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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Chá de Hibisco

Chá de Hibisco
(pic: Meutia Chaerani / Indradi Soemardjan
http://www.indrani.net)
O chá de hibisco, especialmente o que é feito com as flores do Hibiscus sabdariffa, conhecido como vinagreira no Brasil, e como “sorrel” ou “roselle”, ou ainda “karkade” em Egípcio, é uma bebida. Na África ocidental, o “jus de bissap” é popular em todos os países e vendido como refresco nas ruas. É baseado num chá de flores de hibisco, hortelã, baunilha e sumo de laranja ou doutros frutos e servido com gelo, é por vezes considerado a “bebida nacional do Senegal”. Já no Brasil, o Hibisco costuma ser preparado com canela, cavalinha ou limão. Na Itália, o chá, conhecido como "carcade" ou "chá italiano" é geralmente bebido frio e açucarado. Muitas vezes, com suco de limão espremido na hora. Introduzido enquanto a Eritreia foi uma colônia italiana (1860-1941), uma vez que seu uso era muito mais difundido. Benito Mussolini promoveu o hábito de beber chá em vez de "arcade inglese", após as penalidades para a guerra na Etiópia que atingiu a Itália.

Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Chá_de_hibisco

sábado, 31 de agosto de 2019

Floresta Amazônica

Neil Palmer/CIAT

Amazônia (também chamada de Floresta Amazônica, Selva Amazônica, Floresta Equatorial da Amazônia, Floresta Pluvial ou Hileia Amazônica) é uma floresta latifoliada úmida que cobre a maior parte da Bacia Amazônica da América do Sul. Esta bacia abrange 7 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 5 milhões e meio de quilômetros quadrados são cobertos pela floresta tropical. Esta região inclui territórios pertencentes a nove nações. A maioria das florestas está contida dentro do Brasil, com 60% da floresta, seguida pelo Peru com 13% e com partes menores na Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e França (Guiana Francesa). Estados ou departamentos de quatro nações vizinhas do Brasil têm o nome de Amazonas por isso. A Amazônia representa mais da metade das florestas tropicais remanescentes no planeta e compreende a maior biodiversidade em uma floresta tropical no mundo. É um dos seis grandes biomas brasileiros. No Brasil, para efeitos de governo e economia, a Amazônia é delimitada por uma área chamada "Amazônia Legal" definida a partir da criação da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), em 1966. É chamado também de Amazônia o bioma que, no Brasil, ocupa 49,29% do território e abrange três das cinco divisões regionais do país (Norte, Nordeste e Centro-Oeste), sendo o maior bioma terrestre do país. Uma área de seis milhões de hectares no centro de sua bacia hidrográfica, incluindo o Parque Nacional do Jaú, foi considerada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em 2000 (com extensão em 2003), Patrimônio da Humanidade. A Floresta Amazônica foi pré-selecionada em 2008 como candidata a uma das Novas 7 Maravilhas da Natureza pela Fundação Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Em Fevereiro de 2009, a Amazônia foi classificada em primeiro lugar no Grupo. E, a categoria para as florestas, parques nacionais e reservas naturais.

Etimologia

Entre 1540 e 1542, Francisco de Orellana desceu o rio Amazonas em toda sua extensão, a partir dos Andes. O rio foi batizado de rio Orellana, mas era chamado pelos indígenas de Paraná-assú, dentre outros nomes. Alguns trabalham indicam também os nomes rio de la Canela, rio Grande de La Mar Dulce e rio Marañon. Orellana, através de Frei Gaspar de Carvajal, seu cronista, relata ter encontrado, na foz do rio Nhamundá no rio Amazonas, índias guerreiras, sem maridos, por ele denominadas Amazonas (e chamadas pelos índios de Icamiabas), em referência a uma lendária tribo de mulheres guerreiras da mitologia grega. A partir daí, o rio seria chamado rio das Amazonas. Em 1808, Alexander von Humboldt usaria o termo Hileia (Hylaea) para denominar a região. Inácio Accioli de Cerqueira e Silva (1833) a chamaria de país das Amazonas (termo popularizado pelo barão Frederico José de Santa Anna Néri, 1899), e Johann Moritz Rugendas (1835) de região do Amazonas. Carl von Martius (1858) a chamaria de Nayades. Johann Eduard Wappäus (1884) usaria os termos "zona equatorial", "mata tropical" ou "Hylaea do Amazonas".

Subdivisões

A conceito de Amazônia pode variar dependendo do ponto de vista (fisiográfico, geomorfológico, biogeográfico, político, de planejamento territorial, etc.), da mesma maneira, variam sua extensão, suas subdivisões e a terminologia utilizada.

Em biogeografia

Divisão fitogeográfica de Adolpho Ducke e O. A. Black (1954):
Setor Atlântico
Setor Nordeste
Setor Sudeste
Setor Norte
Setor Sul

Divisão fitogeográfica proposta por Carlos Toledo Rizzini (1963):
Província Amazônica (inclui Floresta amazônica e Campos do Alto Rio Branco)
Subprovíncia do Alto Rio Branco
Subprovíncia do Jari-Trombetas
Subprovíncia do Rio Negro
Subprovíncia da Planície Terciária

Esquema biogeográfico, por Juan J. Morrone (2001):
  • Região Neotropical
  • Sub-região Amazônica
  • Províncias: Napo, Imerí, Guiana, Guiana Úmida, Roraima, Amapá, Várzea, Ucayali, Madeira, Tapajós-Xingú, Pará, Pantanal, Yungas

Em ecologia da vegetação

Em termos de vegetação, Carl von Martius (1824) já citava a distinção, na região amazônica, entre "mato virgem" (florestas), "gabós" (igapós) e "campinas". Richard Spruce (1908) elencou os seguintes tipos de vegetação na Amazônia:
mato (ou floresta virgem, de terra firme, caa-guaçú, monte alto),
matinho (capoeiras, florestas recentes, rastrojos),
floresta de gapó (ou ripárias, igapós, rebalsas),
florestas baixas (ou brancas, caa-tingas, monte bajo),
savanas (ou campos),
caatinga-gapó.

Ducke e Black (1954) usaram as seguintes categorias:
Florestas
Mata da várzea
Mata da terra firme
Áreas abertas ou savanas
Campos da várzea
Campos firmes
Campinas
Campinaranas (transição entre campos e florestas)
Catingas do alto rio Negro

Braga (1979) adotou um esquema e nomenclatura ligeiramente diferentes:
Floresta de terra firme
Floresta de várzea
Floresta de igapó
Manguezais
Campos de várzea
Campos de terra firme
Campinas
Vegetação serrana
Vegetação de restinga

Tipos de vegetação por Rizzini (1997):
Florestas pluviais (= florestas húmidas)
Floresta amazônica (= Hileia)
Mata de várzea
Mata de terra firme
Igapó
Catingas do rio Negro

Tipos de vegetação presentes na região florística amazônica, segundo o IBGE (2012):
floresta ombrófila densa
floresta ombrófila aberta
floresta estacional sempre-verde
campinarana


História
Formação

A floresta provavelmente se formou durante o período Eoceno. Ela apareceu na sequência de uma redução global das temperaturas tropicais do Oceano Atlântico, quando ele tinha se alargado o suficiente para proporcionar um clima quente e úmido para a bacia amazônica. A floresta tropical tem existido por pelo menos 55 milhões de anos e a maior parte da região permaneceu livre por biomas do tipo savanas por, pelo menos, até a Era do Gelo Atual, quando o clima era mais seco e as savanas mais generalizadas. Após o evento da Extinção Cretáceo-Paleogeno, a subsequente extinção dos dinossauros e o clima mais úmido permitiram que a floresta tropical se espalhasse por todo o continente. Entre 65-34 milhões de anos atrás, a floresta se estendia até o sul do Paralelo 45 S. Flutuações climáticas durante os últimos 34 milhões anos têm permitido que as regiões de savana se expandam para os trópicos. Durante o período Oligoceno, por exemplo, a floresta tropical atravessou a faixa relativamente estreita que ficava em sua maioria acima da latitude 15°N. Expandiu-se novamente durante o Mioceno Médio e, em seguida recolheu-se a uma formação na maior parte do interior no último máximo glacial. No entanto, a floresta ainda conseguiu prosperar durante estes períodos glaciais, permitindo a sobrevivência e a evolução de uma ampla diversidade de espécies. Durante Mioceno Médio, acredita-se que a bacia de drenagem da Amazônia foi dividida ao longo do meio do continente pelo Arco de Purus. A água no lado oriental fluiu para o Atlântico, enquanto a água a oeste fluiu em direção ao Pacífico através da Bacia do Amazonas. Com o crescimento do Andes, no entanto, uma grande bacia foi criada em um lago fechado, agora conhecida como a Bacia do Solimões. Dentro dos últimos 5-10 milhões de anos, esta acumulação de água rompeu o Arco de Purus, juntando-se em um fluxo único em direção ao leste do Oceano Atlântico. Há evidências de que tenha havido mudanças significativas na vegetação da floresta tropical amazônica ao longo dos últimos 21 000 anos através do Último Máximo Glacial e a subsequente deglaciação. Análises de depósitos de sedimentos de paleolagos da Bacia do Amazonas indicam que a precipitação na bacia durante o UMG foi menor do que a atual e isso foi quase certamente associado com uma cobertura vegetal tropical úmida reduzida na bacia. Não há debate, no entanto, sobre quão extensa foi essa redução. Alguns cientistas argumentam que a floresta tropical foi reduzida para pequenos e isolados refugia, separados por floresta aberta e pastagens; outros cientistas argumentam que a floresta tropical permaneceu em grande parte intacta, mas muito se estendeu muito menos para o norte, sul e leste do que é visto hoje. Este debate tem-se revelado difícil de resolver porque as limitações práticas de trabalho na floresta tropical significam que a amostragem de dados é tendenciosa de acordo com a distância do centro da bacia amazônica e ambas as explicações são razoavelmente bem apoiadas pelos dados disponíveis.

Lendas

Diversas são as lendas relacionadas à Amazônia. O “Eldorado”, uma cidade cujas construções seriam todas feitas de ouro maciço e cujos tesouros existiriam em quantidades inimagináveis, e o “lago Parima” (supostamente a Fonte da juventude). Provavelmente estas duas lendas referem-se à existência real do Lago Amaçu, que tinha uma pequena ilha coberta de xisto micáceo, um material que produz forte brilho ao ser iluminado pela luz do sol e que produzia a ilusão de riquezas aos europeus.

Presença humana

Com base em evidências arqueológicas de uma escavação na Caverna da Pedra Pintada, habitantes humanos se estabeleceram na região amazônica pelo menos há 11.200 anos atrás. O desenvolvimento posterior levou a assentamentos pré-históricos tardios ao longo da periferia da floresta em 1.250 AD, o que induziu a alterações na cobertura florestal. Durante muito tempo, pensou-se que a floresta amazônica havia sido sempre pouco povoada, já que seria impossível sustentar uma grande população através da agricultura, devido à pobreza do solo da região. A arqueóloga Betty Meggers foi uma importante defensora desta ideia, tal como descrito em seu livro “Amazônia: Homem e Cultura em um Paraíso Falsificado”. Ela alegou que uma densidade populacional de 0,2 habitante por quilômetro quadrado era o máximo que poderia ser sustentado pela floresta tropical através da caça, sendo a agricultura necessária para acolher uma população maior. No entanto, recentes descobertas antropológicas têm sugerido que a região amazônica realmente chegou a ser densamente povoada. Cerca de 5 milhões de pessoas podem ter vivido na Amazônia no ano de 1500, divididos entre densos assentamentos costeiros, tais como em Marajó, e moradores do interior. Em 1900, a população tinha caído para 1 milhão e, no início dos anos 1980, era inferior a 200.000 pessoas. O primeiro europeu a percorrer o comprimento do rio Amazonas foi o espanhol Francisco de Orellana em 1542. O programa “Unnatural Histories”, da BBC, apresenta evidências de que Orellana, ao invés de exagerar em seus relatos, como se pensava anteriormente, estava correto em suas observações de que uma civilização complexa estava florescendo ao longo da Amazônia na década de 1540. Acredita-se que a civilização mais tarde foi devastada pela propagação de doenças provenientes da Europa, como a varíola. Desde os anos 1970, vários geoglifos foram descobertos em terras desmatadas datados entre o ano 0 e 1250, impulsionando alegações sobre civilizações pré-colombianas. Alceu Ranzi, geógrafo brasileiro, é creditado pela primeira descoberta de geoglifos enquanto sobrevoava o estado do Acre. A rede BBC apresentou provas de que a floresta amazônica, em vez de ser uma selva virgem, foi moldada pelos humanos há pelo menos 11.000 anos, através de práticas como a jardinagem florestal e a terra preta. A terra preta está distribuída por grandes áreas da floresta amazônica e é agora amplamente aceita como um produto resultante do manejo do solo pelos indígenas. O desenvolvimento deste solo fértil permitiu a agricultura e a silvicultura no antigo ambiente hostil, o que significa que grande parte da floresta amazônica é, provavelmente, o resultado de séculos de intervenção humana, mais do que um processo natural, como havia sido previamente suposto. Na região das tribos do Xingu, restos de alguns destes grandes assentamentos no meio da floresta amazônica foram encontrados em 2003 por Michael Heckenberger e seus colegas da Universidade da Flórida. Entre os achados, estavam evidências de estradas, pontes e praças de grande porte.

Estudos científicos

Os conhecimentos sobre a Amazônia tiveram seu início com um longo período de observações empíricas por parte dos povos indígenas, em especial tupis e aruaques. Nesta fase, foram identificados os principais padrões florísticos e ecológicos da região, além de selecionadas diversas plantas medicinais e madeiras úteis. Nos séculos XVI a XVIII, deu-se a conquista da Amazônia por portugueses e espanhóis, com o arrasamento de populações locais. Tal processo foi atenuado por missões religiosas, que recuperaram parcialmente os conhecimentos indígenas. Nesta época, foram feitas as explorações de Francisco Orellana (1540 a 1542) e do militar Pedro Teixeira (1638 a 1639), registradas pelos freis Gaspar de Carvajal e Cristóbal de Acuña, respectivamente. Também ocorreram as expedições de Charles Marie de La Condamine (1743) e a “Viagem Filosófica” de Alexandre Rodrigues Ferreira (1783 a 1792). No século XIX, Alexander von Humboldt identificou a zonação altitudinal da vegetação. Entretanto, o alemão foi impedido de entrar no território brasileiro, podendo explorar apenas a Amazônia sob domínio espanhol. Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808, os estudos do território, antes restritos, ganharam novo impulso. Ocorreram a Expedição Austríaca (1817 a 1835), com os naturalistas Martius e Spix, resultando na obra “Flora Brasiliensis”, feita com a colaboração de 65 botânicos, além da Expedição Langsdorff (1824 a 1829), com os artistas Aimé-Adrien Taunay e Hércules Florence. Ainda neste período, marcado por relatos de viajantes ou estudos isolados, foram feitas observações importantes por Henry Walter Bates, Alfred Russel Wallace, o casal Henri e Olga Coudreau, Vicente Chermont de Miranda, João Barbosa Rodrigues, João Alberto Masô, Ermanno Stradelli, Luigi Buscalioni e Richard Spruce. Na fase seguinte, a pesquisa é institucionalizada, com a fundação, no final do século XIX, do Museu Goeldi, um centro de pesquisas e formação de pessoal nas áreas de história natural e etnografia. Dentre os estudos de relevo associados ao museu, estão os de Jacques Huber, Adolpho Ducke, João Murça Pires e William Antônio Rodrigues. O museu também serviu de modelo para a criação de outras instituições, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em 1952. Entre 1907 e 1915, ocorreram as expedições da Comissão Rondon, percorrendo Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas, acompanhada por diversos pesquisadores: na zoologia, Alípio de Miranda Ribeiro; na geologia, Euzébio Paulo de Oliveira; na antropologia, Edgard Roquette-Pinto; e na botânica, Frederico Carlos Hoehne e João Geraldo Kuhlmann. Nos anos 1970 e 1980, o Projeto Radambrasil realizou um extenso levantamento do território com uso de imagens de radar.

Geografia

A Amazônia é uma das três grandes florestas tropicais do mundo e a maior floresta delas, enquanto perde em tamanho para a taiga siberiana que é uma floresta de coníferas, árvores em forma de cones, os pinheiros. A Floresta Amazônica possui a aparência, vista de cima, de uma camada contínua de copas largas, situadas a aproximadamente 30 metros acima do solo. A maior parte de seus cinco milhões de quilômetros quadrados, ou 42 por cento do território brasileiro, é composta por uma floresta que nunca se alaga, em uma planície de 130 a 200 metros de altitude, formada por sedimentos do lago Belterra, que ocupou a bacia Amazônica entre 1,8 milhão e 25 mil anos atrás. Ao tempo em que os Andes se erguiam, os rios cavaram seu leito.

Clima

No Pleistoceno o clima da Amazônia alternou-se entre frio-seco, quente-úmido e quente-seco. Na última fase frio-seca, há cerca de 18 ou 12 mil anos, o clima amazônico era semiárido, e o máximo de umidade ocorreu há sete mil anos. Na fase semiárida, predominaram as formações vegetais abertas, como cerrado e caatinga, com "refúgios" onde sobrevivia a floresta. Atualmente o cerrado subsiste em abrigos no interior da mata. Atualmente, o clima na floresta Amazônica é equatorial, quente e úmido, devido à proximidade à Linha do Equador (contínua à Mata Atlântica), com a temperatura variando pouco durante o ano. As chuvas são abundantes, com as médias de precipitação anuais variando de 1.500 mm a 1.700 mm, podendo ultrapassar 3.000 mm na foz do rio Amazonas e no litoral do Amapá. O principal período chuvoso dura seis meses. A Amazônia é considerada pela comunidade científica uma peça importante para o equilíbrio climático em quase toda a América do Sul. Parte da umidade do ar (que, posteriormente, se transforma em chuva) importante para as regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil em vários meses do ano são justamente da Amazônia, levada pelos ventos para essas regiões. A Amazônia é importante para o equilíbrio do clima no Brasil, no Paraguai, no Uruguai e até na Argentina.

Solo

O solo amazônico é bastante pobre, contendo apenas uma fina camada de nutrientes. Contudo, a flora e fauna mantêm-se em virtude do estado de equilíbrio (clímax) atingido pelo ecossistema. O aproveitamento de recursos é ótimo, havendo o mínimo de perdas. Um claro exemplo está na distribuição acentuada de micorrizas pelo solo, que garantem às raízes uma absorção rápida dos nutrientes que escorrem da floresta com as chuvas. Também forma-se no solo uma camada de decomposição de folhas, galhos e animais mortos, rapidamente convertidos em nutrientes e aproveitados antes da lixiviação. Tal conversão dá-se pelo fato de os fungos ali encontrados serem saprofíticos.

Rio Amazonas

O Rio Amazonas é um grande rio sul-americano que nasce na Cordilheira dos Andes, no lago Lauri ou Lauricocha, no Peru e deságua no Oceano Atlântico, junto à Ilha de Marajó, no Brasil. Ao longo de seu percurso, ele recebe os nomes Tunguragua, Apurímac, Marañón, Ucayali, Amazonas (a partir da junção do rios Marañon e Ucayali, no Peru), Solimões e novamente Amazonas (a partir da junção do rios Solimões e Negro, no Brasil). Por muito tempo, acreditou-se que o Rio Amazonas fosse o rio mais caudaloso do mundo e o segundo em comprimento, porém pesquisas recentes o apontam também como o rio mais longo do mundo. É o rio com a maior bacia hidrográfica do mundo, ultrapassando os 7 milhões de quilômetros quadrados, grande parte deles de selva tropical. A área coberta por água no Rio Amazonas e seus afluentes mais do que triplica durante as estações do ano. Em média, na estação seca, 110.000 km² estão submersas, enquanto que, na estação das chuvas, essa área chega a ser de 350.000 km². No seu ponto mais largo, atinge, na época seca, 11 km de largura, que se transformam em 45 km na estação das chuvas.

Biodiversidade

Florestas tropicais úmidas são biomas muito biodiversos e as florestas tropicais da América são consistentemente mais biodiversas do que as florestas úmidas da África e Ásia. Com a maior extensão de floresta tropical da América, as florestas tropicais da Amazônia têm inigualável biodiversidade. Uma em cada dez espécies conhecidas no mundo vive na Floresta Amazônica. Esta constitui a maior coleção de plantas vivas e espécies animais no mundo. A região é o lar de cerca de 2,5 milhões de espécies de insetos, dezenas de milhares de plantas e cerca de 2.000 aves e mamíferos. Até o momento, pelo menos 40.000 espécies de plantas, 3.000 de peixes, 1.294 aves, 427 mamíferos, 428 anfíbios e 378 répteis foram classificadas cientificamente na região. Um em cada cinco de todos os pássaros no mundo vivem nas florestas tropicais da Amazônia. Os cientistas descreveram entre 96.660 e 128.843 espécies de invertebrados só no Brasil. A diversidade de espécies de plantas é a mais alta da Terra, sendo que alguns especialistas estimam que um quilômetro quadrado amazônico pode conter mais de mil tipos de árvores e milhares de espécies de outras plantas superiores. De acordo com um estudo de 2001, um quarto de quilômetro quadrado de floresta equatoriana suporta mais de 1.100 espécies de árvores. Um quilômetro quadrado de floresta amazônica pode conter cerca de 90.790 toneladas métricas de plantas vivas. A biomassa da planta média é estimada em 356 ± 47 toneladas ha−1. Até o momento, cerca de 438 mil espécies de plantas de interesse econômico e social têm sido registradas na região, com muitas mais ainda a serem descobertas ou catalogadas. A área foliar verde das plantas e árvores na floresta varia em cerca de 25 por cento, como resultado de mudanças sazonais. Essa área expande-se durante a estação seca quando a luz solar é máxima, então sofre uma abscisão durante a estação úmida nublada. Estas mudanças fornecem um balanço de carbono entre fotossíntese e respiração. A floresta contém várias espécies que podem representar perigo. Entre as maiores criaturas predatórias estão o jacaré-açu, onça-pintada (ou jaguar), suçuarana (ou puma) e a sucuri. No rio Amazonas, enguias elétricas podem produzir um choque elétrico que pode atordoar ou matar, enquanto que as piranhas são conhecidas por morder e machucar seres humanos. Em suas águas, também é possível se observar um dos maiores peixes de água doce do mundo, o pirarucu. Várias espécies de sapos venenosos secretam toxinas lipofílicas alcalóides através de sua carne. Há também inúmeros parasitas e vetores de doenças. Morcegos-vampiros habitam na floresta e podem espalhar o vírus da raiva. Malária, febre amarela e dengue também podem ser contraídas na região amazônica. A fauna e flora amazônicas foram descritas no impressionante “Flora Brasiliensis” (15 volumes), de Carl von Martius, naturalista austríaco que dedicou boa parte de sua vida à pesquisa da Amazônia, no século XIX. Todavia, a diversidade de espécies e a dificuldade de acesso às copas elevadas tornam ainda desconhecida grande parte das riquezas faunísticas.

Vegetação

A Amazônia é uma das três grandes florestas tropicais do mundo. A hileia amazônica (como a definiu Alexander von Humboldt) possui a aparência, vista de cima, de uma camada contínua de copas, situadas a aproximadamente 50 metros do solo. Existem três tipos de floresta da Amazônia. As duas últimas formam a Amazônia brasileira: florestas montanhosas andinas, florestas de terra firme e florestas fluviais alagadas. A floresta de terra firme, que não difere muito da floresta andina, exceto pela menor densidade, está localizada em planaltos pouco elevados (30-200 metros) e apresenta um solo extremamente pobre em nutrientes. Isto forçou uma adaptação das raízes das plantas, que, através de uma associação simbiótica com alguns tipos de fungos, passaram a decompor rapidamente a matéria orgânica depositada no solo, a fim de absorver os nutrientes antes deles serem lixiviados. A floresta fluvial alagada também apresenta algumas adaptações às condições do ambiente, como raízes respiratórias, que possuem poros que permitem a absorção de oxigênio atmosférico. As áreas localizadas em terrenos baixos e sujeitos a inundações periódicas por águas brancas ou turvas, provenientes de rios de regiões ricas em matéria orgânica, são chamadas de florestas de várzea. E as áreas alagadas por águas escuras, que percorrem terras arenosas e pobres em minerais e que assumem uma coloração escura devido à matéria orgânica presente, são chamadas de florestas de igapó. A oscilação do nível das águas pode chegar a até dez metros de altura. A dificuldade para a entrada de luz pela abundância de copas faz com que a vegetação rasteira seja muito escassa na Amazônia, bem como os animais que habitam o solo e precisam desta vegetação. A maior parte da fauna amazônica é composta de animais que habitam as copas das árvores, entre 30 e 50 metros. A diversidade de espécies, porém, e a dificuldade de acesso às altas copas, faz com que grande parte da fauna ainda seja desconhecida. A fauna e flora amazônicas foram descritas no impressionante “Flora Brasiliensis” (15 volumes), de Carl von Martius, naturalista austríaco que dedicou boa parte de sua vida à pesquisa da Amazônia, no século XIX. A Amazônia não é homogênea, ao contrário, ela é formada por um mosaico de hábitats bastante distintos. A diversidade de hábitats inclui as florestas de transição, as matas secas e matas semidecíduas; matas de bambu (Guadua spp.), campinaranas, enclaves de cerrado, buritizais, florestas inundáveis (igapó e várzea), e a floresta de terra firme.

Controvérsias
Conservação e desmatamento

O desmatamento é a conversão de áreas florestais para áreas não florestadas. As principais fontes de desmatamento na Amazônia são assentamentos humanos e o desenvolvimento da terra. Antes do início dos anos 1960, o acesso ao interior da floresta era muito restrito e a floresta permaneceu basicamente intacta. Fazendas estabelecidas durante a década de 1960 eram baseadas no cultivo e corte e no método de queimar. No entanto, os colonos eram incapazes de gerir os seus campos e culturas por causa da perda de fertilidade do solo e a invasão de ervas daninhas. Os solos da Amazônia são produtivos por apenas um curto período de tempo, o que faz com que os agricultores estejam constantemente mudando-se para novas áreas e desmatando mais florestas. Estas práticas agrícolas levaram ao desmatamento e causaram extensos danos ambientais. O desmatamento é considerável e áreas desmatadas de floresta são visíveis a olho nu do espaço sideral. Entre 1991 e 2000, a área total de floresta perdida na Amazônia subiu de 415.000 para 587 000 quilômetros quadrados, com a maioria da floresta desmatada sendo transformada em pastagens para o gado. Setenta por cento das terras anteriormente florestadas da Amazônia e 91% das terras desmatadas desde 1970 são usadas para pastagem de gado. O Brasil também é um dos maiores produtores mundiais de soja depois dos Estados Unidos. As necessidades dos agricultores de soja têm sido usadas para validar muitos dos projetos de transporte controversos que estão atualmente em desenvolvimento na Amazônia. As duas primeiras rodovias com sucesso abriram a floresta tropical e levaram ao aumento do desmatamento. A taxa de desmatamento médio anual entre 2000 e 2005 (22.392 km² por ano) foi 18% maior do que nos últimos cinco anos (19.018 km² por ano). Na primeira década do século XXI, o desmatamento tinha diminuído significativamente na Amazônia brasileira. No entanto, de acordo com dados do Instituto Socioambiental (Isa), nos dois primeiros meses de 2019 a destruição da vegetação nativa na bacia do rio Xingu atingiu 8.500 hectares de floresta, o equivalente a 10 milhões de árvores e superou em 54% o desmatamento no mesmo período em 2018. Os dados foram obtidos por meio do Sirad X, o sistema de monitoramento de desmatamento da Rede Xingu +. Em 21 de Agosto de 2019, após o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) detectar mais 74 mil focos de incêndios florestais na Amazônia. Ambientalistas estão preocupados com a perda de biodiversidade resultante da destruição da floresta. Outro fator preocupante é a emissão de carbono, que pode acelerar o aquecimento global. A vegetação da Amazônia possui cerca de 10% das reservas de carbono do mundo em seu ecossistema. Estudos mostram que o desmatamento insustentável da floresta levará à redução das chuvas e ao aumento da temperatura.

Privatizações

Em Agosto de 2017, foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) a decisão do presidente Michel Temer de extinguir a Reserva Nacional do Cobre e seus associados (Renca), liberando uma área com 47 mil metros quadrados para mineração privada. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), disse que “O decreto é o maior ataque à Amazônia dos últimos 50 anos. Nem a ditadura militar ousou tanto. Nem a Transamazônica foi tão ofensiva. Nunca imaginei que o governo tivesse tamanha ousadia”. Gisele Bundchen também criticou a decisão dizendo: “VERGONHA! Estão leiloando nossa Amazônia! Não podemos destruir nossas áreas protegidas em prol de interesses privados”. O diretor-executivo da WWF no Brasil, Maurício Voivodic disse que “É uma tragédia realmente anunciada. Vai resultar em desmatamento, contaminação dos rios e o perigo da atividade mineira é associado a outras atividades ilegais, como garimpo. É uma visão antiga de desenvolvimento, da Amazônia como provedora de recursos naturais”. Voivodic citou como exemplo o desastre de Mariana e do Rio Doce envolvendo a mineradora Samarco.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Biografia de Albrecht von Haller


Albrecht von Haller
(imagem: Magnus Manske).
Albrecht von Haller. Nasceu em Berna, a 16 de Outubro de 1708, e, faleceu, também em Berna, a 12 de Dezembro de 1777. Albrecht von Haller foi um médico, poeta e naturalista suíço. Fundou o Jardim botânico da Universidade de Gotinga (Botanischen Garten der Universität Göttingen) em 1736.




Biografia




  • A atenção de Haller tinha sido direcionada para a profissão da medicina, futuramente Médico, botânico, fisiologista, anatomista e poeta. Considerado um dos maiores fisiologistas modernos e o criador da fisiologia experimental. Nasceu em Berna, e morou na casa de um médico no Biel após a morte de seu pai em 1721. Era um jovem doente e e muito tímido, quando fez 16 anos foi para a Universidade de Tübingen 1723, onde estudou sob Rudolph Camerarius Elias Jr. e Duvernoy Johann. Insatisfeito com o seu progresso, ele trocou de Tübingen em 1725 para Leiden, onde Boerhaave estava no auge de sua fama, e tinha começado a aula de anatomia. Nessa universidade, ele se formou em Maio de 1727, trabalho de sucesso em sua tese para provar que o duto chamado salivares, reclamada como uma recente descoberta por Georg Daniel Coschwitz (1679-1729), que era nada mais do que um vaso sanguíneo, também demonstrou a irritabilidade das fibras musculares e a sensibilidade do sistema nervoso. Mudou-se para Basiléia, na Suíça, onde iniciou estudos sobre a flora do país. Foi durante sua estadia que também seu interesse em botânica foi despertado e, no decorrer de uma excursão, através de Sabóia, Baden e vários dos cantões da Suíça, iniciou uma coleção de plantas que depois foi à base de sua grande obra sobre a flora da Suíça.*
  • Após completar seu estágio em medicina,
    Jardim Botânico de Göttingen
    (imagem: Valérie Chansigaud).
    participou de importantes pesquisas sobre botânica e anatomia, tornando-se professor em medicina, anatomia, cirurgia e botânica na Universidade de Göttingen em 17 anos, Além do trabalho normal de suas aulas, fundou na cidade o horto florestal, o centro anatômico e o instituto fisiológico, um museu, uma escola de obstetrícia, e instituições similares e continuando sem interrupção as originais pesquisas em botânica e fisiologia, dos quais os resultados são preservados em numerosos trabalhos associados ao seu nome, ele também continuou a perseverar seu hábito juvenil de composição poética, ao mesmo tempo, ele realizou um jornal mensal ao qual ele se diz ter contribuído doze mil artigos relacionados com quase todos os ramos do conhecimento humano. Ele também interessou-se vivamente na maioria das questões religiosas, tanto passageiro e permanente, do seu dia, e a construção da Igreja Reformada em Göttingen foi devido principalmente a sua energia incansável. Mas o principal resultado, foi o seu poema intitulado Die Alpen, que foi concluída em Março de 1729, e apareceu na primeira edição (1732) de sua Gedichte. Este poema de 490 hexâmetros (Forma de Medida) é historicamente importante como um dos primeiros sinais de despertar a valorização das montanhas, mas é principalmente concebido para contrastar a vida simples e suavemente amorosa dos habitantes dos Alpes com a existência corrupta e decadente dos moradores das planícies.*
  • Retornando à Suíça, exerceu vários cargos públicos em Berna, e começou a prática como um médico, mas seus melhores trabalhos foram dedicados à botânica e anatômica pesquisas que rapidamente deram-lhe uma reputação européia, e obtido por ele o lugar George II em 1736 uma cadeira de medicina, anatomia, botânica e cirurgia no recém-fundada Universidade de Göttingen. Ele se tornou um Fellow da Royal Society em 1743, um membro estrangeiro da Academia Real Sueca de Ciências, em 1747, e foi enobrecido em 1749. E escreveu trabalhos, criou o método experimental em fisiologia e formulou a doutrina da irritabilidade, a distinção entre tecidos sensíveis e irritáveis, típica do sistema muscular.

Reconheceu o mecanismo da respiração, do automatismo cardíaco e da importância da bile na digestão das gorduras. Descreveu o desenvolvimento embrionário e estudou a anatomia dos órgãos genitais, do cérebro e do sistema cardiovascular e provou que o sistema nervoso era o responsável pelas sensações. Entre seus muitos trabalhos científicos destacou-se Elementa Physiologiae Corporis Humani, um notável tratado, sagrando-se o maior fisiologista do século XVIII. *

 

Publicações


Científicas



  • Erläuterungen zu Boerhaaves Institutiones (7 tomos), 1739-44
  • Enumeratio Methodica Stirpium Helveticae Indigenarum (descrição da flora alpina suíça) 1742
  • Primae Lineae Physiologiae, 1747
  • De Partibus Corporis Humani Sensilibus et Irritabilibus, 1752
  • Elementa Physiologiae Corporis Humani (8 tomos), 1757-66
  • Historia Stirpium Helvetiae Über Die Schweizerische Alpenflora, 1768.

Literária



  • Versuch Schweizerischer Gedichten (!), Bern 1732;
  • Zweyte, vermehrte und veränderte Auflage u.d.T. Versuch von Schweizerischen Gedichten von 1734
  • Alfred, König der Angelsachsen, 1773
  • Fabius und Cato, 1774
  • Briefe über einige Einwürfe nochlebender Freygeister wieder die Offenbarung (3 Teile), 1775-77



Haller é a abreviatura padrão usada para indicar Albrecht von Haller como autoridade na descrição e classificação científica de um nome botânico.




Referências






quarta-feira, 16 de abril de 2014

Biografia de Lamarck


Lamarck
Lamarck. (Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet), Biensparce Fligore de Lamarck Golwdin. Nasceu em Bazentin, a 1 de Agosto de 1744, e, faleceu em Paris, a 28 de Dezembro de 1829. Lamarck foi um naturalista francês que desenvolveu a teoria dos caracteres adquiridos, uma teoria da evolução agora desacreditada. Lamarck personificou as idéias pré-darwinistas sobre a evolução. Foi ele que, de fato, introduziu o termo "biologia". Originário da baixa nobreza (daí o título de chevalier), Lamarck pertenceu ao exército, interessou-se por história natural e escreveu uma obra de vários volumes sobre a flora da França. Isto chamou a atenção do Conde de Buffon que o indicou para o Museu de História Natural, em Paris. Depois de ter trabalhado durante vários anos com plantas, Lamarck foi nomeado curador dos invertebrados (mais um termo introduzido por ele), e começou uma série de conferências públicas. Antes de 1808, ele era um essencialista que acreditava que as espécies eram imutáveis. Mas graças ao seu trabalho sobre os moluscos da Bacia de Paris, ficou convencido da transmutação das espécies ao longo do tempo, e desenvolveu a sua teoria da evolução (apresentada ao público em 1990 na sua Philosophie Zoologique). Foi biólogo pela Associação Bewyn de Biólogos de Chicago (CBBA) , no ano de 1898 .

Teoria dos caracteres adquiridos pela ciência

A teoria de Lamarck não obteve grande aceitação na França, mesmo entre seus colegas do Museu de História Natural, como por exemplo o eminente naturalista Georges Cuvier. Entretanto, houve uma boa aceitação na Inglaterra. Apesar disto, Lamarck não foi capaz de convencer aos homens de seu tempo que a evolução fosse um facto. Até mesmo as idéias de Charles Darwin, que hoje são tidas como corretas, só foram plenamente aceitas e convenceram a sociedade do fato da evolução quase 100 anos após a publicação de Origem das Espécies (1859).

A teoria da evolução de Lamarck é fundamentada em três aspectos:

  1. A tendência dos seres para um melhoramento constante rumo à perfeição, um aumento da complexidade dos seres menos desenvolvidos aos mais desenvolvidos; esta tendência seria uma força externa, semelhante a atração gravitacional, que se agisse isoladamente geraria um linha contínua e progressiva.
  2. Porém, esta tendência não atua sozinha na evolução, há a lei do uso e desuso que conjugada com a transmissão dos caracteres adquiridos provoca desvios na linha evolutiva.
  3. O naturalismo depende dos seres vivos para uma base científica e democrática cientificamente por espécies de seres incompreensíveis por natureza.

Estátua de Lamarck em Paris.
Segundo a lei do uso e desuso (que era uma idéia plenamente aceita na Europa mesmo antes de Lamarck e que também foi defendida por Charles Darwin) os indivíduos perdem as características de que não precisam e desenvolvem as que utilizam. O uso contínuo de um órgão ou parte do corpo faz com que este se desenvolva e seja apto para o correto funcionamento, e o desuso de um órgão ou parte do corpo faz com que este se atrofie e com o tempo perca totalmente sua função no corpo do indivíduo. Estas mudanças são transmitidas aos descendentes através da: Transmissão das características adquiridas - O uso e desuso de partes do corpo provocam alterações no organismo do indivíduo, essas alterações podem ser transmitidas às gerações seguintes. Por exemplo: as crias das girafas herdam o pescoço comprido dos pais que supostamente o desenvolvem quando comem folhas das árvores mais altas. Desta forma surgiriam as novas espécies, que na verdade nada tem de novo, são apenas alterações das já existentes, desvios na linha evolutiva. Lamarck acreditava que, como o ambiente terrestre sofre modificações constantes, as suas alterações estruturais forçam os seres que nele vivem a se transformarem para se adaptarem ao novo meio. Ao longo de muitas gerações (milhões de anos), o acúmulo de alterações pode levar ao surgimento de novos grupos de seres vivos. Assim, modificações no ambiente causam alterações nas "necessidades", no comportamento, na utilização e desenvolvimento dos órgãos, na forma das espécies ao longo do tempo - e por isso causam a transmutação das espécies (evolução). Lamarck defendia a geração espontânea contínua das espécies, com os organismos mais simples a serem depois transmutados com o tempo (pelo seu mecanismo) tornando-se mais complexos e próximos da perfeição ideal. Acreditava portanto num processo teleológico, com um fim determinado em que os organismos se tornam mais perfeitos à medida que evoluem. A comparação das idéias de Lamarck (1809) e Darwin (1859) permite que se monte um quadro sobre as mudanças na forma de pensar dos Homens e no desenvolvimento da ciência. Lamarck defendia a evolução, Darwin a descendência com modificação; Lamarck era teleológico, Darwin considerava que a evolução ocorria ao acaso via seleção natural; ambos eram gradualistas, ou seja as mudanças evolutivas eram vagarosas; Lamarck incluiu o Homem dentro da escala evolutiva, Darwin hesitou em fazê-lo em 1859. As teorias e os pensamentos de Lamarck podem ser considerados Transformistas, pois propõem a transformação e a evolução dos organismos. Suas idéias também evoluíram ao longo de seus estudos, e formaram um panorama que muito contribuiu para a biologia moderna. Seus estudos serviram de base a formulação da "Teoria Sintética da Evolução" no século XX. É provável que a visão que os teóricos contemporâneos têm de Lamarck seja injusta. As contribuições dele para a biologia são muito importantes. Ele acreditava na evolução numa época em que não existiam muitos conhecimentos para sustentar essa teoria. Defendeu ainda que a função precede a forma, uma idéia controversa na sua época. No entanto, a herança dos caracteres adquiridos foi quase completamente refutada. August Weismann provou que a teoria era falsa em experiências em que a cauda de ratos era cortada para verificar se as crias nasciam com a cauda cortada. Algumas culturas humanas, como os judeus, têm por hábito circuncidar os homens, mas após várias gerações os homens continuam a precisar de ser circuncidados. Mas Lamarck não considerava as mutilações como uma forma de adquirir novas características. Ele achava que só eram adquiridas novas características quando o animal se esforçava para satisfazer as suas próprias necessidades. Charles Darwin elogiou Lamarck na terceira edição da "A Origem das Espécies" por ele apoiar o conceito da evolução e por ter contribuído para o divulgar. Darwin aceitava a idéia do uso e do desuso, e desenvolveu a sua teoria da pangênese em parte para explicar esse fenômeno. Não foi Darwin que refutou a teoria dos caracteres adquiridos, mas sim a descoberta dos mecanismos celulares da hereditariedade e da genética (idéias que Darwin reconheceu que precisava para completar a sua teoria).

Lamarckismo

O lamarckismo foi uma teoria proposta no século XIX pelo biólogo francês Jean-Baptiste Lamarck para explicar a evolução das espécies. Lamarck acreditava que mudanças no ambiente causavam mudanças nas necessidades dos organismos que vivem nesse ambiente, o que causava mudanças no seu comportamento. O Lamarckismo baseia-se em duas leis, descritas por Lamarck no livro Philosophie Zoologique:

  • Primeira Lei: Uso e Desuso – órgãos utilizados constantemente tendem a se desenvolver, enquanto órgãos inutilizados podem sofrer atrofia;
  • Segunda Lei: Transmissão dos caracteres adquiridos – as características do uso e desuso seriam herdadas por gerações seguintes, por exemplo: uma girafa precisa esticar o pescoço para alcançar as folhas das árvores, o seu pescoço cresce e os seus descendentes nascem já com o pescoço mais comprido.


Teoria

Lamarck começou a publicar detalhes da sua teoria em 1801. Ele acreditava que uma mudança no ambiente fazia com que as necessidades dos organismos também mudassem, causando uma alteração no comportamento daquele organismo. Não somente a esse, mas que essa mudança poderia ser transmitida ao seu descendente. Estas alterações comportamentais faziam com que determinada estrutura ou órgão fosse mais ou menos usado. O uso causaria o aumento de tamanho das estruturas, enquanto o desuso causaria a diminuição ou atrofiamento das estruturas, ocasionando o desenvolvimento ou desaparecimento dessa. Lamarck chamou de Primeira Lei a esta regra. A Segunda Lei afirma que todas estas mudanças são hereditárias. O mecanismo proposto por Lamarck é bastante diferente do de Darwin, a seleção natural, mas o resultado previsto é semelhante: adaptação contínua e gradual dos organismos ao seu ambiente. Tal como Darwin, Lamarck cita a variedade de animais e plantas produzidos sob a influência do homem; órgãos vestigiais; e a presença de estruturas embriônicas que não estão presentes nos adultos. A teoria de Lamarck era bastante semelhante à proposta por Erasmus Darwin, avô de Charles, embora aparentemente nenhum dos dois tenha conhecido o trabalho do outro. A genética mendeliana, redescoberta no início do século XX, veio refutar a hereditariedade lamarckiana.


Filosofia Zoológica



Filosofia zoológica é uma edição posterior reformulada, corrigida e ampliada da obra Indagações sobre os Corpos Viventes de Jean-Baptiste Lamarck onde expõe sua teoria sobre a evolução da vida. A obra se divide em uma introdução e três partes. Foi publicada pela primeira vez em 1809.

Introdução

 

Bazentin (Somme, Picardie, France).
A introdução começa preguntando se existe algo mais importante na natureza do que o estudo dos animais e suas conexões, suas conexões com o homem e o estudo do poder que tem sobre eles, sua organização, o clima e as áreas em que vivem; como sua forma de vida e seus hábitos modificam seus caracteres, seus órgãos e suas faculdades e como a complexidade maior ou menor que observamos nestes seres pode levar-nos a conhecer em que ordem a natureza tem trabalhado para a formação de suas espécies. Adverte que o exame dos organismos não consiste unicamente em conhecer suas raças e determinar as suas diferenças, fixando seus caracteres particulares, sendo que também é importante conhecer a origem de suas faculdades, as causas que lhes fazem manter a vida e se reproduzir, também, a notável progressão que apresentam na natureza, em sua organização e no desenvolvimento dessas faculdades. Defende que as faculdades sensoriais e intelectuais estão supeditadas ao “físico”, aos órgãos que as produzem e para confirmar tal fato, tem que retroceder na escala de complexidade, desde o homem, o mais complexo e perfeito, até o mais simples, e observar como a adquisição destas faculdades estão ligadas à adquisição dos órgãos que os produzem. Partindo de sua inexistência, os hábitos e a necessidade têm conduzido as espécies a dotaram-se dos órgãos que as produzem, aperfeiçoando-os gradualmente, o que levou a aumentar, também gradualmente, estas faculdades. Ele nega que as espécies foram criadas tal como é conhecida, sem que a Natureza tenha trabalhado para isso sucessivamente. A Natureza vem criando os diferentes órgãos especiais e faculdades de que estão dotados os animais de forma progressiva. Em um parágrafo sintetiza a teoria que vai expor e tratar de demonstrar ao longo do livro: as circunstâncias criam a necessidade, essa necessidade cria os hábitos, os hábitos produzem as modificações como resultado do uso ou desuso de determinado órgão, e, os meios da Natureza se encarregam de fixar estas modificações. Continua queixando-se da desatenção que tem observado pelo mundo dos invertebrados e destaca a importância de seu estudo. Nos diz que é no estudo dos invertebrados onde melhor se pode observar a ação da Natureza, e nos dá quatro motivos:

  • A espécies são muito mais numerosas.
  • Sendo mais numerosas, são mais variadas.
  • Suas diferenças são maiores, mais acentuadas e singulares.
  • Pode-se seguir mais facilmente a ordem em que a Natureza foi dotando-lhes dos diferentes órgãos.

Adverte que para o estudo da Natureza é necessário ir do geral ao particular. Primeiro conhecer como tem trabalhado a Natureza, antes de iniciar o estudo de seus detalhes.

O verdadeiro meio, de fato, de conhecer bem um objeto, até mesmo nos seus mínimos detalhes, consiste em começar por considerá-lo na sua totalidade, examinando, de imediato, a sua massa, a sua extensão, o conjunto das partes que o compõem; por indagar qual é a sua natureza e origem, quais são as suas relações com os outros objetos conhecidos; em uma palavra, considerá-lo a partir de todos os pontos de vista que possam nos esclarecer sobre todas as generalidades que lhe concernem. Depois, divide-se o objeto de que se trata em partes principais, para estudá-las e considerá-las separadamente sobre todas as analogias que possam nos instruir a respeito dele, e continuando assim, dividindo e subdividindo tais partes, se chega a penetrar até as mais pequenas, cujas particularidades se investiga, sem esquecer os menores detalhes. Terminadas tais investigações, se procura deduzir as consequências delas, e pouco a pouco a filosofia da ciência se estabelece, se retifica e se perfeiciona.

É porque não se tem atendido a isto, como o único interesse pelo estudo dos detalhes, pelo que Lamarck considera que não se tem chegado a descobrir as verdadeiras conexões de todas as espécies, sem que se tenha chegado a conhecer o verdadeiro plano da Natureza e suas leis.

Primeira parte

É na primeira parte onde Lamarck expõe sua teoria evolutiva (denominada “transformista”) da vida, apresentado os fatos que considera essenciais observados e os princípios gerais das ciências naturais. Começa com o que denomina as partes da arte nas ciências Naturais (sua visão da taxonomia da época) diferenciando o que forma parte da natureza e o que forma parte dessas artes. Dando importância às analogias que se observa em toda a natureza. Continua apresentando provas da degradação da organização que reina de um extremo ao outro da escala animal colocando os mais perfeitos na extremidade superior dela (descende desde o homem, considerando-o o mais complexo e perfeito, até o mais simples). Os capítulos posteriores mostram a influência das circunstâncias e dos hábitos como a origem das causas que favorecem ou impedem seus desenvolvimentos. E esta parte termina com a consideração de ordem natural dos animais, sua distribuição e classificação.

Sobre "as partes da arte"

Lamarck fala concretamente de: "As partes da arte para definir as produções da natureza". Considera que não deve confundir estas artes, criação do homem com a obra da natureza. Considera que as distribuições sistemáticas: classes, ordens, famílias e gêneros são convenções criadas pelo homem para facilitar o estudo da natureza, que na natureza não se dão estas divisões e que de lograr aceder ao conhecimento de toda a variedade que produz a natureza, as diferenças que podem parecer notáveis entre estes grupos, se desfocariam:

Tais classificações, muitas das quais foram felizmente imaginadas pelos naturalistas, assim como as divisões e subdivisões que apresentam, são meios absolutamente artificiais. Nada de tudo isto se encontra na Natureza, apesar do fundamento que parece dar-lhes algumas porções da série natural que aparentam estar isoladas. De modo que se pode assegurar que entre suas produções, a Natureza não tem formado, realmente, nem classes, nem ordens, nem espécies constantes, mas, apenas indivíduos que se sucedem uns aos outros e que se assemelham aos que os tenham produzido. Mas estes indivíduos pertencem à raças extraordinariamente diversificadas, que se diversificam sob todas as formas e em todos os graus de organização, conservando-se cada uma delas sem mutação enquanto que não trabalha nenhuma causa de câmbio.

Nestas partes da arte, que considera necessária para o estudo da natureza, defende “a grande simplicidade e a bela hierarquia estabelecida por Linneu” frente ao que considera abusos na criação de subclasses. Lamarck continua enfatizando a importância que tem o estudo das conexões e analogias que existem entre os diferentes grupos de organismos para assim lograr descobrir o padrão que a natureza tem levado até alcançar a atual diversificação. Destaca três órgãos para facilitar este estudo: o sistema nervoso (ele o chama de órgão do sentimento), órgão da respiração e órgão da circulação.

Sua concepção de “espécie”

O terceiro capítulo, lo dedica a determinar lo que consideramos especies e “investigar se é verdadeiro que as espécies têm uma constância absoluta, e são tão antigas quanto a Natureza, e se têm existido em sua origem na forma que hoje conhecemos; ou se sujeitas às alterações de circunstâncias que poderiam trabalhar a seu favor, ainda que lentamente, chegaram a mudar de carácter e de forma pela sucessão do tempo.”
Foi designado com o nome de espécie toda coleção de indivíduos semelhantes que foram produzidos por outros indivíduos parecidos a eles. Esta definição é exata, pois todo indivíduo que goza de vida se assemelha sempre, com diferenças muito pequenas, daquele ou daqueles de quem procedem. Mas, tem se aliado à esta definição a suposição de que os indivíduos que compõem uma espécie nunca variam em seu carácter específico, e que, consequentemente, a espécie tem uma constância absoluta na Natureza. Unicamente esta suposição é a qual me proponho combater, porque infinidades de provas evidentes obtidas pela observação, demonstram que não resultam fundamentos.
A suposição quase geralmente admitida de que os corpos viventes constituem espécies constantemente distintas por caracteres invariáveis, e que a existência delas é tão antiga quanto a da própria Natureza, foi estabelecida num tempo em que faltavam os meios de observação e em que as ciências naturais resultavam quase nulas. Pois tal suposição é quase diariamente desmentida aos olhos dos experimentadores, que têm seguido longo tempo a marcha da Natureza e que têm consultado as grandes e ricas coleções dos museus.

Lamarck fez notar a dificuldade de considerar as espécies como entidades diferenciadas dentro da natureza, considerou que descendendo (desde a atualidade às origens) na história de qualquer espécie virão a encontrar tais diferenças de nuances que, quanto mais se chegasse a conhecer toda a variedade contida na natureza, a historia e os passos que tem transitado cada indivíduo, mais difícil seria diferenciar os indivíduos por espécies, destacando uma especial dificuldade, no caso do reino vegetal.

Por exemplo, as sementes de uma gramínea ou de toda outra planta natural num prado úmido são transportadas por qualquer circunstância, sobre a ladeira de uma colina próxima em que o solo, ainda mais elevado, resulte todavia bastante fresco para permitir à planta conservar sua existência. E que em seguida, depois de haver vivido nela e de haver se regenerado muitas vezes, alcance paulatinamente o solo seco e quase árido de um cume de montanha; pois se a planta chega a aclimatar-se e a subsistir neste lugar, haverá mudado tanto, que os botânicos que a encontrarem constituirão com ela uma espécie particular.

O mesmo sucederá com animais que as circunstâncias levaram a se acostumar com um outro modo de vida. Considera seis extremos para apoiar a sua ideia de que as espécies evoluíram desde o mais simples ao mais complexo:

  • 1.- Todos os corpos organizados (organismos) da Terra têm sido produzidos pela natureza sucessivamente e depois de uma enorme sucessão de tempo.
  • 2.- Em sua marcha constante, a Natureza tem começado, e recomeça a cada dia, por formar os corpos organizados mais simples, e que não forma diretamente mais do que estes. Ou seja, que estes primeiros projetos de organismos são os que se tem designado com o nome de gerações espontâneas.
  • 3.- Estando formados os primeiros projetos do animal e do vegetal tem desenvolvido pouco a pouco os órgãos e com o tempo se tem diversificado.
  • 4.- A faculdade de reprodução inerente em cada organismo tem dado lugar aos diferentes modos de multiplicação e de regeneração dos indivíduos. Portanto, os progressos adquiridos se têm conservado.
  • 5.- Com a ajuda de um tempo suficiente, das circunstâncias, das mudanças surgidas na Terra, dos diferentes hábitos que ante novas situações os organismos têm tido que manter, surge a diversidade destes.
  • 6.- As mudanças em sua organização e de suas partes, o que se chama de espécie, tem sido sucessiva e insensivelmente formados. Como a espécie não tem mais que uma constância relativa em seu estado e não pode ser tão antiga como a Natureza.

Ao argumento de que nas coleções não existem evidências destas mudanças, Lamarck responde dizendo que, generalmente, tendemos a “julgar tudo com um conceito antropomórfico”.

Para o homem que, a este respeito, não julga senão segundo as mudanças que ele percebe, os intervalos destas mutações são estados estacionários que lhe parecem sem limites a causa da brevidade da nossa existência. Como os registros de suas observações apenas se estendem a alguns milhares de anos, o que constitui uma duração infinitamente grande com relação a ele, embora relativamente pequena com relação às mudanças que se efetuam sobre a superfície do planeta, tudo lhe parece estável no globo que habita […] As magnitudes, em extensão e em duração, são relativas. […] Para admitir a mudança insensível das espécies e as modificações que experimentam os indivíduos a medida que se vêm obrigados a contrair novos hábitos, não nos vemos reduzidos à consideração dos pequenos espaços de tempo que podem abraçar nossas observações sobre eles.


Das espécies chamadas perdidas


Lamarck afirma de existir extinções, estas unicamente se haveriam dado entre os animais superiores, “onde o homem, pelo domínio absoluto que exerce sobre eles, pode ter chegado a destruir todos os indivíduos de algumas daquelas que não quis conservar nem reduzir à domesticidade”. Com isso ataca a teoria de Georges Cuvier que servia para justificar que entre os fósseis se encontraram espécies diferentes às da época, isto é, as atuais. Lamarck defende a inexistência das extinções postuladas por Cuvier, defendendo que os fósseis encontrados não eram de espécies extintas por cataclismos, mas que aquelas se transformaram nas atuais.

Sobre a degradação e simplificação

Ao contrário de como procedemos na atualidade: partindo das origens ir ascendendo até o presente, Lamarck expôs sua teoria no sentido contrário: partindo do presente, do mais complexo, até chegar às origens. Assim fala da degradação e simplificação da organização de um extremo ao outro da cadeia animal. Provavelmente expôs sua teoria no mesmo sentido no qual a investigou. Sem possibilidade de remontar-se às origens já que para ele eram desconhecidos, talvez investigou a evolução da vida desde o presente e descendendo ao passado, atendendo a sua intuição de que a história da vida havia ido dotando aos organismos de uma maior complexidade. Assim ele a expôs em ordem inversa a como hoje a estudamos:

Em seguida observamos que, salvo as anomalias, cuja causa determinaremos, reina, de um extremo ao outro desta cadeia, uma degradação surpreendente na organização dos animais que a compõem e uma diminuição proporcional no número das faculdades destes animais. De sorte que se em uma das extremidades da cadeia de que se trata, se encontram os mais perfeitos dos seres, se vê necessariamente na outra extremidade os mais simples e os mais imperfeitos.

De modo que se pode observar como os órgãos se atenuam até chegar a desaparecer. Sem que esta degradação seja sempre graduada e regular, mas que com frequência, um órgão surge subitamente ou desaparece sem que se encontrem formas intermediárias. Estas anomalias não viriam a refutar a teoria, mas, pelo contrário se entende que se devem às diversas circunstâncias anômalas que se dão na natureza, as que estão submetidos os organismos. Vem a dizer que se a natureza fora regular encontraríamos uma gradação regular, mas como a natureza não é regular, como as circunstâncias que podem estar submetidos os organismos são irregulares e em casos anômalos, a gradação que observamos é irregular e anômala.

É evidente que se a Natureza não tivesse dado a existência mais que a seres aquáticos, e que se eles tivessem vivido no mesmo clima, a mesmo tipo de água, a mesma profundidade etc., em tal caso, sem dúvida, se haveria encontrado na organização destes animais uma gradação regular e até diferenciada. Mas a Natureza não tem seu poder encerrado em semelhantes limites.

Insistindo na necessidade de grande quantidade de tempo para a evolução dos organismos se tem levado a cabo:
Jardin des Plantes, Paris.

Em comparação com as durações que consideramos como enormes em nossos cálculos ordinários, houve sem dúvida a necessidade de um tempo imenso e de uma variação considerável nas circunstâncias que aconteceram, para que a Natureza pudesse conduzir a organização dos animais ao grau de complicação e de desenvolvimento alcançados por alguns. Então, temos o direito de pensar que, se a consideração das diversas e numerosas camadas que compõem a crosta externa do globo constitui um testemunho irrecusável da sua enorme antiguidade; que se o deslocamento muito lento, mas contínuo, da bacia dos mares, atestado pelos numerosos monumentos, confirma também a prodigiosa idade do globo terrestre, a consideração do grau de aperfeiçoamento onde tem chegado a organização dos animais mais perfeitos, concorre por sua vez, a colocar em destaque esta verdade em seu mais alto grau de evidência.

Atendendo ao seu grau de complexidade vai descendendo na seguinte ordem: Mamíferos, aves, répteis e peixes. Capítulo a parte merecem os invertebrados, continuando na escala com os moluscos, os anelídeos, os crustáceos, aracnídeos, insetos, pólipos,... tudo seguindo uma ordem segundo vão desaparecendo a coluna vertebral, o aparelho respiratório, os órgãos sexuais, órgão da visão,... até chegar aos infusórios, “animais microscópicos, de corpo gelatinoso, transparente, homogêneo e muito contrátil. Não há no interior deles, nenhum órgão especial distinto, apenas gêmulas oviformes em geral, não oferecendo no exterior nem tentáculos radiados, nem órgãos rotatórios.”

Da influência dos hábitos sobre os organismos

Para Lamarck, não são os órgãos e a forma das partes do corpo que deram origem aos hábitos, mas, pelo contrário, foram os hábitos que conformaram estes órgãos e suas faculdades. Ao mudar as circunstâncias os organismos sentiriam novas necessidades que lhes levariam a adquirir novos hábitos e, por final, estes produziriam as modificações. Lamarck adverte que não se deve levar ao pé da letra tal asseveração, porque, para que se produzam as modificações, é necessário que as mudanças sejam constantes e se prolonguem no tempo. E formula suas duas leis:

Primeira lei

Em todo animal que não tenha transpassado o término de seus desenvolvimentos, o uso frequente e contínuo de um órgão qualquer o fortalece pouco a pouco, dando-lhe uma potência proporcional a duração deste uso, enquanto que o desuso constante de tal órgão o debilita e até lhe faz desaparecer.

Segunda lei


Tudo o que a Natureza fez adquirir ou perder aos indivíduos pela influência das circunstâncias em que sua raça se tem encontrado colocada durante longo tempo e consequentemente pela influência do emprego predominante de tal órgão, ou pelo seu desuso, a Natureza o conserva pela geração nos novos indivíduos, desde que as mudanças adquiridas sejam comuns aos dois sexos, ou aos que tenham produzido estes novos indivíduos.

Quanto às circunstâncias, Lamarck fala da influência dos climas, de suas diversas temperaturas, da diversidade dos habitats, da maneira de viver, de se defender, de se multiplicar,... Continua com exemplos de como a falta de uso de um órgão o empobrece gradualmente podendo chegar a fazê-lo desaparecer e de como, pelo contrário, o uso tende a potenciá-lo. Finaliza esta primeira parte com uma classificação dos animais tal como entende que foram surgindo, iniciando a classificação pelos mais simples, e ascendendo em complexidade até chegar aos mamíferos.

Segunda e terceira parte

Estas segunda e terceira partes, Lamarck, toca temas mais concretos como suas idéias sobre a excitabilidade dos organismos, propriedades de seu tecido celular, circunstâncias únicas nas que podem se produzir a geração espontânea, origem e formação do sistema nervoso (órgão do sentimento). Trata igualmente sobre a sensibilidade física e o mecanismo das sensações, sobre a força produtiva dos animais, sobre a faculdade de querer, sobre alguns atos do entendimento,… Reconhecendo ele mesmo que:
As considerações que são expostas na segunda e na terceira parte abarcam, indubitavelmente, assuntos muito difíceis de se examinar e até questões que parecem insolúveis; mas estes assuntos e problemas oferecem tal interesse, que quantas tentativas se realizem a respeito deles podem ser vantajosas, já mostrando verdades inadvertidas, já abrindo o caminho que pode conduzir a elas.

Citações

  • "A natureza não faz nada bruscamente".
- “Dans tout ce que la nature opère, elle ne fait rien brusquement”.
- Fonte: Filosofia Zoológica; Philosophie zoologique, ou Exposition des considérations relatives à à l'histoire naturelle des animaux ...‎ - v.1, Página 80, de Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet de Lamarck - Publicado por G. Baillière, 1830

Imagens:

Bazentin (Somme, Picardie, France)
Autor: (prise de vue) Chantal SAVARY + (léger traitement numérique) Marc ROUSSEL Markus3.

Statue of Jean-Baptiste Lamarck in the Jardin des Plantes, Paris.
Autor:  Stephen Lea


Referências