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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Biografia de Janusz Korczak - médico

Janusz Korczak
Janusz Korczak, pseudônimo de Henryk Goldszmit, também conhecido como o “Velho Doutor” ou o “Senhor Doutor”, nasceu em Varsóvia, no dia 22 de Julho de 1878 ou 1879, e foi assassinado em Treblinka, no dia 05 ou 06 de Agosto de 1942. Korczak foi médico, pediatra, pedagogista, escritor, autor infantil, publicista, ativista social, oficial do Exército Polaco. Foi um pedagogo inovador e autor de obras no campo da teoria e prática educacional. Foi precursor nas iniciativas em prol dos direitos da criança e do reconhecimento da total igualdade das crianças que hoje encontramos nas Escolas Democráticas. Na qualidade de diretor de um orfanato instituiu, entre outros, um tribunal de arbitragem de crianças, no âmbito do qual as próprias crianças avaliavam as causas apresentadas por elas mesmas, podendo também levar a tribunal os seus educadores. O famoso psicólogo suíço, Jean Piaget, que visitou o orfanato "Dom Sierot" (A Casa dos Órfãos), fundado e dirigido por Korczak, disse dele o seguinte: “Este homem maravilhoso teve a coragem de confiar nas crianças e nos jovens, com os quais trabalhava, ao ponto de transferir para as suas mãos as ocorrências disciplinares e de confiar a certos indivíduos as tarefas mais difíceis e de grande responsabilidade”. Korczak criou a primeira revista redigida a partir de textos enviados por crianças, que se destinava sobretudo a jovens leitores, “A Pequena Revista”. Foi igualmente um dos pioneiros dos estudos sobre o desenvolvimento e a psicologia da criança, bem como do diagnóstico da educação. Era judeu-polaco que toda a vida afirmou pertencer às duas nações, a hebraica e a polaca. Trinta anos após a sua morte, ele recebeu, postumamente, o “Prêmio da Paz dos Livreiros Alemães”.

A juventude e a educação

Janusz Korczak nasceu em Varsóvia numa família judaica polonizada, era filho do advogado Józef Goldszmit (1844-1896) e de Cecylia, com o apelido de solteira “Gębicka” (1853/4-1920). Como a certidão de nascimento original não se conservou, a data de nascimento de Korczak é incerta. A família Goldszmit era oriunda da região de Lublin e a família Gębicka da região de Poznań; o seu bisavô Maurycy Gębicki e o seu avô Hersz Goldszmit eram médicos. As sepulturas do pai de Janusz Korczak e dos seus avôs maternos (não se sabe onde se encontra a sepultura da mãe) encontram-se no cemitério judaico de Varsóvia, na rua Okopowa. A boa situação financeira inicial da família Goldszmit começou a deteriorar-se devido à doença mental do pai que, pela primeira vez, foi internado num manicômio no início dos anos de 1890 com sintomas de insanidade mental. O pai morreu a 26 de abril de 1896. Depois da sua morte, Korczak, que era na altura um estudante de 17-18 anos, começou a dar explicações para ajudar a sustentar a família. A mãe, Cecylia Goldszmit, alugava quartos no seu apartamento de Varsóvia. Korczak concluiu os exames do ensino secundário (“matura”) com a idade de vinte anos. Quando era criança, lia muito. Passados anos, no diário escrito no gueto, anotou: “Deixei-me levar pela loucura, pela fúria da leitura. O mundo desapareceu diante dos meus olhos e só os livros existiam”. Em 1898 deu início aos estudos na Faculdade de Medicina da Universidade Imperial de Varsóvia. No verão de 1899, viajou pela primeira vez para o estrangeiro, para a Suíça, onde, entre outros, tomou conhecimento da atividade e da obra pedagógica de Johann Heinrich Pestalozzi. No final desse mesmo ano, também foi brevemente detido pela sua atividade nas salas de leitura da Associação de Caridade de Varsóvia. Estudou durante seis anos, repetindo o primeiro ano do curso. Também frequentou a Universidade Volante. Durante os seus tempos de estudante, conheceu de perto a vida dos bairros pobres, do proletariado e do lumpemproletariado2. Também pertenceu à loja maçônica “Estrela do Mar” da Federação Internacional “Le Droit Humain”, instituída a fim de “conciliar todas as pessoas segregadas por causa de barreiras religiosas, bem como procurar a verdade, conservando o respeito pelos outros seres humanos”.

2 O termo “lumpen proletariat” (do alemão Lumpenproletariat: "seção degradada e desprezível do proletariado", de lump "pessoa desprezível" e lumpen "trapo, farrapo" + proletariat "proletariado") ou lumpesinato ou ainda subproletariado designa, no vocabulário marxista, a população situada socialmente abaixo do proletariado, do ponto de vista das condições de vida e de trabalho, formada por frações miseráveis, não organizadas do proletariado, não apenas destituídas de recursos econômicos, mas também desprovidas de consciência política e de classe, sendo, portanto, suscetíveis de servir aos interesses da burguesia. Assim, segundo os teóricos da revolução, o lumpemproletariado seria pernicioso, já que seu cinismo e sua absoluta ausência de valores poderiam contaminar a consciência revolucionária do proletariado.

O médico

No dia 23 de março de 1905, Korczak recebeu o diploma em Medicina. Em junho desse mesmo ano, foi recrutado na qualidade de médico para o exército do czar (naquele tempo, a Polônia encontrava-se sob o domínio estrangeiro) e participou na guerra russo-japonesa. Prestou serviço em Harbin. Aprendeu chinês com as crianças da Manchúria. No final de março de 1906 regressou a Varsóvia. Entre 1905-1912 trabalhou como pediatra no Hospital Pediátrico de Berson e Bauman. Em troca de um apartamento no recinto do hospital, desempenhou funções de atendimento permanente no hospital na qualidade de médico interno, cumprindo as suas obrigações com dedicação. Na sua atividade médica não evitou os contatos com as zonas proletárias da cidade. Cobrava amiúde honorários simbólicos aos doentes pobres ou também lhes dava dinheiro para os medicamentos; no entanto, não hesitava em cobrar altos honorários aos ricos, o que era facilitado pela sua popularidade como escritor. Nos anos de 1907-1910/11, viajou pelo estrangeiro com fins acadêmicos. Assistiu a palestras, estagiou em clínicas pediátricas e visitou instituições de educação e proteção de menores. Esteve quase um ano em Berlim (1907-1908), quatro meses em Paris (1910) e ainda um mês em Londres (em 1910 ou 1911). Tal como escreveu, passados anos, foi precisamente em Londres que tomou a decisão de não constituir família e de “se dedicar às crianças e às suas causas”. Nesta época, participou ativamente na vida social; pertenceu, entre outros, à Sociedade de Higiene de Varsóvia e à Sociedade das Colônias de Verão (TKL). Nos anos de 1904, 1907 e 1908, trabalhou nas colônias de férias organizadas pelo TKL para crianças judias e polacas. Em 1906 publicou "A Criança do Salão", um livro que foi muito bem recebido pelos leitores e pela crítica. Desde então, graças à fama alcançada com as suas publicações, passou a ser um conhecido e procurado pediatra de Varsóvia. Em 1909, aderiu à Sociedade judaica “Auxílio aos Órfãos”, que anos mais tarde viria a construir o seu próprio orfanato “Dom Sierot”, cujo diretor seria Korczak. Durante a Primeira Guerra Mundial voltou a ser recrutado para o exército do czar. Prestou serviço como chefe mais novo do hospital de campanha, principalmente, na Ucrânia. Em 1917 foi chamado para assumir funções de médico nos asilos de crianças ucranianas em Kiev. Dois anos antes, durante umas curtas férias passadas em Kiev conheceu Maria Rogowska Falska, uma ativista, social e independentista, polaca que dirigia, naquela altura, uma casa de acolhimento para rapazes polacos. Depois de ter terminado o serviço no exército russo, com a patente de capitão, regressou a Varsóvia em junho de 1918. Depois da declaração de independência da Polônia (a 11 de novembro de 1918), Korczak depressa voltou para o exército. Desta vez, foi mobilizado para o exército polaco recentemente formado. Durante a guerra polaco-soviética (1919-1921) prestou serviço como médico nos hospitais militares de Łódź e Varsóvia. Também padeceu de tifo. Pelo trabalho realizado foi promovido à patente de major do Exército Polaco.

O orfanato da Krochmalna, onde Korczak trabalhou.


O pedagogo
As ideias

Desde muito jovem, Korczak interessou-se por assuntos relacionados com a educação das crianças e foi influenciado pelas ideias e experiências da “nova educação”. Também se inspirou na teoria do progressivismo pedagógico, elaborada, entre outros, por John Dewey e pelos trabalhos de Jean-Ovide Decroly, Maria Tecla Artemisia Montessori ou pedagogos anteriores, tais como, Johann Heinrich Pestalozzi, Herbert Spencer e Friedrich Fröbel; também conhecia as concessões pedagógicas de Liev Nikoláievich Tolstoi. Sublinhava a necessidade de dialogar com as crianças. Korczak publicava e proferia palestras sobre temas relacionados com a educação das crianças e a pedagogia. Primeiramente ganhou experiência no trabalho com as crianças como explicador e, posteriormente, como ativista social e, seguidamente, como diretor do orfanato Dom Sierot e cofundador do orfanato “Nasz Dom”. No período entre guerras lecionou em diversas universidades na Polônia, entre elas, no Instituto Nacional de Educação Especial (hoje Academia da Educação Especial de Maria Grzegorzewska), no Seminário Nacional de Professores de Religião Judaica e no Instituto Nacional de Professores. Korczak era defensor da emancipação da criança, da sua autodeterminação e do respeito pelos seus direitos. Os princípios da democracia, que Korczak aplicava de igual modo tanto às crianças como aos adultos, eram implementados no quotidiano nos seus orfanatos sob a forma de autogestão dos educandos. “Uma criança compreende e raciocina como um adulto, só que não possui a sua bagagem de experiência”. A sua revista publicada pelas e para as crianças constituía o seu fórum, era uma forja de talentos e um importante pilar de assimilação, sobretudo, para as crianças das famílias judaicas ortodoxas. Como médico, Korczak era a favor da ressocialização, bem como de uma proteção abrangente e inovadora das crianças, oriundas de famílias marginais. Afirmava que o lugar da criança era na companhia dos seus pares e não isolada em casa. Esforçou-se para que as crianças aperfeiçoassem as suas primeiras convicções e ideias principiantes, se sujeitassem ao processo de socialização e, assim, se preparassem para a vida adulta. Esforçou-se por assegurar às crianças uma infância despreocupada, o que não quer dizer isenta de obrigações. Considerava que as crianças deveriam compreender e experimentar emocionalmente determinadas situações, tirar conclusões por elas próprias e eventualmente prevenir prováveis consequências. “Não existem crianças, existem sim pessoas”, escreveu Korczak. Korczak considerava todas as crianças, que tratara ou educara, como suas. Esta sua postura viria a ser confirmada pela sua atividade posterior. As suas convicções altruístas também não lhe permitiam favorecer ou distinguir o pequeno grupo dos seus educandos preferidos. Não considerava a família tradicional como o vínculo mais importante e fundamental dos laços sociais. Não aceitava o papel que ela desempenhava nos meios conservadores cristãos e tradicionais judaicos da sociedade. Os elementos mais importantes da concessão de Korczak sobre a educação são os seguintes:

  •     A rejeição da violência – física e verbal, resultante da vantagem de ser mais velho ou do desempenho de uma função superior;
  •     A ideia de uma interação educativa entre adultos e crianças, que alargava a definição da pedagogia clássica;
  •     A convicção de que a criança é um ser humano do mesmo modo que um adulto;
  •     O princípio de que o processo educativo deveria levar em consideração a individualidade de cada criança;
  •     A crença de que a criança, melhor do que ninguém, sabe das suas necessidades, aspirações e emoções e, logo, deveria ter direito a emitir a sua opinião e a ser ouvida pelos adultos;
  •     O reconhecimento de que a criança tem direito ao respeito, à ignorância e ao fracasso, à privacidade, bem como às suas próprias opiniões e propriedade;
  •     O reconhecimento de que o processo de desenvolvimento de uma criança é um trabalho difícil.
 
Janusz Korczak com as crianças órfãs, 1920.



A atual percepção

Atualmente Janusz Korczak é cada vez mais reconhecido como precursor de um conjunto de correntes pedagógicas, enquanto a sua ideia de respeitar os direitos da criança é um ponto de referência para muitos autores contemporâneos. “Reformar o mundo quer dizer reformar a educação”, preconizava Korczak. Korczak é considerado um dos pioneiros da corrente pedagógica atualmente designada como “educação moral” (em inglês: moral education), ainda que não tenha criado uma teoria sistemática sobre o assunto. As suas ideias pedagógicas modernas baseavam-se na prática. Era contra a doutrina na didática, muito embora tivesse um bom conhecimento das correntes pedagógicas e psicológicas da sua época. De acordo com Igor Newerly não se identificava com nenhuma ideologia política concreta, nem doutrina educativa. Não obstante, Janusz Korczak é apontado como precursor de várias correntes. Lawrence Kohlberg considera que a Comunidade Justa de Crianças (em inglês: Children Just Community) se baseia na prática de Korczak. Também há quem diga que Korczak e Paulo Freire têm ideias parecidas quanto à democracia na escola e à teoria do diálogo. Os defensores do amor pedagógico (em inglês: pedagogical love) baseiam a sua teoria no modelo de relações professor-aluno elaborado por ele. Outros autores veem em Korczak e Martin Buber os princípios da corrente da “educação religiosa”. As ideias de Korczak são aplicadas na “ideologia da normalização” da educação das crianças com deficiências intelectuais. A sua abordagem relativamente à educação das crianças influenciou as iniciativas legislativas empreendidas no pós-guerra em prol das crianças. A Polônia contribuiu grandemente para essas iniciativas, na medida em que tomou parte ativa na elaboração da Declaração dos Direitos da Criança em 1959 e promoveu a criação da "Convenção sobre os Direitos da Criança", adotada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas, em 1989.

Os orfanatos "Dom Sierot" e "Nasz Dom"


Monumento a Korczak em Varsóvia.
(Pic: Piotr Biegała - HeAVenlY).
Juntamente com Stefania Wilczyńska fundou e dirigiu o "Dom Sierot", um orfanato que se situava na rua Krochmalna, nº 92 (hoje, rua Jaktorowska, nº 6), em Varsóvia, e se destinava a crianças judias, sendo financiado pela Sociedade judaica “Auxílio aos Órfãos”. O orfanato abriu no dia 7 de outubro de 1912, sendo Korczak o seu diretor. Stefania Wilczyńska (1886-1942), conhecida como a menina ou a senhora Stefa, tornou-se a educadora principal. Korczak geriu o orfanato durante trinta anos. No final de outubro e princípio de novembro de 1940, o orfanato Dom Sierot foi transferido para o gueto, para a rua Chłodna. Durante a sua intervenção a propósito da transferência do orfanato numa repartição, Korczak foi detido. Os Nazis aprisionaram-no na cadeia do Pawiak, mas, passadas algumas semanas, foi libertado mediante o pagamento de uma caução. Desde 1919, Korczak, em parceria com Maria Falska, fundou outra instituição de proteção, um orfanato para crianças polacas, "Nasz Dom" (A Nossa Casa), que inicialmente se situava numa localidade perto de Varsóvia, Pruszków, e, a partir de 1928, passou para o bairro da capital, Bielany. A colaboração de Maria Falska durou até 1936. No orfanato Nasz Dom, também eram aplicados métodos pedagógicos inovadores. Ambas as instituições, destinadas a crianças entre os 7 e os 14 anos, implementavam a conceção da comunidade em autogestão, que criava as suas próprias instituições, tais como, um parlamento, um tribunal, um jornal, um sistema de horas de serviço, um notário e uma caixa de crédito. Pela sua atividade educativo-instrutiva, Korczak foi galardoado com a "Cruz de Oficial da Ordem da Polônia Restituta" que lhe foi atribuída no dia 11 de Novembro de 1925, no dia do feriado nacional da Independência.

O escritor, o publicista e o jornalista da rádio

Estreou-se no dia 26 de setembro de 1896 no semanário, "Kolce". Como aluno do liceu não podia publicar oficialmente na imprensa e, por isso, assinava os seus artigos com o pseudônimo "Hen", tendo mais tarde usado outros pseudônimos, entre eles, "Hen-Ryk", "Hagot" e "Velho Doutor". O pseudônimo "Janasz Korczak", uma forma ligeiramente alterada de "Janusz Korczak", que se tornou mais conhecido do que o seu próprio apelido, fora retirado do título de um romance de Józef Ignacy Kraszewski, "Sobre Janasz Korczak e a Bela Filha do Portador da Espada". Korczak usou o nome pela primeira vez, em 1898, assinando a sua peça de teatro em quatro atos intitulada, "Por Onde", que foi enviada para um concurso de teatro. A peça não se conservou. Nos anos de 1898-1901 publicou na revista “Czytelnia dla Wzystkich” (Sala de Leitura para Todos). Desde 1900 começou a publicar como Janusz Korczak e a assinar com esse nome inclusivamente cartas particulares sem, contudo, desistir dos restantes pseudônimos. Assim como Hen-Ryk, colaborou com o semanário satírico Kolce. A partir de 1901 começou a escrever folhetins. Em 1905 foi editada uma coletânea dos seus folhetins, publicados na revista Kolce, intitulada “Tretas e Truques”, bem como o romance “As Crianças da Rua 1901”. O legado de Korczak como escritor inclui um total de 24 livros e mais de 1.400 textos publicados em várias revistas. Conservaram-se, porém, poucos manuscritos, textos datilografados e documentos (entre eles, cartas), os quais perfazem um total de cerca de 300 textos. Considera-se que, dos seus estudos pedagógicos, os mais importantes são os seguintes: o ciclo de quatro volumes: Como Amar uma Criança (1920), Momentos Educacionais (1924), Quando Voltar a Ser Pequeno (1925), O Direito da Criança ao Respeito (1929), bem como Pedagogia Divertida (1939). Dentre os livros para crianças destacam-se pela popularidade alcançada O Rei Mateusinho I e O Rei Mateusinho Numa Ilha Deserta (1923) traduzidos para mais de vinte línguas, bem como A Bancarrota do Pequeno Jack (1924), As Regras da Vida (1930) e Caetanito, o Feiticeiro (1935). Pela sua obra literária Korczak recebeu, em 1937, o "Laurel de Ouro da Academia Polaca de Literatura". Durante a Segunda Guerra Mundial escreveu um diário cuja importância reside nas circunstâncias em que foi escrito e na experiência de guerra do autor. Na sua obra pedagógica, Korczak também usou instrumentos muito modernos para os seus tempos. Criou um periódico para as crianças e jovens A Pequena Revista (1926-1939). A revista era publicada como suplemento semanal do diário de Varsóvia, A Nossa Revista. O primeiro número saiu a 9 de outubro de 1926 e foi a primeira revista criada por crianças na Polônia. A partir de 1930, o escritor Jerzy Abramow, conhecido após a guerra como Igor Newerly, tornou-se seu editor, ao mesmo tempo que desempenhava a função de secretário de Korczak. A revista funcionava apesar da intensificação do antissemitismo, da intolerância e da segregação racial dos anos 30. O seu último número saiu com a data de 1º de setembro de 1939. Como pedagogo notável, o Velho Doutor também conduziu as suas atividades por intermédio de um ciclo de programas de rádio. Neles criou um estilo próprio para se dirigir aos ouvintes mais jovens, falando-lhes de um modo simples sobre coisas importantes. Em 1936, os programas pedagógicos do doutor saíram da antena, apesar da opinião entusiástica dos ouvintes e dos críticos, por causa de uma certa disposição crescente antissemita e de pressões externas afins. Korczak regressou à estação da rádio dois anos mais tarde e continuou a dirigir-se aos ouvintes da Rádio Polaca após a eclosão da guerra, nos primeiros dias de setembro de 1939.

A Segunda Guerra Mundial, o gueto e a última marcha

Como oficial do Exército Polaco, após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, Korczak voluntariou-se para prestar serviço militar, mas não foi aceito, atendendo à sua idade. Durante a ocupação alemã, envergou a farda militar polaca. Também não aprovava a discriminação imposta pelos Nazis aos Judeus, patente no uso da Estrela de David, o que considerava uma profanação do símbolo. Passou os últimos anos da sua vida no gueto de Varsóvia. Newerly, o futuro biógrafo de Korczak, tentou arranjar-lhe documentos falsos na parte ariana da cidade, mas o médico recusou-se a sair do gueto. No gueto retomou a escrita regular do seu diário iniciado em 1939. Anteriormente e durante dois anos, não escrevera nada, visto que canalizara toda a sua energia para a educação das crianças de Dom Sierot e para outras atividades relacionadas com a situação das crianças no gueto. O diário foi publicado pela primeira vez em Varsóvia, em 1958. A última anotação tem a data de 4 de agosto de 1942. Na manhã de 5 ou 6 de agosto de 1942, o terreno do chamado Pequeno Gueto foi cercado pelas tropas da SS e por polícias das forças ucranianas e letãs. Durante a chamada Grande Ação, ou seja, a principal etapa de exterminação da população do gueto de Varsóvia por parte dos alemães, Korczak recusou, pela segunda vez, a proposta para se salvar por não querer abandonar as crianças e os funcionários de Dom Sierot. No dia da deportação do gueto, Korczak acompanhou o cortejo dos seus educandos rumo ao Umschlagplatz, de onde partiam os comboios para os campos de extermínio. Nesta marcha seguiam cerca de 200 crianças e algumas dezenas de educadores, entre eles, Stefania Wilczyńska. A sua última marcha transformou-se numa lenda. Tornou-se um dos mitos da guerra e um dos temas mais recordados, ainda que nem sempre consistente e confiável nos pormenores. “Não pretendo ser iconoclasta, nem desmistificador de mitos, mas tenho de contar o que então vi. Pairava no ar uma enorme inércia, um automatismo e uma apatia. Não era visível comoção pelo fato de Korczak seguir no cortejo, não houve saudações (tal como alguns descrevem), também não houve de certeza a intervenção dos enviados do Judenrat (Conselho Judaico), nem ninguém se aproximou de Korczak. Não houve gestos, não houve cantos, não havia cabeças orgulhosamente erguidas; não me lembro se alguém empunhava o estandarte de Dom Sierot – há quem diga que sim. Havia um silêncio tremendo e exausto. (…) Uma das crianças segurava Korczak pela roupa ou talvez pela mão; seguiam como que em transe. Acompanhei-os até ao portão do Umschlag” .… De acordo com outras versões, as crianças marchavam em linha de quatro e transportavam a bandeira do Rei Mateusinho I, o herói de uma das histórias escritas pelo seu educador. Todas as crianças levavam consigo o seu brinquedo ou o seu livro preferido. Um dos rapazes à cabeça do cortejo, tocava violino. Os Ucranianos e os SS batiam com os chicotes e disparavam sobre a multidão de crianças, embora o cortejo fosse encabeçado por um destes homens que, pelos vistos, nutria alguma simpatia pelas crianças. Janusz Korczak morreu juntamente com os seus educandos no campo de extermínio nazi de Treblinka. No ano de 1948, foi postumamente agraciado com a Cruz de Cavaleiro da Ordem da Polônia Restituta.

A identidade

Janusz Korczak considerava-se um Judeu-polaco. Atuou sempre no sentido de aproximar Polacos e Judeus. A sua língua materna era o polaco, que era também a língua em que escrevia as suas obras. Só começou a estudar hebraico nos anos 30, quando se aproximou do movimento sionista, mas entendia um pouco de ídiche, que era a língua da maioria dos judeus-polacos, graças aos seus conhecimentos de alemão. Somente nos anos 30, começou a interessar-se pelo renascimento nacional judaico; colaborou com publicações das organizações da juventude sionista e também participou nos seus seminários. Durante esse período de tempo, também foi abalado por uma crise na sua vida privada e profissional. Em certa medida, duas viagens à Palestina, em 1934 e 1936, ajudaram-no a superar a situação e, tal como escreveu, “a encarar o passado, obter apoio para repensar o presente e – inclusivamente – vislumbrar o futuro”.

Os filmes

  • “O Senhor Está Livre, Dr. Korczak” (em alemão: Sie Sind Frei Doktor Korczak), um filme realizado por Aleksander Ford em 1975. O filme aborda os últimos anos de vida de Janusz Korczak, cujo papel foi representado pelo ator Leo Genn.
  • “Korczak” – filme polaco realizado por Andrzej Wajda, com argumento de Agnieszka Holland, 1990. Representa o destino do Dr. Korczak e, de modo fragmentário, os crimes nazis perpetrados contra as crianças e os educadores do Dom Sierot, durante a implementação da chamada Operação Reinhardt. O papel de Korczak foi representado por Wojciech Pszoniak.
  • “O Coração Corajoso de Irena Sendler” – com nome original de “The Courageous Heart of Irena Sendler” (2010), o filme é baseado na história da assistente social “polaca”, que ajudou a salvar cerca de 2.500 crianças do gueto de Varsóvia. Neste filme aparece Janusz Korczak cuidando de suas crianças no gueto.

Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Janusz_Korczak
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lumpemproletariado

domingo, 10 de novembro de 2019

Biografia de Sigmund Freud

Freud, por Max Halberstadt, 1922
Sigmund Freud nasceu em Freiberg in Mähren, Morávia, Império Austríaco, a 06 de Maio de 1856, e, faleceu em Londres, Inglaterra, a 23 de Setembro de 1939. Sigmund Freud, foi um médico neurologista criador da psicanálise. Freud nasceu em uma família judaica, em Freiberg in Mähren, na época pertencente ao Império Austríaco (atualmente, a localidade é denominada Příbor, e pertence à República Tcheca). Freud iniciou seus estudos pela utilização da técnica da hipnose no tratamento de pacientes com histeria, como forma de acesso aos seus conteúdos mentais. Ao observar a melhora dos pacientes tratados pelo médico francês Jean-Martin Charcot, elaborou a hipótese de que a causa da histeria era psicológica, e não orgânica. Essa hipótese serviu de base para outros conceitos desenvolvidos por Freud, como o do inconsciente. Freud também é conhecido por suas teorias dos mecanismos de defesa e repressão psicológica e por criar a utilização clínica da psicanálise como tratamento das psicopatologias, através do diálogo entre o paciente e o psicanalista. Freud acreditava que o desejo sexual era a energia motivacional primária da vida humana. Sua obra fez surgir uma nova compreensão do ser humano, como um animal dotado de razão imperfeita e influenciado por seus desejos e sentimentos. Segundo Freud, a contradição entre esses impulsos e a vida em sociedade gera, no ser humano, um tormento psíquico. Freud tinha uma visão biopsicossocial do ser humano. Fatos como a descrição de pacientes curados através do diálogo por Josef Breuer e a morte do colega Ernst von Fleischl-Marxow por dose excessiva do antidepressivo da época, a cocaína, levaram-no ao abandono das técnicas de hipnose e de drogas para criar um novo método: a cura pela fala, ou seja, a psicanálise, que utilizava a interpretação de sonhos e a livre associação como vias de acesso ao inconsciente. Suas teorias e seus tratamentos foram controversos na Viena do século XIX, e continuam a ser muito debatidos hoje. Sua teoria é de grande influência na psicologia atual e, além do contínuo debate sobre sua aplicação no tratamento médico, também é, frequentemente, discutida e analisada como obra de literatura e cultura geral.

Biografia

 
Freud em 1905.
Sigmund Freud era filho de Jacob Freud (um judeu proveniente da Galícia e comerciante de lã) e de sua terceira mulher, Amalie Nathanson (1835-1930). Nascido com o nome de Sigmund Schlomo Freud em 1856, Freud mudou-se para Viena em 1860, quando tinha quatro anos de idade, por causa de problemas financeiros e de problemas de saúde de sua família. Freud ingressou na Universidade de Viena aos 17 anos. Ele planejava estudar Direito mas, ao invés disso, entrou para a faculdade de medicina, onde seus estudos incluíram filosofia, com o professor Franz Brentano, fisiologia, com o professor Ernst Brücke e zoologia, com o professor darwinista Carl Friedrich Claus. Em 1876, Freud passou quatro semanas na estação zoológica de Claus em Trieste, dissecando o sistema reprodutor masculino de centenas de enguias, num estudo que se revelou inconclusivo. Os primeiros anos de Freud são pouco conhecidos, já que ele destruiu seus escritos pessoais em duas ocasiões: a primeira em 1885 e novamente em 1894. Além disso, seus escritos posteriores foram protegidos cuidadosamente nos “Arquivos de Sigmund Freud”, aos quais só tinham acesso Ernest Jones (seu biógrafo oficial) e uns poucos membros do círculo da psicanálise. O trabalho de Jeffrey Moussaieff Masson pôs alguma luz sobre a natureza do material oculto. Os estudos na universidade tomaram-lhe inesperadamente bastante tempo até a graduação, em 1881. Registros de amigos que o conheciam naquela época, assim como informações nas próprias cartas escritas por Freud, sugerem que ele foi menos diligente nos estudos de medicina do que devia ter sido. Em lugar dos estudos, ele atinha-se à pesquisa científica, inicialmente pelos estudos dos órgãos sexuais de enguias — um estranho, mas interessante presságio das teorias psicanalíticas que estariam por vir vinte anos mais tarde. De acordo com os registros, Freud completa tal estudo satisfatoriamente, mas sem distinção especial. Em 1877, desapontado com os resultados e talvez menos excitado em enfrentar mais dissecações de enguias, Freud vai ao laboratório de Ernst Brücke, que torna-se seu principal modelo de ciência. Com Brücke, Freud entra em contato com a linha fisicalista da fisiologia. O interesse de Brücke não era apenas descobrir as estruturas de órgãos ou células particulares, mas sim, suas funções. Dentre as atribuições de Freud, nesta época, estavam o estudo da anatomia e da histologia do cérebro humano. Durante os estudos, identifica várias semelhanças entre a estrutura cerebral humana e a de répteis, o que o remete ao então recente estudo de Charles Darwin sobre a evolução das espécies e à discussão da "superioridade" dos seres humanos sobre outras espécies. Freud, então, conhece Martha Bernays, e parece ter sido amor à primeira vista. O seu desejo de desposar Martha, o baixo salário e as poucas perspectivas de carreira na pesquisa científica fazem-no abandonar o laboratório e a começar a trabalhar no Hospital Geral, o principal hospital de Viena, passando por vários departamentos do mesmo. O próprio Brücke aconselha-o a mudar, apesar de seu bom desempenho e com razão, já que Freud precisava ganhar dinheiro. No hospital, depois de algumas desilusões com o estudo dos efeitos terapêuticos da cocaína — com inclusive um episódio de morte por overdose de um amigo da época do laboratório de Brücke —, Freud recebe uma licença e viaja para a França, onde trabalha com Jean-Martin Charcot, um respeitável psiquiatra do Hospital Psiquiátrico Saltpêtrière que estudava a histeria. De volta ao Hospital Geral e entusiasmado pelos estudos de Charcot, Freud passa a atender, na maior parte, jovens senhoras judias que sofriam de um conjunto de sintomas aparentemente neurológicos que compreendiam paralisia, cegueira parcial, alucinações, perda de controle motor e que não podiam ser diagnosticados com exames. O tratamento mais eficaz para tal doença incluía, na época, massagem, terapia de repouso e hipnose. Em 14 de Setembro de 1886, em Hamburgo, Freud casou-se com Martha Bernays com a ajuda financeira de alguns amigos mais abastados, dentre eles Josef Breuer, um colega mais velho da faculdade de medicina. Foi com as discussões de casos clínicos com Breuer que surgiram as ideias que culminaram com a publicação dos primeiros artigos sobre a psicanálise. O primeiro caso clínico relatado deve-se a Breuer e descreve o tratamento dado a uma paciente (Bertha Pappenheim, chamada de "Anna O." no livro), que demonstrava vários sintomas clássicos de histeria. O método de tratamento consistia na chamada "cura pela fala" ou "cura catártica", na qual o ou a paciente discute sobre as suas associações com cada sintoma e, com isso, os faz desaparecer. Esta técnica tornou-se o centro das técnicas de Freud, que também acreditava que as memórias ocultas ou "reprimidas" nas quais baseavam-se os sintomas de histeria eram sempre de natureza sexual. Breuer não concordava com Freud neste último ponto, o que levou à separação entre eles logo após a publicação dos casos clínicos. Na verdade, inicialmente, a classe médica em geral acaba por marginalizar as ideias de Freud; seu único confidente durante esta época é o médico Wilhelm Fliess. Depois que o pai de Freud falece, em Outubro de 1896, segundo as cartas recebidas por Fliess, Freud, naquele período, dedica-se a anotar e analisar seus próprios sonhos, remetendo-os à sua própria infância e, no processo, determinando as raízes de suas próprias neuroses. Tais anotações tornam-se a fonte para a obra “A Interpretação dos Sonhos”. Durante o curso desta autoanálise, Freud chega à conclusão de que seus próprios problemas eram devidos a uma atração por sua mãe e a uma hostilidade em relação a seu pai. É o famoso “Complexo de Édipo”, que se torna o coração da teoria de Freud sobre a origem da neurose em todos os seus pacientes. Nos primeiros anos do século XX, são publicadas suas obras “A Interpretação dos Sonhos” e “A Psicopatologia da Vida Cotidiana”. Nesta época, Freud já não mantinha mais contato nem com Josef Breuer, nem com Wilhelm Fliess. No início, as tiragens das obras não animavam Freud, mas logo médicos de vários lugares — Eugen Bleuler, Carl Gustav Jung, Karl Abrahams, Ernest Jones, Sigmund Freud — mostram respaldo às suas ideias e passam a compor o “Movimento Psicanalítico”. Por sua vida inteira, Freud teve uma posição financeira modesta. Josef Breuer foi, no início, um aliado de Freud em suas ideias e também um aliado financeiro. Freud “criou o termo psicanálise” para designar um método para investigar os processos inconscientes e de outro modo inacessíveis do psiquismo. Nos tempos do nazismo, Freud perdeu quatro das cinco irmãs nos campos de concentração: Regine (Rosa) em Auschwitz, Mitzi (Marie) em Theresienstadt, Dolfi (Esther Adolfine) e Paula (Pauline) em Treblinka. Embora Maria Bonaparte tenha tentado tirá-las do país, elas foram impedidas de sair de Viena pelas autoridades nazistas. Morou em Viena até 1938, quando, após a anexação da Áustria à Alemanha nazista, em razão de sua etnia judaica, refugiou-se na Inglaterra, onde já se encontrava parte de sua família. Freud morre de cancro no palato (céu da boca) aos 83 anos de idade (passou por trinta e três cirurgias). Supõe-se que tenha morrido de uma dose excessiva de morfina. Freud sentia muita dor, e segundo a história contada, ele teria dito ao médico que lhe aplicasse uma dose excessiva de morfina para terminar com o sofrimento, o que seria eutanásia. Encontra-se sepultado no Crematório de Golders Green, no bairro de Golders Green, em Londres, na Inglaterra. Freud e Martha tiveram seis filhos: Mathilde, nascida em 1887, Jean-Martin, nascido em 1889, Olivier, nascido em 1891, Ernst, nascido em 1892, Sophie, nascida em 1893 e Anna, nascida em 1895. Um deles, Martin Freud, escreveu uma memória intitulada “Freud: Homem e Pai”, na qual descreve o pai como um homem que trabalhava extremamente, por longas horas, mas que adorava ficar com suas crianças durante as férias de verão. Anna Freud, filha de Freud, foi também uma psicanalista destacada, particularmente no campo do tratamento de crianças e do desenvolvimento psicológico. Sigmund Freud foi avô do pintor Lucian Freud e do ator e escritor Clement Freud, e bisavô da jornalista Emma Freud, da desenhista de moda Bella Freud e do relações públicas Matthew Freud.

Pacientes de Freud

Esta é uma lista parcial de pacientes cujos estudos de caso foram publicados por Freud:
  • Anna O. = Bertha Pappenheim (1859-1936), paciente de Breuer, tratada pelo método catártico (livre associação de ideias).
  • Cäcilie M. = Anna von Lieben
  • Dora = Ida Bauer (1882-1945)
  • Frau Emmy von N. = Fanny Moser
  • Fräulein Elizabeth von R.
  • Fräulein Katharina = Aurelia Kronich
  • Fräulein Lucy R.
  • O pequeno Hans = Herbert Graf (1903-1973)
  • O homem dos ratos = Ernst Lanzer (1878-1914)
  • O homem dos lobos = Sergei Pankejeff (1887-1979)


Teoria
Pensamento e Linguagem


Em suas teorias, Freud afirma que os pensamentos humanos são desenvolvidos por processos diferenciados, relacionando tal ideia à de que o nosso cérebro trabalha essencialmente no campo da semântica, isto é, a mente desenvolve os pensamentos num sistema intrincado de linguagem baseada em imagens, as quais são meras representações de significados latentes. Em diversas obras, como "A Interpretação dos Sonhos", "A Psicopatologia da Vida Cotidiana" e "Os Chistes e suas Relações com o Inconsciente", Freud não só desenvolve sua teoria sobre o inconsciente da mente humana, como articula o conteúdo do inconsciente ao ato da fala, especialmente aos atos falhos. Para Freud, a consciência humana subdivide-se em três níveis: Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente – o primeiro contém o material perceptível; o segundo, o material latente, mas passível de emergir à consciência com certa facilidade; e o terceiro contém o material de difícil acesso, isto é, o conteúdo mais profundo da mente, que está ligado aos instintos primitivos do homem. Os níveis de consciência estão distribuídos entre as três entidades que formam a mente humana, ou seja, o Id, o Ego e o Superego. Segundo Freud, o conteúdo do inconsciente é, muitas vezes, reprimido pelo Ego. Para driblar a repressão, as ideias inconscientes apelam aos mecanismos definidos por Freud em sua obra "A Interpretação dos Sonhos", como deslocamento e condensação. Estes dois, mais tarde, seriam relacionados por Jacobson à metonímia e metáfora, respectivamente. Portanto, as representações de ideias inconscientes manifestam-se nos sonhos como símbolos imagéticos, tanto metafóricos quanto metonímicos. Aplicando o conceito à fala, o inconsciente consegue expelir ideias recalcadas através dos chistes ou atos falhos. Freud propõe que as piadas ou as "trocas de palavras por acidente" nem sempre são inócuas. Antes, são mecanismos da fala que articulam ideias aparentes com ideias reprimidas, são meios pelos quais é possível exprimir os instintos primitivos. Semelhante à análise dos sonhos, a análise da fala seria um caminho psicanalítico para investigar os desejos ocultos do homem e as causas das psicopatologias. “É na palavra e pela palavra que o inconsciente encontra sua articulação essencial”. Deste modo, Freud cria uma inter-relação entre os campos da linguística e da psicanálise, que será retomada por estudiosos posteriores, como Jacques-Marie Émile Lacan.

Fundamentos da terapia freudiana

O objetivo da terapia freudiana ou psicanálise é, relacionando conceitos cartesianos da mente e conceitos da hidráulica, mover (mediante a associação livre e a interpretação dos sonhos) os pensamentos e sentimentos reprimidos (explicados como uma forma de energia) através do consciente para permitir, ao sujeito, a catarse que provocaria a cura automática.

Teoria da Representação

O fenômeno representacional psíquico está relacionado ao sistema nervoso humano. As representações, segundo Freud, são analógicas e imagéticas. Estas se inter-relacionam através de redes associativas. As redes associativas das representações são provenientes do processo fisiológico cerebral, que se baseia em uma rede de neurônios. Esse processo ocorre através de um mecanismo reflexo: a informação parte por uma rede associativa de neurônios até chegar à região motora e sensorial. Ela provoca então, modificações nas células centrais, causando a formação das representações. Enquanto elementos, as representações são originadas da percepção sensorial do indivíduo. São unidades mentais tanto de objetos, como de situações, sensações, relações. A representação de objeto, também chamada de representação da "coisa", é "um complexo de associações, formado por uma grande variedade de apresentações visuais, acústicas, táteis, cinestésicas e outras", de acordo com Freud. As emoções, por exemplo, são processos de descarga de energia, que são percebidos como os sentimentos. São as chamadas representações imagéticas, que não formam imagens psíquicas, e sim traços mnésicos de sensações. É preciso destacar que as relações entre as representações não são a demonstração e a manifestação dos sentimentos, dos afetos, das emoções. A relação entre os tipos de representação formam as ideias, ou seja, as relações associativas contidas nas representações de objeto (captadas pelos processos perceptivos) formam os complexos de sensações associados, dando origem a uma representação completa. Portanto, um único objeto representado na mente é constituído por seus vários aspectos sensoriais da realidade externa: cor, gosto, textura, cheiro e coisas do gênero.

Teoria do processo de pensamento

Segundo Freud, o processo de pensamento é a ativação ou inibição dos complexos de sensações associadas que tornam, possível, o fenômeno representacional psíquico, o que se dá através da energia que flui no sistema nervoso pelos sistemas de neurônios. Podemos distinguir, neste processamento, um nível primário e um secundário.

Processo Primário

Associado ao inconsciente, o processamento primário do pensamento é aquele que dirige ações imediatas ou reflexas, sendo associado, assim, ao prazer, ao emocional do indivíduo e ao fenômeno de arco reflexo. Nele, a energia presente no aparelho mental flui livremente pelas representações, do polo do estímulo ao da resposta.

Processo Secundário

O processo de pensamento secundário, por outro lado, está associado ao pré-consciente, também chamado de "ação interiorizada" ou, ainda, de "processo racional do pensamento". Nele, o escoamento de energia mental fica retido, só acontecendo após uma série de associações, as quais se refletem no aparelho psíquico. As ações decorrentes dessa forma de processamento devem ser tomadas com base no mundo externo, no contexto em que a pessoa se encontra e em seus objetivos. Assim, ao contrário da energia do processo primário, que é livre, a energia do secundário é condicional, ou seja, está sujeita a quaisquer ações.

Inovações de Freud

Freud foi inovador. Simultaneamente, desenvolveu uma teoria da mente e da conduta humana, e uma técnica terapêutica para ajudar pessoas afetadas psiquicamente. Alguns de seus seguidores afirmam estar influenciados por um, mas não pelo outro campo. Provavelmente a contribuição mais significativa que Freud fez ao pensamento moderno é a de tentar dar, ao conceito de inconsciente, um status científico (não compartilhado por várias áreas da ciência e da psicologia). Seus conceitos de inconsciente, desejos inconscientes e repressão foram revolucionários; propõem uma mente dividida em camadas ou níveis, dominada em certa medida por vontades primitivas que estão escondidas sob a consciência e que se manifestam nos lapsos e nos sonhos. Em sua obra mais conhecida, “A Interpretação dos Sonhos”, Freud explica o argumento para postular o novo modelo do inconsciente e desenvolve um método para conseguir o acesso ao mesmo, tomando elementos de suas experiências prévias com as técnicas de hipnose. Como parte de sua teoria, Freud postula também a existência de um pré-consciente, que descreve como a camada entre o consciente e o inconsciente (o termo subconsciente é utilizado popularmente, mas não é parte da terminologia psicanalítica). A repressão em si tem grande importância no conhecimento do inconsciente. De acordo com Freud, as pessoas experimentam repetidamente pensamentos e sentimentos que são tão dolorosos que não podem suportá-los. Tais pensamentos e sentimentos (assim como as recordações associadas a eles) não podem ser expulsos da mente, mas, em troca, são expulsos do consciente, par a formar parte do inconsciente. Embora, ao longo de sua carreira, Freud tenha tentado encontrar padrões de repressão entre seus pacientes que derivassem em um modelo geral para a mente, ele observou que pacientes diferentes reprimiam fatos diferentes. Observou, ainda, que o processo da repressão é, em si mesmo, um ato não consciente (isto é, não ocorreria através da intenção dos pensamentos ou sentimentos conscientes). Em outras palavras, o inconsciente era tanto causa como efeito da repressão.

Cocaína

Como um pesquisador da área médica e da psicanálise, Freud foi um dos primeiros a usar e a propor o uso da cocaína como um estimulante, bem como analgésico. Ele escreveu vários artigos sobre as qualidades antidepressivas do medicamento e ele foi influenciado por seu amigo e confidente Wilhelm Fliess, que recomendou a cocaína para o tratamento da "neurose nasal reflexa". Fliess operou Freud e o nariz de vários pacientes de Freud que ele acreditava estarem sofrendo do transtorno, incluindo Emma Eckstein, cuja cirurgia foi desastrosa. Freud achava que a cocaína iria funcionar como uma panacéia para muitos transtornos e escreveu um artigo científico bem recebido, “Sobre Coca” (Über Coca, em alemão), explicando as suas virtudes. Prescreveu-o para seu amigo Ernst von Fleischl-Marxow para ajudá-lo a superar o vício da morfina, que tinha adquirido ao tratar uma doença do sistema nervoso.

Divisão do Inconsciente

Freud procurou uma explicação à forma de operar do inconsciente, propondo uma estrutura particular. No primeiro tópico, recorre à imagem do iceberg em que o consciente corresponde à parte clara, e o inconsciente corresponde à parte não visível, ou seja, à parte submersa do iceberg. De sua teoria, ele estava preocupado em estudar o que levava à formação dos sintomas psicossomáticos (principalmente a histeria, por isso apenas os conceitos de inconsciente, pré-consciente e consciente eram suficientes). Quando sua preocupação se virou para a forma como se dava o processo da repressão, passou a adotar os conceitos de “id”, “ego” e “superego”. O “id” representa os processos primitivos do pensamento e constitui, segundo Freud, o reservatório das pulsões, dessa forma toda energia envolvida na atividade humana seria advinda do Id. Inicialmente, considerou que todas essas pulsões seriam ou de origem sexual, ou que atuariam no sentido de autopreservação. Posteriormente, introduziu o conceito das pulsões de morte, que atuariam no sentido contrário ao das pulsões de agregação e preservação da vida. O “Id” é responsável pelas demandas mais primitivas e perversas. O “Ego”, permanece entre ambos, alternando nossas necessidades primitivas e nossas crenças éticas e morais. É a instância na que se inclui a consciência. Um eu saudável proporciona a habilidade para adaptar-se à realidade e interagir com o mundo exterior de uma maneira que seja cômoda para o id e o superego. O “Superego”, a parte que contra age ao id, representa os pensamentos morais e éticos internalizados. Freud estava especialmente interessado na dinâmica destas três partes da mente. Argumentou que essa relação é influenciada por fatores ou energias inatas, que chamou de pulsões. Descreveu duas pulsões antagônicas: Eros, uma pulsão sexual com tendência à preservação da vida, e Tânato, a pulsão da morte, que levaria à segregação de tudo o que é vivo, à destruição. Ambas as pulsões não agem de forma isolada, estão sempre trabalhando em conjunto. Como no exemplo de se alimentar, embora haja pulsão de vida presente, afinal a finalidade de se alimentar é a manutenção da vida, existe também a pulsão de morte presente, pois é necessário que se destrua o alimento antes de ingeri-lo, e aí está presente um elemento agressivo, de segregação.

Libido

Freud também acreditava que a libido amadurecia nos indivíduos por meio da troca de seu objeto (ou objetivo). Argumentava que os humanos nascem "polimorficamente perversos", no sentido de que uma grande variedade de objetos possam ser uma fonte de prazer, sem ter a pretensão de se chegar à finalidade última, ou seja, o ato sexual. O desenvolvimento psicossexual ocorreria em etapas, de acordo com a área na qual a libido está mais concentrada: a etapa oral (exemplificada pelo prazer dos bebês ao chupar a chupeta, que não tem nenhuma função vital, mas apenas a de proporcionar prazer); a etapa anal (exemplificada pelo prazer das crianças ao controlar sua defecação); e logo a etapa fálica (que é demonstrada pela manipulação dos órgãos genitais). Até então, percebe-se que a libido é voltada para o próprio ego, ou seja, a criança sente prazer consigo mesma. O primeiro investimento objetal da libido, segundo Freud, ocorreria no progenitor do sexo oposto, esta fase caracterizada pelo investimento libidinal em um dos progenitores (se chama Complexo de Édipo). A criança percebe, então, que, entre ela e a mãe (no caso de um menino), existe o pai, impedindo a comunhão por ele desejada. A criança passa então a amar a mãe e a experienciar um sentimento antagônico de amor e ódio com relação ao pai. Ela percebe, então, que tanto o amor vivido com a mãe como o ódio vivido com o pai são proibidos e o complexo de Édipo é, então, finalizado com o surgimento do superego, com a desistência da criança com relação à mãe e com a identificação do menino com o pai.

Freud e a neurologia

É menos conhecido o interesse de Freud pela neurologia. No início de sua carreira, investigou a paralisia cerebral. Publicou numerosos artigos médicos neste campo. Também mostrou que a doença existia muito antes de outros pesquisadores de seu tempo terem notícia dela e de a estudarem. Também sugeriu que era errado que esta doença, segundo descrito por William Little (cirurgião ortopédico britânico), tivesse, como causa, uma falta de oxigênio durante o nascimento. Ao invés disso, Freud afirmou que as complicações no parto eram somente um sintoma do problema. Somente na década de 1980, suas especulações foram confirmadas por pesquisadores modernos.

Transferência

Outro elemento importante da psicanálise é a pouca intervenção do psicanalista, para que o paciente possa projetar seus pensamentos e sentimentos no psicanalista. Através deste processo, chamado de transferência, o paciente pode reconstruir e resolver conflitos reprimidos (causadores de sua doença), especialmente conflitos da infância com seus pais.


Críticas a Freud

Atualmente, muitas críticas têm sido feitas ao método psicanalítico, porém, por mais que a ciência moderna avance, muitos dos conceitos estruturadores da psique humana e os resultados obtidos pela aplicação do método continuam melhorando a qualidade de vida de muitas pessoas. Nota-se que a revolução promovida por Freud abriu caminhos para estudos que antigamente se encontravam em um plano imaginário. A criação de um método clínico a serviço do diagnóstico e tratamento de doenças da psique é um fato sem igual em toda a história da ciência. Porém, é de se constatar, certamente, que, em muitos escritos de Michel de Montaigne e de Blaise Pascal, a ideia da autoanálise já era usada para explicar problemas subjetivos usando a lógica vigente, transformando os problemas do ser e de seu inconsciente em desafios universais, com os quais todos os homens se deparam. Uma das mais severas críticas sofridas pelo método psicanalítico foi feita pelo filósofo da ciência Karl Popper. Segundo ele, a psicanálise é pseudociência, pois uma teoria seria científica apenas se pudesse ser falseável pelos fatos. Um exemplo é a teoria freudiana do “Complexo de Édipo”. Freud afirmava que esse complexo era universal, mas com que base de dados chegou a essa conclusão? Na época da formulação da psicanálise, a sua "amostra" era bastante limitada; parte dela vinha de sua experiência subjetiva (a sua "autoanálise" precedendo a publicação de “A Interpretação dos Sonhos”) e da sua prática clínica, feita na maioria das vezes com pacientes burgueses de uma Áustria vitoriana. Ou seja: uma amostra retirada de contextos bem específicos e que não poderiam fundamentar a universalidade pretendida pelo autor. Outra crítica robusta foi feita pelo psiquiatra inglês Willian Sargant no livro “A Possessão da Mente”. O autor relata suas experiências com pacientes com traumas de guerra, em que ele se deparou com situações nas quais estes se tornavam altamente sugestionáveis. O método psicanalítico, segundo Sargant, atuaria de forma semelhante a estes fenômenos, o que tornava não críveis os relato dos pacientes que supostamente confirmavam o pensamento freudiano. Como a relação psicanalista-paciente pode provocar estados de alta sugestionabilidade, estes estariam, na verdade, expressando as crenças do próprio psicanalista.

Crítica ao modelo psicossexual

O modelo psicossexual que desenvolveu tem sido criticado por diferentes frentes. Alguns têm atacado a afirmação de Freud sobre a existência de uma sexualidade infantil (e, implicitamente, a expansão que se fez na noção de sexualidade). Outros autores, porém, consideram que Freud não ampliou os conhecimentos sobre sexualidade (que tinham antecedentes na psiquiatria e na filosofia, em autores como Arthur Schopenhauer); senão que Freud "neurotizou" a sexualidade ao relacioná-la com conceitos como incesto, perversão e transtornos mentais. Ciências como a antropologia e a sociologia argumentam que o padrão de desenvolvimento proposto por Freud não é universal nem necessário no desenvolvimento da saúde mental, qualificando-o de etnocêntrico por omitir determinantes socioculturais. Freud esperava provar que seu modelo, baseado em observações da classe média austríaca, fosse universalmente válido. Utilizou a mitologia grega e a etnografia contemporânea como modelos comparativos. Recorreu ao “Édipo Rei” de Sófocles para indicar que o ser humano deseja o incesto de forma natural e como é reprimido este desejo. O “Complexo de Édipo” foi descrito como uma fase do desenvolvimento psicossexual e de amadurecimento. Também fixou-se nos estudos antropológicos de totemismo, argumentando que este reflete um costume ritualizado do “Complexo de Édipo” (Totem e Tabu). Incorporou, também, em sua teoria, conceitos da religião católica e da judaica; assim como princípios da Sociedade Vitoriana sobre repressão, sexualidade e moral; e outros da biologia e da hidráulica. Esperava que sua investigação proporcionasse uma sólida base científica para seu método terapêutico.

Discípulos de Freud
  • Karl Abraham
  • Alexander H. Mitscherlich
  • André Green
  • Anna Freud
  • Didier Anzieu
  • Donald Meltzer
  • D. W. Winnicott
  • Edward Glover
  • Enrique Pichon Rivière
  • Erik Erikson
  • Ernest Jones
  • Frances Tustin
  • Franz Alexander
  • Hanna Segal
  • Harold Searles
  • Heinrich Racker
  • Helene Deutsch
  • Wilhelm Reich
  • Jacques Lacan
  • Wilfred Bion
  • Melanie Klein

Obras
  • A Interpretação dos Sonhos, primeira parte, 1900;
  • A Interpretação dos Sonhos, segunda parte, 1900;
  • Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, 1901;
  • Um Caso de Histeria, 1901;
  • Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, 1905;
  • Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, 1905;
  • Cinco Lições de Psicanálise, 1910;
  • Leonardo da Vinci, 1910;
  • O Caso Schereber, 1911;
  • Totem e Tabu, Alguns Pontos de Concordância Entre a Vida Mental dos Selvagens e dos Neuróticos, 1913;
  • Além do Princípio do Prazer, 1920;
  • O Ego e o ID, 1923;
  • O Futuro de uma Ilusão, 1927;
  • O Mal-estar na Civilização, 1930;
  • Moisés e o Monoteísmo, 1939;
  • Esboço de Psicanálise, 1940...

… e outros; todos escritos em alemão, dotados de grande beleza literária, o que valeu ao autor o "Prêmio Goethe". Além da correção do estilo, Freud caracteriza-se por sua imensa cultura humanística, abarcando todos os setores de interesse para a humanidade.

Assinatura de Freud.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Biografia de James Parkinson

James Parkinson nasceu a 11 de Abril de 1755, e, faleceu a 21 de Dezembro de 1824. Parkinson foi um farmacêutico, cirurgião inglês, geólogo, paleontólogo e ativista político. Ele é mais famoso por seu trabalho de 1817, “An Essay on the Shaking Palsy”, no qual foi o primeiro a descrever a “paralisia agitante”, uma condição que mais tarde seria rebatizada “doença de Parkinson” por Jean-Martin Charcot. Embora existam fotografias em vários sites que se identificam falsamente como correspondendo a James Parkinson, na verdade não existem fotografias desse personagem porque a primeira fotografia da qual temos notícias é uma reprodução da imagem conhecida como “View from the window in Le Gras”, obtido em 1826, dois anos após a morte do Dr. Parkinson.

Biografia

James Parkinson nasceu em Shoreditch, Londres. Parkinson era filho de
John Parkinsonum farmacêutico e cirurgião perto de Hoxton Square, em Londres. Em 1784, James Parkinson passou no exame de cirurgião em “A Corporação de Londres”. Em 21 de Maio de 1781, ele se casou com Mary Dale, com quem teve seis filhos. Depois de se casar, James Parkinson sucedeu seu pai em seu trabalho na Hoxton Square. Faleceu a 21 de Dezembro de 1824, sendo sepultado no Cemitério de Saint Leonard.

Vantagem política

Além de médico, Parkinson tinha grande interesse em geologia e paleontologia, bem como na política de seu país. Parkinson foi um grande lutador pelas pessoas que não tinham privilégios e um crítico do governo Pitt. No início de sua carreira, ele se casou e, por esse motivo, começou a se envolver em várias causas e sempre apoiou a variedade social na Inglaterra. Este movimento foi apoiado pela Revolução Francesa e pela igualdade de direitos entre os cidadãos. Ele publicou cerca de 20 panfletos no período após a Revolução Francesa, onde a classe política entrou em caos. Ele escreveu sob seu nome e com o pseudônimo "Old Hubert", sendo chamado para participar de reformas sociais. James Parkinson foi chamado para representar o povo na Câmara dos Comuns do Reino Unido, a instituição dos parlamentos anuais e o voto universal. Ele foi membro de várias sociedades políticas secretas, incluindo a Sociedade Correspondente de Londres para a Reforma da Representação do Parlamento. Em 1794, sua participação na organização foi investigada antes que o Conselho Privado entregasse evidências de um plano para assassinar o rei George III. Ele se recusou a testemunhar até ter certeza de que não seria forçado a se incriminar. O plano era usar um dardo venenoso de uma arma para fazer com que o governo do rei tivesse um fim prematuro, sem atingir o fim do mandato. Felizmente para Parkinson, o caso foi rapidamente esquecido e nenhuma acusação foi apresentada contra ele.

Medicina

Parkinson deixou sua carreira política e, entre 1799 e 1802, publicou um grande número de trabalhos relacionados à medicina, incluindo um trabalho relacionado à doença da gota em 1805. Ele também foi redator dos primeiros escritos sobre peritonite na literatura médica da Inglaterra. Parkinson foi a primeira pessoa a descrever sistematicamente seis indivíduos com sintomas da doença que leva seu nome. Algo incomum para a descrição, ele não examinou seus pacientes, mas os observou diariamente. Foi Jean Martin Charcot quem definiu o termo “doença de Parkinson” sessenta anos após sua descoberta. Parkinson também teve um grande interesse em melhorar a saúde e o bem-estar da população. Ele escreveu várias doutrinas médicas que expuseram um grande interesse na saúde das pessoas, assim como ele fez em sua carreira política.
Ele foi um grande defensor da proteção legal dos doentes mentais, além de médicos e famílias. Em 1812, Parkinson ajudou seu filho no primeiro caso de apendicectomia na Inglaterra e, na primeira ocasião, que a perfuração foi mostrada como a causa da morte do paciente.

Contribuição para as ciências

O interesse de Parkinson foi gradualmente mudado da medicina para a natureza, especialmente no campo da geologia e da paleontologia. Ele começou a colecionar várias espécies e desenhos de fósseis no final do século XVIII. Ele convidou seus filhos e amigos para coletar e observar fósseis de animais e plantas. Suas tentativas para aprender mais sobre a identificação e interpretação de fósseis foram frustradas devido à escassez de publicações relacionadas ao assunto, então ele decidiu melhorar os elementos existentes, escrevendo sua própria introdução ao estudo de fósseis. Em 1804, ele publicou o primeiro volume de “Organic Remains of the Former World” (Restos Orgânicos do Mundo Anterior). Gideon Mantell disse que “é a primeira tentativa de dar uma visão familiar e científica dos fósseis”. O segundo volume foi publicado em 1808 e o terceiro em 1811. Parkinson ilustrou cada volume, às vezes em cores, e suas placas sendo posteriormente reutilizadas por Gideon Mantell. Em 1822, ele publicou o mais curto “Elements of Oryctology: an Introduction to the Study of Fossil Organic Remains, especially of those found in British Strata”. Parkinson também contribuiu com vários escritos para o “Journal of Natural Philosophy, Chemestry and the Arts”, de William Nicholson; e o primeiro, segundo e quinto volume de “Geological Society’s Transactions”.

Abreviatura (botânica)

A abreviatura J. Parkkinson é usada para indicar James Parkinson como uma autoridade na descrição e classificação científica de vegetais.

Principais obras
  • Some account on the effects of lightening (1787)
  • The Chemical Pocked Book (1800)
  • Medical Admonitions to Families (1801)
  • The Villager's Friend & Physician (1804)
  • Observations on the Nature & Cure of Gout (1805)
  • Case of diseased appendix vermiformis (1812)
  • Essay on the Shaking Palsy (1817)

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Biografia de Jean-Martin Charcot

Charcot
Jean-Martin Charcot nasceu em Paris, a 29 de Novembro de 1825, e, faleceu em Montsauche-les-Settons, a 16 de Agosto de 1893. Charcot foi um médico e cientista francês; alcançou fama no terreno da psiquiatria e neurologia na segunda metade do século XIX. Foi um dos maiores clínicos e professores de medicina da França e, juntamente com Guillaume Duchenne, o fundador da moderna neurologia. Suas maiores contribuições para o conhecimento das doenças do cérebro foram o estudo da afasia e a descoberta do aneurisma cerebral e das causas de hemorragia cerebral. Durante as suas investigações, Charcot concluiu que a hipnose era um método que permitia tratar diversas perturbações psíquicas, em especial a histeria. Charcot é tão famoso quanto seus alunos: Sigmund Freud, Joseph Babinski, Pierre Janet, Albert Londe e Alfred Binet. A “Síndrome de Tourette”, por exemplo, foi batizada por Charcot em homenagem a um de seus alunos, Georges Gilles de la Tourette, assim com o “Mal de Parkinson” foi nomeado por este médico como homenagem a James Parkinson.

Juventude

Jean-Martin Charcot não deixou biografias e o que se conhece de sua vida pessoal é baseado em seus trabalhos e relatos de seus colegas. Charcot nasceu em Paris em 1825, sob o reinado de Charles X, cresceu durante o regime de Louis-Philippe, e iniciou a faculdade de Medicina de Paris em 1843, exclusivamente para estudantes homens. Em 1847, iniciou a sua residência sob o serviço do Dr. Lugol no hospital Saint-Louis, passando também por rodízios nos hospitais de "Bon-Secours", "la Pitié", "la Charité" e "la Salpêtrière". Em 1853, defende sua tese sobre gota e reumatismo crônico.

Chefe de Serviço em "Salpêtrière" (1862-1867)


Charcot dando uma aula no
Hospital Salpêtrière, em Paris.
Quando Charcot assumiu as funções de chefe de serviço de Medicina Interna no asilo público de Salpêtrière era conhecida como o local onde Pinel havia instituído "tratamentos morais" aos considerados "alienados". Charcot conhecia bem como este local trouxe recursos incomparáveis às suas pesquisas, "este museu patológico vivo" (ce musée pathologique vivant), em suas palavras. Em 1882, depois de 20 anos de serviço como chefe e professor de anatomia patológica, Charcot transformou o hospital de Salpêtrière em um instituto de neuropatologia com ampla reputação e influência. Seus métodos de ensino e cursos na faculdade tornaram-se famosos.

Invenção da Neurologia científica (1866-1878)

Em 1868, descreveu, com seu colega de faculdade, Alfred Vulpian, a esclerose múltipla, a qual diferenciou do mal de Parkinson. No ano seguinte, descreveu a esclerose lateral amiotrófica, também conhecida como doença de Charcot. Além disso, contribuiu com estudos em doenças da medula espinhal, esclerose múltipla, atrofia muscular progressiva, siringomielia, neurosífilis, paralisias, tremores, vertigens, epilepsia, entre outros.

Obras

  • Leçons sur les maladies du système nerveux, em 5 vol., publicados de 1872 a 1883 e 1885-1887;
  • Iconographie de Ia Salpêtrière, de 1876 a 1880;
  • Sur les divers états nerveux déterminés par l'hypnotisation chez les hystériques, 1882;
  • Com Paul Richer, Les Démoniaques dans l'art, Delahaye et Lecrosnier, 1887;
  • Com Paul Richer, Les Difformes et les Malades dans l'art, Lecrosnier et Babé, 1889;
  • La foi qui guérit, Félix Alcan, Paris, 1897.


Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Martin_Charcot

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Biografia de Nicolau Copérnico

Mikołaj Kopernik
Nicolau Copérnico. Nasceu em Toruń, a 19 de Fevereiro de 1473, e, faleceu em Frauenburgo, a 24 de Maio de 1543. Nicolau Copérnico foi um astrônomo e matemático polonês que desenvolveu a teoria heliocêntrica do Sistema Solar. Foi também cônego da Igreja Católica, governador e administrador, jurista, astrônomo e médico. Sua teoria do Heliocentrismo, que colocou o Sol como o centro do Sistema Solar, contrariando a então vigente Teoria Geocêntrica (que considerava a Terra como o centro), é considerada como uma das mais importantes hipóteses científicas de todos os tempos, tendo constituído o ponto de partida da astronomia.

Origens

Nicolau Copérnico, em polonês Loudspeaker.svg Mikołaj Kopernik, nasceu quando sua cidade natal, Toruń, fazia parte da província da Prússia Real, no Reino da Polônia (1385–1569). Seu pai era um comerciante de Cracóvia e sua mãe era filha de um abastado comerciante de Toruń. Nicolau era o mais jovem de quatro filhos. Seu irmão André tornou-se um cônego da Ordem dos Agostinianos em Frombork (Frauenburgo). Sua irmã Bárbara, mesmo nome de sua mãe, tornou-se uma religiosa da Ordem dos Beneditinos e, em seus últimos anos, priora de um convento em Chełmno (Kulm); tendo morrido após 1517. Sua irmã Catarina casou-se com Barthel Gertner, também importante comerciante e edil da cidade de Toruń, com quem teve cinco filhos, cuidados por Copérnico até o fim de seus dias, não tendo ele próprio se casado ou tido filhos. 

A origem da teoria heliocêntrica

Na teoria de Copérnico, a Terra move-se em torno do Sol. Mas, seus dados foram corrigidos pelas observações de Tycho Brahe. Com base nelas e em seus próprios cálculos, Johannes Kepler reformou radicalmente o modelo copernicano e chegou a uma descrição realista do sistema solar. Esse fenômeno já havia sido estudado e defendido pelo bispo de Lisieux, Nicole d'Oresme, no século XIV. O movimento da Terra era negado pelos partidários de Aristóteles e Ptolomeu. Eles argumentavam que, caso a Terra se movesse, as nuvens, os pássaros no ar ou os objetos em queda livre seriam deixados para trás. Galileu Galilei combateu essa ideia, afirmando que, se uma pedra fosse abandonada do alto do mastro de um navio, um observador a bordo sempre a veria cair em linha reta, na vertical. E, baseado nisso, nunca poderia dizer se a embarcação estava em movimento ou não. Caso o barco se movesse, porém, um observador situado na margem veria a pedra descrever uma curva descendente – porque, enquanto cai, ela acompanha o deslocamento horizontal do navio. Tanto um observador quanto o outro constataria que a pedra chega ao convés exatamente no mesmo lugar: O pé do mastro. Pois ela não é deixada para trás quando o barco se desloca. Da mesma forma, se fosse abandonada do alto de uma torre, a pedra cairia sempre ao pé da mesma – quer a Terra se mova ou não. O cardeal São Roberto Belarmino presidiu o tribunal que proibiu a teoria copernicana. Culto e moderado, ele conseguiu poupar Galileu. Estimulado pelo novo papa Urbano VIII (Maffeo Barberini), seu grande admirador, o cientista voltou à carga. Mas o Papa sentiu-se ridicularizado num livro de Galileu. E isso motivou sua condenação. 
Astrônomo Copérnico: Conversa com Deus, por Jan Matejko.(PD-Art).

A teoria heliocêntrica

A teoria do modelo heliocêntrico, a maior teoria de Copérnico, foi publicada em seu livro, De Revolutionibus Orbium Coelestium (Da revolução de Esferas Celestes), durante o ano de sua morte, 1543. Apesar disso, ele já havia desenvolvido sua teoria algumas décadas antes. O livro marcou o começo de uma mudança de um universo geocêntrico, ou antropocêntrico, com a Terra em seu centro. Copérnico acreditava que a Terra era apenas mais um planeta que concluía uma órbita em torno de um sol fixo todo ano e que girava em torno de seu eixo todo dia. Ele chegou a essa correta explicação do conhecimento de outros planetas e explicou a origem dos equinócios corretamente, através da vagarosa mudança da posição do eixo rotacional da Terra. Ele também deu uma clara explicação da causa das estações: O eixo de rotação da terra não é perpendicular ao plano de sua órbita. Em sua teoria, Copérnico descrevia mais círculos, os quais tinham os mesmos centros, do que a Teoria de Ptolomeu (modelo geocêntrico). Apesar de Copérnico colocar o Sol como centro das esferas celestiais, ele não fez do Sol o centro do universo, mas perto dele. Do ponto de vista experimental, o sistema de Copérnico não era melhor do que o de Ptolomeu. E Copérnico sabia disso, e não apresentou nenhuma prova observacional em seu manuscrito, fundamentando-se em argumentos sobre qual seria o sistema mais completo e elegante. Da sua publicação, até aproximadamente 1700, poucos astrônomos foram convencidos pelo sistema de Copérnico, apesar da grande circulação de seu livro (aproximadamente 500 cópias da primeira e segunda edições, o que é uma quantidade grande para os padrões científicos da época). Entretanto, muitos astrônomos aceitaram partes de sua teoria, e seu modelo influenciou muitos cientistas renomados que viriam a fazer parte da história, como Galileu e Johannes Kepler, que conseguiram assimilar a teoria de Copérnico e melhorá-la. As observações de Galileu das fases de Vênus produziram a primeira evidência observacional da teoria de Copérnico. Além disso, as observações de Galileu das luas de Júpiter provaram que o sistema solar contém corpos que não orbitavam a Terra. O sistema de Copérnico pode ser resumido em algumas proposições, assim como foi o próprio Copérnico a listá-las em uma síntese de sua obra mestra, que foi encontrada e publicada em 1878.
 
As principais partes da teoria de Copérnico são:

  • Os movimentos dos astros são uniformes, eternos, circulares ou uma composição de vários círculos (epiciclos).
  • O centro do universo é perto do Sol.
  • Perto do Sol, em ordem, estão Mercúrio, Vênus, Terra, Lua, Marte, Júpiter, Saturno, e as estrelas fixas.
  • A Terra tem três movimentos: rotação diária, volta anual, e inclinação anual de seu eixo.
  • O movimento retrógrado dos planetas é explicado pelo movimento da Terra.
  • A distância da Terra ao Sol é pequena se comparada à distância às estrelas.

Se essas proposições eram revolucionárias ou conservadoras era um tópico muito discutido durante o vigésimo século. Thomas Kuhn argumentou que Copérnico apenas transferiu algumas propriedades, antes atribuídas a Terra, para as funções astronômicas do Sol. Outros historiadores, por outro lado, argumentaram a Kuhn, que ele subestimou quão revolucionárias eram as teorias de Copérnico, e enfatizaram a dificuldade que Copérnico deveria ter em modificar a teoria astronômica da época, utilizando apenas uma geometria simples, sendo que ele não tinha nenhuma evidência experimental. 

O modelo heliocêntrico
 
Ver artigo principal: Heliocentrismo

Os filósofos do século XV aceitavam o geocentrismo como fora estruturado por Aristóteles e Ptolomeu. Esse sistema cosmológico afirmava (corretamente) que a Terra era esférica, mas também afirmava (erradamente) que a Terra estaria parada no centro do Universo enquanto os corpos celestes orbitavam em círculos concêntricos ao seu redor. Essa visão geocêntrica tradicional foi abalada por Copérnico em 1537, quando este começou a divulgar um modelo cosmológico em que os corpos celestes giravam ao redor do Sol, e não da Terra. Essa era uma teoria de tal forma revolucionária que Copérnico escreveu no seu De Revolutionibus Orbium Coelestium (do latim: Das Revoluções das Esferas Celestes): "quando dediquei algum tempo à ideia, o meu receio de ser desprezado pela sua novidade e o aparente contra-senso quase me fez largar a obra feita". Naquele tempo a Igreja Católica aceitava essencialmente o geocentrismo aristotélico, embora a esfericidade da Terra estivesse em aparente contradição com interpretações literais de algumas passagens bíblicas. Ao contrário do que se poderia imaginar, durante a vida de Copérnico não se encontram críticas sistemáticas ao modelo heliocêntrico por parte do clero católico. De fato, membros importantes da cúpula da Igreja ficaram positivamente impressionados pela nova proposta e insistiram para que essas ideias fossem mais desenvolvidas. Contudo, a defesa, quase um século depois, por Galileu Galilei da teoria heliocêntrica vai deparar-se com grandes resistências no seio da mesma Igreja Católica. Como Copérnico tinha por base apenas suas observações dos astros a olho nu e não tinha possibilidade de demonstração da sua hipótese, muitos homens de ciência acolheram com cepticismo as suas ideias. Apesar disso, o trabalho de Copérnico marcou o início de duas grandes mudanças de perspectiva. A primeira diz respeito à escala de grandeza do Universo: avanços subsequentes na astronomia demonstraram que o universo era muito mais vasto do que supunham quer a cosmologia aristotélica quer o próprio modelo copernicano; a segunda diz respeito à queda dos graves. A explicação aristotélica dizia que a Terra era o centro do universo e portanto, o lugar natural de todas as coisas. Na teoria heliocêntrica, contudo, a Terra perdia esse estatuto, o que exigiu uma revisão das leis que governavam a queda dos corpos, e mais tarde, conduziu Isaac Newton a formular a lei da gravitação universal. Ainda que imperfeita, pois indicava que as órbitas dos planetas seriam circulares e não elípticas como se veio a descobrir, a teoria de Copérnico abriu caminho para as grandes descobertas astronômicas.

Revolução Copernicana

A Revolução Copernicana constituiu-se no processo histórico que redundou na substituição do sistema geocêntrico (Geocentrismo) pelo sistema heliocêntrico (Heliocentrismo), inclusive no que diz respeito às profundas consequências acarretadas por essa substituição para a história da humanidade.

A questão fundamental



Para explicar o porquê de no decurso de 24 horas um dia e uma noite se alternam, um defensor o Geocentrismo postula que a Terra está imóvel e o Sol faz uma volta completa em torno da Terra no período de 24 horas, enquanto um defensor do Heliocentrismo postula que o Sol está parado e que é a Terra que faz um movimento de rotação completa em torno de seu próprio eixo no decurso de 24 horas. Ademais, se bem que o movimento de translação não entre propriamente para a explicação estrita da alternância entre dia e noite ao cabo de cada 24 horas, este defensor do sistema heliocêntrico também admite esta imprescindível translação completa da Terra em torno do Sol no decurso de 365 dias que, como sabemos, constitui-se no próprio fundamento do sistema heliocêntrico e que este é crucial para a explicação consequente, por exemplo, da fase cheia de Vênus. Uma resposta do gênero, no entanto, peca, pelo menos, por duas lacunas. A primeira pode ser assim expressa: ora, se a Revolução Copernicana diz respeito a esta passagem, então por que ela não se deu antes mesmo de Nicolau Copérnico (1473-1543)? Ora, se antes de Nicolau Copérnico houve muitos defensores da mobilidade da Terra, então por quais motivos Copérnico aparece assim tão singularmente como divisor de águas? Na carta que Galileu Galilei escreve em 1615 a Cristina de Lorena, Grã-Duquesa da Toscana, são listados pelo menos sete autores pré-copernicanos que já defendiam a mobilidade da Terra: Pitágoras, Heáclides do Ponto, Filolau, Platão, Aristarco de Samos, Seleuco e Hicetas. A segunda lacuna é que os argumentos em prol do sistema heliocêntrico careciam de defesa convincente, pois contrariavam a intuição e a experiência então consolidadas e por esta razão careciam de argumentos pós-copernicanos, pois Copérnico, como pensador de transição, ainda era parcialmente Aristotélico. Era necessário demolir os argumentos contrários à mobilidade da Terra e este espaço é legado a um protagonista de primeiríssima importância: Galeileu Galilei (1564-1642). É digno de nota que no seu famoso livro Diálogo sobre os dois Máximos Sistemas do Mundo Ptolomaico & Copernicano, publicado em Florença em 1632, Galileu, em uma fala de sua personagem Salviati, tenha assim se manifestado: “…não posso encontrar limite para a minha admiração de como tenha podido, em Aristarco e em Copérnico, a razão fazer tanta violência aos sentidos, que contra estes ela se tenha tornado soberana de sua credulidade” (grifos nossos). As palavras razão e sentidos são fundamentais no método de Galileu reiteradamente mencionado pelo próprio florentino ao longo de sua obra como sendo um tal a combinar experiências sensíveis com demonstrações necessárias. Em outras palavras, era a emergência da consciência de que, sem desconsiderar a importância dos sentidos, era estritamente necessário eleger a primazia da razão. Nesta orientação metodológica, Galileu age de maneira revolucionária, em pelo menos duas vertentes: (1) Inventa a astronomia telescópica (antes dele, toda a astronomia era a olho nu) e não é por outra razão que o ano de 2009 foi escolhido como o Ano Internacional da Astronomia, pois naquele ano se comemorava o quarto século desde que Galileu houvera apontado em 1609 a sua luneta para o Céu e o estudado com os olhos da razão e não meramente com os olhos dos sentidos ingênuos e destituídos de considerações prévias; (2) Inventa a ciência dos movimentos locais que foi a base fundamental com a qual o seu sucessor extraordinário Isaac Newton (1642-1727) firmemente se apoiou. Assim, Galileu refuta o mundo supralunar da quinta essência ou substância etérea de Aristóteles, mostrando que há crateras na Lua, o Sol exibe manchas, que Júpiter é centro de revolução de seus respectivos satélites (uma descoberta em si própria revolucionária) e, dentre outras várias descobertas fundamentais, apresenta uma estupenda prova em prol do sistema heliocêntrico: a existência da fase cheia de Vênus que era inexplicável à luz da concepção geocêntrica. Como a fase de um astro diz respeito a qual porção do disco deste astro é iluminado pelo Sol quando visto por nós aqui da Terra, então Vênus cheia somente é possível quando Terra e Vênus estão em posições diametralmente opostas em relação ao Sol e, por isso, o disco iluminado de Vênus é pequenininho pois a sua distância da Terra é máxima. Em outras posições intermediárias, o disco de Vênus é muito maior, porém a porção iluminada de seu disco é parcial, exatamente pela razão de que as distâncias relativas entre Vênus e Terra serem muitíssimo menores na comparação com a máxima distância relativa quando é exibida a fase cheia de Vênus.

Johannes Kepler

Outro protagonista de primeiríssimo plano no curso da revolução Copernicana foi Johannes Kepler (1571- 1630), famoso pelas suas três leis dos movimentos dos planetas em torno do Sol em órbitas elípticas, ou seja, as assim chamadas: lei das órbitas; lei das áreas; e lei dos períodos (Leis de Kepler).

Isaac Newton

Isaac Newton com a formulação das leis da mecânica e de sua Lei da Gravitação Universal realiza um passo de decisiva importância que se constitui na unificação entre a física de Galileu Galilei dos movimentos locais com a astronomia de Johannes Kepler. Articula conceitos seminais e de grande profundidade como espaço absoluto, tempo absoluto, massa, força e ação a distância.

Revolução Científica

A chamada Revolução Copernicana exigiu desenvolvimentos pós-copernicanos e deste modo seria mais adequadamente denotada por revolução Copernicana-Galileana-Kepleriana-Newtoniana, ou simplesmente, por Revolução Científica. Entende-se também que a posição central de Copérnico em relação aos seus precursores da concepção heliocêntrica, citados na carta de Galileu a Cristina de Lorena, se deve de forma relevanta à defesa do heliocentrismo protagonizada por Galileu. A Revolução Científica constitui-se em um processo longo e complexo como o que se deu no período compreendido entre 1543 (ano da publicação do De Revolutionibus, de Copérnico) e 1687 (ano da publicação dos Principia de Isaac Newton), ou seja, ao longo de quase 150 anos de penoso trabalho.

De Revolutionibus Orbium Coelestium

De Revolutionibus Orbium Coelestium é o nome
De Revolutionibus Orbium Coelestium (1566).
original em latim do livro Das Revoluções das Esferas Celestes, do astrônomo polonês Nikolaus Koppernik, mais conhecido pelo nome latinizado Nicolau Copérnico, publicado em 24 de Maio de 1543 em Nurembergue. É uma das obras mais importantes do período do Renascimento e um marco da Revolução Científica.
A publicação ocorreu durante o ano de sua morte, 1543. Apesar disso, ele já havia desenvolvido sua teoria algumas décadas antes.

Publicação

Na primavera de 1539, Georg Joachim (Rethicus), professor de matemática da Universidade de Wittenberg estudou junto com Copérnico a nova teoria. Rethicus porém teve que assumir outro posto em Leipzig e deixou a supervisão técnica do livro para o clérigo luterano local, Andreas Osiander. Osiander acrescentou um prefácio não assinado que afirmava que o livro não era um retrato real do Universo, mas "um cálculo coerente com as observações".


Citações

- "A sabedoria da natureza é tal que não produz nada de supérfluo ou inútil". (Nicolau Copérnico citado em "Humanidades: Edições 10-15" - página 33, Editora Universidade de Brasília, 1986).
- "Depois de longas investigações convenci-me, por fim, de que o Sol é uma estrela fixa rodeada de planetas que giram em volta dela e de que ela é o centro e a chama. Que, além dos planetas principais, há outros de segunda ordem que circulam primeiro como satélites em redor dos planetas principais e com estes em redor do Sol. (...) Não duvido de que os matemáticos sejam da minha opinião, se quiserem dar-se ao trabalho de tomar conhecimento, não superficialmente, mas duma maneira profunda, das demonstrações que darei nesta obra. Se alguns homens ligeiros e ignorantes quiserem cometer contra mim o abuso de invocar alguns passos da Escritura (Sagrada), a que torçam o sentido, desprezarei os seus ataques: as verdades matemáticas não devem ser julgadas senão por matemáticos". (De Revolutionibus Orbium Caelestium).

Cronologia

  • 1473 – 19 de Fevereiro – nasce Nicolau Copérnico, em Thorn, Prússia Real uma província da Polônia.
  • 1483 – Morre o pai de Copérnico, que vai ser criado pelo tio materno, Lucas Watzenrode.
  • 1489 – Lucas Watzenrode, tio de Copérnico é eleito Bispo de Warmia.
  • 1491 – Copérnico vai para a Universidade de Cracóvia.
  • 1497 – Copérnico vai para a Itália, estudar Direito Canônico na Universidade de Bolonha.
  • 1497 – 9 de Março – Copérnico registra sua primeira observação astronômica: uma ocultação da estrela Aldebarã.
  • 1499 – Copérnico viaja para Roma.
  • 1503 – Copérnico recebe seu diploma em Direito Canônico, em Ferrara.
  • 1503 – Copérnico retorna para a Prússia Real.
  • 1504 – É eleito Cônego em Frauenburgo.
  • 1512 – Morre o tio de Copérnico, o bispo Lucas Watzenrode, que o educou.
  • 1517 – 31 de Outubro – Martinho Lutero publica as 95 teses de sua Reforma.
  • 1534 – Alessandro Farnese é eleito papa sob o nome de Paulo III.
  • 1539 – Rheticus torna-se discípulo de Copérnico, em Frauenburgo.
  • 1542 – O Papa Paulo III restabelece a Inquisição.
  • 1543 – Rheticus, em nome de Copérnico, publica a obra "De Revolutionibus Orbium Coelestium" em Nurembergue.
  • 1543 – Em 24 de Maio morre Copérnico, em Frauenburgo, no mesmo dia da publicação de sua obra "Da Revolução de Esferas Celestes".
  • 1545 – O Papa Paulo III convoca o Concílio de Trento.
  • 2010 – Os restos mortais de Copérnico são enterrados novamente na catedral de Frombork, 467 anos após sua morte.


Referências