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domingo, 31 de maio de 2015

Biografia de Plotino


Plotino
Πλωτῖνος
Plotino. (em grego: Πλωτῖνος). Nasceu em Licopólis, Egito, Império Romano, em torno de 204/5, e, faleceu em Campânia, Itália, Império Romano, em 270. Plotino foi um filósofo neoplatônico, autor de “Enéadas”, discípulo de Amônio Sacas por onze anos e mestre de Porfírio. *Encontrando-se com Amônio Sacas (Sacas é geralmente considerado o fundador do neoplatonismo), despertou para a filosofia. Escreve o Prof. Herculano Pires: “Plotino correspondia precisamente aos anseios da época. Oferecia aos homens a esperança de uma vida pura e perfeita, fora dos tormentos e das imperfeições do mundo. Abria-lhes uma perspectiva de salvação. E ao mesmo tempo criava uma ética religiosa, que implicaria o esforço constante das criaturas para se libertarem dos seus desejos e apetites, das suas paixões desvairadas”.



Biografia



Grego nascido no Egito em Licópolis, "Lyco" do grego significa "lobo" (em grego: λύκος, lykos), a mesma raiz que deu origem ao Liceu de Aristóteles ("o local do lobo") no Egito, o que levou a especulações de que ele pode ter sido um egípcio de Roma descendente de gregos ou egípcios helenizados.



Expedição à Pérsia e retorno a Roma



Depois de passar os 11 anos em Alexandria, na idade de 38 anos, Plotino decidiu investigar os ensinamentos filosóficos da Filosofia iraniana e Filosofia indiana. Na busca desse esforço ele deixou Alexandria e se juntou ao exército de Gordiano III, uma vez que este marchava sobre a Pérsia. No entanto, a campanha foi um fracasso e na eventual morte de Gordiano, Plotino se encontrou abandonado em uma terra hostil e com alguma dificuldade encontrou seu caminho de volta para a segurança em Antioquia. Com a idade de quarenta anos, durante o reinado de Filipe, o Árabe, retornou Roma, onde permaneceu durante a maior parte do resto de sua vida. Lá, atraiu um número de alunos. Seu círculo mais íntimo incluiu Porfírio, Amélio da Toscana, o senador Castro Firmo e Eustáqui de Alexandria, um médico que se dedicou ao aprendizado de Plotino e que o assistiu até a sua morte. Outros alunos foram: Zeto, um árabe por ascendência, que morreu antes de Plotino deixando-lhe um legado e um pouco de terra, Zótico, crítico e poeta, Paulino, um médico de Sitopólis e Serapião de Alexandria. Ele tinha alunos entre o senado romano além de Castro, como Marcelo Oronto, Sabinilo e Rogaciano. Algumas mulheres também foram contadas entre os seus alunos, incluindo Gemina, em cuja casa ele viveu durante a sua residência em Roma, e sua filha, também Gemina, e Anficlea, a esposa de Aristão filho de Jâmblico (Iamblichus Chalcidensis). Conta Eunápio de Sárdis que Porfírio, após haver estudado com Plotino, tomou horror ao próprio corpo e velejou para a Sicília, seguindo a rota de Odisseu, e ficou em um promontório da ilha, sem se alimentar e evitando o caminho do homem; Plotino, que ou o estava seguindo ou recebeu informações sobre o jovem discípulo, foi até ele e o convenceu com suas palavras, de modo que Porfírio voltou a reforçar seu corpo para sustentar sua alma. Os critérios editoriais de Porfírio, possivelmente, tinham por objetivo formar uma série que ‎mostrasse o caminho para a sabedoria. Nas palavras de Dominic J. O'Meara: “Com isso Porfírio quis ‎oferecer ao leitor uma passagem pelos escritos de Plotino que lhe traria uma formação ‎filosófica, uma condução até o bem absoluto. O alvo geral da leitura e interpretação dos textos ‎nas escolas do Império era, em primeira linha, a transformação da vida, a cura da alma, a ‎condução para uma vida boa resultante disso”. ‎Porfírio informa que Plotino tinha 66 anos quando morreu em 270, o segundo ano do reinado do imperador Cláudio II, dando-nos assim o ano de nascimento do seu professor como ao redor 205, em Minturno, já foi sugerido também que possa ter nascido na Alexandria. A influência de Plotino e dos neoplatônicos sobre o pensamento cristão, islâmico e judaico foi representativa para escritores como Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Santo Agostinho, Pseudo-Dionísio (o Areopagita), Boécio (Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius), João Escoto Erígena, Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, Dante Alighieri, Mestre Eckhart (Eckhart de Hochheim), Johannes Tauler, Nicolau de Cusa, São João da Cruz, Marsílio Ficino, Pico de la Mirandola, Giordano Bruno, Avicena, Ibn Gabirol, Baruch de Espinoza, Gottfried Wilhelm Leibniz, Samuel Taylor Coleridge, Henri Bergson e Máximo (o Confessor).



Teoria



Plotino dividia o Universo em três hipóstases: o Uno, o Nous (ou mente) e a Alma.

Uno - primeira hipóstase

Segundo Plotino, o Uno refere-se a Deus, dado que sua principal característica é a indivisibilidade. “É em virtude do Uno (unidade) que todas as coisas são coisas”. (Plotino, Enéada VI, 9º tratado).

Nous - segunda hipóstase

Nous, termo filosófico grego que não possui uma transcrição direta para a língua portuguesa, e que significa atividade do intelecto ou da razão em oposição aos sentidos materiais. Muitos autores atribuem como sinônimo a Nous os termos "Inteligência" ou "Pensamento". O significado ambíguo do termo é resultado de sua constante apropriação por diversos filósofos, para denominar diferentes conceitos e idéias. Nous refere-se, dependendo do filósofo e do contexto, algumas vezes a uma faculdade mental ou característica, outras vezes correspondente a uma qualidade do universo ou de Deus.

  • Homero usou o termo nous significando atividade mental em termos gerais, mas no período pré-Socrático o termo foi gradualmente atribuído ao saber e a razão, em contraste aos sentidos sensoriais.
  • Anaxágoras descreveu nous como a força motriz que formou o mundo a partir do caos original, iniciando o desenvolvimento do cosmo.
  • Platão definiu nous como a parte racional e imortal da alma. É o divino e atemporal pensamento no qual as grandes verdades e conclusões emergem imediatamente, sem necessidade de linguagem ou premissas preliminares.
  • Aristóteles associou nous ao intelecto, distinto de nossa percepção sensorial. Ele ainda dividiu-o entre nous ativo e passivo. O passivo é afetado pelo conhecimento. O ativo é a eterna primeira causa de todas as subsequentes causas no mundo.
  • Plotino descreveu nous como sendo umas das emanações do ser divino.


Alma - terceira hipóstase

Na Teosofia, a alma é associada ao 5º princípio do Homem, Manas, a Alma Humana ou Mente Divina. Manas é o elo entre o espírito (a díade Atman-Budhi) e a matéria (os princípios inferiores do Homem). Assim, a constituição sétupla do Homem, aceita na Teosofia, adapta-se facilmente a um sistema com três elementos: Espírito, alma e corpo. Sendo a alma o elo entre o Espírito e o corpo do homem.



Enéadas (obra)



As Enéadas, por vezes abreviado para Enéadas (em grego antigo: Ἐννεάδες) é a coleção de escritos de Plotino que foi editada e compilada por seu discípulo Porfírio por volta de 270. A obra é formada por seis livros, cada uma composta por nove seções, o que dá origem ao nome “enéada”, nesta compilação está o polêmico escrito “Contra os Cristãos”.



Conteúdo

Os nomes dos tratados podem diferir de acordo com a tradução. Os números entre colchetes antes dos trabalhos individuais referem-se a ordem cronológica em que foram escritas de acordo com Vida de Plotino, de Porfírio.

Primeira enéada


  • I.1 [53] - "O que é o ser vivo e o que é o Homem?"
  • I.2 [19] - "Sobre a Virtude"
  • I.3 [20] - "Sobre Dialética [do modo para cima]"
  • I.4 [46] - "Sobre a verdadeira felicidade (Bem Estar)"
  • I.5 [36] - "Sobre se felicidade (Bem Estar) aumenta com o tempo"
  • I.6 [1] - "Sobre a beleza"
  • I.7 [54] - "Sobre o Bem primal e formas secundárias do bem [Caso contrário, "Sobre a felicidade"]
  • I.8 [51] - "Sobre a natureza e a origem do mal"
  • I.9 [16] - "Sobre a despedida"

Segunda enéada


  • II.1 [40] - "Sobre o céu"
  • II.2 [14] - "Sobre o movimento dos céus"
  • II.3 [52] - "Se as estrelas são causas"
  • II.4 [12] - "Sobre a matéria"
  • II.5 [25] - "Sobre a potencialidade e a atualidade"
  • II.6 [17] - "Sobre a qualidade ou sobre a substância"
  • II.7 [37] - "Sobre a completa transfusão"
  • II.8 [35] - "Sobre a visão ou como objetos distantes parecem pequenos"
  • II.9 [33] - "Contra aqueles que afirmam ser o Criador do Cosmos e o Cosmos serem mal: [comumente chamada de "Contra os gnósticos"].

Terceira enéada


  • III.1 [3] - "Sobre o Destino"
  • III.2 [47] - "Sobre a providência (1)."
  • III.3 [48] - "Sobre a providência (2)."
  • III.4 [15] - "Sobre nosso Espírito Guardião atribuído"
  • III.5 [50] - "Sobre o Amor"
  • III.6 [26] - "Sobre a impassividade do incorpóreo"
  • III.7 [45] - "Sobre a Eternidade e Tempo"
  • III.8 [30] - "Sobre a natureza, a contemplação e o Uno"
  • III.9 [13] - "Considerações isoladas"

Quarta enéada


  • IV.1 [21] - "Sobre a essência da alma (2)"
  • IV.2 [4] - "Sobre a essência da alma (1)"
  • IV.3 [27] - "Sobre a essência da alma (1)"
  • IV.4 [28] - "Sobre a essência da alma (2)"
  • IV.5 [29] - "Sobre os problemas da alma (3)” [ou ainda "Sobre a visão"].
  • IV.6 [41] - "Sobre senso-percepção e memória"
  • IV.7 [2] - "Sobre a imortalidade da alma"
  • IV.8 [6] - "Sobre a descida da alma no corpo"
  • IV.9 [8] - "São todas as almas uma só?"

Quinta enéada


  • V.1 [10] - "Sobre as três hipóstases primárias"
  • V.2 [11] - "Sobre a origem e Ordem dos Seres seguintes após o Primeira"
  • V.3 [49] - "Sobre a hipóstase conhecida e o que está além"
  • V.4 [7] - "Como aquele que vem após o primeira vem do primeiro, e sobre o Uno."
  • V.5 [32] - "Que os seres intelectuais não estão fora do Intelecto, e sobre o Bem"
  • V.6 [24] - "No fato de que aquilo que está além do ser não pensar, sobre o que é o primário e o Princípio do Pensamento secundário"
  • V.7 [18] - "Sobre se há idéias de seres particulares"
  • V.8 [31] - "Sobre a beleza inteligível"
  • V.9 [5] - "Sobre o intelecto, as formas e o ser"

Sexta enéada


  • VI.1 [42] - "Sobre os tipos de Ser (1)"
  • VI.2 [43] - "Sobre os tipos de Ser (2)"
  • VI.3 [44] - "Sobre os tipos de Ser (3)"
  • VI.4 [22] - "Sobre a presença do Ser, o Uno e o mesmo, em toda parte como um todo (1)"
  • VI.5 [23] - "Sobre a presença do Ser, o Uno e o mesmo, em toda parte como um todo (2)"
  • VI.6 [34] - "Sobre os números"
  • VI.7 [38] - "Como a multiplicidade de formas surgiu: e sobre o Bem"
  • VI.8 [39] - "Sobre o livre-arbítrio e a vontade do Uno"
  • VI.9 [9] - "Sobre o bem, ou o Uno"





Citações



  • Esforço-me para reunir o que há de divino em mim ao que há de Divino no Universo”.

- I am trying to make what is most divine in me rise back up to what is divine in the universe
- citado em "Plotinus, or, The simplicity of vision‎" - Página 45, Pierre Hadot - University of Chicago Press, 1998, ISBN 0226311945, 9780226311944 - 145 páginas.

Sobre


  • A alma só é bela pela inteligência, e as outras coisas, tanto nas ações como nas intenções, só são belas pela alma que lhes dá a forma da beleza”.

- Tratado das Enéadas.



Referências





quinta-feira, 6 de março de 2014

Biografia de Amônio Sacas


Amônio Sacas
Amônio Sacas. (grego antigo: Ἀμμώνιος Σακκᾶς) (c.175 - 240/242). Amônio Sacas foi um filósofo neoplatonista nascido de pais cristãos e mestre de Orígenes, defendeu com denodo que o cristianismo e o paganismo não diferiam em pontos essenciais. De acordo com a tradição, foi Amônio quem produziu o neoplatonismo na Alexandria, Amônio não publicou nada mas entre seus discípulos estão Orígenes, o pagão, Orígenes pai da igreja, Longino (Caio Cássio Longino) o mais famoso crítico estético e filósofo da época e obviamente Plotino, um fervoroso discípulo.

Vida e conexão com a Índia

Pouco se sabe sobre a vida de Amônio Sacas, o seu cognome "Sakkas" foi mal interpretado deliberadamente pelo Bispo Teodoreto (Teodoreto de Cirro) a fim de ridicularizar o professor neoplatônico altamente estimado, como significando "sakkos", "saco", insinuando que ele deve ter começado como um estivador ignorante no porto da Alexandria. No entanto Erich Seeberg mostrou que o cognome refere-se à "Sakyas" da Índia, o clã dominante do qual Siddhartha Gautama também pertencia. O "Sakyas" eram conhecidos na antiguidade. O cognome "Sakkas", portanto, se refere à Índia como um marcador de identidade étnica. Isto é apoiado pelo fato de Amiano Marcelino referir-se a ele como "Sacas Amônio" e então "Amônio saciano", o que faz com que qualquer leitura como denotando "sakkos" seja impossível. Isso explica o relatório de Porfírio de que Plotino, estudante de Amônio, adquiriu sua alta estima pela filosofia indiana e seu desejo ansioso para viajar para a Índia a partir de Amônio. A interpretação de que "Sacas" denota origem indiana étnica do Norte, em vez de aludir a Gautama, apoia a possibilidade de que Amônio pode ter sido criado como cristão e voltou ao paganismo, como relatado por Eusébio, com base na obra Contra os Cristãos de Porfírio. Neste caso Amônio pode ter sido indiano de segunda geração que permaneceu em contato com a filosofia de seu país ancestral. A intensidade do comércio de bens e idéias entre Alexandria e na Índia torna esta uma opção totalmente possível. A interpretação errada da "Sakkas" para "sakkophoros", sendo gramaticalmente incorreto, é, portanto, nada mais do que polêmicas baratas que ficaram. A ligação com a Índia no entanto, explica não só a paixão de Plotino para com a Índia, mas também os acordos substanciais frequentemente observados e idéias compartilhadas entre Vedanta e Neoplatonismo, que estão cada vez mais atribuídas a uma ligação genética, ou seja, para conduzir a influência indiana.


Vedanta, também denominada Uttara Mimamsa, é uma tradição espiritual explicada nos Upanishads, que se preocupa principalmente com a auto-realização, através da qual se pode compreender qual a real natureza da realidade (Brahman).

A maioria dos detalhes de sua vida vem a partir de fragmentos de escritos deixados por Porfírio. O mais famoso discípulo de Amônio Sacas foi Plotino que estudou com Amônio por onze anos. De acordo com Porfírio, em 232, com a idade de 28, Plotino foi para Alexandria para estudar filosofia:

Em seu vigésimo oitavo ano de idade, ele [Plotino] sentiu o impulso de estudar filosofia e foi recomendado para os professores em Alexandria, que, em seguida, teve a mais alta reputação, mas ele saia de suas palestras tão deprimido e cheio de tristeza que contou sobre isso a um de seus amigos. O amigo, entendeu o desejo de seu coração, mandou para Amônio, a quem não tinha, até agora tentado. Ele foi e o ouviu, então disse ao seu amigo: "Este é o homem que eu estava procurando". A partir daquele dia ele ficou continuamente com Amônio e até completar uma formação na filosofia, tornando-se ansioso em conhecer a disciplina filosófica persa e a que prevalece entre os indianos.

 

Paganismo e alunos cristãos


De acordo com Porfírio, os pais de Amônio foram cristãos, mas ao tomar conhecimento da filosofia grega, Amônio rejeitou a religião de seus pais para paganismo. Esta conversão é contestada pelos escritores cristãos Jerônimo de Estridão e Eusébio de Cesareia, que afirmam que Amônio permaneceu um cristão ao longo de sua vida:

[Porfírio] claramente profere uma mentira (o que um opositor dos cristãos não faria?), Quando ele diz que... Amônio caiu de uma vida de piedade para costumes pagãos... Amônio percebia a inabalável e pura filosofia divina até o fim de sua vida. Suas obras ainda mostram isso e como ele é celebrado por muitos pelos escritos que deixou.

No entanto, sabemos através de Longino que Amônio não deixou escritos, e se Amônio foi mesmo a principal influência sobre Plotino, então é improvável que Amônio teria sido um cristão. Uma maneira de explicar grande parte da confusão sobre Amônio é assumir que haviam duas pessoas chamadas Amônio: Amônio Sacas que ensinava Plotino e Amônio, o cristão que escreveu textos bíblicos. Para aumentar a confusão, parece que Amônio tinha dois alunos chamados Orígenes: o Orígenes cristão e o Orígenes pagão.


Filosofia


Um escrito de Hiérocles de Alexandria do século V, afirma que a doutrina fundamental de Amônio era de que Platão e Aristóteles estavam de pleno acordo um com o outro:

Ele foi o primeiro a ter um zelo divino para a verdade na filosofia e desprezava os pontos de vista da maioria, que eram uma vergonha para a filosofia. Ele aprendeu bem os pontos de vista de cada um dos dois filósofos [Platão e Aristóteles], os trouxe sob um mesmo nous e transmitiu a filosofia sem conflitos a todos os seus discípulos e, especialmente, com o melhor de aqueles familiarizados com ele, Plotino, Orígenes e seus sucessores.

De acordo com Nemésio de Emesa, um bispo e neoplatonista c. 400, Amônio considerava que a alma era imaterial. Pouco se sabe sobre o papel de Amônio no desenvolvimento do neoplatonismo. Porfírio parece sugerir que Amônio foi fundamental para ajudar Plotino a pensar sobre a filosofia de novas maneiras:

Mas ele [Plotino] não falava apenas a partir desses livros, mas tomou uma linha pessoal distinta em sua consideração e trouxe a mente de Amônio "para suportar a investigação à sua disposição".

 

Referências

quarta-feira, 5 de março de 2014

Biografia de Hipátia de Alexandria


Hipátia, por Alfred Seifert, 1901.
Hipátia de Alexandria. (ou Hipácia; em grego: Υπατία, transliteração: Ypatía) (ca. AD 350–370–8 de Março de 415). Hipátia foi uma neoplatonista grega e filósofa do Egito Romano, a "primeira mulher documentada como sendo matemática". Como chefe da escola platônica em Alexandria, também lecionou filosofia e astronomia. Como neoplatonista, pertencia à tradição matemática da Academia de Atenas, representada por Eudoxo de Cnido e era da escola intelectual do pensador Plotino que a incentivou estudar Lógica e Matemática no lugar de investigação empírica e a estudar Direito em vez de ciências da natureza. De acordo com a única fonte contemporânea, Hipátia foi assassinada por uma multidão de cristãos depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes na Alexandria: o governador Orestes e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria. Kathleen Wider propõe que o assassinato de Hipátia marcou o fim da Antiguidade Clássica, e Stephen Greenblatt observa que o assassinato "efetivamente marcou a queda da vida intelectual na Alexandria". Por outro lado, Maria Dzielska e Christian Wildberg nota que filosofia helenística continuou a florescer nos séculos V e VI, e, talvez, até a era de Justiniano.

Biografia

Hipátia, por Julius Kronberg, 1889.
Hipátia era filha de Téon de Alexandria, um renomado filósofo, astrônomo, matemático, autor de diversas obras e professor em Alexandria. Criada em um ambiente de idéias e filosofia, tinha uma forte ligação com o pai, que lhe transmitiu, além de conhecimentos, a forte paixão pela busca de respostas para o desconhecido. Diz-se que ela, sob tutela e orientação paternas, submetia-se a uma rigorosa disciplina física, para atingir o ideal helênico de ter a mente sã em um corpo são. Hipátia estudou na Academia de Alexandria, onde devorava conhecimento: matemática, astronomia, filosofia, religião, poesia e artes. A oratória e a retórica também não foram descuidadas. Alguns autores pensam que, quando adolescente, viajou para Atenas, para completar a educação na Academia Neoplatônica, onde não demorou a se destacar pelos esforços para unificar a matemática de Diofanto com o neoplatonismo de Amônio Sacas e Plotino, isto é, aplicando o raciocínio matemático ao conceito neoplatônico do Uno (mônada das mônadas). Ao retornar, já havia um emprego esperando por ela em Alexandria: seria professora na Academia onde fizera a maior parte dos estudos, ocupando a cadeira que fora de Plotino. Aos 30 anos já era diretora da Academia, sendo muitas as obras que escreveu nesse período. Um dos seus alunos foi o notável filósofo e bispo Sinésio de Cirene (370 - 413), que lhe escrevia freqüentemente, pedindo-lhe conselhos. Através destas cartas, sabemos que Hipátia desenvolveu alguns instrumentos usados na Física e na Astronomia, entre os quais o hidrômetro. Sabemos também que desenvolveu estudos sobre a Álgebra de Diofanto (Sobre o Cânon Astronômico de Diofanto), tendo escrito um tratado sobre o assunto, além de comentários sobre os matemáticos clássicos, incluindo Ptolomeu. Em parceria com o pai, escreveu um tratado sobre Euclides. Ficou famosa por ser uma grande solucionadora de problemas. Matemáticos confusos, com algum problema em especial, escreviam-lhe pedindo uma solução. E ela raramente os desapontava. Obcecada pelo processo de demonstração lógica, quando lhe perguntavam porque jamais se casara, respondia que já era casada com a verdade. O seu fim trágico se desenhou a partir de 412, quando Cirilo foi nomeado Patriarca de Alexandria, título de dignidade eclesiástica, usado em Constantinopla, Jerusalém e Alexandria. Ele era um cristão fervoroso, que lutou toda a vida defendendo a ortodoxia da Igreja e combatendo as heresias, sobretudo o Nestorianismo, que negava a Divindade de Jesus Cristo e a Maternidade Divina de Maria.

Mudança do paradigma pagão para o cristão

Morte da filósofa Hipátia.
O reinado de Teodósio I (379-392) marca o auge de um processo de transformação do Cristianismo, que efetivamente se torna a religião oficial do estado. Em 391, atendendo pedido do então Patriarca de Alexandria, Teófilo, ele autorizou a destruição do Templo de Serápis (não confundir com o Museu e a Biblioteca existentes em Alexandria, que não tinham nenhuma relação física com este templo), um vasto santuário pagão onde eram oferecidos sacrifícios de sangue, segundo os relatos dos historiadores contemporâneos Sozomeno (Hermas Sozomenus) e Tirânio Rufino (Rufino de Aquileia). Embora a legislação de 393 procurasse coibir distúrbios, surtos de violência popular entre cristãos e pagãos tornaram-se cada vez mais frequentes em Alexandria, principalmente após a ascensão de Cirilo ao Patriarcado.

Morte

"Hipátia antes de ser morta na igreja", pintura de Charles William Mitchell, 1885.
De acordo com o relato de Sócrates, o Escolástico, numa tarde de Março de 415, quando regressava do Museu, Hipátia foi atacada em plena rua por uma turba de cristãos enfurecidos. Ela foi arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja, onde foi cruelmente torturada até a morte. Depois de morta, o corpo foi lançado a uma fogueira. Segundo o mesmo historiador, tudo isto aconteceu pouco tempo depois de Orestes, prefeito da cidade, ter ordenado a execução de um monge cristão chamado Amónio, ato que enfureceu o bispo Cirilo e seus correlegionários. Devido à influência política que Hipátia exercia sobre o prefeito, é bastante provável que os fiéis de Cirilo a tivessem escolhido como uma espécie de alvo de retaliação para vingar a morte do monge. Neste período em que a população de Alexandria era conhecida pelo seu caráter extremamente violento, Jorge de Laodiceia (m. 361) e Protério (m. 457), dois bispos cristãos, sofreram uma morte muito similar à de Hipátia: o primeiro foi atado a um camelo, esquartejado e os seus restos queimados; o segundo arrastado pelas ruas e atirado ao fogo. Dito isto, a eventual relação de Cirilo com o ocorrido continua a ser motivo de alguma controvérsia entre os historiadores. Embora Sócrates e Edward Gibbon afirmem que o episódio trouxe opróbrio para a Igreja de Alexandria, não mencionam qualquer envolvimento direto do patriarca. O filósofo pagão Damáscio, por sua vez, atribui explicitamente o assassinato ao patriarca, que invejaria Hipátia. Contudo, a Enciclopédia Católica lembra que Damáscio escreveu cerca de um século depois dos fatos e que os seus escritos manifestam um certo pendor anticristão. As últimas pesquisas crêem que o homicídio de Hipátia resultou do conflito de duas facções cristãs: uma mais moderada, ao lado de Orestes, e outra mais rígida, seguidora de Cirilo, responsável pelo ataque.

Presença de outras mulheres na filosofia

Também na Escola Pitagórica “ora integrada na sua vida particular (de Pitágoras), como esposa, ora simplesmente na vida da Escola, a presença marcante de uma mulher, Theano, que ocupou certamente um lugar de destaque nos primórdios do Pitagorismo. É também interessante destacar que Jâmblico, no seu catálogo de pitagóricos ilustres, elenca não uma, mas dezessete mulheres, e isso dentre as mais célebres que aderiram à sua doutrina”.

Obras

Nenhum trabalho escrito, amplamente reconhecido pelos estudiosos como da própria Hipátia, sobreviveu até o presente momento. Muitas das obras comumente atribuídas a ela se acredita-se ter sido obra de colaboração com o seu pai, Téon de Alexandria, esse tipo de incerteza autoral é típico dos filósofos do sexo feminino na Antiguidade.
Uma lista parcial das obras de Hipátia, como mencionado por outros autores antigos e medievais ou como postulado por autores modernos:


  • Um comentário sobre o volume 13 Arithmetica de Diophantus.
  • Um comentário sobre Cônicos de Apolônio de Pérgamo.
  • Editou a versão existente da obra Almagesto de Ptolomeu.
  • Editou o comentário de seu pai sobre a obra Os Elementos de Euclides.
  • Escreveu um texto O Cânone Astronômico.


Suas contribuições para a ciência incluem o mapeamento dos corpos celestes e supostamente a invenção do hidrômetro, utilizado para determinar a densidade relativa (ou massa específica) de líquidos. No entanto, o hidrômetro foi inventado antes de Hipátia e já era conhecido em seu tempo. Seu aluno Sinésio, bispo de Cirene, escreveu-lhe uma carta descrevendo a construção de um astrolábio. A existência do astrolábio antecede Sinésio em pelo menos um século, e o pai de Hipátia ganhou fama por seu tratado sobre o assunto. No entanto, Sinésio afirmou que se tratava de um modelo melhorado.


Citações

Atribuídas

- Estas afirmações, embora comumente atribuídas a Hipátia de Alexandria, são de fato da autoria original de Elbert Hubbard, escritor estadunidense que, no seu livro Little Journeys To The Homes Of Great Teachers, as colocou na boca da filósofa neoplatônica, de forma totalmente errônea e anacrônica.
Uma vez que não existem cópias dos escritos de Hipátia, não podemos com segurança atribuir-lhe qualquer citação.
  • "Compreender as coisas que nos rodeiam é a melhor preparação para compreender o que há mais além".
  • "Todas as formas religiosas dogmáticas são falaciosas e não devem ser aceitas por auto-respeito pessoal".
  • "Reserve o seu direito a pensar, mesmo pensar errado é melhor do que não pensar".
  • "Ensinar superstições como verdades é uma das coisas mais terríveis".
  • Governar acorrentando a mente através do medo de punição em outro mundo é tão baixo quanto usar a força”.


Sobre Hipátia


  • Sócrates, o Escolástico (em História Eclesiástica)
"Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Téon, que fez tantas realizações em literatura e ciência que ultrapassou todos os filósofos da época. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia a quem a ouvisse, e muitos vinham de longe receber os ensinamentos. Com um grande auto-controlo e descontração, que obteve como consequência do cultivo da sua mente, não raras vezes aparecia em público, na presença dos magistrados. Nem se coibia de comparecer numa assembleia de homens. Pois todos os homens a admiravam ainda mais devido à sua extraordinária dignidade e virtude. Mas até ela foi vítima da inveja política que ao tempo prevalecia. Ao manter diálogos frequentes com Orestes, foi caluniosamente relatado entre a populaça cristã que era ela que impedia Orestes de se reconciliar com o bispo. Por causa do zelo fanático de alguns deles, liderados por Pedro, o leitor, Hipátia foi arrancada da sua carruagem, quando voltava para casa, e foi arrastada até a igreja chamada Caesareum, onde lhe rasgaram as roupas e a mataram com ostras e pedaços de cerâmica. Depois de terem desmembrado o seu corpo, levaram os membros mutilados para um local chamado Cinaron e os queimaram. Este assunto trouxe não pequeno opróbrio quer a Cirilo, quer a toda a Igreja Alexandrina. E certamente que nada poderá estar mais distante do espírito do Cristianismo que a permissão de massacres, lutas e acontecimentos de tal ordem. Isto aconteceu no mês de Março, durante a Quaresma, durante o quarto ano do episcopado de Cirilo, sob o décimo consulado de Honório e o sexto de Teodósio."
  • Maria Dzielska em Hipátia de Alexandria:
"O conflito entre partidos cristãos alcançou proporções alarmantes nos anos 414-415. Orestes resistiu tenazmente às tentativas de Cirilo de invadir áreas de competência do poder civil. Manteve-se intransigente até mesmo no momento em que Cirilo tentou fazer as pazes. Cresceu entre os adeptos de Cirilo a suspeita de que Hipátia, amiga do prefeito, incitara e encorajara a resistência daquele. O patriarca sentiu-se ameaçado, e surgiram membros de vários grupos ligados à Igreja decididos a apoiá-lo. Os monges organizaram uma agressão contra Orestes, e os seguidores de Cirilo montaram insidiosamente uma intriga, difundindo rumores segundo os quais Hipátia se servia dos seus conhecimentos de magia e de práticas sortílegas satânicas para manter sob a sua influência o prefeito, «o povo de Deus» e o conjunto da cidade. A luta entre o patriarca e o prefeito em torno do poder político e da influência da Igreja sobre os assuntos seculares acabou por levar à morte de Hipátia. Hipátia é assassinada por partidários que servem a causa de Cirilo. A sua morte foi um crime político provocado por conflitos persistentes que se faziam sentir em Alexandria. Por meio da acção criminosa era eliminado um poderoso apoio de Orestes. O próprio Orestes não só desistiu da sua luta contra o patriarca, como deixou definitivamente Alexandria.".
  • Hesíquio, o hebreu, aluno de Hipátia:
"Vestida com o manto dos filósofos, abrindo caminho no meio da cidade, explicava publicamente os escritos de Platão e de Aristóteles, ou de qualquer filósofo a todos os que quisessem ouvi-la… Os magistrados costumavam consultá-la em primeiro lugar para administração dos assuntos da cidade".
  • Trecho de uma carta de Sinésio de Cirene , aluno de Hipátia:
"Meu coração deseja a presença de vosso divino espírito que mais do que tudo poderia adoçar minha amarga sorte. Oh minha mãe, minha irmã, mestre e benfeitora minha! Minha alma está triste. Mata-me a lembrança de meus filhos perdidos… Quando receber notícias tuas e souber, como espero, que estás mais feliz do que eu, aliviar-se-ão pelo menos a metade de minhas dores".
  • "Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e sua base era em Alexandria. Apesar das grandes chances de florescer, ela decaiu. Sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. Seu nome era Hipácia. Com uma sociedade conservadora à respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciência, e devido à Alexandria estar sob domínio romano, após o assassinato de Hipácia, em 415, essa biblioteca foi destruída. Milhares dos preciosos documentos dessa biblioteca foram em grande parte queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época."
- Carl Sagan em Cosmos
  • "Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Theon, que fez tantas realizações em literatura e ciência que ultrapassou todos os filósofos de seu tempo. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia a quem a ouvisse, e muitos vinham de longe receber seus ensinamentos."
- A Vida de Hipátia, por Sócrates, o Escolástico (em 'História Eclesiástica')


Bibliografia
  • Maria Dzielska, "Hipátia de Alexandria", Relógio d'Água, 1ª Edição, 2009, ISBN 978-989-6411-48-0
  • José Carlos Fernández, Viagem Iniciática de Hipátia: Na Demanda da Alma dos Números, Edições Nova Acrópole, 314 páginas, 1ª Edição: Janeiro de 2010, ISBN 978-972-9026-83-6
 

Representações na Arte

  • Filme Ágora (Alexandria no Brasil), de 2009, relatando sua vida, embora sem muita precisão histórica, como por exemplo ao confundir o Templo de Serápis com a Biblioteca e o Museu de Alexandria.


Referências