistas ao fundo e boa parte da figura do próprio Jesus, todas testemunhas da mão de Leonardo. O próprio Leonardo pode ter sido o modelo para duas obras de Verrocchio, incluindo a estátua de bronze de David, no Bargello, e o Arcanjo em Tobias e o Anjo. Na altura apenas se disse que a estátua de David tinha sido inspirada num dos mais belos aprendizes do atelier de Verrocchio. Em 1472, com vinte anos de idade, Leonardo se qualificou para o cargo de mestre na Guilda de São Lucas, uma guilda de artistas e doutores em medicina, porém mesmo depois de seu pai ter montado seu próprio ateliê, sua ligação com Verrocchio permaneceu tanta que ele continuou a colaborar com ele. Aos poucos, as pessoas da corte passam a fazer encomendas diretamente a Leonardo. Sua obra mais antiga a ser datada é um desenho em pena e tinta do vale do Arno, feito em 5 de Agosto de 1473.

Vida profissional, 1476–1513


A Adoração dos Magos, (1481–1482)—Uffizi. Em Março de 1481, a Leonardo foi encomendada esta pintura, pelos monges de São Donato Scopeto em Florença. O notário do mosteiro era o pai de Leonardo, e é muito provável que tenha induzido os monges a contratar seu filho.

Em 1476, Leonardo da Vinci, juntamente com mais três alunos do ateliê de Verrocchio, foram acusados de sodomia; segundo a acusação referente a Leonardo, ele teria tido relações homossexuais com Jacopo Saltarelli, um jovem de 17 anos muito popular à época em Florença como prostituto. Diante, no entanto, da falta de provas concretas que confirmassem semelhante acusação, Leonardo foi absolvido. A partir desta data até 1478 não existem registros nem de obras suas nem de seu paradeiro, embora se costuma presumir que Leonardo tenha estado no ateliê, em Florença, entre 1476 e 1481. Em 1478 foi-lhe encomendada a pintura de um retábulo para a Capela de São Bernardo, e a Adoração dos Magos, em 1481, para os monges de San Donato a Scopeto. Esta importante comissão foi interrompida com a ida de Leonardo para Milão. Em 1482 Leonardo, que de acordo com Vasari era um músico muito talentoso, criou uma lira de prata, com a forma da cabeça de um cavalo. Lourenço de Médici, dito "il Magnifico", grande humanista, enviou Leonardo, a portar a lira como um presente, a Milão, para selar a paz com Ludovico Sforza (dito il Moro, "o Mouro"), Duque de Milão não oficial. Foi nesta época que
Leonardo da Vinci na presença do Duque de Milão Ludovico Sforza, afresco de Nicola Cianfanelli.
Leonardo da Vinci escreveu uma carta a Ludovico, citada frequentemente, na qual ele descreve as coisas diversas e maravilhosas que ele conseguia realizar no campo da engenharia, e informando o seu senhor que ele também podia pintar. Leonardo continuou a trabalhar em Milão, entre 1482 e 1499. Recebeu a encomenda de pintar a Virgem dos Rochedos para a Confraria da Imaculada Conceição, e a Última Ceia para o mosteiro de Santa Maria delle Grazie. Enquanto vivia em Milão, entre 1493 e 1495, Leonardo listou uma mulher, chamada Caterina, entre seus dependentes, nas suas declarações de imposto de renda. Quando ela morreu, em 1495, a lista dos gastos com o funeral sugere que ela pode ter sido sua mãe.Trabalhou em diversos projetos para Ludovico, incluindo o preparo de carros alegóricos e desfiles para ocasiões especiais, o projeto de uma cúpula para a Catedral de Milão, e um modelo de um imenso monumento equestre para Francesco Sforza, o antecessor de Ludovico. Setenta toneladas de bronze foram separadas para a sua confecção; o monumento permaneceu inacabado por diversos anos, o que não foi comum na carreira de Leonardo. Em 1492 um modelo de argila foi terminado; ele era maior, em tamanho, que as duas únicas estátuas equestres do Renascimento, a estátua de Gattemelata, em Pádua, e a de Bartolomeo Colleoni, de Verrocchio, em Veneza, e ficou conhecido como o Gran Cavallo”. Leonardo começou a fazer os projetos detalhados para a sua fundição; Michelangelo (Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni), no entanto, sugeriu, de maneira indelicada, que Leonardo seria incapaz de fazê-lo. Em Novembro de 1494 Ludovico usou o bronze para fabricar canhões, visando defender a cidade da invasão de Carlos VIII da França. No início da Segunda Guerra Italiana, em 1499, as tropas invasoras francesas de Luís XII sucessor de
Estudo de um cavalo, dos diários de Leonardo — Royal Library, Castelo de Windsor.
Carlos VIII, utilizaram-se do modelo de argila do Gran Cavallo como alvo para praticar tiro. Com a deposição de Ludovico Sforza, Leonardo, juntamente com seu assistente, Salai, e seu amigo, o matemático Luca Pacioli, abandonou Milão e fugiu para Veneza, passando por Mântua, sendo que em Veneza foi empregado como arquiteto e engenheiro militar, planejando métodos de defender a cidade de um ataque naval. Ao retornar para Florença, em 1500, foi recebido, juntamente com sua família e criadagem, pelos monges servitas do mosteiro de Santissima Annunziata, onde tinha à sua disposição um ateliê. Foi ali que, de acordo com Vasari, ele criou o desenho da Virgem, o Menino, Sant'Ana e São João Batista- uma obra que conquistou tanta admiração que homens e mulheres, jovens e velhos vinham vê-la, em massa, como se estivessem frequentando um grande festival. Em 1502 Leonardo passou a trabalhar para César Bórgia, filho do Papa Alexandre VI, atuando como arquiteto e engenheiro militar, e viajando por toda a Itália com seu patrão; é nessa viagem que conhece Nicolau Maquiavel. Retornou à Florença, onde voltou a fazer parte da Guilda de São Lucas, em 18 de Outubro de 1503; recebeu a encomenda de um retrato: a Mona Lisa, e passou os dois anos seguintes desenhando e pintando um grande mural da Batalha de Anghiari para a Signoria, enquanto Michelangelo foi responsável pela peça que a acompanhava, A Batalha de Cascina. Ainda em Florença, em 1504, fez parte de um comitê formado para transferir, contra a vontade do próprio autor, Michelangelo, a célebre estátua do Davi. Em 1506 retornou a Milão. Muitos dos seus pupilos e seguidores mais importantes, no campo da pintura, ou o conheceram ou trabalharam com ele naquela cidade, incluindo Bernardino Luini, Giovanni Antonio Boltraffio e Marco D'Oggione. Seu pai morreu em 1504, e como resultado, em 1507 Leonardo teve de voltar à Florença para resolver com seus irmãos os problemas decorrentes da herança e das propriedades paternas. No ano seguinte retornou para Milão sobre solicitação do governador francês Charles d'Amboise, para resolver problemas de trabalhos inconclusos, onde passou a viver em sua própria casa, na região da Porta Orientale, na paróquia de São Bábila. Após mercenários suíços expulsarem os franceses em 1512, Massimiliano Sforza filho de Ludovico, ascende ao poder, e Leonardo fica sem patrono. No ano seguinte é convidado por Giuliano de Médici filho do il Magnifico, para viajar para Roma, que está sobre o controle do Papa Leão X, um Médici.

Velhice, 1513–1519

Clos Lucé, na França, onde Leonardo viveu seus últimos anos de vida, até morrer em 1519.
De Setembro de 1513 a 1516 Leonardo passou a maior parte do seu tempo vivendo no Belvedere, no Vaticano, em Roma, período durante o qual Rafael Sanzio e Michelangelo também estavam em atividade. Em Outubro de 1515, Francisco I da França reconquistou Milão; Leonardo estava presente no encontro entre Francisco I e o Papa Leão X, em 19 de Dezembro, ocorrido em Bolonha. Foi de Francisco que Leonardo recebeu a encomenda de construir um leão mecânico, que pudesse caminhar para a frente, e abrir seu peito, revelando um ramalhete de lírios. Em 1516 passou a trabalhar diretamente a serviço de Francisco, e foi-lhe concedido o solar de Clos Lucé, próximo à residência do rei, no Castelo de Amboise. Foi aqui que ele passou os três últimos anos de sua vida, acompanhado por seu amigo e aprendiz, o conde Francesco Melzi, e sustentado por uma pensão de totalizada 10.000 escudos. “LEONARDUS VINCIUS: QUID PLURA? DIVINUM INGENIUM, DIVINA MANUS, EMORI IN SINU REGIO MERUERE. VIRTUS ET FORTUNA HOC MONUMENTUM CONTINGERE GRAVISSIMIS IMPENSIS CURAVERUNT”.(Giorgio Vasari). Leonardo morreu em Clos Lucé, em 2 de Maio de 1519. Francisco havia se tornado um grande amigo; e Vasari relata que o rei segurava a cabeça de Leonardo em seus braços quando
A Morte de Leonardo da Vinci por Ingres (1818).
este morreu - embora a história, amada pelos franceses e retratada em pinturas românticas de artistas como
Jean Auguste Dominique Ingres e Angelica Kauffmann, possa ser mais lenda do que realidade. Vasari também conta que, em seus últimos dias, Leonardo teria pedido que um padre lhe fosse trazido, para que se confessasse e recebesse a extrema unção. De acordo com o que pediu em seu testamento, sessenta mendigos seguiram o seu cortejo. Foi enterrado na Capela de Saint-Hubert, no Castelo de Amboise. Melzi foi o principal herdeiro e inventariante, e recebeu, além de todo o dinheiro de Leonardo, todos os seus cadernos, ferramentas, sua biblioteca e seus objetos pessoais. Leonardo também se lembrou de seu antigo pupilo e companheiro, Salai, e de seu criado, Battista di Vilussis; cada um recebeu uma metade das vinhas de Leonardo, sendo que de Salai tornaram-se posses as pinturas que acompanhavam o mestre desde então. Seus irmãos também receberam terras, e sua criada recebeu um manto negro de bom material, com as bordas de pele. Cerca de vinte anos após a morte de Leonardo, o rei Francisco teria falado, segundo o escultor Benvenuto Cellini: “Nunca nasceu no mundo outro homem que soubesse tanto quanto Leonardo, nem tanto [por seus conhecimentos] de pintura, escultura e arquitetura, mas por ele ter sido um grande filósofo”.

Relacionamentos e influências

Florença – contexto social e artístico de Leonardo


As Portas do Paraíso, de Ghiberti (1425–1452), realizadas com o apoio de diversos artistas, eram motivo de orgulho na cidade.
Leonardo começou seu aprendizado com Verrocchio em 1466, no ano em que morreu o mestre do próprio Verrocchio, o grande escultor Donatello (Donato di Niccoló di Betto Bardi). O pintor Paolo Uccello, cujas experiências com a perspectiva influenciariam o desenvolvimento da pintura de paisagem, já era um homem de idade muito avançada, e os pintores Piero della Francesca e Fra Filippo Lippi, o escultor Luca della Robbia, e o arquiteto e escritor Leon Battista Alberti já estavam em seus sessenta anos de idade. Entre os artistas mais bem sucedidos da geração seguinte estavam, além do próprio professor de Leonardo, Verrocchio, Antonio Pollaiuolo e o escultor Mino de Fiesole, cujos bustos realistas são até hoje as evidências mais confiáveis da aparência real do pai de Lourenço de Médici, Piero, e de seu tio, Giovanni. Leonardo passou sua juventude numa Florença decorada pelas obras destes artistas, e pelos contemporâneos de Donatello, como Masaccio (Tommaso di Ser Giovanni di Mone [Simone] Cassai)- cujos afrescos figurativos estavam imbuídos de realismo e emoção, ou de Lorenzo Ghiberti, cujas Portas do Paraíso, folheadas a ouro, mostravam a arte da combinação de composições figurativas complexas com fundos arquitetônicos ricamente detalhados. Piero della Francescafez um estudo detalhado da perspectiva, e foi o primeiro pintor a fazer um estudo científico da luz. Estes estudos, juntamente com o Trattato de Leone Battista Alberti, teriam um efeito profundo nos artistas mais jovens, e especialmente nas próprias observações e obras de Leonardo. A Expulsão do Jardim do Éden, de Massaccio, mostrando Adão e Eva nus e transtornados, abandonando o Jardim do Éden, criou uma imagem tremendamente expressiva da forma humana, representada em três dimensões através do uso de luz e sombra - algo que seria desenvolvido nas obras de
Pequena Madona e o Menino de Verrocchio, c. 1470
Leonardo a ponto de influenciar a história da pintura a partir de então. As influências humanistas do Davi de Donatello podem ser vistas nas pinturas da velhice de Leonardo, em especial o São João Batista. Uma tradição recorrente em Florença era a de pequenos retábulos retratando a Virgem e o Menino. Muitas eram feitas em têmpera ou terracota vitrificada, pelos ateliês de Filippo Lippi, Verrocchio e da prolífica família della Robbia. As primeiras madonas de Leonardo, como A Virgem do Cravo e Virgem Benois seguiram nesta tradição, embora mostrassem diferenças idiossincráticas, especialmente no caso da Virgem Benois, na qual a Virgem está retratada num ângulo oblíquo ao espaço do quadro, com o Menino Jesus num ângulo oposto. O mesmo tema reapareceria em diversas pinturas posteriores de Leonardo, como A Virgem e o Menino com Santa Ana. Leonardo foi contemporâneo de Botticelli, Ghirlandaio e Perugino, embora fossem um pouco mais velhos que ele. Teria conhecido todos no atelier de Verrocchio, com quem eles tinham ligações, e na Academia dos Médici. Botticelli era especialmente preferido pela família Médici, e seu sucesso como pintor era praticamente garantido. Ghirlandaio e
Peça central de O Retábulo de Portinari, de Hugo van der Goes, feito para uma família florentina.
Perugino eram prolíficos, e também gerenciavam grandes ateliês; foram responsáveis por comissões realizadas com competência, para patronos satisfeitos, que apreciavam a habilidade de Ghirlandaio de retratar os cidadãos ricos de Florença em grandes afrescos religiosos, e a habilidade de Perugino em criar multidões de santos e anjos de inescapável doçura e inocência.Estes três estavam entre os que foram comissionados para pintar as paredes da Capela Sistina, no Vaticano, obra que havia sido iniciada por Perugino em 1479. Leonardo não fez parte desta comissão de prestígio; sua primeira encomenda significante, a Adoração dos Magos, para os monges de Scopeto, nunca foi terminada. Em 1476, durante o período em que Leonardo esteve ligado ao atelier de Verrocchio, o pintor flamengo Hugo van der Goes chegou em Florença, trazendo o Retábulo de Portinari e as novas técnicas de pintura do Norte da Europa que afetariam profundamente os pintores florentinos do período. Em 1479 o pintor siciliano Antonello da Messina, que trabalhava exclusivamente com óleos, viajou para o norte, em direção a Veneza, onde o principal pintor da cidade, Giovanni Bellini, também adotara a técnica da pintura a óleo, transformando-a rapidamente na técnica preferida do local. Leonardo também visitaria Veneza algum tempo depois. Como dois arquitetos contemporâneos, Bramante (Donato di Angelo del Pasciuccio) e Antonio da Sangallo, o Velho, Leonardo experimentou com projetos para igrejas planejadas centralmente, diversas das quais aparecem em seus diários, tanto em plantas quanto vistas - embora nenhum destes projetos tenha chegado a ser posto em prática. Os contemporâneos políticos de Leonardo foram Lourenço de Médici (il Magnifico), três anos mais velhos que ele, e seu popular irmão mais novo, Giuliano, morto na Congiura dei Pazzi de 1478. Ludovico Sforza (il Moro), que governou Milão entre 1479 e 1499, período durante o qual Leonardo foi enviado
Lourenço de Médici entre Antonio Pucci e Francesco Sassetti, afresco de Ghirlandaio.
como embaixador em nome da corte dos Médici, também tinha aproximadamente a mesma idade.
Juntamente com Alberti, Leonardo passou a frequentar o lar dos Médici, e através deles conheceu filósofos humanistas como Marsilio Ficino, proponente do neoplatonismo, Cristoforo Landino, autor de comentários sobre os escritos da Antiguidade Clássica, e João Argyropoulos, professor de grego e tradutor das obras de Aristóteles. Outro contemporâneo de Leonardo que também teve seu nome associado à Academia dos Médici foi o jovem e brilhante poeta e filósofo Pico della Mirandola. Leonardo escreveu mais tarde, na margem de um de seus diários: "Os Médici me fizeram, e os Médici me destruíram". Embora tenha sido através de Lourenço que Leonardo receberia importantes trabalhos em Milão, não se sabe o que ele quis dizer exatamente com este comentário críptico. Embora costumem ser agrupados como os três gigantes do Alto Renascimento, Leonardo, Michelangelo e Rafael não pertenceram à mesma geração. Leonardo tinha vinte e três anos quando Michelangelo nasceu, e trinta e um no nascimento de Rafael, este último teve uma vida curta, morrendo em 1520, no ano após a morte de Leonardo; já Michelangelo continuou criando por mais 45 anos.

Vida pessoal

Estudo para um retrato de Isabella d'Este (1500) Louvre.
Ao longo da vida de Leonardo, seu extraordinário poder de inventividade, sua "espetacular beleza física", "graça infinita", "grande força e generosidade", "espírito régio e tremendo alcance mental", como foram descritos por Vasari, atraíram a curiosidade daqueles que o cercavam. Diversos autores especularam sobre os vários aspectos da personalidade de Leonardo; um deles, a sua adoção de éticas e práticas pessoais, que podem ser ocasionadas de sua crescente admiração pela natureza e suas criaturas, como pode ser exemplificado por seu vegetarianismo e o hábito, descrito também por Vasari, de comprar pássaros engaiolados e libertá-los. Leonardo teve muitos amigos que se tornaram profissionais renomados em seus campos, ou que são célebres até hoje por sua importância histórica. Entre eles está o matemático Luca Pacioli, com quem ele colaborou num livro na década de 1490, assim como Franchinus Gaffurius e Isabella d'Este, a grande dama do Renascimento. Com a exceção desta última, Leonardo parece não ter se relacionado intimamente com mulheres. Isabella foi retratada por ele durante uma viagem que levou-os a Mântua; o retrato teria sido usado como rascunho para uma pintura, que não existe mais. Além de suas amizades, Leonardo mantinha sua vida privada em segredo. Sua sexualidade foi alvo freqüente de estudos, análises e especulações. Esta tendência já se iniciou no meio do século XV, e tomou novo ímpeto nos séculos XIX e XX, especialmente a partir de Sigmund Freud.

Assistentes e pupilos

Salai, criado de Leonardo da Vinci, como São João Batista (c. 1514) — Louvre.
Os relacionamentos mais íntimos de Leonardo foram com seus dois pupilos, Gian Giacomo Caprotti da Oreno, apelidado Salai ou il Salaino ("pequeno diabo" na gíria da época), que entrou para o seu convívio familiar em 1490. Depois de apenas um ano, Leonardo fez uma lista de suas contravenções, chamando-o de "um ladrão, um mentiroso, teimoso, e glutão", depois de ele ter roubado dinheiro e objetos de valor em pelo menos cinco ocasiões, e gastar uma fortuna em roupas. Ainda assim, em seus primeiros anos, os cadernos de Leonardo contêm diversas pinturas do estudante, que permaneceu como parte da família de Leonardo pelos trinta anos seguintes. Salai também fez uma série de pinturas, sob o nome de Andrea Salai; embora Vasari tenha alegado que Leonardo "ensinou-lhe muito sobre pintura", sua obra é geralmente considerada como tendo um mérito artístico menor do que outros pupilos de Leonardo, como Marco d'Oggione e Giovanni Antonio Boltraffio. Em 1515 Salai pintou uma versão nua da Mona Lisa, conhecida como Mona Vanna. O próprio Salai era proprietário da Mona Lisana ocasião de sua morte, em 1525, e em seu testamento ela foi estimada em 505 liras, um valor excepcionalmente alto para um pequeno retrato. Em 1506 Leonardo acolheu outro pupilo, o conde Francesco Melzi, filho de um aristocrata da Lombardia. Melzi, estudante predileto de Leonardo, viajou com o tutor para a França, onde esteve ao seu lado durante todo o fim de sua vida. Com a morte de Leonardo, Melzi herdou as coleções, manuscritos e obras artísticas e científicas de Leonardo, patrimônio que ele administrou fielmente a partir de então.

Obra artística

Esboço a carvão para Última Ceia.
Quando ouvimos os sinos, ouvimos aquilo que já trazemos em nós mesmos como modelo. Sou da opinião que não se deverá desprezar aquele que olhar atentamente para as manchas da parede, para os carvões sobre a grelha, para as nuvens, ou para a correnteza da água, descobrindo, assim, coisas maravilhosas. O gênio do pintor há-de se apossar de todas essas coisas para criar composições diversas: luta de homens e de animais, paisagens, monstros, demônios e outras coisas fantásticas. Tudo, enfim, servirá para engrandecer o artista”.(Leonardo da Vinci).

Introdução

Pintura inacabada de São Jerônimo no Deserto, (c. 1480), Palácio Apostólico, Vaticano.
Apesar do recente interesse e admiração por Leonardo como cientista e inventor, durante mais de quatrocentos anos a sua enorme fama apoiou-se nos seus feitos como pintor e num punhado de obras, autenticadas ou atribuídas a ele, que têm sido vistas desde então como algumas das obras-primas supremas já criadas pelo homem. Estas pinturas ficaram famosas por uma série de qualidades que foram muito imitadas por estudantes e discutidas extensivamente por conhecedores e críticos. Entre algumas destas qualidades que tornam a obra de Leonardo única estão as técnicas inovadoras que ele usou na aplicação da tinta, seu conhecimento detalhado de anatomia, luz, botânica e geologia, seu interesse na fisiognomonia e na maneira pelo qual os humanos registram emoções em suas expressões e gestos, seu uso inovador da forma humana em composições figurativas, e o uso da graduação sutil da tonalidade. Todas estas qualidades encontram-se reunidas em suas obras mais famosas, como a Mona Lisa, A Última Ceia e a Virgem dos Rochedos. A Última Ceia (L'ultima Cena ou Cenacolo), em Milão, é uma das mais conhecidas pinturas atribuídas a da Vinci, exposta no refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie e tema central da obra O Código da Vinci de Dan Brown, assim como a Mona Lisa (também conhecida como La Gioconda, exposta no Museu do Louvre, em Paris). Leonardo não foi um pintor prolífico, mas foi o mais prolífico desenhista (projetista), mantendo diários cheios de pequenos rascunhos e desenhos detalhados registrando todas as coisas que lhe chamavam atenção. Juntamente com os diários, existem diversos estudos de pinturas, alguns dos quais podem ser identificados como preparações para trabalhos específicos como A Adoração dos Magos, a Virgem dos Rochedos e A Última Ceia. Seu desenho mais antigo, é o Vale do Arno (1473), que ostenta as montanhas
A Virgem, o Menino, Sant'Ana e São João Batista (1499–1500) — National Gallery, Londres.
tão frequentes em suas obras.
Entre seus desenhos mais famosos está o Homem Vitruviano, um estudo das proporções do corpo humano, e a Cabeça de Anjo, esboço de Uriel em A Virgem dos Rochedos, no Louvre, e um grande desenho em giz, A Virgem, o Menino, Sant'Ana e São João Batista, na National Gallery em Londres. Este desenho emprega efeito sutil do sfumato, técnica de sombreado presente em Mona Lisa. Pensa-se que Leonardo nunca fez uma pintura a partir dele, mas há uma notável semelhança com a pintura A Virgem e o Menino com Santa Ana, atualmente no Louvre. Outros desenhos de interesse incluem numerosos estudos geralmente referidos como "caricaturas", porque, embora exagerados, parecem ser baseados em observação de modelos vivos, como Cabeças Grotescas. Vasari refere que, se Leonardo encontrar-se pessoas com personalidade interessante, ele iria acompanhá-las o dia todo observando. Existem numerosos estudos de belos jovens, muitas vezes associados a Salai, com sua rara e muito admirada beleza facial, o então chamado "perfil grego". Outros estudos muito detalhados são os de roupagens, um bom exemplo é o macabro Retrato de Bernardo di Bandino Baroncelli Executado, em que com desapaixonada integridade Leonardo descreve as vestes do participante da Congiura dei Pazzi (Conspiração dos Pazzi foi uma tentativa dessa família de banqueiros florentinos, chefiada por Giacomo Pazzi, de tomar o poder à família Médici, na época, em poder dos irmão Julianoe Lourenço de Médici).

Leonardo da Vinci


Referências