terça-feira, 16 de setembro de 2014

Biografia de Federico García Lorca


García Lorca em 1914.
Federico García Lorca. Nasceu em Fuente Vaqueros, a 5 de Junho de 1898, e, faleceu em Granada, a 19 de Agosto de 1936. García Lorca foi um poeta e dramaturgo espanhol, e uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Iniciou-se na na literatura com estudos de crítica a Luis de Góngora y Argote e à temática da poesia lírica espanhola. A partir de 1932, dirigiu La Barraca, companhia teatral que viajava pelas pequenas cidades e aldeias, representando perante o povo. Ao rebentar a guerra civil espanhola, foi denunciado por inimigos como republicano; em 19 de Agosto de 1936 foi preso e a seguir fuzilado pelos falangistas.

Biografia

Estátua de Lorca na Plaza de Santa
Ana de Madrid. (Imagem: Lourdes Cardenal).
Nascido numa pequena localidade da Andaluzia, García Lorca ingressou na faculdade de Direito de Granada em 1914, e cinco anos depois transferiu-se para Madrid, onde fez amizade com artistas como Luis Buñuel e Salvador Dalí e publicou seus primeiros poemas. Grande parte dos seus primeiros trabalhos baseia-se em temas relativos à Andaluzia (Impressões e Paisagens, 1918), à música e ao folclore regionais (Poemas do Canto Fundo, 1921-1922) e aos ciganos (Romancero Gitano, 1928). Concluído o curso, foi para os Estados Unidos e para Cuba, período de seus poemas surrealistas, manifestando seu desprezo pelo modus vivendi estadunidense. Expressou seu horror com a brutalidade da civilização mecanizada nas chocantes imagens do Poeta em Nova Iorque, publicado em 1940. Voltando à Espanha, criou um grupo de teatro chamado La Barraca. Não ocultava suas idéias socialistas e, com fortes tendências homossexuais. Foi ainda um excelente pintor, compositor precoce e pianista. Sua música se reflete no ritmo e sonoridade de sua obra poética. Como dramaturgo, Lorca fez incursões no drama histórico e na farsa antes de obter sucesso com a tragédia. As três tragédias rurais passadas na Andaluzia, Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936) asseguraram sua posição como grande dramaturgo.

O assassinato e o corpo


Casa de Lorca, em Fuente Vaqueros.
(Imagem: Hilario Iglesias).
Controvérsia significante permanece sobre os motivos e os detalhes do assassinato de Lorca. Motivos pessoais, não-políticas também têm sido sugeridos. A biógrafa de García Lorca, Leslie Stainton, afirma que seus assassinos fizeram comentários sobre sua orientação sexual, o que sugere que ele desempenhou um papel em sua morte. Ian Gibson sugere que o assassinato de García Lorca foi parte de uma campanha de assassinatos em massa que visava eliminar apoiantes da Frente Popular Marxista. No entanto, Gibson propõe que a rivalidade entre a anti-comunista Confederação Espanhola de Direito Autônomo (CEDA) e a Falange Espanhola foi um fator importante na morte de Lorca. O ex-vice parlamentar da CEDA, Ramon Ruiz Alonso García, prendeu Garcia Lorca na casa de Rosales e foi o responsável pela denúncia original que levou ao mandado de captura emitido. Tem sido argumentado que García Lorca era apolítico e tinha muitos amigos em ambos os campos republicanos e nacionalistas . Gibson contesta isso em seu livro de 1978 sobre a morte do poeta. Ele cita, por exemplo, o manifesto publicado do Mundo Obrero (periódico do Partido Comunista de Espanha – PCE), que Lorca assinou mais tarde, e também alega que Lorca foi um defensor ativo da Frente Popular. Lorca leu o manifesto em um banquete em honra do companheiro poeta Rafael Alberti em 9 de Fevereiro de 1936. Muitos anti-comunistas eram simpáticos a Lorca ou assistiram a ele. Nos dias antes de sua prisão ele encontrou abrigo na casa do artista e líder membro da Falange, Luis Rosales. O poeta comunista vasco Gabriel Celaya escreveu em suas memórias que uma vez encontrou García Lorca, na companhia de falangista José Maria Aizpurua. Celaya escreveu ainda que Lorca jantava toda sexta-feira com o fundador e líder falangista José Antonio Primo de Rivera. Em 11 de Março de 1937 foi publicado um artigo na imprensa falangista denunciando o assassinato e lionizing García Lorca, o artigo iniciava: "O melhor poeta da Espanha imperial foi assassinado". Jean Louis Schonberg também apresentou a teoria do "ciúme homossexual". O dossiê relativo ao assassinato, compilados a pedido de Francisco Franco e referido por Gibson e outros, ainda não veio à tona. O primeiro relato publicado de uma tentativa de localizar o túmulo de Lorca pode ser encontrado no livro do viajante britânico e hispanista Gerald Brenan, “A Face da Espanha”. Apesar das tentativas iniciais, como as de Brenan em 1949, o local permaneceu desconhecido durante a era de Franco. Segundo algumas versões, ele teria sido fuzilado de costas, em alusão a sua homossexualidade.

Últimos dias e fuzilamento

Huerta de San Vicente. (Imagem: Alimanja).
Colômbia e México, cujos embaixadores previram que o poeta pudesse ser vítima de um atentado devido ao seu cargo de funcionário da República, lhe ofereceram exílio, mas Lorca rejeitou as ofertas e se dirigiu para a Huerta de San Vicente (Horta de São Vicente) para reunir-se com a sua família. Ali chegou em 14 de Julho de 1936, três dias antes de eclodir em Marrocos a sublevação militar contra a República. No dia 20, o centro de Granada estava em poder das forças falangistas e o cunhado de Federico e prefeito da cidade, Manuel Fernández-Montesinos, foi detido em seu gabinete na prefeitura. Seria fuzilado um mês depois. Nestes momentos políticos alguém lhe perguntou sobre a sua preferência política e ele declarou que se sentia por sua vez católico, comunista, anarquista, libertário, tradicionalista e monárquico. De fato ele nunca se afiliou a nenhuma das facções políticas e jamais discriminou ou se distanciou de nenhum de seus amigos, por nenhuma questão política. Conhecia o líder e fundador da Falange Espanhola, José Antonio Primo de Rivera, muito aficionado à poesia. O próprio Lorca disse sobre ele ao jovem Gabriel Celaya, em Março de 1936: “José Manuel é como José Antonio. Outro bom sujeito. Sabes que toda sexta-feira janto com ele? Costumamos sair juntos em um táxi com as cortinas abaixadas, porque nem a ele lhe convém que lhe vejam comigo, e nem a mim me convém que me vejam com ele”. Esta declaração é entendida pelos estudiosos como um exagero ou uma piada, como assinalou o próprio Celaya ao relatar esta anedota. Ao descrever a cena, resume as consequências dramáticas da atitude insensata de García Lorca: “Federico sorria. Acreditava que aquilo não era mais que uma brincadeira infantil. No via nada por detrás. Ria como de uma boa piada. Mas essa risada, essa confiança em que o homem é sempre humano, essa crença que um amigo, fascista ou não, é um amigo, o levou à morte. Porque foram alguns amigos, amigos que ele tinha entre os seus melhores, aqueles que no último momento acabaram sendo, antes de tudo e sobretudo, fascistas”. Se sentia, como disse ao jornalista e caricaturista Luis Bagaría em uma entrevista para “El Sol” de Madrid pouco antes de sua morte, integramente espanhol, mas “antes que isto homem do mundo e irmão de todos”. “Eu sou espanhol integral e me seria impossível viver fora dos meus limites geográficos; mas odeio o que é espanhol por ser espanhol e nada mais, eu sou irmão de todos e abomino o homem que se sacrifica por uma idéia nacionalista, abstrata, pelo simples fato de que ama a sua pátria com uma venda nos olhos. O bom chinês está mais próximo de mim do que o mau espanhol. Canto a Espanha e a sinto até a medula, mas antes disso sou um homem do mundo e irmão de todos. Desde logo não acredito na fronteira política”. Em Granada buscou refúgio na casa da família de seu amigo, o poeta Luis Rosales, onde se sentia mais seguro, já que dois de seus irmãos, nos quais confiava, eram proeminentes falangistas. No entanto, em 16 de Agosto de 1936, se apresentou ali a Guarda Civil para detê-lo. Acompanhavam aos guardas Juan Luis Trescastro Medina, Luis García-Alix Fernández e Ramón Ruiz Alonso, ex-deputado da CEDA, que haviam denunciado Lorca ante ao governador civil de Granada José Valdés Guzmán. Valdés consultou com Queipo de Llano (Gonzalo Queipo de Llano y Sierra) o que devia fazer, ao que este lhe respondeu: “Dê-lhe café, muito café”. Segundo o historiador Ian Gibson, acusava-se o poeta de “ser espião dos russos, estar em contacto com estes via rádio, haver sido secretário de Fernando de los Ríos e ser homossexual”. Foi levado ao Governo Civil, e logo ao povo de Víznar onde passou sua última noite em uma cela improvisada, junto a outros detidos. Depois de que a data exata de sua morte tenha sido objeto de uma longa polêmica, parece definitivamente estabelecido de que Federico García Lorca foi fuzilado às 4:45hs da madrugada de 18 de Agosto, no caminho que vai de Víznar a Alfacar. Seu corpo permanece enterrado em uma vala comum anônima em algum lugar destas paragens, junto com o cadáver de um mestre nacional, Dióscoro Galindo, e dos bandarilheiros anarquistas Francisco Galadí e Joaquín Arcollas, executados com ele. Trescastro presumiria depois de haver participado pessoalmente nos assassinatos, enfatizando a homossexualidade de Lorca. A vala se encontra na aldeia de Fuente Grande, no município de Alfacar. H. G. Wells (Herbert George Wells) enviou o seguinte despacho às autoridades militares de Granada: H. G. Wells, presidente Pen Club de Londres, deseja com ansiedade notícias de seu ilustre colega Federico García Lorca, e apreciará grandemente a cortesia de uma resposta,... Cuja a resposta foi a seguinte: Coronel governador de Granada a H. G. Wells. — Ignoro lugar hállase D. Federico García Lorca. — Firmado: Coronel Espinosa.

Após a sua morte

Busto de García Lorca em Santoña, Cantabria.
Após a sua morte foram publicados “Primeras Canciones” e “Amor de Don Perlimplín con Belisa en su Jardín”. Uma das obras mais estremecedoras sobre o fato de sua morte é o poema “El Crimen fue en Granada” (O Crime foi em Granada), escrito por Antonio Machado em 1937. Por outro lado, o periódico falangista de San Sebastián, “Unidad”, publicou em 11 de Março de 1937, uma cordial elegia assinada por Luis Hurtado Álvarez e intitulada “A la España imperial le han asesinado su mejor poeta”. Uma das biografias sobre Federico García Lorca mais documentadas, controvertidas e populares é o best-seller publicado em 1989 e intitulado Federico García Lorca: A Life (Vida, paixão e morte de Federico García Lorca, edição em espanhol em 1998), do hispanista de origem irlandesa Ian Gibson. Em 2009, em aplicação da lei para a recuperação da memória histórica aprovada pelo governo de José Luis Rodríguez Zapatero, foi aberta a vala onde supostamente descansavam os restos do poeta, não se encontrando nada. Em Maio de 2012, foi revelada a sua última carta, endereçada a seu amigo íntimo, o escritor e crítico Juan Ramírez de Lucas.


Romancero Gitano
O Romancero gitano é uma obra poética de Federico García Lorca, publicada em 1928. É composta por dezoito romances com temas como a noite, a morte, o céu, a lua. Todos os poemas têm algo em comum, tratam da cultura cigana. Apresenta uma grande síntese entre a poesia popular e a alta, transcorre entre dois motivos centrais, Andaluzia e os ciganos, tratados de maneira metafórica e mítica. A obra reflete as penas de um povo perseguido que vive à margem da sociedade e que se vê perseguido pelos representantes da autoridade, e por sua luta contra essa autoridade repressiva. Entretanto, o próprio García Lorca afirma que o seu interesse se concentra não em descrever uma situação concreta, mas sim, no confronto que ocorre vez ou outra entre as forças opostas: em um poema que descreve o conflito entre a Guarda Civil e os ciganos, chama a estas partes de “romanos” e “cartagineses”, para dar a entender essa permanência de conflito.

Análise

  • Área da obra: Ambientado em Andaluzia, nos bairros ciganos.
  • Recursos: Metáforas, personificações, comparações, repetições.

Conteúdo e estrutura

Lorca estiliza o mundo cigano, distante do costumismo e tipismo folclórico. Pode-se dividir o Romancero em duas séries, deixando de um lado os três dos arcanjos que simbolizam Córdoba, Granada e Sevilha. A primeira série é mais lírica, com a presença dominante das mulheres, a segunda é mais épica e predominam os homens. O cigano, por suas crenças e códigos, choca com duas realidades; o amor e "os outros" que invadem seus direitos ou prestígio, gente de sua própria raça ou a sociedade que os marginaliza e oprime, cujo braço armado é a Guarda Civil, e muitas vezes leva a sangue e morte. O amor, o direito pessoal, as crenças, levam à morte ou ferida moral de difícil cura. Um romance destacável é o da Guarda Civil espanhola, que não é representado com muita simpatia e que toma na obra um papel antagônico.


Bibliografia

Em sua curta existência, García Lorca deixou importantes obras-primas da literatura, muitas delas publicadas postumamente, dentre as quais:

Poesia
  • Livro de Poemas - 1921
  • Ode a Salvador Dalí - 1926.
  • Canciones (1921-24) - 1927.
  • Romancero gitano (1924-27) - 1928.
  • Poema del cante jondo (1921-22) - 1931.
  • Ode a Walt Whitman - 1933.
  • Canto a Ignacio Sánchez Mejías - 1935.
  • Seis poemas galegos - 1935.
  • Primeiras canções (1922) - 1936.
  • Poeta em Nueva York (1929-30) - 1940.
  • Divã do Tamarit - 1940.
  • Sonetos del Amor Oscuro - 1936

Prosa
  • Impressões e Paisagens - 1918
  • Desenhos (publicados em Madri) - 1949
  • Cartas aos Amigos - 1950

Teatro
  • Assim que passarem cinco anos - Lenda do tempo - 1931.
  • Retábulo de Don Cristóvão e D.Rosita - 1931.
  • Amores de Dom Perlimplim e Belisa em seu jardim" - 1926.
  • Mariana Pineda - 1925.
  • Dona Rosinha, a solteira - 1927.
  • Bodas de Sangue (Trilogia) - 1933.
  • Yerma (Trilogia) - 1934.
  • A Casa de Bernarda Alba (Trilogia) - 1936.
  • Quimera - 1930.
  • El publico - 1933.
  • O sortilégio da mariposa - 1918.
  • A sapateira prodigiosa - 1930.
  • Pequeno retábulo de Dom Cristóvão - 1931.


Referências

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