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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Biografia de Janusz Korczak - médico

Janusz Korczak
Janusz Korczak, pseudônimo de Henryk Goldszmit, também conhecido como o “Velho Doutor” ou o “Senhor Doutor”, nasceu em Varsóvia, no dia 22 de Julho de 1878 ou 1879, e foi assassinado em Treblinka, no dia 05 ou 06 de Agosto de 1942. Korczak foi médico, pediatra, pedagogista, escritor, autor infantil, publicista, ativista social, oficial do Exército Polaco. Foi um pedagogo inovador e autor de obras no campo da teoria e prática educacional. Foi precursor nas iniciativas em prol dos direitos da criança e do reconhecimento da total igualdade das crianças que hoje encontramos nas Escolas Democráticas. Na qualidade de diretor de um orfanato instituiu, entre outros, um tribunal de arbitragem de crianças, no âmbito do qual as próprias crianças avaliavam as causas apresentadas por elas mesmas, podendo também levar a tribunal os seus educadores. O famoso psicólogo suíço, Jean Piaget, que visitou o orfanato "Dom Sierot" (A Casa dos Órfãos), fundado e dirigido por Korczak, disse dele o seguinte: “Este homem maravilhoso teve a coragem de confiar nas crianças e nos jovens, com os quais trabalhava, ao ponto de transferir para as suas mãos as ocorrências disciplinares e de confiar a certos indivíduos as tarefas mais difíceis e de grande responsabilidade”. Korczak criou a primeira revista redigida a partir de textos enviados por crianças, que se destinava sobretudo a jovens leitores, “A Pequena Revista”. Foi igualmente um dos pioneiros dos estudos sobre o desenvolvimento e a psicologia da criança, bem como do diagnóstico da educação. Era judeu-polaco que toda a vida afirmou pertencer às duas nações, a hebraica e a polaca. Trinta anos após a sua morte, ele recebeu, postumamente, o “Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães”.

A juventude e a educação

Janusz Korczak nasceu em Varsóvia numa família judaica polonizada, era filho do advogado Józef Goldszmit (1844-1896) e de Cecylia, com o apelido de solteira “Gębicka” (1853/4-1920). Como a certidão de nascimento original não se conservou, a data de nascimento de Korczak é incerta. A família Goldszmit era oriunda da região de Lublin e a família Gębicka da região de Poznań; o seu bisavô Maurycy Gębicki e o seu avô Hersz Goldszmit eram médicos. As sepulturas do pai de Janusz Korczak e dos seus avôs maternos (não se sabe onde se encontra a sepultura da mãe) encontram-se no cemitério judaico de Varsóvia, na rua Okopowa. A boa situação financeira inicial da família Goldszmit começou a deteriorar-se devido à doença mental do pai que, pela primeira vez, foi internado num manicômio no início dos anos de 1890 com sintomas de insanidade mental. O pai morreu a 26 de abril de 1896. Depois da sua morte, Korczak, que era na altura um estudante de 17-18 anos, começou a dar explicações para ajudar a sustentar a família. A mãe, Cecylia Goldszmit, alugava quartos no seu apartamento de Varsóvia. Korczak concluiu os exames do ensino secundário (“matura”) com a idade de vinte anos. Quando era criança, lia muito. Passados anos, no diário escrito no gueto, anotou: “Deixei-me levar pela loucura, pela fúria da leitura. O mundo desapareceu diante dos meus olhos e só os livros existiam”. Em 1898 deu início aos estudos na Faculdade de Medicina da Universidade Imperial de Varsóvia. No verão de 1899, viajou pela primeira vez para o estrangeiro, para a Suíça, onde, entre outros, tomou conhecimento da atividade e da obra pedagógica de Johann Heinrich Pestalozzi. No final desse mesmo ano, também foi brevemente detido pela sua atividade nas salas de leitura da Associação de Caridade de Varsóvia. Estudou durante seis anos, repetindo o primeiro ano do curso. Também frequentou a Universidade Volante. Durante os seus tempos de estudante, conheceu de perto a vida dos bairros pobres, do proletariado e do lumpemproletariado2. Também pertenceu à loja maçônica “Estrela do Mar” da Federação Internacional “Le Droit Humain”, instituída a fim de “conciliar todas as pessoas segregadas por causa de barreiras religiosas, bem como procurar a verdade, conservando o respeito pelos outros seres humanos”.

2 O termo “lumpen proletariat” (do alemão Lumpenproletariat: "seção degradada e desprezível do proletariado", de lump "pessoa desprezível" e lumpen "trapo, farrapo" + proletariat "proletariado") ou lumpesinato ou ainda subproletariado designa, no vocabulário marxista, a população situada socialmente abaixo do proletariado, do ponto de vista das condições de vida e de trabalho, formada por frações miseráveis, não organizadas do proletariado, não apenas destituídas de recursos econômicos, mas também desprovidas de consciência política e de classe, sendo, portanto, suscetíveis de servir aos interesses da burguesia. Assim, segundo os teóricos da revolução, o lumpemproletariado seria pernicioso, já que seu cinismo e sua absoluta ausência de valores poderiam contaminar a consciência revolucionária do proletariado.

O médico

No dia 23 de março de 1905, Korczak recebeu o diploma em Medicina. Em junho desse mesmo ano, foi recrutado na qualidade de médico para o exército do czar (naquele tempo, a Polônia encontrava-se sob o domínio estrangeiro) e participou na guerra russo-japonesa. Prestou serviço em Harbin. Aprendeu chinês com as crianças da Manchúria. No final de março de 1906 regressou a Varsóvia. Entre 1905-1912 trabalhou como pediatra no Hospital Pediátrico de Berson e Bauman. Em troca de um apartamento no recinto do hospital, desempenhou funções de atendimento permanente no hospital na qualidade de médico interno, cumprindo as suas obrigações com dedicação. Na sua atividade médica não evitou os contatos com as zonas proletárias da cidade. Cobrava amiúde honorários simbólicos aos doentes pobres ou também lhes dava dinheiro para os medicamentos; no entanto, não hesitava em cobrar altos honorários aos ricos, o que era facilitado pela sua popularidade como escritor. Nos anos de 1907-1910/11, viajou pelo estrangeiro com fins acadêmicos. Assistiu a palestras, estagiou em clínicas pediátricas e visitou instituições de educação e proteção de menores. Esteve quase um ano em Berlim (1907-1908), quatro meses em Paris (1910) e ainda um mês em Londres (em 1910 ou 1911). Tal como escreveu, passados anos, foi precisamente em Londres que tomou a decisão de não constituir família e de “se dedicar às crianças e às suas causas”. Nesta época, participou ativamente na vida social; pertenceu, entre outros, à Sociedade de Higiene de Varsóvia e à Sociedade das Colônias de Verão (TKL). Nos anos de 1904, 1907 e 1908, trabalhou nas colônias de férias organizadas pelo TKL para crianças judias e polacas. Em 1906 publicou "A Criança do Salão", um livro que foi muito bem recebido pelos leitores e pela crítica. Desde então, graças à fama alcançada com as suas publicações, passou a ser um conhecido e procurado pediatra de Varsóvia. Em 1909, aderiu à Sociedade judaica “Auxílio aos Órfãos”, que anos mais tarde viria a construir o seu próprio orfanato “Dom Sierot”, cujo diretor seria Korczak. Durante a Primeira Guerra Mundial voltou a ser recrutado para o exército do czar. Prestou serviço como chefe mais novo do hospital de campanha, principalmente, na Ucrânia. Em 1917 foi chamado para assumir funções de médico nos asilos de crianças ucranianas em Kiev. Dois anos antes, durante umas curtas férias passadas em Kiev conheceu Maria Rogowska Falska, uma ativista, social e independentista, polaca que dirigia, naquela altura, uma casa de acolhimento para rapazes polacos. Depois de ter terminado o serviço no exército russo, com a patente de capitão, regressou a Varsóvia em junho de 1918. Depois da declaração de independência da Polônia (a 11 de novembro de 1918), Korczak depressa voltou para o exército. Desta vez, foi mobilizado para o exército polaco recentemente formado. Durante a guerra polaco-soviética (1919-1921) prestou serviço como médico nos hospitais militares de Łódź e Varsóvia. Também padeceu de tifo. Pelo trabalho realizado foi promovido à patente de major do Exército Polaco.

O orfanato da Krochmalna, onde Korczak trabalhou.


O pedagogo
As ideias

Desde muito jovem, Korczak interessou-se por assuntos relacionados com a educação das crianças e foi influenciado pelas ideias e experiências da “nova educação”. Também se inspirou na teoria do progressivismo pedagógico, elaborada, entre outros, por John Dewey e pelos trabalhos de Jean-Ovide Decroly, Maria Tecla Artemisia Montessori ou pedagogos anteriores, tais como, Johann Heinrich Pestalozzi, Herbert Spencer e Friedrich Fröbel; também conhecia as concessões pedagógicas de Liev Nikoláievich Tolstoi. Sublinhava a necessidade de dialogar com as crianças. Korczak publicava e proferia palestras sobre temas relacionados com a educação das crianças e a pedagogia. Primeiramente ganhou experiência no trabalho com as crianças como explicador e, posteriormente, como ativista social e, seguidamente, como diretor do orfanato Dom Sierot e cofundador do orfanato “Nasz Dom”. No período entre guerras lecionou em diversas universidades na Polônia, entre elas, no Instituto Nacional de Educação Especial (hoje Academia da Educação Especial de Maria Grzegorzewska), no Seminário Nacional de Professores de Religião Judaica e no Instituto Nacional de Professores. Korczak era defensor da emancipação da criança, da sua autodeterminação e do respeito pelos seus direitos. Os princípios da democracia, que Korczak aplicava de igual modo tanto às crianças como aos adultos, eram implementados no quotidiano nos seus orfanatos sob a forma de autogestão dos educandos. “Uma criança compreende e raciocina como um adulto, só que não possui a sua bagagem de experiência”. A sua revista publicada pelas e para as crianças constituía o seu fórum, era uma forja de talentos e um importante pilar de assimilação, sobretudo, para as crianças das famílias judaicas ortodoxas. Como médico, Korczak era a favor da ressocialização, bem como de uma proteção abrangente e inovadora das crianças, oriundas de famílias marginais. Afirmava que o lugar da criança era na companhia dos seus pares e não isolada em casa. Esforçou-se para que as crianças aperfeiçoassem as suas primeiras convicções e ideias principiantes, se sujeitassem ao processo de socialização e, assim, se preparassem para a vida adulta. Esforçou-se por assegurar às crianças uma infância despreocupada, o que não quer dizer isenta de obrigações. Considerava que as crianças deveriam compreender e experimentar emocionalmente determinadas situações, tirar conclusões por elas próprias e eventualmente prevenir prováveis consequências. “Não existem crianças, existem sim pessoas”, escreveu Korczak. Korczak considerava todas as crianças, que tratara ou educara, como suas. Esta sua postura viria a ser confirmada pela sua atividade posterior. As suas convicções altruístas também não lhe permitiam favorecer ou distinguir o pequeno grupo dos seus educandos preferidos. Não considerava a família tradicional como o vínculo mais importante e fundamental dos laços sociais. Não aceitava o papel que ela desempenhava nos meios conservadores cristãos e tradicionais judaicos da sociedade. Os elementos mais importantes da concessão de Korczak sobre a educação são os seguintes:

  •     A rejeição da violência – física e verbal, resultante da vantagem de ser mais velho ou do desempenho de uma função superior;
  •     A ideia de uma interação educativa entre adultos e crianças, que alargava a definição da pedagogia clássica;
  •     A convicção de que a criança é um ser humano do mesmo modo que um adulto;
  •     O princípio de que o processo educativo deveria levar em consideração a individualidade de cada criança;
  •     A crença de que a criança, melhor do que ninguém, sabe das suas necessidades, aspirações e emoções e, logo, deveria ter direito a emitir a sua opinião e a ser ouvida pelos adultos;
  •     O reconhecimento de que a criança tem direito ao respeito, à ignorância e ao fracasso, à privacidade, bem como às suas próprias opiniões e propriedade;
  •     O reconhecimento de que o processo de desenvolvimento de uma criança é um trabalho difícil.
 
Janusz Korczak com as crianças órfãs, 1920.



A atual percepção

Atualmente Janusz Korczak é cada vez mais reconhecido como precursor de um conjunto de correntes pedagógicas, enquanto a sua ideia de respeitar os direitos da criança é um ponto de referência para muitos autores contemporâneos. “Reformar o mundo quer dizer reformar a educação”, preconizava Korczak. Korczak é considerado um dos pioneiros da corrente pedagógica atualmente designada como “educação moral” (em inglês: moral education), ainda que não tenha criado uma teoria sistemática sobre o assunto. As suas ideias pedagógicas modernas baseavam-se na prática. Era contra a doutrina na didática, muito embora tivesse um bom conhecimento das correntes pedagógicas e psicológicas da sua época. De acordo com Igor Newerly não se identificava com nenhuma ideologia política concreta, nem doutrina educativa. Não obstante, Janusz Korczak é apontado como precursor de várias correntes. Lawrence Kohlberg considera que a Comunidade Justa de Crianças (em inglês: Children Just Community) se baseia na prática de Korczak. Também há quem diga que Korczak e Paulo Freire têm ideias parecidas quanto à democracia na escola e à teoria do diálogo. Os defensores do amor pedagógico (em inglês: pedagogical love) baseiam a sua teoria no modelo de relações professor-aluno elaborado por ele. Outros autores veem em Korczak e Martin Buber os princípios da corrente da “educação religiosa”. As ideias de Korczak são aplicadas na “ideologia da normalização” da educação das crianças com deficiências intelectuais. A sua abordagem relativamente à educação das crianças influenciou as iniciativas legislativas empreendidas no pós-guerra em prol das crianças. A Polônia contribuiu grandemente para essas iniciativas, na medida em que tomou parte ativa na elaboração da Declaração dos Direitos da Criança em 1959 e promoveu a criação da "Convenção sobre os Direitos da Criança", adotada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas, em 1989.

Os orfanatos "Dom Sierot" e "Nasz Dom"


Monumento a Korczak em Varsóvia.
(Pic: Piotr Biegała - HeAVenlY).
Juntamente com Stefania Wilczyńska fundou e dirigiu o "Dom Sierot", um orfanato que se situava na rua Krochmalna, nº 92 (hoje, rua Jaktorowska, nº 6), em Varsóvia, e se destinava a crianças judias, sendo financiado pela Sociedade judaica “Auxílio aos Órfãos”. O orfanato abriu no dia 7 de outubro de 1912, sendo Korczak o seu diretor. Stefania Wilczyńska (1886-1942), conhecida como a menina ou a senhora Stefa, tornou-se a educadora principal. Korczak geriu o orfanato durante trinta anos. No final de outubro e princípio de novembro de 1940, o orfanato Dom Sierot foi transferido para o gueto, para a rua Chłodna. Durante a sua intervenção a propósito da transferência do orfanato numa repartição, Korczak foi detido. Os Nazis aprisionaram-no na cadeia do Pawiak, mas, passadas algumas semanas, foi libertado mediante o pagamento de uma caução. Desde 1919, Korczak, em parceria com Maria Falska, fundou outra instituição de proteção, um orfanato para crianças polacas, "Nasz Dom" (A Nossa Casa), que inicialmente se situava numa localidade perto de Varsóvia, Pruszków, e, a partir de 1928, passou para o bairro da capital, Bielany. A colaboração de Maria Falska durou até 1936. No orfanato Nasz Dom, também eram aplicados métodos pedagógicos inovadores. Ambas as instituições, destinadas a crianças entre os 7 e os 14 anos, implementavam a conceção da comunidade em autogestão, que criava as suas próprias instituições, tais como, um parlamento, um tribunal, um jornal, um sistema de horas de serviço, um notário e uma caixa de crédito. Pela sua atividade educativo-instrutiva, Korczak foi galardoado com a "Cruz de Oficial da Ordem da Polônia Restituta" que lhe foi atribuída no dia 11 de Novembro de 1925, no dia do feriado nacional da Independência.

O escritor, o publicista e o jornalista da rádio

Estreou-se no dia 26 de setembro de 1896 no semanário, "Kolce". Como aluno do liceu não podia publicar oficialmente na imprensa e, por isso, assinava os seus artigos com o pseudônimo "Hen", tendo mais tarde usado outros pseudônimos, entre eles, "Hen-Ryk", "Hagot" e "Velho Doutor". O pseudônimo "Janasz Korczak", uma forma ligeiramente alterada de "Janusz Korczak", que se tornou mais conhecido do que o seu próprio apelido, fora retirado do título de um romance de Józef Ignacy Kraszewski, "Sobre Janasz Korczak e a Bela Filha do Portador da Espada". Korczak usou o nome pela primeira vez, em 1898, assinando a sua peça de teatro em quatro atos intitulada, "Por Onde", que foi enviada para um concurso de teatro. A peça não se conservou. Nos anos de 1898-1901 publicou na revista “Czytelnia dla Wzystkich” (Sala de Leitura para Todos). Desde 1900 começou a publicar como Janusz Korczak e a assinar com esse nome inclusivamente cartas particulares sem, contudo, desistir dos restantes pseudônimos. Assim como Hen-Ryk, colaborou com o semanário satírico Kolce. A partir de 1901 começou a escrever folhetins. Em 1905 foi editada uma coletânea dos seus folhetins, publicados na revista Kolce, intitulada “Tretas e Truques”, bem como o romance “As Crianças da Rua 1901”. O legado de Korczak como escritor inclui um total de 24 livros e mais de 1.400 textos publicados em várias revistas. Conservaram-se, porém, poucos manuscritos, textos datilografados e documentos (entre eles, cartas), os quais perfazem um total de cerca de 300 textos. Considera-se que, dos seus estudos pedagógicos, os mais importantes são os seguintes: o ciclo de quatro volumes: Como Amar uma Criança (1920), Momentos Educacionais (1924), Quando Voltar a Ser Pequeno (1925), O Direito da Criança ao Respeito (1929), bem como Pedagogia Divertida (1939). Dentre os livros para crianças destacam-se pela popularidade alcançada O Rei Mateusinho I e O Rei Mateusinho Numa Ilha Deserta (1923) traduzidos para mais de vinte línguas, bem como A Bancarrota do Pequeno Jack (1924), As Regras da Vida (1930) e Caetanito, o Feiticeiro (1935). Pela sua obra literária Korczak recebeu, em 1937, o "Laurel de Ouro da Academia Polaca de Literatura". Durante a Segunda Guerra Mundial escreveu um diário cuja importância reside nas circunstâncias em que foi escrito e na experiência de guerra do autor. Na sua obra pedagógica, Korczak também usou instrumentos muito modernos para os seus tempos. Criou um periódico para as crianças e jovens A Pequena Revista (1926-1939). A revista era publicada como suplemento semanal do diário de Varsóvia, A Nossa Revista. O primeiro número saiu a 9 de outubro de 1926 e foi a primeira revista criada por crianças na Polônia. A partir de 1930, o escritor Jerzy Abramow, conhecido após a guerra como Igor Newerly, tornou-se seu editor, ao mesmo tempo que desempenhava a função de secretário de Korczak. A revista funcionava apesar da intensificação do antissemitismo, da intolerância e da segregação racial dos anos 30. O seu último número saiu com a data de 1º de setembro de 1939. Como pedagogo notável, o Velho Doutor também conduziu as suas atividades por intermédio de um ciclo de programas de rádio. Neles criou um estilo próprio para se dirigir aos ouvintes mais jovens, falando-lhes de um modo simples sobre coisas importantes. Em 1936, os programas pedagógicos do doutor saíram da antena, apesar da opinião entusiástica dos ouvintes e dos críticos, por causa de uma certa disposição crescente antissemita e de pressões externas afins. Korczak regressou à estação da rádio dois anos mais tarde e continuou a dirigir-se aos ouvintes da Rádio Polaca após a eclosão da guerra, nos primeiros dias de setembro de 1939.

A Segunda Guerra Mundial, o gueto e a última marcha

Como oficial do Exército Polaco, após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, Korczak voluntariou-se para prestar serviço militar, mas não foi aceito, atendendo à sua idade. Durante a ocupação alemã, envergou a farda militar polaca. Também não aprovava a discriminação imposta pelos Nazis aos Judeus, patente no uso da Estrela de David, o que considerava uma profanação do símbolo. Passou os últimos anos da sua vida no gueto de Varsóvia. Newerly, o futuro biógrafo de Korczak, tentou arranjar-lhe documentos falsos na parte ariana da cidade, mas o médico recusou-se a sair do gueto. No gueto retomou a escrita regular do seu diário iniciado em 1939. Anteriormente e durante dois anos, não escrevera nada, visto que canalizara toda a sua energia para a educação das crianças de Dom Sierot e para outras atividades relacionadas com a situação das crianças no gueto. O diário foi publicado pela primeira vez em Varsóvia, em 1958. A última anotação tem a data de 4 de agosto de 1942. Na manhã de 5 ou 6 de agosto de 1942, o terreno do chamado Pequeno Gueto foi cercado pelas tropas da SS e por polícias das forças ucranianas e letãs. Durante a chamada Grande Ação, ou seja, a principal etapa de exterminação da população do gueto de Varsóvia por parte dos alemães, Korczak recusou, pela segunda vez, a proposta para se salvar por não querer abandonar as crianças e os funcionários de Dom Sierot. No dia da deportação do gueto, Korczak acompanhou o cortejo dos seus educandos rumo ao Umschlagplatz, de onde partiam os comboios para os campos de extermínio. Nesta marcha seguiam cerca de 200 crianças e algumas dezenas de educadores, entre eles, Stefania Wilczyńska. A sua última marcha transformou-se numa lenda. Tornou-se um dos mitos da guerra e um dos temas mais recordados, ainda que nem sempre consistente e confiável nos pormenores. “Não pretendo ser iconoclasta, nem desmistificador de mitos, mas tenho de contar o que então vi. Pairava no ar uma enorme inércia, um automatismo e uma apatia. Não era visível comoção pelo fato de Korczak seguir no cortejo, não houve saudações (tal como alguns descrevem), também não houve de certeza a intervenção dos enviados do Judenrat (Conselho Judaico), nem ninguém se aproximou de Korczak. Não houve gestos, não houve cantos, não havia cabeças orgulhosamente erguidas; não me lembro se alguém empunhava o estandarte de Dom Sierot – há quem diga que sim. Havia um silêncio tremendo e exausto. (…) Uma das crianças segurava Korczak pela roupa ou talvez pela mão; seguiam como que em transe. Acompanhei-os até ao portão do Umschlag” .… De acordo com outras versões, as crianças marchavam em linha de quatro e transportavam a bandeira do Rei Mateusinho I, o herói de uma das histórias escritas pelo seu educador. Todas as crianças levavam consigo o seu brinquedo ou o seu livro preferido. Um dos rapazes à cabeça do cortejo, tocava violino. Os Ucranianos e os SS batiam com os chicotes e disparavam sobre a multidão de crianças, embora o cortejo fosse encabeçado por um destes homens que, pelos vistos, nutria alguma simpatia pelas crianças. Janusz Korczak morreu juntamente com os seus educandos no campo de extermínio nazi de Treblinka. No ano de 1948, foi postumamente agraciado com a Cruz de Cavaleiro da Ordem da Polônia Restituta.

A identidade

Janusz Korczak considerava-se um Judeu-polaco. Atuou sempre no sentido de aproximar Polacos e Judeus. A sua língua materna era o polaco, que era também a língua em que escrevia as suas obras. Só começou a estudar hebraico nos anos 30, quando se aproximou do movimento sionista, mas entendia um pouco de ídiche, que era a língua da maioria dos judeus-polacos, graças aos seus conhecimentos de alemão. Somente nos anos 30, começou a interessar-se pelo renascimento nacional judaico; colaborou com publicações das organizações da juventude sionista e também participou nos seus seminários. Durante esse período de tempo, também foi abalado por uma crise na sua vida privada e profissional. Em certa medida, duas viagens à Palestina, em 1934 e 1936, ajudaram-no a superar a situação e, tal como escreveu, “a encarar o passado, obter apoio para repensar o presente e – inclusivamente – vislumbrar o futuro”.

Os filmes

  • “O Senhor Está Livre, Dr. Korczak” (em alemão: Sie Sind Frei Doktor Korczak), um filme realizado por Aleksander Ford em 1975. O filme aborda os últimos anos de vida de Janusz Korczak, cujo papel foi representado pelo ator Leo Genn.
  • “Korczak” – filme polaco realizado por Andrzej Wajda, com argumento de Agnieszka Holland, 1990. Representa o destino do Dr. Korczak e, de modo fragmentário, os crimes nazis perpetrados contra as crianças e os educadores do Dom Sierot, durante a implementação da chamada Operação Reinhardt. O papel de Korczak foi representado por Wojciech Pszoniak.
  • “O Coração Corajoso de Irena Sendler” – com nome original de “The Courageous Heart of Irena Sendler” (2010), o filme é baseado na história da assistente social “polaca”, que ajudou a salvar cerca de 2.500 crianças do gueto de Varsóvia. Neste filme aparece Janusz Korczak cuidando de suas crianças no gueto.

Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Janusz_Korczak
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lumpemproletariado

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Biografia de James Parkinson

James Parkinson nasceu a 11 de Abril de 1755, e, faleceu a 21 de Dezembro de 1824. Parkinson foi um farmacêutico, cirurgião inglês, geólogo, paleontólogo e ativista político. Ele é mais famoso por seu trabalho de 1817, “An Essay on the Shaking Palsy”, no qual foi o primeiro a descrever a “paralisia agitante”, uma condição que mais tarde seria rebatizada “doença de Parkinson” por Jean-Martin Charcot. Embora existam fotografias em vários sites que se identificam falsamente como correspondendo a James Parkinson, na verdade não existem fotografias desse personagem porque a primeira fotografia da qual temos notícias é uma reprodução da imagem conhecida como “View from the window in Le Gras”, obtido em 1826, dois anos após a morte do Dr. Parkinson.

Biografia

James Parkinson nasceu em Shoreditch, Londres. Parkinson era filho de
John Parkinsonum farmacêutico e cirurgião perto de Hoxton Square, em Londres. Em 1784, James Parkinson passou no exame de cirurgião em “A Corporação de Londres”. Em 21 de Maio de 1781, ele se casou com Mary Dale, com quem teve seis filhos. Depois de se casar, James Parkinson sucedeu seu pai em seu trabalho na Hoxton Square. Faleceu a 21 de Dezembro de 1824, sendo sepultado no Cemitério de Saint Leonard.

Vantagem política

Além de médico, Parkinson tinha grande interesse em geologia e paleontologia, bem como na política de seu país. Parkinson foi um grande lutador pelas pessoas que não tinham privilégios e um crítico do governo Pitt. No início de sua carreira, ele se casou e, por esse motivo, começou a se envolver em várias causas e sempre apoiou a variedade social na Inglaterra. Este movimento foi apoiado pela Revolução Francesa e pela igualdade de direitos entre os cidadãos. Ele publicou cerca de 20 panfletos no período após a Revolução Francesa, onde a classe política entrou em caos. Ele escreveu sob seu nome e com o pseudônimo "Old Hubert", sendo chamado para participar de reformas sociais. James Parkinson foi chamado para representar o povo na Câmara dos Comuns do Reino Unido, a instituição dos parlamentos anuais e o voto universal. Ele foi membro de várias sociedades políticas secretas, incluindo a Sociedade Correspondente de Londres para a Reforma da Representação do Parlamento. Em 1794, sua participação na organização foi investigada antes que o Conselho Privado entregasse evidências de um plano para assassinar o rei George III. Ele se recusou a testemunhar até ter certeza de que não seria forçado a se incriminar. O plano era usar um dardo venenoso de uma arma para fazer com que o governo do rei tivesse um fim prematuro, sem atingir o fim do mandato. Felizmente para Parkinson, o caso foi rapidamente esquecido e nenhuma acusação foi apresentada contra ele.

Medicina

Parkinson deixou sua carreira política e, entre 1799 e 1802, publicou um grande número de trabalhos relacionados à medicina, incluindo um trabalho relacionado à doença da gota em 1805. Ele também foi redator dos primeiros escritos sobre peritonite na literatura médica da Inglaterra. Parkinson foi a primeira pessoa a descrever sistematicamente seis indivíduos com sintomas da doença que leva seu nome. Algo incomum para a descrição, ele não examinou seus pacientes, mas os observou diariamente. Foi Jean Martin Charcot quem definiu o termo “doença de Parkinson” sessenta anos após sua descoberta. Parkinson também teve um grande interesse em melhorar a saúde e o bem-estar da população. Ele escreveu várias doutrinas médicas que expuseram um grande interesse na saúde das pessoas, assim como ele fez em sua carreira política.
Ele foi um grande defensor da proteção legal dos doentes mentais, além de médicos e famílias. Em 1812, Parkinson ajudou seu filho no primeiro caso de apendicectomia na Inglaterra e, na primeira ocasião, que a perfuração foi mostrada como a causa da morte do paciente.

Contribuição para as ciências

O interesse de Parkinson foi gradualmente mudado da medicina para a natureza, especialmente no campo da geologia e da paleontologia. Ele começou a colecionar várias espécies e desenhos de fósseis no final do século XVIII. Ele convidou seus filhos e amigos para coletar e observar fósseis de animais e plantas. Suas tentativas para aprender mais sobre a identificação e interpretação de fósseis foram frustradas devido à escassez de publicações relacionadas ao assunto, então ele decidiu melhorar os elementos existentes, escrevendo sua própria introdução ao estudo de fósseis. Em 1804, ele publicou o primeiro volume de “Organic Remains of the Former World” (Restos Orgânicos do Mundo Anterior). Gideon Mantell disse que “é a primeira tentativa de dar uma visão familiar e científica dos fósseis”. O segundo volume foi publicado em 1808 e o terceiro em 1811. Parkinson ilustrou cada volume, às vezes em cores, e suas placas sendo posteriormente reutilizadas por Gideon Mantell. Em 1822, ele publicou o mais curto “Elements of Oryctology: an Introduction to the Study of Fossil Organic Remains, especially of those found in British Strata”. Parkinson também contribuiu com vários escritos para o “Journal of Natural Philosophy, Chemestry and the Arts”, de William Nicholson; e o primeiro, segundo e quinto volume de “Geological Society’s Transactions”.

Abreviatura (botânica)

A abreviatura J. Parkkinson é usada para indicar James Parkinson como uma autoridade na descrição e classificação científica de vegetais.

Principais obras
  • Some account on the effects of lightening (1787)
  • The Chemical Pocked Book (1800)
  • Medical Admonitions to Families (1801)
  • The Villager's Friend & Physician (1804)
  • Observations on the Nature & Cure of Gout (1805)
  • Case of diseased appendix vermiformis (1812)
  • Essay on the Shaking Palsy (1817)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Disfemia - gagueira

Lewis Carroll, autor de Alice no País
das Maravilhas
não pode aceder
ao sacerdócio devido a sua gaguez.
A disfemia, conhecida popularmente como gagueira ou gaguez e tartamudez, é a mais comum desordem de fluência da fala, atingindo cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo (dois milhões no Brasil). Os sintomas mais evidentes da gagueira são a repetição de sílabas, os prolongamentos de sons e os bloqueios dos movimentos da fala, sobretudo na primeira sílaba, no momento em que o fluxo suave de movimentos da fala precisa ser iniciado. Também usam-se os termos tartamudez, disfemismo ou disfluência. Além de gago, o indivíduo que apresenta disfemia recebe o nome de disfêmico, tartamudo, balbo (de balbuciar) ou tardíloquo. Cerca de 5% das crianças entre dois e quatro anos de idade apresentam episódios de disfemia, sendo geralmente episódios transitórios, que duram poucos meses, ocorrendo em consequência de uma combinação de vários fatores durante o desenvolvimento da fala. Um destes fatores é a maturação lenta das redes neurais de processamento da linguagem, que resulta numa habilidade ainda pequena para articular palavras e encadeá-las em frases nesta idade. O rápido fluxo de pensamentos, em contraste com a relativa imaturidade do sistema fonoarticulatório, contribui para que a criança apresente alguma dificuldade para produzir um ritmo regular e suave em sua fala. Esta disfluência pode aumentar quando a criança está ansiosa, cansada ou doente e quando está tentando dominar muitas palavras novas. Normalmente, este distúrbio é transitório, apenas 20% das crianças que apresentam disfemia em tenra idade necessitarão de tratamento especializado. Estes poucos casos que persistem por mais tempo do que o habitual podem estar associados a uma história familiar de gagueira, sugerindo uma predisposição hereditária. Um estudo do Instituto Nacional de Desordens da Comunicação nos EUA (NIDCD), divulgado em fevereiro de 2010 em uma das mais importantes revistas de saúde e ciências médicas do mundo, o The New England Journal of Medicine, encontrou 3 genes relacionados à origem da gagueira: GNPTAB, GNPTG e NAGPA. Neste estudo, foram descobertas mutações capazes de alterar o funcionamento normal de células cerebrais localizadas no centro de controle da fala em pessoas que gaguejam. Como um importante desdobramento dessa descoberta, em julho de 2015 foi publicada uma abrangente pesquisa epidemiológica mundial que revelou a quantidade de pessoas com gagueira associada a mutações nos genes GNPTAB, GNPTG e NAGPA. De forma inesperada, os pesquisadores descobriram que essa quantidade era muito maior do que se imaginava na época em que este subtipo do distúrbio veio à tona (fevereiro de 2010). Segundo os dados da última pesquisa, um em cada seis casos de gagueira persistente não-sindrômica tem como causa essas mutações (uma frequência três vezes maior do que a estimativa inicial, que era de um em cada 20). Embora essa não seja a única causa genética da gagueira, até o presente momento esta é a única com um nível adequado de esclarecimento bioquímico (via metabólica e enzimas/proteínas envolvidas) e estatístico-populacional (distribuição e frequência de casos). Em relação à cronificação da gagueira, uma característica que pode estar relacionada à tendência de o distúrbio tornar-se persistente nas crianças é o surgimento de sintomas adicionais bastante semelhantes a alguns verificados na Síndrome de Tourette, como: comportamentos obsessivo-compulsivos; esgares faciais (caretas), mioclonias e tiques involuntários enquanto fala; contrair os olhos ou bater o pé em sinal de desconforto nos momentos em que a fala bloqueia. Nestes casos em que a criança já tem plena consciência do problema e também percebe que sua fala pode ser julgada como fora do padrão normal, ela tende a adotar comportamentos de evitação, muitas vezes preferindo ficar em silêncio a interagir verbalmente. Neste estágio, na falta de tratamento especializado, a maioria das crianças com gagueira começa a se retrair e ter sua auto-estima prejudicada. O bullying escolar é uma possível complicação à qual pais e professores devem estar muito atentos. A disfemia que persiste após os cinco anos de idade está associada a alterações anatômicas e funcionais do cérebro, conforme vêm demonstrando as pesquisas mais modernas de neuroimagem. Dados de neuroimagem publicados em 2013 na prestigiada revista científica Brain mostraram que, desde os 3 anos de idade, já é possível detectar, por meio de fMRI e DTI, diferenças de conectividade nas redes neurais em crianças com gagueira que podem ajudar a prognosticar a evolução e cronificação do distúrbio. A avaliação e o tratamento precoces são decisivos para que a criança consiga compensar cedo essas eventuais deficiências, antes do aparecimento de complicações secundárias. Por essa razão, recomenda-se que toda criança com sintomas recorrentes de gagueira passe por avaliação fonoaudiológica tão cedo quanto possível. O fonoaudiólogo é o clínico responsável pelo atendimento da maioria dos pacientes com gagueira. No entanto, nem todo fonoaudiólogo está devidamente capacitado para tal tarefa. Em muitos casos, apenas a terapia fonoaudiológica é insuficiente para atender de forma adequada todas as necessidades do paciente com gagueira, tornando necessária a adoção de medidas adicionais de suporte, como assistência médica e farmacológica, sobretudo no adulto ou quando há a presença de comorbidades importantes, como: depressão, TOC, síndrome de Tourette, TDAH, síndrome de Asperger, fobia social, epilepsia focal, epilepsia rolândica, síndrome de Landau–Kleffner, insônia, apneia obstrutiva do sono, bruxismo, disfunção da articulação temporomandibular, etc. Nos últimos anos, tem havido uma mobilização internacional crescente no sentido de conscientizar a sociedade sobre os preconceitos e a discriminação a que estão sujeitas as pessoas com gagueira. Como parte dessa iniciativa, alguns bons vídeos educativos sobre o assunto foram produzidos. Entre eles, destaca-se “Ssstutter”, um curta-metragem canadense bastante desconcertante e reflexivo, estrelado por uma adolescente de 16 anos que possui a desordem. Também como forma de ajudar no processo de conscientização social do problema, o dia 22 de Outubro foi instituído como o Dia Internacional de Atenção à Gagueira.


Referências

Síndrome de Tourette - neurologia

Tourette.
A Síndrome de Tourette é um transtorno neuropsiquiátrico hereditário que se manifesta durante a infância, caracterizado por diversos tiques físicos e pelo menos um tique vocal. Estes tiques têm remissões e recidivas características, podem ser suprimidos temporariamente e são precedidos por impulsos premonitórios. A síndrome é definida enquanto parte do espectro dos transtornos devido a tiques, no qual se incluem tiques transitórios e crônicos. A Tourette era considerada uma síndrome rara que na maior parte das vezes é associada à vocalização de termos obscenos ou afirmações depreciativas e socialmente impróprias (coprolalia), embora este sintoma se manifeste apenas numa pequena minoria de pessoas com a doença. A Tourette já não é considerada uma condição rara, embora nem sempre seja corretamente identificada, uma vez que a maior parte dos casos são moderados e a gravidade dos tiques diminui à medida que a pessoa atravessa a adolescência. Estima-se que entre 0,4 e 3,8% das crianças e adolescentes entre os 5 e 18 anos possam ter Tourette. A prevalência de outros transtornos devido a tiques nas crianças em idade escolar é maior, sendo os mais comuns piscar os olhos, tossir, limpar a garganta, fungar e determinados movimentos faciais. Os casos graves em adultos são raros. A Tourette não afeta a inteligência ou a esperança de vida. Os fatores genéticos e ambientais desempenham um papel na etiologia da Tourette, embora se desconheçam as causas precisas da doença. Na maior parte dos casos não é necessária qualquer medicação. Não existem tratamentos eficazes para todos os casos de tiques, mas alguns medicamentos e terapias podem ajudar. A educação é uma parte importante de qualquer plano de tratamento, e a própria educação do paciente e palavras de conforto são muitas vezes suficientes enquanto tratamento. Em muitos dos pacientes com Tourette que frequentam clínicas da especialidade verificam-se também condições comórbidas (diagnóstico de outras doenças para além de Tourette), como gagueira, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade ou transtorno obsessivo-compulsivo. Estas outras condições causam frequentemente maiores transtornos funcionais ao indivíduo do que os tiques característicos de Tourette, pelo que é importante identificar e tratar estas condições. A doença foi descrita pela primeira vez em 1825 pelo médico francês Jean Itard. Mais tarde, em 1885, Gilles de la Tourette publicou um relato de nove casos da doença, que denominou “Maladie des Tics Convulsifs avec Coprolalie” (doença dos tiques convulsivos com coprolalia). Posteriormente, a doença foi renomeada "Doença de Gilles de la Tourette", por Jean-Martin Charcot, o influente diretor da Salpêtrière. Características da síndrome. O início da síndrome manifesta-se, geralmente, na infância ou juventude do indivíduo, eventualmente atingindo estágios classificados como crônicos. Porém, no decorrer da vida adulta, frequentemente, os sintomas vão aos poucos se amenizando e diminuindo. Mesmo assim, até hoje ainda não foi encontrada uma cura para a Tourette. Tratamentos médicos existem para amenizar os sintomas, porém, o consenso entre os profissionais da área é o de que os tratamentos precisam ser individualizados por causa das sempre presentes reações adversas aos medicamentos.  Os tiques podem se manifestar em qualquer parte ou conjunto de partes do corpo (barriga, nádegas, pernas, braços etc.), mas, tipicamente, eles ocorrem no rosto e na cabeça -- no rosto, como caretas repetidas, e na cabeça como um todo, como movimentos bruscos, repetidos, de lado a lado etc. A principal comorbidade* é o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), prevalente em cerca de 50% dos portadores.

* Comorbidade patogênica ocorre quando duas ou mais doenças estão etiologicamente relacionadas; comorbidade diagnóstica ocorre quando as manifestações da doença associada forem similares às da doença primária; e comorbidade prognóstica ocorre quando houver doenças que predispõem o paciente a desenvolver outras doenças. Comorbidades podem ser diagnosticadas a partir de um trauma,que afetará os envolvido na questão pública, os profissionais envolvidos e a família da vítima.  

Os comportamentos obsessivo-compulsivos estão intimamente ligados, tanto do ponto de vista genético, quanto do ponto de vista fenomenológico (Robertson & Yakely, 2002). Outros sofrimentos psíquicos que se têm mostrado abundantes são os distúrbios do sono, a ansiedade e a depressão. Pesquisas têm levantado a possibilidade de que essas alterações possam fazer parte dos próprios subtipos da ST (Robertson & Yakely, 2002). André Goettems Bastos e Cícero Emídio Vaz apresentam outras características psicológicas verificadas: “Outros aspectos psicodinâmicos e comportamentais relativamente comuns na ST, como os comportamentos opositivos, agressivos, regressivos, a forma como está se dando a liberação dos impulsos, a capacidade de autorregulação e autocrítica, a capacidade e estado de adaptação, a capacidade de tolerância à tensão e ansiedade, a capacidade de concentração no que se está fazendo, a liberação dos impulsos e instintos mais primitivos, a liberação das reações emocionais compatíveis com explosividade, os indicadores de falta de integração e organização, a labilidade do controle emocional e impulsividade, os indicadores de carência afetiva, a necessidade de contato humano e de ausência de repressão, podem ser constatados nos protocolos da técnica de Rorschach, e isto aparece de forma abundante na literatura sobre este teste” (Bastos & Vaz, 2009). Um aspecto que merece ênfase, ao se tentar explicar ou compreender essa síndrome, é que os sintomas ocorrem involuntariamente. Raramente, uma pessoa que sofre da síndrome consegue controlar um mínimo de seus tiques e jamais por prolongados períodos de tempo. Assim como o ser humano não consegue viver por muito tempo com os olhos abertos, pois seu corpo reage de forma natural, inconsciente, para que seus olhos pisquem, dessa mesma forma se manifestam os sintomas da síndrome de Tourette no indivíduo por ela afetado. Convém salientar também que alguns tiques fônicos involuntários presentes na síndrome de Tourette podem ser genericamente rotulados de "gagueira" por pessoas pouco familiarizadas. Em função da imagem estereotipada que foi criada em torno da síndrome, acreditou-se por muito tempo que suas manifestações vocais resumiam-se basicamente à coprolalia e a uma vontade incontrolável de proferir imprecações e termos impróprios, mas hoje se sabe que, além de tiques fônicos involuntários, alguns pacientes com síndrome de Tourette podem apresentar disfluências de fala que lembram muito as que são vistas em pessoas com gagueira, e até metade das pessoas que acreditam possuir gagueira do desenvolvimento podem na verdade ter síndrome de Tourette não diagnosticada. Infelizmente, a reação de muitas pessoas desinformadas perante manifestações da síndrome de Tourette é aquela de fobia ao diferente. Ainda mais: às vezes, a reação é de reprovação. Isso ocorre, especialmente, quando a pessoa afetada pela síndrome de Tourette manifesta sintomas de gagueira e coprolalia. A gagueira pode prejudicar sensivelmente a eficiência comunicativa do indivíduo e isolar ainda mais a pessoa com Tourette. Já a coprolalia engloba aqueles indivíduos que, além de outros sintomas de Tourette, veem-se obrigados a repetir palavras obscenas e/ou insultos. Obviamente, as consequências desses sintomas traduzem-se em desvantagens pronunciadas no âmbito social e ocupacional.

Os critérios diagnósticos oferecidos pelo DSM-IV-TR são:
  • Múltiplos tiques motores e um ou mais tiques vocais em algum momento durante a doença, embora não necessariamente ao mesmo tempo (um tique é um movimento ou vocalização súbita, rápida, recorrente, não-rítmica e estereotipada).
  • Os tiques ocorrem muitas vezes ao dia (geralmente em ataques), quase todos os dias ou intermitentemente durante um período de mais de um ano, sendo que durante esse período jamais existe uma fase livre de tiques superior a 3 meses consecutivos.
  • A perturbação causa acentuado sofrimento ou prejuízo significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
  • O início dá-se antes dos 18 anos de idade.
  • A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por exemplo, estimulantes) ou a uma condição médica geral (por exemplo, Doença de Huntington* ou encefalite pós-viral) (DSM-IV-TR, 2002, p.101).

* A Doença de Huntington ou Coreia de Huntington é uma doença hereditária que causa a morte das células do cérebro.

Base Genética
  • Aparentemente a base genética da Sindrome de Tourette parece ainda não ser completamente desvendada, porém alguns avanços no sentido de encontrar o a base genética que propicia esta condição foram encontrados em uma amostra.
  • Em 1885, Gilles de la Tourette observou que a condição que hoje leva o seu nome vinha de sua família (hereditariedade) . Acredita-se que o fator genético combinado com o ambiente produz os surtos deste transtorno.

A equipe de Ben Oostra da Universidade Erasmus, na Holanda estudaram uma família na Califórnia. O pai tinha um transtorno obsessivo-compulsivo dois de seus filhos também bem tiques e outros problemas mentais e físicos. Para Oostra a síndrome de Tourette é uma versão extrema do transtorno obsessivo-compulsivo. Nas três pessoas estudadas, os investigadores descobriram que uma parte do cromossomo 2 foi transplantado para o cromossomo 7. Esta inserção quebra um gene no cromossoma 7, chamado CNTNAP2, que ajuda as células de controle do sistema nervoso. O CNTNAP2 não está em uma região do genoma que previamente se suspeitava que se encontraria o evento genético responsável pelo transtorno. De acordo com os autores as crianças também têm três cópias de uma pequena seção do cromossomo 2. E é este não só um gene corrupto e física, como a causa provável dos seus problemas mentais mais amplos. A equipe está a testar outros pacientes com esta desordem para ver se eles têm a mesma alteração genética, e estão a estudar o comportamento de ratinhos sem o gene.

História

A mais antiga referência conhecida à síndrome de la Tourette é de 1489 e aparece no livro “Malleus Maleficarum” (Martelo da Bruxa), de Jakob Sprenger e Heinrich Kraemer, onde é descrito o caso de um padre cujos tiques seriam supostamente relacionados à possessão demoníaca . O primeiro caso da síndrome de la Tourette foi identificado em 1825 por Jean Itard, médico francês, que descreveu os sintomas da Marquesa de Dampierre, uma aristocrata francesa que se notabilizou por proferir palavras obscenas publicamente, no meio de conversações. Décadas depois, já no final do século XIX, Jean-Martin Charcot confiou ao neurologista, Georges Gilles de la Tourette, o estudo de pacientes do Hospital da Salpêtrière, visando definir uma doença distinta da histeria e da coreia. Em 1885, Gilles de la Tourette, a partir da descrição do caso da Marquesa de Dampierre, feita por Itard, publicou um relato sobre nove pacientes (“Étude Sur Une Affection Nerveuse”), e concluiu que seria necessário definir uma nova categoria clínica. A esta, Charcot chamou "doença de Gilles de la Tourette". Durante um século, não se conseguiu explicar ou tratar os tiques característicos da síndrome. A abordagem psiquiátrica foi privilegiada ao longo do século XX. A possibilidade de que as perturbações motoras, características da síndrome de la Tourette, pudessem ser de origem orgânica só foi considerada a partir de 1920, quando uma epidemia de encefalite, entre 1918 e 1926, desencadeou, na sequência, um aumento importante dos casos de distúrbios motores e tiques. Durante os anos 1960 e 1970, a abordagem psicanalítica foi contestada, após a descoberta do haloperidol, que permite atenuar os tiques. A virada ocorreu em 1965, quando Arthur K. Shapiro, considerado como o precursor da pesquisa moderna no tratamento de tiques, publicou um artigo criticando a abordagem psicanalítica, depois de ter tratado um paciente, portador de síndrome de la Tourette, com haloperidol. A partir dos anos 1990, adota-se uma abordagem mais refinada, e a doença é, geralmente, considerada como uma combinação de vulnerabilidade biológica em interação com fatores ambientais. Em 2000, a Associação Americana de Psiquiatria publica o DSM-IV-TR, modificando o texto do DSM-IV. A partir de 1999, importantes descobertas ocorrem no campo da genética, da neuroimagem e da neurofisiologia. Muitas questões permanecem ainda sem resposta sobre a melhor maneira de caracterizar a síndrome de la Tourette e sobre o grau de proximidade com outros transtornos dos movimentos ou com transtornos psiquiátricos. Os dados epidemiológicos ainda são insuficientes, e os tratamentos disponíveis ainda oferecem riscos e nem sempre são bem tolerados pelo organismo.

Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Síndrome_de_Tourette

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Biografia de Georges Gilles de la Tourette

George Gilles de la Tourette
Georges Albert Édouard Brutus Gilles de la Tourette nasceu em Saint-Gervais-les-Trois-Clochers, a 30 de Outubro de 1857, e, faleceu em Lausanne, a 26 de Maio de 1904. Georges Gilles de la Tourette foi um médico francês, epônimo da síndrome de Tourette, um transtorno neurológico.

Biografia

Gilles de la Tourette nasceu em Saint-Gervais-les-Trois-Clochers, França no dia 30 de Outubro de 1857 tendo por nome o de um antepassado, muito corriqueiro na época.

Estudos e conhecimento

Em 1873, com 16 anos de idade, iniciou seus estudos na faculdade de medicina de Poitiers. Mudou-se depois para Paris, onde foi interno de Jean-Martin Charcot, diretor do Hospital da Salpêtrière, em 1884. Em seguida foi chefe da clínica de Charcot, de 1887 a 1889, e depois membro da equipe de Fulgence Raymond, sucessor de Charcot na Salpêtrière. Gilles de la Tourette estudou a histeria, os aspectos médicos e legais do mesmerismo, e lecionou psicoterapia. Em 1884 descreveu, em nove pacientes, os sintomas da síndrome que denominou “maladie des tics convulsifs” (doença dos tiques convulsivos) e que Charcot renomearia “doença de Gilles de Tourette” em sua honra. Membro da Escola da Salpêtrière, Gilles de la Tourette compartilhou inteiramente as ideias de Charcot, seja com relação à hipnose, seja quanto à histeria. Publicou um artigo sobre a histeria no exército alemão (que enfureceu Otto von Bismarck) e um outro sobre as condições anti-higiênicas nos hospitais flutuantes do rio Tâmisa. Em colaboração com Gabriel Legué, analisou as observações feitas pela Madre Jeanne des Anges, sobre o seu próprio caso de histeria, cuja origem teria sido o seu amor não correspondido pelo padre Urbain Grandier - posteriormente acusado de bruxaria e queimado vivo. Nos últimos anos de sua vida, porém, Gilles de la Tourette sofreria uma série de reveses. Em 1893 (ou 1896), pouco depois da trágica morte do seu filho e do professor Charcot, uma jovem paranóide, antiga paciente da Salpêtrière, deu-lhe um tiro na cabeça, dentro do seu consultório, depois de acusá-lo de tê-la hipnotizado contra a sua vontade - o que os especialistas garantem ser impossível. Gilles de la Tourette sobreviveu a esse ataque, mas o bizarro episódio deu origem a um rumoroso processo que parecia, à primeira vista, endossar a tese, defendida pela Escola de Nancy, de que os indivíduos podem ser movidos ao crime, sob sugestão hipnótica - tese que Gilles de la Tourette sempre rejeitara veementemente. Extremamente abalado, Gilles de la Tourette começou a oscilar entre crises de depressão e acessos hipomaníacos. Entretanto, continuava a dar conferências sobre literatura, magnetismo animal e teatro até por volta de 1902, quando seu estado mental se agravou. Foi demitido do seu posto de trabalho e internado em uma clínica psiquiátrica de Lausanne, onde morreu em 26 de Maio de 1904. Apesar da relevância de suas realizações, a morte de Gilles de la Tourette suscitou apenas a publicação de um relato biográfico incompleto, feito por seu amigo Paul Le Gendre, e de alguns obituários pouco informativos.

Alguns escritos de Gilles de la Tourette
  • L'hypnotisme et les États Analogues au Point de Vue Médico-Légal (Paris, 1887; 2ª edição, Paris 1889);
  • Traité Clinique et Thérapeutique de l’Hystérie d’Après l’Enseignement de la Salpêtrière (Paris 1891);
  • Les Actualités Médicales, les États Neurasthéniques (Paris 1898);
  • Leçons de Clinique Thérapeutique sur les Maladies du Système Nerveux (Paris 1898);
  • Les Actualités Médicales. Formes Cliniques et Traitement des Myélites Syphilitiques (Paris 1899);
  • La Maladie des Tics Convulsifs (La semaine médicale 1899).

Biografia de Jean-Martin Charcot

Charcot
Jean-Martin Charcot nasceu em Paris, a 29 de Novembro de 1825, e, faleceu em Montsauche-les-Settons, a 16 de Agosto de 1893. Charcot foi um médico e cientista francês; alcançou fama no terreno da psiquiatria e neurologia na segunda metade do século XIX. Foi um dos maiores clínicos e professores de medicina da França e, juntamente com Guillaume Duchenne, o fundador da moderna neurologia. Suas maiores contribuições para o conhecimento das doenças do cérebro foram o estudo da afasia e a descoberta do aneurisma cerebral e das causas de hemorragia cerebral. Durante as suas investigações, Charcot concluiu que a hipnose era um método que permitia tratar diversas perturbações psíquicas, em especial a histeria. Charcot é tão famoso quanto seus alunos: Sigmund Freud, Joseph Babinski, Pierre Janet, Albert Londe e Alfred Binet. A “Síndrome de Tourette”, por exemplo, foi batizada por Charcot em homenagem a um de seus alunos, Georges Gilles de la Tourette, assim com o “Mal de Parkinson” foi nomeado por este médico como homenagem a James Parkinson.

Juventude

Jean-Martin Charcot não deixou biografias e o que se conhece de sua vida pessoal é baseado em seus trabalhos e relatos de seus colegas. Charcot nasceu em Paris em 1825, sob o reinado de Charles X, cresceu durante o regime de Louis-Philippe, e iniciou a faculdade de Medicina de Paris em 1843, exclusivamente para estudantes homens. Em 1847, iniciou a sua residência sob o serviço do Dr. Lugol no hospital Saint-Louis, passando também por rodízios nos hospitais de "Bon-Secours", "la Pitié", "la Charité" e "la Salpêtrière". Em 1853, defende sua tese sobre gota e reumatismo crônico.

Chefe de Serviço em "Salpêtrière" (1862-1867)


Charcot dando uma aula no
Hospital Salpêtrière, em Paris.
Quando Charcot assumiu as funções de chefe de serviço de Medicina Interna no asilo público de Salpêtrière era conhecida como o local onde Pinel havia instituído "tratamentos morais" aos considerados "alienados". Charcot conhecia bem como este local trouxe recursos incomparáveis às suas pesquisas, "este museu patológico vivo" (ce musée pathologique vivant), em suas palavras. Em 1882, depois de 20 anos de serviço como chefe e professor de anatomia patológica, Charcot transformou o hospital de Salpêtrière em um instituto de neuropatologia com ampla reputação e influência. Seus métodos de ensino e cursos na faculdade tornaram-se famosos.

Invenção da Neurologia científica (1866-1878)

Em 1868, descreveu, com seu colega de faculdade, Alfred Vulpian, a esclerose múltipla, a qual diferenciou do mal de Parkinson. No ano seguinte, descreveu a esclerose lateral amiotrófica, também conhecida como doença de Charcot. Além disso, contribuiu com estudos em doenças da medula espinhal, esclerose múltipla, atrofia muscular progressiva, siringomielia, neurosífilis, paralisias, tremores, vertigens, epilepsia, entre outros.

Obras

  • Leçons sur les maladies du système nerveux, em 5 vol., publicados de 1872 a 1883 e 1885-1887;
  • Iconographie de Ia Salpêtrière, de 1876 a 1880;
  • Sur les divers états nerveux déterminés par l'hypnotisation chez les hystériques, 1882;
  • Com Paul Richer, Les Démoniaques dans l'art, Delahaye et Lecrosnier, 1887;
  • Com Paul Richer, Les Difformes et les Malades dans l'art, Lecrosnier et Babé, 1889;
  • La foi qui guérit, Félix Alcan, Paris, 1897.


Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Martin_Charcot

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Biografia de Elizabeth Garrett Anderson

Elizabeth Garrett Anderson nasceu em Whitechapel, a 09 de Junho de 1836, e, faleceu em Aldeburgh, a 17 de Dezembro de 1917. Elizabeth Garrett Anderson foi a primeira inglesa a qualificar-se como médica e cirurgiã na Grã-Bretanha, tendo sido co-fundadora do primeiro hospital dirigido por mulheres, primeira decana de uma escola médica britânica, a primeira mulher a graduar-se em Medicina na França e a primeira mulher a ocupar um cargo de prefeita em todo o Reino Unido. Nomeada como assistente geral do dispensário (estabelecimento ou instituição beneficente que presta gratuitamente serviços médicos, oferecendo os medicamentos prescritos) de Santa Maria em 1866, ela criou uma faculdade de medicina para mulheres. Em 1918, a clínica recebeu o nome de Novo Hospital para Mulheres. Sua filha, Louisa Garrett Anderson, uma conhecida sufragista, também foi uma médica destacada.

Biografia

Elizabeth Garret nasceu em 09 de Junho de 1836 em Whitechapel, Londres, a segunda dos onze filhos de Newson Garret (1812-1893), e sua esposa Louisa (de solteira, Dunnell; 1813-1903). Os ancestrais de Garret eram ferreiros estabelecidos em Suffolk Oriental desde o início do século XVII. Newson era o caçula de três irmãos e não tinha inclinação acadêmica, apesar de possuir um espírito empreendedor. Ao terminar a escola, a cidade de Leiston tinha pouco a oferecer ao pequeno Newson, então ele viajou para Londres para buscar fortuna. Lá, ele se apaixonou pela irmã de seu cunhado, Louisa Dunell, filha de um estalajadeiro (dono de albergue) originário de Suffolk. Após o casamento, o casal mudou-se para a loja de um credor na Estrada Comercial 1, Whitechapel. Os Garret tiveram seus três primeiros filhos em rápida sucessão: Louie, Elizabeth e seu irmão Dunell Newson, que morreu aos seis meses de idade. Embora Louisa lamentasse a perda de seu terceiro filho, não foi fácil criar suas outras duas filhas na cidade de Londres. Em 1841, Newson retornou a Suffolk, onde comprou um negócio de cevada e carvão, fundando a Snape Maltings, uma empresa de milk-shake de cevada. A empresa teve sucesso e se transformou em um próspero homem de negócios, ergueu uma mansão como uma nova casa de família. Elizabeth e sua irmã foram educadas em casa por sua mãe e uma governanta de origem humilde. Aos treze e quinze anos, elas ingressaram numa escola para garotas em Londres, dirigida pelas tias do poeta Robert Browning. Mais tarde, lembrou-se da estupidez de suas professoras, embora despertaram seu amor pela leitura. Deplorava, sobretudo, a sua ignorância em ciências e matemática. Embora sociáveis, as irmãs eram conhecidas por suas companheiras como "as Garrett que tomam banho" porque seu pai havia insistido em que lhe permitissem um banho de água quente por semana. Quando deixaram a escola em 1851, foram enviados para uma breve viagem ao exterior, que terminou em uma visita memorável à “Grande Exposição” no Hyde Park, em Londres. Em 1854, durante visitas a suas amigas da escola, conheceu Emily Davies, pioneira feminista e fundadora do Girton College em Cambridge, que se tornou sua amiga e confidente pelo resto da vida. Ela leu sobre Elizabeth Blackwell, que havia se tornado a primeira médica nos Estados Unidos em 1849. Quando Blackwell visitou Londres em 1859, Garrett viajou para a capital para conhecê-la e ingressou na Sociedade para a Promoção do Emprego nas Mulheres, que organizou as palestras de Blackwell sobre "a Medicina como profissão para mulheres". A princípio, Newson se opôs à ideia radical de sua filha de praticar medicina, mas depois a apoiou emocional e financeiramente. Após uma visita inicial sem sucesso aos principais médicos de Londres, Garrett decidiu passar seis meses como enfermeira no Middlesex Hospital em Agosto de 1860. Pelo seu bom trabalho, ela foi autorizada a atender clinicamente e, após sua primeira operação, tentou sem êxito, matricular-se na Faculdade de Medicina do hospital, embora tivesse permissão para assistir às aulas de latim, grego e matéria médica com o farmacêutico do hospital, enquanto continuava com seu trabalho como enfermeira. Ela também contratou um tutor para estudar três tardes por semana anatomia e fisiologia. Finalmente, ela foi autorizada a entrar nas aulas de dissecação e química. Garrett se tornou uma presença indesejada por estudantes do sexo masculino, que apresentaram uma queixa em 1861 contra a admissão nas aulas, apesar do apoio da administração. Ela foi forçada a deixar o hospital, mas o fez com um certificado de honra em questões químicas e médicas. Garrett tentou se matricular em várias escolas de medicina, e, todas elas a recusaram. Finalmente, em 1865 obteve a Licenciatura para exercer a medicina, a primeira mulher do Reino Unido em obtê-la abertamente (anteriormente a praticou James Barry, uma mulher que se disfarçou de homem e adotou identidade masculina para estudar e exercer a medicina, vivendo toda sua vida adulta como homem). Como nenhum hospital poderia contratá-la por causa de seu sexo, ela abriu seu próprio consultório. Em 1873 obteve a afiliação da Associação Médica Britânica. Trabalhou constantemente no desenvolvimento do novo Hospital de Mulheres de Londres e na fundação em 1874 da Escola de Medicina para Mulheres de Londres, onde trabalhou como reitora. Foi uma ativa feminista. Em 1871, casou-se com James George Skelton Anderson, falecido em 1907, da Oriental Steamship Company, de propriedade de seu tio Arthur Anderson, embora continuasse exercendo como médica. Tiveram três filhos, Louisa (1873-1943) que também foi uma importante médica pioneira e sufragista, Margaret (1874-1875) morta de meningite, e Alan (1877-1952). Eles se mudaram para a mansão dos Garret após a morte da mãe de Elizabeth e lá seu marido morreu de derrame cerebral. Eles tiveram um casamento feliz e ela dedicou seu tempo à jardinagem. Em 09 de Novembro de 1908, foi eleita prefeita de Aldeburgh, a primeira prefeita da história da Inglaterra. Seu pai havia sido prefeito em 1889. Elizabeth faleceu  em 17 de Dezembro de 1917 e foi sepultada no cemitério da igreja de São Pedro e São Paulo de Aldeburgh.
 

sábado, 19 de outubro de 2019

Discinesia - medicina

(Imagem: LuYang's art works)
Discinesia (do grego, dys- distúrbio, e kinesia movimento) é um termo médico para os diversos tipos de movimentos musculares anormais, involuntários, excessivos, diminuídos ou ausentes. É um dos sintomas de diversos transtornos neurológicos ou podem ser causados por medicamentos.

Classificação

Pelo tipo de movimento (kinesia) involuntário:
  • Hipercinesia: Movimento excessivo
  • Hipocinesia: Movimento reduzido
  • Acinesia: Sem movimento voluntário
  • Bradicinesia: Movimento muito lento
  • Taquicinesia: Movimento muito rápido, balismo.

Pelo local afetado:
  • Orofacial: Movimentos involuntários do rosto e boca ("caretas").
  • Periféricos: Em braços, pernas e dedos.
  • Focal: Em apenas um grupo de músculos.
  • Generalizado: Em todo o corpo.
  • Hemilateral: Em apenas uma metade do corpo.
  • Bilateral: Em ambos lados.

Tipos

As discinesias incluem:
  • Coréia
  • Distonia,
  • Mioclonia,
  • Tremor,
  • Discinesia tardia,
  • Discinesia paroxismal,
  • Atetose,
  • Hemibalismo,
  • Acatisia,
  • Tiques,
  • Estereotipia,
  • Pernas inquietas.

Causas

Fármacos que tratam a doença de Parkinson e pelos antipsicóticos, com altas doses e uso prolongado causam discinesia tardia, mas o próprio mal de Parkinson causa discinesia, como tremores e movimentos lentos, sem medicamento. Discinesia por antipsicóticos antigos como haloperidol são mais comuns que pelos antipsicóticos atípicos, e são mais frequentes quando administrados em altas doses e intravenosamente.


Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Discinesia

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Doença de Parkinson - medicina

(Imagem).
A doença de Parkinson (DP) é uma perturbação degenerativa crônica do sistema nervoso central que afeta principalmente a coordenação motora. Os sintomas vão-se manifestando de forma lenta e gradual ao longo do tempo. Na fase inicial da doença, os sintomas mais óbvios são tremores, rigidez, lentidão de movimentos e dificuldade em caminhar. Podem também ocorrer problemas de raciocínio e comportamentais. Nos estádios avançados da doença é comum a presença de demência. Cerca de 30% das pessoas manifestam depressão e ansiedade. Entre outros possíveis sintomas estão problemas sensoriais, emocionais e perturbações do sono. O conjunto dos principais sintomas a nível motor denominam-se "Parkinsonismo", ou "síndrome de Parkinson". Embora se desconheça a causa exata da doença, acredita-se que envolva tanto fatores genéticos como fatores ambientais. As pessoas com antecedentes familiares da doença apresentam um risco superior de vir a desenvolver Parkinson. Existe também um risco superior em pessoas expostas a determinados pesticidas e entre pessoas com antecedentes de lesões na cabeça. Por outro lado, o risco é menor entre fumadores e consumidores de café e chá. Os sintomas da doença a nível motor resultam da morte de células na substância negra, uma região do mesencéfalo. A morte leva a uma diminuição da produção de dopamina nessas regiões. As causas desta morte celular ainda são mal compreendidas, mas envolvem a acumulação de proteínas nos corpos de Lewy nos neurônios. O diagnostico de um caso comum é baseado nos sintomas, podendo ser acompanhado de exames neuroimagiológicos para descartar outras possíveis doenças. Não existe cura para a doença de Parkinson. O tratamento destina-se a melhorar os sintomas. O tratamento inicial consiste geralmente na administração do medicamento antiparkinsónico levodopa, podendo ser usados agonistas da dopamina assim que a levodopa se torna menos eficaz. À medida que a doença avança e continuam a morrer neurônios, estes medicamentos vão perdendo a eficácia, ao mesmo tempo que produzem efeitos adversos caracterizados por movimentos involuntários. A dieta e algumas formas de reabilitação têm demonstrado alguma eficácia na melhoria dos sintomas. Em alguns casos graves em que os medicamentos deixaram de ser eficazes tem sido usada neurocirurgia para colocar micro-elétrodos de estimulação cerebral profunda, diminuindo os sintomas em nível motor. As evidências para os tratamentos de sintomas não motores, como as perturbações de sono ou problemas emocionais, são menos robustas. Em 2015, a doença de Parkinson afetava 6,2 milhões de pessoas, tendo sido a causa de 117.000 mortes em todo o mundo. A doença de Parkinson geralmente ocorre em pessoas com idade superior a 60 anos, das quais cerca de 1% é afetada. A doença é mais comum entre homens do que em mulheres. Quando aparece em pessoas com menos de 50 anos, denomina-se "Parkinson precoce" ou "juvenil". A esperança média de vida a seguir ao diagnóstico é de 7 a 14 anos. A doença é assim denominada em homenagem ao médico britânico James Parkinson, que publicou a primeira descrição detalhada da doença em 1817 na obra An Essay on the Shaking Palsy. Entre as campanhas de consciencialização estão o Dia Mundial da Doença de Parkinson, realizado a 11 de abril, na data de aniversário de James Parkinson, e a utilização de uma tulipa vermelha como símbolo da doença.

Sinais e sintomas

A Doença de Parkinson é caracterizada clinicamente pela combinação de três sinais clássicos: tremor de repouso, bradicinesia e rigidez. Além disso, o paciente pode apresentar também: acinesia, micrografia, expressões como máscara, instabilidade postural, alterações na marcha e postura encurvada para a frente. O sintoma mais importante a ser observado é a bradicinesia. Os sintomas normalmente começam nas extremidades superiores e são normalmente unilaterais devido à assimetria da degeneração inicial no cérebro. A clínica é dominada pelos tremores musculares. Estes iniciam-se geralmente em uma mão, depois na perna do mesmo lado e depois nos outros membros. Tende a ser mais forte em membros em descanso, como ao segurar objetos, e durante períodos estressantes e é menos notável em movimentos mais amplos. Há na maioria dos casos mas nem sempre outros sintomas como rigidez dos músculos, lentidão de movimentos, e instabilidade postural (dificuldade em manter-se em pé). Há dificuldade em iniciar e parar a marcha e as mudanças de direção são custosas com numerosos pequenos passos. O doente apresenta uma expressão fechada pouco expressiva e uma voz monotônica, devido ao deficiente controle sobre os músculos da face e laringe. A sua escrita tende a ter em pequeno tamanho (micrografia). Outros sintomas incluem deterioração da fluência da fala (gagueira), depressão e ansiedade, dificuldades de aprendizagem, insônias, perda do sentido do olfato.

Cognitivos

Por outro lado, os sintomas cognitivos, embora comumente presentes na DP, continuam a ser negligenciados no seu diagnóstico e tratamento. Existem evidências de distúrbios nos domínios emocional, cognitivo e psicossocial, destacando-se: depressão, ansiedade; prejuízos cognitivos e olfativos; e, em particular, a demência na DP.

Estádios

A evolução da doença de Parkinson se apresenta em diferentes intensidades para cada paciente mas segue alguns padrões de progressão que permite avaliar seus principais estádios. A Escala de Hoehn e Lahr, que se baseia principalmente nos sintomas motores da doença, uniformiza o exame neurológico com critérios objetivos e divide a evolução dos sintomas em cinco estádios do Parkinson. Para classificar os sintomas cognitivos é utilizada a Escala Unificada de Avaliação da Doença de Parkinson (Unified Parkinson's Disease Rating Scale).

Causas

A doença de Parkinson é idiopática, ou seja é uma doença primária de causa obscura. Há degeneração e morte celular dos neurônios produtores de dopamina. É portanto uma doença degenerativa do sistema nervoso central, com início geralmente após os 50 anos de idade. É uma das doenças neurológicas mais frequentes visto que sua prevalência situa-se entre 80 e 160 casos por cem mil habitantes, acometendo, aproximadamente, 1% dos indivíduos acima de 65 anos de idade. É possível que a doença de Parkinson esteja ligada a defeitos sutis nas enzimas envolvidas na degradação das proteínas alfanucleína e/ou parkina (no Parkinsonismo genético o defeito é no próprio gene da alfa-sinucleína ou parkina e é mais grave). Esses defeitos levariam à acumulação de inclusões dessas proteínas ao longo da vida (sob a forma dos corpos de Lewy visiveis ao microscópico), e traduziriam-se na morte dos neurônios que expressam essas proteínas (apenas os dopaminérgicos) ou na sua disfunção durante a velhice. O parkinsonismo caracteriza-se, portanto, pela disfunção ou morte dos neurônios produtores da dopamina no sistema nervoso central. O local primordial de degeneração celular no parkinsonismo é a substância negra, presente na base do mesencéfalo. Embora seja mais comum em idosos, a doença também pode aparecer em jovens. Um britânico de 23 anos já foi diagnosticado com Parkinson e seus sintomas iniciaram com um pequeno tremor na mão aos 19 anos de idade. O Mal de Parkinson é uma doença que ocorre quando certos neurônios morrem ou perdem a capacidade. O indivíduo portador de Parkinson pode apresentar tremores, rigidez dos músculos, dificuldade de caminhar, dificuldade de se equilibrar e de engolir. Como esses neurônios morrem lentamente, esses sintomas são progressivos no decorrer de anos. A Doença de Parkinson, uma enfermidade associada a uma degeneração na substância negra do cérebro, pode ter sua origem em no intestino. Há mais de uma década, um professor de neuroanatomia chamado Heiko Braak da Wolfgang Goethe-University, sugeriu que a doença pode começar no intestino e então se alastrar para o cérebro. A ideia tem gerado um intenso debate, mas agora pesquisadores da Universidade de Lund na Suécia afirmam ter visto as primeiras provas concretas de que a doença é capaz de migrar do intestino para o cérebro. Na doença de Parkinson uma boa parte dos pacientes se queixam de problemas gastrointestinais e nesses pacientes os sintomas associados com o olfato e digestão muitas vezes ocorrem precocemente. Isto sugere que a ”hipótese Braak”, que considera que o processo que leva à doença de Parkinson começa no trato digestivo e na área do cérebro responsável pelo processo olfativo. No Brasil apenas 10% dos pacientes com parkinson desenvolvem demência enquanto em outros países os números variam entre 20 e 40%.

Agrotóxicos

São crescentes as indicações de correlação entre o uso de agrotóxicos e o aumento no risco de desenvolvimento da doença da Parkinson. Nos Estados Unidos a doença de Parkinson é mais comum entre homens do meio rural do que em outros grupos demográficos, o que pode ser explicado pela maior possibilidade de exposição aos agrotóxicos. Estudo realizado por pesquisadores do University of Texas Southwestern Medical Center e publicado pela revista Archives of Neurology, sugere que pessoas com doença de Parkinson possuem níveis mais elevados do inseticida ß-hexaclorociclohexano (ß-HCH) no sangue do que as pessoas saudáveis. O inseticida foi encontrado em 76% das pessoas com Parkinson (contra 40% das pessoas saudáveis do grupo de controle e 30% das pessoas com doença de Alzheimer). Os pesquisadores testaram o sangue dos participantes para 15 conhecidos agrotóxicos organoclorados. Estes agrotóxicos, dentre os quais o conhecido DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano), foram amplamente utilizados nos EUA desde a década de 1950 até os anos 1970 e persistem no ambiente durante anos. No organismo, essas substâncias se dissolvem em gorduras, podendo causar danos no sistema nervoso. Embora o estudo aponte para uma relação direta entre o inseticida HCH (hexaclorociclohexano) e a doença de Parkinson, os pesquisadores acreditam que outros pesticidas e contaminantes ambientais podem estar entre as causas do desenvolvimento da doença. Outra pesquisa recente (Nitratos podem ser acionadores ambientais de Alzheimer, diabetes e doença de Parkinson) sugere uma associação entre os nitratos presentes em nosso meio ambiente e o aumento das mortes por doenças insulino-resistentes, incluindo doença de Alzheimer, a diabetes mellitus, a doença de Parkinson e a esteatose hepática não-alcoólica.

Diagnóstico

O diagnóstico é feito principalmente pela clínica e testes musculares e de reflexos. Normalmente não há alterações nas Tomografia computadorizada cerebral, eletroencefalograma ou na composição do líquido cefalorraquidiano, mas podem ser feitos para descartar outras causas. Técnicas da medicina nuclear como SPECTs e PETs podem ser úteis para avaliar o metabolismo dos neurónios dos núcleos basais. Se pode testar a resposta ao tratamento com carbidopa e levodopa, uma melhora significativa confirma o diagnóstico.

Tratamento
Psicológico


Cerca de 90% das pessoas com Parkinson sofrem também com algum outro transtorno psiquiátrico em algum momento. Dependendo do caso esses transtornos podem tanto ter colaborado para o desenvolvimento quanto serem consequência da doença ou mesmo não terem relação direta, essas três possibilidades tem embasamento científico. Mas independente de serem causa, consequência ou coincidentes, os distúrbios cognitivos, transtornos de humor e transtornos de ansiedade frequentes causam grandes prejuízos na qualidade de vida dos pacientes e seus familiares. O transtorno mais comum foi a depressão nervosa, identificada em 32% dos casos, e responsável por agravar os problemas motores, de sono, alimentares e de dores. Diversos medicamentos psiquiátricos, inclusive o anti-depressivo mais usado (fluoxetina), podem agravar os sintomas do Parkinson, ressaltam a importância do acompanhamento feito por psicólogos para melhorar a qualidade de vida do paciente e especialmente de seus cuidadores. Várias grandes cidades possuem serviços de saúde voltados para o idoso e que incluem serviços de apoio psicológico ao portador de parkinson e seus cuidadores como a Associação Brasil Parkinson, a ABRAZ, e a Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson. Como antidepressivos podem piorar a funcionalidade do paciente uma opção é a estimulação magnética transcraniana (EMT) porém ela é cara e de difícil acesso. Uma opção semelhante e mais acessível é a eletroconvulsoterapia.

Fisioterapêutico

O tratamento fisioterapêutico atua em todas as fases do Parkinson, para melhorar as forças musculares, coordenação motora e equilíbrio. O paciente com Parkinson, geralmente está sujeito a infecções respiratórias, que ocorrem mais com os pacientes acamados. Nestes casos a fisioterapia atua na manutenção da higiene brônquica, estímulo a tosse, exercícios respiratórios reexpansivos. Em casos mais graves, em que há comprometimento da musculatura respiratória, é indicado o tratamento com aparelhos de ventilação mecânica e respiradores mecânicos não invasivos, visando a otimização da ventilação pulmonar, com consequente melhora do desconforto respiratório. Evidências clínicas dos efeitos do exercício físico ou reabilitação para indivíduos com DP são geralmente associadas às intervenções com probabilidade de exercer impacto sobre escalas clínicas – estadiamento de Hoehn e Yahr, UPDRS (Unified Parkinson's Disease Rating Scale) – ou limitações funcionais – marcha, subir/descer escadas, levantar da cama/cadeira, prevenção de quedas (CRIZZLE e NEWHOUSE, 2006). O treinamento de resistência muscular localizada e equilíbrio aumentaram a força muscular, a postura e a orientação espacial de pacientes com DP (HIRSCH et al., 2003). O treinamento em esteira ergométrica (MIYAI et al, 2002), a fisioterapia (NIEWBOER et al., 2001) e esportes adaptados (KURODA et al., 1992) diminuíram a gravidade da doença pela escala UPDRS. Pacientes com DP que praticam exercícios apresentaram menores índices de mortalidade do que os sedentários (REUTER et al., 1997).

Nutrição

Conforme referido anteriormente, a doença de Parkinson é caracterizada por degeneração de neurônios pigmentados da substância negra, localizados nos gânglios da base cerebral, e os sintomas resultantes refletem a depleção do neurotransmissor dopamina. Se o processo é desencadeado por algo no meio ambiente, por uma falha genética ou pela combinação de ambos não está claro, embora um defeito no cromossomo 4 tenha sido recentemente apontado como uma causa em alguns casos. De evolução lenta e quase sempre progressiva, a doença de Parkinson apresenta, nos indivíduos, sintomas clínicos que incluem tremor, rigidez, acinesia, lentidão de movimentos (bradicinesia) e alteração da postura. Sintomas não motores podem aparecer também. Estes incluem sudorese excessiva ou outros distúrbios do sistema nervoso involuntário e problemas psíquicos como depressão e, em estágios mais avançados, demência. Segundo COHEN (1994), 15 a 25% dos idosos, em geral, que apresentam depressão, desenvolvem sintomas psiquiátricos que podem comprometer o estado nutricional. A acinesia e os distúrbios correlatos, já mencionados, interferem decisivamente nos atos motores básicos como a marcha, a fala e nas atividades que requerem a conjugação de atos motores como o vestir-se, a higiene corporal e a alimentação. À medida que a doença evolui, o paciente vai se tornando mais lento e mais enrijecido. A rigidez das extremidades e o controle da posição da cabeça e do tronco podem interferir com a capacidade do paciente de cuidar de si mesmo, inclusive quanto à alimentação. O ato de se alimentar torna-se mais lento e os movimentos simultâneos, tais como, aqueles necessários para manusear os talheres, mostram-se difíceis. Esses sintomas levam muitas vezes o parkinsoniano a um grau considerável de dependência em relação a seus familiares. Além desses, o paciente apresenta também dificuldade de deglutição, da motricidade gástrica e esofagiana, constipação intestinal, problemas vasomotores, da regulação arterial, edemas, dificuldade de regulação da temperatura corporal, perturbações do sono e perda de peso.

Cirurgia de Estimulação Cerebral Profunda

Estimulação cerebral profunda ou ECP (do inglês Deep Brain Stimulation (DBS)) é um tratamento neurocirúrgico para transtornos neurológicos usando um marcapasso cerebral que envia impulsos elétricos a determinada parte do encéfalo. É usado no tratamento de doenças neurológicas, inclusive Doença de Parkinson, em que a medicação não foi eficiente e que causa amplos prejuízos ao paciente. O procedimento não é uma cura e não impede a progressão das doenças, mas tem se mostrado eficiente no controle dos sintomas motores e pode devolver aos pacientes autonomia e qualidade de vida. Recentemente um grupo de pesquisadores brasileiros liderado pelo neurocirurgião Erich Fonoff descreveu uma nova técnica de implante simultâneo de eletrodos para estimulação cerebral profunda bilateral (ECP Bilateral Simultanea) fazendo possível que o procedimento se tornasse mais rápido e preciso. A precisão do implante faz toda a diferença pois a ECP tem seu efeito extremamente localizado.

Prognóstico

O curso é progressivo e é feito durante de 10 a 25 anos após o surgimento dos sintomas. O agravamento contínuo dos sintomas, para além da importância da dopamina para o humor, levam a alterações radicais na vida do doente, e à depressão profunda frequentemente. A síndrome de Parkinson não é fatal mas fragiliza e predispõe o doente a outras patologias, como pneumonia de aspiração (o fraco controle muscular leva a deglutição da comida para os pulmões) e outras infecções devido à imobilidade.

Epidemiologia

A incidência de demência na DP é seis vezes maior do que na população geral, e a prevalência varia entre 10% a 50%. Caracteriza-se por redução ou falta de iniciativa para atividades espontâneas; incapacidade de desenvolver estratégias eficientes para a resolução de problemas; lentificação dos processos mnemônicos e de processamento global da informação; prejuízo da percepção visuoespacial; dificuldades de conceitualização e dificuldade na geração de listas de palavras. O reconhecimento precoce desses sintomas e seu tratamento são fatores cruciais para uma melhor abordagem clínica da DP. Em vários estudos clínicos foi observada ligeira predominância do sexo masculino, porém existem algumas questões sobre a forma de seleção dos pacientes. Em trabalhos que calcularam a prevalência e incidência da doença de Parkinson , não foi demonstrada diferença significativa em relação ao sexo quanto ao risco de contrair a doença. O aumento da esperança de vida não modificada de forma importante o número de parkinsonianos, permanecendo a prevalência da doença bastante estável desde o início do século.

História

O nome "Parkinson" é uma homenagem do médico francês Jean-Martin Charcot ao neurologista James Parkinson, que estudou os sintomas da doença.


Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Doença_de_Parkinson