| Hamilton em seu duelo contra Aaron Burr. |
Diz-se que o duelo remonta à Antigüidade. Segundo a lenda, bateram-se em duelo David e Golias, Turno e Enéas, Etéocles e Polinices. Sabe-se que o primeiro duelo de que há memória data de 1906. Realizou-se na Inglaterra entre Guilherme (conde de Eu) e Godofredo Baynard. O primeiro saiu gravemente ferido e o último morreu em consequência de um golpe no peito. A partir do século XVI o duelo foi proibido. Na França, ao tempo de Luís XIII, o Cardeal de Richelieu decretou a pena de morte para os duelistas. Segundo os historiadores, era impressionante a matança entre os nobres franceses. Diz-se que o duelo com pistola, data do tempo da Revolução Francesa. Anteriormente, o combate era feito com sabre, espada ou florete. Foi no século XVIII que se estabeleceram as regras oficiais para a igualdade dos combates. De acôrdo com essas normas ainda hoje adotadas:
“São duas as testemunhas; quando um indivíduo se julga ofendido na sua honra, encarrega dois amigos de se entenderem com o ofensor para este nomear também dois indivíduos com os quais se possam entender; reunidas as quatro testemunhas [padrinhos], depois de apresentarem os documentos justificativos da missão que lhes foi confiada, principiam por discutir se há ou não motivos para uma reparação pelas armas; se entenderem que não há motivo para a questão chegar à tais termos, lavra-se uma ata, considerando-se ilibada a honra dos adversários; se, ao contrário, entenderem que o agravo foi tal que não há outro meio de liquidar senão pela armas, discutem as condições do duelo, a hora e o local onde deve realizar-se, bem assim a escolha das armas; o duelo de morte não pode, em caso nenhum, ser aceito; os padrinhos, considerando a gravidade da ofensa, o mais que podem é resolver se, depois do primeiro sangue, o combate deverá ou não prosseguir, ouvido o médico que, por lei, é obrigado a assistir ao ato; no duelo a sabre, espada ou florete, os padrinhos devem examinar as armas e verificar se são precisamente iguais; nos duelos a pistola, as armas devem ser guardadas numa caixa e aí ficam à escolha dos protagonistas; sendo o duelo à arma de fogo, um dos padrinhos, depois de dar o sinal de “atenção” dá calmamente a voz de fogo, após a contagem de um a três; terminado o duelo, os adversários se cumprimentam [se entenderem que o devem fazer]; aquele que for ferido é levado para um lugar previamente combinado, onde receberá tratamento de socorro; terminado o duelo, os padrinhos sentam à uma mesa de campo e aí redigem as atas; o documento é assinado por todos os presentes...”.
| Etéocles e Polinices (Obra de Giovanni Battista Tiepolo). |
Diz-se que os duelos mais célebres foram:
- O de 15 de Novembro de 1712 entre o lorde Charles Mohun e o duque James Hamilton, no Hyde Park, Londres. Os dois adversários tombaram mortos após cinco minutos de combate.
- O de 1778 entre o duque de Bourbon e o conde de Artois. Este recebeu profundo ferimento no peito direito.
- O de 1789 entre Frederico, Duque de Iorque e Albany e Charles Lennox, 4º Duque de Richmond. Lennox falhou o alvo e o príncipe Frederico recusou-se a disparar em resposta.
- O de 1804, entre Alexander Hamilton e Aaron Burr. Hamilton morreu no combate.
Na Idade Média, era de costume o adversário mandar fazer o enterro de sua vítima. Depois de “lavada a sua honra”, o vencedor apressava-se em custear todas as despesas decorrentes do funeral de seu contendor. Na Antiguidade, as questões entre Estados eram decididas por meio de um duelo no qual tomavam parte os governantes desses países.
Um duelo é um tipo formal de combate ou justiça praticado desde o século XV até o século XX nas sociedades ocidentais. Pode ser definido como um combate consensual entre dois cavalheiros, que utilizam armas mortais de acordo com regras explícitas ou implícitas, respeitando a honra dos candidatos, acompanhados pelos padrinhos, que podem por sua vez lutar ou não entre si.
Em geral, e especialmente durante as últimas décadas do século XX, o duelo era considerado um ato ilegal (assassinato em primeiro e segundo grau) na maioria dos países. O duelo se desenvolve por iniciativa de uma das partes —o desafiante— para lavar um insulto à sua honra. O objetivo, em geral, não era matar o oponente, mas lograr “satisfação”, por exemplo, restaurando a honra colocando a própria vida em jogo. Deve-se distinguir entre os duelos das provas de combate, já que os primeiros não se usaram para determinar culpabilidade ou inocência, nem constituem procedimentos oficiais. Os duelos eram, em contrapartida, geralmente ilegais, apesar de que na maioria das sociedades onde era usual, contava com a aceitação social. Os participantes de um duelo corretamente planejado, geralmente não eram perseguidos, e nos casos em que eram, não eram presos por tal motivo. Considerava-se que apenas os cavalheiros (aristocratas ou endinheirados) os quais tinham que defender a honra, e portanto, a classe alta era a única qualificada para fazê-lo: se um cavalheiro fosse insultado por alguém da classe baixa, ninguém o tirava para o duelo, mas lhe infligiam algum castigo físico ou comissionava aos seus criados para que o fizessem. Em alguns países, em especial de origem anglo-saxão, o desafio era realizado publicamente com o golpe de uma luva na cara do oponente, ou então, se deixava cair a luva perante os pés do desafiado e, que se este a pegasse, aceitava o combate. Desde então, tem perdurado o ditado popular - "recolheu a luva" - para indicar que alguém respondia a provocação de um opositor.
| Um fictício duelo com pistola entre Eugene Onegin e Vladimir Lensky. (Obra de Ilya Repin, 1899). |
Origens
| Duelo no Bois de Boulogne em 1874. (Imagem: G. Durand). |
O termo “duelo” para referir-se a este tipo de contenda se remonta ao século XV na Europa. A palavra deriva do latim duellum, que no latim clássico se escrevia bellum, com o significado de 'guerra'. A etimologia popular o associou a duo ('dois'), ressaltando a acepção de “combate um a um”. Os confrontos físicos relacionados a insultos ou posicionamento social se remontam a pré-história, mas o conceito de duelo formal na sociedade ocidental se originou no duelo judicial da Idade Média, e em antigas práticas pré-cristãs da Era Viking. O duelos judiciais foram abolidos pelo IV Concílio de Latrão em 1215, mas ainda há testemunhas que relataram em 1459 sobre a aceitação deste sistema para resolver alguns crimes capitais. A maioria das sociedades não condenavam o duelo; na verdade, a vitória no duelo era reconhecida como um ato de heroísmo e não como um assassinato, e o status social do vencedor era enaltecido. Durante o Renascimento, a prática do duelo estabelecia a respeitabilidade de um cavalheiro, e era o meio aceito para resolver disputas. Naquelas sociedades, era sem dúvida a melhor alternativa do que outras formas de conflito menos regulamentadas. O primeiro código de duelo (Code duello) surgiu no Renascimento italiano, embora se reconhece vários antecedentes, incluindo a antiga lei germânica. O primeiro código formalizado a nível nacional foi o francês, e somente em 1777 foi elaborado na Irlanda um código que — devido à emigração — seria o mais influente nos Estados Unidos. No entanto, os duelos não foram exclusivos das altas classes da Europa; os ciganos, certas tribos indígenas norte-americanas (Navajos) e outras etnias euro-asiáticas tinham em seus códigos de conduta suas próprias versões de duelos (geralmente a facas ou machados), e contemporaneamente também nas classes baixas dos Estados Unidos, Colômbia e Brasil ainda se pratica este tipo de enfrentamentos com arma branca ou de fogo.
Outras acepções
Em espanhol duelo também significa um estado de luto ou aflição, acepção que pode ter origens comuns com a primeira, considerando a perspectiva de familiares e amigos dos duelistas.
Regras
Os duelos podiam ser efetuados com a espada de duelo européia ou – a partir do século XVIII em diante – com pistolas. Para este fim, foram fabricados
artesanalmente belos pares de pistolas de duelo para uso dos nobres ricos. Depois da ofensa real o imaginária, os partidários do ofendido exigiam “satisfação” do ofensor, explicitando a demanda com um gesto insultante ao que era impossível permanecer indiferente; golpear o ofensor no rosto com uma luva, ou jogar a luva no chão diante dele – daí a frase “tirar a luva” - que com o tempo tornou-se sinônimo de qualquer desafio. Este costume se originou na Idade Média, quando se ordenava a um cavalheiro, que recebia uma palmada ritual na cara simbolizando a última vez que a aceitaria sem revidar um desafio. Por esse motivo, quem quer que fosse golpeado com uma luva estava considerado, como o cavalheiro, obrigado a aceitar o desafio, ou permanecer desonrado. Cada parte no litígio tinha de escolher um representante de confiança (o padrinho) que acordaria o local do “campo de honra”, cujo principal critério da escolha era que fosse num lugar isolado para evitar interrupções. O padrinho que tinha a qualidade de Testemunha de Fé, tinha que verificar as armas, as regras e, caso o seu representado viesse a falecer, encarregar-se para que o corpo fosse entregue aos familiares e prestar contas à autoridade. Pela mesma razão, os duelos eram executados tradicionalmente ao amanhecer. Também era dever de cada parte comprovar que as armas eram iguais e que o duelo seria justo.
| Pistolas de duelo, Museu de Arte e História de Neuchatel. (Imagem: Rama . Link da imagem: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Pistolets-de-duel-p1030442.jpg). |
À escolha da parte ofendida, o duelo poderia ser:
- À “primeira gota de sangue”, em cujo caso se encerra logo que um dos duelistas acaba ferido, mesmo que o ferimento seja superficial.
- A “morte”, em cujo caso não haveria satisfação até que a outra parte estivesse mortalmente ferida.
- No caso de duelos com pistola, cada parte podia disparar um só tiro. Ainda que ninguém acertasse o disparo, e, se o desafiante se considerasse satisfeito, o duelo poderia ser declarado como terminado, o que geralmente acontecia. Além disso, um duelo com pistola poderia continuar até que um dos duelistas fosse ferido ou morto, mas, uma troca de mais de três disparos era considerado bárbaro, além de ridículo, pela falta de pontaria dos duelistas.
Sob essas condições, uma ou ambas as partes, poderiam errar intencionalmente o disparo com o objetivo de cumprir as formalidades do duelo sem perda de vida ou honra, prática habitual de alguns duelistas que recebiam o nome de deloper [em francês, literalmente “errar”]. Fazer isto, obviamente, era muito arriscado, caso o oponente não estivesse disposto a fazer o mesmo. O delope foi expressamente proibido pelo Código de duelo de 1777. Entretanto, as possibilidades variavam, e muitos duelos de pistola foram à primeira gota de sangue, embora outros até a morte. A parte ofendida poderia parar o duelo a qualquer momento, se achasse sua honra satisfeita. Para um duelo com pistolas,
as partes deveriam ficar de costas um para o outro com suas armas carregadas à mão, e caminhar um número prefixado de passos, virar-se para o oponente e disparar. Normalmente, quanto mais grave fosse o insulto, menos eram os passos a caminhar. Na maioria dos casos, os padrinhos demarcavam o solo previamente, indicando o ponto de onde os duelistas deveriam parar, virar e atirar. A um sinal, freqüentemente um assovio, os oponentes poderiam avançar até as marcas e atirar à vontade. Outra técnica consistia em efetuar disparos alternadamente, começando pela parte ofendida. Muitos duelos históricos foram impedidos pela falta de acordo na methodus pugnandi. No caso do Dr. Richard Brocklesby, não houve acordo sobre o número de passos, e no duelo entre Mark Akenside e Ballow, um explicou que jamais duelaria pela manhã, e o outro que nunca faria durante à tarde. John Wilkes, que não se freava em cerimônias por pequenos detalhes, contestou a consulta do Lord William Talbot em relação à quantas vezes atiraria num duelo: Tanto quanto sua excelência desejar: eu trouxe uma bolsa de balas e um frasco de pólvora.
| Duelo de Pushkin e d'Anthes. (Imagem: Adrian Volkov). |
Duelos famosos
Recusar um desafio, muitas vezes era equivalente a ser derrotado por abandono, e era considerado uma desonra e um ato de covardia. Os indivíduos importantes ou famosos corriam um risco especial de serem desafiados ao duelo.
Entre os duelos mais famosos se encontra o dos estadunidenses Hamilton e Burr. Nessa oportunidade o notável membro do Partido Federal dos Estados Unidos, Alexander Hamilton foi ferido fatalmente. Também se recorda o duelo entre Arthur Wellesley, primeiro duque de Wellington, e George William Finch-Hatton, 10º Conde de Winchilsea, em que ambos contendentes dispararam para o ar.
O poeta russo Alexander Pushkin descreveu profeticamente uma quantidade de duelos em suas obras, notavelmente o de Onegin contra Lensky em Eugene Onegin. O próprio Pushkin foi ferido mortalmente num duelo controvertido com Georges d'Anthés, um oficial francês de quem se rumorava ser amante da mulher de Pushkin. Anthés, que foi acusado de fazer batota nesse duelo, contraiu matrimônio com a cunhada de Pushkin e se encaminhava a tornar-se em ministro e senador francês.
O último duelo fatal no Canadá envolveu a John Wilson desafiado por Robert Lyona um duelo com pistola depois de uma peleja iniciada por observações sobre uma professora de escola com quem Wilson acabou se casando logo que Lyon falecera no duelo.
Em 1832 o matemático francês Évariste Galois encontrou sua morte na tenra idade de 21 anos num duelo contra um suposto agente provocador da polícia de Luis Felipe de Orleans. A noite anterior à sua morte, ele a usou para escrever à um amigo todos os seus resultados matemáticos, com o encargo de que fossem transmitidos à algum matemático estrangeiro.
Em 1864 o escritor estadunidense Mark Twain - então editor do New York Sunday Mercury – evitou por pouco enfrentar-se em duelo com o editor de um periódico rival, possivelmente pela rapidez mental de seu padrinho, que exagerou a pontaria de Twain com a pistola [espalhou o boato de que Twain era um exímio atirador].
No início do século XX, Hipolito Irigoyen enfrentou Lisandro de la Torre num duelo com espada. Irigoyen não tinha experiência em esgrima, pelo que contratou a um professor. De la Torre era um mestre nesta arte e havia ganhado várias competições. Durante o duelo, Irigoyen feriu De la Torre três vezes, enquanto que este não o tocou sequer uma vez. Depois deste duelo, De la Torre deixou a barba crescer para esconder os cortes na face.
Em 6 de Agosto de 1952, no Chile, o último duelo de honra registrado na história deste país, foi entre o então senador Salvador Allende e o senador Raúl Rettig, sendo o desafiante este último, que impugnou as palavras do doutor Allende no senado. Ambos erraram seus disparos, mas atiraram para matar e, voltaram a serem amigos.
Duelos incomuns
- Diz-se que, em 1808, dois cavalheiros franceses duelaram em balões sobre Paris, cada um tentando furar o balão do oponente; um deles foi derrubado e morreu na queda juntamente com seu padrinho.