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terça-feira, 24 de setembro de 2019

Biografia de Apuleio

Apuleio
Lúcio Apuleio (em latim: Lucius Apuleius; Madaura, na atual Argélia, c. 125 - Cartago, c. 170) foi um escritor e filósofo médio platônico romano. Apuleio nasceu em Madaura, pequena mas importante colônia romana. Sua família, proveniente da Itália, era abastada e influente: o pai fora cônsul, a mais alta magistratura municipal da Roma antiga, e deixara aos dois filhos uma consistente herança de quase dois milhões de sestércios (o sestércio (sestertius, em latim) era uma antiga moeda romana. O nome provém das palavras latinas semis ("meio") e tres ("três"), isto é, "meio terceiro", porque valia dois asses e meio). Após os primeiros estudos de gramática e retórica transferiu-se para Cartago, onde aprofundou seus conhecimentos de poesia, geometria, música e sobretudo de filosofia, cujos estudos concluiu posteriormente em Atenas. Interessava-se também pelos ritos esotéricos: em Cartago, pelos mistérios de Esculápio, o correspondente romano de Asclépio, o deus grego da medicina e da cura, e, em Atenas, pelos mistérios eleusinos. Casou-se com uma viúva rica, Emília Pudentila, e foi acusado pelos parentes de sua esposa de haver utilizado magia para obter seu amor. Defendeu-se através de uma célebre “Apologia”, que se conservou até os nossos dias. Sua obra mais famosa é “Metamorphoseon Libri XI” (Onze Livros de Metamorfose), mais conhecida como “O Asno de Ouro”. Apuleio escreveu também: “Floridas” (fragmentos de discursos) e “De Deo Socratis”.

Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Apuleio

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Biografia de Jâmblico

Jâmblico
(Em latim, Iamblichus Chalcidensis; em grego Ἰάμβλιχος, provavelmente originário do siríaco ou aramaico ya-mlku, “ele é rei”). Nasceu em Cálcia, Síria, em 245, e, faleceu em Apamea, em 325. Jâmblico foi um filósofo neoplatônico assírio que determinou a direção da filosofia neoplatônica tardia e talvez do próprio paganismo ocidental. É mais conhecido por seu compêndio sobre filosofia pitagórica.

Biografia

Nascido em meados do século III, Jâmblico estudou a magia dos caldeus e a filosofia de Pitágoras, Platão, Aristóteles e Plotino. Ao tomar contato com o neoplatonismo, foi para Roma a fim de estudar com Porfírio. Escreveu “Vida de Pitágoras” (não confundir com o livro homônimo de Porfírio). Foi um teólogo patrístico helenístico do período pré-nissênico nascido em Cálcis, Celessíria, considerado o fundador da chamada escola neoplatônica síria. Seus dados biográficos são imprecisos e, aparentemente, tomou conhecimento com as doutrinas neopitagórica por influência principal de Nicômano de Gérasa (60-120), talvez em Alexandria, e do peripatetismo com Anatólio de Laodiceia (~ 240-325). Foi discípulo de Porfírio (233-304) o Fenício, e considerado o maior pupilo de Plotino (204-270), o filósofo neoplatônico helenístico, que com sua procura mística de união com o bem, através da inteligência, constituiu-se como ponto de ligação entre a filosofia grega e a sapiência alexandrina. Com sua procura mística de união com o bem, através da inteligência, conseguiu expressar este ponto de ligação entre a filosofia grega e a sapiência alexandrina. Mudando-se para a Síria, deu início à propagação de suas teses e transformou a filosofia mítica de Plotino numa Teurgia (espécie de magia baseada em relações com os espíritos celestes) ou conjugação mágica de deuses. Fundou e orientou a escola neoplatônica siríaca, com interesse na teologia politeísta e hoje é especialmente famoso por ter praticado especificamente a Teurgia, ou trabalho divino, ou a Magia Sagrada. Sua obra, segundo consta, seria composta principalmente de dez livros intitulados "Resumo das Doutrinas Pitagóricas". Destes, somente cinco se encontram preservados atualmente. Seus escritos metafísicos estão perdidos, mas suas ideias ficaram conhecidas, preservadas sob forma de citação ou comentário, doxografia, em escritos de diversos autores. Seu livro mais conhecido, “Sobre os Mistérios do Egito”, escrito em grego, foi uma resposta à carta de Porfírio (233-304) a Amélio (220-290) refutando qualquer teurgia e as práticas de adivinhação da época. Seu livro foi uma defesa da Teurgia, isto é, da possibilidade da manipulação mágica dos deuses em prol da satisfação de desejos humanos. Além disso, atribui-se a ele as seguintes obras: “De Mysteriis Liber”, “De Chaldaica Perfectissima Theologia”, “De Descensu Animae” e “De Diis”. Destas, somente alguns fragmentos sobreviveram até nossos dias. Os eruditos creem que ele foi um espírita, um médium no sentido popular, porém parece mais fácil justificar que ele opunha-se definidamente a tal prática. Além deste filósofo, os principais representantes de sua escola foram Déxipo (350), Sopatro de Apaméia e Teodoro de Asine (~ 300), este o mais proeminente e seu discípulo mais conhecido, todos seus discípulos diretos. As principais influências exercidas pelo seu pensamento incidem sobre as teses de Proclo Diádoco (412-485) e de Juliano, o Apóstata (331-363), em sua tentativa de reviver o paganismo. Em resumo, lecionou em Apaméia e diz-se que sucedeu à Porfírio na escola neoplatônica, e a transportou para Pérgamo e depois para Alexandria, sendo o local de sua morte incerto.

Diferenciação filosófica

Embora, mestre e discípulo, pertenciam à mesma corrente filosófica, o neoplatonismo, Jâmblico se caracterizou por uma série de diferenças com respeito à Porfírio. Além de uma tendência à teurgia por parte de Jâmblico, em contraste com a simples religiosidade de seu mestre, nós encontramos que a identificação de partida com os preceitos neoplatônicos, pitagóricos e órficos, insistirá Jâmblico sobretudo na importância de certas faculdades para relacionar-se com o divino superior do intelecto (o kybernetes da alma, a alma teúrgica, o Uno-da-alma, a "flor do Intelecto"), na rejeição do materialismo e na existência de uma alma eterna e imaterial. Atribui-se a Jâmblico a autoria ou recompilação chamada em latim “De Mysteriis Aegyptiorum” (Sobre os Mistérios dos Egípcios) (título dado por Marsilio Ficino à obra em sua paráfrase, cujo verdadeiro título é “Resposta do Mestre Abamón para a Carta de Porfírio a Amélio e Soluções para as Dificuldades que ela Esboça”, onde Abamón é um sacerdote egípcio bajo cujo nome Jâmblico responde ao seu mestre Porfírio as objeções que apresentara contra a religião e os rituais teúrgicos em uma carta a seu discípulo Amélio).

De Mysteriis Aegyptiorum

É um livro atribuído a Jâmblico cuja tradução em português é “Sobre os Mistérios do Egito”, embora justamente este texto apresenta distintos problemas de carácter filológico, em especial, aos relacionados ao seu autor e ao nome da obra. O título autêntico é “Resposta do Mestre Abamón para a Carta de Porfírio a Amélio e Soluções para as Dificuldades que ela Esboça”, (1460). A mudança de título procede de um comentário que Marsilio Ficino fez ao texto que o colocou de acordo com as tendências da filosofia de sua época, pois se vivia um fervor pela egiptologia. A respeito do autor, ninguém duvidou durante séculos da autoria de Jâmblico, mas Christian Meiners em (171?) e posteriormente Adolph Von Harless em 1858 questionaram de que Jâmblico fosse seu autor. Foi Karl Rasche quem deu fim a estas dúvidas em 1911. Não obstante, alguns filólogos ainda discordam. O texto é considerado, pelo seu conteúdo, plenamente pertencente à doutrina do neoplatonismo. Sua orientação é claramente religiosa, por ele encontramos uma longa lista de nomes de deuses e de divindades e no final uma oração. Pertence ao gênero epistolar, literariamente falando, mas filosoficamente aos zetemata (Ζητήματα), por assim dizer, ao gênero de paradoxos, aforias e soluções, muito popular na filosofia grega. Como é a resposta a outra carta escrita pelo neoplatônico Porfírio, podemos encontrar um contínuo diálogo com esse texto, embora atualmente não contamos com nenhum manuscrito, apenas há evidência da existência desse texto pelas citações que resgatou o autor deste livro e algumas referências em outros autores entre eles, Eusebio, Teodoreto e Santo Agostinho de Hipona. A obra está dividida em 10 capítulos, cada um deles aborda diferentes problemas a respeito das genealogias e tipos de deuses, assim como a santidade, os sacrifícios, a mântica (relativo à adivinhação, à profecia) e inclusive a mistagogia (iniciação nos mistérios duma religião). O método expositivo do texto se constitui em dois subgêneros: a diairesis, que é distinguir gêneros e a synagoge abordar de diferentes modos um problema até encontrar a melhor solução, isto, segundo Enrique Ángel Ramos Jurado, editor do livro para Gredos em 1997.

Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jâmblico
https://es.wikipedia.org/wiki/Jámblico
https://es.wikipedia.org/wiki/De_Mysteriis_Aegyptiorum

Biografia de Eunápio de Sárdis

Eunápio de Sárdis (em grego: Εὐνάπιος; fl.* ca. 347 – 414 era comum) foi um sofista, historiador e biógrafo conhecido principalmente por sua obra “Vida dos Sofistas”, escrita entre 396 e 399 e que consiste de biografias de filósofos neoplatônicos, retóricos e médicos.

*Floruit frequentemente abreviado fl. ou flor. e por vezes italicizado para mostrar que é latim) é um verbo significando 'floresceu', que denota o período de tempo durante o qual uma pessoa, escola, movimento ou mesmo espécie esteve em atividade ou florescendo. É a forma do verbo latino florere ― "florescer" na terceira pessoa do singular, no passado indicativo ativo.

Vida

Eunápio era nativo de Sárdis, uma cidade na Ásia Menor onde passou a maior parte de sua vida. Aos quinze anos ele velejou para Atenas onde estudou por anos com o sofista cristão Prohaerésio. Em Atenas, ele também foi iniciado nos "Mistérios de Elêusis" pelo mesmo hierofante de Juliano. Após esse período, compelido por seus pais retornou aos 19 anos para Sárdis onde lecionou retórica pela manhã enquanto estudava filosofia à tarde sob o cristão Crisâncio. Neste período, ele passou a fazer parte do círculo de sofistas pagãos que incluía Oribásio, o ex-médico da corte do Imperador Juliano.

Filosofia

Eunápio traz uma consciência das sobreposições entre filosofia e sofística, entre Platão e os sofistas mais velhos, à tarefa de destacar as carreiras dos neoplatônicos, com isso, Eunápio tira o sentido original do termo sofisma quando usado para descrever as doutrinas dos neoplatônicos. Eunápio era mais explicitamente anti-cristão do que foi Olimpiodoro de Tebas especialmente na primeira edição de sua obra. Fócio nos diz que Eunápio produziu uma segunda edição sem o material anti-cristão mais extremo.

Obras

Eunápio é conhecido por ter escrito dois trabalhos literários "Vida dos Filósofos e Sofistas", a "História Depois de Déxipo", que consiste da cobertura dos anos de 270 até 404 em quatorze livros cujos fragmentos são preservados na Suda e o escrito "Excerpta de Sententiis", uma antologia de resumos de trabalhos literários compilada sob a ordem do imperador Constantino VII.

Vida dos Filósofos e Sofistas

A obra “Vida dos Filósofos e Sofistas” escrita por volta de 396, é uma coleção que chegou até os dias de hoje de 44 pequenos textos biográficos, a maioria deles de neoplatonistas do século IV. É mais ou menos da própria linhagem filosófica e uma história dos professores, colegas e parentes de Eunápio.


Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Eunápio

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Biografia de Zoilo - crítico de Homero

Zoilo (em grego: Ζωΐλος; ca. 400 a.C. — 320 a.C.). Zoilo foi um gramático grego, filósofo cínico e crítico literário de Anfípolis na Macedônia Oriental, então conhecida como Trácia. Tomou o nome de Homeromastix (Ὁμηρομάστιξ "chicoteador de Homero"; gen.: Ὁμηρομάστιγος) no fim de sua vida por suas duras críticas a Homero.

O censor de Homero

Originalmente parece que Zoilo era o nome de um gramático que criticava severamente Homero. Vários autores gregos e romanos o citaram, embora seja necessário esclarecer se os diversos detalhes e ações atribuídos a ele pertencem a uma ou várias pessoas. As alegorias homéricas lhe imputam calúnias, sacrilégios e tratam-no como um escravo vil que é universalmente detestado ou desprezado: este testemunho seria o mais antigo se fosse realmente de Heráclides do Ponto, a quem as alegorias têm sido atribuídas há muito tempo, ainda que erroneamente. Os livros de retórica e crítica de Dionísio de Halicarnasso fornecem textos mais autênticos nos quais Zoilo não é tratado de maneira tão vexatória. Neste caso, se fala dele como aluno de Polícrates de Samos e com Anaxímenes como discípulo, tomando Lísias como modelo. Assim figura entre os oradores de segundo nível, cuja eloquência é muito estimada na Atenas clássica. Dionísio homenageia com moderação a imparcialidade das apreciações de Zoilo sobre os escritos de Platão. Ele também faz menção da sua crítica aos poemas de Homero, mas sem qualificá-lo. Estrabão censura Zoilo em sua “Geografia”, agora apelidado por ele de Homeromastix (o “flagelo de Homero”), tendo transferido o rio Alfeo para a ilha de Tenedos e declara que tal desprezo é imperdoável para um homem que arroga o direito de julgar a Odisseia e a Ilíada. Algumas linhas de Plutarco levam a pensar que Demóstenes teria recebido lições e até mesmo seguido as discussões de Zoilo. Cláudio Galeno repreende expressamente o censor de Homero, comparando-o a Salmoneu, o insensato rival de Júpiter, e acusa-o de ter levado a extravagância ao extremo ao chicotear a estátua de Aquiles. No entanto, pode ser que seja mera linguagem figurada, a fim de ultrajar a memória e a genialidade do poeta. Como a maioria dos autores, Vitrúvio e Suídas situam o nascimento de Zoilo em Anfípolis, mas Eustáquio, entre outros, o faz em Éfeso. Com boa ironia e desprezo dos pedantes, Miguel de Cervantes o incluiu no prefácio de Dom Quixote: “De todo esto ha de carecer mi libro, porque ni tengo qué acotar en el margen, ni qué anotar en el fin, ni menos sé qué autores sigo en él, para ponerlos al principio, como hacen todos, por las letras del A B C, comenzando en Aristóteles y acabando en Xenofonte y en Zoilo o Zeuxis, aunque fue maldiciente el uno y pintor el otro”.

Obra

É creditado a Zoilo nove livros de críticas homéricas, um discurso contra Isócrates, uma análise de vários diálogos de Platão, uma história de Anfípolis em três livros, uma história geral da teogonia até Filipo, rei da Macedônia, um elogio aos habitantes do Ilha de Tenedos, um tratado gramatical e uma retórica.

Fontes

“Zoïle”, em Louis-Gabriel Michaud, "Biographie universelle ancienne et moderne: histoire par ordre alphabétique de la vie publique et privée de tous les hommes avec la collaboration de plus de 300 savants et littérateurs français ou étrangers", 2.ª edição, 1843-1865.


Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Zoilo
https://es.wikipedia.org/wiki/Zoilo

terça-feira, 30 de julho de 2019

Biografia de Karl Marx

Karl Marx;.
Filósofo social, economista e historiador alemão. Nasceu em Tréveris, a 05 de Maio de 1818, e, faleceu em Londres, a 14 de Março de 1883. Sua filosofia principal está no livro “O Capital” (1867), que tem exercido grande influência na mentalidade contemporânea. Juntamente com Friedrich Engels lançou o Manifesto Comunista e organizou a Primeira Internacional (uma reunião de operários de todo o mundo).

Outras obras
  • Manuscrito Econômico-Filosófico;
  • A Sagrada Família (com Engels);
  • Teses Sobre Feuerbach;
  • A Miséria da Filosofia;
  • As Lutas de Classe na França.

Marxismo

Conjunto das teorias filosóficas, econômicas e políticas de Marx, exposta no livro “O Capital”. Concepção materialista da História, o marxismo é o resultado da fusão de várias correntes de pensamento, entre as quais diversos sistemas filosóficos alemães, em especial o de Friedrich Hegel (1770-1831). Atribui ao conjunto das condições de produção econômica uma fundamental influência sobre o desenvolvimento das culturas e estabelece a primazia da infraestrutura social (conjunto das forças produtivas materiais, ou forças econômicas) sobre o que denominou superestrutura social (as ideias, ou conjunto dos dados da cultura não material). Prega a revolução do proletariado e sua conseqüente ascensão a uma posição de mando, e a instituição de uma sociedade sem classes. Várias de suas ideias concorreram proveitosamente para o aprimoramento das ciências sociais ditas burguesas, atuando de modo positivo sobre a Economia Social, a Sociologia, a História. Mas, segundo escreve Ossip K. Flechtheim, “com seu determinismo fatalista e mal compreendido transformou-se num tacão opressor de toda ação socialista criadora”.

Wikipédia

Karl Marx foi um filósofo, sociólogo, jornalista e revolucionário socialista. Nascido na Prússia, mais tarde se tornou apátrida e passou grande parte de sua vida em Londres, no Reino Unido. A obra de Marx em economia estabeleceu a base para muito do entendimento atual sobre o trabalho e sua relação com o capital, além do pensamento econômico posterior. Publicou vários livros durante sua vida, sendo “O Manifesto Comunista” (1848) e “O Capital” (1867-1894) os mais proeminentes. Marx nasceu em uma família de classe média em Tréveris, na Renânia prussiana, e estudou nas universidades de Bonn e Berlim, onde se interessou pelas ideias filosóficas dos jovens hegelianos. Depois dos estudos, escreveu para o Rheinische Zeitung, um jornal radical publicado em Colônia, e começou a trabalhar na teoria da concepção materialista da história. Em 1843, mudou-se para Paris, onde começou a escrever para outros jornais radicais e conheceu Friedrich Engels, que se tornaria seu amigo de longa data e colaborador. Em 1849, foi exilado e se mudou para Londres junto com sua esposa e filhos, onde continuou a escrever e formular suas teorias sobre a atividade econômica e social. Também fez campanha para o socialismo e tornou-se uma figura significativa na Associação Internacional dos Trabalhadores. As teorias de Marx sobre a sociedade, a economia e a política — a compreensão coletiva do que é conhecido como o “marxismo” — sustentam que as sociedades humanas progridem através da luta de classes (um conflito entre uma classe social que controla os meios de produção e a classe trabalhadora, que fornece a mão de obra para a produção) e que o Estado foi criado para proteger os interesses da classe dominante, embora seja apresentado como um instrumento que representa o interesse comum de todos. Além disso, ele previu que, assim como os sistemas socioeconômicos anteriores, o capitalismo produziria tensões internas que conduziriam à sua autodestruição e substituição por um novo sistema: o socialismo. Ele argumentava que os antagonismos no sistema capitalista, entre a burguesia e o proletariado, seriam consequência de uma guerra perpétua entre a primeira e as demais classes ao longo da história. Isto, associado à sociedade industrial e ao acúmulo de capital, geraria a sua classe antagônica, que resultaria na "conquista do poder político pela classe operária e, eventualmente, no estabelecimento de uma sociedade sem classes e apátrida — o comunismo — regida por uma livre associação de produtores. Marx ativamente argumentava que a classe trabalhadora deveria realizar uma ação revolucionária organizada para derrubar o capitalismo e provocar mudanças socioeconômicas. Elogiado e criticado, Marx tem sido descrito como uma das figuras mais influentes na história da humanidade. Muitos intelectuais, sindicatos e partidos políticos em nível mundial foram influenciados por suas ideias, com muitas variações sobre o seu trabalho base. Marx é normalmente citado, ao lado de Émile Durkheim e Max Weber, como um dos três principais arquitetos da ciência social moderna.

Biografia
Juventude


Marx foi o terceiro de nove filhos, de uma família de origem judaica de classe média da cidade de Tréveris, na época no Reino da Prússia. Sua mãe, Henriette Pressburg (1788-1863), era judia holandesa e seu pai, Herschel Marx (1777–1838), um advogado e conselheiro de Justiça. Herschel descende de uma família de rabinos, mas se converteu ao cristianismo luterano em função das restrições impostas à presença de membros de etnia judaica no serviço público, quando Marx ainda tinha seis anos. Seus irmãos eram Sophie (1816-1886), Hermann (1819-1842), Henriette (1820-1845), Louise (1821-1893), Emilie (1824-1888 - adotada por seus pais), Caroline (1824-1847) e Eduard (1826-1837). Em 1830, Marx iniciou seus estudos no Liceu Friedrich Wilhelm, em Tréveris, ano em que eclodiram revoluções em diversos países europeus. Ingressou mais tarde na Universidade de Bonn para estudar Direito, transferindo-se no ano seguinte para a Universidade de Berlim, onde o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, cuja obra exerceu grande influência sobre Marx, foi professor e reitor. Em Berlim, Marx ingressou no Clube dos Doutores, que era liderado pelo hegeliano de esquerda Bruno Bauer. Ali perdeu interesse pelo Direito e se voltou para a Filosofia, tendo participado ativamente do movimento dos Jovens Hegelianos. Seu pai faleceu neste mesmo ano. Em 1841, obteve o título de doutor em Filosofia com uma tese sobre as “Diferenças da Filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro”. Impedido de seguir uma carreira acadêmica, tornou-se, em 1842, redator-chefe da Gazeta Renana (Rheinische Zeitung), um jornal da província de Colônia; conheceu Friedrich Engels neste mesmo ano, durante visita deste a redação do jornal.

Casamento e vida política

Em 1843, a Gazeta Renana foi fechada após publicar uma série de ataques ao governo prussiano. Tendo perdido o seu emprego de redator-chefe, Marx mudou-se para Paris. Lá assumiu a direção da publicação “Deutsch-Französische Jahrbücher” (Anais Franco-Alemães) e foi apresentado a diversas sociedades secretas de socialistas. Antes ainda da sua mudança para Paris, Marx casou-se, no dia 19 de Junho de 1843, com Jenny von Westphalen, a filha de um barão da Prússia com a qual mantinha noivado desde o início dos seus estudos universitários (Noivado que foi mantido em sigilo durante anos, pois as famílias Marx e Westphalen não concordavam com a união). Do casa-mento de Marx com Jenny von Westphalen, nasceram sete filhos, mas devido às más condições de vida que foram forçados a viver em Londres, apenas três sobre-viveram à idade adulta. As crianças eram: Jenny Caroline (1844-1883), Jenny Laura (1845-1911), Edgar (1847-1855), Henry Edward Guy ("Guido"; 1849-1850), Jenny Eveline Frances ("Franziska"; 1851-52), Jenny Julia Eleanor (1855-1898) e mais um que morreu antes de ser nomeado (Julho, 1857). Ao que consta, Franziska, Edgar e Guido morreram na infância, provavelmente pelas péssimas condições materiais a que a família estava submetida, duas das filhas de Marx cometeram suicídio: Eleanor, 15 anos após a morte de Marx, aos 43 anos, após descobrir que seu companheiro havia se casado secretamente com uma atriz bem mais jovem, mas há quem suspeite que ele, na verdade, assassinou-a; e Laura, 28 anos após a morte de Marx, aos 66 anos, junto com o seu marido, Paul Lafargue, por não querer viver na velhice. Marx também teve um filho nascido de sua relação amorosa com a militante socialista e empregada da família Marx, Helena Demuth. Solicitado por Marx, Engels assumiu a paternidade da criança, Frederick Delemuth, e pagando uma pensão, entregou-o a uma família de um bairro proletário de Londres. No tratamento pessoal — Leandro Konder ressalta — Marx foi produto de seu tempo: “Antes de poder contestar a sociedade capitalista Marx pertencia a ela, estava espiritualmente mais enraizado no solo da sua cultura do que admitiria, e que diante dos padrões da Inglaterra vitoriana mostrou: traços típicos das limitações de seu tempo”. Como moças aristocráticas, suas filhas tinham aulas de piano, canto e desenho, mesmo que não tivessem desenvoltura para tais atividades artísticas. Também em 1843, Marx conheceu a Liga dos Justos (que mais tarde tornar-se-ia Liga dos Comunistas). Em 1844, Friedrich Engels visitou Marx em Paris por alguns dias. A amizade e o trabalho conjunto entre ambos, que se iniciou nesse período, só seria interrompido com a morte de Marx. Na mesma época, Marx também se encontrou com Pierre-Joseph Proudhon, com quem teve discussões polêmicas e muitas divergências. E conheceu rapidamente Mikhail Aleksandrovitch Bakunin, então refugiado do czarismo russo e militante socialista. No seu período em Paris, Marx intensificou os seus estudos sobre economia política, os socialistas utópicos franceses e a história da França, produzindo reflexões que resultaram nos “Manuscritos de Paris”, mais conhecidos como “Manuscri-tos Econômico-Filosóficos”. De acordo com Engels, foi nesse período que Marx aderiu às ideias socialistas. De Paris, Marx ajudou a editar uma publicação de pequena circulação chamada “Vorwärts!”, que contestava o regime político alemão da época. Por conta disto, Marx foi expulso da França em 1845 a pedido do governo prussiano. Migrou então para Bruxelas, para onde Engels também viajou. Entre outros escritos, a dupla redigiu na Bélgica o “Manifesto Comunista”. Em 1848, Marx foi expulso de Bruxelas pelo governo belga. Junto com Engels, mudou-se para Colônia, onde fundam o jornal Nova Gazeta Renana. Após ataques às autoridades locais publicados no jornal, Marx foi expulso de Colônia em 1849. Até 1848, Marx viveu confortavelmente com a renda oriunda de seus trabalhos, seu salário e presentes de amigos e aliados, além da herança legada por seu pai. Entretanto, em 1849 Marx e sua família enfrentaram grave crise financeira; após superarem dificuldades conseguiram chegar a Paris, mas o governo francês proibiu-os de fixar residência em seu território. Graças, então, a uma campanha de arrecadação de donativos promovida por Ferdinand Lassalle na Alemanha, Marx e família conseguem migrar para Londres, onde fixaram residência definitiva trabalhar como correspondente em Londres para o New York Tribune onde declarou seu apoio público ao governo de Abraham Lincoln durante a Guerra da Secessão.

Morte

Deprimido pela morte de sua esposa em Dezembro de 1881, Marx desenvolveu, em consequência dos problemas de saúde que suportou ao longo de toda a vida, bronquite e pleurisia, que causaram seu falecimento em 1883. Foi enterrado na condição de apátrida, no Cemitério de Highgate, em Londres. Muitos dos amigos mais próximos de Marx prestaram-lhe homenagem no seu funeral, incluindo Wilhelm Liebknecht e Friedrich Engels. Este pronunciou as seguintes palavras: “Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições estatais por esta suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta era seu elemento. E ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com quem poucos puderam rivalizar. (...) Como consequência, Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado de seu tempo. Governos, tanto absolutistas como republicanos, deportaram-no de seus territórios. Burgueses, quer conservadores ou ultrademocráticos, porfiavam entre si ao lançar difamações contra ele. Tudo isso ele punha de lado, como se fossem teias de aranha, não tomando conhecimento, só respondendo quando necessidade extrema o compelia a tal. E morreu amado, reverenciado e pranteado por milhões de colegas trabalhadores revolucionários – das minas da Sibéria até a Califórnia, de todas as partes da Europa e da América - e atrevo-me a dizer que, embora, muito embora, possa ter tido muitos adversários, não teve nenhum inimigo pessoal”. Em 1954, o Partido Comunista Britânico construiu uma lápide com o busto de Marx sobre sua tumba, até então de decoração muito simples. Na lápide, estão inscritos o parágrafo final do Manifesto Comunista (“Proletários de todos os países, uni-vos!”) e um trecho extraído das “Teses sobre Feuerbach”: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras, enquanto que o objetivo é mudá-lo”.

Influências

Algumas das principais leituras e estudos feitos por Marx são:

    • A Filosofia Alemã de Kant, Hegel e dos neo-hegelianos (como Ludwig Feuerbach e Moses Hess);
    • O Socialismo Utópico (representado por Saint-Simon, Robert Owen, Louis Blanc e Proudhon);
    • A Economia Política Clássica Britânica (representada por Adam Smith, David Ricardo e outros).

Ele estudou profundamente todas essas concepções ao mesmo tempo em que as questionou e desenvolveu novos temas, de modo a produzir uma profunda reorientação no debate intelectual europeu.

Influência da filosofia idealista

Hegel foi professor da Universidade de Jena, a mesma instituição onde Marx cursou o doutorado. E, em Berlim, Marx teve contato prolongado com as ideias dos Jovens Hegelianos (também chamados de "hegelianos de esquerda"). Os dois principais aspectos do sistema de Hegel que influenciaram Marx foram sua filosofia da história e sua concepção dialética. Para Hegel, nada no mundo é estático, tudo está em constante processo (vir-a-ser); tudo é histórico, portanto. O sujeito desse mundo em movimento é o Espírito do Mundo (também chamado de Superalma ou Consciência Absoluta), que representa a consciência humana geral, comum a todos indivíduos e manifesta na ideia de Deus. A historicidade é concebida enquanto história do progresso da consciência da liberdade. As formas concretas de organização social correspondem a imperativos ditados pela consciência humana, ou seja, a realidade é determinada pelas ideias dos homens, que concebem novas ideias de como deve ser a vida social em função do conflito entre as ideias de liberdade e as ideias de coerção ligadas a condição natural ("selvagem") do homem. O homem se liberta progressivamente de sua condição de existência natural através de um processo de "espiritualização" – reflexão filosófica (ao nível do pensamento, portanto) que conduz o homem a perceber quem é o real sujeito da história. Marx considerou-se um "hegeliano de esquerda" durante certo tempo, mas rompeu com o grupo e efetuou uma revisão bastante crítica dos conceitos de Hegel após tomar contato com as concepções de Ludwig Feuerbach. Manteve o entendimento da história enquanto progressão dialética (ou seja, o mundo está em processo graças ao choque permanente entre os opostos; não é estático), mas eliminou o Espírito do Mundo enquanto sujeito ou essência, porque passou a compreender que a origem da realidade social não reside nas ideias, na consciência que os homens têm dela, mas sim na ação concreta (material, portanto) dos homens, portanto no trabalho humano. A existência material precede qualquer pensamento; inexiste possibilidade de pensamento sem existência concreta. Marx inverte, então, a dialética hegeliana, porque coloca a materialidade – e não as ideias – na gênese do movimento histórico que constitui o mundo. Elabora assim a dialética materialista, construída como uma crítica ao materialismo de Feuerbach e um conceito não desenvolvido por Marx que também costuma ser chamado de materialismo dialético). “A mistificação por que passa a dialética nas mãos de Hegel não o impede de ser o primeiro a apresentar suas formas gerais de movimento, de maneira ampla e consciente. Em Hegel, a dialética está de cabeça para baixo. É necessária pô-la de cabeça para cima, a fim de descobrir a substância racional dentro do invólucro místico”.—Karl Marx, em “O Capital”.


Influência do socialismo utópico

À época de Marx, "socialismo utópico" designava um conjunto de doutrinas diversas (e até antagônicas entre si) que tinham em comum, entretanto, duas características básicas: (1) a base determinante do comportamento humano residia na esfera moral/ideologia e (2) o desenvolvimento das civilizações ocidentais estava a permitir uma nova era onde iria imperar a harmonia social. Marx criticou sagazmente as ideias dos socialistas utópicos (principalmente dos franceses, com os quais mais polemizou), acusando-os de muito romantismo ingênuo e pouca ou nenhuma dedicação ao estudo rigoroso da conjuntura social, pois os socialistas utópicos muito diziam sobre como deveria ser a sociedade harmônica ideal, mas nada indicavam sobre como seria possível alcançá-la plenamente. Além de criticar o socialismo utópico, ele também criticou o socialismo pequeno burguês, o "socialismo feudal" reacionário e o "socialismo conservador". Por outro lado, pode-se dizer que, de certa forma, Marx adotou – explícita ou implicitamente – algumas noções contidas nas ideias de alguns dos socialistas utópicos, como a noção de que o aumento da capacidade de produção decorrente da revolução industrial permite condições materiais mais confortáveis à vida humana ou ainda a noção de que as crenças ideológicas do sujeito lhe determinam o comportamento. É importante destacar uma diferença primordial: para os socialistas utópicos em geral, todo o comportamento humano é absolutamente determinado pela moral/ideologia, já para Marx, essa afirmação é parcialmente verdadeira, pois a moral/ideologia encontra-se submetida a uma outra condição anterior que lhe determina – a dimensão material da reprodução da existência.

Influência da economia política clássica

Marx empreendeu um minucioso estudo de grande parte da teoria econômica ocidental, desde escritos da Grécia antiga até obras que lhe eram contemporâneas. As contribuições que julgou mais fecundas foram as elaboradas por dois economistas políticos britânicos: Adam Smith e David Ricardo (tendo predileção especial por Ricardo, a quem chamava de "o maior dos economistas clássicos"). Na obra deste último, Marx encontrou conceitos – então bastante utilizados no debate britânico – que, após fecunda revisão e reelaboração, adotou em definitivo, como os de valor, divisão social do trabalho, acumulação primitiva e mais-valia. A avaliação do grau de influência da obra de Ricardo sobre Marx é bastante desigual. Estudiosos pertencentes à tradição neo-ricardiana tendem a considerar que existem poucas diferenças cruciais entre o pensamento econômico de um e outro; já estudiosos ligados à tradição marxista tendem a delimitar diferenças fundamentais entre eles. Apesar de Marx ter sido influenciado pelo utilitarismo radical de Jeremy Bentham na área econômica, ele admite que a sociedade possa dedicar parte de seu tempo a atividades não produtivas depois de que ela tenha atingido seus objetivos econômicos.

Colaboração de Engels


Friedrich Engels exerceu significativa influência sobre as reflexões intelectuais de Marx, principalmente no início da associação entre ambos, período em que dirigiu a atenção de Marx para a economia Política e a história econômica da Europa. Após a morte deste, Engels tornou-se não só o organizador dos muitos manuscritos incompletos e/ou inéditos legados, mas também o primeiro intérprete e sistematizador das ideias de Marx. Engels igualmente se ocupou, desde bem antes do falecimento de seu amigo, de redigir exposições em termos populares das ideias de Marx, visando facilitar sua difusão.

Teoria e obras

A teoria marxista é, substancialmente, uma crítica radical das sociedades capitalistas, mas é uma crítica que não se limita a teoria em si: Marx se posiciona contra qualquer separação drástica entre teoria e prática, entre pensamento e realidade, porque essas dimensões são abstrações mentais (categorias analíticas) que, no plano concreto, real, integram uma mesma totalidade complexa. O marxismo constitui-se como a concepção materialista da História, longe de qualquer tipo de determinismo, mas compreendendo a predominância da materialidade sobre a ideia, sendo esta possível somente com o desenvolvimento daquela, e a compreensão das coisas em seu movimento, em sua inter-determinação, que é a dialética. Portanto, não é possível entender os conceitos marxianos — como forças produtivas ou capital — sem levar em conta o processo histórico, pois não são conceitos abstratos e sim uma abstração do real, tendo como pressuposto que o real é movimento. Karl Marx compreende o trabalho como atividade fundante da humanidade. E o trabalho, sendo a centralidade da atividade humana, se desenvolve socialmente, sendo o homem um ser social. Sendo os homens seres sociais, a História, isto é, suas relações de produção e suas relações sociais fundam todo processo de formação da humanidade. Esta compreensão e concepção do homem é radicalmente revolucionária em todos os sentidos, pois é a partir dela que Marx irá identificar a alienação do trabalho como a alienação fundante das demais. E com esta base filosófica é que Marx compreende todas as demais ciências, tendo sua compreensão do real influenciado cada dia mais a ciência por sua consistência.

Metodologia

Segundo Marx, Hegel e seus seguidores criaram uma dialética mistificada, que buscava explicar a história mundial a partir da economia e como auto-desenvolvimento da Ideia absoluta. Já os economistas clássicos naturalizavam e desistoricizaram o modo de produção capitalista, concebendo a dominação de classe burguesa como uma ordem natural das relações econômicas, a partir de um conceito abstrato de indivíduo, homo economicus. Por isso, os economistas clássicos recorriam a "robsonadas", isto é, narrativas de trocas de produtos entre caçadores e pescadores primitivos, para ilustrar as suas teorias econômicas. Marx atribuía essa mistificação ao fetichismo da mercadoria, e não a uma intenção consciente. Em oposição aos filósofos idealistas e aos economistas clássicos, Marx propunha a investigação do desenvolvimento histórico das formas de produção e reprodução social, partindo do concreto para o abstrato e do abstrato para o concreto.

Classes sociais

Em razão da  divisão social do trabalho  e dos meios, a sociedade se extrema entre possuidores e os não detentores dos meios de produção. Surgem, então, a  classe dominante e a classe dominada, sendo a classe dominante aquela que mantém poder sobre os meios de produção e a classe dominada a que se sujeita a dominante para obter os bens produzidos. O Estado aparece para representar os interesses da classe dominante e cria, para isso, inúmeros aparatos para manter a estrutura da produção. Esses aparatos são nomeados por Marx de infraestrutura  e condicionam o desenvolvimento de ideologias e normas reguladoras, sejam elas políticas, religiosas, culturais ou econômicas, para assegurar os interesses dos proprietários dos meios de produção.

Crítica da religião

Para Marx a crítica da religião é o pressuposto de toda crítica social, pois crê que as concepções religiosas tendem a desresponsabilizar os homens pelas consequências de seus atos. [48] Marx tornou-se reconhecido como crítico sagaz da religião devido a sentença que profere em um escrito intitulado Crítica da filosofia do direito de Hegel: “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma situação carente de espírito. É o ópio do povo”. Em verdade, Marx se ocupou muito pouco em criticar sistematicamente a atividade religiosa. Nesse quesito ele basicamente seguiu as opiniões de Ludwig Feuerbach, para quem a religião não expressa a vontade de nenhum Deus ou outro ser metafísico: é criada pela fabulação dos homens.

Revolução

Apesar de alguns leitores de Marx adjetivarem-no de “teórico da revolução”, inexiste em suas obras qualquer definição conceitual explícita e específica do termo "revolução". O que Marx oferece são descrições e projeções históricas inspiradas nos estudos que fez acerca das revoluções francesa, inglesa e norte-americana. Um exemplo de prognóstico histórico desse tipo encontra-se em “Contribuição Para a Crítica da Economia Política”: “Numa certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é apenas uma expressão jurídica delas, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social”. Em geral, Marx considerava que toda revolução é necessariamente violenta, ainda que isso dependa, em maior ou menor grau, da constrição ou abertura do Estado. A necessidade de violência se justifica porque o Estado tenderia sempre a empregar a coerção para salvaguardar a manutenção da ordem sobre a qual repousa seu poder político, logo, a insurreição não tem outra possibilidade de se realizar senão atuando também violentamente. Diferente do apregoado pelos pensadores contratualistas, para Marx o poder político do Estado não emana de algum consenso geral, é antes o poder particular de uma classe particular que se afirma em detrimento das demais. A revolução se daria no âmbito da necessidade de sobrevivência, pois segundo ele as forças produtivas em seu ápice passariam a se tornar destrutivas. Importante notar que Marx não entende revolução enquanto algo como reconstruir a sociedade a partir de um zero absoluto. Na Crítica ao Programa de Gotha, por exemplo, indica claramente que a instauração de um novo regime só é possível mediada pelas instituições do regime anterior. O novo é sempre gestado tendo o velho por ponto de partida. A revolução proletária, que instauraria um novo regime sem classes, só obteria sucesso pleno após a conclusão de um período de transição que Marx denominou socialismo.

Crítica ao anarquismo

Criticou o anarquismo por sua visão tida como ingênua do fim do Estado onde se objetiva acabar com o Estado "por decreto", ao invés de acabar com as condições sociais que fazem do Estado uma necessidade e realidade. Na obra “Miséria da Filosofia”, elabora suas críticas ao pensamento do anarquista Proudhon. Também criticou o blanquismo com sua visão elitista de partido, por ter uma tendência autoritária e superada. Posicionou-se a favor do liberalismo, não como solução para o proletariado, mas como premissa para maturação das forças produtivas (produtividade do trabalho) das condições positivas e negativas da emancipação proletária, como a da homogeneização da condição proletária internacional gerado pela "globalização" do capital. Sua visão política era profundamente marcada pelas condições que o desenvolvimento econômico ofereceria para a emancipação proletária, tan-to em sentido negativo (desemprego), como em sentido positivo (em que o próprio capital centralizaria a economia, exemplo: multinacionais).

Práxis

Na lógica da concepção materialista da História, não é a realidade que move a si mesma, mas comove os atores, trata-se sempre de um "drama histórico" (termo que Marx usa em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”) e não de um "determinismo histórico" que cairia num materialismo mecânico (positivismo), oposto ao materialismo dialético de Marx, que poderia ser definido como uma "dialética realidade-idealidade evolutiva". Ou seja, as relações entre a realidade e as ideias se fundem na práxis, e a práxis é o grande fundamento do pensamento de Marx. Pois sendo a história uma produção humana, e sendo as ideias produto das circunstâncias em que tais ideais brotaram, fazer história racionalmente é a grande meta. É o próprio fazer da história que criará suas condições objetivas e subjetivas adjacentes, já que a objetividade histórica é produto da humanidade (dos homens associados, luta política, etc). E, assim, Marx finaliza as “Teses Sobre Feuerbach”, não se trata de interpretar diferentemente o mundo, mas de transformá-lo, pois a própria interpretação está condicionada ao mundo posto, só a ação revolucionária produz a transcendência do mundo vigente.

Mais-valia

O conceito de mais-valia foi empregado por Karl Marx para explicar a obtenção dos lucros no sistema capitalista. Para Marx, o trabalho gera a riqueza, portanto, a mais-valia seria o valor extra da mercadoria, a diferença entre o que o empregado produz e o que ele recebe. Os operários em determinada produção produzem bens (ex: 100 carros num mês). Se dividirmos o valor dos carros pelo trabalho realizado dos operários, teremos o valor do trabalho de cada operário. Entretanto os carros são vendidos por um preço maior: esta diferença é o lucro do proprietário da fábrica. A esta diferença, Marx chama de "valor excedente ou maior", ou mais-valia. Segundo ele, o lucro teria uma tendência decrescente devido a necessidade de se investir na produção, à medida que a remuneração dos trabalhadores estaria submetida a mais-valia.

O Capital


A grande obra de Marx é “O Capital”, na qual trata de fazer uma extensa análise da sociedade capitalista. É predominantemente um livro de Economia Política, mas não só. Nesta obra monumental, Marx discorre desde a economia, até a sociedade, cultura, política e filosofia. É uma obra analítica, sintética, crítica, descritiva, científica, filosófica, etc. Uma obra de difícil leitura, ainda que suas categorias não tenham a ambiguidade especulativa própria da obra de Hegel, possui, no entanto, uma linguagem pouco atraente e nem um pouco fácil. Dentro da estrutura do pensamento de Marx, só uma obra como “O Capital” é o principal conhecimento, tanto para a humanidade em geral, quanto para o proletariado em particular, já que através de uma análise radical da realidade que está submetido, só assim poderá se desviar da ideologia dominante ("a ideologia dominante" é sempre da "classe dominante"), como poderá obter uma base concreta para sua luta política. Sobre o caráter da abordagem econômica das formações societárias humanas, afirmou Alphonse De Waelhens: “O marxismo é um esforço para ler, por trás da pseudo-imediaticidade do mundo econômico reificado as relações inter-humanas que o edificaram e se dissimularam por trás de sua obra”. Cabe lembrar que “O Capital” é uma obra incompleta, tendo sido publicado apenas o primeiro volume com Marx vivo. Os demais volumes foram organizados por Engels e publicados posteriormente.

Outras obras

Na obra “A Ideologia Alemã”, Marx apresenta os pressupostos de seu novo pensamento. No “Manifesto Comunista”, apresenta sua tese política básica, propondo a construção de uma nova sociedade, derrubando a burguesia através da luta contra a propriedade privada de poucos. No ensaio “Sobre a Questão Judaica”, apresenta sua crítica à religião, dizendo que não se deve apresentar questões humanas como teológicas, mas as teológicas como questões humanas, e que afirmar ou negar a existência de Deus, são ambas teologia. Para ele, deve-se sempre ver as religiões como reflexões fantasiosas do ser humano acerca de si mesmo, mas que representam a condição real a qual está submetido o ser humano. Em “Crítica ao Programa de Gotha”, Marx faz sua mais extensa e sistemática apresentação do que seria uma sociedade socialista. Em “A Guerra Civil na França”, Marx supera todas as suas tendências jacobinas de antes e defende claramente que só com o fim do Estado o proletariado oferece a si mesmo as condições de manter o próprio poder recém conquistado, e o fim do Estado é literalmente o "povo em armas", ou seja, o fim do "monopólio da violência" que o Estado representa. Em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, além da profunda análise sobre o terror da "burocracia", outros aspectos marcantes são a questão do campesinato como aliado da classe operária na revolução iminente, o papel dos partidos políticos na vida social e uma caracterização profunda da essência do bonapartismo. Karl Marx foi um dos poucos ideólogos que acompanharam todo o percurso de instabilidade política francesa pós-revolução francesa, revolução industrial e globalização sendo que influenciou muito na obra do autor e contribuiu para alimentar os debates políticos dentro da esquerda.

Recepção da obra

Durante a vida de Marx, suas ideias receberam pouca atenção de outros estudiosos. Talvez o maior interesse tenha se verificado na Rússia, onde, em 1872, foi publicada a primeira tradução do “Tomo I” de O Capital. Na Alemanha, a teoria de Marx foi ignorada durante bastante tempo, até que, em 1879, Adolph Wagner, um alemão estudioso da economia política, comentou o trabalho de Marx ao longo de uma obra intitulada “Allgemeine oder Theoretische Volkswirthschaftslehre”. A partir de então, os escritos de Marx começaram a atrair cada vez mais atenção. Ao final do século XIX, o principal local de debate da teoria de Marx era o Partido Social-Democrata da Alemanha. Contudo, nos primeiros anos após sua morte, sua teoria obteve crescente influência intelectual e política sobre os movimentos operários e, em menor proporção, sobre os círculos acadêmicos ligados às ciências humanas – notadamente na Universidade de Viena e na Universidade de Roma, primeiras instituições acadêmicas a oferecerem cursos voltados para o estudo de Marx. Marx foi herdeiro da filosofia alemã, considerado ao lado de Kant, Nietzsche e Hegel um de seus grandes representantes. Foi um dos maiores (para muitos, o maior) pensadores de todos os tempos, tendo uma produção teórica com a extensão e densidade de um Aristóteles, de quem era um admirador. Marx criticou ferozmente o sistema filosófico idealista de Hegel. Enquanto que, para Hegel, "da realidade se faz filosofia", para Marx, a filosofia precisa incidir sobre a realidade. Para transformar o mundo, é necessário vincular o pensamento à prática revolucionária, união conceitualizada como práxis: união entre teoria e prática.

Legado

As ideias de Marx tiveram um profundo impacto na política mundial e pensamento intelectual. Os seguidores de Marx vêm debatendo entre si sobre como interpretar seus escritos e aplicar seus conceitos para o mundo moderno. O legado do pensamento de Marx tornou-se objeto de contestação entre inúmeras tendências, cada uma se vendo como a intérprete mais precisa de Marx. Na esfera política, estas tendências incluem o leninismo, marxismo-leninismo, trotskismo, maoismo, luxemburguismo e o marxismo libertário. Várias correntes também se desenvolveram no marxismo acadêmico, muitas vezes sob influência de outros pontos de vista, resultando no marxismo estruturalista, marxismo histórico, fenomenológica marxista, marxismo analítico e marxismo hegeliano. Do ponto de vista acadêmico, a obra de Marx contribuiu para o nascimento da sociologia moderna. Ele tem sido citado como um dos três mestres da "escola cínica" do séc. XIX, ao lado de Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, e como um dos três principais arquitetos da ciência social moderna juntamente com Émile Durkheim e Max Weber. Em contraste com outros filósofos, Marx ofereceu teorias que, muitas vezes, poderiam ser testadas com o método científico. Tanto Marx quanto Auguste Comte começaram a desenvolver ideologias cientificamente fundadas durante a secularização europeia e novos desenvolvimentos na filosofia da história e ciência. Trabalhando na tradição hegeliana, Marx rejeitou o positivismo sociológico comtiano na tentativa de desenvolver uma ciência da sociedade. Karl Löwith considerou Marx e Søren Kierkegaard os dois maiores sucessores filosóficos de Hegel. Na teoria sociológica moderna, a sociologia marxista é reconhecida como uma das principais perspectivas clássicas. Isaiah Berlin considera Marx o verdadeiro fundador da sociologia moderna, "na medida em que qualquer um pode reivindicar o título". Além da ciência social, ele também teve um legado duradouro na filosofia, na literatura, nas artes e nas humanidades. Na teoria social, pensadores do século XX e XXI adotaram duas estratégias principais em resposta a Marx: a primeira, conhecida como marxismo analítico, tende a reduzi-lo ao seu núcleo analítico, e precisa sacrificar suas ideias mais interessantes e intrigantes; a segunda, mais comum, dilui as reivindicações explicativas da teoria social de Marx e enfatiza a “autonomia relativa” dos aspectos da vida social e econômica, não diretamente relacionadas com a narrativa central de Marx: a interação entre o desenvolvimento das forças de produção e a sucessão dos modos de produção. Nesta segunda estratégia, incluem-se, por exemplo, a teorização neomarxista — adotada pelos historiadores inspirados na teoria social de Marx como E. P. Thompson e Eric Hobsbawm — e a linha de pensamento adotada por pensadores e ativistas como Antonio Gramsci, que têm procurado entender as oportunidades e as dificuldades da prática política transformadora vista à luz da teoria social marxista. Gramsci desenvolveu o conceito de revolução passiva, a qual é definida como "revolução sem revolução". Politicamente, o legado de Marx é mais complexo. Ao longo do século XX, ocorreram revoluções em dezenas de países que se auto-rotularam de "marxistas", mais notavelmente a Revolução Russa, que levou à fundação da URSS. Líderes mundiais como Vladimir Lenin, Mao Zedong, Fidel Castro, Salvador Allende, Josip Tito e Kwame Nkrumah citaram Marx como uma influência, e suas ideias estão presentes em vários partidos políticos em todo o mundo, além daqueles onde ocorreram "revoluções marxistas". As ditaduras brutais associadas com algumas nações marxistas levaram oponentes políticos a culpar Marx por milhões de mortes, mas a fidelidade destes líderes, partidos e revoluções à obra de Marx é contestada e rejeitada por muitos marxistas. Atualmente, é comum distinguir entre o legado e a influência de Marx especificamente, e o legado e influência de suas ideias para fins políticos.

Críticas

Em “A Miséria do Historicismo” (1936), Karl Popper discorda de Marx quanto à história ser regida por leis que, se compreendidas, podem servir para se antecipar o futuro. Segundo Popper, a história não pode obedecer a leis e a ideia de "lei histórica" é uma contradição em si mêsma. Já em “A Sociedade Aberta e seus Inimigos” (1945), Popper afirma que o historicismo conduz necessariamente a uma sociedade "tribal" e "fechada", com total desprezo pelas liberdades individuais. Popper considera Marx como "não-científico" também porque sua teoria não é passível de contestação. Uma teoria científica tem que ser falseável - caso contrário, é incluída no campo das crenças ou ideologias. Resta saber, é claro, se afirmações sobre fatos históricos, necessariamente únicos, podem ser, nos termos de Popper, falseáveis. Ludwig von Mises, em “Ação Humana – um Tratado de Economia” (1949), tentou demonstrar a impossibilidade de se organizar uma economia nos moldes socialistas, pela ausência do sistema de preços, que, segundo ele, funcionaria como sinalizador aos empreendedores acerca das necessidades dos consumidores. Aponta, desta forma, que cálculo econômico sem o equivalente universal (dinheiro) só poderia ser medido pelo tempo de trabalho. Mises ainda levanta que estatizar todos os produtos acabaria com o mercado, e na ausência da lei da oferta e da demanda não seria possível fazer o cálculo de preço. Sem o cálculo de preço, seria inviabilizada a economia planificada – e consequentemente o socialismo. Mises também refinou argumentos formulados por Eugen von Böhm-Bawerk na obra “Marxism Unmasked: from Delusion to Destruction”. Raymond Aron em “O Ópio dos Intelectuais” (1955), criticou de forma agressiva os intelectuais seguidores de Marx e condenou a teoria da revolução e o determinismo histórico. Eric Voegelin relata em seu livro “Reflexões Autobiográficas” que, induzido pela onda de interesse sobre a Revolução Russa de 1917, estudou 'O Capital' de Marx e foi marxista entre Agosto e Dezembro de 1919. Porém, durante seu curso universitário, ao estudar disciplinas de teoria econômica e história da teoria econômica, aprendera o que estava errado em Marx. Voegelin afirma que Marx comete uma grave distorção ao escrever sobre Hegel. Como prova de sua afirmação, cita os editores dos “Frühschiften” (Escritos de Juventude) de Karl Marx (Kröner, 1953), especialmente Siegfried Landshut, que dizem o seguinte sobre o estudo feito por Marx da “Filosofia do Direito” de Hegel: “Ao equivocar-se deliberadamente sobre Hegel, se nos é dado falar desta maneira, Marx transforma todos os conceitos que Hegel concebeu como predicados da ideia em enunciados sobre fatos”. Marx acreditava que a história humana é regida pela luta de classes. Para Pitirim Sorokin, a história do mundo não é definida unicamente pelo conflito entre as classes sociais e, segundo ele: “A cooperação entre as classes sociais, é um fenômeno ainda mais universal do que o antagonismo entre elas”. Apesar de dizer que Marx trouxe, em alguns aspectos, um progresso maior para a sociedade do que figuras como Margaret Thatcher, em “Thinkers of the New Left” (1985), Roger Scruton afirma: “Consideremos as teorias de Karl Marx: desde sua primeira aparição, estas têm despertado as controvérsias mais vivas e é pouco provável que tenham permanecido intocadas. O fato, me parece, é que todas as teorias marxistas já foram refutadas em sua essência: a teoria da história por Maitland, Weber e Sombart; a teoria do valor por Eugen von Böhm-Bawerk, Mises, Sraffa e muitos outros; a teoria da consciência falsa, alienação e luta de classes por um vasto grupo de pensadores, de Mallock a Sombart e Popper e de Hayek a Aron”. Revendo posições anteriores sobre a ideia de reformismo ontológico, o historiador marxista Jacob Gorender afirma que o proletariado é ontologicamente, em si, reformista, e descarta uma teleologia na história, em sua obra “Marxismo sem Utopia” (1999).

Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Biografia de Isidoro de Sevilha

Isidoro de Sevilha
Isidoro de Sevilha (em latim: Isidorus Hispalensis). Nasceu c.560, em Cartagena, e, faleceu a 04 de Abril de 636, em Sevilha. Isidoro serviu como arcebispo de Sevilha por mais de três décadas e é considerado, nas palavras do historiador do século XIX Charles Forbes René de Montalembert numa frase muito citada, "o último acadêmico do mundo antigo". Na época da desintegração da cultura clássica, marcada por violência aristocrática e analfabetismo, Isidoro se envolveu na conversão da casa real visigótica, ariana, ao catolicismo, ajudando seu irmão Leandro de Sevilha, e continuando seu trabalho depois de sua morte. Ele era muito influente no círculo mais íntimo de Sisebuto, o rei da Hispânia Visigótica e, com Leandro, destacou-se nos Concílios de Toledo e Sevilha. Sua fama depois de morto baseou-se em sua “Etymologiae”, uma enciclopédia que juntou fragmentos de muitos livros antigos que, não fosse por isso, teriam sido completamente perdidos.

Biografia
Infância e educação

Isidoro nasceu provavelmente em Cartagena, na Hispânia, filho de Severiano e Teodora. Seu pai pertencia a uma família hispano-romana de alto status enquanto que sua mãe era de origem visigótica e, aparentemente, uma parente distante da realeza de seu povo. Seus pais eram membros de uma influente família que foi instrumental para as difíceis manobras político-religiosas que acabaram convertendo o rei visigodo do arianismo ao catolicismo. A Igreja Católica celebra Isidoro e todos os seus irmãos como santos:
  • Um irmão mais velho, São Leandro de Sevilha, foi o predecessor imediato de Isidoro como arcebispo de Sevilha e, no cargo, se opôs ao rei Leovigildo.
  • Um irmão mais novo, São Fulgêncio de Cartagena, serviu como bispo de Ástigis no início do reinado do agora católico rei Recaredo
  • Sua irmã, Santa Florentina, serviu a Deus como freira e supostamente governava quarenta conventos com mil religiosas consagradas. Este número é possivelmente exagerado, porém, dado que havia poucas instituições monásticas funcionando na Península Ibérica durante sua vida, a alegação pode ser crível.

Isidoro recebeu sua educação infantil na escola da Catedral de Sevilha. Ali, a primeira do tipo na Península, um corpo docente que incluía São Leandro, ensinava o trívio e o quadrívio, as artes liberais clássicas. Isidoro dedicou-se aos estudos diligentemente a ponto de rapidamente aprender um bom nível de latim, noções de grego e alguma coisa de hebreu. Dois séculos de controle gótico da Ibéria foi suficiente para que fossem gradualmente suprimidas as antigas instituições, o ensino clássico e os costumes do Império Romano. Ainda assim, o governo dos visigodos mostrou algum respeito pelos aspectos visíveis da cultura romana, que entrou num longo período de declínio. Em paralelo, o arianismo se enraizou profundamente entre os visigodos como a forma do cristianismo oficial na região.

Bispo de Sevilha

Estudiosos ainda debatem se Isidoro chegou em algum momento a abraçar a vida monástica ou se teria se afiliado a alguma ordem religiosa, mas o fato é que ele estimava muito os monges. Depois da morte de Leandro em 13 de março de 600 (ou 601), Isidoro sucedeu-o como arcebispo em Sevilha. Ao ser elevado ao episcopado, ele imediatamente passou a se considerar um protetor dos monges. Ele reconheceu que o bem-estar material e espiritual do povo de sua sé dependia da fusão do que restava da cultura romana com a classe governante bárbara e, assim, tentou amalgamar os povos e costumes do Reino Visigótico para construir uma única nação. Isidoro utilizou todos os recursos religiosos que tinha à mão em busca disso e conseguiu. Ele praticamente erradicou o arianismo e sufocou a nova heresia dos acéfalos ainda no nascedouro. Isidoro reforçou ainda a disciplina religiosa e utilizou a educação para contrapor a crescente influência do barbarismo gótico na sua sé. Sua personalidade estimulante fez prosperar um movimento educacional centrado em Sevilha e apresentou aos seus conterrâneos a obra de Aristóteles muito antes de os árabes se destacaram no estudo da antiga filosofia grega. Em 619, Isidoro declarou anátema contra qualquer clérigo que, da forma que fosse, molestasse os mosteiros. Na mesma época, Isidoro presidiu o Segundo Concílio de Sevilha, que abriu seus trabalhos em 13 de novembro de 619 durante o reinado de Sisebuto (r. 612–621), e contou com a presença dos bispos da Gália Narbonense e de prelados da Hispânia. Os atos do concílio reafirmam inequivocamente a definição católica sobre Jesus Cristo e afastam as concepções arianas.

Quarto Concílio de Toledo

Todos os bispos da Hispânia compareceram ao Quarto Concílio de Toledo, iniciado em 5 de dezembro de 633. O já idoso arcebispo Isidoro presidiu aos trabalhos e provavelmente foi o originador de grande parte dos decretos do concílio. Por influência dele, foi promulgado um decreto que comandava que todos os bispos criassem seminários nas suas cidades seguindo o exemplo da escola da Catedral de Sevilha, onde o próprio Isidoro havia estudado décadas antes. Seu decreto prescrevia o estudo do grego, hebraico e das artes liberais, além de encorajar o interesse em direito e medicina. A autoridade do concílio tornou a sua política educacional obrigatória para todos os bispos do Reino Visigótico.

Morte

Santo Isidoro de Sevilha morreu em 04 de abril de 636 depois de servir mais de trinta e dois anos como arcebispo de Sevilha.

Obras

O estilo do latim de Isidoro nas suas obras, inclusive a “Etymologiae”, embora simples e lúcido, revela a crescente influência local das tradições visigóticas.

“Etymologiae”
 
Etymologiae
Isidoro foi o primeiro escritor cristão a tentar compilar uma summa do conhecimento universal em sua obra-prima, a “Etymologiae”, conhecida também pelos classicistas como “Origines” (abreviada como “Orig.”). Esta enciclopédia - a primeira epítome do tipo cristã - consistia de uma enorme compilação em 448 capítulos divididos em vinte volumes. Nela, Isidoro, de forma concisa, resumiu manuais, "miscelâneas" e compêndios romanos, continuando uma tradição de resumos e sumários que caracterizou a literatura romana da Antiguidade Tardia. Por conta disso, muitos fragmentos do ensino clássico que seriam perdidos não fosse por isso, foram preservados; "na realidade, na maior parte das suas obras, incluindo a "Origines", ele contribuiu pouco mais do que o papel de cimento que liga fragmentos de outros autores, como se soubesse de suas próprias deficiências e confiando mais no 'stilus maiorum' do que no seu próprio", lembra Katherine Nell MacFarlane, que traduziu a sua obra para o inglês. Por outro lado, algumas das obras de onde saíram estes fragmentos só se perderam porque a obra de Isidoro era considerada tão importante – Bráulio de Saragoça chamou-a de “quecunque fere sciri debentur” (praticamente tudo que é preciso saber) - que muitos prescindiam das versões originais dos clássicos, que acabaram não sendo recopiados e, portanto, se perderam: “todo o conhecimento secular que era útil para um estudioso cristão foi selecionado e publicado num prático volume; não era preciso procurar mais [em outro lugar]”. A fama de sua obra deu renovado ímpeto às enciclopédias e o resultado se mostraria muito proveitoso nos séculos seguintes da Idade Média. A "Etymologiae" era o compêndio mais popular nas bibliotecas medievais e teve pelo menos dez edições entre 1470 e 1530, o que demonstra que Isidoro era ainda muito popular durante a Renascença. Até o século XII, quando traduções das fontes árabes dos originais clássicos começaram a aparecer na Europa, Isidoro foi o responsável por transmitir adiante o pouco que os europeus ainda se lembravam das obras de Aristóteles e outros gregos, mesmo tendo em conta o limitado conhecimento que ele próprio tinha do grego.

Mapa T e O de "Etymologiae"

 
Mapa T-O
Eles são um tipo de mapa-múndi medieval, descrevendo o mundo segundo a ideia de Isidoro de Sevilha em sua publicação Etymologiae. O disco de Isidoro, refere-se ao mapa-múndi do século XIII. Este mapa esta dividido em três continentes: Ásia, África e Europa. O mapa apresenta claramente referências cristãs em suas escritas, como nomes encontrados na Bíblia, escritos embaixo de cada continente. O mapa foi uma grande revolução na Cartografia da Idade Média,por ser extremamente realista e ser muito próximo aos mapas que temos hoje em dia. O disco de São Isidoro, serviu como referência até o final da Idade Média (século XV), aonde os Renascentistas com as novas descobertas, e principalmente com a descoberta do "Novo Mundo" (Américas), começaram a elaborar novos tipos de mapas. Ele é também considerado como “o Mapa Origem”....
"Nova historia Integrada", de João Paulo Hidalg Mesquita

Da Fé Católica Contra os Judeus

“De Fide Catholica Contra Iudaeos” (Da Fé Católica Contra os Judeus), de Isidoro, expande as ideias de Santo Agostinho sobre a presença dos judeus nas sociedades cristãs. Como ele, Isidoro aceitou a necessidade da presença judaica por causa do papel que se esperava que eles teriam na muito aguardada Segunda Vinda de Cristo. No livro, Isidoro supera a polêmica anti-rabínica de seus antecessores ao criticar as práticas judaicas como sendo deliberadamente insinceras. Entre as suas contribuições para o Quarto Concílio de Toledo, duas se referem aos judeus: o cânone 60 ordena que crianças sejam removidas à força de pais que praticam o criptojudaísmo para serem educadas por cristãos e o cânone 65 proíbe judeus e cristãos de origem judaica de ocuparem cargos públicos.

Outras obras

As demais obras de Isidoro, todas em latim, incluem:
  • "Historia de Regibus Gothorum, Vandalorum et Suevorum”, uma história dos reis góticos, vândalos e suevos;
  • “Chronica Majora”, uma história universal;
  • “De Differentiis Verborum”, um breve tratado sobre a doutrina da Trindade, a natureza de Cristo, do Paraíso, anjos e homens;
  • “Sobre a Natureza das Coisas”, um livro de astronomia e história natural dedicado ao rei visigodo Sisebuto;
  • “Questões Sobre o Antigo Testamento”;
  • Um tratado místico sobre o significado alegórico dos números;
  • Diversas epístolas;
  • “Sententiae Libri Tres” (Codex Sang. 228; século IX).
  • "De Viris Illustribus”;
  • "De Ecclesiasticis Officiis”.

Legado

Isidoro foi um dos últimos dos antigos filósofos cristãos, o último grande Padre latino e um contemporâneo de Máximo, o Confessor. Alguns consideram-no como a pessoa mais erudita do seu tempo e é fato que ele exerceu uma incomensurável e abrangente influência sobre a vida educacional da Idade Média. Seu amigo e contemporâneo, Bráulio de Saragoça, considerava-o como uma pessoa enviada por Deus para salvar os povos ibéricos da onda bárbara que ameaçava inundar a antiga civilização da Hispânia. O Oitavo Concílio de Toledo (653) relembrou a admiração dedicada a ele da seguinte forma: "O extraordinário doutor, o último ornamento da Igreja Católica, o mais erudito das idades antigas, a ser sempre lembrado com reverência, Isidoro". Seu tributo foi endossado ainda pelo Décimo-quinto Concílio de Toledo, realizado em 688. Isidoro foi enterrado em Sevilha e seu túmulo era um importante ponto de peregrinação para os moçárabes durante os séculos subsequentes à conquista árabe da Hispânia visigótica. Em meados do século XI, com a divisão de *Alandalus em *taifas depois do fim do Califado de Córdoba e do crescente poderio cristão na Península, Fernando I de Leão se viu em condições de exigir um tributo dos enfraquecidos estados árabes.

*Alandaus: foi o nome dado à Península Ibérica (com a Septimânia) no século VIII, a partir do domínio do Califado Omíada, tendo o nome sido utilizado para se referir à Península independentemente do território politicamente controlado pelas forças islâmicas. Contudo, hoje utiliza-se o termo para referir os territórios que se diferenciam dos reinos cristãos.
*Taifas: O termo taifa, no contexto da história ibérica, refere-se a um principado muçulmano independente, um emirato ou pequeno reino existente na Península Ibérica (o Alandalus) após a derrocação do califa Hixam II (da dinastia omíada) e a abolição do Califado de Córdoba em 1031.

Além do dinheiro, Almutadide, o governante abádida de Sevilha (r. 1042-1069), aceitou entregar-lhe as relíquias de Isidoro. Isidoro foi canonizado pela Igreja Católica em 1598 pelo Papa Clemente VIII e declarado Doutor da Igreja em 1722 por Inocêncio XIII. No “Paraíso” de Dante Alighieri (X.130), Isidoro é mencionado entre outros teólogos e Doutores da Igreja.
 

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Organon - Aristóteles

Aristóteles
Organon (do grego, ὄργανον) é o nome tradicionalmente dado ao conjunto das obras sobre lógica de Aristóteles. Significa "instrumento" ou “ferramenta” porque os peripatéticos consideravam que a lógica era um instrumento da filosofia e, a partir daí, passaram a designar o conjunto de textos de Aristóteles a esse respeito. Com essa denominação, os peripatéticos da Antiguidade Tardia marcavam uma diferença com relação aos estoicos, que por sua vez tomavam a lógica como uma parte da filosofia. O Órganon abre o Corpus Aristotelicum e é composto pelos livros:
  • Categorias,
  • Da Interpretação,
  • Analíticos Anteriores,
  • Analíticos Posteriores,
  • Tópicos,
  • Refutações Sofísticas.

O próprio Aristóteles não designou que esses livros formassem um conjunto, muito menos deu um título único que os englobasse, mas essa tradição tem suas bases na antiguidade. Justamente por ocupar a primeira posição na leitura das obras de Aristóteles, o conjunto recebeu mais atenção que todo o resto das suas obras, sendo proporcionalmente mais reproduzida e comentada que as demais.

Composição e Ordem Interna

Atualmente, as seguintes obras de Aristóteles compõem o Órganon, nesta ordem. Vai ao lado a ideia que normalmente se tem da obra:
  • Categorias: tratado sobre os termos tomados individualmente (por exemplo, “homem”, “branco”).
  • Da Interpretação (mais conhecido pelo título latino De Interpretatione): tratado sobre os enunciados (p.ex.: “homem é branco”).
  • Analíticos Anteriores (também chamados de Primeiros Analíticos), em 2 livros: tratado sobre o raciocínio (em grego, συλλογισμός, silogismo, também traduzido por “dedução”. Exemplo de silogismo: “Todo animal é mortal”, “Todo homem é animal”, logo “Todo homem é mortal”.)
  • Analíticos Posteriores (também chamados de Segundos Analíticos), em 2 livros: tratado do raciocínio científico (ou demonstração ou silogismo demonstrativo).
  • Tópicos, em 8 livros: manual para debates de opiniões aceitas pela sociedade (silogismo dialético).
  • Elencos Sofísticos (também conhecidos como Refutações Sofísticas): manual para perceber erros argumentativos e solucioná-los.

Essa composição, porém, não é unânime. Muitos antigos e medievais, principalmente siríacos e árabes, incluíam nesse conjunto também a Retórica e a Poética. Por outro lado, uma ou outra obra, ou parte de obra, já foi considerada inautêntica (ou seja, não escrita pelo próprio Aristóteles), o que implicaria tirá-la do conjunto. Ademais, o “Isagoge” de Porfírio é uma introdução às Categorias que muitas vezes foi editado junto às outras, mas sempre demarcando-se, obviamente, que não se tratava de uma obra de Aristóteles. Assim, havia uma versão longa desse conjunto com a seguinte ordem: 1º: Isagoge, 2º: Cat., 3º: De Int., 4º: An.Ant., 5º: An. Pos., 6º: Tóp., 7º: El.Sof., 8º: Retórica, 9º: Poética. Em todo caso, porém, os estudiosos hoje se referem a somente as seis obras acima quando falam sem especificar de Órganon. Os títulos das obras que compõem o conjunto também podem ser discutidos, pois os Analíticos anteriores e os Analíticos posteriores são citados por Aristóteles como uma única obra, cujo nome seria “Analíticos” simplesmente e os Elencos sofísticos são considerados um nono livro dos Tópicos. A rigor, então, seriam quatro obras. Entretanto, vem desde a Antiguidade e ainda hoje é seguida a tradição de dividir em dois Analíticos e de separar os Elencos sofísticos dos Tópicos. Existem outras formas de ordenar internamente as obras. Começar as edições do Organon (e de todo o Corpus Aristotélico) pelas Categorias é quase uma unanimidade. Existe, contudo, a seguinte ordem, presente no catálogo de um certo Ptolomeu: 1º: Cat., 2º: De Int., 3º: Tóp., 4º: An.Ant., 5º: An.Pos. e 6º: El.Sof. E é possível também pensar numa ordem em que as Categorias estejam imediatamente antes dos Tópicos, fazendo jus a um dos seus antigos títulos (algo como “Pré-Tópicos”). Não há, em todo o caso, um critério cronológico ao assim ordenar o Órganon. Sabe-se que não antes dos neoplatônicos, no século IV, a ordem acima foi estabelecida e o critério deles de ordenação segue uma preocupação pedagógica, segundo o seguinte pensamento: a demonstração é o assunto principal da lógica; portanto, antes de chegarmos a ela, devemos estudar seus elementos, a saber, os termos, as proposições e o silogismo em geral; cada um desses assuntos é tema de uma obra, a saber, das Categorias, o Da Interpretação e os Analíticos Anteriores, respectivamente. E é óbvio que se deve começar do mais elementar até chegar à demonstração; por isso, a ordem Cat., Int., AAn e APo. Em seguida, deve-se estudar algumas coisas que, de alguma forma, nos ajudam a evitar o que não é demonstração, pois são coisas que podem se parecer com demonstração, sem o ser verdadeiramente; daí o estudo da dialética e da sofística em Tópicos e Elencos Sofísticos".

Unidade, Posição no Corpus Aristotelicum e Título

Se Aristóteles escreveu cada uma das seis obras, ele não escreveu, contudo, um “Órganon”, no sentido de que ele nunca pensou em separar tais obras das demais pondo-as em um conjunto, nem em dar-lhes um único título, nem em assim ordená-las. Não há uma unidade original no Órganon. No entanto, é fácil ver certa unidade entre os Analíticos e os Tópicos, pelos assuntos abordados, pela terminologia usada e pelas mútuas referências. O Da Interpretação e principalmente as Categorias, porém, entram no conjunto forçadamente; inclusive, no catálogo das obras de Aristóteles presente em Diógenes Laércio, que, por sua vez, é uma cópia de um catálogo helenista, as Categorias e o Da Interpretação aparecem separados dos demais. Não se sabe quem foi o primeiro a juntar essas seis obras. É difícil que tenha sido Andrônico de Rodes, crucial editor do “Corpus” no século I antes de Cristo, porque ele considerava todo o De Interpretatione inautêntico. Porém, a ideia de posicionar as obras lógicas no começo de todas as obras de Aristóteles com certeza veio de Andrônico. Sabe-se que ele fez uma edição muito organizada na qual os livros eram arranjados segundo temas comuns e que ele considerava que a lógica deveria ser estudada primeiro. Essa escolha de Andrônico garantiu um lugar de destaque para o Órganon dentre todas as demais obras de Aristóteles e é uma das principais razões por que este foi mais conservado, traduzido e comentado do que as demais. Usar a palavra Órganon para intitular esse conjunto só veio a acontecer a partir do século XV com os comentadores latinos. Contudo, já no século VI d.C., vemos Amônio, filho de Hermias, e seu discípulo João Filopono (Joannes Philoponus) classificar tais obras, junto com a Retórica e a Poética, de “instrumentais”.

Instrumentalidade da lógica

Apesar da forte tradição, o próprio Aristóteles também nunca declarou expressamente que o raciocínio ou a demonstração (que, por sua vez, são estudados por aquilo que depois dele recebeu o nome "lógica") eram um instrumento para as ciências. Na Antiguidade Tardia, no entanto, alguns comentadores, inclusive não aristotélicos como Diógenes Laércio, atribuíam essa doutrina a Aristóteles; Alexandre de Afrodísias assume abertamente que o filósofo assim pensava. Já que atualmente não se considera que Aristóteles tenha nomeado a disciplina que estuda raciocínios de instrumento, não se sabe ao certo quando teriam começado essa ideia. Tem ganhado aceitação, porém, a tese de que foi o editor Andrônico de Rodes; a argumentação passa pelo fato que ele teria considerado que a lógica deveria ser estudada primeiro justamente porque é preciso conhecer o instrumento de trabalho para melhor cumprir sua função. Seja como for, desde Alexandre de Afrodísia (ver início de seus Comentários aos Analíticos Anteriores), a instrumentalidade da lógica aparece também em contextos críticos contra a lógica estoica. Zenão de Cítio, fundador do estoicismo, dividia a filosofia em três partes: a física, a ética e a lógica e as relacionavam entre si de modo sistemático. A lógica seria parte da filosofia, que se retirada mutilaria a própria filosofia, e não um instrumento exterior, que, por mais útil que seja, não faria falta à verdade. Os seguidores de Aristóteles se lançam contra essa ideia e defendem que a lógica é antes uma ferramenta. Há uma ideia alternativa que é atribuída a Platão e que foi adotada pelos neoplatônicos a partir do século V: a de que a lógica era tanto instrumento quanto parte da filosofia; essa ideia também aparece em Boécio (Anício Mânlio Torquato Severino Boécio), século VI.

Manuscritos mais importantes e Edições críticas

Os manuscritos do Órganon são, proporcionalmente, bem mais numerosos que os do resto do Corpus. Dos mais de mil manuscritos gregos restantes, cerca de duzentos e cinquenta (um quarto) possuem ou alguma obra do Órganon, ou ele todo, embora este só corresponda a cerca de um décimo de todas as obras restantes de Aristóteles. Os manuscritos mais importantes para as edições contemporâneas do Organon são o A=Vaticanus Urbinas 35, do ano de 901, B= Marcianus 201, de 955 e o n=Ambrosianus 490 (L 93 sup.), do século IX. A letra inicial signifa a família de manuscritos e o nome em latim, o local onde se encontra. Edições críticas são edições em língua original nas quais se comparam diversos manuscritos e se notifica à no rodapé as variações, os pontos de discordância, entre eles. Existe uma edição crítica exclusiva do Órganon, ainda hoje reimpressa:
  • WAITZ, Th. Organon graece, novis codicum auxiliis adiutus recognovit, scholiis ineditis et commentario instruxit Theodorus Waitz. Leipzig: 1844-6. Vol. 1: Categoriae, De Interpretation, Analytica priora. Vol. 2: Analytica posteriora, Topica, Elenchi Sophistici.

Mas também há, obviamente, edições críticas do Órganon em edições completas do Corpus Aristotelicum.

Traduções para línguas modernas

É comum ver traduções separadas dos livros do Órganon, mas traduções completas, em uma mesma edição, são mais raras. Abaixo, algumas traduções completas.

Português

Órganon. Tradução do grego e notas de Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimarães Editores, 1987. Órganon. Tradução do grego, textos adicionais e notas de Edson Bini. Bauru: Edipro, 2005.

Francês

TRICOT, J. (Editor). Aristote, Organon. Paris: 1946-50. Volume 1: Catégories; v. 2: De l’interprétation; v. 3: Premiers Analytiques; v.4: Seconds Analytiques; v.5: Topiques; v.6: Les Réfutarions sophistiques.

Italiano

COLLI, Giorgio (tradutor). Aristotele, Organon. Torino: Einaudi, 1955.


Referências
https://pt.wikipedia.org/wiki/Organon