quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Biografia de Alcméon de Crotona

Alcméon (pic.: RennyDJ).
Alcméon ou Alcmeão. (em grego antigo: Ἀλκμαίων, Alkmaiōn, século V a.C.). Alcméon foi um filósofo pré-socrático e médico grego de Crotona (o principal centro de estudo e divulgação do pensamento pitagórico, hoje na Itália) e um dos mais importantes discípulos de Pitágoras. Dedicado à medicina e às investigações das ciências naturais, realizou a primeira dissecação de um cadáver humano e desenvolveu uma teoria acerca da origem e dos processos fisiológicos das sensações, sugerindo que os sentidos estariam ligados ao cérebro. Segundo escritos da época foi o primeiro a relacionar o cérebro com as funções psíquicas, a psyqué, ao descobrir, por dissecação, que certas vias sensoriais terminavam no encéfalo e elaborou uma teoria da desarmonia como causa de enfermidades. Pode ter sido o verdadeiro descobridor das trompas de Eustáquio, além de um pioneiro da embriologia. A ele atribui-se a bela frase: “Das coisas invisíveis têm clara consciência os deuses, a nós enquanto humanos, nos é permitido apenas conjecturar”. Concebeu a saúde como isonomia do equilíbrio ao afirmar que o que conserva a saúde é o equilíbrio das qualidades, que se simbolizariam em Posídon. Da filosofia, transmitida sob forma de comentário, doxografia, principalmente através da obra de Aristóteles, destacam-se dois pontos importantes:
 
- a elaboração de uma tabela de pares de opostos, que funcionariam como princípio, arché, da natureza: limite-ilimitado, ímpar-par, unidade-pluralidade, direito-esquerdo, masculino-feminino, repouso-movimento, reto-torto, luz-sombra, bom-mau, quadrado-oblongo.
 
- uma compreensão da imortalidade da alma, por concebê-la em eterno movimento, à semelhança dos astros e dos entes divinos.


Biografia

Muito poucos são aqueles que o conhecem pelo seu próprio nome, é da geração de pitagóricos contemporâneos ou sucessores imediatos de Pitágoras. O único pensador itálico entre Pitágoras e Parmênides, de cujas opiniões temos testemunhos suficientes para justificar seu estudo, é Alcméon de Crotona, o qual teria seu clímax no início do século V antes de Cristo. Sabemos que era dualista e que teve algum tipo de contacto com Pitágoras. Jâmblico classifica Alcméon entre os contemporâneos de Pitágoras, jovem discípulo seu, quando este era ancião. De qualquer forma, dado que na mesma lista situa Filolau, Arquitas e Leucipo, seu testemunho é inútil. Por sua parte, Aristóteles, que menciona Alcméon pelo seu nome em várias ocasiões, afirma que era jovem quando Pitágoras era um ancião, mas, não diz nada sobre que fora seu discípulo ou que o conhecera. Também conjectura que, Alcméon, tirou suas teorias dos pitagóricos ou estes dele, mas nunca afirma que fosse membro da escola. Por sua parte, Diógenes Laércio fala da relação de Alcméon com Brontino, e, já que sabemos que este manteve uma estreita conexão com Pitágoras, é uma evidência clara de que Alcméon manteve um estreito contacto com a escola pitagórica. Diógenes cita também Leon e Batilo, os quais, conforme a lista de Jâmblico, aparecem entre os pitagóricos. Parece que Alcméon se interessou preferencialmente por assuntos relacionados com a medicina e com a fisiologia, mas o certo é que se preocupou também por questões de filosofia natural.

Pesquisa

Alcméon centrou na origem e processo das sensações, sendo de sua criação a tabela pitagórica das oposições (doce/amargo, branco/preto, grande/pequeno) que pôs em relação sensações, cores e magnitudes. Outra de suas contribuições foi a elaboração de uma teoria que supunha a alma ser imortal e em contínuo movimento circular. Alcméon atribuiu a posse da alma tanto para os homens como para os astros, e identificou a harmonia com uma lei universal. Sobre a doutrina de Alcméon de Crotona, disse Aristóteles: "A doutrina de Alcméon de Crotona, parece aproximar-se muito a estas ideias, seja que as tenha tomado dos Pitagóricos, seja que estes as tenham recebido de Alcméon, porque florescia quando Pitágoras era ancião, e sua doutrina se parece à que acabamos de expor. Disse, com efeito, que a maior parte das coisas deste mundo são duplos, indicando para efeito as [68] oposições entre as coisas. Mas não fixa, como os Pitagóricos, estas diversas oposições. Toma as primeiras que se apresentam, por exemplo, o branco e o preto, o doce e o amargo, o bem e o mal, o grande e o pequeno, e sobre todos os demais se explica de uma maneira igualmente indeterminada, enquanto que os Pitagóricos definem o número e a natureza das oposições". Aristóteles, Metafísica, Libro 1º, V.

Teoria da saúde

Alcméon foi, como os pitagóricos, um dualista. O que acontece é que, enquanto estes reconheciam como princípios primários alguns pares particulares de opostos (limite-ilimitado), Alcméon, simplesmente afirma que a oposição era fundamental sem especificar nenhum par ou pares primários. Neste contexto, sua teoria da saúde, é quem melhor demonstra seu dualismo. É bem possível que esta doutrina, apesar de sua restrição ao campo da medicina, tenha sugerido a Platão a teoria que Simias, no Fédon (85 E - 86 D) descreve que a alma é simplesmente uma harmonização dos opostos físicos que compõem o corpo. Dado que Platão, nesta passagem, cita uma opinião pitagórica, resulta verossímil pensar que, neste ponto, fora Alcméon o pai da teoria que demostraria que: ou bem era pitagórico, ou que exerceu influência sobre os pitagóricos. Alcméon é o primeiro médico que determina que as funções psíquicas residem no cérebro baseando-se na observação clínica e em provas experimentais que lhe permitiram compreender que os órgãos dos sentidos estão ligados ao cérebro através de vias de comunicação, os nervos, pelos quais correm ou circulam as sensações respectivas. Esta ideia é transcendental. “O grande descobrimento do genial Alcméon de Crotona de que o cérebro era o local da consciência, das sensações e da compreensão, em outras palavras, do conjunto da vida psíquica, levava implícita a ideia de que toda enfermidade mental e também a epilepsia, dependia de uma enfermidade do cérebro” (…) “o cérebro regia todo o corpo, era o órgão central de toda a atividade humana, tanto psíquica como corporal; nele terminavam os nervos e nele estava o centro de toda a vida psíquica. A ele devíamos nossas sensações e pensamentos (…) O cérebro levava à consciência as sensações que os nervos traziam dos órgãos sensoriais”.

Concepção da alma

Acredita-se que os textos que nos falam sobre a concepção da alma de Alcméon, apesar de serem contraditórios, nos estariam descrevendo a mesma doutrina. A oposição presente nos textos seria a seguinte:

- Por um lado, afirma-se que a alma é imortal e que possui a qualidade, do mesmo modo que os corpos celestes, de estar sempre em movimento circular.
- Por outro lado, afirma-se que os homens são mortais porque são incapazes de juntar o princípio com o fim. Isto é, neles existiria um alma que permite realizar o movimento do corpo, mas não realizar um movimento circular contínuo.

Em resumo, enquanto os corpos celestes são imortais e eternos, já que têm a propriedade de realizar um movimento circular contínuo; no caso do homem, este seria mortal já que não teria a capacidade de unir o princípio com o fim, isto é, realizar um movimento de tipo circular contínuo. Esta curiosa doutrina nos lembra Heráclito quando afirma que num círculo o início e o fim são o mesmo. Também Platão, no Timeu (diálogo), fala sobre os círculos giratórios da alma, dando a impressão de ter certa relação com esta teoria.

Sonho

Alcméon de Crotona foi um dos primeiros autores que tentou formular uma hipótese sobre o sonho, se bem que tentou uma hipótese não experimental, evidentemente. A hipótese de Alcméon é conhecida como hipótese vascular, ao propor que o sonho é o resultado do aumento da quantidade de sangue.


Referências

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