| Jonathan Swift, por Charles Jervas. |
Jonathan
Swift.
Escritor irlandês. Nasceu em Dublin, a 30 de Novembro de 1667, e
faleceu, também em Dublin, 19 de Outubro de 1745. *Foi secretário
de Sir William Temple, que o educou. Ordenando-se pastor, quando da
morte do seu protetor (1699), veio a ser, graças a Lord
Berkeley,
titular da Paróquia de Laracov, no Condado de Meath. Deão de Saint
Patrick, em Dublin, morreu após uma longa enfermidade de dez anos.
Deixou numerosos escritos, “todos anônimos ou pseudônimos, menos
um. Todos tratam de matéria política, religiosa ou social; são
sátiras engenhosas, virulentas, pessimistas e cínicas”.
Notabilizou-se, contudo, com sua obra-prima, “As
Viagens de Gulliver”,
publicada em 1726, sátira implacável não só da sociedade inglesa
do seu tempo, mas de todo o mundo civilizado.
| Busto em St Patrick's Cathedral. (Imagem: Wknight94). |
Órfão
de pai, com um ano de idade, é levado secretamente por sua ama para
a Inglaterra e, após dois anos em solo inglês, volta para a Irlanda
em virtude dos problemas políticos que ocorriam no país. É
entregue então ao seu tio Godwin que o manda estudar na escola
Kilkenny, em Dublin em 1673. O tio ensina-lhe boas maneiras, mas não
lhe dá amor e carinho, limitando-se a medicá-lo quando tinha crises
de surdez, mal que o ameaçou pelo resto da vida. Em 1681 Swift
matricula-se no Trinity
College de Dublin,
onde só se distingue pelas punições. Em 1688 recebe o diploma da
congregação e, com a morte de seu tio neste mesmo ano, Swift vai
para Leicester viver junto de sua mãe. Como ela não dispunha de
muito dinheiro para ajudá-lo, é obrigado a procurar um emprego e
sustentar-se. Em 1689 vai para Moor Park, Surrey (Inglaterra), e
torna-se secretário de Sir William
Temple
(1628-1699), estadista e escritor de grande prestígio. Swift
amadurece intelectualmente entre os livros de Temple e conhece uma
menina de oito anos chamada Esther
Johnson
que, segundo diziam, era filha de William Temple com uma ama da casa.
Swift chama-a carinhosamente de Stella
e lhe dedica alguns de seus mais belos poemas. A diferença de idade
entre os dois não serviu de barreiras para que desabrochasse um
grande afeto entre eles. A presença de Stella era um bálsamo para
Swift, mas não o suficiente para retê-lo como empregado de Sir
Temple. Swift tinha ambições e compreendia que, para realizá-las,
precisava de um diploma. Em 1693 doutorou-se em Teologia pela
Universidade
de Oxford
e, em 1695, assume o posto de Cônego em Kilbroot, na Irlanda. Ainda
em 1695 volta para Moor
Place
e encontra Sir Temple escrevendo um panfleto altamente conservador
sobre a “Batalha
dos Livros”,
pelo qual foi muito atacado. Swift, promovido por ele a secretário,
viu-se obrigado a defendê-lo e redigiu em 1697 A
Batalha dos Livros.
Por trás da defesa ironizava sutilmente tanto os conservadores
quanto os liberais. Com a morte de Sir Temple em 1699, Swift,
desempregado, pleiteia o cargo de deão (coordenador de um grupo de
párocos) de Serry, mas as autoridades eclesiásticas consideravam o
posto elevado demais para um pastor tão jovem e o nomeiam Cônego de
Dublin, na Irlanda. A nomeação não lhe agradou muito, mas Swift
não teve alternativa senão aceitá-la. Pede então que Stella vá
viver ali perto. A proximidade da menina dá-lhe ânimo para
continuar escrevendo e em 1701 publica anonimamente o “Discurso
sobre as Dissensões entre os Nobres e Comuns em Atenas e Roma”.
Nessa obra, a alusão aos partidos ingleses é clara, como também é
nítida a sua posição ao lado dos Whigs (liberais). Por isso,
Tories (conservadores) passam a atacá-lo. No entanto, passa a ser
admirado por estadistas como John
Somers
(1651-1716) e George
Halifax
(1633-1695), de elevado prestígio junto ao governo. Vislumbrando a
possibilidade de ascender-se na Igreja anglicana e com ajuda dos
políticos, Swift começa a viajar frequentemente para Londres.
Consegue então editores para “A
Batalha dos Livros”
e “O
Conto de Tonel”.
Além disso, apoiado por escritores satíricos Alexander
Pope
(1688-1744), Richard
Steele
(1672-1729) e Joseph
Addison
(1672-1719), ganha popularidade. Em 1708 escreve um panfleto para
desmascarar o astrólogo John
Partridge
(1644-1714), tido por ele como charlatão. Sob o pseudônimo de Isaac
Bickestaff
profetizava, no estilo de adivinho, a morte de Patridge. A luta entre
os dois acirra-se em 1709 e Swift escreve o artigo “A
Vingança de Isaac Bickertaff”,
na qual resume satiricamente a disputa. A ambição e as amizades
fazem com que Swift permaneça em Londres, mas, sempre pensando em
Stella, lhe escreve numerosas cartas. Em seu “Diário”,
falava de tudo: de encontros com aristocratas e políticos; das
impressões suscitadas; das intrigas da corte; do fumo do Brasil; da
invasão do Rio de Janeiro pelos franceses (1710); dos sonhos; das
aversões, etc. Ao falar de assuntos íntimos, se expressa numa
linguagem cifrada, compreensível somente para ele e Stella; mais
tarde, essa experiência deu frutos em “Viagens
de Gulliver”.
Em 1713 torna-se deão da catedral de Saint Patrick em Dublin. Sua
acolhida nesse local foi fria, pois desconfiavam que suas atividades
políticas não eram compatíveis com as funções religiosas. Ao
saber de seus problemas, Stella vai juntar-se a ele em Dublin. Pouco
depois outra mulher o procura: ela é Esther
Vamhomrigh,
filha de um rico mercador alemão. Swift dedicou a ela o poema
“Cadenus
e Vanessa”
em 1726. Vanessa fica sabendo da sua ligação com Stella e, não
suportando a hipótese de amá-lo só no espírito sufocando os
ímpetos da carne, escreve à rival uma carta falando de seus laços
com Swift. Furioso, Swift procura Vanessa e, sem dizer nem uma
palavra, atira-lhe aos pés uma carta de despedida. Nunca mais a viu.
Semanas depois a moça morreu de tristeza.
Em 1725 começa escrever
“Viagens
de Gulliver”
onde pretendia agredir o mundo, não diverti-lo. A Enciclopédia
Barsa
assim se refere a essa obra. Em 1728 Stella morre de um mal
desconhecido. No ano de 1731 Swift faz da sua própria morte um
objeto da sátira ao escrever um poema sobre a morte do Dr. Swift.
Sua última obra foi escrita em 1738, um ensaio destinado a despojar
a conversação inglesa das banalidades e incorreções que o levam
ao ridículo. Com o título de “A
Conversação Polida”
a qual representava o resultado de vinte anos de observação e
pesquisa. Em 19 de Outubro de 1745 Jonathan Swift, surdo e louco,
morre em Dublin. Ele é enterrado na Catedral
de São Patrício.
Em sua lápide, o epitáfio em latim, escrito por ele mesmo: “Aqui
jaz o corpo de Jonathan Swift, doutor em Teologia e deão desta
catedral, onde a colérica indignação não poderá mais
dilacerar-lhe o coração. Segue, passante, e imita, se puderes, esse
que se consumiu até o extremo pela causa da Liberdade”.
| Máscara mortuária de Swift. (Imagem: Daniel Hass). |
Obra
- História de um Tonel (1704) Sátira em prosa.
- A Batalha dos Livros (1704) Sátira em prosa.
- Argumento contra a Abolição do Cristianismo (1708) Panfleto.
- Diário para Stella (1710-1713) Cartas.
- The Conduct of the Allies (1711) Panfleto político.
- As Viagens de Gulliver (1726) Romance.
- Modesta Proposição (1729) Sátira política.
- A Conversação Polida (1738) Resultado de 20 anos de pesquisa.
- Versos sobre a Morte do Doutor Swift (1739) Poema.
As
Viagens de Gulliver (obra)
| Primeira edição de Viagens de Gulliver. |
Gulliver's
Travels
(1726, alterado em 1735), oficialmente Travels
into Several Remote Nations of the World. In Four Parts. By Lemuel
Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of Several Ships
e traduzido para o português como “As
Viagens de Gulliver”,
é um romance satírico de Jonathan Swift. É o trabalho mais
conhecido de Swift, e também um clássico da literatura inglesa.
Resumo
A
narrativa inicia-se com o naufrágio do navio onde Gulliver seguia.
Após o naufrágio ele foi arrastado para uma ilha chamada Lilliput.
Os habitantes desta ilha, que eram extremamente pequenos, estavam
constantemente em guerra por futilidades. Foi através dos
lilliputianos que Swift demonstrou a realidade inglesa e francesa da
época. Na segunda parte, Gulliver conheceu Brobdingnag.
Em contraposição a Liliput, na terra de Gigantes é que Gulliver
percebe a Dimensão da mediocridade da sociedade inglesa diante da
“grandeza” dos habitantes. Já na terceira parte, na ilha
flutuante de Laputa, Swift criticou a Royal
Society,
a administração inglesa na Irlanda e a imortalidade, através da
descrição dos habitantes dos países por onde Gulliver passou, com
alienados cientistas, é uma feroz crítica ao pensamento cientifico
que não traz benefícios para a humanidade. Na última viagem
Gulliver encontrou os Houyhnhm,
uma raça de cavalos que possuía muita inteligência, que
representavam os ideais iluministas da verdade e da razão. Os
Houyhnhm temiam que alguém dos yahoos (uma raça imperfeita de um
tipo de “humanos”) movidas por instintos primitivos, se tornasse
culto, satirizando a raça humana. Gulliver vê a humanidade como
yahoos e toma nojo do ser humano. Por fim Gulliver regressou a
Inglaterra para ensinar aos outros as virtudes que aprendera com os
Houyhnhm.
Filme, Televisão e Rádio
Gulliver's
Travels foi adaptado várias vezes para filmes, televisão e
rádio:
- Le Voyage de Gulliver à Lilliput et chez les géants: Um curta mudo francês, dirigido por Georges Méliès.
- Gulliver's Travels (1939): produzido pela Fleischer Studios e Paramount Pictures. Com a expiração de seus direitos autorais, este filme entrou em domínio público e pode ser descarregado a partir do Prelinger Archive.
- The Three Worlds of Gulliver (1960).
- The Adventures of Gulliver (1968): Série animada dirigida por William Hanna e Joseph Barbera.
- Gulliver's Travels (1977).
- Gulliver's Travels (1979): Desenho animado feito na Austrália.
- Gulliver in Lilliput (1982): Minissérie de televisão estrelada por Frank Finlay e Elisabeth Sladen.
- Gulliver's Travels (1992): Série de televisão animada.
- Gulliver's Travels (1996): Minissérie de televisão estrelada por Ted Danson e Mary Steenburgen.
- Gulliver's Travels (1999): Drama de rádio das aventuras de Gulliver em Lilliput, produzida pela série Radio Tales para a National Public Radio.
- Albhutha Dweepu (2005): Um filme malasiano baseado nas viagens de Gulliver, estrelando Prithviraj e Mallika Kapoor.
- Gulliver's Travels (2010) Versão planejada para as aventuras de Gulliver em Lilliput, estrelando Jack Black, Billy Connolly, James Corden, Amanda Peet, Chris O'Dowd.
Citações
- “Nada há de constante neste mundo, exceto a inconstância”.
- - "Modesta Proposta" - página 57, de Jonathan Swift, UNESP, 2002, ISBN 8571395977, 9788571395978.
- “No homem, o desejo gera o amor; na mulher o amor gera o desejo”.
- - in men, desire begets love, and in women, love begets desire.
- - citando Fitzharding, em carta de 28 de outubro de 1712 in "The works of Jonathan Swift: containing additional letters, tracts, and poems not hitherto published; with notes, and a life of the author" - Volume 3, Página 61, Jonathan Swift, Sir Walter Scott - Printed for Archibald Constable and co., 1824.
- “Muitos poucos são os que vivem no presente: a maioria se preocupa para viver mais tarde”.
- - citado em "Tesouro de pensamentos" - Página 240, I. Costa Cotrim - Edições de Ouro, 1968 - 255 páginas.
- “Nós temos a religião suficiente para nos odiarmos, mas não a que baste para nos amarmos uns aos outros”.
- - We have just enough religion to make us hate, but not enough to make us love, one another.
- - "Miscellanies, by dr. Swift, dr. Arbuthnot, mr. Pope, and mr. Gay" - Página 257, Jonathan Swift, Alexander Pope - 1742, 4a. ed.
- “Leis são como teias de aranha: boas para capturar mosquitos, mas os insetos maiores rompem sua trama e escapam”.
- - Laws are like Cobwebs which may catch small Flies, but let Wasps and Hornets break through.
- - "Miscellanies in prose and verse" - página 257, Jonathan Swift, Printed for John Morphew, 1711, 416 páginas.
- “Quando um verdadeiro gênio aparece no mundo é logo reconhecido por este sinal: os tolos ligam-se todos contra ele”.
- - When a true genius appears in the world, you may know him by this sign, that the dunces are all in confederacy against him.
- -Miscellanies [by J. Swift and others]. Vol.1-[3, called the last vol.]. - Página 296, Jonathan Swift – 1731.