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domingo, 24 de março de 2019

Biografia de Horácio - poeta e filósofo

Quinto Horácio Flaco, em latim Quintus Horatius Flaccus, nasceu em Venúsia, a 8 de Dezembro de 65 a.C., e, faleceu em Roma, a 27 de Novembro de 8 a.C.. Horácio foi um poeta lírico e satírico romano, além de filósofo. É conhecido por ser um dos maiores poetas da Roma Antiga.

Vida

Filho de um escravo liberto, que possuía a função de receber o dinheiro público nos leilões, recebeu uma boa educação para alguém com suas origens sociais, graças aos recursos que seu pai conseguiu, levando-o para Roma onde foi discípulo de Orbílio Pupilo. Seus estudos literários de Roma foram completados em Atenas, para onde foi, aos vinte anos. Quando em 44 a.C. eclodiu a guerra civil que se seguiu ao assassinato de Júlio César, Horácio tomou partido daqueles que participaram da morte deste, Bruto e Cássio, servindo até a Batalha de Filipos onde, ao avizinhar-se a derrota, fugiu de volta para Roma. Já sem o pai, que havia morrido, e tendo perdido todos os bens que este possuía, que foram confiscados, Horácio conseguiu um trabalho como escriturário, tendo assim ocasião de começar a escrever suas obras literárias. Conhece então o poeta Virgílio, que o apresenta a Mecenas que, após nove meses, o convoca para integrar o círculo de artistas protegidos, tornando-se assim um dos poetas oficiais do estado, tendo a amizade a partir dali aumentado a tal ponto que o protetor deu-lhe de presente uma vila. Eclodem, então, as lutas de Otaviano contra Cleópatra e Marco Antônio (32-30 a.C.), tomando então Horácio entusiasta partido do primeiro que, sagrando-se vitorioso em Ácio, dele recebeu exultação pela conquista. Tendo início o Império, e Otaviano passando a chamar-se Augusto, tem início um período de paz que o poeta louvou, agradando ao imperador que, então, lhe oferece o cargo de secretário, sendo a oferta recusada. Também recusa os pedidos de Mecenas e Augusto para que cantasse os feitos guerreiros, preferindo exaltar o papel de pacificador do governante, dedicando-se aos poemas curtos e com temas variados. Segundo Enzo Marmorale, Horácio “era de baixa estatura, quase gordo, moreno, de cabelos pretos, e bom orador”; mesmo havendo jurado que não sobreviveria a Mecenas, sua morte deu-se a 27 de Novembro de 8 a.C., meses após o falecimento do amigo, ao lado de quem foi sepultado no Esquilino (é a mais alta e a mais longa das sete colinas sobre as quais foi fundada a cidade de Roma, 58,3 metros acima do nível do mar na Via del Oppio e é formada por três cumes distintos: o Ópio, no setor sul, o Fagutal, no setor ocidental ao lado do Vélia, e o Císpio (em latim: Cispius) no setor norte, onde hoje está a Basílica de Santa Maria Maio).

Filosofia epicurista

Alguns de seus poemas são apontados como exemplos do impacto da filosofia epicurista na Roma Antiga. Não sendo um filósofo ele mesmo no sentido estreito do termo, ele se mostrou um filósofo ao não evitar o tema em seus poemas alguns temas epicuristas destacam-se em sua obra, como a importância em se aproveitar o presente (carpe diem) pelo reconhecimento da brevidade da vida e a busca pela tranquilidade (fugere urbem).

Bibliografia

Sua obra pode ser dividida em quatro gêneros:
  • Sátiras ou sermones — Retrata ironia de seu tempo dividida em dois livros escritos em hexâmetros. Baseado em assuntos literários ou morais, discute questões éticas.
  • Odes ou Carminas — Divididos em quatro livros de longos poemas líricos sobre assuntos diversos, geralmente sobre mitologia. Também em hexâmetros.
  • Epístolas ou cartas — Dois livros feitos de coleções de cartas sobre vários assuntos. Dentre elas destaca-se a maior, a Epístola aos Pisões, conhecida como Arte Poética.
  • Epodos ou iambos — Um livro somente, com 17 pequenos poemas líricos escritos na mocidade sobre assuntos de Roma e imitava, tanto na métrica quanto no estilo satírico, o poeta Arquíloco.

Livros

  • (35 a.C.) Sermonum liber primus ou Sátira I
  • (30 a.C.) Epodos
  • (30 a.C.) Sermonum liber secundus ou Sátira II
  • (23 a.C.) Carminum liber primus ou Odes I
  • (23 a.C.) Carminum liber secundus ou Odes II
  • (23 a.C.) Carminum liber tertius ou Odes III
  • (20 a.C.) Epistularum liber primus
  • (18 a.C.) Ars Poetica, ou Epístola aos Pisões
  • (17 a.C.) Carmen Saeculare ou Canto secular
  • (14 a.C.) Epistularum liber secundus
  • (13 a.C.) Carminum liber quartus ou Odes IV

Epodos

Epodos é como se conhece uma das obras de Horácio, poeta romano do século I a.C., que reúne versos escritos em forma de epodo (e também de iambos), com 17 pequenos poemas versando sobre assuntos de Roma. A obra divide-se em duas partes (Epodos 1-10 e 11-17). Fruto da juventude do poeta, foram escritos ao mesmo tempo que o primeiro volume de suas Sátiras, entre os anos 41-30 a.C., à moda do poeta grego Arquíloco.

Análise da obra

Neste trabalho, como nos demais de Horácio, notam-se várias narrativas autobiográficas: o autor usa seguidamente a primeira pessoa, construindo em seus livros (às vezes de forma não tão clara ao leitor moderno) suas idades, de tal forma que este é um elemento que serve de ligação entre as suas obras. Embora essas afirmações sejam aceitas de forma controversa, Horácio parece ter sofrido influência dos trabalhos de Catulo (na divisão da obra em duas partes, por exemplo) e de Calímaco, apresentando-se como seguidor de Lucílio, poeta satírico (tal como se declararam ainda Safo e Alceu). Este tipo de poesia, originário da Grécia, a chamada "poesia iâmbica" ou "iambos", era conhecida pelo seu tom coloquial e invectivo, tendo casos como o de Arquíloco, em que era uma invectiva ofensiva.

Exemplo - o Epodo X

Neste epodo Horácio lança suas invectivas contra um indivíduo da Gália chamado Mérvio, por ele dito como mau versejador, contrário às suas preferências pelo classicismo antigo. Assim, nos seus versos, evoca Horácio as forças da natureza para que, estando Mérvio ao mar, tudo ocorra para seu fim em um naufrágio; na linguagem empregada serve-se de metáforas e prosopopeias.
Excerto:
Sai do porto, com mau auspício, a nau, levando o fétido Mévio.
Lembra-te, ó Austro, de bater ambos os lados com terríveis ondas.
Revolvendo o mar, que o tenebroso Euro disperse os cabos e os remos quebrados.
que Aquilão surja quão grande os altos montes que destrói as agitadas azinheiras.
Que não apareça astro favorável na sombria noite em que o irado Órion se põe,
nem que seja levado em mar mais tranquilo que tropa Grega dos vencedores, quando, incendiada Troia,
Palas voltou sua ira contra a ímpia nau de Ájax.



Referências

domingo, 15 de setembro de 2013

Epicurismo

 
Resumo


Epicuro
Doutrina materialista derivada diretamente do atomismo de Demócrito, apesar de aceitar o acaso como força motriz dos átomos e não o rígido determinismo de Demócrito. Moralmente, o epicurismo eliminou o terror insuflado pelos deuses, embora não os tenha negado peremptoriamente: existem, porém, vivem isolados e alheios ao homem. Os castigos infernais foram negados, pois os átomos sutilíssimos que compunham a alma desagregavam-se com a morte. A virtude é identificada com o prazer, porém, sem o aspecto grosseiro que os inimigos do filósofo lhe atribuíram e que até hoje persiste: Epicuro, homem moderado e benevolente, referiu-se ao prazer do espírito, conseguido pela sabedoria. A busca desenfreada de prazeres vulgares, dizia, escraviza o homem, não permitindo que este se livre das perturbações causadoras da infelicidade. Politicamente, pregava o isolamento, razão pela qual teve poucos adeptos em Roma, cultora das virtudes cívicas, ainda que o mais famoso discípulo de Epicuro fosse o romano Lucrécio, autor de De Rerum Natura, onde expôs o pensamento do mestre. No século XVII foi bastante estudado, destacando-se entre seus adeptos o físico Pierre Gassendi [1592-1655]. Vulgarmente, epicurismo significa a busca do máximo de prazeres com o mínimo de dores, sensualismo e até ausência de preocupações espirituais.


Epicurismo

Epicurismo é o sistema filosófico que prega a procura dos prazeres moderados para atingir um estado de tranquilidade e de libertação do medo, com a ausência de sofrimento corporal pelo conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos desejos. Já quando os desejos são exacerbados podem ser fonte de perturbações constantes, dificultando o encontro da felicidade que é manter a saúde do corpo e a serenidade do espírito, ensinado por Epicuro de Samos, filósofo ateniense do século IV a.C., e seguido depois por outros filósofos, chamados epicuristas. Epicuro também é conhecido como o Filósofo do Jardim, pelo fato de que lecionou em um, reunindo-se constantemente com seus discípulos. Em Atenas, Epicuro fundou uma escola e escreveu mais de 300 trabalhos, dos quais nenhum sobreviveu, deles restam notícias de seus discípulos ou alguns fragmentos. Sua filosofia é de cunho materialista, não havendo espaço para a imortalidade. O filósofo acreditava que o maior bem era a procura de prazeres moderados de forma a atingir um estado de tranquilidade, chamado de ataraxia, e de libertação do medo, assim como a ausência de sofrimento corporal, conhecido como a aponia; por meio do conhecimento do funcionamento do mundo e da consciência da limitação dos desejos. A combinação desses dois estados constituiria a felicidade na sua forma mais elevada. A finalidade da filosofia de Epicuro não era teórica, mas bastante prática. Buscava sobretudo encontrar o sossego necessário para uma vida feliz e aprazível, na qual os temores perante o destino, os deuses ou a morte estavam definitivamente eliminados. Para isso, fundamentava-se em uma teoria do conhecimento empirista, em uma física atomista e na ética. No mundo mediterrânico antigo, a filosofia epicurista conquistou grande número de seguidores. Foi uma escola de pensamento muito proeminente por um período de sete séculos depois da morte do fundador. Posteriormente, quase relegou-se ao esquecimento devido ao início da Idade Média, período em que se perderam a maioria dos escritos deste filósofo grego. A idéia que Epicuro tinha era a de que, para ser feliz, o homem necessitava de três coisas: liberdade, amizade e tempo para filosofar. Na Grécia Antiga, existia uma cidade na qual, em todas as paredes do mercado, se havia escrito toda a filosofia da felicidade de Epicuro, procurando conscientizar as pessoas que, comprar e possuir bens materiais, não as tornaria mais felizes, como elas acreditavam.

História


O Epicurismo foi uma corrente filosófica surgida durante o período da Antiguidade conhecido como Helenismo que se inicia no final do século IV a.C.. "Trata-se, portanto, do período iniciado com a formação dos reinos que dividiram entre si o império de Alexandre, o Grande, e que durou até a conquista romana, em 146 a.C., quando a Grécia foi declarada província romana. Segundo alguns historiadores, esse período iria até o advento de Augusto e a definitiva consolidação do Império Romano (± 20 a.C.)". Como figura notória deste período, temos Alexandre III da Macedônia, que ficou conhecido historicamente como Alexandre, o Grande. Educado por Aristóteles e familiarizado com a cultura grega, Alexandre foi responsável por conquistar a Mesopotâmia, a Pérsia, a Fenícia, a Palestina e o Egito. Uma de suas técnicas de dominação era realizar a manutenção das instituições culturais dos vencidos, o que resultou na fusão dos elementos culturais gregos e orientais; a esta nova cultura chama-se de Helenismo. A conquista do Oriente provocou uma série de alterações políticas e culturais, e as tendências filosóficas do período são a expressão dessas mudanças, como no caso do Epicurismo.

Princípios Filosóficos


Epicuro viveu as contradições deste novo mundo. Sua filosofia se opôs à Metafísica de Aristóteles, cuja origem ele chama de espiritualismo de Platão, que defendia a idéia de uma dimensão além do sensível, supra-real, ao qual seria o fundamento que constituiria o mundo que vemos, tocamos e participamos. Com uma filosofia determinista, Epicuro defende a idéia que nada está além de nossos sentidos, não existiria nenhuma realidade que não poderia ser entendida com auxílio de nossos cinco sentidos. Este princípio pode ser denominado de "Naturalismo Radical". Para esclarecer este fundamento, que é compreendido por três tomadas de consciência do indivíduo e funciona como um caminho para a felicidade, podemos dividi-lo em três postulados, segundo o estudioso Juvenal Savian Filho:

Compreensão dos deuses


Segundo a crença dos gregos, os deuses estariam preocupados com o ser humano, sendo responsáveis por suas vitórias ou desgraças, o que acarretaria num medo inerente ao homem, que temeria ser punido a qualquer momento por um de seus atos. Epicuro critica esta idéia. Defende que os deuses existem, mas não estão preocupados conosco. Afinal, como afirma em sua metodologia do conhecimento, os juízos que temos dos deuses não se baseiam em prolepses, isto é, em imagens formadas pelas repetições, que produzem veracidade, e nos permitem chegar em conclusões sobre o real. Os deuses, para alguns estudiosos da filosofia de Epicuro, não tomam consciência dos humanos, afinal, na perfeição não poderia caber a imperfeição, sequer por conhecimento. Se os deuses não se encarregam de nosso destino, benção ou maldição, cabe a nos mesmos a responsabilidade. A felicidade ou o sofrimento depende das escolhas de cada um.

Compreensão da morte


Para acabar com o temor da morte, Epicuro defende a idéia da morte como sendo o nada. A dor e o sofrimento residem nas sensações, na vida como fardo, e se a morte é o total aniquilamento do "viver", o sábio de nada tem a temer. A lógica é que se é a vida e as sensações que causam o sofrimento do indivíduo, a morte existiria para cessar as sensações, ser o nada, a privação total. Portanto, inadmissível aceitar que ocorreria sofrimento, pois a morte ocasionaria o extermínio das sensações.

Compreensão dos desejos


É necessário compreender a distinção entre os desejos naturais e desejos inúteis, infundados ou também chamados de frívolos. Para Epicuro, o desejo se origina da uma falta, que pode partir da natureza (desejo natural) ou de um opinião falsa (desejo frívolo). Os desejos podem ser divididos em:
  • Desejos naturais e necessários: são os desejos que livram o corpo da dor da fome e da sede;
  • Desejos naturais e não necessários: são os desejos que surgem da vontade de variar, por exemplo, o alimento ou a bebida para variar também o prazer do corpo;
  • Desejos não naturais e não necessários: são os que nascem de uma opinião falsa sobre o mundo, incentivados por sentimentos de vaidade, orgulho ou inveja.
Epicuro tem uma finalidade concreta: a eliminação das dores e a busca dos prazeres, o sábio deveria desejar os objetos simples e naturais e saber que, por ser imperfeito, sentirá dor, inevitavelmente. O sábio é, portanto, aquele que toma consciência da própria existência e destino, não aceitando o determinismo de nenhum deus. Para ele, o importante na busca é a saúde física e a serenidade interior, ocasionadas pela escolha de quais desejos deverão ser saciados. A felicidade reside, então, na saúde do corpo e da alma, que não pode ser entendida, obviamente, como metafísica, mas parte fundamental da própria existência corpórea. Ser feliz é ter pleno domínio destes prazeres, o que pode ser alcançado com a compreensão da natureza dos deuses, da morte e dos desejos.

O Caminho do Conhecimento


A teoria do conhecimento epicurista caracterizava-se pela valorização da experiência imediata, ou seja, para Epicuro, todo o conhecimento tem como origem as sensações e impressões dos sentidos e todas as sensações são sempre verdadeiras. Por exemplo, um remo, se visto dentro da água, possui uma imagem retorcida, porém, se visto fora dela, o remo possui uma aparência reta e plana. Neste caso, qual das sensações estaria correta? Para Epicuro, não há erro, apenas uma precipitação. O remo sempre aparentará ser retorcido, caso visto de dentro da água. Para esclarecer isto, o filósofo utilizado do termo Prolepse, que pode ser entendido como um resquício de percepção anterior, uma espécie de "arquivo de nossa memória." Será a repetição das percepções que irão determinar qual a "verdadeira" forma do remo e construir o conhecimento dentro da ética epicurista.

Diferença entre Epicurismo e Hedonismo


Embora o epicurismo seja uma doutrina muitas vezes confundida com o hedonismo, já que declara o prazer como o único valor intrínseco, a sua concepção da ausência de dor como o maior prazer e a sua apologia da vida simples tornam-no diferente: o hedonismo, além de levar em conta os prazeres sexuais, incentiva o prazer intensamente, enquanto no epicurismo, o prazer possui papel passivo, na ausência de paixões e na eliminação de qualquer fator que cause o sofrimento ou temor, como a morte.

Os Aforismos de Epicuro


No livro Máximas Principais, João Quartim de Moraes, professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas, traduz os principais aforismos que apresentam a ética das idéias de Epicuro, aos quais algumas que representam sua síntese serão expostos a seguir, na forma como traduzidas pelo estudioso, com um breve comentário:
  • Aquele que é plenamente feliz e imortal não tem preocupações, nem perturba os outros; não é afetado pela cólera ou pelo favor, já que tudo isso é próprio à fraqueza”.
Para Epicuro, os deuses existem, mas não se preocupam conosco. Como seres perfeitos de nada necessitam, nem de ninguém. Sentir ódio, raiva e medo é condição própria de seres imperfeitos, não dos deuses, cuja condição divina não permite que careçam de algo além de si mesmos.
  • É impossível viver prazerosamente sem viver prudentemente, belamente e justamente, nem viver prudentemente, belamente e justamente sem viver prazerosamente. Aquele que está privado daquilo que permite viver prudentemente, belamente e justamente, não pode viver feliz, mesmo se for correto e justo”.
"É preciso ser sábio, não para ter prazer (todos os experimentam), mas para viver prazerosamente" (MORAES, 2010, p. 23). Para Epicuro, a vida prazerosa exige paz de espírito, não sendo somente a totalidade dos prazeres da vida. A principal diferença, portanto, do epicurismo e do hedonismo, é que o primeiro considera o prazer do repouso, a experiência psíquica da lembrança também é um prazer; enquanto a segunda considera apenas a experiência prazerosa no momento de sua fruição.
  • Nenhum prazer é em si mesmo um mal, mas aquilo que produz certos prazeres acarreta sofrimentos bem maiores do que os prazeres”.
Nenhum prazer é, por essência, ruim: é o que produzimos com ele que, dependendo do tamanho de seu sofrimento, ditará se realmente valerá ser saciado. O prazer de tomarmos um copo de água quando estamos com muita sede é tão verdadeiro quanto o sofrimento de ser afogado pelas águas do mar. As drogas, por exemplo, usadas sem critério médico, podem produzir um mal muito maior que a euforia ou bem-estar que causam quanto ao prazer imediato que proporcionam. Em síntese, o prazer e o sofrimento resultam da relação do corpo com os objetos circundantes.
  • Aqueles desejos naturais que quando permanecem insatisfeitos não provocam padecimento, mas suscitam forte tensão, são produto de uma vã opinião, e quando não se dissipam não é por causa de sua natureza própria, mas da futilidade humana”.
"Epicuro considera naturais e necessários os desejos que suprimem o padecimento, por exemplo, de beber quando temos sede, ao passo que por naturais e não necessários ele entende aqueles que apenas diversificam o prazer sem remover o padecimento" (MORAES, 2010, p. 47). A passagem é um escólio de Diógenes Laércio, que esclarece ponto fundamental do aforismo quanto a diferenciação dos desejos ditos "naturais e necessários" e outros "naturais e não necessários." Por serem desejos naturais, logo, não deveriam nos perturbar. Se isso realizam, são baseados em opiniões vazias, ocas. É comum chamarmos de "futilidade" o vício de seguir esse tipo de opinião.

Citações de Epicuro


  • "A necessidade é um mal, mas não há necessidade alguma de viver com necessidade."
- Fonte: Exortações, 9.
  • "As enfermidades duradouras proporcionam à carne mais prazer que dor."
- Fonte: Máximas capitais, IV.
  • "Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco."
- Fonte: Exortações, 68.
  • "Não tema deus,
Não se preocupe com a morte
O que é bom é fácil de ter, e
O que é terrível é fácil aguentar.
- Fonte: O “Tetrapharmakos" [τετραφάρμακος], ou “A quarta parte da cura”, de Epicuro, do “Papiro de Herculano”, 1005, 4.9-14, de Philodemo, como traduzido em The Epicurus Reader: Selected Writings and Testimonia (1994) editado por D. S. Hutchinson, p. vi
  • "A vida do justo é pouco perturbada por inquietações, a do injusto é cheia das maiores inquietações."
- Máximas Soberanas, 17

Carta a Meneceu

  • "Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz."
  • "Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade."
  • "Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade."
  • "Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver."
  • "O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal."
  • "Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais."
  • "Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem."
  • "Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte."
  • "Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos."
  • "De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que se originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade."
  • "Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas."
  • "O prazer é o princípio e o fim de uma vida feliz."
  • "A morte é uma quimera: porque enquanto eu existo, não existe a morte; e quando existe a morte, já não existo."
- Variante: "A morte, temida como o mais horrível dos males, não é, na realidade, nada, pois enquanto nós somos, a morte não é, e quando esta chega, nós não somos."

Atribuídas

  • "A morte nada é para nós, pois aquilo que já foi dissolvido não possui mais sentimentos. Aquilo, porém, que não possui mais sentimentos, não nos importa."
  • "Faz tudo como se estivesses a ser contemplado."
  • "O apogeu do prazer será alcançado quando todas as dores forem eliminadas. Pois onde entrou o prazer não existem, enquanto ele reinar, nem dores nem padecimentos, ou até ambos."
  • "Quanto à sensação de segurança perante os homens, o poder e o domínio são bens dados pela natureza, a partir dos quais podemos proporcionar-nos segurança."
  • "Se aquilo que ocasiona prazer aos libertos eliminasse os receios do espírito, dos fenômenos da natureza, da morte e das dores, e se ainda ensinasse o conhecimento da limitação das ânsias, nada teríamos a desaprovar nessas pessoas."
  • "A riqueza exigida pela natureza é limitada e facilmente arranjada; aquela, pelo contrário, que ambicionamos possuir num tolo desejo, chega ao infinito."
  • "A segurança, perante os homens, pode ser fortificada, até um certo grau, pelo poder e pela riqueza; aquela, porém, que é conferida pela vida na tranqüilidade e no retiro da massa dos homens é certamente mais genuína."
  • "Verdade é que o homem sensato não evita o prazer, e quando finalmente as circunstâncias o obrigam a deixar a vida, ele não se comporta como se esta ainda lhe devesse algo para a suprema existência."
  • "A faculdade de granjear amizades é de longe a mais eminente entre todas aquelas que contribuem para a sabedoria da felicidade."
  • "O mesmo conhecimento a que devemos o consolo de que nenhum terror é eterno ou que dure muito tempo, também nos deixa compreender que durante o terror, de duração limitada, a verdadeira segurança nos é proporcionada pela amizade."
  • "Dentre os desejos, alguns são dependentes da natureza e necessários; outros são dependentes da natureza, porém não necessários; outros, ainda, nem são dependentes da natureza nem necessários, mas oriundos duma vã ilusão."
  • "Injustiça por si só não é um mal. O verdadeiro mal reside no receio desconfiado de que o ato possa vir a ser escondido do juiz competente."
  • "Nascemos uma única vez; uma segunda vez não nos é dada, e não nasceremos mais por toda a eternidade."
  • "Se não podemos ver-nos, trocar ideias, nem estar em companhia um do outro, o sentimento do amor evaporar-se-á em pouco tempo."
  • "Toda amizade, por mais desejável que seja por si mesma, é, no fim das contas, construída sobre o proveito próprio."
  • "Ávidos pelos bens distantes, não devemos desprezar os bens próximos; lembremo-nos de que estes últimos também, outrora, foram ansiosamente desejados."
  • "Quem exige ajuda constante e, do mesmo modo, quem nunca a presta, não é amigo. O primeiro quer comprar o nosso esforço com o seu afeto; o segundo nos rouba, para todo o futuro, a esperança consoladora."
  • "Soube que a apetência da tua carne te impele exageradamente às relações sexuais. Segue-a, conforme o teu desejo, mas trata de não infringires as leis, não ofenderes a decência, não magoares algum amigo teu, não abalares a tua saúde e não desperdiçares a tua fortuna. É difícil, porém, não ficar emaranhado numa dessas dificuldades. O gozo do amor não traz proveito, devemos até ficar contentes se não for prejudicial."
  • "Cada um sai da vida do mesmo modo como se tivesse acabado de nascer."
  • "Devemos indagar por ocasião de todos os desejos: o que há de acontecer quando o meu apetite for satisfeito, e o que acontecerá se ele não o for?"
  • "Nada faças na vida algo que te cause medo se teu vizinho vier a sabê-lo."
  • "Nada é suficiente para quem julgar o suficiente demasiadamente pouco."
  • "É sem valor pedir aos deuses aquilo que nós mesmos podemos realizar."
  • "Não provamos nosso sentimento ao amigo compartilhando as suas lamentações, mas sim com a nossa ajuda ativa."
  • "O fruto mais saboroso da autossuficiência é a liberdade."
  • "Pelo medo de ter de se contentar com pouco, a maioria dos homens se deixa levar a atos que aumentam mais ainda esse medo."
  • "Muitos que alcançaram a riqueza não conseguiram um remédio contra seus males, apenas os trocaram por males ainda piores."
  • "As leis existem para os sábios, não para que não pratiquem injustiças, mas para que não as sofram."
  • "Aquele que inspira medo aos outros não está, ele próprio, livre desse medo."
  • "Se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia."
  • "Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?"
  • "A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem."
  • "Não podemos viver felizes se não formos justos, sensatos e bons; e não podemos ser justos, sensatos e bons sem sermos felizes."
  • "Das coisas que a sabedoria proporciona para tornar a vida inteiramente feliz, a maior de todas é uma amizade."
  • "Na discussão, o vencido obtém maior proveito, pois aprende o que ainda não sabia."
  • "Não há o que temer na morte. Pode-se alcançar a felicidade e suportar a dor."
  • "Nenhum prazer é em si um mal, porém certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres."
  • "O homem é rico desde que se familiariza com a pobreza."
  • "O impossível reside nas mãos inertes daqueles que não tentam."
  • "O prazer de fazer o bem é maior do que o de recebê-lo."
  • "O prazer é o primeiro dos bens. É a ausência de dor no corpo e de inquietação na alma."
  • "Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades.
- Epicuro citado em "Citações da Cultura Universal" - página 235, Alberto J. G. Villamarín, Editora AGE Ltda, 2002, ISBN 8574970891, 9788574970899
  • "Os prazeres do amor jamais nos serviram. Devemos nos considerar felizes se não nos aborrecerem."
  • "Somente o justo desfruta de paz de espírito."
  • "Tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível! Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer."
  • "Quem não considera o que tem como a maior riqueza, será sempre desditoso, ainda que seja dono do mundo."

Referências

Biografia de Epicuro


Busto de Epicuro
Epicuro de Samos. (em grego antigo: Ἐπίκουρος, Epikouros, "aliado, camarada"; 341 a.C., Samos — 271 ou 270 a.C., Atenas) foi um filósofo grego do período helenístico. Seu pensamento foi muito difundido e numerosos centros epicuristas se desenvolveram na Jônia, no Egito e, a partir do século I, em Roma, onde Lucrécio foi seu maior divulgador.

Foi em Samos e com seus pais, que passou os primeiros anos da sua vida. Seu pai Aristóbulo, abrira uma pequena escola de gramática e Epicuro ajudava-o a ensinar a ler às crianças; sua mãe Cheréstrata, levava-o como menino do coro, a recitar as fórmulas lustrais. E daí diz-se, que lhe veio o horror à superstição. Na idade de 18 anos foi para Atenas, onde ouviu as lições de Xenócrates, discípulo de Aristóteles. Por 310, tendo-se ir juntar a seus pais, em Metilene e em Lampsaco, começou a ensinar filosofia. Segundo Epicuro, o prazer consiste na serenidade do espírito, resultante da limitação das necessidades contingentes, domínio das paixões e supressão da dor; não se trata como em geral se cuida do prazer como gozo sensual momentâneo. Escreve o Prof. J. Herculano Pires: “Epicuro prega a ataraxia (tranqüilidade), a busca do equilíbrio, da serenidade, da paz íntima, a fuga a todos os excessos, que perturbam o Homem e o leva ao desespero”. Epicuro compôs obra considerável, de que nos restam apenas quatro cartas, conservadas graças a Diógenes Laércio e que contêm o resumo da sua doutrina lógica, metafísica e moral. Cita-se ainda uma coleção de máximas que parecem como o Manual de Epicteto, ter sido um extrato das suas obras feito por um dos seus discípulos. Hermann Usener recolheu e coordenou (1889) todos os textos quer de Epicuro, quer relativo a ele, permitindo fazer-se uma idéia completa e precisa do epicurismo. São fontes para o conhecimento das doutrinas de Epicuro os escritos de Cícero, Sêneca e, sobretudo, o poema de Lucrécio, De Rerum Natura, seu mais famoso discípulo.

Vida

Estátua de Epicuro 
(Imagem: Nobody60).
Epicuro nasceu na Ilha de Samos, em 341 a.C., mas ainda muito jovem partiu para Téos, na costa da Ásia Menor. Quando criança estudou com o platonista Pânfilo por quatro anos e era considerado um dos melhores alunos. Certa vez, ao ouvir a frase de Hesíodo, todas as coisas vieram do caos, ele perguntou: e o caos veio de que? Retornou para a terra natal em 323 a.C.. Sofria de cálculo renal, o que contribuiu para que tivesse uma vida marcada pela dor. Epicuro ouviu o filósofo acadêmico Pânfilo em Samos, que não lhe foi de muito agrado. Por isso foi mandado para Téos pelo seu pai. Com Nausífanes de Téos, discípulo de Demócrito de Abdera, Epicuro teria entrado em contato com a teoria atomista — da qual reformulou alguns pontos. Epicuro ensinou filosofia em Lâmpsaco, Mitilene e Cólofon até que em 306 a.C. fundou sua própria escola filosófica, chamada O Jardim, onde residia com alguns amigos, na cidade de Atenas. Lecionou em sua escola até a morte, em 270 a.C., cercado de amigos e discípulos e tendo sua vida marcada pelo ascetismo, serenidade e doçura. Na Divina Comédia, de Dante Alighieri, Epicuro é colocado no Inferno como um Herege. Ele está na 6º Prisão, junto com seus seguidores, na cidade de Dite. A pena dos hereges é serem enterrados em túmulos ardentes e abertos, tendo os membros queimados pela areia quente.

Filosofia e obra

O propósito da filosofia para Epicuro era atingir a felicidade, estado caracterizado pela aponia, a ausência de dor (física) e ataraxia ou imperturbabilidade da alma. Ele buscou na natureza as balizas para o seu pensamento: o homem, a exemplo dos animais, busca afastar-se da dor e aproximar-se do prazer. Estas referências seriam as melhores maneiras de medir o que é bom ou ruim. Utilizou-se da teoria atômica de Demócrito para justificar a constituição de tudo o que há. Das estrelas à alma, tudo é formado de átomos, sendo, porém de diferentes naturezas. Dizia que os átomos são de qualidades finitas, de quantidades infinitas e sujeitos a infinitas combinações. A
Epicuro - Museu do Louvre. 
(Imagem: Eric Gaba (User:Sting), July 2005).
morte física seria o fim do corpo (e do indivíduo), que era entendido como somatório de carne e alma, pela desintegração completa dos átomos que o constituem. Desta forma, os átomos, eternos e indestrutíveis, estariam livres para constituir outros corpos. Essa teoria, exaustivamente trabalhada, tinha a finalidade de explicar todos os fenômenos naturais conhecidos ou ainda não e principalmente extirpar os maiores medos humanos: o medo da morte e o medo dos deuses. Naqueles tempos, Epicuro percebeu que as pessoas eram muito supersticiosas e haviam se afastado da verdadeira função das religiões e dos deuses. Os deuses, segundo ele, viviam em perfeita harmonia, desfrutando da bem-aventurança (felicidade) divina. Não seria preocupação divina atormentar o homem de qualquer forma. Os deuses deveriam ser tomados como foram em tempos remotos, modelos de bem-aventurança que servem como modelo para os homens e não seres instáveis, com paixões humanas, que devem ser temidos. Desta forma procurou tranquilizar as pessoas quanto aos tormentos futuros ou após a morte. Não há por que temer os deuses nem em vida e nem após a vida. E além disso, depois de mortos, como não estaremos mais de posse de nossos sentidos, será impossível sentir alguma coisa. Então, não haveria nada a temer com a morte. No entanto, a caminho da busca da felicidade, ainda estão as dores e os prazeres. Quanto às dores físicas, nem sempre seria possível evitá-las. Mas Epicuro faz questão de frisar que elas não são duradouras e podem ser suportadas com as lembranças de bons momentos que o indivíduo tenha vivido. Piores e mais difíceis de lidar são as dores que perturbam a alma. Essas podem continuar a doer mesmo muito tempo depois de terem sido despertadas pela primeira vez. Para essas, Epicuro recomenda a reflexão. As dores da alma estão frequentemente associadas às frustrações. Em geral, oriunda de um desejo não satisfeito. Encontra-se aqui um dos pontos fundamentais para o entendimento dessa curiosa doutrina, que também foi tomada por seus seguidores e discípulos como um evangelho ou boa nova, o equacionamento entre dores e prazeres. Das 300 obras escritas pelo filósofo, restaram apenas três cartas que versam sobre a natureza, sobre os meteoros e sobre a moral, e uma coleção de pensamentos, fragmentos de outras obras perdidas. Estas cartas, com os fragmentos, foram coligidos por Hermann Usener sob o título de Epicurea, em 1887, mas mais tarde descobriu ser de Leucipo para Hermann Diels. Por suas proposições filosóficas Epicuro é considerado um dos precursores do pensamento anarquista no período clássico.

A certeza

Segundo Epicuro, para atingir a certeza é necessário confiar naquilo que foi recebido passivamente na sensação pura e, por consequência, nas idéias gerais que se formam no espírito (como resultado dos dados sensíveis recebidos pela faculdade sensitiva).

O atomismo

Epicuro defendia ardorosamente a liberdade humana e a tranquilidade do espírito. O atomismo, acreditava o filósofo, poderia garantir ambas as coisas desde que modificado. A representação vulgar do mundo, com seus deuses, o
Epicuro - Museu de Pérgamo. 
(Imagem: Marcus Cyron).
medo dos quais fez com que se cometessem os piores atos, é obstáculo à serenidade. Todas as doutrinas filosóficas, salvo o atomismo, participam dessas superstições. No sistema epicurista, os átomos se encontram fortuitamente, por uma leve inclinação em sua trajetória, que o faria chocar com outro átomo para constituir a matéria. Esta é a grande modificação em relação ao atomismo de Demócrito, onde o encontro dos átomos é necessário. A inclinação a que o átomo se desvia poderia ser por uma vontade, um desejo ou por afinidade com outro átomo. Precisamente este é o ponto fosco na teoria atômica de Epicuro. Provavelmente tenha explicado melhor em alguma de suas obras perdidas. Certo é que este encontro fortuito dos átomos que garante a liberdade (se assim não fosse, tudo estaria sob o jugo da Natureza) e garante a explicação dos fenômenos, sua elucidação, fazendo com que possam ser explicados racionalmente. Assim, ao compreender como opera a Natureza, o homem pode livrar-se do medo e das superstições que afligem o espírito.

O prazer

A doutrina de Epicuro entende que o sumo bem reside no prazer e, por isso, foi uma doutrina muitas vezes confundida com o hedonismo. O prazer de que fala Epicuro é o prazer do sábio, entendido como quietude da mente e o domínio sobre as emoções e, portanto, sobre si mesmo. É o prazer da justa-medida e não dos excessos. É a própria Natureza que nos informa que o prazer é um bem. Este prazer, no entanto, apenas satisfaz uma necessidade ou aquieta a dor. A Natureza conduz-nos a uma vida simples. O único prazer é o prazer do corpo e o que se chama de prazer do espírito é apenas lembrança dos prazeres do corpo. O mais alto prazer reside no que chamamos de saúde. Entre os prazeres, Epicuro elege a amizade. Por isso o convívio entre os estudiosos de sua doutrina era tão importante a ponto de viverem em uma comunidade, o "Jardim". Ali, os amigos poderiam se dedicar à filosofia, cuja função principal é libertar o homem para uma vida melhor.

O desejo


Desejos naturais
Necessários
Simplesmente naturais
Para a felicidade (eudaimonia)
Para a tranquilidade do corpo (proteção)
Para a vida (nutrição, sono)
Variações de prazeres, busca do agradável


Desejos frívolos
Artificiais
Irrealizáveis
Exemplo: riqueza, glória
Exemplo: imortalidade


 
Paradoxo de Epicuro

O paradoxo de Epicuro é um dilema lógico sobre o problema do mal atribuído ao filósofo grego Epicuro que argumenta contra a existência de um deus que seja ao mesmo tempo onisciente, onipotente e benevolente.


O paradoxo

A lógica do paradoxo proposto por Epicuro toma três características do deus judaico, omnipotência, onisciência e onibenevolência como, caso verdadeiras aos pares, excludentes de uma terceira. Isto é, se duas delas forem verdade, excluem automaticamente a outra. Trata-se, portanto, de um trilema. Isto tem relevância pois, caso seja ilógico que uma destas características seja verdadeira, então não pode ser o caso que um deus com as três exista.
  • Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.
  • Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.
  • Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

 

Deus no Epicurismo


Epicuro não era um ateu, apenas rejeitava a ideia de um deus preocupado com os assuntos humanos. Tanto o mestre quanto os seguidores do Epicurismo negavam a ideia de que não existia nenhum deus. Enquanto a concepção do deus supremo, feliz e abençoado era a mais popular, Epicuro rejeitava tal noção por considerar um fardo demasiado pesado ter de preocupar-se com todos os problemas do mundo. Por isto, os deuses não teriam nenhuma afeição especial pelos seres humanos, sequer saberiam de sua existência, servindo apenas como ideais morais dos quais a humanidade poderia tentar aproximar-se. Era justamente através da observação do problema do mal, ou seja, da presença do sofrimento na terra que Epicuro chegava à conclusão de que os deuses não poderiam estar preocupados com o bem estar da humanidade.

Atribuição e variações


Carnéades poderia ser o verdadeiro autor do paradoxo atribuído a Epicuro. (Imagem:
User:Bibi Saint-Pol).
Embora tenha caído no agrado da escola cética da filosofia grega, é possível que o paradoxo de Epicuro tenha sido erroneamente atribuído a ele por Lactâncio (Lucio Célio Firmiano Lactâncio) que, de sua perspectiva cristã, enquanto atacava o problema proposto pelo grego, o teria considerado como ateu. Há sugestão de que tenha sido de fato obra de um filósofo cético que antecedia Epicuro, possivelmente Carnéades (dito o platônico). De acordo com o estudioso alemão Reinhold F. Glei, está claro que o argumento teodiceico é de uma fonte acadêmica não epicurista, mas talvez até anti-epicurista. A versão mais antiga ainda preservada deste trilema aparece nos escritos do cético Sexto Empírico. Charles Bray, em seu livro A Filosofia da Necessidade de 1863, cita Epicuro sem mencionar sua fonte como autor do seguinte trecho: “Seria Deus desejoso de prevenir o mal mas incapaz? Portanto não é omnipotente. Seria ele capaz, mas sem desejo? Então é malévolo. Seria ele tanto capaz quanto desejoso? Então por que há o mal?” N. A. Nicholson, em seu Philosophical Papers de 1864, atribui "as famosas indagações" a Epicuro, utilizando as palavras anteriormente fraseadas por Hume. A frase de David Hume ocorre no livro décimo de seu aclamado Diálogos Sobre a Religião Natural, publicado postumamente em 1779. A personagem Philo começa sua fala dizendo "As antigas perguntas de Epicuro continuam sem resposta". A citação que Hume faz provém do influente Dictionnaire Historique et Critique de Pierre Bayle, que cita Lactâncio atribuindo as perguntas a Epicuro. Esta atribuição ocorre no capítulo 13 de "De Ira Dei" de Lactântio, que não fornece fontes. Hume postula: “O poder [de Deus] é infinito: o que quer que ele deseja é executado. Mas nem homem nem qualquer outro animal é feliz. Portanto ele não deseja sua felicidade. Sua sabedoria é infinita: ele nunca erra em escolher os meios para qualquer fim: mas o curso da natureza tende a ser contrário a qualquer felicidade humana ou animal: portanto não é estabelecido para tal propósito. Através de toda a história do conhecimento humano, não há inferências mais certas e infalíveis do que estas. Em que ponto, portanto, sua benevolência e misericórdia lembram a benevolência e misericórdia dos homens?”


Traduções

Há, em português, tradução de uma das cartas de Epicuro, a sobre a felicidade (a Meneceu), feita por Álvaro Lorencinie Enzo Del Carratore, em edição bilíngüe.
  • EPICURO. Carta Sobre a Felicidade (a Meneceu). Trad. e apresent. de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. São Paulo: UNESP, 1997.
  • EPICURO. Obras. Estudio preliminar, traducción y notas de Montserrat Jufresa, 2a edición, Madrid: Editorial Tecnos, 1994.
  • FARRINGTON, Benjamin. A doutrina de Epicuro. Tradução de Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.
  • FERRATER MORA, J. Diccionario de Filosofía. Tomos I e II. Barcelona: Editorial Ariel, 1994.
  • GUAL, Carlos Garcia. Epicuro. Madrid: Alianza Editorial, 1996.
  • LUCRÉCIO, Tito. Da Natureza. Coleção Os Pensadores, volume V. São Paulo, Editora Abril, 1973.
  • RUSSELL, Bertrand. Obras filosóficas. Tradução de Breno Silveira. Vol I. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.
  • SPINELLI, Miguel. Os Caminhos de Epicuro. São Paulo: Loyola, 2009
  • ULLMANN, Reinholdo A. Epicuro o filósofo da alegria. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.

 

Referências