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sábado, 23 de maio de 2015

Biografia de Evaristo da Veiga


Evaristo da Veiga (M. J. Garnier).
Evaristo da Veiga. (Evaristo Ferreira da Veiga e Barros). Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 8 de Outubro de 1799, e, faleceu nesta mesma cidade a 12 de Maio de 1837. Evaristo da Veiga foi um poeta, jornalista, político e livreiro brasileiro. *Um dos mais combativos jornalistas do seu tempo, fundou em 1827 a “Aurora Fluminense”. Por este jornal atacou denodadamente o Imperador Dom Pedro I, que apesar dos seus desmandos dava inteira liberdade de crítica aos seus opositores. Esses ataques eram, contudo, de cunho estritamente político; tanto que a letra do conhecido Hino da Independência é de sua autoria e, a música, do próprio Imperador. Várias vezes deputado, destacou-se ainda por seu destemor durante o Período Regencial (sofreu inclusive um atentado, recebendo um tiro no rosto). É o patrono da cadeira fundada por Rui Barbosa na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Infância e adolescência

Filho de um português mestre-escola, Francisco Luís Saturnino Veiga, chegado ao Brasil aos 13 anos, soldado miliciano na paróquia de Santa Rita, no Rio de Janeiro, depois nomeado professor régio de primeiras letras na freguesia de São Francisco Xavier do Engenho Velho. Passou a professor na rua do Ouvidor, onde abriu uma loja. Andou por Vila Rica em 1788 e 1789, deve ter conhecido alguns dos inconfidentes, pois recopiou as “Cartas Chilenas” de Tomás Antônio Gonzaga, publicadas meio século mais tarde por seu neto Luís Francisco da Veiga. Casou com uma brasileira, D. Francisca Xavier de Barros, nascendo três filhos, dos quais Evaristo foi o segundo. Teve grande influência sobre seus filhos, sobretudo Evaristo, ótimo estudante que no Rio de Janeiro de D. João VI aprendeu francês, latim, inglês, cursou aulas de retórica e poética e estudou filosofia. Neste período adquiriu interesse por jornalismo ao visitar as oficinas da Impressão Régia, nos porões do palácio do conde da Barca. Quando concluiu os estudos, o pai já abrira uma livraria na rua da Alfândega e os livros que trazia da Europa tinham em Evaristo o primeiro leitor, o mais curioso. Seu projeto frustrado de partir para a Universidade de Coimbra encontrou compensação na livraria do pai.

Poeta

Evaristo da Veiga
Autor da letra do “Hino à Independência”, cuja música se deve a D. Pedro I. Conta entre os precursores do Romantismo no Brasil. Em suas poesias mais antigas se sente a influência da escola arcádica e sobretudo de Bocage. Datam de 1811, tinha 12 anos. Um ano depois, em 1812, celebra os desastres militares dos franceses em Portugal. Aos 14 anos era um poeta português que refletia no Brasil com atraso de 20 anos o movimento da Nova Arcádia em que haviam excedido Bocage, José Agostinho de Macedo, Curvo Semedo. Em 1817 era súdito fiel de D. João VI, um luso no Rio de Janeiro: o malogro da revolução de Pernambuco o encheu de alegria. Seus versos cantaram o casamento de D. Pedro com D. Leopoldina, os anos de S. Majestade em 13 de Maio de 1819, o aniversário da aclamação do rei. Diversas poesias são dedicadas a amigos, uma característica que se manterá: primou sempre nele o sentimento da amizade. Aos vinte anos começaram a aparecer Marílias, Nises, Lílias, Isabelas mas seus sonetos, cantigas e madrigais continuam arcádicos - com ligeira influência dos mineiros. Em 1821, porém, vivia-se no Rio de Janeiro “o ano do constitucionalismo português”, como afirma Oliveira Lima em “O Movimento da Independência”. Ninguém podia ficar indiferente. O elemento conservador, receoso de desordens, alimentava esperança de que a chegada das novas instituições não importaria em ruptura com Portugal, pois haveria uma monarquia dual, servindo a coroa como união. Era o pensamento de Evaristo da Veiga, ilusão de que participaram muitos brasileiros. Não tardaram os constitucionalistas de Portugal a demonstrar sua incompreensão das coisas do Brasil e foram aparecendo as resoluções das Cortes que tinham como propósito estabelecer a antiga submissão colonial, embora de outra forma. Foi nesse instante que nele despertou o patriota: um soneto em 17 de Outubro de 1821 é intitulado “O Brasil”. Outro, de Fevereiro de 1822, já estigmatizava “a perfídia de Portugal”. Daí em diante vibrou com o movimento que se espalhava pelo país. Em 16 de Agosto de 1822, sem ser figura saliente em nenhum acontecimento, escreveu o “Hino Constitucional Brasiliense”, o célebre “Brava Gente Brasileira / longe vá temor servil”, etc. Compôs sete hinos, no total, entoados por milhares de bocas. O “Brava Gente” recebeu duas músicas, uma do maestro Marcos Portugal, outra do próprio Príncipe Regente D. Pedro. E como Evaristo era tímido e o príncipe notoriamente melômano, logo se lhe atribuiu a letra... Só mais tarde, em 1833, Evaristo reivindicaria a letra (os originais estão na Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional). O ato da aclamação do Imperador lhe inspirou três sonetos - e outros dedicou à Liberdade, à instalação da Assembléia Constituinte, a lorde Cochrane (Thomas Alexander Cochrane), à fuga do general Madeira. Mas teria papel obscuro e modesto nos sucessos da Independência. Seu nacionalismo era novo, faltava-lhe paixão, e ademais não tinha posição social, era um rapaz modesto e avesso a turbulências que trabalhava no balcão da livraria do pai. Em 1821, porém, assina com pseudônimo “O Estudante Constitucional” uma réplica a panfleto anônimo contra o Brasil, intitulado “Carta do Compadre de Belém”, impresso em Portugal. Cedo deixou de ser um espectador desenganado da ação do Imperador. 1823 era o ano da instalação da Constituinte e o de sua dissolução por um golpe de força. Em 30 de Maio ele já fala no “despotismo mascarado”... Deixou de fazer sonetos, fez hinos. Ainda publicaria em 1823 “Despedida de Alcino a sua Amada”, pois Alcino foi seu nome poético. Mas era poeta bastante medíocre e disso teve convicção antes de que outros lhe dissessem. Sua atividade poética foi esmorecendo, subindo apenas em 1827, ano em que se casou. Sua vocação, logo descobriria estar na política, no serviço público, na imprensa, no parlamento.

Livreiro

Morreu sua mãe em 1823 e o pai, que desejava casar-se de novo, escrupuloso e exato como era, entregou aos filhos a parte que lhes tocava na herança materna. Evaristo e João Pedro, seu irmão, abriram então uma livraria. Era empreendimento lucrativo. O país se europeizava e os livros e jornais eram os agentes dessa europeização. Em 1821 no Diário do Rio de Janeiro havia anúncios de oito lojas de livros. Datam de Outubro de 1823 os primeiros anúncios da loja de Evaristo (João Pedro da Veiga & Comp), 14 dias antes de D. Pedro I dissolver a Assembleia. Leu tudo que vendia, formou seu pensamento, fixou-se na posição da monarquia constitucional, pois a república lhe parecia um exagero e era moderado por temperamento. Vendendo livros e fazendo cada vez menos versos passou os anos até 1827, quando, economicamente independente, se separou do irmão e estabeleceu livraria própria ao comprar a livraria e tipografia de João Batista Bompard na rua dos Pescadores nº 49. Em 1827 casou-se com D. Ideltrudes Maria d'Ascensão, começando nova vida.

Jornalista

Em 21 de Dezembro de 1827 surgiu o primeiro número de seu próprio jornal, logo famoso, o “A Aurora Fluminense”, que exerceu importante papel na política do Primeiro Reinado por suas tendências anti-lusófilas. Os fundadores foram um jovem brasileiro cedo falecido, José Apolinário de Morais, o médico francês José Francisco Sigaud e Francisco Crispiano Valdetaro. Evaristo resolveu associar-se e passou em pouco tempo de colaborador a redator principal e finalmente único. Assinava seus artigos apenas como Evaristo da Veiga. A imprensa do Rio de Janeiro era então detestável, pasquineira. A Gazeta do Brasil era favorável ao governo, órgão ministerial, defendendo o Gabinete de 15 de Janeiro de 1827, e quem enviava seus artigos, como depois se descobriria, era Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, oficial do Gabinete Imperial, íntimo e detestável amigo de D. Pedro I. A Gazeta chamava A Aurora Fluminense de “fedorenta sentina da demagogia e do jacobinismo”, a “Astréa” de João Clemente Vieira Souto de “insolente e demagógica”, O Universal de Ouro Preto, de inspiração de Bernardo Pereira de Vasconcelos, de “jacobino e anárquico”. Os fundadores de A Aurora Fluminense queriam “linguagem imparcial”, guiada pela razão e virtude, e havia para “servir à liberdade constitucional” um Evaristo da Veiga, imbuído de leituras francesas e inglesas, com o sonho de ver adotadas as instituições que seus autores prediletos preconizavam como indispensáveis à grandeza das nações. Uma quadrinha de versos pífios, composta por D. Pedro I, foi seu lema: Pelo Brasil dar a vida / Manter a Constituição / Sustentar a Independência / É a nossa obrigação. E foi seu programa o devotamento ao país, o respeito pela sua liberdade, a manutenção de sua Constituição. Os seus temas, no jornal, foram a liberdade constitucional, o sistema representativo, a liberdade de imprensa. Por isso deu apoio ao Gabinete de 20 de Novembro de 1827. Mas havia assuntos de momento em que tocou, como o descalabro da instrução, a questão do crédito público. Combatia a indiferença em matéria política, sobretudo, a mais funesta de todas as enfermidades morais. Havia a mesma pregação em outros jornais liberais (o Farol, O Astro, de Minas, a Astréa), combatidos pelos jornais corcundas. Batia-se pela abolição dos morgados, extinção da Intendência de Polícia, da Fisicatura, do Desembargo, da Mesa da Consciência e da Ordem, instituições obsoletas. A oposição dos ministérios excluía escrupulosamente a pessoa do monarca, a quem tratava com deferência e até louvava. Ainda não desesperançados do Imperador, os liberais queriam estimulá-lo. O Imperador, porém, é que parecia ir-se distanciando do herói brasileiro que fora em 1822 e voltar-se mais para Portugal do que para o Brasil, comenta Octavio Tarquinio de Sousa. A separação entre a corrente nativista liberal e o imperador aumentou sempre, a sessão parlamentar de 1829 seria da maior agitação, o governo sempre acusado. A Aurora era o mais autorizado reduto da oposição governamental, e sua popularidade - e a de Evaristo - crescia sempre. Quando do atentado ao jornalista Luís Augusto May, redator da “A Malagueta”, órgão liberal, repetição do que fora vítima em 1823, sem temor a que lhe sucedesse o mesmo, Evaristo condenou-o energicamente e continuou impassível em suas campanhas. Estavam do seu lado a Astréa, a Luz Brasileira - e do lado ministerial, o Diário Fluminense, O Analista, o Courrier du Brésil, o Jornal do Commercio. A federação era moda, havia gente que queria ir até a República. De seu lado não viriam provocações, pois em artigo de 9 de Dezembro de 1829 escreveu: Nada de jacobinismos de qualquer cor que ele seja. Nada de excessos. A linha está traçada - é a da Constituição. Tornar prática a Constituição que existe sobre o papel deve ser o esforço dos liberais.

Político

Em 1830 foi eleito deputado por Minas Gerais, tendo sido reeleito até morrer. Era nome conhecido no Brasil inteiro. Deputado, continuou jornalista e foi sempre livreiro. Aproximava-se de Bernardo Pereira de Vasconcelos, pela coincidência da posição ideológica. Na nova Câmara abundavam adeptos do liberalismo e para formar a opinião liberal do Brasil ninguém concorrera mais que Evaristo, que jamais assinara um artigo sequer, e a Aurora Fluminense, que em 1830 fora aumentada para seis páginas. Sem nunca ter saído do Rio de Janeiro, recebeu seu mandato de deputado por Minas Gerais, substituindo Raimundo José da Cunha Matos, que optara pela cadeira de Goiás. Em seu mandato tentou pôr as instituições monárquicas a serviço do grande problema brasileiro - a unidade do vasto país. Cumpria cuidar dos interesses mais vitais do povo, fomentar a indústria, sanear zonas quase inabitáveis, difundir a instrução. Batia-se pelo estreitamento das relações com as demais nações americanas, desconfiando das da Europa. Sempre assíduo, queria que os assuntos fossem discutidos com calma, nas Comissões, longe do tumulto do plenário. Opunha-se às liberalidades à custa do Tesouro: “Devemos desgostar antes aos afilhados do que à nação”, dizia. Falava pouco, sem retórica, indo direto ao assunto sem divagações. Tinha qualidades raras como deputado: senso de proporções, espírito objetivo, modéstia patriótica. Quando, trabalhado por intrigantes, D. Pedro I demitiu inopinadamente Barbacena da Fazenda, com os desenvolvimentos que se conhecem, os mais otimistas se foram convencendo de que o Brasil nunca seria um país livre com semelhante imperador. Precisamente nesse clima caiu como um raio a notícia da revolução de Julho de 1830 na França, derrubando Carlos X, e recrudesceu a campanha na imprensa em favor das idéias liberais. Surgiu no Rio o jornal “O Repúblico”, e nenhum teria papel mais ativo para desencadear a crise. Pregava-se abertamente a federação, querendo mesmo a Nova Luz uma “federação democrática”. Evaristo combatia-os e ao mesmo tempo os órgãos absolutistas: o Imparcial, o Diário Fluminense, o Moderador, em posição difícil de equidistância. Mas a agitação popular se alastrava. D. Pedro, mal aconselhado, resolveu ir a Minas Gerais, onde foi friamente recebido. Diz Octávio Tarquínio de Sousa que “já se apagara da imaginação popular a figura romântica do príncipe que fora o melhor instrumento da Independência”. Evaristo enfrentou com destemor os dias de atentados que precederam o Sete de Abril. Foi ele o autor da representação enérgica de 17 de Março de 1831 na chácara da Flora, propriedade do padre José Custódio Dias, um verdadeiro ultimato ao imperador. P. Pedro I, que chefiava em Portugal a campanha constitucionalista, se foi no Brasil distanciando de suas atitudes liberais de 1822 e a ele se foram chegando cada vez mais os portugueses aqui residentes, sendo então abandonado pelos próprios elementos moderados da política brasileira. Já estavam conspirando Evaristo, Odorico Mendes, Nicolau de Campos Vergueiro e esforçando-se por conseguir a adesão da tropa. “O dia 6 de Abril seria de fato a verdadeira data revolucionária em que se verificaria a insurreição da tropa e do povo no Campo de Santana; a 7 de Abril apenas se completaria a vitória liberal com a abdicação do monarca”. Evaristo anuiu ao golpe quando se esgotaram as possibilidades de uma solução menos violenta, como ele próprio declarou num discurso em 12 de Maio de 1832 na Câmara. Aderiu para evitar a anarquia, o desmembramento, a desunião das províncias. Evaristo correu ao Senado para dar forma legal à nova situação por meio da reunião extraordinária que elegeu a Regência provisória (o Marquês de Caravelas, Nicolau de Campos Vergueiro, o brigadeiro Francisco de Lima e Silva). Coube-lhe redigir a proclamação, e o documento, nobre, nacionalizava a independência e pedia não macular a vitória com excessos. Terminava: “Do dia 7 de Abril de 1831 começou a nossa existência nacional; o Brasil será dos brasileiros, e livre!”. Aberta a Câmara a 3 de Maio, Evaristo foi escolhido para a Comissão de criação da Guarda Nacional, a “força cidadã”, como ele chamava, que teria o importante papel de manter a ordem em todo o período regencial. Elegeu-se a 17 de Junho de 1831 a primeira Regência permanente, sendo escolhidos Francisco de Lima e Silva, Costa Carvalho e João Bráulio Muniz, este representando o Norte. Evaristo teve imenso papel na elaboração da lei que a regulou.

A Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional
Ao mesmo tempo, empenhou-se pela criação de um outro instrumento de ordem, de disciplina social, de orientação política, que foi a Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional, instalada no Rio de Janeiro a 19 de Maio de 1831. Inspirava-se em sua congênere paulista e teve por iniciador Antônio Borges da Fonseca, o redator de O Repúblico. Evaristo se tornou seu adepto mais fervoroso e de 1831 a 1835 a Aurora Fluminense, a tribuna da Câmara e a Sociedade se tornaram seu centro de ação diária. Foi instrumento de ação dos moderados, e se disse, com algum exagero, que “governou o Brasil pelo espaço de quatro anos”. Abreu Lima em “História do Brasil” acha que “foi em realidade outro Estado no Estado, porque sua influência era a que predominava no gabinete e nas Câmaras; e sua ação, mais poderosa que a do governo, se estendia por todos os ângulos do Império”. O grande elemento de ação da “Defensora” foram as representações à Câmara, ao governo, publicadas nos jornais do partido moderado desde 1 de Junho de 1831. Evaristo vinculou-se também a diversas outras sociedades e agremiações, animando-as, procurando colocá-las sob sua orientação política. Foi um dos fundadores da Sociedade de Instrução Elementar, da Sociedade Amante da Instrução, da Sociedade Filomática do Rio de Janeiro. Sua luta foi incansável, em época propícia aos excessos, pois não era o simplista que acredita no milagre das leis. Joaquim Nabuco dele dirá, em “Um Estadista do Império”, que quis exercer no Brasil a ditadura de sua opinião - uma opinião lúcida, desinteressada, de bom senso, serenidade e medida de proporções. Os Andradas haviam-se logo alistado entre os descontentes, Evaristo se tornou alvo de ataques e calúnias. Em Julho de 1831 era profunda a divisão dos liberais. Nomeado Feijó para a Justiça, recebeu todo o apoio de Evaristo, na Câmara e pela Aurora Fluminense mas havia grandes embaraços ao governo com a indisciplina militar, a separação entre exaltados e moderados. Evaristo era já, por consenso, o chefe do partido moderado. Formigavam apodos: “Farroupilhas” e “Jurujubas” seriam os exaltados, “Chimangos” ou “Chapéus Redondos” os moderados, “Caramurus” os restauradores. Era moço, tinha 32 anos. A Malagueta o achava feio e menoscabava sua profissão de livreiro. A partir de 1832 os restauradores pareciam mais perigosos do que os exaltados, o Carijó e o Caramuru iniciaram ofensiva contra o governo. Uma grave crise foi a campanha de Feijó para destituir José Bonifácio da tutoria dos filhos do Imperador, cujo desfecho se daria com o malogrado golpe de 30 de Julho de 1832. Membro da comissão de resposta à Fala do Trono, Evaristo fez um de seus mais longos discursos, quase de improviso, eloquente. Serviu-se também da Aurora Fluminense, enquanto o Carijó obediente a Antônio Carlos Ribeiro de Andrada o chamava de “sanefa da Pátria, sabugo versicolor da Aurora”. Em Julho, a Câmara aprovou a destituição de José Bonifácio de seu posto como tutor, muito comprometido com o facciosismo dos irmãos, mas o Senado não, e Feijó pediu demissão. Os moderados já viam D. Pedro I de novo sentado no trono... Ficou decidido o Golpe de Estado tramado na chácara do Padre José Custódio Dias, mas Evaristo não teve nenhuma iniciativa, nenhum entusiasmo, não deu seu assentimento nem adesão formal - instava, entretanto, por uma “medida salvadora” e demonstrou sua solidariedade completa, irrestrita a Feijó. Malogrado o golpe, Feijó e outros ministros saíram do governo e a Regência continuou - o bastão de líder escapou de suas mãos. No novo ministério organizado a 3 de Agosto de 1832 não havia amigos seus. O Carijó chegou a escrever: “Evaristo está morto”.

A reforma constitucional e a eleição de Feijó
A 30 de Julho de 1832 a Aurora Fluminense publicou: “Evaristo é o mesmo homem, deputado livre, jornalista defensor da ordem púbica e homem da classe industriosa, vivendo do seu trabalho. Nunca aspirou nem procurou o poder”. A 13 de Setembro, Evaristo exultava com o novo ministério com Nicolau de Campos Vergueiro e Honório Hermeto Carneiro Leão, e neste tinha Feijó um substituto... Voltavam ao poder os moderados e do malogro do golpe de 30 de Julho resultaria a vitória do ideal que o alimentara: houve acordo para reforma constitucional que foi consubstanciada na lei de 12 de Outubro de 1832. A Câmara cedeu, cedeu o Senado, o Poder Moderador foi mantido, a vitaliciedade do Senado, não prevaleceu o cunho federalista que a Câmara desejava mas o Conselho de Estado foi abolido. Sofreu um atentado em sua própria livraria, a 8 de Novembro de 1832. Recebeu mais de mil visitantes, desde os regentes, ministros de Estado, senadores, ao povo miúdo. Atentado de um pobre sapateiro a mando de um certo coronel Ornelas, amigo de José Bonifácio. Evaristo confessou suspeitar mais do Sr. Martim Francisco, “cuja alma rancorosa todos conhecem”. O certo é que os jornais restauradores, particularmente o Caramuru, tinham seu quinhão de culpa na formação do ambiente de ódios. Em 1833 recrudesceu a campanha da imprensa, empenhada nas eleições para a legislatura 1834-1837 pois a Câmara tinha poderes para realizar a reforma constitucional. Reapareceram jornais antigos como o Brasileiro, e o Nacional, surgiram novos como o Independente, o Sete de Abril, das simpatias de Bernardo Pereira de Vasconcelos. Mas os moderados já não tinham o prestígio anterior, a campanha Caramuru causara impressão - exceto na zona rural. Eram os chamados “eleitores do campo”. Todo o ano 1833 se consumiu na expectativa do retorno do duque de Bragança... Evaristo, convencido de que a trama restauradora era sério perigo, combateu-a, usando a Defensora, e chefiou mesmo a campanha que impediu a volta de D. Pedro, sob qualquer título, e clamava pela suspensão de José Bonifácio do lugar de tutor como “centro e instrumento dos facciosos”. Com sua queda, passou o momento de maior tensão, tudo prometia melhorar. A 14 de Junho de 1833 entrou em discussão o projeto de reforma da Constituição. Discutiu-se inicialmente a quem competia, e a opinião de Evaristo - a competência era da Câmara - foi aprovada por enorme maioria. Depois de Bernardo Pereira de Vasconcelos, seu autor, ninguém mais do que Evaristo estudou o projeto. Declarou inicialmente que, por seu voto, não se tocaria na Constituição - mas cedia à opinião geral, às aspirações autonomistas das províncias, sem esquecer os interesses superiores da unidade nacional. Foi voto vencido na questão da temporariedade da função de Regente pois a Câmara mostrou-se mais liberal que ele, Limpo de Abreu, Paula Araújo e Vasconcelos e quase estabeleceu no Brasil uma verdadeira república provisória. A facilidade com que se votou a reforma tinha explicação no temor à volta de D. Pedro I. Quando o ex-imperador morreu em 24 de Setembro (a notícia chegou ao Rio em Dezembro de 1834), a desagregação dos moderados se processou com rapidez pois nunca houve coesão partidária. Evaristo o julgou com serenidade: “não foi um príncipe de ordinária medida, existia nele o germe de grandes qualidades, que defeitos lamentáveis e uma viciosa educação sufocaram em parte. (...) Se existimos como corpo de nação livre, se a nossa terra não foi retalhada em pequenas repúblicas inimigas, onde só dominasse a anarquia e o espírito militar, devemo-lo muito à resolução que tomou de ficar entre nós, de soltar o primeiro grito de nossa Independência”. A situação política do Brasil dava sinais de persistência de divisão e indisciplina. No Rio Grande do Sul começara a guerra que ia durar dez anos, havia redução no Pará. A grande questão era a escolha do Regente único, de acordo com o Ato Adicional. O candidato de Evaristo foi Feijó, pois dele não via os defeitos e o que temia era a desordem, a anarquia, que prometia a candidatura Holanda Cavalcanti, tido como arrebatado e frenético. Fez a campanha com as mesmas agruras anteriores, destemido, sereno, até que a 7 de Abril de 1835 votaram em todo o Brasil os eleitores, que eram seis mil, cada um com direito a sufragar dois nomes. Com as dificuldades de comunicação, os resultados chegaram morosamente - feita a apuração final a 9 de Outubro, Feijó ficou em primeiro lugar (2.826 votos), Holanda Cavalcanti em segundo (2.251). Com maioria na Câmara, o “partido holandês” tentaria ainda fazer de D. Januária Maria de Bragança regente, mas nada conseguiu.

O fim da Aurora Fluminense
A eleição de Feijó foi a última demonstração do prestígio de Evaristo da Veiga. Estava afastado de Bernardo Pereira de Vasconcelos, de Honório Hermeto, de Rodrigues Torres, era combatido pelos caramurus e ainda teve a amargura de desavir-se com Feijó, regente único - por culpa sua, pensavam todos. Em 30 de Dezembro de 1835 saiu o último número de seu jornal, com oito anos de existência. Recolhia-se a uma vida que desejava tranquila, com as três filhas e a mulher. Mas não se retirou da vida pública, pois em 1836 compareceu normalmente à Câmara. Depois decidiu fechar por uns tempos sua casa na rua dos Barbonos, hoje rua Evaristo da Veiga, e em Novembro partiu para Campanha, onde vivia um irmão. Voltou ao Rio em 2 de Maio de 1837. Visitou Feijó, foi para cama preso à violenta “febre perniciosa”, como diagnosticaram os médicos. Morreu a 12 de Maio, repentinamente, aos 37 anos.

Apreciação
Contribuiu decisivamente para a defesa das instituições públicas, além de trabalhar para o desenvolvimento intelectual e artístico, estimulando jovens escritores. Segundo Octávio Tarquínio de Sousa: “Sua influência nos acontecimentos políticos se fez sentir desde o aparecimento da Aurora Fluminense e ninguém mais do que ele concorreu para criar o ambiente liberal que caracterizaria os primeiros anos da Regência. (...) Evaristo não fez mais do que conformar-se com a revolução, aceitá-la como uma fatalidade”. Caixeiro sem ancestrais ilustres, gordo e deselegante, sem a ajuda de poderosos, sem dons de sedução, que nunca esteve em qualquer universidade, sem deixar o Rio, sem mencionar seu nome do jornal que escrevia, foi eleito e reeleito deputado, assumindo papel de guia e conselheiro- sem improvisação, sem imposturas. Foi jornalista, deputado, político, orientando a opinião do país porque tinha um espírito sério, probidade moral, sinceridade e, sobretudo, uma inteligência lúcida, desapego aos altos cargos, um grande desejo de servir e de ser útil.

Acadêmico
Membro do Instituto Histórico de França e da Arcádia de Roma. Patrono da cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de seu fundador, Rui Barbosa.

Maçom
Iniciado na Maçonaria em 1 de Junho de 1832 na Loja Esperança de Nictheroy n° 0003 no Rio de Janeiro.

Hino da Independência do Brasil

(Imagem 1)
O Hino da Independência foi composto por Evaristo da Veiga e a sua música é de Dom Pedro I. Segundo diz a tradição, a música foi composta pelo Imperador às quatro horas da tarde do mesmo dia do Grito do Ipiranga, 7 de Setembro de 1822, quando já estava de volta a São Paulo vindo de Santos. Este hino de início foi adotado como Hino Nacional, mas quando D. Pedro começou a perder popularidade, processo que culminou em sua abdicação, o hino, fortemente associado à sua figura, igualmente passou a ser também desprestigiado, sendo substituído em 1831 pela melodia do atual Hino Nacional, que já existia desde o mesmo ano de 1822.
(Imagem 1): Dom Pedro I compondo o Hino Nacional brasileiro (hoje Hino da Independência), em 1822. Por Augusto Bracet.
 

Letra

Normalmente, os versos 3, 4, 5, 6, 8 e 10 são hoje omitidos quando o Hino da Independência é cantado.
hino da Independência é cantado.
Hino da Independência
1
Já podeis da Pátria filhos
Ver contente a Mãe gentil;
Já raiou a Liberdade
No Horizonte do Brasil
Já raiou a Liberdade
Já raiou a Liberdade
No Horizonte do Brasil
Refrão
Brava Gente Brasileira
Longe vá, temor servil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.
2
Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil,
Houve Mão mais poderosa,
Zombou deles o Brasil.
Houve Mão mais poderosa
Houve Mão mais poderosa
Zombou deles o Brasil.
(Refrão)
3
O Real Herdeiro Augusto
Conhecendo o engano vil,
Em despeito dos Tiranos
Quis ficar no seu Brasil.
Em despeito dos Tiranos
Em despeito dos Tiranos
Quis ficar no seu Brasil.
(Refrão)
4
Ressoavam sombras tristes
Da cruel Guerra Civil,
Mas fugiram apressadas
Vendo o Anjo do Brasil.
Mas fugiram apressadas
Mas fugiram apressadas
Vendo o Anjo do Brasil.
(Refrão)
5
Mal soou na serra ao longe
Nosso grito varonil;
Nos imensos ombros logo
A cabeça ergue o Brasil.
Nos imensos ombros logo
Nos imensos ombros logo
A cabeça ergue o Brasil.
(Refrão)
6
Filhos clama, caros filhos,
E depois de afrontas mil,
Que a vingar a negra injúria
Vem chamar-vos o Brasil.
Que a vingar a negra injúria
Que a vingar a negra injúria
Vem chamar-vos o Brasil.
(Refrão)
7
Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil:
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.
Vossos peitos, vossos braços
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.
(Refrão)
8
Mostra Pedro a vossa fronte
Alma intrépida e viril:
Tende nele o Digno Chefe
Deste Império do Brasil.
Tende nele o Digno Chefe
Tende nele o Digno Chefe
Deste Império do Brasil.
(Refrão)
9
Parabéns, oh Brasileiros,
Já com garbo varonil
Do Universo entre as Nações
Resplandece a do Brasil.
Do Universo entre as Nações
Do Universo entre as Nações
Resplandece a do Brasil.
(Refrão)
10
Parabéns; já somos livres;
Já brilhante, e senhoril
Vai juntar-se em nossos lares
A Assembleia do Brasil.
Vai juntar-se em nossos lares
Vai juntar-se em nossos lares
A Assembleia do Brasil.
(Refrão)

Referências

Biografia de Manuel de Araújo Porto-Alegre


Porto-Alegre por Ferdinand Krumholz (1848).
Manuel José de Araújo Porto-Alegre, primeiro e único barão de Santo Ângelo. Nasceu em Rio Pardo, a 29 de Novembro de 1806, e, faleceu em Lisboa, a 30 de Dezembro de 1879. Manuel de Araújo Porto-Alegre foi um escritor do romantismo, político e jornalista (fundador de várias Revistas, dentre elas a "Revista Guanabara", divulgadora do gênero literário romântico e "Lanterna Mágica", publicação de humor político), pintor, caricaturista, arquiteto, crítico e historiador de arte, professor e diplomata brasileiro. *Iniciou a vida como relojoeiro. Em 1831, foi à Europa aperfeiçoar-se nos estudos. Em 1854, foi nomeado diretor da Academia de Belas-Artes, cargo que deixou em 1861, para exercer as funções de cônsul brasileiro em Berlim. Escreveu: “Brasilianas”, “Colombo”, “Voz da Natureza ou Canto sobre as Ruínas de Cumas”. “As Brasilianas é obra indianista. Um dos defeitos de Manuel Araújo é ser muito desigual. Ao lado de uma página boa escreve algumas páginas más. Os seus méritos e defeitos acham-se acumulados no poema “Colombo”, o mais longo (40 cantos) e maçante da nossa língua. Era medíocre como prosador; tinha, na prosa e no verso, a monotonia de usar de certo número de termos desusados, esquisitos, empolados, campanudos”. (Geraldo de Ulhoa Cintra).

Biografia

Filho de Francisco José de Araújo e de Francisca Antonia Viana. Seu nome de batismo era Manuel José de Araújo, modificado para Pitangueira por espírito nativista, quando da Independência e, mais tarde, chegando à forma definitiva: Manuel de Araújo Porto-Alegre. Começou a trabalhar como ourives, onde logo se destacou pelo seu refinado gosto artístico. Porto-Alegre estudou pintura inicialmente com o francês François Thér e com os cenógrafos Manuel José Gentil e João de Deus. Mudou para o Rio de Janeiro em Janeiro de 1827, para matricular-se na Escola Militar do Rio de Janeiro. Estando, porém, a escola fechada, em férias, e como tinha noções de pintura e desenho (tendo sido, inclusive, pintor de cenários de teatro), matricula-se na Academia Imperial de Belas Artes, na qual foi aluno de Jean Baptiste Debret. Em 25 de Julho de 1831, graças a uma subscrição de Evaristo da Veiga, Porto-Alegre viaja para Paris, em companhia de seu mestre e amigo Debret, que deixava definitivamente o Brasil. Na Europa, estuda na Escola de Belas Artes de Paris e viaja pela Itália, onde estuda com o arqueólogo Antonio Nibby. Viaja para a Inglaterra, Países Baixos e Bélgica com o poeta Gonçalves de Magalhães. Volta para o Rio de Janeiro em Maio de 1837 e passa a desenvolver atividades variadas como professor de desenho, poeta e, inclusive, crítico e historiador de arte, área na qual também é considerado como fundador da disciplina no Brasil. Em 1840 foi nomeado pintor da Câmara Imperial e foi responsável pelos trabalhos de decoração para a coroação do imperador D. Pedro II e seu casamento com D. Teresa Cristina. Como arquiteto executou diversos projetos no Rio de Janeiro, dos quais destacam-se as obras no Paço Imperial, o plano arquitetônico da antiga sede do Banco do Brasil, da Escola de Medicina e do prédio da Alfândega. Manuel de Araújo Porto-Alegre foi vereador no Rio de Janeiro, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e nomeado diretor da Imperial Academia de Belas Artes em 1854, cargo que ocupou até 1857. Como diretor da Academia promoveu a ampliação da área construída, anexando o Conservatório de Música e a Pinacoteca, além de estabelecer uma série de reformas no seu currículo e seus métodos de ensino. Em 1857 iniciou sua carreira diplomática, primeiramente na Prússia, em Berlim, depois em Dresden (1860) e Lisboa, onde chegou em 1866 e permaneceu até sua morte. Em Lisboa recebeu o imperador do Brasil D. Pedro II, quando este saiu em viagem de férias pelo mundo. Em 1865, exercendo função diplomática em Dresden, Alemanha, Porto-Alegre escreveu uma carta a seu amigo Joaquim Manuel de Macedo, que era professor dos filhos da princesa Isabel de Bragança, na qual ele se declara espírita e fala de suas psicografias recebidas do Plano Espiritual, revelando que a princesa Isabel, católica, lhe perguntou “quem é meu espírito protetor?”. A carta se encontra arquivada no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e contém 12 páginas manuscritas, correspondência esta que foi publicada na íntegra, com análise circunstanciada, no livro “Barão de Santo Ângelo, O Espírita da Corte” (Editora Lorenz), de autoria do jornalista Paulo Roberto Viola. Em 1874, Porto-Alegre foi agraciado pelo imperador do Brasil D. Pedro II com o título nobiliárquico de “barão de Santo Ângelo”, com brasão de armas. O brasão utiliza as mesmas armas do ramo nobre português da família Araújo, da qual Porto-Alegre descendia. Todos os descendentes do barão de Santo Ângelo não utilizam mais o sobrenome Araújo, vindo a adotar Porto-Alegre como sobrenome. Seus restos mortais foram trazidos ao Brasil em 1922. Patrono da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, Araújo Porto-Alegre ganhou nome de rua na cidade do Rio de Janeiro, justamente a rua onde fica a sede da histórica Associação Brasileira de Imprensa.

A primeira charge e a carreira nas letras

A primeira caricatura do Brasil.
Porto-Alegre foi o primeiro artista a publicar uma caricatura no Brasil, em 1837. Entre 1837 e 1839, de volta de sua viagem à Europa, Manuel de Araújo Porto-Alegre produziu uma série de litografias satíricas que eram vendidas em unidades separadas nas ruas do Rio de Janeiro. A primeira, intitulada “A Campainha e o Cujo”, circulou em 14 de Dezembro de 1837, vendida por 160 réis, mas não fora assinada (sua autoria só seria reconhecida posteriormente) e apresentava Justiniano José da Rocha, diretor do jornal Correio Oficial, ligado ao governo, recebendo um saco de dinheiro. Nesse mesmo ano, o artista escreveria a peça “Prólogo Dramático”, podendo, pois, ser considerado, sem grande margem de erro, o primeiro dramaturgo brasileiro, já que tanto o Barroco como o Arcadismo, além da fase inicial do próprio Romantismo, foram, na literatura, movimentos eminentemente poéticos. Ajudou Gonçalves de Magalhães na criação da revista Niterói, em 1836, e fundou com Joaquim Manuel de Macedo e Gonçalves Dias a revista Guanabara, em 1849, que abrigaram os grupos iniciais do Romantismo no Brasil. Porto-Alegre lançou ainda, em 1844, a revista Lanterna Mágica, primeira publicação de humor político da imprensa brasileira, que circulou por onze edições, incorporando a charge e a caricatura, que deixaram assim de ser vendidas separadamente. A publicação, que tinha o subtítulo Periódico Plástico-Filosófico, apresentava dois personagens que criticavam as situações do momento, Laverno e Belchior, à semelhança dos tipos Robert Macaire e Bertrand, criados pelo caricaturista francês Honoré Daumier e que tinha em Rafael Mendes de Carvalho seu principal desenhista. Também deixou outras obras, entre elas, “Colombo”, “Brazilianas” (onde escreveu com o pseudônimo Tibúrcio do Amarante) e a “Estátua Amazônica”.

Obras de Porto-Alegre
Dom Pedro I, óleo, acervo do Museu Histórico Nacional

Estudo para painel decorativo, 1851, acervo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli

Selva brasileira, aquarela, acervo do Museu Júlio de Castilhos

Pietà, aguada, acervo do Museu Júlio de Castilhos

 

Referências

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Biografia de Graciliano Ramos


Vidas Sêcas, de Graciliano Ramos.
Graciliano Ramos. (Graciliano Ramos de Oliveira). Nasceu em Quebrangulo, Estado de Alagoas, a 27 de Outubro de 1892, e, faleceu no Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, a 20 de Março de 1953. Graciliano Ramos foi um romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista brasileiro do século XX, mais conhecido por seu livro Vidas Secas (1938). * “A sua obra, pensada em particular ou em conjunto, nos dá a sensação de coisa pesada, opressiva ainda que lúcida; em perfeita coerência com a natureza introspectiva, analista, cética e desconfiada do autor, moldado como foi pelo meio e uma educação cheios de violência, ignorância, incompreensão e injustiças”. (Nelly Novais Coelho).



Biografia



Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, em 27 de Outubro de 1892. Primeiro de dezesseis irmãos de uma família de classe média do sertão nordestino, ele viveu os primeiros anos em diversas cidades do Nordeste brasileiro, como Buíque (PE), Viçosa e Maceió (AL). Terminando o segundo grau em Maceió, seguiu para o Rio de Janeiro, onde passou um tempo trabalhando como jornalista. Em Setembro de 1915, motivado pela morte dos irmãos Otacília, Leonor e Clodoaldo e do sobrinho Heleno, vitimados pela epidemia de peste bubônica, volta para o Nordeste, fixando-se junto ao pai, que era comerciante em Palmeira dos Índios, Alagoas. Neste mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, deixando-lhe quatro filhos. Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927, tomando posse no ano seguinte. Ficou no cargo por dois anos, renunciando a 10 de Abril de 1930. Segundo uma das auto-descrições, "(...) Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas". Os relatórios da prefeitura que escreveu nesse período chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar Caetés (1933). Entre 1930 e 1936 viveu em Maceió, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial, professor e diretor da Instrução Pública do estado. Em 1934 havia publicado São Bernardo, e quando se preparava para publicar o próximo livro, foi preso em decorrência do pânico insuflado por Getúlio Vargas após a Intentona Comunista de 1935. Com ajuda de amigos, entre os quais José Lins do Rego, consegue publicar Angústia (1936), considerada por muitos críticos como sua melhor obra. Em 1938 publicou Vidas Secas. Em seguida estabeleceu-se no Rio de Janeiro, como inspetor federal de ensino. Em 1945 ingressou no antigo Partido Comunista do Brasil - PCB (que nos anos sessenta dividiu-se em Partido Comunista Brasileiro - PCB - e Partido Comunista do Brasil - PCdoB), de orientação soviética e sob o comando de Luís Carlos Prestes; nos anos seguintes, realizaria algumas viagens a países europeus com a segunda esposa, Heloísa Medeiros Ramos, retratadas no livro Viagem (1954). Ainda em 1945, publicou Infância, relato autobiográfico. Adoeceu gravemente em 1952. No começo de 1953 foi internado, mas acabou falecendo em 20 de Março de 1953, aos 60 anos, vítima de câncer do pulmão.



Vidas Secas (livro)


Vidas Secas é o quarto romance de Graciliano Ramos, escrito entre 1937 e 1938, publicado originalmente em 1938 pela Editora José Olympio. As ilustrações na primeira edição foram feitas pelo artista plástico Aldemir Martins.


Tema


A obra é inspirada em muitas histórias que Graciliano acompanhou na infância sobre a vida de retirantes, na história, o pai de família Fabiano acompanhado pela cachorra Baleia, estes são considerados os personagens mais famosos da literatura brasileira. Escrito em terceira pessoa, Graciliano não focaliza os efeitos do flagelo da seca através da crítica mas em narrar a fuga da família, a desonestidade do patrão e arbitrariedade da classe dominante, impossibilitada de adquirir o mínimo de sobrevivência.


Crítica


O professor Leopoldo M. Bernucci considerou a obra naturalista mas não fatalista:


Embora a idéia de determinismo em Graciliano, socialmente falando, leve em si as marcas de uma visão trágica nos moldes do romance naturalista, ela não se traduz aqui, pura e simplesmente, em fatalista.




Alfredo Bosi considerou que "o roteiro do autor de Vidas Secas norteou-se por um coerente sentimento de rejeição que adviria do contato do homem com a natureza ou com o próximo".



Angústia (livro)


Angústia é um romance publicado por Graciliano Ramos em 1936. À época Graciliano estava preso pelo governo de Getúlio Vargas e contou com ajuda de amigos, entre os quais José Lins do Rego, para a publicação. A obra apresenta um narrador em primeira pessoa, Luís da Silva, funcionário público de 35 anos, solitário, desgostoso da vida e que acaba se envolvendo com sua vizinha, Marina. Com traços existencialistas, Luís mistura fatos do passado e do presente, narra num ritmo frenético como um grande monólogo interior. O leitor de Angústia certamente lembrará de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, pois em ambos há as angústias de um crime, o medo de ser pego, a febre; em Angústia o crime é o clímax, enquanto em Crime e Castigo é o ponto de partida para a história, e a personagem consegue a redenção. Outra influência marcante é a dos naturalistas brasileiros, especialmente à Aluízio Azevedo, o determinismo e a animalização do homem. O narrador não quer ser um rato, luta contra isso; compara-se o tempo todo os homens aos bichos, porcos, formigas, ratos, e usa-se verbos de animais para as reações humanas.


Crítica


Alfredo Bosi afirma que Angústia foi a experiência mais moderna e até certo ponto marginal de Graciliano Ramos e que "tudo nesse romance sufocante lembra o adjetivo 'degradado' que se apõe ao universo do herói problemático; estamos no limite entre o romance de tensão crítica e o romance intimista. Foi a experiência mais moderna, e até certo ponto marginal, de Graciliano. Mas a sua descendência na prosa brasileira está viva até hoje". Apesar de ter lido Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski, Ramos inicialmente recusou qualquer semelhança da obra com Angústia, em 12 de Novembro de 1945, ele escreveu a Antonio Candido avaliando as considerações do crítico a respeito de Angústia:


Onde as nossas opiniões coincidem é no julgamento de Angústia. Sempre achei absurdos os elogios a este livro, e alguns, verdadeiros disparates, me exasperam, pois nunca tive semelhança com Dostoiévski nem com outros gigantes. O que sou é uma espécie de Fabiano, e seria Fabiano completo se a seca houvesse destruído a minha gente, como v. bem conhece.
Graciliano Ramos


Inicialmente Graciliano declara ter lido Dostoiévski, mas negou qualquer influência até as vésperas da morte, segundo seu filho Ricardo Ramos. Por fim, o autor reconhece ter sofrido influência de Dostoiévski, Tolstoi, Balzac e Zola e também seu permanente interesse pela literatura russa. O próprio autor diz sobre a obra para Antonio Candido:


Acho em Angústia numerosos defeitos, repetições excessivas, minúcias talvez desnecessárias. E tudo mal escrito. Mas se, apesar disso, der ao leitor uma impressão razoável, devo concordar com v. É possível até que as falhas tenham concorrido para levar na história aparência de realidade. E alguns capítulos não me parecem ruins.
Graciliano Ramos

Caetés (livro)



Caetés é o primeiro romance do escritor brasileiro Graciliano Ramos publicado em 1933 pela Livraria Schmidt Editora. A história desenvolve-se em Palmeira dos índios, cidade em que viveu Graciliano Ramos.


Sinopse


João Valério, o personagem principal, introvertido e fantasioso, apaixona-se por Luisa, mulher de Adrião, dono da firma comercial em que trabalha. O caso amoroso é denunciado por uma carta anônima, levando o marido traído ao suicídio. Arrependido, João Valério, afasta-se de Luisa, continuando, porém, como sócio da firma. Neste romance em primeira pessoa, aparecem duas instâncias de narração, diferentes entre si: o livro que o narrador-personagem João Valério escreve (cujo título é também Caetés) não se assemelha ao romance Caetés que Graciliano está escrevendo, entretanto, o narrador personagem acaba por se inscrever entre essas duas linhas, colocando-se ele próprio e toda a sociedade de Palmeira dos índios analogicamente como índios caetés. No romance homônimo escrito pelo personagem, o tema principal é a deglutição do bispo Sardinha pelos índios, episódio presente no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade enquanto no romance de Gracialiano, o índio deixa de ser um ícone do processo constitutivo da nação, para se transformar em um personagem. Benjamin Abdala Júnior diz que "na interação dos caracteres, como ocorrem em relação ao João Valério, de Caetés, afirmam-se as marcas do autor implícito".


Crítica


Os críticos não acolheram bem Caetés e os detratores chegam a dizer que, em Caetés, temos mais de Eça de Queirós do que Graciliano Ramos. Antonio Candido foi um desses críticos ao afirmar que o romance é um "exercício de técnica literária mediante o qual [o autor] pode aparelhar-se para os grandes livros posteriores". Já Osman Lins exprimiu seu apreço por Caetés indicando o excesso de rigor com que a crítica o teria apreciado: "críticos exigentes fazem certas restrições à obra, entretanto límpida, arguta e equilibrada”.




São Bernardo (livro)


São Bernardo é um romance escrito por Graciliano Ramos publicado em 1934 e situado na segunda etapa do modernismo brasileiro.


Adaptação para o cinema


São Bernardo foi adaptado para o cinema por Leon Hirszman em 1972 e ganhou 9 prêmios em festivais nacionais e internacionais, com Othon Bastos e Isabel Ribeiro nos papéis centrais.




A Terra dos Meninos Pelados (livro)


A Terra dos Meninos Pelados é um livro de contos infanto-juvenis de Graciliano Ramos publicado em 1937.


Sinopse


Conta a história um menino chamado Raimundo, que era careca e tinha um olho azul e outro preto. Por ser considerado estranho, seus vizinhos não falam com ele e o apelidam de Raimundo Pelado. Por não ter amigos, começa a falar sozinho, cria um país imaginário chamado Tatipirun, onde as pessoas têm um olho preto e outro azul, onde não existem cabelos em suas cabeças, e onde as plantas e animais falam. Quando Raimundo "chega" na cidade de Tatipirun se depara com um carro vindo em sua direção,e acha que vai ser atropelado,só que ai o carro "explica" (os carros, animais, plantas e outros falam) que em Tatipirun ninguém é machucado nem ofendido. Andando um pouquinho mais, Raimundose se depara com a Laranjeira, ele pensa que a laranjeira tem espinhos e ela se sente ofendida, mas, com um pedido de desculpa, tudo se resolve.


História


Escrito por Graciliano logo após ser solto da prisão da Ilha Grande, num quarto de pensão no Rio de Janeiro, onde morava com a esposa e as filhas, a obra lhe rendeu um prêmio do então chamado Ministério de Educação e Cultura, ainda em 1937. No ano seguinte iria elaborar o romance Vidas Secas e apenas em 1946 é que cuidaria de iniciar Memórias do Cárcere, publicado apenas em 1953.




Brandão Entre o Mar e o Amor (livro)


Brandão Entre o Mar e o Amor é um romance único escrito pelos cinco mais renomeados autores brasileiros Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz. A obra literária foi publicada em 1981.


Sinopse


Atendendo a uma "vocação irremediável", Brandão abandona a casa paterna e, após breve itinerância circense, lança-se a uma vida de aventuras no mar, um sonho de infância, onde vem a conhecer aquela que viria ser a grande paixão de sua vida. Lúcia é um mistério oriental, que Brandão recebe como um presente e com ela retorna à sua terra para assumir uma fazenda, que lhe coubera como herança de família. A beleza exótica de Lúcia atrairia também Mário, amigo de Brandão dos tempos de faculdade, que se deixa consumir na luta por um amor impossível, quase uma autoflagelação imposta por uma vida de fracassos. A teia amorosa se completa - ou se complica - quando Glória, mulher autoritária, frívola e irrealizada aparece na história usando de todos os meios ao seu alcance para conquistar o homem por quem se apaixonara... O livro conta a história de Brandão, que se lança a uma vida de aventuras no mar, onde vem conhecer Lúcia, sua grande paixão.




Histórias de Alexandre (livro)


Histórias de Alexandre é um livro de contos de Graciliano Ramos, publicado em 1944. Compendiando histórias coletadas do folclore alagoano, Graciliano reúne neste livro contos e fanfarronices de um típico mentiroso do sertão. A obra foi reeditada em 1962 com o título de Alexandre e Outros Heróis, reunindo, além dos contos de Alexandre, a história de A Terra dos Meninos Pelados e Pequena História da República.



Infância (livro)


Infância é um livro de Graciliano Ramos. Foi publicado em 1945. O livro percorre um período que vai dos dois anos do narrador até a puberdade. Sua construção acompanha os passos do autor, redescobridor de seu mundo de menino nordestino, repleto de lembranças dolorosas: "Medo. Foi o medo que me orientou nos meus primeiros anos, pavor". Num misto de imaginação e memória, o retrato de sua meninice revela o desprezo pela criança como sujeito social, na passagem do século XIX para o XX, onde o autor deixa perceber claramente a severidade como instrumento mais eficaz para o modelo de educação aí vigente: "Aquele que ama o seu filho, castiga-o com freqüência (...)". Graciliano esboça um quadro de nossa história dos costumes, em que uma ética pedagógica grosseira surge identificada com práticas punitivas contra crianças: cascudos, bolos de palmatória, puxões de orelhas e castigos de toda sorte.




Histórias Incompletas (livro)


Histórias Incompletas é um livro de contos de Graciliano Ramos, publicado em 1946. É composto pelos contos:


  • Um ladrão
  • Luciana
  • Minsk
  • Cadeia
  • Festa
  • Baleia
  • Um incêndio
  • Chico Brabo
  • Um intervalo
  • Venta-romba




Insônia (livro)


Insônia é um livro de contos de Graciliano Ramos que foi publicado em 1947, pela Editora José Olympio, reunindo 13 contos:


  • Insônia
  • Um ladrão
  • O relógio do hospital
  • Paulo; Luciana
  • Minsk
  • A prisão de J. Carmo Gomes
  • Dois dedos
  • A testemunha
  • Ciúmes
  • Um pobre-diabo
  • Uma visita
  • Silveira Pereira


Com exceção de Uma visita, Luciana e A testemunha, todos os textos já haviam sido publicados na coletânea Dois dedos, de 1945.




Memórias do Cárcere (livro)


Memórias do Cárcere é um livro de memórias de Graciliano Ramos, publicado postumamente (1953) em dois volumes. O autor não chegou a concluir a obra, faltando o capítulo final. Graciliano havia sido preso em 1936 por conta de seu envolvimento político, exagerado por parte das autoridades após o pânico insuflado com a chamada Intentona Comunista, de 1935. A acusação formal nunca chegou a ser feita.


Enredo


No livro, Graciliano descreve a companhia dos mais variados tipos encontrados entre os presos políticos: descreve, entre outros acontecimentos, a entrega de Olga Benário para a Gestapo, insinua as sessões de tortura aplicadas a Rodolfo Ghioldi e relata um encontro com Epifrânio Guilhermino, único sujeito a assassinar um legalista no levante comunista do Rio Grande do Norte. Durante a prisão, diversas vezes Graciliano destrói ou afirma destruir as anotações que poderiam lhe ajudar a compor uma obra mais ampla. Também dá importância ao sentimento de náusea causado pela imundície das cadeias, chegando a ficar sem alimentação por vários dias, em virtude do asco. Da cadeia, Graciliano faz comentários sobre a feitura e a publicação de Angústia, uma de suas melhores obras.


Censura


Diz o crítico Wilson Martins, a respeito da censura que o livro sofreu, adulterando o original do autor para sempre:


Houve também na história dessas relações, a grande crise provocada por Memórias do Cárcere. Sabia-se que o PCB exerceu forte pressão sobre a família de Graciliano Ramos para impedir-lhe a publicação, acabando por aceitá-la à custa de cortes textuais e correções cuja verdadeira extensão jamais saberemos. Nas idas e vindas entre a família e os censores do Partido, resultaram, pelo menos, três “originais”, datilografados e redatilografados ao sabor das exigências impostas. Supõe-se que o último deles recebeu o imprimatur canônico, acontecendo, apenas, que, na confusão inevitável de tantos “originais”, as páginas escolhidas para ilustrar os volumes diferiam sensivelmente das impressas, suscitando dúvidas quanto à respectiva autenticidade.
Wilson Martins, in: Gazeta do Povo




Ainda segundo o crítico, fez publicar a denúncia no jornal O Estado de S. Paulo, recebendo então acerbas críticas do PCB, o que para ele era a comprovação da veracidade das alterações feitas na obra que, após reveladas, haviam incomodado o editor, José Olympio. Os filhos de Graciliano, Ricardo e Clara, teriam mais tarde confirmado a intervenção política no texto.


Filme


Memórias do Cárcere também foi filmado por Nelson Pereira dos Santos em 1984. Graciliano é interpretado por Carlos Vereza, e sua mulher Heloísa (que lhe faz algumas visitas na prisão) é interpretada por Glória Pires.




Viagem (livro)


Viagem é o um livro de crônicas de Graciliano Ramos. Publicado postumamente em 1954 narra a viagem que Graciliano fez em 1952 à Tchecoslováquia e à URSS. Apesar de ser filiado ao Partido Comunista, a convite de Luís Carlos Prestes, sua narrativa se pretende neutra. Apesar do tom neutro, o livro não é isento de críticas ao pensamento político brasileiro; ao falar do culto soviético à imagem de Josef Stalin, Graciliano provoca: "Realmente não compreendemos, homens do Ocidente, o apoio incondicional ao dirigente político; seria ridículo tributarmos veneração a um presidente da república na América do Sul" (RAMOS:2007,54).




Alexandre e Outros Heróis (livro)


Alexandre e Outros Heróis é o nome de um livro que foi dado à reunião de três obras do escritor brasileiro Graciliano Ramos: Histórias de Alexandre (contos do folclore infanto-juvenil), Pequena História da República (sátira à história do Brasil, inédita até então) e A Terra dos Meninos Pelados (infantil). O livro Alexandre e Outros Heróis foi reeditada postumamente, em 1962.




Citações

Obras


Caetés


1933

    Publicações Europa-América, Editor: Francisco Lyon de Castro, Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra, Edição n°40 890/3580

  • "Luisa queria mostrar-me uma passagem no livro que lia.Curvou-se. Não me contive e dei-lhe dois beijos no cachaço. Ela ergueu-se, indignada:

-O senhor é doido?Que ousadia é essa?Eu...

Não pôde continuar. Dos olhos, que deitavam faíscas, saltaram lágrimas. Desesperadamente perturbado, gaguejei tremendo:

-Perdoe, minha senhora. Foi uma doidice.

- Cap. 1,página 13

  • "Ateu! Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, idolos que depois derrubo. Uma estrela no ceu, algumas mulheres na terra.."

- Últimas três linhas de Caétes


São Bernardo


1934

    Publicações Europa-América, Editor: Francisco Lyon de Castro, Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra, Edição n°40 836/3277

- Cap. 3,página 14

  • Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo S.Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo, têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor.”

- Cap. 4,página 16

  • Resolvi estabelecer-me aqui na minha terra, município de Viçosa, Alagoas, e logo planeei adquirir a propriedade São Bernardo, onde trabalhei, no eito, com salário de cinco tostões.”

- Cap. 6,página 23

  • Naquele segundo ano houve dificuldades medonhas. Plantei mamona e algodão, mas a safra foi ruim, os preços baixos,vivi meses aperreado, vendendo macacos e fazendo das fraquezas forças para não ir ao fundo”.

Angústia


1936

  • "Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas, exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição."

- Cap. 1

  • "Os defeitos, porém, só me pareceram censuráveis no começo das nossas relações. Logo que se juntaram para formar com o resto uma criatura completa, achei-os naturais, e não poderia imaginar Marina sem eles, como não a poderia imaginar sem corpo."

- Cap. 14

  • "Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de prostituição."

- Cap. 17

  • "É uma tristeza. A senhora lavando, engomando, cozinhando, e seu Ramalho na quentura da usina elétrica, matando-se para sustentar os luxos daquela tonta. Sua filha não tem coração."

- Cap. 18

  • "Nunca presto atenção as coisas, não sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso, como sou besta! Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda a projeção, instruir-me vedos as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba."

Vidas Secas


1938


  • Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Arrastaram-se para lá, devagar, Sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda da pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.” Cap. 1
  • Se não fosse aquilo... Nem sabia. O fio da idéia cresceu, engrossou – e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.” Cap. 3

Infância


1945


    Publicações Europa-América, Editor: Francisco Lyon de Castro, Gráfica Europam, Lda., Mira-Sintra, Edição n°40 914/3768
  • A primeira coisa que guardei na memória foi um vaso de louça vidrada, cheio de pitombas, escondido atrás de uma porta”. Pág.13
  • Disseram-me depois que a escola nos servira de pouso numa viagem. Tinhamos deixado a cidadezinha onde vivíamos, em Alagoas, entrávamos no sertão de Pernambuco, eu, meu pai, minha mãe,duas irmãs”. Pág.14

Memórias do Cárcere


1953


  • "Quem dormiu no chão deve lembra-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, controná-las, envovê-las em gaze".

Em Liberdade



  • "Se a única coisa que de o homem terá certeza é a morte; a única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano."

  • "Se a igualdade entre os homens- que busco e desejo- for o desrespeito ao ser humano, fugirei dela."

Obras



As obras de Graciliano Ramos:


  • Caetés - romance - Editora Schmidt, 1933; (ganhador do Prêmio Brasil de Literatura);
  • São Bernardo - romance - Editora Arial, 1934;
  • Angústia - romance - Editora José Olympio, 1936;
  • Vidas Secas - romance, - Editora José Olympio, 1938;
  • A Terra dos Meninos Pelados - contos infanto-juvenis - Editora Globo, 1939;
  • Brandão Entre o Mar e o Amor - romance - Editora Martins, 1942 - Escrito com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz;
  • Histórias de Alexandre - contos infanto-juvenis - Editora Leitura, 1944;
  • Dois Dedos - coletânea de contos - R.A. Editora, 1945;
  • Infância - memórias - Editora José Olympio, 1945;
  • Histórias Incompletas - coletânea de contos - Editora Globo, 1946;
  • Insônia - contos - Editora José Olympio, 1947;
  • Memórias do Cárcere - memórias - Editora José Olympio, 1953; (obra póstuma)
  • Viagem - crônicas - Editora José Olympio, 1954; (obra póstuma)
  • Linhas Tortas - crônicas - Editora Martins, 1962; (obra póstuma)
  • Viventes das Alagoas - crônicas - Editora Martins, 1962; (obra póstuma)
  • Alexandre e Outros Heróis - contos infanto-juvenis - Editora Martins, 1962); (obra póstuma)
  • Cartas - correspondência - Editora Record, 1980; (obra póstuma)
  • O Estribo de Prata - literatura infantil - Editora Record, 1984; (obra póstuma)
  • Cartas de Amor à Heloísa - correspondência - Editora Record, 1992; (obra póstuma)
  • Vidas Secas - edição especial 70 anos - romance - Editora Record, 2008; (obra póstuma)
  • Angústia - edição especial 75 anos - romance - Editora Record, 2011; (obra póstuma)
  • Garranchos - textos inéditos - Editora Record, 2012. (obra póstuma)

Traduções



Graciliano Ramos também dominava o inglês e o francês. Realizou algumas traduções:


  • Memórias de um Negro, de Booker T. Washington, Companhia Editora Nacional, 1940;
  • A Peste, de Albert Camus, Editora José Olympio, 1950.

Publicações sobre Graciliano Ramos



  • Graciliano Ramos: Cidadão e Artista - Carlos Alberto dos Santos Abel, UNB, 1999.
  • Graciliano Ramos e o Partido Comunista Brasileiro: as Memórias do Cárcere, Ângelo Caio Mendes Corrêa Junior, 2000. (Dissertação de Mestrado em Letras, Universidade de São Paulo | orientador: Alcides Celso de Oliveira Vilaça.
  • Graciliano Ramos: Infância pelas Mãos do Escritor - Taisa Viliese de Lemos, Musa Editora, 2002.
  • Graciliano Ramos - Wander Melo Miranda, Coleção Folha Explica, Publifolha, 2004.
  • A Infância de Graciliano Ramos - Audálio Dantas, Callis, 2005. (Menção Altamente Recomendável, em 2006, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, na categoria Informativo.)
  • Graciliano Ramos - Myriam Fraga, Moderna, 2007.
  • Cartas Inéditas de Graciliano Ramos a seus Tradutores Argentinos Benjamin de Garay e Raúl Navarro - Pedro Moacyr Maia, EDUFBA, 2008.
  • Graciliano Ramos: um Escritor Personagem - Maria Izabel Brunacci, Autêntica, 2008.
  • Graciliano Ramos e o Mundo Interior: o Desvão Imenso do Espírito - Leonardo Almeida Filho, UNB, 2008.
  • Graciliano Ramos e o Desgosto de ser Criatura - Jorge de Souza Araujo, EDUFAL, 2008.
  • A Imagem da Linguagem na Obra de Graciliano Ramos - Maria Celina Novaes Marinho, Humanitas FFLCH, 2.ed., 2010.
  • Graciliano Ramos e a Novidade: o Astrônomo do Inferno e os Meninos Impossíveis - Ieda Lebensztayn, Hedra, 2010.
  • Graciliano: Retrato Fragmentado - Ricardo Ramos, Globo, 2011.
  • O Velho Graça - Denis de Moraes, Boitempo, 2012.

Prêmios



Os prêmios concedidos a Graciliano Ramos:


  • 1936 - Prêmio Lima Barreto (Revista Acadêmica) - Angústia
  • 1939 - Prêmio Literatura infantojuvenil (Ministério da Educação) - A Terra dos Meninos Pelados
  • 1942 - Prêmio Felipe de Oliveira - Conjunto da Obra
  • 1962 - Prêmio da Fundação William Faulkner (Estados Unidos) - Vidas Secas, como livro representativo da Literatura Brasileira Contemporânea.
  • 1964 - Prêmios Catholique International du Cinema e Ciudad de Valladolid (Espanha), concedidos a Nelson Pereira dos Santos, pela adaptação para o cinema do livro Vidas Secas.
  • 2000 - Personalidade Alagoana do Século XX
  • 2003 - Prêmio Nossa Gente, Nossas Letras / Prêmio Recordista
  • 2003 - Medalha Chico Mendes de Resistência
  • 2013 - Escolhido pelo Governo Federal para o PNBE - Programa Nacional Biblioteca da Escola - Memórias do Cárcere.

Referências