| Cabeças Grotescas, Leonardo da Vinci, cerca de 1490. |
Temperamento.
Conjunto de pensadores que determinam o comportamento. O temperamento
é um estado orgânico (a palavra vem, mais ou menos, de “tempero
no sangue”), e já os antigos dividiam os indivíduos em sanguíneos
ou ativos; apáticos ou linfáticos, e nervosos ou biliosos,
conferindo aos primeiros grande facilidade para a ação; os segundos
eram classificados como indivíduos sem energia, pouco ativos, e, os
últimos, facilmente excitáveis, irascíveis. O temperamento é
diretamente influenciado pelo sistema nervoso, pela composição
bioquímica do sangue, pela hereditariedade e pela constituição
física. É controlável, não, porém, mutável: o temperamento não
muda. O caráter é adquirido, desenvolve-se sob a influência do
ambiente. É mutável, ou educável. Há estreita relação entre o
tipo físico e o tipo temperamental. Na classificação de Ernst
Kretschmer há quatro tipos fundamentais: o leptossomático,
o pícnico, o atlético e o displástico. O primeiro inclui os
indivíduos magros, altos, esguios, de temperamento esquizotímico:
introversão, dificuldade de relacionamento social, predileção por
abstrações. Os gordos, baixos, rechonchudos são os pícnicos, que
se caracterizam ainda pela tendência à calvície e a obesidade.
Quanto ao temperamento, são ciclotímicos: extrovertidos, gostam do
convívio social e geralmente se orientam para atividades concretas;
atravessam, não obstante, leves períodos de depressão. O tipo
atlético, de acentuado desenvolvimento ósseo e muscular, apresenta
temperamento gliscródide: agressivo, conservador, amigo da rotina. O
displástico não possui um correspondente temperamental. Há várias
outras classificações que estabelecem relações entre o tipo
físico e o temperamento: a de William Herbert Sheldon,
a de J. Viola, a de Sigaud. Outras
classificações tratam apenas do aspecto caracterológico, como a de
Spranger, que distingue o homem social, o utilitarista,
o religioso, o imaginativo, o teórico e o dominador; a da
Psicanálise, de Freud, com os tipos eróticos,
obsessivo, narcísico, narcísico-obsessivo, erótico-obsessivo; a da
Psicologia analítica, de Carl Gustav Jung, com as
diversas variações de dois tipos fundamentais, extrovertido e
introvertido. (Biografias e Curiosidades).
Temperamento
designa em psicologia um aspecto especial da personalidade: as
particularidades do indivíduo ligadas à forma do comportamento,
principalmente ligadas aos "três As da personalidade":
afetividade,
atividade
(excitação) e atenção.
A conceituação de temperamento é no entanto difícil e se confunde
muitas vezes com outros conceitos como traços de personalidades e
motivos. Por muitos traços de temperamento estarem ligados a
tendências disposicionais da pessoa de vivenciar determinadas
emoções ou humores de maneira relativamente intensa ou frequente,
definiram-no alguns autores (Wundt,
Allport,
Mehrabian)
com base em tais disposições. No entanto tal definição mostra-se
restrita, por não incluir traços como hiperatividade, atenção,
perseverança, tradicionalmente vistos como parte do temperamento.
Rothbart
e Bates
(1998) fazem todas as diferenças de temperamento derivarem dos três
As - afetividade, ativação (excitação) e atenção. Buss
e Plomin
(1984) especificaram ainda mais essa definição: para eles
temperamento é o conjunto de traços de personalidade (i)
observáveis desde os primeiros anos de vida, (ii) influenciados em
grande parte geneticamente e (iii) estáveis a longo prazo. Também
essa definição não é plenamente satisfatória, por não
diferenciar os traços de temperamento de outros traços de
personalidade. Apesar da dificuldade com respeito à definição do
termo, reina unanimidade quanto ao fato de inteligência e
capacidades e interesses culturais não fazerem parte dela. O termo
também é usado em linguagem comum - ou seja, no âmbito da
psicologia do senso comum - muitas vezes como sinônimo de
personalidade, caráter ou índole. Esse uso na liguagem quotidiana
dificulta ainda mais a definição do termo.
Latim
temperamentum
= combinação da mente no tempo. Do latim temperare
= por na medida conveniente.
Hipócrates,
filósofo grego, foi o primeiro a formular uma teoria do
temperamento, baseando- na teoria dos quatro elementos de Empédocles.
Segundo ele há quatro tipos de temperamento, conforme domine no
corpo do indivíduo um dos quatro fluidos corporais (humores):
sanguíneo (sangue), fleumático (linfa ou fleuma), colérico (bílis)
e melancólico (atrabílis ou bílis negra). Cada um deles possui uma
determinada característica:
- Sanguíneo: expansivo, otimista, mas irritável e impulsivo;
- Fleumático: sonhador, pacífico e dócil, preso aos hábitos e distante das paixões;
- Colérico: ambicioso e dominador, tem propensão a reações abruptas e explosivas;
- Melancólico: nervoso e excitável, tendendo ao pessimismo, ao rancor e à solidão.
Essa
teoria entrou na idade média através de Cláudio
Galeno
e influenciou todo o pensamento ocidental.
Wilhelm
Wundt,
baseado em Hipócrates, definiu duas dimensões do temperamento:
"intensidade dos movimentos internos (emoções)" (Stärke
des Gemütsbewegungen)
e "velocidade da variação dos movimentos internos (emoções)"
(Schnelligkeit
des Wechsels der Gemütsbewegungen).
Através de uma análise fatorial de questionários de personalidade
Hans
Eysenck
encontrou também duas dimensões que, grosso modo, correspondem
àquelas postuladas por Wundt. A dimensão “intensidade das
emoções” foi chamada de extroversão e seus pontos extremos foram
considerados por Eysenck como correspondentes aos tipos introvertido
e extrovertido da classificação de Carl G. Jung. Para este pessoas
introvertidas são “voltadas para dentro” e fechadas; já pessoas
extrovertidas são “voltadas para fora”, abertas e assim mais
simpáticas e acessíveis. A segunda dimensão de Wundt foi chamada
por Eysenck de neuroticismo e descreve a instabilidade emocional. O
nome vem da observação feita pelo pesquisador, de que os neuróticos
frequentemente têm um humor instável e variável. O sucesso do
sistema de classificação dimensional de Eysenk deve-se sobretudo ao
fato de suas duas dimensões terem sido confirmadas por praticamente
todas as análises fatoriais de traços de personalidade desde então,
inclusive o muito difundido modelo dos Big
Five.
Para a medição desses traços de personalidade Eysenck desenvolveu
o EPI (Eysenck Personality Inventar; Eysenck & Eysenck, 1968). A
pesquisa de Eysenck descobriu que pessoas com alto nível de
neuroticismo tendem a relatar mais problemas físicos e mentais e
mais afetos negativos, enquanto pessoas com alto nível de
extroversão tendem a ter um comportamento mais sociável (ir a
festas, sair) e descrevem ter afetos mais positivos. A teoria de
Eysenk inclui, além das duas dimensões, uma descrição de sua basa
fisiológica, ligando-as ao funcionamento de determinadas áreas
cerebrais e do sistema límbico. Sua explicação dos mecanismos
corporais que levam à formação do temperamento pode ser
considerada falsificada pela pesquisa atual.
Jeffrey
Alan Gray
(1982) propôs uma ampliação da teoria de Eysenck. Segundo ele o
ser humano apresenta três sistemas
de comportamento
(ing. behavioral
systems)
que atuam em situações emotivas:
- Um Sistema de ativação comportamental (BAS, ing. behavioral approach system), que organiza as reações a estímulos condicionados ligadas a um reforço, tanto positivo quanto negativo (não-punição) (ver condicionamento operante) e que conduz a um comportamento de aproximação (ou seja à realização do comportamento);
- Um Sistema de inibição comportamental (BIS, ing. behavioral inhibition system), que organiza as reações a estímulos desconhecidos ou que estão ligadas a uma punição, tanto positiva quanto negativa (supressão de um reforço) e que conduz a uma inibição do comportamento (ou seja à sua não realização), a um aumento da tensão, da atenção e da excitação do sistema límbico e
- Um Sistema de luta-fuga (ing. fight/flight system), que organiza as reações a estímulos incondicionados ligados a perigos (ver condicionamento clássico) que conduz a um ataque defensivo ou à fuga, de acordo com a situação.
Um
quarto sistema ligado a estímulos incondicionados positivos
não existe, segundo Gray; segundo ele para tais estímulos há uma
série numerosa de sistemas diferentes. Apesar de basear sua teoria
em descobertas neurofisiológicas Gray, ao contrário de Eysenck, não
procurou uma base anatômica para seus sistemas de comportamento. Sua
teoria adquire assim um valor mais heurístico (isto é, gerador de
hipóteses a serem comprovadas) do que descritivo. De acordo com Gray
a diferenças interindividuais nas sensibilidades do BIS e do BAS
constituem duas dimensões ortogonais (independentes), que podem ser
chamadas inibição
e ativamento.
Segundo Gray (1987) essas duas dimensões correspondem grosso
modo
os conceitos comuns de ansiedade
e impulsividade.
Assim, segundo a presente teoria, uma inibição intensa
caracteriza-se por uma grande sensibilidade com relação a situações
desconhecidas e punições (positivas e negativas), enquanto um forte
ativamento caracteriza-se por uma grande sensibilidade com relação
a reforços (positivos e negativos). Essas duas dimensões estão
intimamente relacionadas com as dimensões de Eysenck, mas em uma
rotação de 45° com relação a essas, como mostra a tabela:
Relação entre as dimensões de Eysenck e as de Gray
Alta inibição
|
Alto ativamento
|
||
Alto neuroticismo (emocionalmente instável)
|
|||
Baixo neuroticismo (emocionalmente estável)
|
|||
Baixo ativamento
|
Introversão
|
Extroversão
|
Baixa inibição
|
Assim, se vê que
pessoas com uma alta inibição têm, de acordo com Gray, um alto
nível de neuroticismo e ao mesmo tempo um alto nível de
introversão, enquanto uma baixa inibição significa um baixo grau
de neuroticismo e um alto grau de extroversão. A pesquisa empírica
conseguiu comprovar que as dimensões de Gray são de fato
independentes (ortogonais), no entanto elas têm uma correlação
muito grande com as dimensões de Eysenck - BAS com extraversão e
BIS com neuroticismo - de forma que não se pode afirmar que as
teorias de Eysenck e de Gray descrevam fenômenos distintos. Essa é
uma tarefa aberta para a pesquisa futura.