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sábado, 5 de outubro de 2013

Biografia de Epicteto


Epicteto
Epicteto ou Epiteto. (em grego: Επίκτητος, transliteração: epiktetos: "comprado"). Nasceu em Hierápolis, 55, e, faleceu em Nicópolis, 135. Epicteto foi um filósofo grego estóico que viveu a maior parte de sua vida em Roma, como escravo a serviço de Epafrodito, o cruel secretário de Nero que, segundo a tradição, uma vez quebrou-lhe uma perna. Apesar de sua condição, conseguiu assistir as preleções do famoso estóico Caio Musônio Rufo. De sua obra se conservam o Encheiridion de Epicteto (também conhecido como Manual de Epicteto ) e as Diatribes (ou Discursos), ambos editados por seu discípulo Lúcio Flávio Arriano de Nicomédia. Como viver um vida plena, uma vida feliz? Como ser uma pessoa com boas qualidades morais? Responder a estas duas perguntas fundamentais foi a única paixão de Epicteto. Embora suas obras sejam menos conhecidas hoje, em função do declínio do ensino da cultura clássica, tiveram enorme influência sobre as ideias dos principais pensadores da arte de viver durante quase dois mil anos. Para Epicteto, uma vida feliz e uma vida virtuosa são sinônimos. Felicidade e realização pessoal são consequências naturais de atitudes corretas.

Discursos de Epicteto


O Codex Bodleianus dos Discursos de Epicteto. De notar a mancha no manuscrito que tornou a passagem (Livro 1. 18. 8-11) parcialmente ilegível.
Os Discursos de Epicteto são uma série de extractos dos ensinamentos do filósofo estóico Epicteto, escritos por Arriano por volta de 108 a.C.. Existiam originalmente oito livros, mas apenas quatro permanecem até hoje inteiros, junto com alguns fragmentos dos outros livros. Os Discursos não são provavelmente uma transcrição palavra por palavra, mas sim versões escritas das notas tomadas por Arriano. Os livros não tinham um título formal nos tempos antigos. Apesar de Simplício da Cilícia os chamar de Diatribai (Discursos), outros escritores deram títulos como Dialexis (Conversas), Apomnêmoneumata (Registros), e Homiliai (Conversações). O nome moderno advém dos títulos dados no manuscrito medieval: "Diatribai de Epicteto por Arriano" (em grego: Αρριανου των Επικτητου Διατριβων).

Edições manuscritas


O manuscrito mais antigo dos Discursos provém do século XII, mantido na Biblioteca Bodleiana, em Oxford. Nesse manuscrito, uma macha caiu em uma das páginas, tornando uma série de palavras ilegíveis; em todos os outros manuscritos conhecidos essas palavras estão omissas (por vezes passagens inteiras), e assim sendo, esses outros manuscritos serão derivados do da Biblioteca Bodleiana. Os Discursos são impressos pela primeira vez em grego por Vettore Trincavelli, em Veneza, no ano de 1535.

Manual de Epicteto


Capítulo 1 do Enchirídion de Epicteto de uma edição de 1683 em grego e latim.
O Enchirídion ou Manual de Epicteto, (em grego: Ἐγχειρίδιον Επικτήτου) é um pequeno manual com conselhos éticos estóicos compilado por Arriano, que foi aluno de Epictetono início do século II. Apesar de o conteúdo ser derivado dos Discursos de Epicteto, não é propriamente um resumo dos Discursos, mas sim uma compilação de preceitos práticos. O Manual é um guia para o dia-a-dia. Ao contrário de outros mestre da Filosofia da Grécia Antiga, como Platão e outros metafísicos, Epicteto foca a sua atenção em como alguém se pode aplicar de maneira prática num ponto de vista filosófico. O tema primário nesta curta obra é a de que uma pessoa deve esperar o que deve acontecer e desejar que tal aconteça. O outro motivo na narrativa que aparece é a opinião de Epicteto sobre o julgamento dos eventos. “O que preocupa as pessoas não são as coisas em si, mas o seu julgamento acerca delas. Por exemplo: a morte não é algo opressivo (de outra maneira de tal forma a Sócrates)” … (Manual – capítulo 5). Subjacente a isto tudo, no entanto, está a idéia de que "algumas coisas nos são dependentes e outras não o são" sendo que devemos reagir e interagir em concordância com essas coisas. Nos séculos seguintes, o Enchirídion foi visto como um manual prestável de filosofia prática, mantendo a sua autoridade com os cristão e pagãos. No século VI, Simplício da Cilícia escreveu um comentário sobre ele, e dois escritores cristãos, Nilo do Sinai e um autor anônimo, escreveram paráfrases da obra, adaptadas ao pensamento cristão, na primeira parte do século V. O Enchirídion foi publicado pela primeira vez em latim por Angelo Poliziano, em Roma, no ano de 1493. Em 1496, foi traduzido por Philippus Beroaldus, em Bolonha. O original em grego, com comentários de Simplício, apareceu primeiramente em Veneza, no ano de 1528. O livro foi um comum texto escolar na Escócia, durante o Iluminismo Escocês. Adam Smith tinha uma cópia de uma edição de 1670 na sua biblioteca, adquirida quando ainda jovem estudante.


Citações de Epicteto:

  • Retrato imaginário de Epicteto - gravura do século XVIII.
    Acusar os outros pelos próprios infortúnios é um sinal de falta de educação; acusar-se a si mesmo mostra que a educação começou; não acusar nem a si mesmo nem aos outros mostra que a educação está completa”.
- Enchiridion, 4

Atribuídas


  • Não devemos acreditar na maioria que diz que apenas as pessoas livres podem ser educadas, mas sim acreditar nos filósofos que dizem que só as pessoas educadas são livres”.
  • A felicidade e a liberdade começam com a clara compreensão de um princípio: algumas coisas estão sob nosso controle, outras não. Só depois de lidar com essa questão fundamental e aprender a distinguir entre o que você pode e o que não pode controlar, é que a tranqüilidade interna e a eficácia externa se tornam possíveis”.
  • A boa fortuna, como os frutos maduros, deve ser gozada antes que seja tarde”.
  • Só a educação liberta”.
  • O caminho para a felicidade é parar de preocupar-se com o que está além do nosso poder”.
  • Dedique ao menos metade de suas energias a livrar-se de desejos ocos, e muito breve verá que ao fazê-lo há de receber maior realização e mais felicidade”.
  • Se pretendes fazer alguma coisa, transforme em hábito a tua pretensão. Se não pretendes, abstém-te de fazê-la”.
  • Evitemos fazer o papel de zombeteiros e de trocistas. Porque tais defeitos nos farão cair insensivelmente nas maneiras baixas e grosseiras e farão com que as pessoas percam a consideração que sentem por nós”.
  • Fortaleça-se com contentamento, pois isto é uma fortaleza inexpugnável”.
  • Na prosperidade é fácil encontrar amigos; mas na adversidade é a mais ingrata das tarefas”.
  • Nada de grande se cria de repente”.
  • O homem sábio é aquele que não se entristece com as coisas que não tem, mas se rejubila com as que tem”.
  • Qualquer lugar onde alguém está contra a sua vontade é, para este alguém, uma prisão”.
  • Quando você se ofender com as faltas de alguém, vire-se e estude os seus próprios defeitos. Cuidando deles, você esquecerá a sua raiva e aprenderá a viver sensatamente”.
  • Se disserem mal de ti com fundamento, corrige-te. Do contrário, ri e não faças caso”.
  • Se quiser ser escritor, escreva”.
  • Somente os instruídos são livres”.
  • Zele por este momento. Mergulhe em suas particularidades. Seja sensível a que você é, ao seu desafio, à sua realidade. Livre-se dos subterfúgios. Pare de criar problemas desnecessários para si mesmo. Este é o tempo de realmente viver; de se entregar por completo à situação em que você está agora”.
  • Conserva bem o que é teu e não invejes ninguém. Serás, assim, feliz."
  • "É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe”.
  • As pessoas ficam perturbadas, não pelas coisas, mas pela imagem que formam delas”.
  • A alma reluta em ser privada de verdade”.
  • Pratique sozinho, pelo amor de Deus, em situações simples, e só então aborde as situações mais complexas”.
  • São as dificuldades que mostram os homens”.


Referências:

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Estoicismo


Zénão de Cítio.
(Imagem: Χρήστης Templar52 Original
uploader was Templar52 at el.wikipedia).
Estoicismo. (do grego Στωικισμός). O estoicismo é uma escola de filosofia helenística fundada em Atenas por Zenão de Cítio no início do século III a.C. Os estóicos ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento, e que um sábio, ou pessoa com "perfeição moral e intelectual", não sofreria dessas emoções. O estoicismo afirma que todo o universo é corpóreo e governado por um Logos divino (noção que os estóicos tomam de Heráclito e desenvolvem). A alma está identificada com este princípio divino como parte de um todo ao qual pertence. Este logos (ou razão universal) ordena todas as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo é um kosmos (termo grego que significa "harmonia"). O estoicismo propõe se viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença (apathea) em relação a tudo que é externo ao ser. O homem sábio obedece à lei natural, reconhecendo-se como uma peça na grande ordem e propósito do universo, devendo, assim, manter a serenidade perante tanto as tragédias quanto as coisas boas. A partir disso, surgem duas consequências éticas: deve-se "viver conforme a natureza": sendo a natureza essencialmente o logos, essa máxima é prescrição para se viver de acordo com a razão. Sendo a razão aquilo por meio do que o homem torna-se livre e feliz, o homem sábio não apreende o seu verdadeiro bem nos objetos externos, mas usando estes objetos através de uma sabedoria pela qual não se deixa escravizar pelas paixões e
Crisipo de Solis.
(Imagem: Marie-Lan Nguyen (2011).
pelas coisas externas. Os estóicos preocupavam-se com a relação ativa entre o determinismo cósmico e a liberdade humana, e com a crença de que é virtuoso manter uma vontade (denominada prohairesis) que esteja de acordo com a natureza. Por causa disso, os estóicos apresentaram a sua filosofia como um modo de vida, e pensavam que a melhor indicação da filosofia de uma pessoa não era o que teria dito mas como se teria comportado. Estóicos mais tardios, como Sêneca e Epiteto, enfatizaram que porque a "virtude é suficiente para a felicidade", um sábio era imune aos infortúnios. Esta crença é semelhante ao significado de calma estóica, apesar de essa expressão não incluir as visões "éticas radicais" estóicas de que apenas um sábio pode ser verdadeiramente considerado livre, e que todas as corrupções morais são todas igualmente viciosas. O estoicismo floresceu na Grécia com Cleantes de Assos e Crisipo de Solis, sendo levado a Roma no ano 155 a.C. por Diógenes de Babilônia. Ali, seus continuadores foram Marco Aurélio, Sêneca, Epiteto e Lucano. O estoicismo foi uma doutrina que sobreviveu todo o período da Grécia Antiga, até o Império Romano, incluindo a época do imperador Marco Aurélio, até que todas as escolas filosóficas foram encerradas em 529 por ordem do imperador Justiniano I, que percepcionou as suas características pagãs, contrária à fé cristã. A escola estóica preconizava a indiferença à dor de ânimo causada pelos males e agruras da vida. Reunia seus discípulos sob pórticos ("stoa", em grego) situados em templos, mercados e ginásios. Foi bastante influenciada pelas doutrinas cínica e epicurista, além da influência de Sócrates.


Princípios básicos do Estoicismo


Busto de Sêneca (4 a.C. - 65) em Córdoba, na Espanha.
A filosofia não visa a assegurar qualquer coisa externa ao homem. Isso seria admitir algo que está além de seu próprio objeto. Pois assim como o material do carpinteiro é a madeira, e o do estatuário é o bronze, a matéria-prima da arte de viver é a própria vida de cada pessoa”.- Epiteto. Os estóicos apresentavam uma visão unificada do mundo, consistindo de uma lógica formal, uma física não dualista e uma ética naturalista. Dentre estes, eles enfatizavam a ética como o foco principal do conhecimento humano, embora suas teorias lógicas fossem de mais interesse para os filósofos posteriores. O estoicismo ensina o desenvolvimento do autocontrole e da firmeza como um meio de superar emoções destrutivas. Defende que tornar-se um pensador claro e imparcial permite compreender a razão universal (logos). Um aspecto fundamental do estoicismo envolve a melhoria da ética do indivíduo e de seu bem-estar moral: "A virtude consiste em um desejo que está de acordo com a natureza". Este princípio também se aplica ao contexto das relações interpessoais; libertar-se da raiva, da inveja e do ciúme" e aceitar até mesmo os escravos como "iguais aos outros homens, porque todos os homens são igualmente produtos da natureza”. A ética estóica defende uma perspectiva determinista. Com relação àqueles que não têm a virtude estóica, Cleanto uma vez opinou que o homem ímpio é como um cão amarrado a uma carroça, obrigado a ir para onde ela vai”. Já um estóico de virtude, por sua vez, alteraria a sua vontade para se adequar ao mundo e permanecer, nas palavras de Epiteto, "doente e ainda feliz, em perigo e ainda assim feliz, morrendo e ainda assim feliz, no exílio e feliz, na desgraça e feliz", assim afirmando um desejo individual "completamente autônomo" e, ao mesmo tempo, um universo que é "um todo rigidamente determinista". O estoicismo se tornou a filosofia mais popular entre as elites educadas do mundo helenístico e do Império Romano, a ponto de, nas palavras de Gilbert Murray, “quase todos os sucessores de Alexandre, o Grande [...] declararem-se estóicos”.


História


Por volta de 301 a.C., Zenão de Cítio ensinou filosofia na Stoa Poikile, lugar a partir do qual o nome da filosofia se originou. Ao contrário de outras escolas de filosofia, como a dos epicuristas, Zenão escolheu ensinar a sua filosofia num espaço público, que era uma colunata com vista para o local central de manifestação da opinião pública, a Ágora de Atenas. As idéias de Zenão desenvolveram-se a partir do cinismo, cujo fundador, Antístenes, foi um discípulo de Sócrates. O seguidor mais influente de Zenão foi Crisipo de Solis, responsável pela moldagem do que atualmente é denominado estoicismo. Estóicos posteriores, da época do Império Romano, focaram o aspecto da promoção de uma vida em harmonia com o universo, sobre o qual não se tem controle direto.


Os acadêmicos dividem, normalmente, a história de estoicismo em três fases:


  • A primeira (estoicismo antigo) desenvolveu-se no século III a.C., com Zenão de Cítio, Cleanto, Crisipo de Solis e Antíprato de Tarso, se preocupando com a lógica, a física, a metafísica e a moral.
  • A segunda (estoicismo médio), o pensamento estóico combinou-se com o espírito romano. Foi representado por Panécio de Rodes (180 a.C. - 110 a.C.) e Possidónio (135 a.C. - 51 a.C.).
  • A terceira (estoicismo imperial ou novo estoicismo), com representantes como: Caio Musónio Rufo, Sêneca (nascido no início da era cristã e falecido em 65 d.C., Epiteto (50 d.C. - 125 d.C.) e Marco Aurélio (121 d.C. - 180 d.C.), que foi imperador romano em 161 d.C. As obras de Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio propagaram o estoicismo no mundo ocidental. A última época do estoicismo, ou período romano, caracteriza-se pela sua tendência prática e religiosa, fortemente acentuada como se verifica nos "Discursos" e no "Enchiridion" de Epiteto e nos "Pensamentos" ou "Meditações" de Marco Aurélio.


Não sobreviveu até a atualidade qualquer obra completa de um filósofo estóico das duas primeiras fases. Apenas textos romanos da última fase nos chegaram completos.


Epistemologia


Os estóicos acreditavam que o conhecimento pode ser atingido através do uso da razão. A verdade pode ser distinguida da falácia, mesmo que, na prática,
Busto de Marco Aurélio (121 - 180). (Imagem: Luis García).
apenas uma aproximação possa ser efetuada. De acordo com os estóicos, os sentidos recebem constantemente sensações: pulsações que passam dos objetos através dos sentidos em direção à mente, onde deixam uma impressão na imaginação (phantasia). Uma impressão originária da mente era designada de phantasma. A mente tem a capacidade de julgar (sunkatathesis) — aprovar ou rejeitar — uma impressão, permitindo que possa ser feita uma distinção entre uma verdadeira representação da realidade de uma falsa. Algumas impressões podem ter um assentimento imediato, enquanto que outras podem apenas atingir diferentes graus de aprovação hesitante, que podem ser chamadas de crenças ou opiniões (doxa). É apenas através da razão que podemos atingir uma clara compreensão e convicção (katalepsis). A certeza e o conhecimento verdadeiro (episteme), alcançável pelo sábio estóico, podem apenas ser atingidos pela verificação da convicção com a experiência dos pares e pelo julgamento colectivo da humanidade. “Produz para ti próprio uma definição ou descrição da coisa que te é apresentada, de modo a veres de maneira distintiva que tipo de coisa é na sua substância, na sua nudez, na sua completa totalidade, e diz a ti próprio é seu nome apropriado, e os nomes das coisas de que foi composta, e nas quais irá resultar. Pois nada é mais produtivo para a elevação da alma, como ser-se capaz de examinar metódica e verdadeiramente cada objeto que te é apresentado na tua vida, e sempre observar as coisas de modo a ver ao mesmo tempo que universo é este, e que tipo de uso tudo nele realiza, e que valor todas as coisas têm em relação com o todo”.- Marco Aurélio.


Filosofia social


Retrato de Epiteto (55 - 135) na capa de uma tradução inglesa de 1751 do Manual de Epiteto.
Uma característica distintiva do estoicismo é o seu cosmopolitismo: todas as pessoas seriam manifestações do espírito universal único e deveriam, de acordo com os estóicos, em amor fraternal, ajudarem-se uns ao outros de maneira eficaz. Nos Discursos, Epiteto comenta sobre a relação do ser humano com o mundo: “cada ser humano é, primeiro, um cidadão da sua comunidade; mas também é membro da grande cidade dos homens e deuses”... Este sentimento ecoa o de Diógenes de Sínope, que disse “Eu não sou nem ateniense nem coríntio, mas um cidadão do mundo”. Apoiavam a idéia de que as diferenças externas, como status e riqueza, não são importantes nas relações sociais. Em vez disso, advogavam a irmandade da humanidade e a natural igualdade do ser humano. O estoicismo tornou-se a mais influente escola do mundo greco-romano. O estoicismo produziu uma grande quantidade de escritores e personalidades de renome, como Catão, o Jovem e Epiteto. Em particular, os estóicos eram notados pela sua defesa à clemência aos escravos. Sêneca exortava: “Lembra-te com simpatia de que aquele a quem chamas de escravo veio da mesma origem, os mesmos céus lhe sorriem, e, em iguais termos, contigo respira, vive e morre”.

 

Referências

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Biografia de Sêneca

Sêneca
Lucius Annaeus Sêneca. Filósofo estóico e Poeta romano. Nascido em Córdoba (hoje Espanha), 4 a.C., morreu em Roma, 65d.C.: por ordem do Imperador Nero (seu discípulo) cortou as próprias veias. Filho de um mestre de Retórica (Marcus Annaeus, chamado Sêneca, o Retórico), ficou conhecido como Sêneca, o Filósofo. Em 41 foi exilado por Claudio, por manter relações de muita intimidade com Júlia, irmã de Germânico. Em 49 foi chamado do exílio por Agripina e nomeado tutor do jovem Nero, sobre o qual exerceu influência benéfica nos primeiros anos de reinado. Por ocasião da morte de Agripina, Sêneca foi afastado da corte. Filiou-se à corrente filosófica dos estóicos e deixou as seguintes obras: Espistolae Morales ad Lucilium, Naturales Quoestiones, ambas escritas para seu amigo Lucilus, o Moço; Dialogi, De Clementia, De Beneficiis, Apocolocyntosis. Exerceu grande influência na literatura ocidental com suas tragédias: Hércules Furens, Medea, Troades, Phaedra, Agamenon, Phoenissae etc. Sob acusação de conspiração foi levado a suicidar-se por ordem de Nero. Costuma dizer que se considerava mais que um rei, pois podia julgar os próprios soberanos. Dotado de pronta decisão e grande conhecedor de retórica, o que na época definia um bom advogado, não tardou em se distinguir no foro, atraindo a atenção e a simpatia de Calígula. Os escritos e a filosofia de Sêneca, moderadamente estóicos, foram largamente utilizados pelos primeiros padres e teólogos da igreja católica. Seu pensamento sincero e corajoso, bem como sua projeção política, fez dele o mais importante pensador ocidental dos primeiros séculos da Era Cristã.

Vida

Oriundo de família ilustre, era o segundo filho de Hélvia e de Marco Aneu Sêneca (Sêneca, o Velho). O pai era um orador eloquente e muito abastado. O irmão mais velho de Lúcio chamava-se Lúcio Júnio Gálio e era procônsul (administrador público) na Aqueia, onde, em 53, se encontrou com o apóstolo cristão Paulo. Sêneca, o Jovem, foi tio do poeta Lucano. Ainda criança (três anos), foi enviado a Roma para estudar oratória e filosofia. Com a saúde abalada pelo rigor dos estudos, passou uma temporada no Egito para se recuperar e regressou a Roma por volta do ano 31. Nessa ocasião, iniciou carreira como orador e advogado e logo chegou ao senado. Em 41, foi acusado por Messalina, esposa do imperador Cláudio, de ter cometido adultério com Júlia Livila, sobrinha do imperador. Como consequência, foi exilado para a Córsega. No exílio, em meio a grandes privações materiais, Sêneca dedicou-se aos estudos e redigiu vários de seus principais tratados filosóficos. Entre eles, os três intitulados Consolationes ("Consolos"), em que expõe os ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais e busca da tranquilidade da alma mediante o conhecimento e a contemplação. Por influência de Agripina, a Jovem, sobrinha do imperador e uma das mulheres com quem este se casou, Sêneca retornou a Roma em 49. Agripina tornou-o preceptor de seu filho, o jovem Nero, e elevou-o a pretor em 50. Sêneca contraiu matrimônio com Pompeia Paulina e organizou um poderoso grupo de amigos. Logo após a morte de Cláudio, ocorrida em 54, o escritor vingou-se com um escrito que foi considerado obra-prima das sátiras romanas, Apocolocyntosis divi Claudii ("Transformação em abóbora do divino Cláudio"). Nessa obra, Sêneca critica o autoritarismo do imperador e narra como ele é recusado pelos deuses. Seu irmão, Lúcio Júnio Gálio, também ridicularizou Cláudio, fazendo uma analogia com as pessoas executadas, que eram levadas ao Fórum Romano puxadas por ganchos: ele disse que Cláudio havia sido elevado aos céus puxado por um gancho. Quando Nero, aos dezessete anos, tornou-se imperador, Sêneca continuou a seu lado, porém não mais como pedagogo e sim como seu principal conselheiro (ajudado por Afrânio Burro, prefeito do Pretório). Sêneca procurou orientar para uma política justa e humanitária. Se, durante os primeiros sete anos, o governo de Nero lembra o de Augusto, o mérito exclusivo é desses dois homens que, na realidade, governaram ao lado do jovem príncipe. A índole de Nero foi mitigada, corrigida, freada. Mais tarde, porém, a malvadez de Nero teve o predomínio. Sêneca, durante algum tempo, exerceu influência benéfica sobre o jovem, mas, aos poucos, foi forçado a adotar atitudes de complacência. Chegou mesmo a redigir uma carta ao Senado na qual se alega que tentou justificar a execução de Agripina em 59. Sêneca sabia que a maior culpa por sua morte havia sido da própria Agripina, que pretendia imperar e que se tornara hostil por ambição, capricho e corrupção; sua raiva crescente só fez aumentar a vingança matricida de Nero, que não deu mais ouvidos às palavras severas de seus dois conselheiros. Sêneca foi, então, muito criticado pela fraca oposição à tirania e à acumulação de riquezas de Nero, incompatíveis com as concepções estoicas. Conforme concluiu o emérito professor Giulio Davide Leoni, o destino foi, em parte, malvado para com Sêneca, fazendo chegar até nós as acusações e perdendo as defesas. Da leitura atenta de suas páginas, do modo como aceitou e caminhou para a morte, como Sócrates, surge um juízo sincero que as reticências dos historiadores e estudiosos, muitas vezes, acabam por ofuscar. Em De Beneficiis (II,18), Sêneca lembra que "às vezes, mesmo contra a nossa vontade, devemos aceitar um benefício, quando é dado por um tirano cruel e iracundo, que reputaria injúria que tu desdenhasses seu presente. Não deverei aceitar?" Assim, mais importante do que saber que Sêneca era rico, é saber se ele era ávido de riquezas, se viveu no fausto e na opulência. Conforme suas Epistulae Morales ad Lucilium, 18, seu pensamento era este: é lícito ser rico, contudo é preciso viver de tal modo que se possa, em cada contingência, bastar a si próprio e renunciar a qualquer bem que a sorte pode dar, mas também tirar. Rico, Sêneca viveu com um certo conforto, mas, conforme acreditava e pregava, sempre de maneira modesta. Tem razão o professor G.D. Leoni, da Sedes Sapientiae, quando afirma, no seu estudo introdutivo ao volume XLIV da Biblioteca Clássica da Atena Editora, São Paulo, 1957, que, sem dúvida, a posteridade foi injusta, recolhendo, contra esse homem, somente as invejosas acusações dos seus inimigos. Mas a perfeita intuição dos poetas define aquilo que os críticos se esforçam por esclarecer mas amiúde ofuscam. Dante, no limbo, vê, entre os sumos escritores e heróis antigos - Sócrates, Platão, Demócrito, Diógenes, Anaxágora, Tales de Mileto, Empédocles, Heráclito, Zenão, Dioscórides, Orfeu, Cícero, Lino e "Sêneca morale". Sêneca, diferente de um filósofo, é um entusiasta da filosofia, estudioso apaixonado, informado de todas as correntes filosóficas do seu tempo, mas contrário a encerrar-se em qualquer sistema ou fórmula. Nele, a filosofia era viva, era a própria vida. "A prosa adere ao pensamento, uniformiza-se adapta-se a ele; e muitas vezes um subentendido produz um jogo de luzes e sombras cheios de profunda beleza, amiúde a frase breve produz inesperadas imagens pictóricas, outras vezes antíteses, ou as anedotas enriquecem as sentenças austeras, a argúcia atenua a trágica solenidade do assunto". Poeta, humanista, mais que filósofo, o elemento preponderante em suas obras são os sentimentos, mais do que as idéias, com as quais, na origem, pouco contribuiu. Entretanto, na história do pensamento, nunca ninguém foi tão compenetrado do sentimento da nobreza do espírito humano, e soube tão bem e poderosamente transmitir esse sentimento em palavras." Sua prosa é vivaz, variada, alegre, moderna, eterna; como quando procura mostrar como as desventuras pelas quais passam os bons, devem ser encaradas como provas para melhor evidenciar suas virtudes, ajudar o próximo: "Os deuses põem à prova a virtude e exercitam a força de espírito dos bons, que devem seguir seu destino preestabelecido: o sábio, por isso, nunca será infeliz". Sêneca retirou-se da vida pública em 62. Entre seus últimos textos, estão a compilação científica Naturales Quaestiones (Problemas Naturais); os tratados De Tranquillitate Animi (Sobre a Tranquilidade da Alma), De Vita Beata (Sobre a Vida Beata) e, talvez sua obra mais profunda, as Epistolae Morales, dirigidas a Lucílio, em que reúne conselhos estoicos e elementos epicuristas na pregação de uma fraternidade universal mais tarde considerada próxima ao cristianismo. No ano 65, Sêneca foi acusado de ter participado da conspiração de Pisão, na qual o assassínio de Nero teria sido planejado. Sem qualquer julgamento, foi obrigado a cometer o suicídio. Na presença dos seus amigos, cortou os pulsos com o ânimo sereno que defendia em sua filosofia. Tácito relatou a morte de Sêneca e da mulher, que também cortou os pulsos. Nero, com medo da repercussão negativa dessa dupla morte, mandou que médicos a tratassem, e ela sobreviveu ao marido alguns anos.

Contemporâneo de Cristo

Apesar de ter sido contemporâneo de Cristo, Sêneca não fez quaisquer relatos significativos de fenômenos milagrosos que aparentemente anunciavam o despoletar de uma poderosa nova religião; entretanto, segundo Jerónimo ("De Viris Illustribus", xii), Sêneca teria trocado correspondências com Paulo (apóstolo com cidadania romana, também conhecido por Saulo). Constata-se que os cristãos, por intermédio de Lucius Annaeus Sêneca, assimilaram os princípios estoicos, utilizando, inclusive, as mesmas metáforas estoicas na Bíblia. Um fato tanto mais curioso é que Sêneca, como filósofo, interessou-se por todos os fenômenos da natureza, resultando nas cartas intituladas posteriormente "Questões da Natureza", como observou Edward Gibbon, historiador do iluminismo do século XVIII, perito na história do Império Romano e autor do livro História do Declínio e Queda do Império Romano.

A filosofia de Sêneca

Sêneca ocupava-se da forma correta de viver a vida (ou seja, da ética), da física e da lógica. Via o sereno estoicismo como a maior virtude, o que lhe permitiu praticar a imperturbabilidade da alma, denominada ataraxia (termo utilizado pela primeira vez por Demócrito em 400 a.C.). Juntamente com Marco Aurélio e Cícero, conta-se entre os mais importantes representantes da intelectualidade romana. Sêneca via, no cumprimento do dever, um serviço à humanidade. Procurava aplicar a sua filosofia à prática. Deste modo, apesar de ser rico, vivia modestamente: bebia apenas água, comia pouco, dormia sobre um colchão duro. Sêneca não viu nenhuma contradição entre a sua filosofia estóica e a sua riqueza material: dizia que o sábio não estava obrigado à pobreza, desde que o seu dinheiro tivesse sido ganho de forma honesta. No entanto, devia ser capaz de abdicar da riqueza. Sêneca via-se como um sábio imperfeito: "Eu elogio a vida, não a que levo, mas aquela que sei que deve ser vivida". Os afetos (como relutância, vontade, cobiça, receio) devem ser ultrapassados. O objetivo não é a perda de sentimentos, mas a superação dos afetos. Os bens podem ser adquiridos, à condição de não deixarmos que se estabeleça uma dependência deles. Para Sêneca, o destino é uma realidade. O homem pode apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo. Se o aceitar de livre vontade, goza de liberdade. A morte é um dado natural. O suicídio não é categoricamente excluído por Sêneca. Sêneca influenciaria profundamente o pensamento de João Calvino. O primeiro livro de Calvino foi um comentário ao De Clementia, de Sêneca.

A obra literária de Sêneca

Ao se analisarem os escritos de Sêneca, é possível perceber a forma pela qual alcançou o conhecimento e desenvolvimento da ideia de fluxo de energia, que advém, segundo ele, de algum "princípio ativo" (termo utilizado em seu livro "Questões Naturais"), o qual sujeita à regra geral: "causa e efeito", ou "ação e reação", de tal forma que sugeria, em uma de suas cartas a Lucílio, que só tem domínio de si aquele que não faz de seu corpo um peregrinador por outros corpos. Sêneca destacou-se como estilista literário. Numa prosa coloquial, seus trabalhos exemplificam a maneira de escrever retórica, declamatória, com frases curtas, conclusões epigramáticas e emprego de metáforas. A ironia é a arma que emprega com maestria, principalmente nas tragédias que escreveu, as únicas do gênero na literatura da antiga Roma. Versões retóricas de peças gregas, elas substituem o elemento dramático por efeitos brutais, como assassinatos em cena, espectros vingativos e discursos violentos, numa visão trágica e mais individualista da existência.

Diálogos
(40) Ad Marciam, De consolatione
(41) De Ira - Estudo sobre as consequências e sobre o controlo da ira
(42) Ad Helviam matrem, De consolatione
(44) De Consolatione ad Polybium
(49) De Brevitate Vitæ ("Sobre a brevidade da vida")
(62) De Otio ("Do ócio")
(63) De Tranquillitate Animi ("Sobre a tranquilidade da alma")
(64) De Providentia ("Sobre a Providência")
(55) De Constantia Sapientis
(58) De Vita Beata

Referências