| David Hume, retratado por Allan Ramsay. |
David
Hume.
Nasceu em Edimburgo, a 7 de Maio de 1711, e faleceu, também em
Edimburgo, a 25 de Agosto de 1776. David Hume foi um filósofo,
historiador e ensaísta escocês que se tornou célebre por seu
empirismo radical e seu ceticismo filosófico. Ao lado de John
Locke
e George
Berkeley,
Hume compõe a famosa tríade do empirismo britânico, sendo
considerado um dos mais importantes pensadores do chamado iluminismo
escocês e da própria filosofia ocidental. Hume opôs-se
particularmente a René
Descartes
e às filosofias que consideravam o espírito humano desde um ponto
de vista teológico-metafísico. Assim Hume abriu caminho à
aplicação do método experimental aos fenômenos mentais. Sua
importância no desenvolvimento do pensamento contemporâneo é
considerável. Teve profunda influência sobre Immanuel
Kant,
sobre a filosofia
analítica
do início do século XX e sobre a fenomenologia.
O estudo da sua obra tem oscilado entre aqueles que colocam ênfase
no lado cepticista (tais como Reid,
Greene,
e os positivistas
lógicos)
e aqueles que enfatizam o lado naturalista (como Kemp Smith, Stroud,
e Galen Strawson). Por muito tempo apenas se destacou em seu
pensamento o ceticismo destrutivo. Somente no fim do século XX os
comentadores se empenharam em mostrar o caráter positivo e
construtivo do seu projeto filosófico. Hume foi um leitor voraz.
Entre suas fontes, incluem-se tanto a Filosofia
antiga
como o pensamento científico de sua época, ilustrado pela física e
pela filosofia empirista. Fortemente influenciado por Locke e
Berkeley mas também por vários filósofos franceses, como Pierre
Bayle
e Nicolas
Malebranche,
e diversas figuras dos círculos intelectuais ingleses, como Samuel
Clarke,
Francis
Hutcheson
(seu professor) e Joseph
Butler
(a quem ele enviou seu primeiro trabalho para apreciação), é
entretanto a Isaac
Newton
que Hume deve seu método de análise, conforme assinalado no
subtítulo do Tratado
da Natureza Humana – Uma Tentativa de Introduzir o Método
Experimental de Raciocínio nos Assuntos Morais.
Seguindo atentamente os acontecimentos nas colônias americanas,
tomou partido pela independência americana. Em 1775, disse a
Benjamin
Franklin:
"sou
americano em meus princípios".
Biografia
David Hume nasceu
em Edimburgo, na Escócia. A data de seu nascimento às
vezes gera
certa confusão, pois a Grã-Bretanha só adotou o calendário
gregoriano em 1752. Desse modo, segundo o calendário vigente à
época do seu nascimento – o calendário juliano – David Hume
nasceu em 26 de Abril de 1711, mas, segundo o novo calendário (o
gregoriano, vigente nos países ocidentais até os dias de hoje) a
data era 7 de Maio de 1711. David Hume era filho de Joseph
Hume
de Chirnside, advogado, e de Katherine
Falconer.
Quando contava apenas dois anos, seu pai faleceu, deixando o pequeno
David Hume, seu irmão mais velho e sua irmã sob os cuidados
exclusivos de sua mãe, “uma mulher de mérito singular, que,
apesar de jovem e bonita, dedicou-se ao cuidado e à criação de
seus filhos”. Como revelava certa precocidade intelectual, Hume foi
enviado para a Universidade de Edimburgo antes dos doze anos de
idade. A família de Hume tinha expectativas de que o jovem seguisse
a carreira jurídica, mas, em suas próprias palavras, ele mesmo
sentia "aversão intransponível a tudo, exceto ao caminho da
filosofia e do conhecimento em geral; e enquanto [minha família]
achava que eu estava a perscrutar Voet
e Vinnius,
Cícero
e Virgílio
eram os autores que secretamente devorava". Seguindo seus
próprios interesses, Hume dedicou-se à leitura de obras literárias,
filosóficas e históricas, bem como ao estudo de matemática e
ciências naturais. Aos dezoito anos, após um intenso programa de
estudo autoimposto, pareceu-lhe que se descortinava um “Novo
Cenário de Pensamento”. Hume nunca explicou o que seria esse “Novo
Cenário”, e os comentadores têm oferecido diversas
interpretações. De qualquer modo, essa inspiração fez com que o
jovem estudante redobrasse sua dedicação aos estudos, e o excessivo
esforço intelectual levou-o às raias de um colapso mental. Após
esse episódio de fadiga nervosa, Hume decidiu procurar um estilo de
vida mais ativo no mundo do comércio, e empregou-se numa companhia
importadora de açúcar em Bristol. É por essa época que altera a
grafia de seu nome, de "Home" para "Hume", devido
à dificuldade dos ingleses de pronunciá-lo à maneira escocesa. A
experiência no ramo do comércio não durou muito, e, em 1734,
buscando a tranquilidade e o isolamento que julgava necessários para
prosseguir em suas investigações, parte para a França e se
estabelece em La Flèche, uma pequena cidade francesa mais conhecida
por abrigar um famoso colégio jesuíta. Aí Hume continua a
desbravar o "Novo
Cenário", apesar das limitações
financeiras: "Resolvi
compensar a carência de recursos com uma frugalidade bastante
rígida, a fim de manter incólume a minha independência, e
considerar todos os objetos desprezíveis, exceto os avanços de meus
talentos na literatura".
Durante esse período na França, Hume aprofunda seus conhecimentos
sobre a filosofia francesa, especialmente sobre a obra de
Malebranche,
Jean-Baptiste
Dubos
e Pierre
Bayle,
e entre 1734 e 1737 escreve grande parte de sua obra-prima, o Tratado
da Natureza Humana.
Em 1737, Hume retorna à Inglaterra e trabalha diligentemente para
publicar o seu livro. Em 1739, consegue publicar os dois primeiros
volumes de seu Tratado,
e em 1740 é publicado o terceiro e último volume. Apesar de ser
hoje considerado a sua principal obra e um dos livros mais
importantes da história da filosofia, o Tratado
não causou impressão à época de sua publicação. Hume tinha
esperado um ataque às ideias apresentadas no livro e preparava uma
defesa apaixonada. Para sua surpresa, a publicação do livro passou
quase despercebida; e, recordando a indiferença do público, Hume
escreveu que "nenhuma
tentativa literária foi mais desafortunada que meu Tratado
da Natureza Humana",
na verdade, "saiu da gráfica natimorto, sem alcançar sequer a
distinção de estimular os murmúrios dos fanáticos".
Diante da reclamação de que o livro era "abstrato e
ininteligível", Hume recorreu ao artifício, ainda em 1740, de
publicar uma sinopse anônima, na qual apresentava de forma mais
clara e direta algumas das ideias fundamentais do Tratado.
No entanto, embora já permitisse antever os elegantes argumentos da
Investigação
Sobre o Entendimento Humano,
a sinopse de pouco serviu para mudar a consideração geral em
relação ao Tratado.
Em 1742, é publicada em Edimburgo a primeira parte de seus Ensaios,
que mereceram considerável atenção do público e, segundo o
próprio Hume, fizeram-no esquecer a decepção provocada pelo
Tratado.
Em 1744, concorre à cátedra de Filosofia Pneumática e Moral da
Universidade de Edimburgo, mas sua candidatura enfrenta forte
oposição devido à sua fama de ateísta e acaba por ser rejeitada.
Depois dessa conturbada candidatura a um posto acadêmico e de uma
experiência infeliz como tutor de um jovem inglês, de linhagem
nobre e mente desajustada, Hume é convidado pelo general James
St. Clair
a ser seu secretário numa expedição militar. Inicialmente a
expedição tinha como alvo o Canadá, mas terminou por realizar uma
incursão à costa da França. Hume também acompanhou o general St.
Clair em missões diplomáticas a Viena e Turim. Tendo retornado da
Itália, Hume muda-se para a propriedade rural de sua família em
1749, e aí permanece por dois anos. Em 1751, vai morar na cidade, "o
verdadeiro cenário de um homem de letras", e faz uma nova
tentativa de obter um cargo acadêmico: a cátedra de Lógica da
Universidade de Glasgow. Mas, novamente, sua candidatura é
rejeitada. Convencido de que o problema do Tratado
era mais uma questão de forma que de conteúdo, ele resumiu o Livro
I do Tratado
(“Sobre o Entendimento”), dando-lhe um estilo mais ágil e
acessível. Desse trabalho surgiu a Investigação
sobre o Entendimento Humano,
que, embora tenha encontrado receptividade maior que a do livro que
lhe deu origem, esteve longe de ser um sucesso de vendas. A mesma
recepção fria teve uma nova edição dos Ensaios.
A falta de reconhecimento, porém, não prejudicou o seu trabalho
literário. Hume escreveu a segunda parte de seus Ensaios
e, tal como havia feito anteriormente, reescreveu aquelas partes do
Tratado
relacionadas a questões morais. Esses novos textos sobre moral
vieram a público com o título de Investigação
Sobre os Princípios da Moral
–
livro que na opinião do próprio Hume era, de todos os seus
escritos, “históricos, filosóficos ou literários,
incomparavelmente o melhor”. Em 1752, Hume é convidado a dirigir a
biblioteca da Faculdade dos Advogados de Edimburgo. Embora fosse
escassamente remunerada, a função colocava à disposição de Hume
as fontes bibliográficas para um novo projeto: a elaboração da
História
da Inglaterra.
Essa obra historiográfica monumental foi publicada em seis volumes,
nos anos de 1754, 1756, 1759 e 1762. Esse esforço de uma década foi
recompensado. Os volumes da História
da Inglaterra
valeram ao seu autor a tão almejada celebridade literária e, além
disso, proporcionaram-lhe bons retornos pecuniários. Mas Hume não
ficou livre dos ataques de seus adversários. Em 1754, ele foi
acusado de encomendar “livros indecentes” para a biblioteca, e
houve uma movimentação para destituí-lo do cargo. Diante das
pressões, os membros do conselho diretor cancelaram as encomendas
dos livros considerados ofensivos – decisão que Hume tomou como
uma ofensa pessoal. Como precisava do acervo da biblioteca para
prosseguir as suas pesquisas para a História
da Inglaterra,
ele adiou seu pedido de demissão, mas reverteu os pagamentos de seu
salário em benefício de Thomas
Blacklock
– poeta cego que decidira ajudar. Antes de pedir sua demissão em
1757, Hume ainda foi alvo de um processo mal-sucedido de excomunhão
em 1756. Foi também durante o período em que exerceu a função de
bibliotecário que Hume escreveu as suas duas grandes obras sobre
religião: a História
Natural da Religião
e os Diálogos
Sobre Religião Natural.
A primeira veio a público em 1757 como parte das Quatro
Dissertações.
O projeto original, no entanto, previa cinco dissertações: além da
História
Natural da Religião,
o livro também incluiria os ensaios "Sobre
as Paixões",
"Sobre
a Tragédia",
"Sobre
o Suicídio"
e "Sobre
a Imortalidade da Alma".
Esses dois últimos ensaios eram investidas frontais contra os dogmas
religiosos, pois criticavam a condenação ao suicídio e a crença
na vida após a morte. Antes que fossem publicados, o editor de Hume,
Andrew
Millar,
recebeu ameaças de ser judicialmente processado caso os textos
fossem distribuídos. Diante disso, Hume fez alterações na História
e substituiu os dois últimos textos pelo ensaio "Sobre o Padrão
de Gosto". Os Diálogos,
por sua vez, só foram publicados em 1779, três anos após a morte
de Hume. Em 1763, Hume aceita o convite feito pelo embaixador inglês
na França, Lorde
Hertford,
para trabalhar como seu secretário em Paris. Por dois anos, além de
auxiliar nos trabalhos diplomáticos, Hume trava conhecimento com
grandes nomes da intelectualidade parisiense, como Denis
Diderot,
Jean
le Rond D'Alembert,
e Paul-Henri
Thiry, o Barão d'Holbach.
Ao retornar para a Inglaterra, Hume toma providências e estabelece
contatos para ajudar Jean-Jacques
Rousseau
a se estabelecer em solo britânico, uma vez que esse último
tornara-se vítima de uma nova perseguição por parte das
autoridades suíças. No entanto, os laços de amizade entre os dois
filósofos romperam-se dramaticamente pouco tempo depois. Levado pela
paranóia e mania de
perseguição, Rousseau acusou Hume de estar
liderando uma conspiração para difamá-lo e arruiná-lo. Em 1767, a
convite do General
Conway,
irmão de Lord Hertford, Hume assumiu em Londres o cargo de
subsecretário para o Departamento do Norte. Exerceu essa função
por cerca de dois anos, e retornou para Edimburgo em 1769 – dessa
vez definitivamente. Passou os últimos anos de sua vida revisando os
seus escritos e desfrutando a convivência de amigos e intelectuais
de Edimburgo. Na primavera de 1775, foi acometido por uma doença
intestinal que "a princípio", segundo seu testemunho, "não
causou alarme, mas que se tornou (…) mortal e incurável".
Durante o período em que esteve doente, Hume recebeu a visita de
James
Boswell.
Diante das atitudes e palavras de Hume sobre o fim que se aproximava,
Boswell ficou convencido de que ele encarava a morte com absoluta
serenidade. Hume faleceu em 25 de Agosto de 1776. Encontra-se
sepultado em Edimburgo na Escócia. Hume nunca se casou. Suas
opiniões políticas eram tipicamente progressistas, e era, assim
como seu amigo Adam
Smith,
um fervoroso defensor do livre-comércio. De maneira geral, a vida de
Hume é condizente com as palavras que escreveu sobre si mesmo: "um
homem de disposição branda, de têmpera equilibrada, de humor
franco, sociável e alegre, capaz de manter laços de afeição e
pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as
minhas paixões".
Numa carta em que fala sobre o passamento de Hume, Adam Smith conclui
sua exposição com as seguintes palavras: "No
todo, sempre o considerei, tanto durante a sua vida como desde a sua
morte, como alguém que se aproximava tanto da idéia de um homem
perfeitamente sábio e virtuoso quanto permite a frágil natureza
humana".
| Estátua em Edinburgh. (imagem: David M. Jensen (Storkk)). |
| Túmulo em Edinburgh. (imagem: User:pschemp). |
| James Boswell |
A "ciência do homem"
Por muito tempo os
estudos sobre Hume destacaram apenas o lado céptico-destrutivo de
sua filosofia. A grande realização do filósofo teria sido
eminentemente negativa: teria ele explicitado a impossibilidade de se
alcançar alguma certeza ou verdade absoluta nas ciências indutivas,
além de ter mostrado a impossibilidade de se provar filosoficamente
a existência do mundo exterior ou de se identificar uma substância
constitutiva do ego. Mesmo em seus
próprios dias, essa foi a leitura
predominante da obra de Hume. Thomas
Reid
considerava-a uma espécie de redução ao absurdo da filosofia das
idéias iniciada por Descartes
e reorientada ao empirismo pelos britânicos John
Locke
e George
Berkeley.
Segundo Reid, Hume teria mostrado que os pressupostos assumidos pela
teoria das ideias como meio representacional conduziam
inevitavelmente ao cepticismo generalizado – e essa consequência
indesejável revelaria que os pressupostos não poderiam estar
corretos. Os historiadores da filosofia, sobretudo os influenciados
pelo idealismo
alemão,
viram a obra de Hume apenas como elaboração de uma antítese que,
mais tarde, seria superada pela síntese kantiana.
Embora as teses negativas mereçam atenção, elas não constituem
toda a filosofia de Hume. No século XX, os comentadores voltaram a
destacar o lado propositivo do pensamento humeano,
que já se anunciava no próprio subtítulo de sua obra-prima: "uma
tentativa de introduzir o método experimental de raciocínio nos
assuntos morais".
Para Hume, os assuntos morais abrangiam todos aqueles temas que hoje
consideramos como pertencentes às humanidades - como, p. ex., a
política, o direito, a moral, a psicologia e a crítica das artes. À
época de Hume, as ciências naturais já haviam conseguido grandes
realizações, tendo sido a física newtoniana inquestionavelmente a
mais notável. Mas, ao lado de explicações inteiramente
quantificadas dos fenômenos naturais, convivia uma abordagem
completamente diferente em relação às produções do espírito
humano. Em parte inspirados pelo dualismo cartesiano, os filósofos
tendiam a ver as questões especificamente humanas como pertencentes
a um domínio separado do conjunto dos fenômenos naturais; para
eles, enquanto esses últimos estavam sujeitos a leis e a rigorosos
encadeamentos causais, as primeiras eram resultado da absoluta
liberdade de escolha dos seres humanos. Em termos práticos, essa
concepção de mundo excluía do âmbito da investigação científica
os comportamentos, emoções, ações e realizações culturais da
espécie humana. Ao propor que a natureza humana fosse investigada
conforme os mesmos métodos já testados e aprovados em outros
âmbitos de investigação, Hume não estava apenas inaugurando uma
nova forma de tentar entendê-la; também está rompendo com uma
concepção de natureza humana tradicional e influente. De certa
forma, Hume pretende fazer no âmbito da ciência do homem, o mesmo
que Newton realizou no âmbito da ciência natural: explicitar as
leis e princípios básicos que inexoravelmente comandam os modos de
pensar, de sentir e de conviver dos seres humanos.
| Gravura de Hume em sua obra História da Inglaterra |
O problema da causalidade
Quando
um evento provoca um outro evento, a maioria das pessoas pensa que
estamos conscientes de uma conexão entre os dois que faz com que o
segundo
siga o primeiro. Hume questionou esta crença, notando que se
é óbvio que nos apercebemos de dois eventos, não temos
necessariamente de aperceber uma conexão entre os dois. E como
havemos nós de nos aperceber desta misteriosa conexão senão
através da nossa percepção? Hume negou que possamos fazer qualquer
idéia de causalidade que não através do seguinte: Quando vemos que
dois eventos sempre ocorrem conjuntamente, tendemos a criar uma
expectativa de que quando o primeiro ocorre, o segundo seguirá. Esta
conjunção constante e a expectativa dela são tudo o que podemos
saber da causalidade, e tudo o que a nossa ideia de causalidade pode
inferir. Uma tal conceptualização rouba à causalidade a sua força
e alguns humeanos
posteriores, como Bertrand
Russell,
desmentiram a noção de causalidade no geral como algo de parecido
com a superstição. Mas isto é uma violação do senso comum. O
problema da causalidade: O que justifica a nossa crença numa conexão
causal? Que tipo de conexão podemos perceber? É um problema que não
tem solução unânime. A perspectiva de Hume parece ser que nós
temos uma crença na causalidade semelhante a um instinto, que se
baseia no desenvolvimento dos hábitos na nossa mente. Uma crença
que não pode ser eliminada mas que também não pode ser provada
verdadeira por nenhum argumento, dedutivo ou indutivo, tal como na
questão da nossa crença na realidade do mundo exterior.
| Bertrand Russell |
O problema da indução
| Estátua de Hume, por Alexander Stoddart em Edinburgh. |
A Teoria do Eu como feixe
(The
Bundle Theory of the Self)
Costumamos
pensar que somos as mesmas pessoas que éramos há tempos atrás.
Apesar de termos mudado em muitos aspectos, a mesma pessoa está
essencialmente presente tal como estava no passado. Podemos começar
a pensar sobre os aspectos que se podem alterar sem que o próprio
(indivíduo) subjacente mude. Hume, no entanto, nega que exista uma
distinção entre os vários aspectos de uma pessoa e o indivíduo
misterioso que supostamente transporta todas estas características.
Porque no fundo, como Hume afirma, quando se começa a introspecção,
notamos grupos de pensamentos, sentimentos e percepções; mas nunca
percebemos uma substância à qual possamos chamar de "o Eu".
Por isso, tanto quanto podemos dizer, conclui Hume, não há nada
relativamente ao Eu que esteja acima de um grande feixe de percepções
transitórias. De notar que, na perspectiva de Hume, não há nada a
que estas percepções pertençam. Pelo contrário, Hume compara a
alma ao povo de uma nação (commonwealth),
que retém a sua identidade não em virtude de uma substância básica
permanente, mas que é composto de muitos elementos relacionados mas
em permanente mutação. A questão da identidade pessoal torna-se
assim uma questão de caracterizar a coesão frouxa da experiência
pessoal vivida. (Notar que no Apêndice do Tratado,
Hume diz misteriosamente que ele estava insatisfeito com o seu
julgamento do Eu, sem no entanto ter regressado a esta questão).
Para trabalho contemporâneo relevante, ver "Reasons
and Persons",
de Derek
Parfit.
A razão prática: Instrumentalismo e Niilismo
A
maioria de nós pensa que certos comportamentos são mais razoáveis
do que outros. Parece haver qualquer coisa de abstruso em, por
exemplo, comer uma folha de alumínio. Mas Hume negou que a razão
tivesse algum papel importante em motivar ou desencorajar o
comportamento. No fundo, a razão é apenas uma espécie de
calculador de conceitos e experiência. O que no fundo importa, diz
Hume, é como nos sentimos em relação a esse comportamento. O seu
trabalho gerou a doutrina do instrumentalismo, que declara que uma
ação é razoável se e somente se ela serve os objetivos e desejos
do agente, quaisquer que estes sejam. A razão pode entrar neste
esquema apenas como um servo, informando o agente de fatos úteis
relativos às ações que servem aos seus objetivos e desejos, mas
nunca condescendendo a dizer ao agente quais objetivos e desejos ele
deverá ter. Assim, se você quiser comer uma folha de alumínio, a
razão lhe dirá onde encontrar uma folha de alumínio, e não haverá
nada de irracional em a comer ou em o desejar. O instrumentalismo
passará a ser uma visão ortodoxa da razão prática em economia,
teoria das escolhas racionais e algumas outras ciências sociais. Mas
alguns comentadores argumentam que Hume foi mais além do niilismo, e
disse que não há nada de irracional em deliberadamente frustrar os
seus próprios objetivos e desejos ("eu
quero comer folha de alumínio, por isso deixa-me selar a minha
boca").
Tal comportamento seria altamente irregular, tirando qualquer papel à
razão, mas não seria contrário à razão, que é impotente em
fazer julgamentos neste domínio. Para trabalho contemporâneo
relevante, ver "The
Authority of Reason"
de Jean
Hampton
e "Rational
Choice and Moral Agency"
de David
Schmidtz.
Anti-realismo moral e motivação
No
seu ataque ao papel da razão no julgamento do comportamento, Hume
argumentou que o comportamento imoral não é imoral por ser contra a
razão. Ele primeiro defendeu que as crenças morais estão
intrinsecamente motivantes: se você acredita que matar é errado,
você estará motivado "ipso facto" a não matar e em
criticar a matança (internalismo moral). Ele lembra-nos em seguida
que a razão por si só não motiva ninguém: a razão descobre os
factos e a lógica, mas ela depende dos nossos desejos e preferências
quanto à percepção daquelas verdades e se isso nos motiva.
Consequentemente, a razão por si não produz crenças morais. Hume
propôs que a moralidade depende ultimamente do sentimento, sendo o
papel da razão apenas o de preparar o caminho para os nossos
sensíveis julgamentos por análise da matéria moral em questão.
Este argumento contra os fundamentos da moralidade na razão é hoje
um dos argumentos pertencentes ao arsenal do anti-realismo moral; o
filósofo humeano John
Mackie
argumentou que para os factos morais serem factos reais sobre o mundo
e ao mesmo tempo, intrinsecamente motivantes, eles teriam de ser
fatos muito estranhos. Temos pois todos os motivos para
desacreditá-los. Para trabalho contemporâneo relevante, ver:
"Inventing
Right and Wrong",
de J.L.
Mackie;
"Hume's
Moral Theory",
de Mackie; "Moral
Realism and the Foundation of Ethics"
de David
Brink
e "The
Moral Problem"
de Michael
Smith.
Livre-arbítrio vs. indeterminismo
(Free
Will vs. Indeterminism)
Todos
nós já notamos o aparente conflito entre o livre-arbítrio
e o determinismo:
se as nossas ações foram determinadas há milhões de anos, como
poderá ser que elas dependam de nós? Mas Hume notou um outro
conflito, que torna o problema da livre vontade num denso dilema: a
livre-vontade é incompatível com o indeterminismo. Imagine que as
suas ações não são determinadas pelos eventos precedentes. Nesse
caso, as suas ações serão completamente aleatórias. Em adição,
e muito importante para Hume, as ações não são determinadas pelo
seu carácter, as suas preferências, os seus valores, etc. Como é
que alguém pode ser sido por responsável pelo seu carácter? A
livre-vontade parece requerer o determinismo, porque senão o agente
e a ação não estariam conectados do modo necessário por ações
livremente escolhidas. Sendo assim, quase todos nós acreditamos no
livre-arbítrio, a livre vontade parece inconsistente com o
determinismo, mas a livre-vontade parece requerer o determinismo. Na
visão de Hume, o comportamento humano, como tudo o mais, é causado
(causal). Por isso mesmo, se tomamos as pessoas como responsáveis
pelas seus atos, devemos focar a recompensa ou a punição de forma a
que eles façam aquilo que é moralmente desejável e evitem aquilo
que é moralmente repreensível.
O problema do ser - dever ser
(The
Is-Ought Problem)
Hume
notou que muitos escritores falam do que deve ser, na base de
enunciados acerca do que é. Mas parece haver uma grande diferença
entre enunciados descritivos (o que é) e enunciados prescritivos (o
que deveria ser). Hume apela aos escritores que tomem muito cuidado
na mudança do enunciado de um estado para o outro. Nunca sem se dar
uma explicação de como o enunciado- "deve ser" é suposto
seguir ao enunciado- "é". Mas como exatamente é que se
pode derivar o "deve" de um "é"? Essa questão,
colocada num pequeno parágrafo de Hume, tornou-se uma das questões
centrais da teoria da ética e costuma ser atribuída a Hume a
opinião de que tal derivação é impossível. (Outros interpretam
Hume como dizendo que não se pode ir de uma constatação factual a
um enunciado ético, mas que se o pode fazer sem atender à natureza
humana, isto é, sem prestar atenção aos sentimentos humanos). G.E:
Moore defendeu uma posição similar com a seu "argumento da
questão aberta", que pretendia refutar qualquer identificação
de propriedades morais com propriedades naturais: a chamada "falácia
naturalista". Qualquer teórico ético que pretender dar à
moralidade um fundamento objetivo em aspectos mais mundanos da vida
real está a lutar por uma causa controversa, no mínimo.
Utilitarismo
| Francis Hutcheson |
O problema dos milagres
Uma
forma de apoiar a religião é por apelo a milagres. Mas Hume
argumentou que no mínimo, os milagres não poderiam conferir muito
apoio à religião. Há vários argumentos sugeridos pelo ensaio de
Hume, todos eles à volta do seu conceito de milagre: nomeadamente a
violação por Deus das leis da Natureza. Um argumento é o de que é
impossível violar as leis da Natureza. Outro argumento afirma que o
testemunho humano nunca poderia ser suficientemente fiável para
contra-ordenar a evidência que temos das leis da Natureza. Outro
argumento, menos irredutível, mais defensável, é que devido à
forte evidência que temos das leis da natureza, qualquer pretensão
de milagre está sobre pressão desde o início e precisa de provas
fortes para derrotar as nossas expectativas iniciais. Este ponto tem
sido aplicado sobretudo na questão da ressurreição de Jesus, onde
Hume sem dúvida perguntaria "o que é que é mais provável?
Que um homem se erga dos mortos ou que este testemunho esteja
incorreto de uma forma ou de outra?". Ou mais suavemente, "o
que é mais provável? que o Uri Geller pode realmente
fazer dobrar colheres com a sua mente ou que isso seja algum tipo de
truque?". Este argumento é a base do movimento céptico e um
assunto fundamental aos históricos da religião. Para uma análise
crítica e técnica (Bayesiana) de Hume, ver "Hume's
Abject Failure" de John Earman — o
título é sugestivo.
O argumento teleológico
Um
dos argumentos mais antigos e populares para a existência de Deus é
o argumento teleológico - que toda a ordem e "objectivo"
do mundo evidencia uma origem divina. Hume usou o criticismo clássico
do argumento teleológico, e apesar do assunto estar longe de estar
esgotado, muitos estão convencidos de que Hume resolveu a questão
definitivamente. Aqui alguns dos seus pontos:
- Para o argumento teleológico funcionar, seria necessário que só nos pudéssemos aperceber de ordem quando essa ordem resulta do desígnio (criação). Mas nós vemos "ordem" constantemente, resultante de processos presumivelmente sem consciência, como a geração e a vegetação. O desígnio (criação) diz apenas respeito a uma pequena parte da nossa experiência de "ordem" e "objetivo".
- O argumento do desígnio, mesmo que funcionasse, não poderia suportar uma robusta fé em Deus. Tudo o que se pode esperar é a conclusão de que a configuração do universo é o resultado de algum agente (ou agentes) moralmente ambíguo, possivelmente não inteligente, cujos métodos possuam alguma semelhança com a criação humana.
- Pelos próprios princípios do argumento teleológico, a ordem mental de Deus e a funcionalidade necessitam de explicação. Senão, podemos considerar a ordem do universo, etc, inexplicada.
- Muitas vezes, o que parece ser objectivo, onde parece que o objeto X tem o aspecto A por forma a assegurar o fim F, é melhor explicado pelo processo da filtragem: ou seja, o objecto X não existiria se não possuísse o aspecto A, e o fim F é apenas interessante para nós. Uma projeção humana de objetivos na natureza. Esta explicação mecânica da teleologia antecipou a seleção natural, e é de se observar que um século antes de Charles Darwin.
Para
trabalho contemporâneo relevante, ver "Hume's
Philosophy of Religion"
de J.C.A.
Gaskin
e "The
Existence of God"
de Richard
Swinburne.
Para uma perspectiva de um filósofo da biologia, ver "Philosophy
of Biology"
de Elliot
Sober.
Sociologia da Religião de Hume
David
Hume ficou conhecido sobretudo pelas contribuições na filosofia.
Mas não menos dignas de destaque são as observações na análise
da religião. Pode falar-se de idéias pioneiras para a sociologia
da religião,
que ficam patentes na obra de 1757, The
Natural History of Religion.
Teoria da Oscilação
Hume
rejeita a ideia de uma evolução linear desde o politeísmo para o
monoteísmo como um sumário da evolução histórica dos últimos
2000 anos. Na verdade, Hume acredita que o que a história mostra é
antes um oscilar irracional entre politeísmo e monoteísmo.
Chama-lhe um "flux
and reflux"
(fluxo e refluxo, um oscilar) entre as duas opções. Nas palavras de
Hume: "a
mente humana mostra uma tendência maravilhosa para oscilar entre
diferentes tipos de religião: eleva-se do politeísmo para o
monoteísmo para voltar a afundar-se na idolatria".
Como
Ernest
Gellner
afirma, esta oscilação não é o resultado de qualquer
racionalidade, mas sim dos "mecanismos
do medo, incerteza, da superioridade e inferioridade".
Do politeísmo para o monoteísmo
Os
povos que adoram vários deuses com poderes limitados podem
facilmente conceber um Deus com um poder mais extenso, ainda mais
digno de veneração do que os outros. "Neste processo, os
homens chegam ao estágio de um só Deus como ser infinito, a partir
do qual nenhum progresso é possível".
Do monoteísmo para o politeísmo
Esse
Deus único, todo poderoso, é porém igualmente um Deus distante e
de difícil acesso para o comum dos mortais (sobretudo se estes são
analfabetos - e na Europa da Idade Média, a esmagadora maioria da
população era analfabeta). O contacto direto com as escrituras
sagradas na Idade Média permanecia um privilégio de uma casta
limitada - o clero. A maioria do povo comum, analfabeto, sente-se
impossibilitado de aceder a Deus por via "direta". Neste
momento, torna-se visível um princípio psicológico que caminha
numa direção contrária. Esse princípio psicológico é a ideia de
que os homens vivem em busca da proteção, do apoio. Torna-se
necessária a figura de intermediários perante o comum dos mortais e
o Deus todo poderoso. Uma função para os santos, relíquias, …
"Estes
semi-deuses e intermediários, que são vistos pelos homens como
parentes e lhes parecem menos distantes, são objeto da adoração e
assim, a idolatria está de volta…"
Novamente de regresso ao monoteísmo
Mas
mais uma vez, o pêndulo tem de retornar. Como Gellner afirma, em
breve, "o Panteão torna a encher-se". Hume: "À
medida que estas diferentes formas de idolatria dia por dia descem às
formas cada vez mais baixas e ordinárias, acabam por se autodestruir
e as horríveis formas de idolatria vão acabar por provocar um
retorno e um desejo de regresso ao monoteísmo… Por isso (entre os
judeus e os muçulmanos) há proibição de figuras humanas na
pintura e mesmo na escultura, porque eles receiam que a carne seja
fraca e que acabe por se deixar levar para a idolatria".
Hume mostra exemplos desta evolução: é a luta de Jeová contra os
Bealim de Canaã, da Reforma contra o Papado, e do Islão contra as
tendências pluralistas (ver sufismo).
Influência de Hume na constituição americana
| James Madson, 4º presidente dos EUA. |
Tratado
da Natureza Humana (livro)
Tratado
da Natureza Humana
é considerada pelos especialistas a principal obra do filósofo
empirista escocês David Hume, sendo publicada em 1739-1740 e tendo a
escrita inicialmente na Inglaterra e posteriormente na França.
Alcançou notória importância na história da filosofia,
especialmente na filosofia moderna, embora na época de Hume não
tenha tido grande ressonância. Comentando a recepção da obra,
David Hume diz que ela fell
dead-born from the press
(já
nasceu morta do prelo).
Obra
O
título completo da obra é A Treatise of Human Nature: Being an
Attempt to introduce the experimental Method of Reasoning into Moral
Subjects (Tratado da Natureza Humana: Uma Tentativa de
Introduzir o Método Experimental de Raciocínio nos Assuntos
Morais). É dividia nas seguintes sessões:
- Livro 1: Do Entendimento.
- Livro 2: Das Paixões.
- Livro 3: Da Moral.
O
título já nos diz seus traços gerais: Baseado nas observações e
do método de raciocínio experimental, Isaac
Newton
construiu uma sólida visão da natureza física, o que resta fazer
agora é aplicar tal método também à natureza
humana,
ou seja, também ao sujeito, não apenas ao objeto. Trata-se de
percorrer esse caminho para fundar a ciência
do homem
em bases experimentais.
Traduções
Tradução
portuguesa: Tratado da Natureza Humana, Lisboa, Fundação
Calouste Gulbenkian, 2002. ISBN Tradução brasileira: Tratado da
Natureza Humana, São Paulo, Editora UNESP, 2001. ISBN
Investigação
sobre o Entendimento Humano (Livro)
An
Enquiry Concerning Human Understanding
(em inglês) é o título original de Investigação
sobre o Entendimento Humano,
livro do filósofo escocês David Hume, publicado em 1748. Esta obra
é uma simplificação de um livro anterior de Hume, chamado Tratado
da Natureza Humana
(A Treatise of Human Nature em inglês), publicado em 1739/1740. Hume
ficou desapontado com a recepção do primeiro livro, por isso tentou
de novo expor as suas idéias em um texto mais curto e mais, como
diríamos hoje, pedagógico. Investigação
sobre o Entendimento Humano
é bastante mais econômico do que A
Treatise of Human Nature,
procurando expor apenas os temas mais importantes e de forma clara.
Além disso, o livro trata somente de uma parte da obra original: o
conhecimento. As emoções, ou paixões e a moral foram temas para
outros dois livros. Esta obra influenciou muitos pensadores, tanto
nos anos seguintes ao seu lançamento como nos dias de hoje. Immanuel
Kant
indica-o como o livro que o despertou do seu "sonho dogmático"
e todo o empirismo moderno (termo que David Hume não utiliza, ao
contrário do que é comum pensar-se) se apoia nele contra o
racionalismo cartesiano. A obra tem doze secções, assim tituladas:
I- "Das
diferentes espécies de filosofia";
II- "Da
origem das idéias";
III- "Da
associação de ideias";
IV- "Dúvidas
cépticas sobre as operações do entendimento...";
V- "Solução
céptica dessas dúvidas";
VI- "Da
probabilidade";
VII- "Da
idéia de conexão necessária";
VIII- "Da
liberdade e da necessidade";
IX- "Da
razão dos animais";
X- "Dos
milagres";
XI- "De
uma providência particular e de um estado futuro";
XII- "Da
filosofia acadêmica ou céptica".
Devemos começar por realçar que além da reformulação dos pontos
principais do Tratado
da Natureza Humana,
David Hume acrescentou novas ideias sobre a livre vontade, os
milagres e a problemática teológica. Por outro lado, na
"Advertência" mostra o incômodo suscitado por algumas
críticas ao seu Tratado
da Natureza Humana,
por má compreensão ou má-fé. Por isso, "Daqui em diante,
deseja o autor que os textos que se seguem sejam os únicos que se
considere encerrarem os seus princípios e opiniões filosóficas."
Obras
- Tratado da Natureza Humana (1739-1740)
- Investigação sobre o Entendimento Humano (1748)
Contém
uma revisão dos pontos principais do tratado, livro 1, com a adição
de material sobre a livre vontade, milagres e o argumento
teleológico.
- Investigação sobre os Princípios da Moral (1751)
Outra
revisão do material do tratado para apelar mais ao gosto popular.
Hume considerou esta como a melhor das suas obras filosóficas, quer
quanto às ideias filosóficas como no seu estilo literário.
- Diálogos sobre a Religião Natural (póstumo)
Uma
discussão entre três personagens ficcionais - Cleantes,
Fílon,
e Demea
- acerca do argumento teleológico, o argumento cosmológico, o
problema do mal e as relações entre a religião e a moral. A obra é
um forte ataque à tentativa de estabelecer a existência de Deus por
processos racionais e tem servido de inspiração a muitos críticos
modernos da religião. Apesar de haver alguma controvérsia, a
maioria dos acadêmicos acredita que Fílon é a personagem que
melhor reflete as idéias de Hume.
- Ensaios Morais, Políticos e Literários' (editados pela primeira vez em (1741-1742)
Uma
série de ensaios, revistos várias vezes ao longo da sua vida. A
história relativa a que ensaios foram adicionados ou removidos
parece menos relevante. "Sobre a estação média da vida",
"Que a política possa ser reduzida a uma ciência", "Da
origem do governo", "Da liberdade civil", "Do
comércio", "Da densidade populacional de nações
antigas", e "Sobre o suicídio", para nomear apenas
alguns.
- A História da Grã-Bretanha (1754-1762)
Esta
é mais uma categoria de livros do que uma única obra. Uma história
monumental, "desde a invasão de Júlio
César
até à Revolução Gloriosa de 1688". Foi também a obra melhor
conhecida de Hume durante a sua vida, tendo tido mais de 100 edições.
Foi considerada por muitos como a referência essencial da História
da Inglaterra até à publicação da monumental "História
de Inglaterra"
de Thomas
Macaulay.
- História Natural da Religião (1757)
Este
livro é considerado por alguns como a primeira obra científica a
debruçar-se sobre a sociologia da religião. Ernest
Gellner
diz que este livro permanece um dos melhores tratados deste tipo,
talvez mesmo o melhor.
- Da imortalidade da alma e outros textos póstumos.
Citações
- "Nenhuma verdade me parece mais evidente que os animais serem dotados de pensamento e razão tal como os homens. Os argumentos neste caso são tão óbvios, que nunca escapam aos mais estúpidos e ignorantes".
- - Next to the ridicule of denying an evident truth, is that of taking much pins to defend it; and no truth appears to me more evident, than the beasts are endow'd with thought and reason, as well as men. The arguments are in this case so obvious, that they never escape the most stupid and ignorant.
- - A treatise of human nature: reprinted from the original ed. in 3 v - Página 176, David Hume - Clarendon Press, 1949 - 709 páginas
- "O hábito é o grande guia da vida humana."
- - Custom, then, is the great guide of human life
- - Essays and treatises on several subjects, Volume 2 - Página 44, David Hume - Printed for Bell and Bradfute, 1825
- "O coração do homem existe para reconciliar as contradições."
- - the heart of man is made to reconcile contradictions
- - Essays and treatises on several subjects, Volume 1 - Página 64, David Hume - Printed for Bell and Bradfute, 1825
- "A beleza não é uma qualidade inerente às coisas. Ela existe apenas na mente de quem as contempla."
- - Beauty is no quality in things themselves: It exists merely in the mind which contemplates them
- - Essays and treatises on several subjects, Volume 1 - Página 225, David Hume - Printed for Bell and Bradfute, 1825
- "Mas faça com que sua ciência seja humana de tal modo que possa ter uma relação direta com a ação e a sociedade. Eu(natureza) proibo o pensamento abstruso e as pesquisas profundas; irei puni-los severamente pela melancolia que eles introduzem, pela incerteza sem fim que o envolvem e pela fria recepção que seus falsos descobrimentos encontrarão quando comunicados."
- - Indulge your passion for science, says she, but let your science be human, and such as may have a direct reference to action and society. Abstruse thought and profound researches I prohibit, and will severely punish, by the pensive melancholy which they introduce, by the endless uncertainty in which they involve you, and by the cold reception your pretended discoveries shall meet with, when communicated.
- - Essays and treatises on several subjects - Página 285, David Hume - Printed for A. Millar; and A. Kincaid and A. Donaldson, at Edinburgh, 1758 - 539 páginas
- "Seja um filósofo, mas, no meio de toda sua filosofia, não deixe de ser um homem."
- - Be a philosopher; but, amidst all your philosophy, be still a man.
- - Essays and treatises on several subjects - Página 285, David Hume - Printed for A. Millar; and A. Kincaid and A. Donaldson, at Edinburgh, 1758 - 539 páginas
- "Se tomamos um livro sobre a doutrina divina, ou sobre metafísica, perguntemos: ele contém algum raciocínio abstrato sobre quantidade ou números? Não. Contém algum raciocínio experimental sobre fatos e existência? Não. Atira-o, então, ao fogo, pois tudo o que ele contém não passa de sofisma e ilusão."
- - If we take in our hand any volume; of divinity or school metaphysics, for instance; let us ask, Does it contain any abstract reasoning concerning quantity or number? No. Does it contain any experimental reasoning concerning matter of fact and existence? No. Commit it then to the flames; for it can contain nothing but sophistry and illusion
- - Essays and treatises on several subjects, Volume 2 - Página 167, David Hume - Printed for Bell and Bradfute, 1825
- "Em nossos raciocínios a respeito dos fatos, existem todos os graus imagináveis de certeza. Um homem sábio, portanto, ajusta sua crença à evidência."
- - O Livro da Filosofia, pg. 150 - Editora Globo"
- "A natureza, por uma necessidade absoluta e incontrolável determinou-nos para julgar, assim como para respirar e sentir"
- - O Livro da Filosofia, pg. 152 - Editora Globo"
Cronologia
- Nasce na Escócia a 7 de Maio de 1711.
- 1714: morre o pai de David Hume.
- Em 1722, com 11 anos, entrou na Universidade de Edimburgo.
- Em 1726, por volta dos 15 anos, decidiu aprimorar, lendo livros clássicos, seus conhecimentos por conta própria.
- Entre 1729 e 1734 sofreu um sério esgotamento nervoso
- 1734: Hume viaja para a França onde, nos três anos seguintes, escreverá o Tratado sobre a natureza humana. Voltaire publica as Cartas Inglesas.
- 1737: Hume retornou a Escócia para juntar-se à mãe e ao irmão na antiga propriedade rural da família.
- 1739-1740: publicou em duas etapas o Tratado da natureza humana.
- 1741-1742: a publicação dos Ensaios morais, políticos e literários traz algum renome a Hume.
- 1744: recusado ao tentar obter a cátedra de Filosofia Moral da Universidade de Edimburgo
- 1746: participa de uma fracassada missão militar em território francês, como secretário do General Saint-Clair.
- 1748: Hume acompanha o General Saint-Clair em missão diplomática na corte de Viena e publica três ensaios sobre moral e política e Investigação sobre o entendimento humano. Surge o Espírito das leis de Montesquieu.
- 1748-1749: Hume vestiu o uniforme de oficial, assessorando o general em sua embaixada militar as cortes de Viena e Turim.
- 1749: Hume retornou a Escócia e morou dois anos na casa de seu irmão (sua mãe havia falecido)
- 1751: publicou Investigação sobre os princípios da moral
- 1752: Hume foi feito conservador da biblioteca dos Advogados de Edimburgo
- 1754-1795: publicação dos seis volumes de A história de Grã-Bretanha
- 1757: publicada História natural da religião
- 1761: a Igreja Católica romana colocou todos os seus escritos no Index
- 1763: recebeu convite do conde de Hertford, como secretário da Embaixada. Hume tornou-se amigo do conde de Hertford e de seu irmão o General Conway
- 1765: atuou como encarregado de negócios da embaixada de Paris por quatro meses.
- 1766: Hume ofereceu a Jean-Jacques Rousseau refúgio na Inglaterra
- 1766: Rousseau, com suas alucinações, suspeitou de conspiração, e retornou a França, espalhando um relatório de má-fé de Hume.
- 1767: recebeu de Mr. Conway, irmão de Lord Hertfor, o convite para importante cargo público. Deixou novamente Edimburgo.
- 1767-1768: serviu em Londres como subsecretário de Estado para a região norte.
- 1769: retornou a Escócia dizendo cansado da vida pública e também da Inglaterra. Se estabeleceu novamente em Edimburgo.
- 1776: escreve sua autobiografia, mas já se encontrava doente desde o ano anterior.
- 1776: morre em Edimburgo 25 de Agosto, e foi enterrado em Waterloo Place.
- 1777: publicação de sua autobiografia, Vida de David Hume escrita por ele mesmo, cujo título original é My Own Life (Minha própria vida).