Jean-Paul
Charles Aymard Sartre. Nasceu em Paris, a 21
de Junho de 1905, e, faleceu também em Paris, a 15 de Abril de 1980.
Sartre foi um filósofo, escritor e crítico francês, conhecido como
representante do existencialismo. Acreditava que os intelectuais têm
de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante,
e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra.
Repeliu as distinções e as funções oficiais e, por estes motivos,
se recusou a receber o Nobel de Literatura de 1964. Sua filosofia
dizia que no caso humano (e só no caso humano) a existência precede
a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto
todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso
sem ter uma "essência" posterior à existência. Professor
de Filosofia, durante a ocupação alemã de seu país esteve preso
durante um ano, conseguindo fugir com o auxílio de membros de
resistência francesa. Expoente máximo da filosofia
existencialista, derivada do pensamento de Heidegger,
Husserl e
Kierkegaard,
para os quais, em termos simples, o homem é pura existência sem
nenhuma essência, e cuja única realidade é a sua inexorável
marcha para a morte, para o nada. Sua principal obra é O Ser e o
Nada. Defendeu a tese de que a “existência precede a essência”,
em O Ser e o Nada, ou seja, de que a personalidade do indivíduo não
determina o seu destino, que se constitui por livres decisões. Desta
maneira não existe natureza humana universal ou definitiva, porém,
indivíduos que constroem seus projetos de existência, dentro da sua
“situação”, ou circunstância histórica. Sartre sustentou
inúmeras polêmicas contra católicos e marxistas.
Biografia
| Desenho de Sartre feito por Reginald Gray para o The New York Times. (Imagem: Reginald gray). |
Jean-Paul Sartre
era filho de Jean-Baptiste
Marie Eymard Sartre,
oficial da marinha francesa e de Anne-Marie
Sartre
(Nascida Anne Marie Schweitzer). Quando seu filho nasceu,
Jean-Baptiste tinha uma doença crônica adquirida em uma missão na
Cochinchina. Após o nascimento de Jean-Paul, ele sofreu uma recaída
e retirou-se com a família para Thiviers, sua terra natal, onde
morreu em 21 de Setembro de 1906. Jean-Paul, órfão de pai, e então
com 15 meses, muda-se para Meudon com sua mãe, onde passam a viver
na casa de seus avós maternos. O avô de Sartre, Charles Schweitzer
nasceu em uma tradicional família protestante alsaciana da qual faz
parte, entre outros, o famoso missionário Albert
Schweitzer,
sobrinho de Charles. Ao fim da guerra franco-prussiana, Charles optou
pela cidadania francesa e tornou-se professor de alemão em Mâcon
onde conheceu e casou-se com Louise
Guillemin,
de origem católica, com quem teve três filhos, George,
Émile
e Anne-Marie.
Após o regresso de Anne-Marie, os quatro viveram em Meudon até
1911. O pequeno "Poulou", como Jean-Paul era chamado,
dividia o quarto com a mãe. Em seu romance autobiográfico "As
Palavras"
(Les
Mots)
confessa que desde cedo a considerava mais como uma irmã mais velha
do que como mãe. De sua infância ao fim da adolescência, Sartre
vive uma vida tipicamente burguesa, cercado de mimos e proteção.
Até os 10 anos foi educado em casa por seu avô e por alguns
preceptores contratados. Com pouco contato com outras crianças, o
menino tornou-se, em suas próprias palavras, um "cabotino"
e aprendeu a usar a representação para atrair a atenção dos
adultos com sua precocidade. Em 1911, a família Schweitzer mudou-se
para Paris. Passa a ter acesso à biblioteca de obras clássicas
francesas e alemãs pertencente ao seu avô. Após aprender a ler,
Jean-Paul alterna a leitura de Victor
Hugo,
Flaubert,
Mallarmé,
Corneille,
Maupassant
e Goethe,
com os quadrinhos e romances de aventura que sua mãe comprava
semanalmente às escondidas do avô. Sartre considerava serem essas
suas "verdadeiras leituras", uma vez que a leitura dos
clássicos era feita por obrigação educacional. A essas
influências, junta-se o cinema, que frequentava com sua mãe e que
se tornaria mais tarde um de seus maiores interesses. Sartre conta em
"As Palavras" que escrevia histórias na infância também
como uma forma de mostrar-se precoce. Suas primeiras histórias eram
cópias de romances de aventura, em que apenas alguns nomes eram
alterados, mas ainda assim faziam sucesso entre os familiares. Era
incentivado pela mãe, pela avó, pelo tio (que o presenteou com uma
máquina de escrever) e por uma professora, a sra. Picard, que via
nele a vocação de escritor profissional. Aos poucos, o jovem Sartre
passou a encontrar sua verdadeira vocação na escrita. Apenas seu
avô o desencorajava da escrita e o incentivava a seguir carreira de
professor de letras. Sem enxergar nele o talento que os demais viam,
mas conformado com o fato de que seu neto "tinha a bossa da
literatura", incentivou Sartre a tornar-se professor por
profissão e escrever apenas como segunda atividade. Assim, Sartre
atribui ao avô a consolidação de sua vocação de escritor:
"Perdido, aceitei, para obedecer a Karl, a carreira de escritor
menor. Em suma, ele me atirou na literatura pelo cuidado que
desprendeu em desviar-me dela". Em 14 de Abril de 1917 sua mãe
casa-se novamente, com Joseph
Mancy,
que passa a ser co-tutor de Sartre. Livre da dependência dos pais,
Anne-Marie muda-se com Sartre para a casa de Mancy em La Rochelle.
Nesta cidade litorânea, Sartre toma contato pela primeira vez com
imigrantes árabes, chineses e negros. Mais tarde ele reconheceria
esse período como a raiz de seu anticolonialismo e o início do
abandono dos valores burgueses.
1921 a 1936: a formação do filósofo
| Sartre junto a Simone de Beauvoir e Che Guevara, em Cuba, em 1960. (Imagem: Alberto Korda). |
Em
1921 retorna ao Liceu Henri IV, agora como interno. Encontra Paul
Nizan
e os dois tornam-se amigos inseparáveis. De 1922 a 1924, ambos
estudam no curso preparatório do liceu Louis-le-Grand, onde se
preparam para o concurso da École
Normale Superieure.
Nessa época despertou seu interesse pela filosofia. Sua primeira
influência importante foi a obra de Henri
Bergson.
Em 1924 ingressou na École
Normale Supérieure
na mesma turma de Nizan,
Daniel
Agache
e Raymond
Aron.
Músico e ator talentoso e sempre disposto a participar de
brincadeiras e eventos sociais, Sartre torna-se muito popular entre
os colegas. Os alunos da escola se dividem em grupos de afinidades
religiosas ("ateus" e "carolas"), e facções
políticas: Socialistas, comunistas, reacionários, pacifistas.
Sartre adere aos ateus e aos pacifistas e enquanto Aron e Nizan
aderem aos círculos socialistas e comunistas e começam a participar
da vida política francesa, Sartre mantém o individualismo e o
desinteresse pela política que conservaria até o fim da Segunda
Guerra. No campo filosófico, além de Bergson,
passou a ler Nietzsche,
Kant,
Descartes
e Spinoza.
Já na escola começa a desenvolver as primeiras ideias de uma
filosofia da liberdade leiga, da oposição entre os seres e a
consciência, do absurdo e da contingência que ele viria a
desenvolver posteriormente em suas grandes obras filosóficas. Seu
principal interesse filosófico é o indivíduo e a psicologia. Em
1928 presta o exame de mestrado e é reprovado. Durante o ano de
preparação para a segunda tentativa, estuda com Nizan
e René
Maheu
na Sorbonne. Conhece a namorada de Maheu, Simone
de Beauvoir
que mais tarde se tornaria sua companheira e colaboradora até o fim
da vida. Maheu havia apelidado Simone de Beauvoir de "Castor",
devido à semelhança de seu nome com Beaver
(Castor em inglês) e também "porque ela trabalhava como um
castor". Sartre assume o apelido e passa a chamá-la de Castor
pessoalmente e em todas as cartas que lhe escreveu. Na segunda
tentativa do mestrado, Sartre passa em primeiro lugar, no mesmo ano
em que Beauvoir obtém a segunda colocação. Sartre
e Beauvoir nunca formaram um casal monogâmico. Não se casaram e
mantinham uma relação aberta. Sua correspondência é repleta de
confidências sobre suas relações com outros parceiros. Além da
relação amorosa, eles tinham uma grande afinidade intelectual.
Beauvoir colaborou com a obra filosófica de Sartre, revisava seus
livros e também se tornou uma das principais filósofas do movimento
existencialista. Sua obra literária também inclui diversos volumes
autobiográficos, que frequentemente relatam o processo criativo de
Sartre e dela mesma. Entre 1929 e 1931, Sartre presta o serviço
militar e torna-se soldado meteorologista. Escreve alguns contos e
começa a trabalhar em seu primeiro romance, "Factum
sur la Contingeance"
(Panfleto sobre a Contingência), que depois viria a se chamar "La
Nausée"
(A náusea). Embora tenha se candidatado ao cargo de auxiliar de
catedrático no Japão, ele é nomeado professor de filosofia de um
liceu em Havre onde permanece até 1936. Sartre ainda seria professor
em Laon e Paris até 1944, quando abandonou definitivamente o
magistério. Em 1933, ele é apresentado à fenomenologia de Husserl
por Raymond
Aron,
que havia retornado de um período como bolsista do Institut
Français
em Berlim. Percebendo a semelhança dessa corrente à sua própria
teoria da contingência, Sartre fica fascinado e imediatamente começa
a estudar a fenomenologia através de uma obra introdutória. Por
sugestão de Aron, candidata-se à mesma bolsa e, aprovado, permanece
em Berlim entre 1933 e 1934. Durante esta viagem, estuda a fundo a
obra de Husserl e conhece também a filosofia de Martin
Heidegger.
Publica em 1936 o artigo La
Transcendence de l'Égo
(A
Transcendência do Ego),
uma crítica à teoria do Ego Husserliana que por sua vez se baseava
no Cogito
cartesiano. Sartre desafia o conceito de que o ego é um conteúdo da
consciência e afirma que ele está fora da consciência, no mundo e
a consciência se dirige a ele como a qualquer outro objeto do mundo.
Este é um dos primeiros passos para livrar a consciência de
conteúdos e torná-la o "Nada" que mais tarde seria um dos
conceitos-chave do existencialismo. De volta à França, continua a
trabalhar nas mesmas ideias e entre 1935 e 1939 escreve L'Imagination
(A Imaginação), L'Imaginaire
(O Imaginário) e Esquisse
d'une théorie des émotions
(Esboço de uma teoria das emoções). Volta então suas pesquisas
para Heiddegger e começa a escrever L´Être
et le néant
(O ser e o nada). Em 1938 publica o romance La
Nausée
(A náusea) e a coletânea de contos Le
mur
(O muro). A náusea apresenta, em forma de ficção, o tema da
contingência e torna-se seu primeiro sucesso literário, o que
contribui para o início da influência de Sartre na cultura francesa
e no surgimento da moda existencialista que dominou Paris na década
de 1940.
Em
1939 Sartre volta ao exército francês, servindo na Segunda Guerra
Mundial como meteorologista. Em Nancy é aprisionado no ano de 1940
pelos alemães, e permanece na prisão até Abril de 1941. De volta a
Paris, alia-se à Resistência Francesa, onde conhece e se torna
amigo de Albert
Camus
(do qual já conhecia a obra e sobre quem já havia escrito um ensaio
elogioso a respeito do livro O
Estrangeiro).
A amizade entre Sartre e Camus perdurará até 1952, quando os dois
rompem a relação publicamente devido à publicação do livro do
Camus O
Homem Revoltado
no qual Camus ataca criticamente o Stalinismo.
Sartre defendia uma relação de colaboração critica com o regime
da URSS e permitiu a publicação de uma crítica desastrosa sobre o
livro do Camus em sua revista Les
Temps Modernes
(crítica esta que Camus respondeu de maneira extremamente dura) e
que foi a gota d´água para o fim da relação de amizade). Mas até
o final da vida Sartre admirará Camus, como ele mesmo expressa nas
entrevistas que teve com Simone de Beauvoir em 1974 - e que ela
publicou postumamente. Em 1943 publica seu mais famoso livro
filosófico, L'Être
et le Néant
(O
Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica),
que condensa todos os conceitos importantes da primeira fase de seu
sistema filosófico. Sua participação na Resistência não é
aceita por todos, e o filósofo Vladimir
Jankélévitch
o reprova por sua "falta de engajamento político" durante
a ocupação alemã, e vê em seus posteriores combates em prol da
liberdade uma tentativa de se redimir por esta atitude. Em 1945, ele
cria e passa a dirigir junto a Maurice
Merleau-Ponty
a revista Les
Temps Modernes
(Tempos Modernos), onde são tratados mensalmente os temas referentes
à literatura, filosofia e política. Além das contribuições para
a revista, Sartre escreve neste período algumas de suas obras
literárias mais importantes. Sempre encarando a literatura como meio
de expressão legítima de suas crenças filosóficas e políticas,
escreve livros e peças teatrais que tratam das escolhas que os
homens tomam frente às contingências às quais estão sujeitos.
Entre estas obras destacam-se a peça Entre
Quatro Paredes
(Huis
Clos)
(1945) e a trilogia Os
Caminhos da Liberdade
(Les
Chemins de la Liberté)
composta pelos romances A
Idade da Razão
(L'age
de Raison)
(1945), Sursis
(Le
Sursis)
(1947) e Com
a Morte na Alma
(Le
Mort dans l'âme) (1949). No
período mais prolífico de sua carreira escreve ainda várias peças
de teatro e ensaios. Na década de 1950 assume uma postura política
mais atuante, e abraça o comunismo. Torna-se ativista, e
posiciona-se publicamente em defesa da libertação da Argélia do
colonialismo francês. A aproximação do marxismo
inaugura a segunda parte da sua carreira filosófica em que tenta
conciliar as ideias existencialistas de autodeterminação aos
princípios marxistas. Por exemplo, a ideia de que as forças
sócio-econômicas, que estão acima do nosso controle individual,
têm o poder de modelar as nossas vidas. Escreve então sua segunda
obra filosófica de grande porte, A
Crítica da Razão Dialética
(La
Critique de la Raison Dialectique)
(1960), em que defende os valores humanos presentes no marxismo, e
apresenta uma versão alterada do existencialismo que ele julgava
resolver as contradições entre as duas escolas. Considerado por
muitos o símbolo do intelectual
engajado,
Sartre adaptava sempre sua ação às suas ideias, e o fazia sempre
como ato político. Em 1963 Sartre escreve Les
Mots
(As palavras, lançado em 1964), relato autobiográfico que seria sua
despedida da literatura. Após dezenas de obras literárias, ele
conclui que a literatura funcionava como um substituto para o real
comprometimento com o mundo. Em 1964 recebe o Nobel
de Literatura,
que ele recusa pois segundo ele "nenhum
escritor pode ser transformado em instituição".
Morre em 15 de Abril de 1980 no Hospital Broussais
(em Paris). Seu funeral foi acompanhado por mais de 50 000 pessoas.
Está enterrado no Cemitério
de Montparnasse
em Paris. No mesmo túmulo jaz Simone
de Beauvoir.
- 1905 - Sartre nasce em Paris em 21 de Junho.
- 1907 - Morte de seu pai. Muda-se para a casa do avô materno, em Meudon; retorna a Paris quatro anos depois.
- 1924 - Sartre matricula-se na Escola Normal Superior, em Paris.
- 1929 - Conhece Simone de Beauvoir.
- 1931 - É nomeado professor de filosofia no Havre.
- 1936 - Sartre publica A Imaginação e A Transcendência do Ego.
- 1940 - Servindo na guerra, Sartre é feito prisioneiro pelos alemães e enviado a um campo de concentração.
- 1941 - Liberto, volta à França e entra para a Resistência. Funda o movimento Socialismo e Liberdade.
- 1943 - Publica O Ser e o Nada.
- 1945 - Sartre dissolve Socialismo e Liberdade e funda, com Merleau-Ponty, a revista Les Temps Modernes.
- 1952 - Sartre ingressa no Partido Comunista Francês.
- 1956 - Rompe com o Partido Comunista. Escreve O Fantasma de Stálin.
- 1960 - Sartre publica Crítica da Razão Dialética.
- 1964 - Publica As Palavras. Recusa o Nobel de Literatura por acreditar que "nenhum escritor pode ser transformado em instituição"
- 1968 - Durante a revolta estudantil na França e em várias partes do mundo, Sartre põe-se ao lado dos estudantes da barricada.
- 1970 - Sartre assume simbolicamente a direção do jornal esquerdista La Cause de Peuple, em protesto à prisão de seus diretores.
- 1971 - Publica O Idiota da Família.
- 1973 - Colabora na fundação do jornal libertário Libération.
- 1980 - Morre em 15 de Abril.
O existencialismo de Sartre
Baseado
principalmente na fenomenologia
de Edmund
Husserl
e em 'Ser
e Tempo'
de Martin
Heidegger,
o existencialismo sartriano procura explicar todos os aspectos da
experiência humana. A maior parte deste projeto está sistematizada
em seus dois grandes livros filosóficos: O
ser e o nada
e Crítica
da razão dialética.
É
importante postular que a forma como Sartre entende aquilo que ele
batiza de "Em-si",
termo emprestado de Hegel, é diferente daquilo que outros pensadores
da existência, como Heidegger, irão compreender o mesmo campo.
Segundo o existencialismo sartriano, o mundo é povoado de "Em-si".
Podemos entender um Em-si como qualquer objeto existente no mundo e
que não é nada além daquilo que é. Este modo de aparição do
ser, que não é o único, é fundamentado em três características:
o ser é, o ser é o que é, o ser é em-si. Estas três
características poderíamos resumir dizendo que este ser é opaco a
si mesmo, absoluta plenitude de ser, retomando, segundo Gerd
Bornheim,
a idéia de um ser esférico presente em Parmênides,
que não pode ser penetrado por nada externo a ele. A grosso modo,
podemos dizer que possuem o modo de ser do Em-si todos aqueles
objetos
, que não possuem consciência, que não se fundam na alteridade, na
presença do outro. Um ser Em-si não tem potencialidades nem
consciência de si ou do mundo. Ele apenas é.
A
consciência humana é um tipo diferente de ser, por possuir
conhecimento a seu próprio respeito e a respeito do mundo. É uma
forma diferente de ser, chamada Para-si.
É o Para-si que faz as relações temporais e funcionais entre os
seres Em-si, e ao fazer isso, constrói um sentido para o mundo em
que vive. O Para-si não tem uma essência definida. Ele não é
resultado de uma ideia pré-existente. O existencialismo sartriano
desconsidera a existência de um criador que tenha predeterminado a
essência e os fins de cada pessoa. É preciso que o Para-si exista,
e durante essa existência ele define, a cada momento o que é sua
essência. Cada pessoa só tem como essência imutável, aquilo que
já viveu. Posso saber que o que fui se definiu por algumas
características ou qualidades, bem como pelos atos que já realizei,
mas tenho a liberdade de mudar minha vida deste momento em diante.
Nada me compete a manter esta essência, que só é conhecida em
retrospecto. Podemos afirmar que meu ser passado é um Em-si, possui
uma essência conhecida, mas essa essência não é predeterminada.
Ela só existe no passado. Por isso se diz no existencialismo que "a
existência precede e governa a essência".
Por esta mesma razão cada Para-si tem a liberdade de fazer de si o
que quiser.
| Sartre e Beauvoir, no Balzac Memorial. |
Sartre
defende que o homem é livre e responsável por tudo que está à sua
volta. Somos inteiramente responsáveis por nosso passado, nosso
presente e nosso futuro. Em Sartre, temos a ideia de liberdade como
uma pena, por assim dizer. "O homem está condenado a ser
livre". Se, como Friedrich
Nietzsche
afirmava, já não havia a existência de um deus que pudesse
justificar os acontecimentos, a ideia de destino, passava a ser
inconcebível, sendo então o homem o único responsável por seus
atos e escolhas. Para Sartre, nossas escolhas são direcionadas por
aquilo que nos aparenta ser o bem, mais especificamente por um
engajamento naquilo que aparenta ser o bem e assim tendo consciência
de si mesmo. Em outras palavras, para o autor, o homem é um ser que
"projeta
tornar-se deus".
Segundo o comentário de Artur
Polônio,
"se
a vida não tem, à partida, um sentido determinado , não podemos
evitar criar o sentido de nossa própria vida".
Assim, "a vida nos obriga a escolher entre vários caminhos
possíveis [mas] nada nos obriga a escolher uma coisa ou outra".
Assim, dentro dessa perspectiva, recorrer a uma suposta ordem divina
representa apenas uma incapacidade de arcar com as próprias
responsabilidades. Sartre não nega por completo o determinismo, mas
determina o ser humano através da liberdade, não somos, afinal,
livres para não ser livres. Afinal de contas, não é deus, nem a
natureza, tampouco a sociedade que nos define, que define o que somos
por completo ou nossa conduta. Somos o que queremos ser, o que
escolhemos ser; e sempre poderemos mudar o que somos. o quem irá
definir. Os valores morais não são limites para a liberdade. Em
Paris, sob o domínio alemão, Sartre pôde utilizar suas referências
para a liberdade. Organizava-se a Resistência Francesa. Sartre
desejava participar do movimento, mas agindo a sua maneira. Não
chegou a pegar no fuzil. Sua arma continuava sendo a palavra. Nesta
circunstância, o teatro parecia-lhe o instrumento mais adequado para
atingir o público e transmitir sua mensagem. Assim surgiu a primeira
peça teatral de Sartre, As Moscas, encenada em 1943. Animado pelo
êxito de sua primeira experiência, em 1945 Sartre volta à cena com
a peça Entre
Quatro Paredes,
cujos personagens vivem os grandes problemas existenciais que o autor
aborda em sua filosofia.
A
liberdade dá ao homem o poder de escolha, mas está sujeita às
limitações do próprio homem. Esta autonomia de escolha é limitada
pelas capacidades físicas do ser. Para Sartre, porém, estas
limitações não diminuem a liberdade, pelo contrário, são elas
que tornam essa liberdade possível, porque determinam nossas
possibilidades de escolha, e impõem, na verdade, uma liberdade de
eleição da qual não podemos escapar.
| Casa de Hélène de Beauvoir (irmã de Simone) em Goxwiller, onde Sartre tentou se esconder da mídia depois de ser agraciado com o Prêmio Nobel. |
Segundo
Raymond
Plant,
em seu livro Política,
Teologia e História,
o argumento de que a essência precede a existência implica a
necessidade de um criador; assim, quando um objeto vai ser produzido
(um martelo, uma caneta, uma máquina), ele obedece a um plano
pré-concebido, que estabelece sua forma, suas principais
características e sua função, ou seja, ele possui um propósito
definido, uma essência que define sua forma e utilidade, e precede a
sua existência. Sendo Sartre um representante do existencialismo
ateu, ele defende que há um ser onde essa situação se inverte, e a
existência precede a essência: o ser humano. Assim, seria o próprio
homem o definidor de sua essência, e não Deus, como advogava o
existencialismo cristão. Em sua conferência "O
existencialismo é um humanismo",
Sartre afirma que o ser humano é o único nesta condição; nós
existimos antes que nossa essência seja definida. Esse seria um dos
preceitos básicos do Existencialismo. Assim, o autor nega a
existência de uma suposta "essência humana"
(pré-concebida), seja ela boa ou ruim. As nossas escolhas cabem
somente a nós mesmos, não havendo, assim, fator externo que
justifique nossas ações. O responsável final pelas ações do
homem é o próprio homem. Nesse sentido, o existencialismo sartriano
concede importante relevo à responsabilidade: cada escolha carrega
consigo a obrigação de responder pelos próprios atos, um encargo
que torna o homem o único responsável pelas consequências de suas
decisões. E cada uma dessas escolhas provoca mudanças que não
podem ser desfeitas, de forma a modelar o mundo de acordo com seu
projeto pessoal. Assim, perante suas escolhas, o homem não apenas
torna-se responsável por si, mas também por toda a humanidade. Essa
responsabilidade é a causa da angústia dos existencialistas. Essa
angústia decorre da consciência do homem de que são as suas
escolhas que definirão a sua essência, e mais, de que essas
escolhas podem afetar, de forma irreversível, o próprio mundo. A
angústia, portanto, vem da própria consciência da liberdade e da
responsabilidade em usá-la de forma adequada. Sartre nega, ainda, a
suposição de que haja um propósito universal, um plano ou destino
maior, onde seríamos apenas atores de um roteiro definido. Isto
implica que apenas nós mesmos definimos nosso futuro, através de
nossa liberdade de escolha. Porém, Sartre não se restringe em
"justificar" a angústia dos existencialistas, fruto da
consciência de sua responsabilidade, mas vai além, e acusa como
má-fé a atitude daqueles que não procedem de tal forma,
renunciando,
assim, a própria liberdade. De acordo com o autor, a má-fé é uma
defesa contra a angústia criada pela consciência da liberdade, mas
é uma defesa equivocada, pois através dela nos afastamos de nosso
projeto pessoal, e caímos no erro de atribuir nossas escolhas a
fatores externos, como Deus, os astros, o destino, ou outro. Nesse
sentido, Sartre considerava também a ideia freudiana de inconsciente
como um exemplo de má-fé. Podemos dizer, então, que para os
existencialistas a má-fé compreendia a mentira para si próprio,
sendo imprescindível para o homem abandonar a má-fé, passando
então a condição de ser consciente e responsável por suas
escolhas. Ao fazer isso, o homem passa, invariavelmente, a viver num
estado de angústia, pois deixa de se enganar, mas em compensação
retoma a sua liberdade em seu sentido mais pleno.
O
outro
As
outras
pessoas
são fontes permanentes de contingências. Todas as escolhas de uma
pessoa levam à transformação do mundo para que ele se adapte ao
seu projeto. Mas cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com
que as pessoas entrem em conflito sempre que os projetos se
sobrepõem. Mas Sartre não defende, como muitos pensam, o
Solipsismo.
O homem por si só não pode conhecer-se em sua totalidade. Só
através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver
como parte do mundo. Sem a convivência, uma pessoa não pode
perceber-se por inteiro. "O ser Para-si só é Para-si através
do outro", ideia que Sartre herdou de Hegel. Cada pessoa, embora
não tenha acesso às consciências das outras pessoas, pode
reconhecer neles o que têm de igual. E cada um precisa desse
reconhecimento. Por mim mesmo, não tenho acesso à minha essência,
sou um eterno "tornar-me", um "vir-a-ser" que
nunca se completa. Só através dos olhos dos outros posso ter acesso
à minha própria essência, ainda que temporária. Só a convivência
é capaz de me dar a certeza de que estou fazendo as escolhas que
desejo. Daí vem a ideia de que "o inferno são os outros",
ou seja, embora sejam eles que impossibilitem a concretização de
meus projetos, colocando-se sempre no meu caminho, não posso evitar
sua convivência. Sem eles o próprio projeto fundamental não faria
sentido.
| Túmulo de Sartre, onde foi enterrado junto a Beauvoir. (Imagem: Aerin). |
O
existencialismo ateu de Sartre, por sua natureza avessa aos dogmas da
igreja e da moral constituída, atraiu muitos grupos que viam na
defesa da liberdade e da vida autêntica um endosso à vida
desregrada - obviamente, por um erro na compreensão do que há de
essencial na concepção de liberdade elaborada pelo filósofo
francês. Por razões semelhantes foi vista por muitos como uma
filosofia nociva aos valores da sociedade e à manutenção da ordem.
Seria uma filosofia contra a humanidade. Esta é uma das razões
porque toda a obra de Sartre foi incluída no Index de obras
proibidas pela Igreja Católica. Sartre responde a isso na
conferência "O existencialismo é um humanismo" em que
afirma que o existencialismo não pode ser refúgio para os que
procuram o escândalo, a inconsequência e a desordem. O movimento,
segundo este texto, não defende o abandono da moral, mas a coloca em
seu devido lugar: na responsabilidade individual de cada pessoa. O
existencialismo reconhece, assim, a possibilidade de uma moral laica
em que os valores humanos existem sem a necessidade da existência de
Deus. A moral existencialista pretende que as escolhas morais não
sejam determinadas pelo medo da punição divina, mas pela
consciência da responsabilidade. No meio acadêmico, o
existencialismo foi criticado por tratar exclusivamente de questões
ontológicas, e por sua defesa da auto-determinação. O
existencialismo seria uma filosofia excessivamente preocupada com o
indivíduo, sem levar em conta os fatores sócio-econômicos,
culturais e os movimentos históricos coletivos que, segundo o
marxismo e o estruturalismo, determinam as escolhas e diminuem a
liberdade individual. Em resposta a esta crítica, Sartre fez
alterações ao seu sistema, e escreveu A
Crítica da Razão Dialética
como tentativa de compatibilizar o existencialismo ao marxismo. Dos
dois tomos planejados, apenas o primeiro foi publicado em vida em
1960. O segundo tomo, inacabado, foi publicado postumamente. Neste
texto, afirma que "o marxismo é a filosofia insuperável de
nosso tempo", e admite que enquanto a humanidade estiver
limitada por leis de mercado e pela busca da sobrevivência imediata,
a liberdade individual não poderia ser totalmente alcançada. Não
se pode negar sua duradoura influência sobre os mais variados ramos
do conhecimento humano. Por ser muito voltado à discussão de
aspectos formadores da personalidade humana, o existencialismo
exerceu influência na psicologia de Carl
Rogers,
Fritz
Perls,
Ronald
David Laing
e Rollo
Reece May.
Na literatura, influenciou a poesia da Geração
Beat,
cujos maiores expoentes foram Jack
Kerouac,
Allen
Ginsberg
e William
S. Burroughs,
além dos dramaturgos do chamado Teatro
do absurdo.
Sartre prova sua relevância até na TV contemporânea, onde o
cultuado produtor Joss
Whedon
costuma inserir o existencialismo em seus projetos Buffy,
a Caça Vampiros,
Angel
e Firefly
- o que, através da repetição descontextualizada dos jargões
existencialistas, acaba por contribuir para a incompreensão e
reforça preconceitos já existentes. Através de suas contribuições
à arte, Sartre conseguiu inserir a filosofia na vida das pessoas
comuns.
Citações
Citações
- "É preferível morrer pelo fogo, em combate, que em casa, pela fome."
- - Furacão sôbre Cuba: Em apêndice: Trata-se du uma revolução - página 146, Jean-Paul Sartre, Editôra do Autor, 1961
- "Quanto mais areia escorreu no relógio de nossa vida, mais claramente deveríamos ver através do vidro."
- - The more sand has escaped from the hour-glass of our life, the clearer we should see through it.
- - Jean-Paul Sartre in Rapport du Comité consultatif: Report of the Advisory committee - Página 362, International Financial Conference, League of Nations - 1837
- "Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana , os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem."
- - Quand une fois la liberté a explosé dans une âme d'homme, les Dieux ne peuvent plus rien contre cet homme-là.
- - Théâtre: Les mouches - página 86, Jean-Paul Sartre - Gallimard, 1947
- "Quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem."
- - Quand les riches se font la guerre, ce sont les pauvres qui meurent
- - Le diable et le bon Dieu trois actes et onze tableaux: 3 actes et 11 tableaux - Página 26, de Jean-Paul Sartre - Publicado por Gallimard, 1951 - 282 páginas
- "O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."
- "Ninguém se cura de si mesmo."
Náusea
- "Monsieur... Eu não acredito em Deus; sua existência tem sido refutada pela Ciência. Mas no campo de concentração, eu aprendi a acreditar no homem."
- "Eu existo, isso é tudo, e acho isso enjoativo."
- "Alguma coisa me acontece, já não posso mais duvidar. (...) não foram necessários mais de três segundos para que todas as minhas esperanças fossem varridas."
(A
náusea, pág. 168)
- "Éramos um monte de existências enfadadas, embaraçadas de nós mesmos, sem a menor razão para estarmos aí, nem uns nem outros; cada existente, confuso, inquieto, sentia-se demais em relação aos outros. (...) E eu - fraco, enlanguecido, obsceno, digerindo, movendo mornos pensamentos - eu também era demais. (...) A palavra absurdidade nasce agora sob minha pena. (...) E sem nada formular claramente, compreendi que havia encontrada a chave da Existência, a chave de minhas náuseas, de minha própria vida. De fato, tudo o que consegui apreender em seguida se reduz a essa absurdidade fundamental."
(A
náusea, pág. 163-4)
- "Mas eu, há pouco, fiz a experiência do absoluto: o absoluto ou o absurdo. (...) Eu não estava surpreso, sabia que era o Mundo, o Mundo em sua nudez que se mostrava repentinamente, e eu sufocava de cólera contra esse grande ser absurdo."
(A náusea, pág. 170)
- "Sobrevivo a mim mesma."
- "Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, me sinto esmagado. Só que meu objetivo foi atingido: sei o que desejava saber; compreendi tudo o que me aconteceu a partir do mês de janeiro. A Náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu."
(A
náusea, pág. 187)
O Ser e o Nada
- "A existência precede e comanda a essência."
- - Parte 4, capítulo 1
- "Eu estou condenado a ser livre."
- - Parte 4, capítulo 1
- "Todas as ações humanas são equivalentes... e... todas são no princípio condenadas a falhar."
- "Somos separados das coisas por nada, apenas por nossa liberdade; é ela que faz que haja coisas com toda sua indiferença, sua imprevisibilidade e sua adversidade, e que nós sejamos inelutavelmente separados delas, pois é sobre um fundo de nadificação que elas aparecem e que se revelam como ligadas umas às outras."
(o
ser e o nada, pág. 591)
- "A natureza do passado é dada ao passado pela escolha origina de um futuro."
(O
ser e o nada, pág. 578)
- "A única força do passado lhe advém do futuro."
(O
ser e o nada, pág. 580)
- "A liberdade que é minha liberdade permanece total e infinita."
(O
ser e o nada, pág. 632)
- "Em certo sentido, eu escolho ter nascido."
(O
ser e o nada, pág. 641)
- "Eu sou responsável por tudo, salvo por minha própria responsabilidade, porque eu não sou o fundamento de meu ser."
(o
ser e o nada, pág. 641)
- "A liberdade é o único fundamento dos valores e nada, absolutamente nada, me justifica ao adotar tal ou tal valor, tal ou tal escala de valores. Enquanto ser pelo qual os valores existem eu sou injustificável. E minha liberdade se angustia de ser o fundamento sem fundamento dos valores."
(O
ser e o nada, pág. 76)
- "O outro é, por princípio, aquele que me olha."
(O
ser e o nada, pág, 315)
- "O olhar é, antes de mais nada, um intermediário que remete de mim a mim mesmo."
(O
ser e o nada, pág. 316)
- "Quando sou visto, tenho, de repente, consciência de mim enquanto escapo a mim mesmo, não enquanto sou o fundamento de meu próprio nada, mas enquanto tenho o meu fundamento fora de mim. Só sou para mim como pura devolução ao outro."
(O
ser e o nada, pág. 318)
- "A vergonha é vergonha de si, ela é reconhecimento de que eu realmente sou esse objeto que o outro olha e julga. Só posso Ter vergonha de minha liberdade enquanto ela me escapa para tornar-se objeto dado."
(O
ser e o nada, pág. 319)
- "O em-si é pleno de si mesmo e não se poderia imaginar plenitude mais total, adequação mais perfeita do conteúdo ao continente: não existe o menor vazio no ser, a menor fissura por onde se pudesse introduzir o nada."
(O
ser e o nada, pág. 116)
- "O homem é o ser pelo qual o nada vem ao mundo."
(O ser e o nada, pág. 60)
- "A consciência nada tem de substancial, é uma pura "aparência", no sentido de que só existe na medida em que se aparece."
(O ser e o nada, pág. 23)
- "A consciência é um ser que, em seu ser, é consciência do nada de seu ser."
(O
ser e o nada, pág. 85)
- "O ser da consciência não coincide consigo mesmo em uma adequação plena. (…) A característica da consciência é que ela é uma descompressão do ser. É impossível, com efeito, defini-la como coincidência consigo própria. Desta mesa, posso dizer que ela é pura e simplesmente esta mesa. Mas de minha crença (por exemplo), não me posso limitar a dizer que é crença: minha crença é consciência (de) crença."
(O
Ser e o nada, pág. 116)
- "O para-si é responsável em seu ser por sua relação com o em-si ou, se se preferir, ela se produz originariamente sobre o fundamento de uma relação com o em-si. (...) (A consciência é) um ser para o qual se trata, em seu ser, do problema de seu ser enquanto esse ser implica um ser outro que não ele."
(O
ser e o nada, pág. 220)
“...A
condição necessária e suficiente para que a consciência
cognoscente seja conhecimento de seu objeto é que seja consciência
de si como sendo este conhecimento: basta que tenha consciência de
ter consciência desta mesa pra que efetivamente tenha consciência
dela. Não basta, decerto, para que eu possa afirmar que esta mesa
existe em si – mas sim que ela existe para mim” (O ser e o nada,
pg 23)
As Mãos Sujas
- "Tu és metade vítima, metade cúmplice, como todos os outros."
- - 1948.
- "Quanto aos homens, não é o que eles são que me interessa, mas o que eles podem se tornar."
- - 1948.
O Muro
- "A dúvida é o preço da pureza."
- - 1939.
Entre Quatro Paredes
- "O inferno são os outros."
- - 1945.
Situations
- "Um anti-comunista é um cão."
- - Situations IV, Paris, Gallimard, 1967, pgs 248-249.
- "Desde que ele (Merleau-Ponty) aprendera a história, eu já não era o seu igual. Continuava a questionar os fatos, quando ele já tentava fazer falar os acontecimentos. Os fatos se repetem."
(Situações
IV, pág. 206)
- "Ele foi meu guia; Humanismo e terror é que me fez dar o salto. Este pequeno livro tão denso mostrou-me o método e o objeto: deu-me a sacudida necessária para arrancar-me de meu imobilismo."
(Situações,
pág. 215)
- "E são estas duas idéias - difíceis, reconheço: o homem é livre - o homem é o ser pelo qual o homem se torna objeto - que definem o nosso estatuto presente e permitem compreender a opressão."
(Situações,
pág. 109)
- "Nossa liberdade hoje não é nada mais que a livre escolha de lutar para nos tornarmos livres. E o aspecto paradoxal desta fórmula exprime simplesmente o paradoxo de nossa condição histórica. Não se trata de enjaular meus contemporâneos: eles já estão na jaula."
(Situações,
pág. 110)
- "O homem não é de modo nenhum a soma do que tem, mas a totalidade do que não tem ainda, do que poderia ter."
Crítica da razão dialética
- "Mudar para continuar o mesmo."
- - changer pour rester le même
- - Critique de la raison dialectique: précédé de Question de méthode. L'intelligibilité de l'histoire, Página 419 Jean-Paul Sartre - Gallimard, 1985 - 469 páginas.
Há uma história
humana, com uma verdade e uma inteligibilidade. (Crítica da razão
dialética, pág. 10)
[Há
uma] totalização perpetuamente em curso como História e como
Verdade histórica. (Crítica da razão dialética, pág. 10)
[O
Marxismo] permanece a filosofia de nosso tempo (...) as
circunstâncias que o geraram ainda não foram vencidas. (Crítica da
razão dialética, pág. 29)
O
marxismo parou: precisamente porque esta filosofia quer muar o mundo,
porque ela visa o tornar-se mundo da filosofia, porque ela é e quer
ser prática, operou-se nela uma verdadeira cisão que lançou a
teoria de um lado e a práxis do outro. (Crítica da razão
dialética, pág. 25)
O
método se identifica ao Terror por sua recusa inflexível de
diferençar. (Crítica da razão dialética, pág. 40)
Nós
censuramos ao marxismo contemporâneo o relegar ao azar todas as
determinações concretas da vida humana (...) O resultado é que ele
perdeu inteiramente o sentido do que seja um homem: ele não dispõe,
para preencher as suas lacunas, senão da absurda psicologia de
Pavlov. (Crítica da razão dialética, pág. 109)
O
marxismo degenerará em uma antropologia inumana se não reintegrar
em si o próprio homem como seu fundamento. (Crítica da razão
dialética, pág. 109)
No
momento em que a pesquisa marxista assumira dimensão humana (isto é,
o projeto existencial) como o fundamento do Saber antropológico, o
existencialismo não terá mais razão de ser: absorvido, excedido e
conservado pelo movimento totalizante da filosofia, ele cessará de
ser uma pesquisa particular para tornar-se o fundamento de toda
pesquisa. (Crítica da razão dialética, pág. 111)
A Idade da Razão
- "É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém." (p. 131)
- "Talvez não possa ser de outra maneira; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é." (p. 151)
O existencialismo é humanismo
- "Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre."
- - Nous sommes seuls, sans excuses. C'est ce que j'exprime en disant que l'homme est condamné à être libre.
- - Jean-Paul Sartre, L'Existentialisme est un humanisme, Éditions Gallimard (Paris) 1996. Como citado em: A Short Course in Reading French, Página 204, Celia Brickman - 2013 - 233 páginas.
- "É melhor vencermos a nós mesmos do que ao mundo."
- "O existencialismo ateu, que eu represento (...) declara que se Deus não existe, há ao menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por algum conceito e que esse ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. O que significa aqui que a existência precede a essência? Isso significa que, primeiramente, existe o homem, ele se deixa encontrar, surge no mundo, e que ele só se define depois. O homem tal como o concebe o existencialista não é definível porque, inicialmente, ele nada é. Ele só será depois, e ele será tal como ele se fizer. Assim, não existe natureza humana, já que não há Deus para concebê-la. O homem é apenas não somente tal como ele se concebe, mas tal como ele se quer, e como ele se concebe após existir, como ele se quer depois dessa vontade de existir - o homem é apenas aquilo que ele faz de si mesmo. Tal é o primeiro princípio do existencialismo."
(O
existencialismo é um humanismo, pág. 24)
- "Será que, no fundo, o que amedronta na doutrina que tentarei expor não é fato de que ela deixa uma possibilidade de escolha para o homem?"
- "O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo."
- "O existencialista declara freqüentemente que o homem é angústia. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se dá conta de que ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda responsabilidade."
- "Se uma voz se dirige a mim, sou sempre eu mesmo que terei de decidir que essa voz é a voz do anjo; se considero que determinada ação é boa, sou eu mesmo que escolho afirmar que ela é boa e não má."
- "Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade."
- "O desamparo implica que somos nós mesmos que escolhemos o nosso ser. Desamparo e angústia caminham juntos."
- "Quanto ao desespero, trata-se de um conceito extremamente simples. Ele significa que só podemos contar com o que depende da nossa vontade ou com o conjunto de probabilidades que tornam a nossa ação possível."
- "Primeiro, tenho que me engajar; em seguida, agir segundo a velha fórmula: “não é preciso ter esperança para empreender”. Isso não quer dizer que eu não deva pertencer a um partido, mas que não deverei ter ilusões e que farei o melhor que puder."
- "Ora, na verdade, para o existencialista, não existe amor senão aquele que se constrói; não há possibilidade de amor senão a que se manifesta num amor;"
- "Um homem compromete-se com sua vida, desenha seu rosto e para além desse rosto, não existe nada."
- "O que o existencialista afirma é que o covarde se faz covarde, que o herói se faz herói; existe sempre, para o covarde, uma possibilidade de não mais ser covarde, e, para o herói, de deixar de o ser. O que conta é o engajamento total, e não é com um caso particular, uma ação particular, que alguém se engaja totalmente."
- "A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo."
- "O homem faz-se; ele não está pronto logo de início; ele se constrói escolhendo a sua moral; e a pressão das circunstâncias é tal que ele não pode deixar de escolher uma moral. Só definimos o homem em relação a um engajamento."
- "A única coisa que importa é saber se a invenção que se faz se faz em nome da liberdade."
- "Viver como existencialista é aceitar pagar por essa doutrina e não impô-la através de livros. Quem deseja que essa filosofia seja um engajamento de verdade, deve justificá-la perante aqueles que a discutem no plano político ou moral."
- O homem é apenas seu projeto, só existe na medida em que se realiza, ele é tão-somente o conjunto de seus atos.
(O
existencialismo é um humanismo, pág. 55)
- Todo homem se refugia na desculpa de suas paixões, todo homem que inventa um determinismo é um homem de má fé.
(O
existencialismo é um humanismo, pág. 81)
- Nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela engaja a humanidade inteira.
(O
existencialismo é um humanismo, pág. 26)
- Sou responsável por mim mesmo e por todos, e crio uma certa imagem do homem que eu escolho: escolhendo a mim, escolho o homem.
(O
existencialismo é um humanismo, pág. 27)
- Cada vez que o homem escolhe seu compromisso e seu projeto com toda sinceridade e com toda lucidez, torna-se-lhe impossível preferir um outro.
(O
existencialismo é um humanismo, pág. 79)
Atribuídas
- "Enquanto o capitalismo existir, o marxismo será a melhor teoria."
- "Ninguém deve cometer a mesma tolice duas vezes. A possibilidade de escolha é muito grande."
- "A violência, seja qual for a maneira como se manifesta, é sempre uma derrota."
- "Nós somos o próximo construído por amigos e inimigos".
- "No amor, um mais um é igual a um."
- "Se você sente solidão quando a sós, está em má companhia."
- "É impossível lutar com o que a alma escolheu"
- "A guerra não se faz; somos nós que a fazemos." (Jean-Paul Sartre) La guerre, on ne la fait pas: c'est elle qui nous fait."(Les Séquestrés d'Altona, 1959)
- "É sempre fácil obedecer quando se sonha comandar."
- "É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz."
- "Ainda que fôssemos surdos e mudos como uma pedra, a nossa própria passividade seria uma forma de ação".
- "O desejo exprime-se por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem."
- "O homem não é senão o seu projeto, e só existe na medida em que se realiza."
- "O silêncio é reacionário."
- "Só me sinto bem em liberdade, fugindo dos objetos, fugindo de mim mesmo..."
- "Sou um verdadeiro vácuo, embriagado de orgulho translúcido...como o mundo que quero conhecer a fundo."
- "A gente se desfaz de uma neurose, mas não se cura de si próprio."
- "A verdade é subjetividade."
- "A imagem não é uma coisa é um ato de consciência."
- "O escritor, homem livre que se dirige a homens livres só pode ter um tema --a liberdade."
- " O ato revolucionário é um ato livre por excelência."
- "O escritor sempre pode ajudar a evitar o pior aconteça."
- "O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo:é esse o primeiro princípio do existencialismo."
- "O homem é responsável por si mesmo."
- "Liberdade não é fazer o que se quer, mas querer fazer o que se faz."
- "Para mim, o que vicia as relações entre as pessoas é que cada um conserva, na relação com o outro, alguma coisa de oculto, de secreto. Penso que a transparência deve sempre substituir o segredo. E penso muito no dia em que duas pessoas não terão mais segredos entre si porque não mais os terão para ninguém, porque a vida subjetiva, assim como a objetiva, estará totalmente aberta."
- " Não importa o que fizeram com você o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você. Observação: Frase de Jacques Lacan.
Obras
- L'imagination (A imaginação), ensaio filosófico - 1936
- La Transcendance de l'égo (A transcendência do ego), ensaio filosófico - 1937
- La Nausée (A náusea), romance - 1938
- Le Mur (O muro), contos - 1939
- Esquisse d'une Théorie des Émotions (Esboço de uma teoria das emoções), ensaio filosófico - 1939
- L'imaginaire (O imáginário), ensaio filosófico - 1940
- Les Mouches (As moscas), teatro - 1943
- L'être et le Néant (O ser e o nada), tratado filosófico - 1943
- Réflexions sur la Question Juive (Reflexões sobre a questão judaica), ensaio político - 1943
- Les Lettres Nouvelles (A República da Silêncio), ensaio filosófico - 1944
- Huis Clos (Entre quatro paredes), teatro - 1945
- Les Chemins de la Liberté (Os Caminhos da Liberdade) trilogia, compreendendo:
- L'age de Raison (A idade da razão), romance - 1945
- Le Sursis (Sursis), romance - 1947
- La Mort dans l'Âme (Com a morte na alma), romance - 1949
- Morts Sans Sépulture (Mortos sem sepultura), teatro - 1946
- L'Existentialisme est un Humanisme (O existencialismo é um humanismo), transcrição de uma conferência proferida em 1946 - Texto posteriormente rejeitado por Sartre.
- La Putain Respectueuse (A Prostituta Respeitosa), teatro - 1946
- Qu'est ce que la Littérature? (O que é a Literatura?), ensaio - 1947
- Baudelaire - 1947
- Les Jeux Sont Faits (Os Dados Estão Lançados), romance - 1947
- Situations, vários volumes que reúnem ensaios políticos literários e filosóficos - 1947 a 1965
- Les Mains Sales (As Mãos Sujas), teatro - 1948
- L'Engrenage (A Engrenagem), teatro - 1948
- Orphée Noir (Orfeu Negro), teatro - 1948
- Le Diable et le Bon Dieu (O Diabo e o Bom Deus), teatro - 1951
- Saint Genet, Comédien et Martyr (Saint Genet, Ator e Mártir), biografia de Jean Genet - 1952
- Les Séquestrés d'Altona (Os Sequestrados de Altona) - 1959
- Critique de la Raison Dialectique - Tome I: Théorie des Ensembles Pratiques (Crítica da razão dialética, Tomo I), tratado filosófico - 1960
- Furacão Sobre Cuba (escrito juntamente com Fernando Sabino e Rubem Braga) - 1961
- Les Mots (As Palavras), autobiografia - 1964
- L'idiot de la Famille - Gustave Flaubert de 1821 a 1857 (O Idiota de Família), biografia inacabada de Gustave Flaubert. Apenas dois dos quatro volumes planejados foram escritos - 1971 (volume I) - 1972 (volume. II)
Obras póstumas
- Carnets de la Drôle de Guerre (Diário de uma Guerra Estranha), diário escrito entre Setembro de 1939 e Março de 1940 - 1983. Reedição ampliada em 1995.
- Cahiers Pour Une Morale (Cadernos por uma Moral). Esboço inacabado de uma teoria moral existencialista preconizada em O ser e o nada. Escrito em 1947 e 1948 - 1983.
- Lettres au Castor et à Quelques Autres. Dois volumes abarcando correspondência de 1926 a 1963. Organizado por Simone de Beauvoir - 1983
- Le Scènario Freud (Freud, Além da Alma), roteiro do filme de John Huston realizado por Sartre entre 1959 e 1960 e não utilizado integralmente devido a conflitos com o diretor – 1984.
- Critique de la Raison Dialectique - Tome II: l'inteligibilité de l'histoire (Crítica da razão dialética - Tomo II: a Inteligibilidade da História), ensaio filosófico. Escrito em 1958 e publicado em 1985.
- Sartre no Brasil: a Conferência de Araraquara. Edição bilíngue (português e francês) contendo a transcrição da conferência na Faculdade de Filosofia de Araraquara em 4 de Setembro de 1960 - 1986.
- Verité et Existence (Verdade e Existência), fragmentos de um ensaio filosófico escrito em 1948 – 1989.
- Écrits de Jeunesse (Escritos da Juventude), textos escritos entre 1922 e 1928 - 1990
- Le Reine Albemarle ou le Dernier Touriste (A Rainha Albemarle ou o Último Turista), fragmentos inacabados escritos em 1951 e publicados em 2009 (no Brasil).