| Al-Khwarizmi |
Al-Khwarizmi
nasceu em Khawarizm
(Khiva), no sul da cidade do rio Oxus no Uzbequistão atual, seus
pais migraram para um lugar ao sul de Bagdá quando era criança, a
data exata de seu nascimento não é conhecida. Viveu na época do
califa abássida al
Ma'mum,
no século IX, sabe-se que ele morreu em 846, trabalhou na biblioteca
formada por Harun
al-Rashid
pai de Al
Ma'mun,
denominada Casa
da Sabedoria,
na qual foram reunidas todas as obras científicas da antiguidade.
| Estátua de al-Khwarizmi em frente à Faculdade de Matemática da Universidade de Tecnologia de Amirkabir em Teerã, no Irã. |
Kitab
al-Mukhtasar fi Hissab al Jabr wa-l-Muqabala
| Primeira página de Kitāb al-mukhtaṣar fī ḥisāb al-jabr wa-l-muqābala. |
O
Livro
da Restauração e do Balanceamento
de nome completo Livro
Compêndio sobre Cálculo por Restauração e Balanceamento
(em árabe: الكتاب
المختصر في حساب الجبر والمقابلة;
transliteração: al-Kitāb
al-mukhtaṣar fī ḥisāb al-jabr wa-l-muqābala)
é um livro histórico de matemáticas escrito em árabe entre 813 e
833 d.C. pelo matemático e astrônomo muçulmano al-Khwarizmi,
pertencente à Casa da Sabedoria de Bagdade, capital do califado
abássida nesse tempo. Nesta obra, al-Khwarizmi expõe os alicerces
da álgebra, sendo o primeiro a estudar sistematicamente a resolução
de equações lineares e quadráticas. A palavra álgebra
deriva de uma das operações básicas com equações (al-ğabr)
descritas neste livro.
| Al-Khorezm e Ata-Darwazi (portão ocidental) de Old-Khiva (Usbequistão). |
Conteúdo
Seguindo
a tradição da época, a Introdução começa com louvores a Deus,
ao Profeta e ao Califa al-Mamun.
De seguida, al-Khwarizmi apresenta o conjunto da obra, indicando que
lhe foi comandado pelo Califa: trata-se de um compêndio ou manual,
destinado a "fazer
mais claro o que era obscuro e (...) facilitar o que era difícil"
com o objeto de resolver problemas concretos de cômputo de heranças,
medida da terra ou comércio. Num primeiro tempo, o autor expõe o
sistema de numeração decimal de números, e a seguir define os
objetos da álgebra. Considera três tipos de objetos: os números
(escritos com palavras, designados com o nome da unidade monetária
dirham),
as raízes
(o qual atualmente se escreveria como x)
e os quadrados
(o qual atualmente se escreveria x2). Al-Khwarizmi
classifica as equações quadráticas em seis tipos básicos e
proporciona métodos algébricos e geométricos para resolver as mais
simples, sem usar notações abstratas: "a álgebra de
al-Khwarizmi é apenas retórica, sem qualquer dos recursos que se
encontram na Arithmetica
grega de Diofanto
ou nos trabalhos de Brahmagupta.
Até mesmo os números estão escritos com palavras em lugar de
símbolos!" Os seis tipos, em notação moderna, são:
- quadrados igual a raízes (ax2=bx)
- quadrados igual a números (ax2=c)
- raízes igual a números (bx =c)
- quadrados e raízes igual a números (ax2 + bx =c)
- quadrados e números igual a raízes (ax2 + c =bx)
- raízes e números igual a quadrados (bx + c =ax2)
Os
matemáticos muçulmanos, ao contrário dos hindus, não consideravam
números negativos, daqui que as equações do tipo bx
+ c
=0
não apareçam na classificação, pois não possuem soluções
positivas se todos os coeficientes for positivos. Analogamente, os
tipos 4, 5 e 6, que numa perspectiva moderna parecem equivalentes,
eram diferentes dado que os coeficientes deviam ser todos positivos.
A operação al-jabr
(em escrita árabe: 'الجبر'),
que significa "restauração", consiste em passar uma
quantidade deficitária de um lado da equação para o outro. Num dos
exemplos de al-Khwarizmi (em notação moderna), "x2=40x
− 4x2"
é transformado por al-jabr
em "5x2=40x".
A aplicação repetida desta regra elimina as quantidades negativas
dos cálculos. Al-Muqabala
(em escrita árabe: 'المقابله'),
entende-se como "balanceio" ou "comparação";
consiste na subtração da mesma quantidade positiva de ambos os
lados: "x2
+ 5=40x
+ 4x2"
torna-se "5=40x
+ 3x2".
Aplicações sucessivas desta regra logra que as quantidades de cada
tipo ("quadrado"/"raiz"/"número")
apareçam na equação no máximo uma vez, o que demonstra que, ao
serem restritas a coeficientes e soluções positivas, só existem
seis tipos diferentes solúveis do problema. A última parte do livro
discute exemplos práticos de aplicação destas regras, problemas
aplicados à medida de áreas e volumes e problemas que envolvem
cômputos de direito muçulmano de sucessão. Nenhum destes capítulos
requer de conhecimentos sobre resolução de equações quadráticas.
Os sucessores de
al-Khwarizmi perpetuaram e amplificaram o tratado em outras obras por
vezes com o mesmo título, traduzido por Gerardo
de Cremona
no século XII. Apenas fica uma cópia em árabe. Encontra-se na
Universidade
de Oxford
e está datada de 1361. Em 1831, Frederic
Rosen
publica uma tradução para o inglês baseado neste manuscrito. No
prefácio, adverte que a escrita é "simples
e legível",
mas que os signos diacríticos árabes foram omitidos, pelo qual a
compreensão de certas passagens se torna difícil. O título oferece
dificuldade na tradução. Algumas enciclopédias recolhem al-jabr
como sinônimo de redução.
Dahan-Dalmédico
e Pfeiffer,
pela sua vez, escrevem "manual
de cálculo de al-jabr e al-muqabala".
Notas
de R. Rashed e Angela Armstrong:
"O
texto de al-Khwarizmi pode ser visto não somente como diferente das
tabelas babilônicas, mas também da Arithmetica
de Diofanto. Não é apenas uma série de "problemas" por
resolver, mas uma "exposição" que começa com termos
primitivos nos quais as combinações dão todos os possíveis
protótipos de equações, que em diante constituem explicitamente o
verdadeiro objeto de estudo. Por outro lado, a ideia de uma equação
em si mesma, aparece desde o princípio e, poderia dizer-se, de modo
genérico, que não emergem simplesmente durante a solução de um
problema, mas é solicitada explicitamente para definir uma classe
infinita de problemas."
"Talvez
um dos avanços mais significativos conseguidos pelos matemáticos
árabes começou neste tempo com o trabalho de al-Khwarizmi,
netamente os começos da álgebra. É importante entender o
significativo que foi esta ideia. Foi revolucionária, longe do
conceito grego das matemáticas, que era essencialmente geométrico.
A álgebra foi uma teoria unificadora que permitiu que os números
racionais, os números irracionais e as magnitudes geométricas
fossem todas tratadas como "objetos algebraicos". Deu-lhe
às matemáticas uma via de desenvolvimento completamente nova,
conceitualmente muito mais ampla que a que existia então, e
proporcionou um veículo para futuros desenvolvimentos. Outro aspecto
importante da introdução das ideias algébricas é que permitiu
aplicar as matemáticas por si mesmas de um jeito que não fora
possível anteriormente."
Referências
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.