quarta-feira, 2 de julho de 2014

Biografia de Górgias


Górgias. Nasceu em Leontinos, cerca de 485 a.C., e, faleceu em Lárissa, cerca de 380 a.C. Górgias, dito "o Niilista", foi um retórico e filósofo grego, natural de Leontinos, na Sicília. Juntamente com Protágoras de Abdera, formou a primeira geração de sofistas. Diversos doxógrafos relatam que teria sido discípulo de Empédocles, embora tenha sido apenas alguns anos mais jovem que ele. Como outros sofistas estava continuamente mudando de cidade, praticando e dando demonstrações públicas de suas habilidades em diversas cidades, e nos grandes centros pan-helênicos como Olímpia e Delfos, cobrando por suas apresentações e por aulas. Uma característica especial de suas aparições era a de ouvir questões da plateia sobre todos os assuntos e respondê-las sem qualquer preparo. Seu principal legado foi ter levado a retórica desde sua Sicília natal para a Ática, e contribuir com a difusão do dialeto ático como idioma da prosa literária. Antístenes, fundador do cinismo, foi ouvinte de Górgias, e Platão escreveu um diálogo intitulado Górgias, onde discute a função e a validade da retórica.



Biografia



Górgias era originário de Leontinos, uma colônia grega na Sicília, local que frequentemente é chamado de terra natal da retórica grega. Sabe-se que seu pai se chamava Carmântides, e que tinha dois irmãos - um irmão chamado Heródico e uma irmã que dedicou-lhe uma estátua em Delfos. Já tinha por volta de 60 anos quando, em 427 a.C., foi enviado a Atenas por seus compatriotas na função de embaixador, chefiando um grupo que pediu pela proteção da cidade contra a agressão dos siracusanos. Acabou por se fixar permanentemente lá, provavelmente devido à enorme popularidade do seu estilo de oratória e dos benefícios financeiros que obteve com suas apresentações e aulas de retórica. De acordo com Aristóteles, entre seus discípulos estava Isócrates. Outros de seus estudantes foram indicados em tradições posteriores; a Suda lista Péricles, Pólo e Alcídamas, Diógenes Laércio menciona Antístenes, e, de acordo com Filóstrato, "atraiu a atenção dos homens mais admirados, Crítias e Alcebíades, entre os jovens, e Tucídides e Péricles, entre os mais velhos. Agatão também, o poeta trágico, a quem a Comédia considera sábio e eloquente, frequentemente "gorgianiza" em seu verso iâmbico". Górgias teria vivido mais de cem anos. Conquistou uma riqueza considerável, suficiente para que ele encomendasse uma estátua de ouro de si mesmo para um templo público. Morreu em Lárissa, na Tessália, em 376 a.C..



Inovação retórica



Górgias foi responsável por inovações retóricas envolvendo a estrutura e a ornamentação, além da introdução da paradoxologia - a ideia do pensamento paradoxal, e da expressão paradoxal - o que fez com que fosse apelidado de 'o pai da sofística'. Górgias também é conhecido por contribuir com a difusão do dialeto ático como língua da prosa literária. As obras de retórica de Górgias ainda em existência (Encômio de Helena, Defesa de Palamedes, Sobre a Não-Existência e Epitáfio) foram preservados através de uma obra chamada Technai, um manual de instrução retórica, que consistia de modelos a serem memorizados, e demonstrava diversos princípios da prática retórica. Embora alguns estudiosos tenham alegado que cada uma dessas obra apresenta afirmações contrastantes, os quatro textos podem ser lidos como contribuições inter-relacionadas à arte (technê) e à teoria (então promissora) da retórica. Das obras ainda existentes de Górgias, apenas o Encômio e a Defesa encontram-se em sua forma integral. Diversas de suas obras políticas, retóricas e discursos foram referenciadas e citadas por Aristóteles, incluindo um discurso sobre a unidade helênica, uma oração fúnebre pelos atenienses mortos na guerra, e uma citação curta de um Encômio sobre os Eleenses. Além destes discursos, existem também paráfrases de seu tratado "Sobre a Natureza ou o Não-Existente". Estas obras fazem parte da coleção Diels-Kranz e, embora os acadêmicos considerem esta fonte confiável, muitas delas estão em estado fragmentário, ou mesmo corrompido. Diversas questões foram levantadas a respeito da autenticidade e da exatidão dos textos que lhe são atribuídos. Os escritos de Górgias são tanto retóricos quanto performáticos; o autor faz grande esforço para exibir sua habilidade de fortalecer uma posição argumentativa absurda. Consequentemente, cada uma de suas obras defende pontos de vista que eram impopulares, paradoxais e até mesmo absurdos. A natureza performática de seus escritos é exemplificada pela maneira com que ele aborda, jocosamente, cada argumento, com estratagemas estilísticos como a paródia, a figuração artificial e a teatralidade. Seu estilo argumentativo pode ser descrito como poesia sem a métrica (poiêsis sem a métrica). Górgias argumentava que palavras persuasivas tinham uma força (dunamis) equivalente às palavras dos deuses, e o mesmo impacto da força física. No Encômio, Górgias comparou o efeito da fala sobre a alma ao efeito das drogas sobre o corpo: "Assim como diferentes drogas trazem à tona os diferentes humores do corpo - alguns interrompendo uma doença, outros a vida - o mesmo ocorre com as palavras: algumas causam dor, outras alegria, algumas provocam o medo, algumas instilam em seus ouvintes a ousadia, outras tornam a alma muda e enfeitiçada com crenças más”. Górgias também acreditava que seus "encantamentos mágicos" trariam cura à psiquê humana ao controlar as emoções fortes. Dedicava atenção especial aos sons das palavras, que, como na poesia, podiam cativar plateias. Seu estilo flórido e rimado parecia hipnotizar aqueles que o ouviam. Seu lendário poder de persuasão sugere que tinha uma influência sobrenatural sobre seu público e suas emoções. Ao contrário de outros sofistas (especialmente Protágoras), Górgias não professava ensinar arete ("excelência", ou "virtude"). Acreditava não haver uma forma absoluta de arete, mas que o conceito era relativo a cada situação (por exemplo, a virtude num escravo não equivale à virtude num estadista). Sua crença era a de que a retórica, a arte da persuasão, é a rainha de todas as ciências, na medida em que é capaz de persuadir qualquer curso de ação. Embora a retórica existisse no currículo de cada um dos sofistas, Górgias atribuiu-lhe maior proeminência do que qualquer um deles. Muito do que já se debateu sobre a natureza e o valor da retórica se iniciou em Górgias. O diálogo de Platão chamado Górgias apresenta um contra-argumento à aceitação incondicional da retórica por Górgias, sua forma elegante, e sua natureza performática. O diálogo tenta mostrar que a retórica não satisfaz as condições necessárias para que seja considerada uma technê, sendo apenas uma habilidade um tanto perigosa de se ter, tanto para o próprio orador como para seu público, pois dá a um ignorante o poder de parecer ter mais conhecimento do que alguém que efetivamente o tem.



Górgias (diálogo de Platão)



Górgias é um diálogo de Platão, filósofo grego do século V a.C. Deverá ter sido escrito depois da primeira viagem de Platão à Sicília, em 387 a.C. Situam-no na acme (maturidade) da vida: depois dos quarenta anos, isso significa que, pela boca de Sócrates fala já o próprio [Platão]. Contexto : Quando Górgias foi escrito por Platão, Atenas vivia uma profunda crise econômica e política. Após uma longa guerra contra Esparta (431-404), Atenas perde a guerra e o poder que tinha entre os gregos. O regime Democrático é substituído por uma Tirania (404-403) por imposição de Esparta. A Democracia que é restaurada, em 403, está mais frágil que nunca. Os recursos econômicos dos atenienses são agora bastante mais escassos, a custo a cidade procura recuperar a sua prosperidade econômica. A antiga aristocracia culpa os oradores e os democratas desta perda do poder e exige um governo forte. No inicio do século IV a.C. devido ao elevado absentismo dos cidadãos nas sessões da Assembleia foi decidido remunerá-los sempre que o fizessem. A Assembleia, dirá Aristóteles, torna-se rapidamente num local de ociosos e cidadãos empobrecidos que dessa forma procuram adquirir algum sustento. O exercito passa a ser constituído por mercenários afastando-se dos cidadãos. As sucessivas guerras empobrecem ainda mais a vida dos atenienses. A Democracia continua resistir, mas a tendência é para a adoção de regimes fortes (tirânicos). No final do século IV a.C., Atenas deixa de ser Independente e a Democracia é substituída definitivamente por uma Oligarquia. Este dialogo tem como tema principal a Retórica, qual a sua função e como esta deve ser utilizada. – uma das personagens principais é o próprio Górgias, o famoso sofista siciliano conhecido em Atenas como o melhor orador. A disputa de Sócrates acerca da retórica e o seu valor vai permitir a Platão estabelecer o conforto entre dois usos opostos da linguagem – como instrumento de poder e como instrumento de verdade. Ou seja a linguagem defendida pelos sofistas (representados por Górgias, Polo e Cálicles) sofistas e a linguagem defendida pelos filósofos Sócrates e Platão - que conclui que esta é não só inútil, mas mesmo imoral.



É um diálogo de cinco personagens:


Polo, que tal como Górgias é um sofista; Querefonte, um amigo de Sócrates, que o acompanha a casa de Cálicles; Cálicles: O grande adversário de Sócrates, esta personagem ao contrário das outras é talvez uma figura fictícia, imaginada por Platão, representa os políticos oportunistas próprios da época, a ausência ou inversão de valores que Platão combateu. Isto significa que Cálicles representa o oposto de Sócrates, muitos autores consideram que Cálicles era uma imagem do que Platão teria sido sem Sócrates; Górgias, personagem venerável pela sua idade e prestígio – aceita as exigências de Sócrates e ouve-o com interesse e cortesia, ao contrário de Polo e Cálicles que são impetuosos, bruscos e impertinentes; Sócrates, diferente de Górgias, às vezes um pouco severo com Polo, mostra um pouco a sua ironia com Cálicles de a sua incapacidade de aceitar a derrota…mas Sócrates faz sobressair a sua extraordinária capacidade de argumentação, a ausência de vaidade, e o desejo pela verdade e justiça, Sócrates demonstra também a sua humildade perante Górgias perguntando-lhe se quer continuar o discurso. A ação, ou a disputa entre estas cinco personagens decorre em casa de Cálicles, numa manhã cedo na qual que Sócrates e Querefonte surgem e pedem para falar com Górgias. Esse encontrava-se como hóspede de Cálices, seu amigo. Esta obra tem sido considerada como um drama filosófico em três atos e um epílogo. A sua estrutura formal pode ser expressa da seguinte forma: 1º Ato: A discussão de Górgias: a retórica segundo os sofistas e a refutação de Sócrates. 2º Ato: A discussão com Polo: a natureza da retórica segundo Sócrates, o seu poder de utilidade. 3º Ato: A discussão com Cálicles: a justiça como o triunfo da força ou a justiça como triunfo da razão. Epílogo: A exposição de Sócrates acerca do gênero de vida que devemos adotar. O mito acerca da sentença final. 1º Ato: Iniciando um debate com Górgias, Sócrates induz o seu oponente em contradição, levando-o a dizer que a Retórica, a arte dos discursos políticos que tem como objecto a justiça, pode ser usada de forma errada e, ao mesmo tempo, que todos aqueles que a aprendem são incapazes de cometer qualquer ato injusto. Perante esta contradição, surge Polo, discípulo de Górgias, que defende o seu mestre e a sua Arte, afirmando que esta é a mais bela das artes. Sócrates apresenta, então, a sua Teoria da Adulação. 2º ato: Polo inicia um discurso argumentando que a Retórica dá poder àqueles que a dominam, ao que Sócrates contrapõe com o aparente paradoxo de que os que têm mais poder não são os mais poderosos. Após uma longa discussão, Sócrates obriga Polo a admitir que cometer uma injustiça é mau, e, caso a tenha cometido, o sujeito deve preferir ser castigado a fugir ileso. 3º ato: Cálicles. o anfitrião, toma então a palavra, afirmando que Sócrates está errado e critica sua forma de debater. Afirma que não existem semelhanças entre as Leis da Natureza e as Leis da Convenção. Epílogo: Sócrates leva a discussão a outro ponto, ao perguntar se os mais poderosos só governam os outros ou se também se auto-governam, isto é, se têm autodomínio e temperança. Cálicles ri-se desta ideia de temperante, chamando-lhe, pelo contrário, de imbecil. Este diz então que os mais hábeis são os que têm mais paixões e as satisfazem. Começa assim uma nova discussão: qual a melhor forma de viver: a do Hedonismo ou a da Temperança?



Citações



"Ordem, para a cidade, virilidade; para o corpo, beleza; para a alma, sabedoria; para o ato, excelência; para o discurso, verdade. O contrário destes, desordem. Tanto homem, quanto mulher; tanto discurso, quanto obra; tanto cidade, quanto assunto privado, é preciso, por um lado, com louvor, honrar o digno de louvor; por outro lado, repreender ao indigno. Pois igual erro e ignorância é repreender coisas louváveis e louvar coisas repreensíveis".

- Κόσμος πόλει μὲν εὐανδρία, σώματι δὲ κάλλος, ψυχῇ δὲ σοφία, πράγματι δὲ ἀρετή, λόγῳ δὲ ἀλήθεια· τὰ δὲ ἐναντία τούτων ἀκοσμία. ἄνδρα δὲ καὶ γυναῖκα καὶ λόγον καὶ ἔργον καὶ πόλιν καὶ πρᾶγμα χρὴ τὸ μὲν ἄξιον ἐπαίνου ἐπαίνῳ τιμᾶν, τῷ δὲ ἀναξίῳ μῶμον ἐπιθεῖναι· ἴση γὰρ ἁμαρτία καὶ ἀμαθία μέμφεσθαί τε τὰ ἐπαινετὰ καὶ ἐπαινεῖν τὰ μωμητά.
- GÓRGIAS. Elogio de Helena. Tradução de Daniela Paulinelli. Belo Horizonte: Anágnosis, 2009. [Apresenta as traduções de textos gregos realizadas pelo grupo Anágnosis, da UFMG.] Disponível em: <http://prosacom.blogspot.com/search/?q=G%C3%B3rgias>. Acesso em: 31/01/2010).



Referências




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