quarta-feira, 9 de julho de 2014

Biografia de Anne Frank

Estátua de Anne Frank
em Utrech (imagem: Brbbl).
Anne Frank. (Annelies Marie Frank). Nasceu em Frankfurt am Main, a 12 de Junho de 1929, e, faleceu em Bergen-Belsen, a 31 de Março de 1945. Anne Frank foi uma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto, que morreu aos quinze anos de idade em um campo de concentração. Ela se tornou mundialmente famosa com a publicação póstuma de seu Diário, no qual escrevia as experiências do período em que sua família se escondeu da perseguição aos judeus dos Países Baixos. O conjunto de relatos, que recebeu o nome de Diário de Anne Frank, foi publicado pela primeira vez em 1947 e é considerado um dos livros mais importantes do século XX. Embora tenha nascido na cidade alemã de Frankfurt am Main, Anne passou a maior parte da vida em Amsterdã, nos Países Baixos. Sua família se mudou para lá em 1933, ano da ascensão dos nazistas ao poder. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o território holandês foi ocupado e a política de perseguição do Reich foi estendida à população judaica residente no país. A família de Anne passou a se esconder em Julho de 1942, abrigando-se em cômodos secretos de um edifício comercial. Durante o período no chamado "anexo secreto", Anne escrevia no diário suas intimidades e também o cotidiano das pessoas ao seu redor. E lá permaneceu por dois anos até que, em 1944, um delator desconhecido revelou o esconderijo às autoridades nazistas. O grupo foi, então, levado para campos de concentração. Anne Frank e sua irmã Margot Betti Frank foram transferidas para o campo de Bergen-Belsen, onde morreram de tifo em Março de 1945. Otto Heinrich Frank, pai de Anne e único sobrevivente da família, retornou a Amsterdã depois da guerra e teve acesso ao diário da filha. Seus esforços levaram à publicação do material em 1947. O diário, que foi dado a Anne em seu aniversário de 13 anos, narra sua vida de 12 de Junho de 1942 até 1 de Agosto de 1944. É, atualmente, um dos livros mais traduzidos em todo o mundo.



Infância

Otto Heinrich Frank
(pai de Anne).
Anne Frank nasceu em 12 de Junho de 1929 em Frankfurt am Main, na Alemanha, que, naquele momento, vivia um período político democrático conhecido como República de Weimar. Anne Frank, como ficou conhecida, era a segunda filha do casal Otto Heinrich Frank (1889 - 1980) e Edith Frank-Holländer (1900 - 1945). Margot Betti Frank (1926 - 1945) era a sua irmã, três anos mais velha. Os Frank eram uma família de judeus liberais, que não seguiam todos os costumes e tradições do judaísmo e viviam em uma comunidade de cidadãos judeus e não judeus de várias religiões. Edith Frank era a mais devota da família, enquanto Otto Frank estava interessado em atividades acadêmicas e tinha uma extensa biblioteca. Os pais incentivam as crianças a lerem desde de muito cedo. Em 13 de Março de 1933, foram realizadas eleições para o conselho municipal de Frankfurt e o partido nazista de Adolf Hitler sai vitorioso. Manifestações antissemitas ocorreram quase que imediatamente e a família Frank começou a temer o que aconteceria a eles se permanecessem na Alemanha. Mais tarde, naquele mesmo ano, Edith e as crianças foram para Aquisgrano, onde ficaram com a mãe de Edith, Rosa Holländer e Kézia Lascosck, que também se refugiaria durante a guerra. Otto Frank permaneceu em Frankfurt, mas depois de receber uma oferta para iniciar uma empresa em Amsterdã, mudou-se para lá a fim de organizar o negócio da vida e arranjar muito dinheiro e acomodações para a família. Os Frank estavam entre os cerca de 300.000 judeus que fugiram da Alemanha entre 1933 e 1939. Otto Frank começou a trabalhar na Opekta, uma empresa que vendia um extrato de fruta chamado pectina e encontrou um apartamento na praça Merwede, em Amsterdã. Em Fevereiro de 1934, Edith e as crianças chegaram em Amsterdã e as duas meninas foram matriculadas na escola: Margot em escola pública e Anne em uma escola montessoriana. Margot demonstrava habilidade em aritmética enquanto que Anne mostrava aptidão para a leitura e escrita. Sua amiga Hanneli Goslar depois lembrou que, desde a infância, Anne escrevia frequentemente, embora ela não permitisse aos outros que lessem e se recusasse a discutir o conteúdo da sua escrita. As irmãs Frank tinham personalidades altamente distintas: Margot era bem-educada, reservada e estudiosa, enquanto Anne era franca, enérgica e extrovertida. Em 1938, Otto Frank fundou uma segunda empresa, a Pectacon, que foi uma atacadista de ervas, sais de decapagem e de mistura de especiarias, os quais eram utilizados na produção de salsichas. Hermann van Pels foi empregado da Pectacon como um especialista em temperos. Ele era um açougueiro judeu, que havia fugido de Osnabrück, na Alemanha, com sua família. Em 1939, a mãe de Edith passou a viver com os Franks e permaneceu com eles até sua morte em Janeiro de 1942. Em Maio de 1940, a Alemanha invadiu os Países Baixos e o governo de ocupação começou a perseguir os judeus através da aplicação de leis restritivas e discriminatórias, como o registro obrigatório e posterior segregação. As irmãs Frank iam bem em seus estudos e tinham muitos amigos, mas, com a introdução de um decreto que determinava que crianças judias poderiam se matricular apenas em escolas judaicas, elas tiveram que se matricular no liceu Judaico. Em Abril de 1941, Otto Frank tomou algumas medidas importantes para evitar que sua empresa, a Pectacon, fosse confiscada pelo Governo por ser uma empresa de propriedade judaica. Ele transferiu suas ações da Pectacon para Johannes Kleiman e renunciou ao cargo de diretor. A empresa foi liquidada e todos os ativos transferidos para Gies and Company, comandada por Jan Gies. Em Dezembro de 1941, ocorreu um processo semelhante para salvar a Opekta. Os negócios continuaram, apesar desta pequena mudança, e permitiram a sobrevivência de Otto Frank, que passou a ganhar uma renda mínima, mas suficiente para sustentar sua família.


Período relatado no diário

Antes de ir para o esconderijo
Estátua de Anne Frank na
Casa de Anne Frank, em Amsterdã.
No seu 13º aniversário, em 12 de Junho de 1942, Anne Frank ganhou de presente um livro que ela tinha mostrado a seu pai em uma vitrine alguns dias antes. Embora originalmente fosse um livro de autógrafos, com uma estampa xadrez em vermelho e verde e com um pequeno cadeado na parte da frente, Anne decidiu que iria usá-lo como diário e começou a escrever nele quase que imediatamente. Enquanto muitas de suas observações de início descrevessem os aspectos mundanos de sua vida, ela também descreveu algumas das mudanças que ocorreram nos Países Baixos desde a ocupação alemã. Em sua entrada datada de 20 de Junho de 1942, ela enumerou muitas das restrições que haviam sido colocadas sobre a vida da população judaica neerlandesa e observou, também, o pesar que sentia pela morte de sua avó no início deste mesmo ano. Anne sonhava em ser jornalista. Ela também adorava assistir filmes, mas os judeus neerlandeses foram proibidos de ter acesso às salas de cinema a partir de 8 de Janeiro de 1941. Em Julho de 1942, Margot Frank recebeu uma carta do Jüdische Zentralstelle für Auswanderung (Escritório Central de Emigração Judaica). Era um aviso prévio, ordenando que ela fosse para um dos campos de concentração nazistas. Otto Frank então revelou à família seus planos prévios para que eles fossem se esconder em uma espécie de anexo secreto atrás de sua empresa, na rua Prinsengracht, uma rua junto a um dos canais de Amsterdã, onde alguns de seus empregados mais confiáveis os ajudariam. A carta de Margot os forçou a se mudar algumas semanas mais cedo do que ele tinha previsto.

A vida no anexo secreto

Edifício de apartamentos onde
Anne Frank morou entre 1934/42.
Na manhã do dia 9 de Julho de 1942, uma segunda feira, a família mudou-se para seu esconderijo, um anexo secreto. O apartamento deles foi deixado em um estado de desordem para criar a impressão de que tinham partido repentinamente. Otto Frank também deixou uma nota que insinuava que eles estavam indo para a Suíça. A necessidade de sigilo os forçou a deixar para trás o gato de Anne, Moortje. Como os judeus não estavam autorizados a utilizar os transportes públicos, eles andaram vários quilômetros, cada um deles vestindo várias camadas de roupa, pois não podiam ser vistos carregando bagagem. O Achterhuis (a palavra neerlandesa que denota a parte traseira de uma casa, traduzido como "anexo secreto") era um espaço de três andares, com entrada a partir de um patamar acima dos escritórios da Opekta. Duas salas pequenas, com um banheiro contíguo ficavam no primeiro nível, acima de um maior espaço aberto, com uma pequena sala ao lado. A partir desta sala menor, uma escada levava ao sótão. A porta para o Achterhuis foi, posteriormente, coberta por uma estante de livros para garantir que ele permanecesse oculto. O edifício principal, situado a uma quadra da Westerkerk ("igreja do oeste"), era o tipo de edifício típico dos bairros ocidentais de Amsterdã. Victor Kugler, Johannes Kleiman, Miep Gies e Bep Voskuijl trabalhavam no escritório, e era os únicos que sabiam dos moradores escondidos, juntamente com o marido de Gies, Jan Gies e o pai de Voskuijl, Johannes Hendrik Voskuijl. Eles também foram os "ajudantes" dos moradores do anexo secreto no período de confinamento. Estes eram a única ligação entre o mundo exterior e os ocupantes da casa. Eles os mantinham informados das notícias da guerra e seus desdobramentos políticos, atendiam todas as suas necessidades, garantido a sua segurança, e lhes forneciam alimentos, uma tarefa que ficou mais difícil, quando a guerra foi avançando. Anne Frank escreveu sobre a dedicação e os esforços dos amigos para elevar o moral dentro da casa durante os períodos mais perigoso. Todos estavam cientes de que, se pegos, os ajudantes poderiam ser condenados a pena de morte por abrigar judeus. Em 13 de Julho de 1942, a família van Pels se juntou aos Frank no confinamento: Hermann, Auguste e Peter de 16 anos de idade. E, em seguida, em Novembro, foi a vez de Fritz Pfeffer, um dentista amigo da família, também ir para o abrigo. Anne escreveu de seu prazer em ter novas pessoas para conversar, mas logo tensões se desenvolveram dentro do grupo, que fora forçado a viver em tais condições de confinamento. Depois de dividir o quarto com Pfeffer, ela descobriu que ele era insuportável, e se ofendeu com sua intrusão. Ela também entrou em choque com Auguste van Pels, quem ela considerava uma mulher tola e rabugenta. Ela considerava Hermann van Pels e Fritz Pfeffer egoístas, particularmente no que diz respeito à quantidade de alimentos consumidos. Algum tempo depois, após não ter se dado bem com o tímido e desajeitado Peter, eles começaram a se entender, e até começaram um romance. Seu primeiro beijo foi com Peter, mas sua paixão por ele começou a diminuir quando ela questionou se os seus sentimentos por ele eram genuínos, ou resultado do confinamento compartilhado. Anne Frank criou um vínculo estreito com cada um dos ajudantes e Otto Frank relembrou mais tarde que ela ficava entusiasmada com as visitas. Ele ainda observou que Anne era muito amiga de Bep Voskuijl: “A jovem datilógrafa ... As duas muitas vezes ficavam sussurrando pelos cantos”. No seu texto, Anne Frank examinou seus relacionamentos com os membros de sua família, e as fortes diferenças de personalidades. Ela se considerava a filha mais próxima emocionalmente de seu pai, que depois comentou: “Eu tinha um melhor relacionamento com Anne do que com Margot, que era mais apegada à mãe. A razão para isso pode ter sido o fato de Margot raramente mostrar seus sentimentos e não precisar de tanto apoio porque não sofria as mudanças de humor de Anne”. As irmãs Frank começaram uma relação mais estreita do que tinham antes de se esconderem, embora Anne às vezes expressasse ciúmes em relação a Margot, particularmente quando os moradores do esconderijo criticavam Anne por não ter a natureza gentil e plácida de Margot. Com o amadurecimento, as irmãs foram capazes de confiar mais uma na outra. Em 12 de Janeiro de 1944, Anne escreveu, “Margot está muito melhor... Ela não está tão hostil esses dias e está se tornando uma verdadeira amiga. Ela não me vê mais como um bebê”. Anne também escreveu frequentemente sobre seu difícil relacionamento com a mãe e de sua ambivalência em relação a ela. Em 7 de Novembro de 1942, ela descreveu seu "desprezo" por sua mãe e sua incapacidade de "enfrentá-la com o seu descuido, seu sarcasmo e sua dureza de coração", antes de concluir: “Ela não é uma mãe para mim”. Mais tarde, como ela retrata no diário, Anne sentiu-se envergonhada da sua atitude severa, escrevendo: “Anne, é você mesma falando de ódio? Ah, Anne, como pôde?”. Ela veio a entender que suas diferenças resultaram de mal-entendidos que foram tanto culpa dela como da mãe, e viu que tinha escrito coisas ruins de sua mãe desnecessariamente, que a mãe também sofria com a situação. Com essa percepção, Anne começou a tratar a mãe com um grau de tolerância e respeito. As irmãs Frank queriam voltar para a escola assim que pudessem, e continuaram com os estudos enquanto estavam escondidas. Margot entrou em um curso por correspondência no nome de Bep Voskuijl, e recebeu notas altas. A maior parte do tempo Anne passou lendo e estudando, e ela regularmente escrevia em seu diário, e editava-o. Além de fornecer uma narrativa dos acontecimentos da época, Anne também escreveu sobre seus sentimentos, crenças e ambições, assuntos esses que ela não podia/se sentia segura para discutir com ninguém. Com o crescimento da confiança em sua escrita, e seu próprio amadurecimento, ela começou a escrever sobre assuntos mais abstratos, tais como sua crença em Deus e como ela definia a natureza humana.


Prisão

Na manhã de 4 de Agosto de 1944, o anexo secreto foi invadido pela Polícia de Segurança Alemã (Grüne Polizei) em consequência da denúncia de um informante que jamais foi identificado. Liderados pelo oberscharführer (patente paramilitar) da Schutzstaffel (Tropa de Proteção, abreviada como SS ou ϟϟ, em alfabeto rúnico) Karl Silberbauer do Sicherheitsdienst, o grupo incluiu pelo menos três membros da Polícia de Segurança. Anne Frank, sua família, além dos van Daans e de Pfeffer foram levados para a sede Gestapo, onde foram interrogados e detidos durante a noite. Em 5 de Agosto, foram transferidos para a Huis van Bewaring (Casa de Detenção), uma prisão superlotada na Weteringschans. Dois dias depois, eles foram transportados para Westerbork. Aparentemente um campo de trânsito, por esta altura mais de 100.000 judeus haviam passado por tal lugar. Por serem presos em um esconderijo, eles eram considerados criminosos e foram enviadas para o Quartel de Punição para trabalhos braçais. Victor Kugler e Johannes Kleiman foram presos e encarcerados no campo penal para os inimigos do regime em Amersfoort. Kleiman foi libertado depois de sete semanas, mas Kugler passou por vários campos de trabalho até que a guerra chegasse ao fim. Miep Gies e Bep Voskuijl foram interrogadas e ameaçadas pela Polícia de Segurança, mas não foram detidas. Elas voltaram para o anexo secreto no dia seguinte e encontraram os papéis de Anne espalhados pelo chão. Elas guardaram os relatos de Anne, bem como vários álbuns de fotografia de familiares, e Gies resolveu devolvê-los a Otto depois da guerra. Em 7 de Agosto de 1944, Gies tentou negociar a libertação dos prisioneiros, oferecendo dinheiro a Karl Silberbauer para intervir no caso, mas ele recusou. Como Anne faleceu antes do fim da guerra, os papéis foram entregues a Otto Frank, que decidiu publicá-los como um livro.

Deportação e morte

Sepultura simbólica de Margot e Anne Frank,
vítimas de Bergen-Belsen. (imagem: Arne Liste).
Em 3 de Setembro de 1944, o grupo foi deportado para o que seria o último transporte de Westerbork para o campo de concentração de Auschwitz, e chegou após uma viagem de três dias. No caos que marcou o desembarque dos trens, os homens foram forçosamente separados das mulheres e crianças, e Otto Frank foi arrancado de sua família. Dos 1.019 passageiros, 549, incluindo todas as crianças menores de quinze anos foram enviadas diretamente para a câmara de gás. Anne tinha completado 15 anos 3 meses antes, e foi uma das pessoas mais jovens a ser poupada no seu transporte. Eles ficaram cientes de que a maioria das pessoas eram enviadas para as câmaras de gás na chegada, e nunca se soube se o grupo inteiro do Achterhuis sobreviveu a esta seleção. Anne pensou que o pai dela, em meados de seus cinquenta anos, e particularmente não muito forte, tinha sido morto logo depois que eles foram separados. Com as mulheres não selecionadas para a morte imediata, Anne foi forçada a ficar nua para ser desinfectada; teve sua cabeça raspada e foi tatuada com um número de identificação no braço. De dia, as mulheres eram usadas em trabalhos escravos, e Anne foi obrigada a transportar rochas e rolos de cavar; à noite, eram amontoadas em quartos superlotados. Algumas testemunhas, mais tarde, declaram que Anne tornou-se uma garota acanhada e chorava quando via as crianças sendo levadas para as câmaras de gás; outros relataram que por muitas vezes ela demonstrou força e coragem, e que sua natureza sociável e confiante que lhe permitiram obter excedentes de pão e rações para a sua mãe, irmã e si mesma. Em pouco tempo a pele de Anne ficou infectada pela sarna, uma doença endêmica. As irmãs Frank foram transferidas para uma enfermaria que estava em um estado de escuridão constante, e infestada de ratos e camundongos. Edith Frank parou de comer, salvando cada pedaço de comida para suas filhas e passando a comida para elas, através de um buraco que fez na parte inferior da parede da enfermaria. Em 28 de Outubro, A SS começou a transferir as mulheres para Bergen-Belsen. Mais de 8.000 mulheres, incluindo Anne e Margot Frank e Auguste van Pels, foram transportadas, mas Edith Frank foi deixada para trás e depois morreu de inanição. Tendas foram erguidas em Bergen-Belsen, para acomodar o fluxo de presos, e como a população aumentou, o número de mortes devido à doença também aumentou rapidamente. Anne encontrava-se brevemente com duas amigas, Hanneli Goslar e Nanette Blitz, que foram confinadas em uma outra seção do acampamento. Goslar e Blitz sobreviveram à guerra e depois descreveram breves conversas que tinham realizado com Anne através de uma cerca. Nanette descreveu que ela estava careca, magra, e tinha calafrios e Hanneli tinha observado que Auguste van Pels foi com Anne Frank cuidar da irmã desta, Margot Frank, que estava gravemente doente. Nenhum deles viu Margot, pois estava fraca demais para sair de seu beliche. Anne disse a Hanneli e Nanette que acreditava que seu pais foram mortos, e por isso não queria mais viver. Hanneli mais tarde descreveu que seus encontros acabaram no final de Janeiro ou início de Fevereiro de 1945. Em Março de 1945, uma epidemia de tifo se espalhou pelo acampamento e matou cerca de 17.000 prisioneiros. Testemunhas disseram que Margot caiu de sua cama em seu estado debilitado e foi morta pelo choque, e alguns dias depois, Anne morreu também. Eles afirmam que isso ocorreu poucas semanas antes do campo ser libertado por tropas britânicas em 15 de Abril de 1945, embora as datas exatas não foram registradas. Depois da libertação, o acampamento foi queimado em um esforço para impedir a propagação da doença, e Anne e Margot foram enterradas em uma vala comum. O paradeiro exato é desconhecido. Após a guerra, foi estimado que, dos 108.000 judeus deportados da Holanda entre 1942 e 1944, apenas 5.000 sobreviveram. Também foi estimado que 30.000 judeus permaneciam na Holanda, com muitas pessoas auxiliado pelo movimento secreto de resistência holandês. Aproximadamente dois terços deste grupo de pessoas sobreviveram à guerra. Otto Frank sobreviveu ao confinamento em Auschwitz. Após o término da guerra, ele voltou para Amsterdã, onde foi auxiliado por Jan e Miep Gies a tentar localizar sua família. Ele soube da morte de sua esposa, Edith, em Auschwitz, mas ele manteve-se esperançoso de que suas filhas teriam sobrevivido. Depois de várias semanas, ele descobriu que Margot e Anne também haviam morrido. Ele tentou determinar o destino das filhas de seus amigos e descobriu que muitas tinham sido assassinadas. Susanne Ledermann, frequentemente mencionada no diário de Anne, foi enviada para uma câmara de gás, juntamente com seus pais, apesar de sua irmã, Barbara, uma grande amiga de Margot, ter sobrevivido. Vários colegas de escola de Anne haviam sobrevivido, assim como alguns membros da família de Otto e Edith Frank, que haviam fugido da Alemanha em meados dos anos 1930, estabelecendo-se na Suíça, Reino Unido e Estados Unidos.


O Diário de Anne Frank

Publicação
Em Julho de 1945, depois da Cruz Vermelha confirmar as mortes das irmãs Frank, Miep Gies deu a Otto Frank o diário, junto com um maço de notas soltas que ela tinha guardado na esperança de devolvê-los a Anne. Otto Frank comentou mais tarde que ele não tinha percebido que Anne tinha mantido como precisos e bem escritos gravar uma parte do seu tempo na clandestinidade. Em sua autobiografia, ele descreveu o processo doloroso de ler o diário, que reconhece os acontecimentos descritos e lembrando que ele já tinha ouvido alguns dos episódios mais divertidos lidos em voz alta por sua filha. Ele também notou que ele viu pela primeira vez o lado mais privado de sua filha, e as seções do diário que ela não tinha discutido com ninguém, notando: “Para mim foi uma revelação ... Eu não tinha idéia da profundidade de seus pensamentos e sentimentos ... Ela tinha guardado todos esses sentimentos para si mesma”. Movido por seu desejo reiterado de ser um autor, ele começou a ponderar o que seria publicado. O diário de Anne Frank começou como uma expressão particular de seus pensamentos, e ela escreveu várias vezes que ela nunca iria permitir que ninguém o lesse. Ela descreveu sua vida com franqueza, sua família e companheiros, e sua situação, enquanto começava a reconhecer a sua ambição de escrever ficção para publicação. Em Março de 1944, ela ouviu uma transmissão de rádio por Gerrit Bolkestein, membro do Governo holandês no exílio, que disse que quando a guerra terminasse, ele criaria um registro público de pessoas holandesas sob opressão da ocupação alemã. Ele mencionou a publicação de cartas e diários, e Frank decidiu apresentar o seu trabalho quando chegasse a hora. Ela começou a editar sua escrita, removendo as seções e reescrevendo outras, com vista à publicação. Seu diário original foi completado por cadernos de folha suplementar e folhas soltas de papel. Ela criou pseudônimos para os membros do agregado familiar e os ajudantes. A família van Pels Hermann tornou-se Petronella e Peter van Daan, e Fritz Pfeffer virou Albert Dussell. Nesta versão editada, ela dirigia cada entrada à "Kitty", um personagem fictício da novela “Joop ter Heul” de Cissy van Marxveldt, que Anne gostava tanto de ler. Otto Frank usou seu diário original, conhecido como "uma versão", e uma editada, conhecida como "versão B", para produzir a primeira versão para publicação. Ele removeu certas passagens, principalmente aquelas em que Frank critica seus pais (principalmente a mãe), e as seções que discutiam a sua crescente sexualidade. Apesar de ter restaurado a verdadeira identidade de sua própria família, ele manteve todos os outros pseudônimos. Otto Frank deu o diário para a historiadora Annie Romein-Verschoor, que tentou, sem sucesso, a sua publicação. Ela então deu a seu marido Jan Romein, que escreveu um artigo sobre ele, intitulado “Kinderstem” (Child's Voice A), publicado no jornal Het Parool em 3 de Abril de 1946. Ele escreveu que o diário “gaguejou na criança uma voz, personifica toda a hediondez do fascismo, muito mais do que todas as provas em Nuremberg juntas”. Seu artigo atraiu a atenção de editores, então o diário foi publicado na Holanda, como Het Achterhuis em 1947, seguido por uma segunda edição ocorrida em 1950. Foi publicado pela primeira vez na Alemanha e na França em 1950, e após ser rejeitado por várias editoras, foi publicado pela primeira vez no Reino Unido em 1952. O primeira edição americana foi publicada em 1952 sob o título de Anne Frank: O Diário de uma Menina Jovem, e foi positivamente recebida. Foi bem sucedida na França, Alemanha e Estados Unidos, mas no Reino Unido, não conseguiu atrair um público e em 1953 estava fora de catálogo. Seu sucesso mais notável foi no Japão, onde recebeu elogios da crítica e vendeu mais de 100.000 cópias em sua primeira edição. No Japão, Anne Frank tornou-se rapidamente identificada como uma importante figura cultural que representou a destruição da juventude durante a guerra. Uma peça de teatro baseada no diário, por Frances Goodrich e Albert Hackett, estreou em Nova York em 5 de Outubro de 1955 e, posteriormente, ganhou um Prêmio Pulitzer de Drama. Ele foi seguido pelo filme de 1959 The Diary of Anne Frank, que foi um sucesso crítico e comercial. A biógrafa, Melissa Müller, escreveu mais tarde que a dramatização teria “contribuído grandemente para romantizar, sentimentalizar e universalizar a história de Anne”. Ao longo dos anos a popularidade do diário cresceu, e em muitas escolas, principalmente nos Estados Unidos, foi incluído como parte do currículo, a introdução de Anne Frank às novas gerações de leitores. Em 1986, o Instituto Estadual de Documentação de Guerra da Holanda publicou a “Edição Crítica”, do diário. Ele inclui comparações de todas as versões conhecidas, ambos editados e inéditos. Ele também inclui a discussão afirmando a sua autenticação, bem como informações adicionais históricos relacionados com a família e o seu próprio diário. Cornelis Suijk, ex-diretor da Fundação Anne Frank e presidente do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, anunciou em 1999 que estava na posse de cinco páginas que tinham sido removidas por Otto Frank, do diário antes da publicação; Suijk alegou que Otto Frank deu essas páginas para ele pouco antes de sua morte em 1980. O diário de entradas ausentes continha observações críticas por Anne Frank sobre o casamento tenso de seus pais, e discute a falta de Frank de afeição por sua mãe. Algumas controvérsias seguiram quando Suijk reivindicou os direitos de publicação ao longo de cinco páginas e destina-se a vendê-las para arrecadar dinheiro para a sua Fundação. O Instituto Holandês para a Documentação de Guerra, o proprietário formal do manuscrito, exigiu que as páginas fossem entregues. Em 2000, o Ministério Holandês de Educação, Cultura e Ciência concordou em doar 300 mil dólares para a Fundação Suijk, e as páginas foram devolvidas em 2001. Desde então, elas foram incluídas nas novas edições do diário.


Recepção
O diário tem sido elogiado por seus méritos literários. Comentando sobre o estilo de escrita de Anne Frank, o dramaturgo Meyer Levin elogiou Frank por “manter a tensão de um romance bem construído”, e ficou tão impressionado com a qualidade do seu trabalho que ele colaborou com a Otto Frank em uma dramatização do Diário logo após a sua publicação. Meyer ficou obcecado com Anne Frank, que ele escreveu em sua autobiografia sobre a obsessão. O poeta John Berryman escreveu que era uma representação única, não apenas da adolescência, mas de “conversão de uma criança em uma adulta, como ela está acontecendo de forma precisa, econômica, estilo confiante impressionante em sua honestidade”. Em sua introdução para a primeira edição do diário americano, Eleanor Roosevelt descreveu-o como “um dos mais comoventes e mais sábios comentários sobre a guerra e seu impacto sobre os seres humanos que eu já li”. John F. Kennedy discutindo Anne Frank em um discurso de 1961, e disse: “De todas as multidões que ao longo da história têm falado da dignidade humana em tempos de grande sofrimento e perda, nenhuma voz é mais atraente do que a de Anne Frank”. No mesmo ano, o escritor soviético Ilya Ehrenburg escreveu sobre ela: “Uma voz fala por seis milhões de vozes, não a voz de um sábio ou um poeta, mas a de uma simples garotinha”.


Citações
  • Os outros só nos podem dar conselhos ou indicar-nos o caminho a seguir, mas a formação definitiva do carácter está nas próprias mãos de cada indivíduo”.
- O Diario de Anne Frank, Anne Frank - Castrovilli Giuseppe, 1954.
  • Do fundo do coração, sei que nunca mais terei minha inocência outra vez”.
- Anne Frank, jovem judia morta aos 15 anos num campo de concentração nazista, em um dos relatos escritos em seu diário sobre os horrores presenciados durante o holocausto; como citado em Revista Veja, 2000 Especial

Referências

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