| Evaristo da Veiga (M. J. Garnier). |
Evaristo
da Veiga.
(Evaristo Ferreira da Veiga e
Barros).
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 8 de
Outubro de 1799, e, faleceu nesta mesma cidade a 12 de Maio de 1837.
Evaristo da Veiga foi um poeta, jornalista, político e livreiro
brasileiro. *Um dos mais combativos jornalistas do seu tempo, fundou
em 1827 a “Aurora Fluminense”. Por este jornal atacou
denodadamente o Imperador Dom Pedro I, que apesar dos seus desmandos
dava inteira liberdade de crítica aos seus opositores. Esses ataques
eram, contudo, de cunho estritamente político; tanto que a letra do
conhecido Hino da Independência é de sua autoria e, a música, do
próprio Imperador. Várias vezes deputado, destacou-se ainda por seu
destemor durante o Período Regencial
(sofreu inclusive um atentado, recebendo um tiro no rosto). É o
patrono da cadeira fundada por Rui Barbosa na Academia Brasileira de
Letras (ABL).
Filho
de um português mestre-escola, Francisco
Luís Saturnino Veiga, chegado ao Brasil
aos 13 anos, soldado miliciano na paróquia de Santa Rita, no Rio de
Janeiro, depois nomeado professor régio de primeiras letras na
freguesia de São Francisco Xavier do Engenho Velho. Passou a
professor na rua do Ouvidor, onde abriu uma loja. Andou por Vila Rica
em 1788 e 1789, deve ter conhecido alguns dos inconfidentes,
pois recopiou as “Cartas Chilenas”
de Tomás Antônio Gonzaga,
publicadas meio século mais tarde por seu neto Luís
Francisco da Veiga. Casou com uma
brasileira, D. Francisca Xavier de Barros,
nascendo três filhos, dos quais Evaristo foi o segundo. Teve grande
influência sobre seus filhos, sobretudo Evaristo, ótimo estudante
que no Rio de Janeiro de D. João VI
aprendeu francês, latim, inglês, cursou aulas de retórica e
poética e estudou filosofia. Neste período adquiriu interesse por
jornalismo ao visitar as oficinas da Impressão
Régia, nos porões do palácio do conde
da Barca. Quando concluiu os estudos, o
pai já abrira uma livraria na rua
da Alfândega e os livros que trazia da
Europa tinham em Evaristo o primeiro leitor, o mais curioso. Seu
projeto frustrado de partir para a Universidade
de Coimbra encontrou compensação na
livraria do pai.
| Evaristo da Veiga |
Autor
da letra do “Hino à Independência”,
cuja música se deve a D. Pedro I.
Conta entre os precursores do Romantismo no Brasil. Em suas poesias
mais antigas se sente a influência da escola arcádica e sobretudo
de Bocage.
Datam de 1811, tinha 12 anos. Um ano depois, em 1812, celebra os
desastres militares dos franceses em Portugal. Aos 14 anos era um
poeta português que refletia no Brasil com atraso de 20 anos o
movimento da Nova Arcádia
em que haviam excedido Bocage,
José Agostinho de Macedo,
Curvo Semedo.
Em 1817 era súdito fiel de D. João VI,
um luso no Rio de Janeiro: o malogro da revolução de Pernambuco o
encheu de alegria. Seus versos cantaram o casamento de D.
Pedro com D.
Leopoldina, os anos de S. Majestade em 13
de Maio de 1819, o aniversário da aclamação do rei. Diversas
poesias são dedicadas a amigos, uma característica que se manterá:
primou sempre nele o sentimento da amizade. Aos vinte anos começaram
a aparecer Marílias, Nises, Lílias, Isabelas mas seus sonetos,
cantigas e madrigais continuam arcádicos - com ligeira influência
dos mineiros. Em 1821, porém, vivia-se no Rio de Janeiro “o ano do
constitucionalismo português”, como afirma Oliveira
Lima em “O
Movimento da Independência”. Ninguém
podia ficar indiferente. O elemento conservador, receoso de
desordens, alimentava esperança de que a chegada das novas
instituições não importaria em ruptura com Portugal, pois haveria
uma monarquia dual, servindo a coroa como união. Era o pensamento de
Evaristo da Veiga, ilusão de que participaram muitos brasileiros.
Não tardaram os constitucionalistas de Portugal a demonstrar sua
incompreensão das coisas do Brasil e foram aparecendo as resoluções
das Cortes que tinham como propósito estabelecer a antiga submissão
colonial, embora de outra forma. Foi nesse instante que nele
despertou o patriota: um soneto em 17 de Outubro de 1821 é
intitulado “O Brasil”.
Outro, de Fevereiro de 1822, já estigmatizava “a perfídia de
Portugal”. Daí em diante vibrou com o movimento que se espalhava
pelo país. Em 16 de Agosto de 1822, sem ser figura saliente em
nenhum acontecimento, escreveu o “Hino
Constitucional Brasiliense”, o célebre
“Brava Gente Brasileira / longe vá temor
servil”, etc. Compôs sete hinos, no total,
entoados por milhares de bocas. O “Brava Gente” recebeu duas
músicas, uma do maestro Marcos Portugal,
outra do próprio Príncipe Regente D. Pedro. E como Evaristo era
tímido e o príncipe notoriamente melômano, logo se lhe atribuiu a
letra... Só mais tarde, em 1833, Evaristo reivindicaria a letra (os
originais estão na Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional). O
ato da aclamação do Imperador lhe inspirou três sonetos - e outros
dedicou à Liberdade, à instalação da Assembléia Constituinte, a
lorde Cochrane
(Thomas
Alexander Cochrane), à fuga do
general Madeira.
Mas teria papel obscuro e modesto nos sucessos da Independência. Seu
nacionalismo era novo, faltava-lhe paixão, e ademais não tinha
posição social, era um rapaz modesto e avesso a turbulências que
trabalhava no balcão da livraria do pai. Em 1821, porém, assina com
pseudônimo “O Estudante Constitucional”
uma réplica a panfleto anônimo contra o Brasil, intitulado “Carta
do Compadre de Belém”, impresso em
Portugal. Cedo deixou de ser um espectador desenganado da ação do
Imperador. 1823 era o ano da instalação da Constituinte e o de sua
dissolução por um golpe de força. Em 30 de Maio ele já fala no
“despotismo mascarado”... Deixou de fazer sonetos, fez hinos.
Ainda publicaria em 1823 “Despedida de
Alcino a sua Amada”, pois Alcino foi
seu nome poético. Mas era poeta bastante medíocre e disso teve
convicção antes de que outros lhe dissessem. Sua atividade poética
foi esmorecendo, subindo apenas em 1827, ano em que se casou. Sua
vocação, logo descobriria estar na política, no serviço público,
na imprensa, no parlamento.
Morreu
sua mãe em 1823 e o pai, que desejava casar-se de novo, escrupuloso
e exato como era, entregou aos filhos a parte que lhes tocava na
herança materna. Evaristo e João Pedro,
seu irmão, abriram então uma livraria. Era empreendimento
lucrativo. O país se europeizava e os livros e jornais eram os
agentes dessa europeização. Em 1821 no Diário
do Rio de Janeiro havia anúncios de oito
lojas de livros. Datam de Outubro de 1823 os primeiros anúncios da
loja de Evaristo (João Pedro da Veiga & Comp), 14 dias antes de
D. Pedro I dissolver a Assembleia. Leu tudo que vendia, formou seu
pensamento, fixou-se na posição da monarquia constitucional, pois a
república lhe parecia um exagero e era moderado por temperamento.
Vendendo livros e fazendo cada vez menos versos passou os anos até
1827, quando, economicamente independente, se separou do irmão e
estabeleceu livraria própria ao comprar a livraria e tipografia de
João Batista Bompard
na rua dos Pescadores nº 49. Em 1827 casou-se com D.
Ideltrudes Maria d'Ascensão, começando
nova vida.
Em
21 de Dezembro de 1827 surgiu o primeiro número de seu próprio
jornal, logo famoso, o “A Aurora
Fluminense”, que exerceu importante
papel na política do Primeiro Reinado
por suas tendências anti-lusófilas. Os fundadores foram um jovem
brasileiro cedo falecido, José Apolinário
de Morais, o médico francês José
Francisco Sigaud e Francisco
Crispiano Valdetaro. Evaristo resolveu
associar-se e passou em pouco tempo de colaborador a redator
principal e finalmente único. Assinava seus artigos apenas como
Evaristo da Veiga.
A imprensa do Rio de Janeiro era então detestável, pasquineira. A
Gazeta do Brasil era
favorável ao governo, órgão ministerial, defendendo o Gabinete de
15 de Janeiro de 1827, e quem enviava seus artigos, como depois se
descobriria, era Francisco Gomes da Silva,
o Chalaça, oficial do
Gabinete Imperial, íntimo e detestável amigo de D. Pedro I. A
Gazeta chamava A
Aurora Fluminense de “fedorenta
sentina da demagogia e do jacobinismo”, a
“Astréa”
de João Clemente Vieira Souto
de “insolente e demagógica”,
O Universal de Ouro Preto,
de inspiração de Bernardo Pereira de
Vasconcelos, de “jacobino
e anárquico”. Os fundadores de A
Aurora Fluminense queriam “linguagem
imparcial”, guiada pela razão e virtude, e
havia para “servir à liberdade
constitucional” um Evaristo da Veiga,
imbuído de leituras francesas e inglesas, com o sonho de ver
adotadas as instituições que seus autores prediletos preconizavam
como indispensáveis à grandeza das nações. Uma quadrinha de
versos pífios, composta por D. Pedro I, foi seu lema: Pelo
Brasil dar a vida / Manter a Constituição / Sustentar a
Independência / É a nossa obrigação.
E foi seu programa o devotamento ao país, o
respeito pela sua liberdade, a manutenção de sua Constituição. Os
seus temas, no jornal, foram a liberdade constitucional, o sistema
representativo, a liberdade de imprensa. Por isso deu apoio ao
Gabinete de 20 de Novembro de 1827. Mas havia assuntos de momento em
que tocou, como o descalabro da instrução, a questão do crédito
público. Combatia a indiferença em matéria política, sobretudo, a
mais funesta de todas as enfermidades morais.
Havia a mesma pregação em outros jornais liberais (o Farol, O
Astro, de Minas, a Astréa), combatidos pelos jornais corcundas.
Batia-se pela abolição dos morgados, extinção da Intendência de
Polícia, da Fisicatura, do Desembargo, da Mesa da Consciência e da
Ordem, instituições obsoletas. A oposição dos ministérios
excluía escrupulosamente a pessoa do monarca, a quem tratava com
deferência e até louvava. Ainda não desesperançados do Imperador,
os liberais queriam estimulá-lo. O Imperador,
porém, é que parecia ir-se distanciando do herói brasileiro que
fora em 1822 e voltar-se mais para Portugal do que para o Brasil,
comenta Octavio Tarquinio de Sousa.
A separação entre a corrente nativista liberal e o imperador
aumentou sempre, a sessão parlamentar de 1829 seria da maior
agitação, o governo sempre acusado. A Aurora
era o mais autorizado reduto da oposição governamental, e sua
popularidade - e a de Evaristo - crescia sempre. Quando do atentado
ao jornalista Luís Augusto May,
redator da “A Malagueta”,
órgão liberal, repetição do que fora vítima em 1823, sem temor a
que lhe sucedesse o mesmo, Evaristo condenou-o energicamente e
continuou impassível em suas campanhas. Estavam do seu lado a
Astréa, a Luz
Brasileira - e do lado ministerial, o Diário
Fluminense, O
Analista, o Courrier
du Brésil, o Jornal
do Commercio. A federação era moda, havia
gente que queria ir até a República. De seu lado não viriam
provocações, pois em artigo de 9 de Dezembro de 1829 escreveu: Nada
de jacobinismos de qualquer cor que ele seja. Nada de excessos. A
linha está traçada - é a da Constituição. Tornar prática a
Constituição que existe sobre o papel deve ser o esforço dos
liberais.
Em
1830 foi eleito deputado por Minas Gerais, tendo sido reeleito até
morrer. Era nome conhecido no Brasil inteiro. Deputado, continuou
jornalista e foi sempre livreiro. Aproximava-se de Bernardo
Pereira de Vasconcelos, pela coincidência
da posição ideológica. Na nova Câmara abundavam adeptos do
liberalismo e para formar a opinião liberal do Brasil ninguém
concorrera mais que Evaristo, que jamais assinara um artigo sequer, e
a Aurora Fluminense,
que em 1830 fora aumentada para seis páginas. Sem nunca ter saído
do Rio de Janeiro, recebeu seu mandato de deputado por Minas Gerais,
substituindo Raimundo José da Cunha Matos,
que optara pela cadeira de Goiás. Em seu mandato tentou pôr as
instituições monárquicas a serviço do grande problema brasileiro
- a unidade do vasto país. Cumpria cuidar dos interesses mais vitais
do povo, fomentar a indústria, sanear zonas quase inabitáveis,
difundir a instrução. Batia-se pelo estreitamento das relações
com as demais nações americanas, desconfiando das da Europa. Sempre
assíduo, queria que os assuntos fossem discutidos com calma, nas
Comissões, longe do tumulto do plenário. Opunha-se às
liberalidades à custa do Tesouro: “Devemos
desgostar antes aos afilhados do que à nação”,
dizia. Falava pouco, sem retórica, indo direto ao assunto sem
divagações. Tinha qualidades raras como deputado: senso de
proporções, espírito objetivo, modéstia patriótica. Quando,
trabalhado por intrigantes, D. Pedro I demitiu inopinadamente
Barbacena da Fazenda, com os desenvolvimentos que se conhecem, os
mais otimistas se foram convencendo de que o Brasil nunca seria um
país livre com semelhante imperador. Precisamente nesse clima caiu
como um raio a notícia da revolução de Julho de 1830 na França,
derrubando Carlos X,
e recrudesceu a campanha na imprensa em favor das idéias liberais.
Surgiu no Rio o jornal “O Repúblico”,
e nenhum teria papel mais ativo para desencadear a crise. Pregava-se
abertamente a federação, querendo mesmo a Nova
Luz uma “federação democrática”.
Evaristo combatia-os e ao mesmo tempo os órgãos absolutistas: o
Imparcial, o Diário
Fluminense, o Moderador,
em posição difícil de equidistância. Mas a agitação popular se
alastrava. D. Pedro, mal aconselhado, resolveu ir a Minas Gerais,
onde foi friamente recebido. Diz Octávio
Tarquínio de Sousa que “já
se apagara da imaginação popular a figura romântica do príncipe
que fora o melhor instrumento da Independência”.
Evaristo enfrentou com destemor os dias de atentados que precederam o
Sete de Abril. Foi ele
o autor da representação enérgica de 17 de Março de 1831 na
chácara da Flora,
propriedade do padre José Custódio Dias,
um verdadeiro ultimato ao imperador. P. Pedro I, que chefiava em
Portugal a campanha constitucionalista, se foi no Brasil distanciando
de suas atitudes liberais de 1822 e a ele se foram chegando cada vez
mais os portugueses aqui residentes, sendo então abandonado pelos
próprios elementos moderados da política brasileira. Já estavam
conspirando Evaristo,
Odorico Mendes,
Nicolau de Campos Vergueiro
e esforçando-se por conseguir a adesão da tropa. “O dia 6 de
Abril seria de fato a verdadeira data revolucionária em que se
verificaria a insurreição da tropa e do povo no Campo
de Santana; a 7 de Abril apenas se
completaria a vitória liberal com a abdicação do monarca”.
Evaristo anuiu ao golpe quando se esgotaram as possibilidades de uma
solução menos violenta, como ele próprio declarou num discurso em
12 de Maio de 1832 na Câmara. Aderiu para evitar a anarquia, o
desmembramento, a desunião das províncias. Evaristo correu ao
Senado para dar forma legal à nova situação por meio da reunião
extraordinária que elegeu a Regência provisória (o Marquês
de Caravelas, Nicolau
de Campos Vergueiro, o brigadeiro
Francisco de Lima e Silva).
Coube-lhe redigir a proclamação, e o documento, nobre,
nacionalizava a independência e pedia não macular a vitória com
excessos. Terminava: “Do dia 7 de Abril de 1831 começou a nossa
existência nacional; o Brasil será dos brasileiros, e livre!”.
Aberta a Câmara a 3 de Maio, Evaristo foi escolhido para a Comissão
de criação da Guarda Nacional,
a “força cidadã”, como ele chamava, que teria o importante
papel de manter a ordem em todo o período regencial. Elegeu-se a 17
de Junho de 1831 a primeira Regência permanente, sendo escolhidos
Francisco de Lima e Silva,
Costa Carvalho
e João Bráulio Muniz,
este representando o Norte. Evaristo teve imenso papel na elaboração
da lei que a regulou.
A
Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional
Ao
mesmo tempo, empenhou-se pela criação de um outro instrumento de
ordem, de disciplina social, de orientação política, que foi a
Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional, instalada
no Rio de Janeiro a 19 de Maio de 1831. Inspirava-se em sua congênere
paulista e teve por iniciador Antônio
Borges da Fonseca, o redator de O
Repúblico. Evaristo se tornou seu adepto
mais fervoroso e de 1831 a 1835 a Aurora
Fluminense, a tribuna da Câmara e a
Sociedade se tornaram seu centro de ação diária. Foi instrumento
de ação dos moderados, e se disse, com algum exagero, que “governou
o Brasil pelo espaço de quatro anos”. Abreu
Lima em “História
do Brasil” acha que “foi
em realidade outro Estado no Estado, porque sua influência era a que
predominava no gabinete e nas Câmaras; e sua ação, mais poderosa
que a do governo, se estendia por todos os ângulos do Império”.
O grande elemento de ação da “Defensora” foram as
representações à Câmara, ao governo, publicadas nos jornais do
partido moderado desde 1 de Junho de 1831. Evaristo vinculou-se
também a diversas outras sociedades e agremiações, animando-as,
procurando colocá-las sob sua orientação política. Foi um dos
fundadores da Sociedade de Instrução
Elementar, da Sociedade
Amante da Instrução, da Sociedade
Filomática do Rio de Janeiro. Sua luta foi
incansável, em época propícia aos excessos, pois não era o
simplista que acredita no milagre das leis. Joaquim
Nabuco dele dirá, em “Um
Estadista do Império”, que quis
exercer no Brasil a ditadura de sua opinião - uma opinião lúcida,
desinteressada, de bom senso, serenidade e medida de proporções. Os
Andradas
haviam-se logo alistado entre os descontentes, Evaristo se tornou
alvo de ataques e calúnias. Em Julho de 1831 era profunda a divisão
dos liberais. Nomeado Feijó
para a Justiça, recebeu todo o apoio de Evaristo, na Câmara e pela
Aurora Fluminense mas
havia grandes embaraços ao governo com a indisciplina militar, a
separação entre exaltados e moderados. Evaristo era já, por
consenso, o chefe do partido moderado. Formigavam apodos:
“Farroupilhas” e
“Jurujubas” seriam
os exaltados, “Chimangos”
ou “Chapéus Redondos”
os moderados, “Caramurus”
os restauradores. Era moço, tinha 32 anos. A Malagueta
o achava feio e menoscabava sua profissão de livreiro. A partir de
1832 os restauradores pareciam mais perigosos do que os exaltados, o
Carijó e o Caramuru
iniciaram ofensiva contra o governo. Uma grave crise foi a campanha
de Feijó para
destituir José Bonifácio
da tutoria dos filhos do Imperador, cujo desfecho se daria com o
malogrado golpe de 30 de Julho de 1832. Membro da comissão de
resposta à Fala do Trono,
Evaristo fez um de seus mais longos discursos, quase de improviso,
eloquente. Serviu-se também da Aurora
Fluminense, enquanto o Carijó
obediente a Antônio Carlos Ribeiro de
Andrada o chamava de “sanefa da Pátria,
sabugo versicolor da Aurora”. Em Julho, a Câmara aprovou a
destituição de José Bonifácio de seu posto como tutor, muito
comprometido com o facciosismo dos irmãos, mas o Senado não, e
Feijó pediu demissão. Os moderados já viam D. Pedro I de novo
sentado no trono... Ficou decidido o Golpe de
Estado tramado na chácara do Padre
José Custódio Dias, mas Evaristo não
teve nenhuma iniciativa, nenhum entusiasmo, não deu seu assentimento
nem adesão formal - instava, entretanto, por uma “medida
salvadora” e demonstrou sua solidariedade completa, irrestrita a
Feijó. Malogrado o golpe, Feijó e outros ministros saíram do
governo e a Regência continuou - o bastão de líder escapou de suas
mãos. No novo ministério organizado a 3 de Agosto de 1832 não
havia amigos seus. O Carijó
chegou a escrever: “Evaristo está morto”.
A
reforma constitucional e a eleição de Feijó
A
30 de Julho de 1832 a Aurora Fluminense
publicou: “Evaristo é o mesmo homem,
deputado livre, jornalista defensor da ordem púbica e homem da
classe industriosa, vivendo do seu trabalho. Nunca aspirou nem
procurou o poder”. A 13 de Setembro,
Evaristo exultava com o novo ministério com Nicolau
de Campos Vergueiro e Honório
Hermeto Carneiro Leão, e neste tinha
Feijó um substituto... Voltavam ao poder os moderados e do malogro
do golpe de 30 de Julho resultaria a vitória do ideal que o
alimentara: houve acordo para reforma constitucional que foi
consubstanciada na lei de 12 de Outubro de 1832. A Câmara cedeu,
cedeu o Senado, o Poder Moderador
foi mantido, a vitaliciedade do Senado, não prevaleceu o cunho
federalista que a Câmara desejava mas o Conselho de Estado foi
abolido. Sofreu um atentado em sua própria livraria, a 8 de Novembro
de 1832. Recebeu mais de mil visitantes, desde os regentes, ministros
de Estado, senadores, ao povo miúdo. Atentado de um pobre sapateiro
a mando de um certo coronel Ornelas,
amigo de José Bonifácio.
Evaristo confessou suspeitar mais do Sr.
Martim Francisco, “cuja alma rancorosa
todos conhecem”. O certo é que os jornais restauradores,
particularmente o Caramuru,
tinham seu quinhão de culpa na formação do ambiente de ódios. Em
1833 recrudesceu a campanha da imprensa, empenhada nas eleições
para a legislatura 1834-1837 pois a Câmara tinha poderes para
realizar a reforma constitucional. Reapareceram jornais antigos como
o Brasileiro, e o
Nacional, surgiram
novos como o Independente,
o Sete de Abril, das
simpatias de Bernardo Pereira de
Vasconcelos. Mas os moderados já não
tinham o prestígio anterior, a campanha Caramuru
causara impressão - exceto na zona rural. Eram os chamados
“eleitores do campo”.
Todo o ano 1833 se consumiu na expectativa do retorno do duque
de Bragança... Evaristo, convencido de
que a trama restauradora era sério perigo, combateu-a, usando a
Defensora, e chefiou mesmo a campanha que impediu a volta de D.
Pedro, sob qualquer título, e clamava pela suspensão de José
Bonifácio do lugar de tutor como “centro e instrumento dos
facciosos”. Com sua queda, passou o momento de maior tensão, tudo
prometia melhorar. A 14 de Junho de 1833 entrou em discussão o
projeto de reforma da Constituição. Discutiu-se inicialmente a quem
competia, e a opinião de Evaristo - a competência era da Câmara -
foi aprovada por enorme maioria. Depois de Bernardo
Pereira de Vasconcelos, seu autor,
ninguém mais do que Evaristo estudou o projeto. Declarou
inicialmente que, por seu voto, não se tocaria na Constituição -
mas cedia à opinião geral, às aspirações autonomistas das
províncias, sem esquecer os interesses superiores da unidade
nacional. Foi voto vencido na questão da temporariedade da função
de Regente pois a Câmara mostrou-se mais liberal que ele, Limpo
de Abreu, Paula
Araújo e Vasconcelos
e quase estabeleceu no Brasil uma verdadeira república provisória.
A facilidade com que se votou a reforma tinha explicação no temor à
volta de D. Pedro I.
Quando o ex-imperador morreu em 24 de Setembro (a notícia chegou ao
Rio em Dezembro de 1834), a desagregação dos moderados se processou
com rapidez pois nunca houve coesão partidária. Evaristo o julgou
com serenidade: “não foi um príncipe de ordinária medida,
existia nele o germe de grandes qualidades, que defeitos lamentáveis
e uma viciosa educação sufocaram em parte. (...) Se existimos como
corpo de nação livre, se a nossa terra não foi retalhada em
pequenas repúblicas inimigas, onde só dominasse a anarquia e o
espírito militar, devemo-lo muito à resolução que tomou de ficar
entre nós, de soltar o primeiro grito de nossa Independência”. A
situação política do Brasil dava sinais de persistência de
divisão e indisciplina. No Rio Grande do Sul começara a guerra que
ia durar dez anos, havia redução no Pará. A grande questão era a
escolha do Regente único, de acordo com o Ato
Adicional. O candidato de Evaristo foi Feijó,
pois dele não via os defeitos e o que temia era a desordem, a
anarquia, que prometia a candidatura Holanda
Cavalcanti, tido como arrebatado e
frenético. Fez a campanha com as mesmas agruras anteriores,
destemido, sereno, até que a 7 de Abril de 1835 votaram em todo o
Brasil os eleitores, que eram seis mil, cada um com direito a
sufragar dois nomes. Com as dificuldades de comunicação, os
resultados chegaram morosamente - feita a apuração final a 9 de
Outubro, Feijó ficou em primeiro lugar (2.826 votos), Holanda
Cavalcanti em segundo (2.251). Com maioria na Câmara, o “partido
holandês” tentaria ainda fazer de D.
Januária Maria de Bragança regente, mas
nada conseguiu.
O
fim da Aurora Fluminense
A
eleição de Feijó foi a última demonstração do prestígio de
Evaristo da Veiga. Estava afastado de Bernardo
Pereira de Vasconcelos, de Honório
Hermeto, de Rodrigues
Torres, era combatido pelos caramurus
e ainda teve a amargura de desavir-se com Feijó, regente único -
por culpa sua, pensavam todos. Em 30 de Dezembro de 1835 saiu o
último número de seu jornal, com oito anos de existência.
Recolhia-se a uma vida que desejava tranquila, com as três filhas e
a mulher. Mas não se retirou da vida pública, pois em 1836
compareceu normalmente à Câmara. Depois decidiu fechar por uns
tempos sua casa na rua dos Barbonos, hoje rua Evaristo
da Veiga, e em Novembro partiu para Campanha,
onde vivia um irmão. Voltou ao Rio em 2 de Maio de 1837. Visitou
Feijó, foi para cama preso à violenta “febre perniciosa”, como
diagnosticaram os médicos. Morreu a 12 de Maio, repentinamente, aos
37 anos.
Apreciação
Contribuiu
decisivamente para a defesa das instituições públicas, além de
trabalhar para o desenvolvimento intelectual e artístico,
estimulando jovens escritores. Segundo Octávio
Tarquínio de Sousa: “Sua influência
nos acontecimentos políticos se fez sentir desde o aparecimento da
Aurora Fluminense e
ninguém mais do que ele concorreu para criar o ambiente liberal que
caracterizaria os primeiros anos da Regência. (...) Evaristo não
fez mais do que conformar-se com a revolução, aceitá-la como uma
fatalidade”. Caixeiro sem ancestrais ilustres, gordo e deselegante,
sem a ajuda de poderosos, sem dons de sedução, que nunca esteve em
qualquer universidade, sem deixar o Rio, sem mencionar seu nome do
jornal que escrevia, foi eleito e reeleito deputado, assumindo papel
de guia e conselheiro- sem improvisação, sem imposturas. Foi
jornalista, deputado, político, orientando a opinião do país
porque tinha um espírito sério, probidade moral, sinceridade e,
sobretudo, uma inteligência lúcida, desapego aos altos cargos, um
grande desejo de servir e de ser útil.
Membro
do Instituto Histórico de França e da Arcádia de Roma. Patrono da
cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de seu
fundador, Rui Barbosa.
Iniciado
na Maçonaria em 1 de Junho de 1832 na Loja Esperança de Nictheroy
n° 0003 no Rio de Janeiro.
| (Imagem 1) |
O
Hino da Independência
foi composto por Evaristo da Veiga
e a sua música é de Dom Pedro I.
Segundo diz a tradição, a música foi composta pelo
Imperador às quatro horas da tarde do mesmo dia do Grito do
Ipiranga, 7 de Setembro de 1822, quando já estava de volta a
São Paulo vindo de Santos. Este hino de início foi adotado como
Hino Nacional, mas quando D. Pedro começou a perder
popularidade, processo que culminou em sua abdicação, o hino,
fortemente associado à sua figura, igualmente passou a ser também
desprestigiado, sendo substituído em 1831 pela melodia do atual Hino
Nacional, que já existia desde o mesmo ano de 1822.
(Imagem 1): Dom Pedro I compondo o Hino Nacional brasileiro (hoje Hino da Independência), em 1822. Por Augusto Bracet.
Letra
Normalmente,
os versos 3, 4, 5, 6, 8 e 10 são hoje omitidos quando o Hino da
Independência é cantado.
hino
da Independência é cantado.
Hino
da Independência
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