quarta-feira, 25 de junho de 2014

Biografia de Cassiodoro


Cassiodoro
Cassiodoro. (Flavius Magnus Aurelius Cassiodorus Senator). Nasceu em Scyllaceum, em 490, e faleceu em cerca de 581. Cassiodoro foi um escritor e estadista romano, conselheiro do rei ostrogodo Teodorico, o Grande, que se destacou pelos seus dotes jurídicos e literários e ocupou importantes cargos na administração pública ostrogoda da Itália. O apelido Senator no seu nome é antroponímico, não significando que fosse senador.





Biografia


Cassiodoro, em um manuscrito
do século XII.
Cassiodoro nasceu em Scyllaceum (atual Squillace, no sul da Itália), de uma família aparentemente de origem síria ligada à administração romana, já que seu pai ocupou o cargo de governador da província romana da Sicília. Iniciou a sua vida pública como conselheiro de seu pai, quando este ocupou o cargo de governador da Sicília, tornando-se conhecido pelos seus conhecimentos jurídicos. Tendo-se fixado em Roma, foi nomeado questor por volta do ano 507, exercendo esse cargo até ao ano de 511. Foi feito cônsul no ano de 514. No ano de 523, Cassiodoro sucedeu, no posto de magister officiorum , a Boécio (Anício Mânlio Torquato Severino Boécio), que tinha entretanto caído em desgraça e que seria executado por traição no ano imediato. Para além disso o sogro de Boécio, e seu mentor, já que o tinha educado em sua casa desde os sete anos de idade, seria também executado no ano seguinte, o que parece indiciar, para além das tensões religiosas entre a ortodoxia cristã e o arianismo de Teodorico, uma deterioração nas relações entre a antiga aristocracia senatorial romana, centrada em Roma, e os aderentes da governação gótica, centrada em Ravena. Apesar do detalhe com que descreve a administração do tempo, a coletânea Variae Epistolae de Cassiodoro não dá qualquer indicação sobre estas matérias, não havendo qualquer menção à morte de Boécio na sua correspondência ou nas obras extantes de Cassiodoro, embora se tenha descoberto uma biografia de Boécio da sua autoria. O lugar de magister officiorum, isto é chefe dos serviços administrativos da corte e do governo, do rei ostrogodo Teodorico, o Grande, era um dos mais importantes cargos da administração civil ostrogoda, o qual Cassiodoro manteve durante o resto do reinado de Teodorico e durante a regência de Atalarico, o jovem príncipe que foi seu sucessor. Cassiodoro mantinha copiosos registos e
Página da Historia Ecclesiastica de Cassiodoro.
apontamentos sobre todas as matérias que diziam respeito à administração pública e à política do seu tempo. Os seus dotes literários e jurídicos eram tão considerados na corte gótica que quando estava em Ravena eram-lhe confiados para redação os documentos mais significativos da administração real. Quando em princípios do ano de 534, Atalarico morreu, o reino ostrogodo entrou em convulsão e Cassiodoro foi obrigado a passar o resto da sua carreira administrativa a lidar com as intrigas dinásticas entre a nobreza ostrogoda e com os problemas da reconquista bizantina. Mesmo assim, a sua carreira administrativa culminou com a nomeação para o cargo de prefeito pretoriano da Itália, cargo que correspondia a uma espécie de primeiro-ministro encarregue da administração civil do reino dos ostrogodos, cargo a que correspondiam grandes honrarias, sendo considerado um fecho de ouro para uma carreira na administração real. As suas últimas cartas oficiais são emitidas em nome de Vitige (rei dos ostrogodos), tendo já o seu sucessor no cargo de prefeito sido nomeado pela corte em Constantinopla. Por volta do ano de 537, Cassiodoro partiu para Constantinopla, cidade onde permaneceu durante quase duas décadas, concentrando-se no estudo e na discussão dos problemas religiosos que então afligiam a cristandade e o império. Encontrou-se então com Junilius, o questor de Justiniano I (Flavius Petrus Sabbatius Justinianus). A sua permanência em Constantinopla contribuiu para o tornar num especialista em questões religiosas, especialmente no que dizia respeito às suas implicações jurídicas, matéria que se reflecte na sua obra escrita. Usou o resto da sua carreira a tentar criar condições que permitissem ultrapassar as crescentes fraturas sociais que iam aparecendo entre o cristianismo e a sociedade Ocidente e do Oriente, entre a cultura grega e a latina, entre romanos e godos e entre a ortodoxia cristã da maioria da população e o arianismo da nobreza goda no poder. No seu livro Institutiones refere-se elogiosamente a Dionísio Exíguo (Dionysius Exiguus), o responsável pela introdução no calendário da contagem dos anos a partir do nascimento de Jesus Cristo, o sistema dos Anno Domini que ainda hoje se usa. Retirando-se de Constantinopla para a propriedade que a sua família possuía na costa do mar Jônio, fundou ali o mosteiro de Vivarium, dedicando-se à escrita de temas religiosos e onde desenvolveu uma escola médica. A estrutura do Vivarium foi concebida de forma dupla, permitindo a coexistência no mesmo reduto de monges cenobíticos com eremitas. No seu mosteiro, Cassiodoro criou uma biblioteca que no período final da Antiguidade Clássica pretendia colocar textos gregos à disposição de leitores latinos e preservar para a posteridade textos sagrados e profanos. Naquele biblioteca, Cassiodoro não só colecionou todos os manuscritos que conseguiu, mas também escreveu instruções destinadas a guiar os monges na forma correta de os ler e de os copiar de forma precisa, lançando uma corrente de copistas que permitiriam a sobrevivência de muitas das obras dos clássicos durante ao anos difíceis da Idade Média européia. Foram traduzidas e copiadas obras de autores greco-romanos como Dioscórides (Pedânio Dioscórides), Hipócrates, Cláudio Galeno entre outros. Escreveu um texto enciclopédico de História Natural com partes de Medicina. Induziu os religiosos a estudarem e aprenderem as características das plantas e as suas aplicações medicinais e terapêuticas. Apesar da cópia dos manuscritos antigos ser praticada em outros monastérios, Cassiodoro estabeleceu os scriptorium como uma parte regular da vida monástica. Este precedente introduzido por Cassiodoro em Vivarum foi adotados pela maioria dos mosteiros beneditinos. Infelizmente, a biblioteca do Vivarium foi dispersa e perdida, apesar de ainda estar ativa por volta do ano de 630, quando os monges para ela trouxeram as relíquias de Santo Acácio (Agátio) de Constantinopla, a quem dedicaram um chafariz artístico, alimentado por uma fonte, que ainda existe. Por essa altura, contudo, o reino godo de Teodorico já tinha colapsado sob a pressão combinada das tensões internas entre cristãos e arianos e pelo assalto dos invasores lombardos.



Institutiones divinarum et saecularium litterarum


Institutiones divinarum et saecularium litterarum (Educación en las letras divinas y humanas) é uma obra de Cassiodoro, considerada a primeira enciclopédia cristiana. Iniciou-se sua redação no ano 550 e seu autor nunca a deu por terminada, já que empreendeu sucessivas ampliações da mesma até o momento de sua morte, cerca de trinta anos depois. Dividido em dois livros, o primeiro dedicado às Escrituras e o segundo às artes liberais, o título está diretamente inspirado pela obra de Quintiliano Institutiones Oratoriae Libri” (século I), que adapta, com muitos outros tratados clássicos greco-romanos, ao novo contexto cultural do cristianismo; igualmente feito posteriormente por Isidoro de Sevilla (Etymologiae) e Alcuino de York (De Grammatica, De Rhetorica), ambos conhecedores da obra de Cassiodoro. A denominação também se incluía no Institutiones Grammaticae, tratado de Prisciano, um gramático latino ativo em Constantinopla por volta do ano 500, que é citado pelo próprio Cassiodoro. As Institutiones de Cassiodoro incluem um compêndio-guia das sete artes liberais (já definidas em De Nuptiis Philologiae et Mercurii de Marciano Capella - entre 410 e 429). En la obra de Casiodoro reciben un tratamiento muy desigual, já que a retórica e a dialética ocupam mais da metade do texto, circunstância esta que pode ser devida à formação romana do autor. A utilização da sua esquematização do conhecimento nestas sete disciplinas se estabeleceram como trivium et quadrivium, tornando-se a base da educação aplicada nas escolas monásticas, catedrais e palatinas, e posteriormente nos studium generale e universidades medievais.


Gramática, retórica e dialética


  • A Gramática, origem e fundamento dos escritos liberais baseada na obra de Donato.
  • A Retórica, necessária e honrável em questões civis, utiliza o De Inventione de Cícero e os comentários de Mario Victorino e Fortunatiano.
  • A Dialética, que separa as verdades das falsidades, contém anotações das Isagogae de Porfírio e as Categorias y Perihermeneias de Aristóteles. Também trata as Perihermeneias de Apuleyo de Madaura e alguns capítulos dos Tópica de Cícero.


Aritmética, música, geometria e astronomia


  • A Aritmética, disciplina da quantidade numerável, apresenta uma visão superficial da obra de Nicômaco de Gerasa recolhida por Boécio.
  • A Música, que fala dos números relacionados com os sons, toca todos os pontos principais dos gregos.
  • A Geometria, disciplina da medida inalterável e das formas, está baseada em Euclides, Apolônio e Arquimedes.
  • A Astronomia, disciplina do curso dos astros celestes, se reduz à uma visão dos sete climas e à algumas definições dos principais conceitos.

A originalidade da obra está no seu carácter de guia didático que oferece, junto aos conceitos básicos de cada uma das disciplinas, a bibliografia necessária ao estudo das mesmas.


Difusão da obra


O compêndio das artes liberais começou a circular rapidamente como uma obra independente sob o título de De artibus ac disciplinis liberalium litterarum e alcançou grande difusão como o que demonstra o elevado número de cópias e comentários que se fizeram dela. Uma destas cópias chegou à Isidoro de Sevilha que a integrou dentro de suas Etimologias.



Obras


  • Laudes (506), um conjunto fragmentado de panegíricos pronunciados em cerimônias públicas;
  • Chronica (519), um texto tentando unificar toda a história do mundo conhecido numa única sequência de governantes, juntando a história romana e goda numa sequência que parece destinada a agradar aos últimos;
  • Historia Gothorum (526-533), de que apenas é conhecido um resumo feito por Jordanes (Iordanis);
  • Variae Epistolae (537), uma colectânea de documentos administrativos do reinado de Teodorico, o Grande;
  • Ordo Generis Cassiodororum;
  • Liber de Anima (538);
  • Exposition Psalmorum;
  • Institutiones;
  • Expositio Epistulae ad Romanos;
  • Codex de Grammatica;
  • Liber Memorialis ou Liber Titulorum;
  • Complexiones Apostolorum;
  • De Orthographia;
  • Historia Ecclesiastica ou Historia tripartita;
  • Commenta Librorum Regum;
  • Psalterium Archetypum;
  • Institutiones Divinarum et Saecularium Litterarum (543-555);
  • De Artibus ac Disciplinis Liberalium Litterarum;
  • Codex Grandior, uma versão da Bíblia.


Referências




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