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| Marcel Duchamp | | |
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Marcel
Duchamp.
(Henri-Robert-Marcel Duchamp). Nasceu em Blainville-Crevon, a 28 de Julho de 1887, e, faleceu em
Neuilly-sur-Seine, a 2 de Outubro de 1968. Marcel Duchamp foi um
pintor, escultor e poeta francês, cidadão dos Estados Unidos a
partir de 1955, e inventor dos ready
made.
Principais
trabalhos:
Nude Descending a Staircase, No. 2 (1912); Fontain (1917); The Bride
Stripped Bare By Her Bachelors, Even (1915–23); Étant donnés
(1946-66).
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É
um dos precursores da arte
conceitual
e introduziu a idéia de ready
made
como objeto de arte. Irmão de Jacques
Villon,
de Suzanne
Duchamp
e Raymond
Duchamp-Villon,
estes também artistas que gostaram de reputação no cenário
artístico europeu, Marcel Duchamp começou sua carreira como artista
criando pinturas de inspiração romantista, expressionista e
cubista. Dessa fase, destaca-se o quadro Nu
Descendo a Escada,
que apresenta uma sobreposição de figuras de aspecto vagamente
humano numa linha descendente, da esquerda para a direita, sugerindo
a ideia de um movimento contínuo. Esse quadro, na época de sua
gênese, foi mal recebido pelos partidários do Cubismo, que o
julgaram profundamente irônico para com a proposta artística por
eles pretendida. Essa fase lhe rendeu, ainda, o quadro Rei
e Rainha Rodeados por Rápidos Nus,
que sugere um rápido movimento através de duas figuras humanas, e A
noiva,
que apresenta formas geométricas bastante delineadas e sobrepostas,
insinuando uma figura de proporções humanas. Este último foi
bastante utilizado no seu projeto mais ambicioso, de que trataremos a
seguir. Sua carreira como pintor estendeu-se por mais alguns anos,
tendo como produto quadros de inegável valor para a formação da
pintura abstrata. É, no entanto, como escultor que Duchamp vai
atingir grande fama. Tendo se mudado para Nova York e largado a
Europa numa espécie de estagnação criativa, Duchamp encontra na
América um solo fértil para sua arte
dadaísta.
Decorrente dessa fase, e em virtude de seus estudos sobre perspectiva
e movimento, nasce o projeto para a obra mais complexa do artista: A
noiva despida pelos seus celibatários, mesmo
ou O
grande vidro.
Trata-se de duas lâminas de vidro, uma sobre a outra, onde se vê
uma figura abstrata na parte de cima, que seria a noiva, inspirada no
quadro acima mencionado, e, na parte de baixo, se percebe uma porção
de outras figuras (feitas de cabides, tecido e outros materiais),
dispostas em círculo, ao lado de uma engrenagem (retirada de um
moinho de café). Essa obra consumiu anos inteiros de dedicação de
Duchamp, e só veio a público muito depois do início de sua
construção, intercalada, portanto, por uma série de obras. Não se
tem um consenso acerca do que representa essa obra, mas diversas
opiniões conflitantes, com base em psicologismos e biografismos,
renderam e ainda rendem bastante discussão.
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A
Fonte
é um urinol de porcelana branco, considerado uma das obras mais
representativas do dadaísmo na França, criada em 1917, sendo uma
das mais notórias obras do artista Marcel Duchamp. O
objeto foi vandalizado em 6 de Janeiro de 2006, no Centro
Pompidou, em Paris,
por um francês de 77 anos que a atacou com um martelo. O vândalo
foi detido logo em seguida e alegou que o ataque com o martelo era
uma performance artística e que o próprio Marcel Duchamp teria
apreciado tal atitude. A obra sofreu apenas escoriações leves. Em
Janeiro de 2006, estimava-se que a obra valeria cerca de 3 milhões
de euros.
Duchamp foi o responsável pelo conceito de ready
made,
que é o transporte de um elemento da vida cotidiana, a princípio
não reconhecido como artístico, para o campo das artes. A princípio
como uma brincadeira entre seus amigos, entre os quais Francis
Picabia
e Henri-Pierre
Roché,
Duchamp passou a incorporar material de uso comum nas suas
esculturas. Em vez de trabalhá-los artisticamente, ele simplesmente
os considerava prontos e os exibia como obras de arte. A
Fonte,
obra que fez repercutir o nome de Duchamp ao redor do mundo,
especialmente depois de sua morte, está baseada nesse conceito de
ready
made:
pensada inicialmente por Duchamp, que enviou-a com a assinatura "R.
Mutt"
- fábrica que produziu o urinol, lida ao lado da peça, para figurar
entre as obras a serem julgadas para um concurso de arte promovido
nos Estados Unidos. A escultura foi rejeitada pelo júri, uma vez
que, na avaliação deste, não havia nela nenhum sinal de labor
artístico. Com efeito, trata-se de um urinol comum, branco e
esmaltado, comprado numa loja de construção e assim mesmo enviado
ao júri. Entretanto, a despeito do gesto iconoclasta de Duchamp, há
quem veja nas formas do urinol uma semelhança com as formas
femininas, de modo que se pode ensaiar uma explicação psicanalítica
quando se tem em mente o membro masculino lançando urina sobre a
forma feminina.
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| Duchamp travestido de Rrose Sélavy. Foto de Man Ray (1921). |
A
sua obra está vinculada, de algum modo, ao seu modo de vida boêmio,
propiciado pelo convívio com pessoas influentes e poderosas no meio
artístico norte-americano. Num de seus acessos de iconoclastia e
irresponsabilidade, Duchamp lançou na cena artística nova-iorquina
a figura de Madame
Rrose Sélavy
(cujo nome se assemelha à palavra francesa heuireusee,
"feliz", e o sobrenome à expressão francesa c'est
la vie,
"é a vida", resultando na frase "feliz é a vida"),
uma artista dotada de uma ironia profunda, bem como de uma paixão
por trocadilhos (evidentemente, aspectos oriundos da personalidade do
próprio Duchamp). Ela também assinou uma parte dos ready
made,
podendo ela mesma ser considerada um ready
made
duchampiano, na medida em que era uma espécie de transfiguração
artística de uma personalidade real do artista.
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Duchamp
era, ainda, entusiasta do xadrez, tendo se filiado a vários clubes e
participado com relativo êxito de torneios mundo afora. Pode-se
dizer que uma parte da sua vida foi consagrada ao estudo desse jogo.
Além disso, dedicou-se ao estudo da "quarta dimensão", o
que, de alguma forma, orientou a sua criatividade artística para
problemas óticos. Os rotoreliefs,
discos coloridos que, quando girados com extrema rapidez, produziam
efeitos óticos, é mais uma de suas tentativas de se aproximar das
pesquisas que fazia. O estudo do olhar sobre a arte interessou muito
a Duchamp, que se opunha àquilo que ele próprio dizia ser a "arte
retiniana", ou seja, uma arte que agrada à vista. Pode-se, de
certo modo, compreender toda a arte de Duchamp como um esforço para
se afastar da "arte retiniana" e passar para uma arte mais
"cerebral", em que se ressaltam os aspectos mais
intelectuais do labor artístico. Dessa forma, os ready
made,
inclusive, são uma tentativa de escapar da "arte retiniana",
uma vez que confrontam o público, oferecendo-lhes algo que ele
próprio já viu algures, forçando-o a pensar e refletir sobre a
questão da arte enquanto linguagem.
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Ready
Made
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| A Fonte, 1917. |
O
ready
made
nomeia a principal estratégia de fazer artístico de Marcel
Duchamp
e é uma forma ainda mais radical da arte
encontrada
(ou objet
trouvé,
no original francês). Essa estratégia refere-se ao uso de objetos
industrializados âmbito da arte, desprezando noções comuns à arte
histórica como estilo ou manufatura do objeto de arte, e referindo
sua produção primariamente à idéia. Se
considera que a característica essencial do Dadaísmo
é a atitude antiarte, Duchamp será o dadaísta por excelência. De
fato, por volta de 1915, quando abandona a pintura, assume uma
atitude de rompimento com o conceito de arte histórica. É célebre
sua declaração contra a arte "essencialmente retiniana",
expressão que remete, por um lado, à imediatez da imagem, e, por
outro, ao modelo de visão exteriorizado que caracteriza a filosofia
de René Descartes,
modelo persistente fixado no século XIX com a invenção da
Fotografia. De fato, é a partir da década de 1960, com os chamados
neodadaístas (como Rauschemberg)
e os artistas conceituais (como Joseph
Kosuth), que
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| Beatrice Wood e Duchamp (1917). |
Duchamp e sua obra seriam resgatados do limite do movimento dada para
tornar-se uma influência sobre toda a arte contemporânea,
rivalizando assim com Pablo
Picasso no papel
de maior artista do século XX. Antes que uma estratégia localizada,
o ready made
é um crivo, pois tornou-se o meio de produção de toda a arte
contemporânea, senão como procedimento, como problema a ser pensado
e ultrapassado. O ready-made
é manifestação radical da intenção de Marcel Duchamp de romper
com a artesania da operação artística, uma vez que se trata de
apropriar-se de algo que já está feito: escolhe produtos
industriais, realizados com finalidade prática e não artística
(urinol de louça, pá, roda de bicicleta), e os eleva à categoria
de obra de arte. Caracteriza-se por uma operação de sentido que faz
retornar o literário ao problema da arte, contrariando a ênfase
modernista na forma do objeto artístico. O conceito de alegoria
retorna na forma de uma operação que indicia um significado novo em
um objeto concreto. Ao adotar tal operação de sentido, Duchamp
termina por implicar mais que a obra de arte; é necessário tratar
de toda a constelação estética que envolve a obra e da conjuntura
de sentido que a produz, mas também a que a sustenta e sanciona. É
o caso de "Fonte",
de 1917. Apresentada no Salão da Sociedade Novaiorquina de artistas
independentes, constituída a partir de um mictório invertido. A
operação que o caracteriza é o deslocamento de uma situação não
artística para o contexto de arte. Tal operação é marcada por sua
apresentação como escultura e assinatura. À inversão física do
objeto corresponde a inversão de seu sentido, que se espelha no
corpo do espectador. Do mesmo modo, "Porta-Garrafas"
(1914, ready made) e "Roda
de Bicicleta"
(1913, ready made assistido) tiram partido de um deslocamento e
manipulação do objeto para tornar o sentido de sua aparição
crítico. Ao longo de seu trabalho, Duchamp decide qualificar a
produção de ready mades. A expressão se referia primariamente aos
poucos objetos que não sofreram qualquer intervenção
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| Rua Marcel Duchamp |
formal. Na
qualidade de objetos, assim, de algum modo transformados, temos os
ready mades ajudados, retificados, corrigidos e recíprocos, segundo
o modo pelo qual sua forma sofre interferência por parte do artista.
Como em outros casos, está explícito o típico propósito dadaísta
de chocar o espectador (o artista, o crítico, o amador de arte),
choque que caracteriza a atitude das vanguardas (que necessitam desse
choque para reformular o conceito de arte) e que persiste
frequentemente na arte contemporânea. Mas o ready made também
evidencia sua constituição em uma neutralidade estética, a partir
da qual a operação de sentido é proposta: o ready made inicia numa
"indiferença visual": "...a idéia sempre vinha
primeiro, e não o exemplo visual", o que é, "...uma forma
de recusar a possibilidade de definir a arte." (em Entrevista
com Pierre
Cabanne). Uma
arte calcada no conceito, que se desenvolve a partir do 'encontro'
(rendez-vous), ou seja, do achado fortuito, da blague
que dota o objeto de sentido de modo desinteressado, e que, assim,
fará com que a obra exista para qualquer sujeito do mesmo modo; em
relação à aesthesis,
a sensação, o ready made se oferece como fato estético no qual
podemos incluir e elaborar nossas experiências, mas que independe da
categoria gosto. Coloca, assim, a obra como problema a ser vivenciado
pelo espectador e elimina a idéia da obra como expressão, tornando
inúteis tentativas de percebê-la como representação de uma
biografia ou interioridade do autor. Podemos, assim, fazer paralelos
com a idéia de "morte do autor", presente nas obras de
Barthes,
De Man
e Derrida.
Não por acaso, Duchamp afirmaria mais tarde que "será
arte tudo o que eu disser que é arte"
- ou seja, todo acervo artístico que nos foi legado pelo passado só
é considerado arte porque alguém assim o disse e nós nos
habituamos a admiti-lo. Donde se conclui que “La
Gioconda”, de
Leonardo Da Vinci,
ou “O Enterro do
Conde de Orgaz”,
de El Greco
(Doménikos
Theotokópoulos),
não seriam mais arte do que um urinol ou uma pá de lixo: todos
dependem de uma reconstituição atual de seu sentido (como
funcionamento da obra), e somente nesse funcionamento conceitual e
crítico, do qual faz parte o sujeito, é que a obra se justifica
como arte. Isto é, além de nos indicar que a arte precede e
prescinde a maestria formal, o ready made nos faz ver que o objeto
deixa de ser arte no momento em que deixa de propor, para si mesmo,
novas interpretações — no momento em que deixa de fazer um novo
sentido.
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Vale
a pena ressaltar que a obra de Duchamp deixou um legado importante
para as experimentações artísticas subsequentes, tais como o
Dadaísmo,
o Surrealismo,
o Expressionismo
abstrato,
a Arte
conceitual,
entre outros. Muitos dos artistas identificados com essas tendências
prestaram tributo a Duchamp, quando não o conheceram de fato, tendo
com ele um contato direto (ou, às vezes, íntimo), o que influenciou
as suas respectivas obras. John
Cage,
por exemplo, trocou idéias com Duchamp, e André
Breton,
pai do Surrealismo, por várias vezes tentou cooptar Duchamp para a
causa do movimento surrealista; Tristan
Tzara,
um dos responsáveis pelo Dadaísmo, também reconheceu na obra de
Duchamp, apesar do pouco contato da arte norte-americana com a arte
europeia, uma espécie de precursora.
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Referências