domingo, 20 de julho de 2014

Biografia de Albert Camus


Albert Camus em 1957. (imagem: Robert Edwards).
Albert Camus. Nasceu em Mondovi, a 7 de Novembro de 1913, e, faleceu em Villeblevin, a 4 de Janeiro de 1960. Albert Camus foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra. Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor. Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 "por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos".

Biografia

Albert Camus nasceu na costa da Argélia numa localidade chamada Mondovi (hoje denominada Dréan) durante a ocupação francesa numa família pied-noir” *. Seu pai, Lucien Auguste Camus (1885-1914), era francês nascido na Argélia e sua mãe, Catherine Hélène Sintès (1882-1960), também nascida na Argélia era de origem minorquina. Camus conhece cedo o gosto amargo da morte, seu pai morreu em 1914, na batalha do Marne durante Primeira Guerra Mundial. Sua mãe então foi obrigada a mudar-se para Argel, para a casa de sua avó materna, no famoso bairro operário de Belcourt onde, anos mais tarde, durante a guerra de descolonização da Argélia houve um massacre de muçulmanos.
Símbolo usado pelas associações
pós-independência.
* Pied-Noir (pronúncia francesa: [pjenwaʁ], Pé-Negro), plural Pieds-Noirs, é um termo usado para fazer referência aos cidadãos franceses, e outros de ascendência européia, que viveram na África francesa do Norte, nomeadamente a Argélia francesa, o Protetorado Francês do Marrocos ou o Protetorado Francês da Tunísia, por várias gerações, até ao fim da governação francesa no norte Africa entre 1956 e 1962. Em particular, o termo Pieds-Noirs é utilizado para aqueles cidadãos descendentes de europeus que "regressaram" a França assim que a Argélia se tornou independente, ou nos meses seguintes.
O período de sua infância, apesar de extremamente pobre é marcada por uma felicidade ligada à natureza, que ele volta a narrar em O Avesso e o Direito, mas também em toda a sua obra. Na casa, moravam além do próprio Camus, seu irmão que era um pouco mais velho, sua mãe, sua avó e um tio um pouco surdo, que era tanoeiro, profissão que Camus teria seguido se não fosse pelo apoio de um professor da escola primária Louis Germain, que viu naquele pequeno pied-noir um futuro promissor. A princípio, sua família não via com bons olhos o fato de Albert Camus seguir para a escola secundária, sendo pobre, e o próprio Camus diz que tomar essa decisão foi difícil para ele, pois sabia que a família precisava da renda do seu trabalho e, portanto, ele deveria ter uma profissão que logo trouxesse frutos - como a profissão do seu tio. No fundo, Camus também gostava do ambiente da oficina onde o tio trabalhava. Há um conto escrito por ele que tem como cenário a oficina, e no qual a camaradagem entre os trabalhadores é exaltada. Sua mãe trabalhava lavando roupa para fora, a fim de ajudar no sustento da casa. Durante o segundo grau, ele quase abandonou os estudos devido aos problemas financeiros da família. Foi neste ponto que um outro professor foi fundamental para que o ganhador do prêmio Nobel de 1957 seguisse estudando e se graduasse em filosofia: Jean Grenier. Tanto Grenier quanto o velho mestre Guerin serão lembrados, posteriormente, pelo escritor. O Homem Revoltado (1951) é dedicado a Grenier, e Discursos da Suécia (que inclui o discurso pronunciado por Camus, ao receber o Nobel), a Germain. Sua dissertação de mestrado foi sobre neoplatonismo e sua tese de doutoramento, assim como a de Hannah Arendt, foi sobre Santo Agostinho (Agostinho de Hipona). Mas, neste momento, o absurdo da existência se manifestou mais uma vez na vida de Camus. Após completar o doutoramento e estar apto a lecionar, sua saúde lhe impediu de se tornar um professor. Uma forte crise de tuberculose se abateu sobre ele nesta época. Ele era tuberculoso havia já algum tempo. Esta doença lhe deu a real dimensão da possibilidade cotidiana de morrer, o que é fundamental no desenvolvimento de sua obra filosófica/literária. A tuberculose também o impediu de continuar a praticar um esporte que tanto amava
Albert Camus, em 1957.
e lhe ensinou tanto: Camus era o goleiro da seleção universitária. Conta-se que era um bom goleiro. E seu amor para com o futebol seguiu-o durante toda a vida. E uma das coisas que mais o impressionou quando da sua visita ao Brasil em 1949 foi o amor do brasileiro pelo futebol. Dizem que uma das primeiras coisas que Albert Camus fez ao pisar no Brasil foi pedir para que o levassem para assistir a uma partida de futebol. Um pedido bastante incomum para um palestrante. Em 1938, Camus ajudou a fundar o jornal Alger Républicain e durante a Segunda Guerra Mundial até 1947, colaborava com o jornal Combat, além de ter colaborado no jornal Paris-Soir. Entre os dias 5 e 7 de Agosto de 1949, em visita ao Brasil, Camus foi até Iguape conhecer a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape, acompanhado de Oswald de Andrade, Paul Silvestre, um adido cultural francês, e Rudá de Andrade, filho de Oswald, além do motorista. O grupo ficou hospedado em um quarto do hospital "Feliz Lembrança", haja vista, todos os hotéis estarem lotados. Dessa visita surgiu o conto - um tanto irônico - intitulado "La Pierre qui Pousse" (A Pedra que Brota), em seu livro "O Exílio e o Reino", sobre um engenheiro francês d'Arrast em passagem por Iguape. A santa imagem, após ser encontrada na praia do Una, na Jureia, em 1647, foi levada à principal fonte do município, onde deveria ser lavada para remoção da areia e do sal. No local onde está a pedra que cresce foi construída uma pequena capela abobadada, popularmente chamada de Gruta do Senhor. Os romeiros, acreditando nos poderes milagrosos da pedra sobre a qual havia sido colocada a imagem para ser lavada, começaram a retirar-lhe lascas. Após séculos tendo lascas removidas, porém, a pedra continuava com o mesmo tamanho, dando origem à lenda da pedra que cresce. Sob estas diretrizes, não é sem sentido que sua obra (filosófica e literária) tenha o absurdo como estandarte. Grosso modo, seus livros testemunham as angústias de seu tempo e os dilemas e conflitos já observados por escritores que o precederam, tal como Franz Kafka, Dostoiévski. Esta proximidade entre Camus e estes dois autores evidencia uma cadeia que se estende até os dias atuais, indica a fonte de um movimento heterogêneo - abrange arte, teatro, literatura, filosofia -, que por conveniência poderemos identificar como a estética do absurdo. Alguns ilustres filiados a este movimento cujo foco é o absurdo são eles: Samuel Beckett e Eugène Ionesco. Mudou-se para a França em 1939, pouco antes da invasão alemã.


Monumento ao escritor e filósofo francês Albert Camus (1913-1960), erigido na pequena cidade de Villeblevin, França, onde ele morreu  em um acidente de carro em 4 de Janeiro de 1960. Data da foto: 17 de Agosto de 2003.


Mudou-se principalmente devido à polêmicas com as autoridades francesas na Argélia. Ele havia publicado uma série de ensaios sobre o tratamento que os árabes recebiam por parte dos franceses na Argélia, pois os árabes não eram considerados cidadãos franceses e portanto eram subjugados a um governo no qual nem ao menos podiam votar. Crianças árabes morriam de fome, não tinham atendimento médico. Camus nessa época também fazia parte do Partido Comunista, do qual se desvinculou pouco tempo depois. Sua esposa e filhos permaneceram na Argélia e devido à guerra nem Camus pôde voltar à Argélia, nem sua esposa e filhos puderam vir para a França. Ele ficou em Paris durante o começo da ocupação nazista, trabalhando em um jornal. Devido a censura e a vigilância constante dos nazistas a maior parte dos jornalistas franceses muda-se para a região da França de Vichy. Começa a participar do Núcleo de Resistência à ocupação chamada Combat, tornando-se um dos editores do jornal de mesmo nome. Seu primeiro livro "O Avesso e o Direito" assim como "Bodas em Tipasa" foram publicados quando ele ainda residia na Argélia. Mas durante o tempo da ocupação além de trabalhar em jornais e editar o jornal clandestino Camus se dedicou a outra de suas paixões, o Teatro. Ele já havia participado de um grupo de teatro ligado ao partido comunista quando ainda morava na Argélia, e ao sair do partido comunista montado um outro grupo que apresentava peças clássicas de teatro aos trabalhadores. Conhece Jean-Paul Sartre em 1942 e tornam-se bons amigos no tempo de pós-guerra. Conheceram-se devido ao livro "O Estrangeiro" sobre o qual Sartre escreveu elogiosamente, dizendo que o autor seria uma pessoa que ele gostaria de conhecer. Um dia em uma festa em que os dois estavam, Camus se apresentou ao Sartre, dizendo-se o autor do livro. A amizade durou até 1952, quando a publicação de "O Homem Revoltado" provocou um desentendimento público entre Sartre e Camus.

Morte

Túmulos de Albert Camus e sua esposa Francine. (imagem: Véronique PAGNIER).
Camus morreu em Janeiro de 1960, vítima de um acidente de automóvel. Em sua maleta estava contido o manuscrito de O Primeiro Homem, um romance autobiográfico. Por uma ironia do destino, nas notas ao texto, ele escreve que aquele romance deveria ficar inacabado. Sua mãe, Catherine Sintès, morre em Setembro do mesmo ano. Camus não pretendia ter feito a viagem a Paris de carro, com seu editor Michel Gallimard, a mulher deste, Janine, e a filha deles, Anne. Pretendia ir de trem, com o poeta René Char. Já haviam até comprado as passagens. Mas, por insistência de Michel, ele aceitou a carona. Char também foi convidado, mas não quis lotar o carro. No acidente, o Facel Vega (marca de automóvel) de Michel se espatifou contra uma árvore. Apenas Camus morreu na hora. Michel morreu no hospital, cinco dias depois. O relógio do painel do carro parou no instante do acidente: 13h55min. Cinquenta anos depois, revelações do escritor e tradutor checo Jan Zabrana, contidas em seu diário publicado postumamente, sugerem a possibilidade de que Camus tenha sido, de fato, assassinado, por ordem do Ministro das Relações Exteriores da URSS, Dmitri Shepilov, em retaliação à oposição aberta que o escritor vinha fazendo a Moscou - particularmente no artigo publicado na revista Franc-Tireur de Março de 1957, em que atacava pessoalmente o ministro, responsabilizando-o pelo que chamou de massacre, durante a repressão soviética à Revolução Húngara. Albert Camus encontra-se sepultado no cemitério de Lourmarin, Provença-Alpes-Costa Azul, na França.

O Mito de Sísifo (obra)

Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549.
O mito de Sísifo é um ensaio filosófico escrito por Albert Camus, em 1941. No ensaio, Camus introduz sua filosofia do absurdo: o do homem em busca de sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo ininteligível desprovido de Deus e eternidade. Será que a realização do absurdo exige o suicídio? Camus responde: "Não. Exige revolta". Ele então descreve várias abordagens do absurdo na vida. O último capítulo compara o absurdo da vida do homem com a situação de Sísifo, uma personagem da mitologia grega, condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, sendo que, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido.

Sumário
O ensaio é dedicado à Pascal Pia e está organizado em quatro capítulos e um apêndice.

Capítulo 1: Um absurdo raciocínio
Camus compromete-se a responder o que ele considera ser a única causa da filosofia em questão: Será que a realização da plenitude e absurdo da vida exigem suicídio? Ele começa por descrever a condição absurda: grande parte da nossa vida é construída sobre a esperança do amanhã, do amanhã que nos aproxima da morte, e é o último inimigo; pessoas vivem como se elas não tivessem a certeza da morte; uma vez despojado do romancismo comum, o mundo é um estranho e desumano lugar; o verdadeiro conhecimento é impossível de ser explicado pela racionalidade da ciência em favor do mundo: suas histórias, em última análise, no sentido de abstrações, se dão em metáforas. "Desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna a mais angustiante de todas as paixões". Não é o mundo que é absurdo, nem o pensamento humano: o absurdo surge quando os humanos precisam entender a satisfação para irracionalidade do mundo, quando "o meu apetite para o absoluto e da unidade" complementa "a impossibilidade de reduzir o mundo a um princípio racional e razoável". Ele então caracteriza um certo número de filósofos que descrevem a tentativa de lidar com esse sentimento do absurdo, como Martin Heidegger, Karl Jaspers, Lev Shestov, Søren Kierkegaard e Edmund Husserl. Todos estes, ele alega, cometem "suicídio filosófico", atingindo conclusões que contradizem a posição original do absurdo, quer por motivo do abandono ou da transformação de Deus, como no caso de Kierkegaard e Shestov, ou por motivos divinais, e finalmente chegando a onipresença e uma exclusividade divinal, como no caso de Husserl. Para Camus, que começou a levar a sério o absurdo e segui-lo à suas conclusões finais, estes "ímpetos", não podem convencer. Tomar o absurdo sério, significa reconhecer a contradição entre o desejo da razão humana e do mundo insensato. Suicídio, então, também deve ser rejeitado: sem o homem, o absurdo não pode existir. A contradição deve ser vivida; a razão e seus limites devem ser reconhecidos, sem esperança. No entanto, o absurdo nunca pode ser aceito: ele exige constante confronto, constante revolta. Embora a questão da liberdade humana no sentido metafísico perca interesse para o homem absurdo, ele ganha liberdade num sentido muito concreto: já não é vinculado pela esperança de um futuro melhor ou eternidade, sem a necessidade de prosseguir o objetivo da vida ou para criar significado, "Ele goza de uma liberdade no que se refere às regras comuns". Abraçar o absurdo implica abraçar tudo de insensato que o mundo tem a oferecer. Sem um sentido na vida, não existe uma escala de valores. "O que conta não é a melhor vida, mas a maioria dos que a vivem". Assim, Camus chega a três consequências da plena aceitação do absurdo: revolta, a liberdade, e paixão. A revolta, no que tange à constatação de que a vida é absurda, sem sentido; a liberdade, haja vista a nossa condição humana (estamos sós e escolhemos) e; a paixão, já que não se vive a vida de outro modo. 

Capítulo 2: O absurdo do Homem

Como deve viver o homem absurdo? Claramente, não se aplicam regras éticas, como todas elas são baseadas em poderes sobre justificação. "Integridade não tem necessidade de regras." "Tudo é permitido" não é uma explosão de alívio ou de alegria, mas sim, um amargo reconhecimento de um fato". Camus, em seguida, passa a apresentar exemplos da vida absurda. Ele começa com o Don Juan, o sedutor que vive a vida apaixonado ao máximo. "Não há um nobre amor, mas o que reconhece - tanto os efêmeros quanto os duradouros". O próximo exemplo é o ator, que retrata a vida efêmera da fama efémera. "Ele demonstra em que medida o ser interpretado cria". "Nestas três horas ele percorre todo o decorrer do beco sem saída, o que homem da platéia leva uma vida para cobrir". O terceiro exemplo do absurdo é o homem conquistador, o guerreiro que com todas as promessas de eternidade, afeta o envolver pleno da história humana. Ele escolhe a ação sobre a contemplação, consciente do fato de que nada pode durar e não é vitória final.

Capítulo 3: Criação do absurdo

Aqui Camus explora o absurdo criador ou do artista. Desde a explicação é impossível, o absurdo da arte é restrita a uma descrição das inúmeras experiências no mundo. "Se o mundo fosse claro, a arte não existiria". A absurda criação, naturalmente, tem também de abster-se de julgar e de aludir ao mesmo tempo a menor sombra de esperança. Ele então analisa o trabalho de Fiódor Dostoiévski nesta perspectiva, especialmente O Diário de um Escritor , O Idiota e Os Irmãos Karamazov. Todas essas obras começam a partir da posição absurda, e os dois primeiros, a explorar o tema do suicídio filosófico. Mas tanto em O Diário de um Escritor, seu último romance, como em Os Irmãos Karamazov, encontram-se um caminho de esperança e fé e, portanto, não como criações verdadeiramente absurdas.

Capítulo 4: O Mito de Sísifo

No último capítulo, Camus esboça o mito de Sísifo, que desafiou os deuses; quando capturado sofreu uma punição: para toda eternidade, ele teria de empurrar uma pedra de uma montanha até o topo; a pedra então rolaria para baixo e ele novamente teria que começar tudo. Camus vê em Sísifo o ser que vive a vida ao máximo, odeia a morte e é condenado a uma tarefa sem sentido, como o herói absurdo. Não obstante reconheça a falta de sentido, Sísifo continua executando sua tarefa diária. Camus apresenta o mito para trabalhar uma metáfora sobre a vida moderna, como trabalhadores em empregos fúteis em fábricas e escritórios. "O operário de hoje trabalha todos os dias em sua vida, faz as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico quando apenas em raros momentos ele se torna consciente".



O Estrangeiro (obra)
 
L'Étranger (em português O Estrangeiro) é o mais famoso romance do escritor Albert Camus. A obra foi lançada em 1942, tendo sido traduzida em mais de quarenta línguas e recebido uma adaptação cinematográfica realizada por Luchino Visconti em 1967. Faz parte do "ciclo do absurdo" de Camus, trilogia composta de um romance (L'Étranger), um ensaio (Le mythe de Sisyphe - O mito de Sísifo) e de uma peça de teatro (Calígula) que descrevem o aspecto fundamental de sua filosofia: o absurdo. O romance foi traduzido em quarenta línguas e uma adaptação cinematográfica foi realizada por Luchino Visconti em 1967. Recebeu o prêmio Nobel de Literatura. “Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: "Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos." Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem”. - Parágrafo inicial. O romance conta a história de um narrador personagem, Meursault, um homem vivente que então comete um assassinato e é julgado por esse ato. A ação desenrola-se na Argélia na época em que ainda era colônia francesa, país onde Camus viveu grande parte da sua vida. A narrativa começa com o recebimento de um telegrama por Mersault, o protagonista, comunicando o falecimento de sua mãe, que seria enterrada no dia seguinte. Ele viaja então ao asilo onde ela morava e comparece à cerimônia fúnebre, sem, no entanto, expressar quaisquer emoções, não sendo praticamente afetado pelo acontecimento. O romance prossegue, documentando os acontecimentos seguintes na vida de Meursault que forma uma amizade com um dos seus vizinhos, Raymond Sintès, um conhecido proxeneta. Ele ajuda Raymond a livrar-se de uma de suas amantes árabes. Mais tarde, os dois se confrontam com o irmão da mulher ("o árabe") em uma praia e Raymond sai ferido depois de uma briga com facas. Depois disso, Meursault volta à praia e, em um delírio induzido pelo calor e pela luz forte do sol, atira uma vez no árabe causando sua morte e depois dá mais quatro tiros no corpo já morto. Durante o julgamento a acusação concentra-se no fato de Meursault não conseguir ou não ter vontade de chorar no funeral da sua mãe. O homicídio do árabe é aparentemente menos importante do que o fato de Meursault ser ou não capaz de sentir remorsos; o argumento é que, se Meursault é incapaz de sentir remorsos, deve ser considerado um misantropo perigoso e consequentemente executado para prevenir que repita os seus crimes, tornando-o também num exemplo. Quando o romance chega ao final, Meursault encontra o capelão da prisão e fica irritado com sua insistência para que ele se volte a Deus. A história chega ao fim com Meursault reconhecendo a indiferença do universo em relação à humanidade. As linhas finais ecoam essa ideia que ele agora toma como verdadeira: “Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos espectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio”.

Contexto da história e filosofia
Albert Camus, como Meursault, era um pied-noir (literalmente pé negro); um francês que vivia no Magreb, o crescente setentrional da África às margens do Mar Mediterrâneo, a região que abrigava as colônias francesas. Isso explica parcialmente a reação da corte, mais preocupada com a atitude de Meursault no enterro de sua mãe, do que com o próprio crime cometido, o assassinato de um árabe. O Estrangeiro é normalmente classificado como um romance existencial. Como, no entanto, Camus rejeitou essa classificação, é mais correto afirmar que o romance se insere na teoria do absurdo de Camus, assim como os outros livros da "trilogia do absurdo". Muitos leitores acreditam que Meursault vive pelas ideias dos existencialistas, principalmente após sua tomada de consciência final. No entanto, na primeira metade do romance, Meursault é claramente um indivíduo inconsequente e destituído de objetivo. Ele é movido somente pelas experiências sensoriais (o cortejo fúnebre, nadar na praia, o sexo com Marie, etc.). Apesar de rejeitar o rótulo de existencialista, Camus foi influenciado, ao escrever o romance, pelas ideias de Jean-Paul Sartre e Martin Heidegger. Camus e Sartre em particular haviam se envolvido na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e foram amigos até que diferenças em posições políticas os levaram ao rompimento. No limite, Camus apresenta o mundo como essencialmente sem sentido e assim, a única forma de chegar a um significado ou propósito é criar um por si mesmo. Assim, é o indivíduo e não o ato que dá significação a um dado contexto. Camus também lida com essa questão, assim como as questões de relacionamento humano e o suicídio em outras obras de ficção como La Mort Heureuse (1971 - em português: A Morte Feliz) e La Peste (1947 - em português: A Peste), assim como em algumas obras de não-ficção como L'Homme Révolté (1951 - em português: O homem Revoltado) e Le Mythe de Sisyphe (1942 - em português: O Mito de Sísifo).

Influências na cultura
No cinema, o romance inspirou o filme Lo Straniero (1967), dirigido por Luchino Visconti e Yazgi (2001), dirigido por Zeki Demirkubuz. Ele também inspirou o filme dos Irmãos Coen, The Man Who Wasn't There”. Na música popular, inspirou a canção do The Cure, “Killing an Arab”. Também influenciou a canção “A Revolta dos Dândis I”, do disco A Revolta dos Dândis, da banda Engenheiros do Hawaii. Há rumores, não confirmados por seus autores, de que tenha inspirado também a canção Bohemian Rhapsody” do Queen. Inspirou o nome da banda Mersault e a Máquina de Escrever, bem como a temática de algumas de suas canções.

A Peste (obra)

A Peste (La Peste) é considerada a Magnum opus de Albert Camus, publicado 1947, que conta a história de trabalhadores que descobrem a solidariedade em meio a uma peste que assola a cidade de Oran na Argelia. Questiona diversos assuntos relacionados a natureza do destino e da condição humana. Os personagens do livro ajudam a mostrar os efeitos que o flagelo causa na sociedade. Neste clássico do escritor existencialista, uma cidade argelina tomada pela peste bubônica serve como metáfora dos horrores da Segunda Guerra Mundial.

Citações

"Charme é um jeito de ouvir a resposta 'sim' sem ter feito nenhuma pergunta clara".

- Le charme: une manière de s'entendre répondre "oui" sans avoir posé aucune question claire.
- Theatre,recits,nouvelles: pref par jean grenier. Textes etablis et annotes par roger quilliot, Albert Camus - Gallimard, 1962 - 2090 páginas
  • "Não quero ser um gênio... Já tenho problemas suficientes ao tentar ser um homem”.

- I don't even want to be a genius at all, finding it quite difficult enough to be a man.
- Carnets, 1935-1942‎ - Volume 2, Página 88, Albert Camus - H. Hamilton, 1963 - 153 páginas
  • "O homem tem duas faces: não pode amar ninguém, se não se amar a si próprio".

- L'homme est ainsi, cher monsieur, il a deux faces: il ne peut pas aimer sans s'aimer.
- La chute‎ - Página 37, Albert Camus - Prentice-Hall, 1965 - 160 páginas
  • "O heroísmo de pouco vale, a felicidade é mais difícil".

- l'héroïsme est peu de chose, le bonheur plus difficile.
- Lettres à un ami allemand‎ - Página 76, Albert Camus - Gallimard, 1946 - 68 páginas
  • "A política e os destinos da humanidade são forjados por homens sem ideais nem grandeza. Aqueles que têm grandeza interior não se encaminham para a política".

- La politique et le sort des hommes sont formés par des hommes sans idéal et sans grandeur. Ceux qui ont une grandeur en eux ne font pas de politique.
- Carnets, Volume 1‎ - Página 99, Albert Camus - Gallimard, 1962 - 252 páginas
  • "O que é a felicidade além da simples harmonia entre o homem e a vida que ele leva?"

- citado em "Frases Geniais" - Página 14, de PAULO BUCHSBAUM - Editora Ediouro Publicações.

O Mito de Sísifo (1942)


CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. São Paulo: Record, 2004
  • "Começar a pensar é começar a ser atormentado." (p. 18)
  • "Morrer por vontade própria supõe que se reconheceu, mesmo instintivamente, o caráter ridículo desse costume, a ausência de qualquer motivo profundo para viver, o caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento." (p. 19)
  • "Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quadro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o “por quê” e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. “Começa”, isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência. Ela o desperta e provoca sua continuação. A continuação é um retorno inconsciente aos grilhões, ou é o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento." (p. 27)
  • "Uma coisa apenas: essa densidade e essa estranheza do mundo, isto é o absurdo." (p. 29)
  • "No plano da inteligência, posso então dizer que o absurdo não está no homem (se semelhante metáfora pudesse ter algum sentido) nem no mundo, mas na sua presença comum." (p. 45)
  • "A negação é o Deus dos existencialistas." (p. 55)
  • "O absurdo me esclarece o seguinte ponto: não há amanhã." (p. 70)
  • "O homem cotidiano não gosta de demorar. Pelo contrário, tudo o apressa. Ao mesmo tempo, porém, nada lhe interessa além de si mesmo, principalmente aquilo que poderia ser." (p. 92)
  • "A expressão começa onde o pensamento acaba." (p. 114)
  • "Saber se o homem é livre exige saber se ele pode ter um amo. A absurdidade particular deste problema é que a própria noção que possibilita o problema da liberdade lhe retira, ao mesmo tempo, todo o seu sentido. Porque diante de Deus, mais que um problema da liberdade, há um problema do mal. A alternativa conhecida: ou não somos livres e o responsável pelo mal é Deus todo-poderoso, ou somos livres e responsáveis, mas Deus não é todo-poderoso. Todas as sutilezas das escolas nada acrescentaram nem tiraram de decisivo a este paradoxo."
  • "Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz."
  • "Não há destino que não se transcenda pelo desprezo."
  • "Uma atitude saudável inclui também defeitos."
  • "Um homem sem memória é um homem sem passado. Mas um homem que não sabe fantasiar é um homem sem futuro."
  • "Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim."
  • "Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “Acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe."
  • "Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida é responder uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. Trata-se de jogos; é preciso primeiro responder. E se é verdade, como quer Nietzsche, que um filósofo, para ser estimado, deve pregar com o seu exemplo, percebe-se a importância dessa reposta, porque ela vai anteceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso ir mais fundo até torná-las claras para o espírito. Se eu me pergunto por que julgo que tal questão é mais premente que tal outra, respondo que é pelas ações a que ela se compromete. Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranqüilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente."
  • "O absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites".

- L'absurde, c'est la raison lucide qui constate ses limites
- Le mythe de Sisyphe‎ - Página 70, de Albert Camus - Publicado por Gallimard, 1960 - 187 páginas
  • "Criar é também dar uma forma ao destino".

- O mito de Sísifo‎ - Página 133, Albert Camus - Traduzido por Ari Roitman, Paulina Watch, Edição 5, Editora Record, 2004, - 158 páginas
  • "Não há amor generoso senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular".

- O mito de Sísifo‎ - Página 87, Albert Camus - Traduzido por Ari Roitman, Paulina Watch, Edição 5, Editora Record, 2004, - 158 páginas
  • "O significado da vida é a mais urgente das questões".

- I therefore conclude that the meaning of life is the most urgent of questions.
- The myth of Sisyphus‎ - Página ii, Albert Camus - Hamish Hamilton, 1955 - 169 páginas
  • "Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade".

- For there is merely bad luck in not being loved; there is misfortune in not loving
- The myth of Sisyphus, and other essays‎ - Página 201, Albert Camus - Vintage Books, 1983, - 212 páginas

Homem Revoltado

  • "O ateísmo marxista é absoluto. No entanto, ele restabelece o ser supremo ao nível do homem. A crítica da religião chega a esta doutrina na qual o homem é para o homem o ser supremo. Sob este ângulo, o socialismo é um empreendimento de divinização do homem e adquiriu certas características das religiões tradicionais".
  • "O movimento revolucionário, no final do século XIX e no começo do XX, viveu como os primeiros cristãos, à espera do fim do mundo e da Parusia do Cristo proletário".
  • "A revolução russa continua só, viva contra seu próprio sistema, longe das portas celestes, com um apocalipse a organizar. A Parusia ainda está longe. A fé está intacta, mas se curva a uma enorme massa de problemas e descobertas que o marxismo não havia previsto. A nova igreja está de novo frente a Galileu: para conservar a fé, ela vai negar o sol e humilhar o homem livre".
  • "Depois de descartada a hipótese de suicídio só nos resta o otimismo."
  • "Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade".
  • "O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é".

- O Homem revoltado‎ - Página 21, Albert Camus, traduzido por Valerie Rumjanek, Editora Record, 1996, - 351 páginas

A Queda

  • "... Ser Senhor dos seus humores é o privilégio dos grandes animais".
  • "Nós não estamos senão mais ou menos em todas as coisas".
  • "Em cada caso, minha sensualidade, para só falar dela, era tão real que, mesmo por uma aventura de dez minutos, eu renegaria pai e mãe, mesmo que se tivesse de lamentá-lo amargamente. Que digo eu! Sobretudo por uma aventura de dez minutos, e mais ainda, se eu tivesse a certeza de que ela não teria futuro. Eu tinha princípios, é claro; por exemplo: a mulher dos amigos era sagrada. Simplesmente, eu deixava, com toda sinceridade, alguns dias antes, de ter amizade pelos maridos".
  • "A idéia mais natural para o homem, a que lhe surge ingenuamente, como no fundo da sua natureza, é a idéia da sua inocência. Sob esse aspecto, somos todos como aquele francesinho que, em Buchenwald, teimava em querer apresentar um reclamação ao escrivão, prisoneiro como ele, que registrava sua chegada. Uma reclamação? O escrivão e os seus colegas riam: 'Inútil, meu velho. Aqui, não se reclama.' 'Mas, veja bem, meu senhor', dizia o francesinho, 'o meu caso é excepcional. Sou inocente!"
  • "Não é necessário existir Deus para criar a culpabilidade, nem para castigar. Para isso, bastam os nossos semelhantes, ajudados por nós mesmos. O senhor me falava do Juízo Final. Permita-me rir disso respeitosamente. Posso esperá-lo com tranqüilidade: conheci o que há de pior, que é o julgamento dos homens".
  • "Não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos. Cada homem é testemunha do crime de todos os outros, eis a minha fé e a minha esperança".
  • "Se os proxenetas e os ladrões fossem sempre condenados em toda parte, as pessoas de bem, julgar-se-iam todas e incessantemente inocentes".
  • "Ah! Meu caro, para quem está só, sem Deus e sem senhor, o peso dos dias é terrível..."
  • "Eu aprendi a contentar-me com a simpatia. Encontra-se mais facilmente e, depois, não nos impõe nenhum compromisso. «Creia na minha simpatia», no discurso interior precede imediatamente «e agora ocupemo-nos de outra coisa». É um sentimento de presidente de Conselho: obtém-se muito barato, depois das catástrofes. A amizade é menos simples. A sua aquisição é longa e difícil, mas, quando se obtém, já não há meio de nos desembaraçarmos dela, temos de fazer frente".
  • "Sobretudo, não acredite que os seus amigos lhe telefonarão todas as noites, como deviam, para saber se não é precisamente essa a noite em que decidiu suicidar-se. Ou, mais simplesmente, se não tem necessidade de companhia, se não está com vontade de sair. Oh, não! Se telefonarem, esteja descansado. Será na noite em que já não está só e a vida é bela".
  • "Apenas uma frase lhe bastará para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais".
  • "Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade das nossas penas, com a nossa morte. Enquanto vivos, o nosso caso é duvidoso, não temos direito senão ao ceticismo".
  • "A ideia mais natural para o homem, a que lhe surge ingenuamente, como no fundo de sua natureza, é a ideia de sua inocência".
  • "Caminho noites inteiras e sonho, ou falo sozinho interminavelmente".
  • "Nenhum homem é hipócrita nos seus prazeres".

- A queda‎ - Página 103, Albert Camus, traduzido por José Terra, Edição "Livros do Brasil" - 1960 - 218 páginas

O Estrangeiro

  • "Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames. Isto não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem".

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010. p. 13
  • "Antes de deixar o escritório para almoçar, lavei as mãos. Ao meio-dia, isso me dá prazer. À tarde, nem tanto, porque a toalha que usamos está toda molhada: serviu durante todo o dia. Certa vez, fiz uma observação a esse respeito ao patrão. Respondeu-me que achava isto lamentável, mas que se tratava, ainda assim, de um detalhe sem importância”.

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010. p. 31
  • "Quando nos vestimos na praia, Marie olhava-me com olhos brilhantes. Beijei-a. A partir desse momento, não falamos mais. Apertei-a contra mim, e tivemos pressa de encontrar um ônibus, de voltar, de ir para a minha casa e de nos atirarmos na minha cama. Tinha deixado a janela aberta, e era bom sentir a noite de verão escorrer por nossos corpos bronzeados".

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010. p. 39
  • "É uma cidade suja [Paris]. Há pombos e pátios escuros. As pessoas têm a pele branca".

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010. p. 47
  • "Depois, só tinha pensamentos de prisioneiro. Aguardava o passeio diário na pátio ou a visita do advogado. O restante do meu tempo eu coordenava muito bem. Nessa época pensei muitas vezes que se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco de árvore, sem outra ocupação além de olhar a flor do céu acima da minha cabeça, eu teria me habituado aos poucos. Teria esperado a passagem dos pássaros ou os encontros entre as nuvens tal como esperava aqui as estranhas gravatas do advogado, e, como num outro mundo, esperava até sábado para estreitar nos meus braços o corpo de Marie. Ora, a verdade, afinal é que eu não estava numa árvore seca. Havia pessoas mais infelizes do que eu. Era, aliás, uma idéia de mamãe, e ela repetia com frequência que acabávamos acostumando-nos a tudo”.

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010. p.74
  • "Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem".

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010. p. 76
  • "Tinha lido que na prisão se acaba perdendo a noção do tempo. Mas para mim isso não fazia muito sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam sentido para mim. Quando um dia um guarda me disse que eu estava lá a cinco meses, acreditei, mas não compreendi. Para mim era sempre o mesmo dia que se desenrolava na minha cela, e era sempre a mesma tarefa que eu perseguia sem cessar”.

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.p. 77
  • "Exageramos sempre as coisas que não conhecemos".

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.p. 102
  • "À noite, Marie esquecera tudo. O filme tinha momentos engraçados e outros realmente idiotas. A sua perna estava encostada na minha. Acariciava-lhe os seios. No fim da sessão, eu a beijei, mas mal. Ao sair, veio para minha casa".

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek - 28ª edição - Rio de Janeiro: Record, 2007.p. 23
  • "Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio".

- Camus, Albert. O estrangeiro; tradução de Valerie Rumjanek - 28ª edição - Rio de Janeiro: Record, 2007.p. 126
  • "Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo".
  • "Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo".
  • "Mentir não é só dizer aquilo que não é. É também, e sobretudo, dizer mais do que aquilo que é e, no que diz respeito ao coração humano, dizer mais do que se sente".

A Morte Feliz

  • "Ao imaginar alguns recomeços, ao tomar consciência de sua vida passada, tinha definido o que queria e o que não queria ser. (...) decidido a aproveitar o impulso para se instalar (...)para harmonizar sua respiração com o ritmo profundo do tempo e da vida".
  • "Não há grandes dores em grandes arrependimentos, nem grandes recordações.Tudo se esquece, até mesmo os grandes amores. É o que há de triste e ao mesmo tempo de exaltante na vida. Há apenas uma certa maneira de ver as coisas e ela surge de vez em quando. É por isso que, apesar de tudo, é bom ter tido um grande amor, uma paixão infeliz na vida. Isso constitui pelo menos um álibi para o despero sem razão que se apoderam de nós".
  • "Tenho certeza(...) de que não se pode ser feliz sem dinheiro. Só isso. Não gosto nem da facilidade, nem do romantismo. Gosto de compreender. Pois bem, reparei que em certas pessoas da elite há uma espécie de esnobismo espiritual em acreditar que o dinheiro não é necessário à felicidade. É bobagem, está errado e, de certa forma, é covardia".

A Peste

  • "Sabiam agora que, se há qualquer coisa que se pode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternura humana".
  • "Para todos aqueles, pelo contrário, que se tinham dirigido por cima do homem a qualquer coisa que nem sequer imaginavam, não houvera resposta".
  • "Era justo que... a alegria viesse recompensar os que se contentam com o homem e o seu pobre e terrível amor".
  • "E foi por isso que decidi recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou más razões, faz morrer ou justifica que se faça morrer".
  • "Sim, dormimos, e isto é confortante, pois o maior desejo de um coração inquieto é possuir interminavelmente o ser amado, ou, dada a separação, poder mergulhá-lo num sono sem sonhos que não termine antes do reencontro".
  • "(...) e chega talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acorda os ratos e os manda morrer numa cidade feliz."
  • "Oran, na aparência, é uma cidade que não pensa, isto é, uma cidade perfeitamente moderna".
  • "Em Oran, como noutras partes, à míngua de tempo e reflexão, somos obrigados a amar sem saber".
  • "...Rieux sentia a derrota definitiva, a que termina as guerras e transforma a paz em sofrimento incurável".
  • "Essa tristeza era também sua e o aperto que sentia no coração nesse momento era a imensa cólera que surge no homem diante da dor que todos os homens compartilham".

Núpcias

  • "Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido em meu ciúme de vida. Sinto ciúme daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue. Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta... Quero suportar minha lucidez até o fim e contemplar minha morte com toda a exuberância de meu ciúme e de meu horror".
  • "O meu reino é todo deste mundo".

Calígula

  • "O mundo assim como está não é suportável, por conseguinte, preciso da lua, da felicidade ou da imortalidade, de qualquer coisa que seja loucura, talvez, mas que não pertença a este mundo".
  • "Fazer sofrer é a única maneira de nos enganarmos".

- faire souffrir était la seule façon de se tromper.
- Caligula‎ - Página 116, Albert Camus - Gallimard, 1958 - 250 páginas

Cadernos

  • "Não há uma coisa que se faça por um ser (que se faça verdadeiramente) que não negue um outro. E quando não nos podemos resignar a negar os seres, há uma lei que nos estiriliza para sempre. De certo modo, amar um ser é matar todos os outros".
  • "A grandeza consiste em tentar ser grande. Não há outro meio".

- Greatness consists in trying to be great. There is no other way
- Notebooks: 1942-1951. Translated from the French and annotated by J. O'Brien‎ - Página 226, Albert Camus - Knopf, 1963

Atribuídas

  • "Outono é outra primavera, cada folha uma flor".

- citado em "Frases Geniais" - Página 343, Paulo Buchsbaum, 2004, Ediouro Publicações,


Estudos sobre o autor

  • A Metáfora do Sol (1989, 3ª ed. 2003), por Dimas Macedo;
  • Albert Camus - A Libertinagem do Sol (2002), por Horacio González;
  • Albert Camus - Um Elogio do Ensaio (1998), por Manuel da Costa Pinto;
  • Camus (1959), por Germaine Brée;
  • Camus (1966), por Adele King;
  • Camus: Vida e Obra (1970), por Vicente de Paulo Barretto
  • Albert Camus: A Biography (1997), por Herbert R. Lottman;
  • Albert Camus and the Minister (2000), por Howard E. Mumma;
  • Albert Camus, The Artist in the Arena (1965), por Emmett Parker ;
  • Albert Camus, A Study of His Work (1957), por Philip Malcolm Waller Thody ;
  • Albert Camus: A Life (2000), por Olivier Todd;
  • Albert Camus: Kunst und Moral, por Heiner Wittmann;
  • Camus e Sartre: O Fim de uma Amizade no Pós-Guerra (2007), por Ronald Aronson, Ed. Record;
  • Sartre and Camus in Aesthetics. The Challenge of Freedom (2009), por Heiner Wittmann, ed. por Dirk Hoeges. Dialoghi/Dialogues. Literatur und Kultur Italiens und Frankreichs, vol. 13, Frankfurt/M.;
  • Ethics and Creativity in the Political thought of Simone Weil and Albert Camus 2004, por Dr. John Randolph LeBlanc;
  • Os Mandarins por Simone de Beauvoir (1954), vencedor do Prêmio Goncourt em 1954; O próprio Camus declara que ele é "o herói" do livro em seu “Notebooks 1951-1959”.

 

Obras


  • Révolte dans les Asturies (Revolta nas Astúrias), 1936, Ensaio de criação coletiva;
  • L'Envers et l'Endroit (O Avesso e o Direito), 1937, Ensaio;
  • Noces (Núpcias), 1939 antologia de ensaios e impressões;
  • Réflexions sur la Guillotine (Reflexões sobre a Guilhotina), 1947;
  • L'Étranger (O Estrangeiro), 1942, romance;
  • Le Mythe de Sisyphe (O Mito de Sísifo), 1942, ensaio sobre o absurdo;
  • Les Justes (Os Justos), Peça em 5 atos, Editor Gallimard, Folio teatro, 2008;
  • Le Malentendu (O Malentendido), 1944, Peça em três atos;
  • Lettres à un Ami Allemand (Cartas a um Amigo Alemão), publicadas com o pseudônimo de Louis Neuville, Editor Gallimard, collection folio;
  • Caligula (Calígula) (primeira versão em 1941), Peça em 4 atos;
  • La Peste (A Peste) Editor Gallimard, Coleção Folio, 1972;
  • L'État de Siège (Estado de Sítio), (1948), Espetáculo em três partes;
  • L'Artiste en Prison (O Artista na Prisão), 1952 prefácio sobre Oscar Wilde;
  • Actuelles I (Atuais I), Crônicas,1944-1948, 1950;
  • Actuelles II (Atuais II), Crônicas, 1948-1953;
  • L’homme Révolté (O Homem Revoltado);
  • L'Été (O Verão), 1954, Ensaio;
  • Requiem pour une Nonne (Réquiem para uma Freira);
  • La Chute (A Queda), Editor Gallimard, Coleção Folio, 1972;
  • L'Exil et le Royaume (O Exílio e o Reino), Gallimard, 1957 contos (La Femme Adultère (A Mulher Adúltera), Le Renégat (O Renegado), Les Muets (Os Mudos), L'Hôte (O Hóspede), Jonas;
  • La Pierre qui Pousse (A Pedra que Brota);
  • Os Discursos da Suécia (publicado juntamente com O Avesso e o Direito);
  • Carnets I (Cadernetas I), Maio 1935-Fevereiro 1942, 1962;
  • Carnets II (Cadernetas II), Janeiro 1942-Março 1951, 1964;
  • Carnets III (Cadernetas III), Março 1951-Dezembro 1959;
  • La Postérité du Soleil, photographies de Henriette Grindat. Itinéraire par René Char (A Posteridade do Sol, fotografias de Henriette Grindat. Itinerário por René Char, edições E. Engelberts, 1965, ASIN B0014Y17RG - nova edição Gallimard, 2009;
  • Les Possédés (Os Possessos), 1959, adaptação ao teatro do romance de Fiódor Dostoiévski;
  • Résistance, Rebellion, and Death (Resistência, Rebelião e Morte);
  • Le Premier Homme (O Primeiro Homem), Gallimard, 1994, publicado por sua filha, romance inacabado;
  • La Mort Heureuse (A Morte Feliz);

 

Referências


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