quarta-feira, 30 de julho de 2014

Abade Suger de Saint-Denis


Abade Suger (de uma janela medieval).
Abade Suger. (1081-1151) Suger foi abade de Saint-Denis (França), desde 1122 até sua morte. Hábil diplomata, foi conselheiro de Luís VI e de Luís VII e Regente durante a Segunda Cruzada. Foi chamado, segundo Erwin Panofsky, de "o Pai da Monarquia Francesa". Em sua monografia sobre Suger, Panofsky defende a tese de que este tenha sido muito influenciado pela leitura das obras de Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Suger teria encontrado naquelas obras “uma justificação filosófica para toda a sua atitude com respeito à vida e à arte” e conseqüentemente, para as intervenções arquitetônicas que realizou, ao conceber o monumento como obra teológica. O Abade Suger, informa-nos Panofsky, ainda, "professava como teólogo, proclamava como poeta, e praticava como patrono das artes e organizador de espetáculos litúrgicos", a abordagem anagógica, (o método que leva para cima) no sentido empregado pelo Pseudo-Areopagita, posteriormente revigorado por John Duns Scotus. É considerado o primeiro mestre-de-obras da arquitetura gótica, pelas inovações promovidas na Basílica de Saint-Denis.


Estilo Gótico

A filosofia da luz e a Abadia de Saint-Denis



Basílica de Saint-Denis. 
(imagem: Beckstet).
O nascimento do estilo, mais que o seu desaparecimento, pode ser definido cronologicamente com clareza, nomeadamente no momento da reconstrução da abadia real de Saint-Denis sob orientação do Abade Suger entre 1137 e 1144. Esta abadia beneditina situada nas proximidades de Paris, em França, vai ser o veículo utilizado à comunicação dos novos valores simbólicos: por um lado a dignificação da monarquia, por outro a glorificação da religião. Este empreendimento tem por objectivo apresentar o maior centro patriótico e espiritual de toda a França, ofuscando todas as outras igrejas de peregrinação, trazendo para si mais crentes e restabelecer a confiança entre a igreja e o seu rebanho. Para materializar esta ideia várias fontes e influências terrenas vão ter de ser, no entanto, bem contabilizadas e fundidas. A cabeceira (zona este da igreja) vai ser emprestada das já existentes igrejas de peregrinação, com abside, deambulatório e capelas radiantes, assim como a utilização do arco quebrado de influência normanda. A técnica construtiva dá também neste momento um avanço significativo contribuindo com a abóbada de nervuras (sobre cruzaria de ogivas) e que vai permitir uma maior dinâmica e flexibilidade de construção. O impulso destas abóbadas vai ser recebido por contrafortes no exterior do edifício, libertando o espaço interior e dotando-o de uma leveza extraordinária. Mas mais que uma junção de elementos, o estilo gótico é afirmação de uma nova filosofia. A estrutura apresenta algo novo, uma harmonia e proporção inovadoras resultado de relações matemáticas, de ordens claras impregnadas de simbolismo. Suger, que é fortemente influenciado pela teologia de Pseudo-Dionísio, o Areopagita, aspira uma representação material da Jerusalém Celeste. A luz é a comunicação do divino, o sobrenatural, é o veículo real para a comunhão com o sagrado, através dela o homem comum pode admirar a glória de Deus e melhor aperceber-se da sua mortalidade e inferioridade. Fisicamente a luz vai ter um papel de importância crucial no interior da catedral, vai-se difundir através dos grandes vitrais numa áurea de misticismo e a sua carga simbólica vai ser reforçada pela acentuação do verticalismo. As paredes, agora libertas da sua função de apoio, expandem em altura e permitem a metamorfose do interior num espaço gracioso e etéreo. O espaço é acessível ao homem comum, atrai-o de uma maneira palpável, que ele é capaz de assimilar e compreender, o templo torna-se o ponto de contacto com o divino, um livro de pedra iconográfico que ilustra e ensina os valores religiosos e que vai, a partir deste momento, continuar o aperfeiçoamento da mesma. No século XII o Abade Suger reconstruiu partes da abadia usando inovadas características estruturais e decorativas, que foram extraídas de uma série de outras fontes. Ao fazer isso, ele afirmou ter criado o primeiro edifício verdadeiramente gótico. A nave do século XIII da basílica também é o protótipo do estilo gótico radiante, e forneceu um modelo de arquitetura para catedrais e mosteiros do norte da França, Inglaterra e outros países.


A arquitetura da Basílica


O deambulatório construído por Suger.
(imagem: Beckstet).
A Basílica de Saint Denis é um marco arquitetônico, uma vez que primeira estrutura principal da qual uma parte substancial foi projetada e construída em estilo gótico. Tanto estrutural quanto estilisticamente anunciava-se a mudança da Arquitetura românica para a Arquitetura gótica. Antes do termo "gótico" cair no uso comum, ele foi conhecido como "Estilo Francês" (Opus Francigenum). Tal como está agora, a igreja é um enorme edifício cruciforme em forma de "basílica", isto é, possui uma nave central com corredores mais baixos e janelas em clerestório. Tem um corredor adicional no lado norte formado por uma fileira de capelas. A fachada oeste tem três portais, uma rosácea e uma torre, no lado sul. O extremo leste, que é construído sobre uma cripta, é absidal, rodeado por um deambulatório e um abside de nove capelas radiadas. O Abade Suger, decidiu por volta de 1137 reconstruir a grande Abadia de St Denis, anexada a uma abadia que era também uma residência real. Suger começou com a fachada oeste, reconstruindo a fachada carolíngia original com sua única porta. Ele projetou a fachada de St Denis para ser uma lembrança do Arco de Constantino romano com sua divisão em três partes e três largos portais para aliviar o problema de congestionamento. Há uma rosácea sobre o portal oeste. Embora janelas circulares neste posição fossem comuns em igrejas Românicas da Itália, acredita-se que esta é a primeira rosácea nesta posição na França, e esta característica tornou-se dominante nas fachadas de estilo gótico no norte da França, a ser logo imitada pela Catedral de Chartres e muitas outras. Após a conclusão da fachada oeste em 1140, o Abade Suger passou à reconstrução do extremo leste, deixando a nave carolíngia em uso. Ele projetou um coro que seria inundado de luz. Para atingir seus objetivos, os pedreiros de Suger basearam-se em muitos novos recursos que evoluíram ou foram introduzidos da arquitetura romântica: o arco ogival, a abóbada em cruzaria, o deambulatório (que mantém inalterado até os dias atuais) com capelas radiais, as colunas agrupadas suportando arestas saltando em diferentes direções e os arcobotantes que permitiram a inserção das grandes janelas do clerestório. Foi a primeira vez que esses recursos foram desenhados em conjunto. Erwin Panofsky argumentou que Suger inspirou-se para criar uma representação física da Jerusalém Celeste, no entanto, na medida em que Suger tinha qualquer objetivo mais que o prazer estético tem sido posto em dúvida pelos historiadores de arte mais recentes baseados nos próprios escritos de Suger. A nova estrutura foi terminada e dedicada em 11 de Junho de 1144, na presença do rei. Assim, a Abadia de St Denis se tornou o protótipo para futuras construções no domínio real do norte da França. A partir de 1231 a velha nave de St Denis foi reconstruída, introduzindo o novo estilo Gótico Irradiante, ganhando, em seus transeptos, duas rosáceas espetaculares. Através da regra da dinastia Angevina, o estilo foi introduzido na Inglaterra e se espalhou por toda França, os Países Baixos, Alemanha, Espanha, norte da Itália e Sicília. Dentre outras características importantes estavam as estátuas-colunas flanqueando os portais da fachada oeste (atualmente destruídas mas conhecidas pelos desenhos de Bernard de Montfaucon). Uma planta de cerca de 1700 feita por Félibien mostra uma grande capela mortuária na forma de uma cúpula rotunda com colunas, adjacente ao transepto norte da basílica e contendo a tumba de Carlos de Valois. A basílica conserva vitrais de vários períodos, incluindo excepcionais vitrais modernos, e um conjunto de doze misericórdias.


Referências




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