Academia de Platão
| A Academia de Platão em Atenas Mosaico em Pompéia, ca. séc. I. |
A
Academia de Platão (também chamada de Academia
Platônica, Academia de Atenas ou Academia
Antiga) é uma academia fundada por Platão,
aproximadamente em 384 a.C./383 a.C. em Estagira, nos jardins
localizados no subúrbio de Atenas. Durante muito tempo,
considerou-se a criação da Academia fora para ser uma associação
religiosa consagrada às Musas, dado que as leis do Estado ateniense
não contemplavam a possibilidade de um estabelecimento semelhante ao
que Platão queria construir, assim o filósofo escolhe a única
forma de abrir juridicamente e legalmente seu espaço: fez reconhecer
sua Academia como comunidade consagrada ao culto das Musas de Apolo.
Antes
da Akademia ser uma foi uma escola, e mesmo antes de Cimon
cercá-las com muros, no seu terreno havia um bosque sagrado de
oliveiras dedicados a Atena, a deusa da sabedoria, fora
das muralhas da cidade antiga de Atenas. O nome arcaico do local era
(em grego antigo: Ἑκαδήμεια
Hekademia), que depois evoluiu para Akademia,
esse nome foi explicado pelo menos no início do século 6 a.C.,
ligando-o a um herói ateniense, o lendário Academo. O
local da Academia foi dedicado a Atena e a outros imortais, o local
abrigou seu culto religioso desde a Idade do Bronze, um culto que
foi, talvez, também associado aos herói-deuses Dioscuri
(Castor e Pólux), o herói Akademos
associado ao local foi creditado por ter revelado aos gêmeos divinos
onde Teseu tinha escondido Helena de Troia.
Por respeito à sua longa tradição e da associação com a
Dioscuri, os espartanos não devastaram o bosque quando invadiram a
Ática. Havia também pórticos e altares consagrados às Musas, às
Graças, ao Amor, a Prometeu onde ardia a chama eterna em homenagem a
Atena.
O que mais tarde
viria a ser conhecido como a escola de Platão provavelmente se
originou quando Platão adquiriu a propriedade herdada com a idade de
trinta anos, com encontros informais que incluiu Teeteto,
Arquitas de Tarento, Leodamas de Tasos e
Neoclides. De acordo com Debra Nails,
Espeusipo "se juntou ao grupo cerca de 390."
Ela afirma: "Até Eudoxo de Cnido chegar em meados
da década de 380, Eudemo de Rhodes não reconhece
formalmente a Academia". Não há registros históricos do
momento exato em que a escola foi fundada oficialmente, mas
estudiosos modernos geralmente concordam que foi entre 380,
provavelmente em algum momento depois de 387, quando Platão
supostamente retorna de sua primeira visita à Itália e Sicília.
Originalmente, o local das reuniões era a propriedade de Platão,
muitas vezes o ginásio próximo da Academia, o que assim permaneceu
durante todo o século IV. Embora o clube Acadêmico fosse exclusivo
e não aberto ao público, pelo menos durante a época de Platão,
não cobrava mensalidades para a adesão. Portanto, provavelmente não
havia naquela época uma "escola" no sentido de uma clara
distinção entre professores e alunos, ou mesmo um currículo
formal. Houve, no entanto, uma distinção entre membros seniores e
juniores. Duas mulheres são conhecidas por terem estudado com Platão
na Academia, Asioteia de Filos e Lastênia de
Mantineia. Pelo menos durante o tempo de Platão, a escola
não tinha qualquer doutrina especial para ensinar, em vez disso,
Platão (e provavelmente outros associados da dele) passavam
problemas a serem estudados e resolvidos pelos outros. Há evidências
das aulas dadas, principalmente a palestra de Platão "Do Bem",
mas, provavelmente, o uso de dialética era mais comum. De acordo com
uma história não verificável, datada de cerca de 700 anos após a
fundação da escola, acima da entrada para a Academia estava
inscrita a frase "Que ninguém exceto os geômetras entrem
aqui". Muitos imaginaram que o currículo acadêmico se
assemelhava muito ao descrito em A República de
Platão. Outros, porém, argumentam que tal quadro ignora os arranjos
peculiares óbvios da sociedade ideal imaginada nesse diálogo. Os
objetos do estudo quase certamente incluíam matemática, bem como os
temas filosóficos com os quais o diálogo platônico trabalha, mas
há pouca evidência confiável. Há alguma evidência para o que
hoje seria considerado uma investigação estritamente científica:
Simplício da Cilícia relata que Platão havia
instruído os outros membros para descobrirem a explicação mais
simples do observável movimento irregular dos corpos celestes: "ao
hipotetizar que movimentos uniformes e ordenados são possíveis de
se salvar das aparências relacionadas com os movimentos
planetários". A Academia de Platão muitas vezes é dito ter
sido uma escola para os futuros políticos do mundo antigo e teve
muitos alunos ilustres. Em uma pesquisa recente de evidência,
Malcolm Schofield, no entanto, afirmou que é difícil
saber até que ponto a Academia estava interessada em política
prática (ou seja, não-teórica), pois grande parte das nossas
provas "reflete uma polêmica antiga a favor ou contra Platão".
Diógenes Laércio dividiu a história da Academia em três épocas:
Antiga, Média e Nova. Na liderança da Antiga, ele colocou Platão,
à frente da Média Academia, Arcesilau, e na Nova
Academia Lácides de Cirene. Sexto Empírico
enumerou cinco divisões dos seguidores de Platão. Ele definiu
Platão, o fundador da primeira Academia; Arcesilau da segunda,
Carnéades da terceira, Filon de Larissa
e Charmadas (ou Charmides) da quarta, Antíoco
de Ascalão da quinta. Cícero (Marco
Túlio Cícero) reconheceu apenas duas academias, a velha
e a nova, e definiu a última começando por Arcesilau.
Os
sucessores imediatos de Platão como "escolarcas" da
Academia foram Espeusipo (347–339 a.C.), Xenócrates
(339–314 a.C.), Polemo (314–269 BC) e Crates
de Atenas (c. 269–266 a.C.). Outros membros notáveis da
Academia incluem Aristóteles, Heráclides do
Ponto, Eudoxo de Cnido, Filipo de Opunte
e Crantor de Cilícia.
Cerca
de 266 a.C. Arcesilau tornou-se escolarca. Sob
Arcesilau (c. 266-241 a.C.), a Academia enfatizou fortemente o
ceticismo Acadêmico. Arcesilau foi sucedido por Lácides de
Cirene (241-215 a.C.), Evandro e Télecles
(em conjunto) (. 205 - c 165 a.C.) e depois Hegésino
(c. 160 a.C).
A Academia Nova ou
terceira começa com Carnéades, em 155 a.C., o quarto
escolarca em sucessão a partir de Arcesilau. Ele ainda foi um grande
cético, negando a possibilidade de se conhecer a verdade absoluta.
Carnéades foi seguido por Clitômaco (129 - c 110
a.C.) e * Filon de Larissa ("o último mestre
indiscutível da Academia," c 110-84 a.C.). De acordo com
Jonathan Barnes, "Parece provável que Filon foi o
último platônico geograficamente ligado à Academia". Cerca de
90 a.C., o então estudante de Filon, Antíoco de Ascalão
começou a ensinar sua própria versão rival ao platonismo
rejeitando o Ceticismo e defendendo o estoicismo, o que iniciou uma
nova fase conhecida como médio
platonismo.
Platonismo
O
Platonismo é
uma corrente filosófica baseada no pensamento de Platão. Indica a
filosofia de Platão e da sua escola, isto é, os filósofos que
viveram entre o século IV a.C. e a primeira metade do século I a.C.
Cerca de um século depois da morte de Platão, em 348 a.C., a
escola enveredou para o ceticismo sob a direção de Arciselau
(século III a.C.).
A
Academia platônica assemelhava-se a uma congregação religiosa,
consagrada a Apolo
e às Musas.
Platão afirmava a existência de uma verdade suprema: as idéias das
formas ideais, eternas, imutáveis e incorruptíveis, das quais se
origina o mundo sensível, tal como o percebemos, e que é sujeito ao
devir, à corrupção e à morte. A Academia foi fundada por
Platão em 387 a.C.. Seu nome é alusivo ao herói de guerra
(Academo), que havia doado aos atenienses um terreno,
nos arredores de Atenas, onde se construiu um jardim aberto ao
público.
De
uma maneira geral, os elementos centrais do pensamento platônico
são:
- A doutrina das idéias, onde os objetos do conhecimento se distinguem das coisas naturais;
- A superioridade da sabedoria sobre o saber, uma espécie de objetivo político para a filosofia;
- A Dialética, enquanto procedimento científico.
Períodos
O
platonismo é geralmente dividido em três períodos:
- Platonismo antigo propriamente dito;
- Médio platonismo, que remonta aos séculos I-II d.C.;
- Neoplatonismo, desenvolvido no final da Antiguidade no período helenístico: mais que um período do platonismo, é considerado por muitos como uma verdadeira corrente filosófica propriamente dita.
Esta
subdivisão foi operada por estudiosos dos tempos recentes. Todos,
médio ou neoplatônicos, embora ampliando e modificando o
significado originário da filosofia de Platão, pretendiam estar em
linha de continuidade com a doutrina do mestre. Consideravam-se
sobretudo como simples exegetas, mais do que inovadores. Assim como
todos os pensadores que, ao longo dos séculos, filiaram-se
ao pensamento platônico (Plotino,
Agostinho de Hipona,
Marsílio Ficino),
os neoplatônicos eram convencidos de que a verdade fosse algo que se
descobria e não se inventava. Portanto o modo mais autêntico de
fazer filosofia consistiria na reflexão sobre as verdades eternas,
imutáveis e universais das Ideias - primeiramente descobertas por
Platão. Pode-se dizer, portanto, que o platonismo foi sempre
entendido pelos platônicos como uma única corrente filosófica, que
sempre permaneceu fiel a si mesma, ora como forma de interpretação
e reelaboração do pensamento de Platão.
A
República
| Página título do antigo manuscrito: Paris, Bibliothèque Nationale, Gr. 1807. |
A
República (em grego: Πολιτεία, transliteração
Politeía) é um diálogo socrático escrito por Platão. Todo
o diálogo é narrado, em primeira pessoa, por Sócrates.
O tema central da obra é a justiça. No decorrer da
obra é imaginada uma república na cidade de Calípole, Kallipolis,
que significa "cidade bela". O diálogo tem uma extensão
considerável, articulada pelos tópicos do debate e por elementos
dramáticos, muitos dos tópicos foram retirados propositalmente da
obra, por isso, não dando a consistência Real da obra de Platão,
que é notável, escrita em contínuo por Aristóteles,
identificando esse último como Monarquia dos Justos, segundo M.
H. Simonsen. Exteriormente, está divido em dez livros,
subdividida em capítulos e com a numeração de páginas do
humanista Stéphanus da tradição manuscrita e impressa, em
diversas línguas. Alguns historiadores políticos como Mario
Henrique Simonsen, identificam a cidade da República por
Atlântida ou Esparta antes da derrota ante Atenas, em seu livro
Legitimação da Monarquia no Brasil onde são
questionados os assuntos da organização social (teoria política,
filosofia política), dessa forma defendendo a monarquia - imperial -
esclarecida, através da aristocracia, de Maria I, a
chamada Dama de Platina.
A
organização do diálogo em 12 seções, assinaladas no texto Grego,
deve-se a estudiosos da escola alemã, sobretudo Kurt
Hildebrandt e também a Francis Cornford e Eric
Voegelin, e pode ser assim sumariada:
Prólogo
|
||
|---|---|---|
I.1
|
327a-328b
|
Descida
ao Pireu.
|
I.2-I.5
|
328b-331d
|
Céfalo.
Justiça segundo os mais velhos.
|
I.6-I.9
|
331e-336a
|
Polemarco.
Justiça segundo a meia idade.
|
I.10-I.24
|
336b-354c
|
Trasímaco.
Justiça segundo os Sofistas.
|
Introdução
|
||
II.1
- II.10
|
357a-369b
|
Questão:
a justiça é preferível à corrupção?
|
Parte
I
|
O
Paradigma da Cidade-Estado (Esparta, mais provável por M.H.
Simonsen)
|
|
1.II.11-II.16
|
369b-376e.
|
Origem
da cidade
|
2.II.7-III.18
|
376e-412b.
|
Educação
dos responsáveis
|
3.III.19-IV.5
|
412b-427c.
|
Constituição
da Cidade-Estado
|
4.IV.6-IV.19
|
427c-445e.
|
Justiça
na cidade
|
Parte
II
|
A
encarnação do Paradigma
|
|
5.V.1-V.16
|
449a-471c
|
Unidade
somática da cidade e dos Gregos
|
6.V.17-VI.14
|
471c-502c
|
Governo
dos filósofos
|
7.VI.15-VII.5
|
502c-521c
|
A
ideia do Bem
|
8.VII.6-VII.18
|
521c-541b
|
Educação
dos filósofos
|
Parte
III
|
O
Declínio da Cidade -Estado
|
|
9.
VIII.1 -VIII.5
|
543a-550c
|
Timocracia
|
10.
VIII.6 -VIII.9
|
550c-555b
|
Oligarquia
|
11.
VIII.10-VIII.13
|
555b-562a
|
Demagogia
|
12.
VIII.14-IX.3
|
562a-576b
|
Tirania
|
Conclusão
|
||
IX.4-IX.13
|
576b-592b.
|
Resposta.
Justiça melhor que corrupção
|
Epílogo
|
||
X.1-X.8
|
595a-608b.
|
Rejeição
da arte mimética
|
X.9-X.11
|
608b-612a
|
Imortalidade
da alma
|
X.12
|
612a-613e
|
Recompensa
dos Justos em vida
|
X.13-X.16
|
613e-631d
|
Julgamento
dos mortos
|
A
ordem da cidade é uma incorporação na realidade histórica da
ideia do bem, o agathon. A incorporação deve ser
levada a cabo pela pessoa que contemplou o agathon e deixou que a sua
consciência fosse ordenada pela visão, o filósofo. Na parte
central do diálogo, Platão trata do governo dos filósofos e da
visão do Bem, na famosa Alegoria da Caverna. A parte central é
antecedida e seguida pelo debate dos meios que asseguram a substância
fisiológica e anímica adequada a uma cidade bem ordenada. A Parte
II trata do casamento, da comunidade de bens mulheres e filhos entre
os guardiões e das restrições da guerra entre os Gregos. A Parte
II,4 trata da educação filosófica dos governantes que irão
preservar a ordem na existência. A Parte II, a incorporação da
Paradigma é precedida pela construção genética da ordem justa
para a cidade na Parte I; e é seguida pela análise na Parte III das
fases do declínio sofrido pela ordem justa após a sua instauração.
As três partes em conjunto formam o corpo principal do diálogo com
a discussão da ordem justa, a incorporação, a sua gênese e o seu
declínio. O conjunto das três partes é enquadrado por uma
Introdução e uma Conclusão. O debate da ordem justa surge a
propósito da questão sobre se a justiça é melhor que a injustiça
ou se o homem injusto terá uma vida mais regalada que a do justo.
Após a questão e o debate prolongado sobre a ordem justa, surge a
resposta conclusiva de que a justiça é preferível à corrupção.
O corpo principal do diálogo bem como a introdução e conclusão
são enquadrados pelo prólogo que constitui um curto diálogo
aporético sobre a justiça em que se debatem as opiniões correntes
doxai e o epílogo que levanta questões respondidas com o
mito da salvação. A República usa uma argumentação
dialética. O pensamento dialético caracteriza-se por apreender a
realidade à luz de posições contraditórias, entre Platão do
Mestre e Aristóteles, discípulo, vide M.H.Simonsen, uma das quais
acaba por ser compreendida como verdadeira e a outra falsa, a verdade
suplantando a mentira pela síntese. A imagem correspondente é a do
confronto entre luz, sol, claridade e trevas, escuridão e caverna.
Ou seja a Hipótese, o Desenvolvimento, a Tese, a Antítese, a
Dialética e finalmente a Síntese de Aristóteles A dialética
ascendente apresenta a ideia por confronto com os pontos de partida
empíricos; a dialética descendente verifica a Corrupção da idéia
devido à sua incorporação numa situação empírica, prática em
Esparta e no reinado de Alexandre o Magno. É particularmente
interessante notar como as ideias do livro viriam a influenciar os
autores posteriores, entre os chamados Césares e/ou Monarcas do
Império Romano.
Teoria das
Idéias
A
teoria das idéias ou teoria das formas é
um corpo de conceitos filosóficos criado por Platão, na Grécia
Antiga. Esta teoria assevera que a realidade mais fundamental é
composta de ideias ou formas abstratas, mas substanciais. Para ele
estas ideias ou formas são os únicos objetos passíveis de oferecer
verdadeiro conhecimento. A teoria foi desenvolvida em vários de seus
diálogos como uma tentativa de resolver o problema dos
universais. As idéias ou formas residiriam no mundo inteligível,
fora do tempo e do espaço, e não no mundo sensível ou material.
Sua natureza era perene e imutável. Os objetos do mundo comum
organizam suas estruturas conformes a estas idéias ou formas
primordiais, mas não são capazes de revelá-las em sua plenitude,
sendo apenas imitações imperfeitas. Também princípios abstratos
eram considerados idéias ou formas segundo esta teoria, tais como
igualdade, diferença, movimento e repouso. A formulação da teoria
era intuitiva, e suas limitações foram analisadas pelo próprio
Platão no diálogo Parmenides.
Alegoria
da Caverna
A
alegoria
da caverna,
também conhecido como parábola
da caverna,
mito
da caverna
ou prisioneiros
da caverna,
foi escrito por Platão e encontra-se na obra intitulada no Livro
VII
de A
República.
Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição
de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade, onde
Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação
na formação do Estado ideal.
| Ilustração da Alegoria da Caverna. |
Imaginemos
todos os muros bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Na
caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No
interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e
cresceram ali. Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem
poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da
caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do
muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também
ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros,
associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as
falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas
sombras sejam a realidade. Imagine que um dos prisioneiros consiga se
libertar e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro
e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e
saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas
por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza. Caso
ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos
companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram,
correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser
ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o
tomarão por louco e inventor de mentiras. Platão não buscava as
verdadeiras essências na simples Phýsis,
como buscavam Demócrito e seus seguidores. Sob a influência de
Sócrates, ele buscava a essência das coisas para além do mundo
sensível. E o personagem da caverna, que por acaso se liberte, como
Sócrates correria o risco de ser morto por expressar seu pensamento
e querer mostrar um mundo totalmente diferente. Transpondo para a
nossa realidade, é como se você acreditasse, desde que nasceu, que
o mundo é de determinado modo, e então vem alguém e diz que quase
tudo aquilo é falso, é parcial, e tenta te mostrar novos conceitos,
totalmente diferentes. Foi justamente por razões como essa que
Sócrates foi morto pelos cidadãos de Atenas, inspirando Platão à
escrita da Alegoria da Caverna pela qual Platão nos convida a
imaginar
que as coisas se passassem, na existência humana, comparavelmente à
situação da caverna: ilusoriamente, com os homens acorrentados a
falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e, por isso tudo,
inertes em suas poucas possibilidades. A partir da leitura do Mito da
Caverna, é possível fazer uma reflexão extremamente proveitosa e
resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além
disso, ajuda na formulação do senso crítico e é um ótimo
exercício de interpretação de texto.
Trata-se
de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de
Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto,
são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase
ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do
ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna
busca da verdade.
Sócrates
– Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza
relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa
morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à
luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços
acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que
está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça;
a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por
detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada
ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um
pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de
títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas
maravilhas.
Glauco
– Estou vendo.
Sócrates
– Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que
transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas
de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria;
naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem
em silêncio.
Glauco
- Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates
— Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal
condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus
companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede
da caverna que lhes fica defronte?
Glauco
— Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a
vida?
Sócrates
— E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco
— Sem dúvida.
Sócrates
— Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas
que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco
— É bem possível.
Sócrates
— E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um
dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que
passasse diante deles?
Glauco
— Sim, por Zeus!
Sócrates
— Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às
sombras dos objetos fabricados?
Glauco
— Assim terá de ser.
Sócrates
— Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem
libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se
liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se
imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos
para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o
deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via
as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que
não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da
realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza?
Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à
força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará
embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais
verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco
- Muito mais verdadeiras.
Sócrates
- E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão
magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode
fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do
que as que se lhe mostram?
Glauco
- Com toda a certeza.
Sócrates
- E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a
encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado
até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de
tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os
olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que
ora denominamos verdadeiras?
Glauco
- Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates
- Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da
região superior. Começará por distinguir mais facilmente as
sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que
se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois
disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua,
contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o
próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco
- Sem dúvida.
Sócrates
- Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas
nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu
verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco
- Concordo.
Sócrates
- Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que
faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e
que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus
companheiros, na caverna.
Glauco
- É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates
- Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se
professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não
achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá
ficaram?
Glauco
- Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates
- E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem
recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da
passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam
chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por
isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que
provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são
venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não
preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo,
a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco
- Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa
maneira.
Sócrates
- Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no
seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se
afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco
- Por certo que sim.
Sócrates
- E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros
que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras,
estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham
recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante
longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que,
tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale
a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir
para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco
- Sem nenhuma dúvida.
Sócrates
- Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta
imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a
vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força
do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos
seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a
mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia,
visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é
verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo
inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com
dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a
causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no
mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela
que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso
vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida
pública.
Glauco
- Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.
(Platão.
A República. Livro VII).
Interpretação da alegoria
O
mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o
mundo, no que diz respeito à importância do conhecimento filosófico
e à educação como forma de superação da ignorância, isto é, a
passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo e
explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é
racional, sistemático e organizado, que busca as respostas não no
acaso, mas na causalidade. Segundo a metáfora de Platão, o processo
para a obtenção da consciência, isto é, do conhecimento abrange
dois domínios: o domínio
das coisas sensíveis
(eikasia
e pístis)
e o domínio
das idéias
(diánoia
e nóesis).
Para o filósofo, a realidade está no mundo das idéias - um mundo
real e verdadeiro - e a maioria da humanidade vive na condição da
ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este mundo -, no grau
da apreensão de imagens (eikasia), as quais são mutáveis, não são
perfeitas como as coisas no mundo das ideias e, por isso, não são
objetos suficientemente bons para gerar conhecimento perfeito.
Exemplos
Este
tema - realidade ou aparência - foi retomado ao longo da história
da cultura ocidental por muitos filósofos e alguns escritores,
embora com perspectivas distintas. Um deles Calderón
de la Barca
na obra A
Vida é um Sonho.
Exemplos mais modernos podem ser a série Persons
Unknown,
o livro Admirável
Mundo Novo
(Aldous
Huxley,
1932), o filme Matrix
(Irmãos Wachowski, 1999) e também A
Ilha
livro de (Aldous Huxley), dirigido no cinema por Michael
Bay
de 2005. Outro autor que utilizou, parodicamente, essa parábola
platônica foi o autor José
Saramago,
em seu livro A
Caverna.
Epistemologia
platônica
A
epistemologia platônica sustenta que o conhecimento é inato,
de tal modo que a aprendizagem seria o desenvolvimento das idéias
escondidas na alma, que aflorariam como resultado de um
interrogatório amistoso. Platão acreditava que a alma existia antes
do nascimento sob a "forma de Deus", com perfeito
conhecimento de tudo. Assim, quando algo é aprendido, na verdade é
apenas "lembrado".
Mito da caverna
No
seu mais famoso diálogo, A
República,
Platão faz uma analogia entre as sensações humanas e as sombras
que são projetadas no fundo de uma caverna - uma alegoria conhecida
como Mito
da Caverna.
Referências
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