sábado, 19 de abril de 2014

Biografia de Henri Bergson


Henri Bergson, década de 1910.
Henri Bergson. Nasceu em Paris, a 18 de Outubro de 1859, e, faleceu em Paris, a 4 de Janeiro de 1941. Henri Bergson foi um filósofo e diplomata francês. Conhecido principalmente por "Ensaios sobre os Dados Imediatos da Consciência"; "Matéria e Memória"; "A Evolução Criadora" e "As Duas Fontes da Moral e da Religião", sua obra é de grande atualidade e tem sido estudada em diferentes disciplinas - cinema, literatura, neuropsicologia, bioética, entre outras. Recebeu o Nobel de Literatura de 1927.



Biografia


Henri Bergson nasceu de família judia, filho de mãe inglesa e pai polaco. Viveu com os seus pais alguns anos em Londres, mas aos nove anos regressou a Paris. Ali fez os seus estudos no Liceu Fontanes onde ganha em primeiro lugar o prêmio de matemática no Concours Général resolvendo um problema de Pascal. Licenciando-se em Letras, em 1881 tornou-se professor, dando aulas em várias localidades da França, destacam-se desse momento as aulas no liceu Blaise Pascal de Clermont-Ferrand. Em 1889 obteve o doutoramento pela Universidade de Paris com a tese Ensaios Sobre os Dados Imediatos da Consciência, e com uma tese secundária sobre Aristóteles. Bergson casa-se em 1892 com Louise Neuberger, uma prima do escritor francês Marcel Proust. Publica seu segundo livro em 1896 sob o título Matéria e Memória. Passa a lecionar na Escola Normal Superior de Paris dois anos depois. Em 1900, aos 40 anos, inicia seus cursos a frente da cadeira de História da Filosofia Antiga no Collège de France. No ano 1907, publica sua obra principal: A Evolução Criadora que une crítica da tradição filosófica especulativa, com intuição da duração e com as teorias evolucionistas de Herbert Spencer. Como diplomata, participa das discussões sobre a Primeira Guerra Mundial e exerce influência sobre a decisão dos EUA em intervir no conflito. Em 1918 Bergson torna-se membro da Academia Francesa, dois anos depois, publica Duração e Simultaneidade, obra que discute a comunicação de Albert Einstein de 1905 sobre a teoria da relatividade restrita. A partir de 1925, passa a sofrer de um reumatismo que o deixará semi-paralisado, a ponto de impedi-lo de ir a Estocolmo para receber o Nobel de Literatura de 1927. Escreve com grande dificuldade seu último livro publicado em 1932: As Duas Fontes da Moral e da Religião. Nessa época, aproxima-se do cristianismo, mas não se converte por preferir ficar ao lado daqueles que serão perseguidos pelo regime Nazista de Hitler. Faleceu em 1941, em 4 de Janeiro, aos 81 anos, em Paris.


Bergsonismo


Bergson é frequentemente situado na história da filosofia como espiritualista evolucionista. Os principais seguidores de seu pensamento são:


  • Mokiti Okada (Tóquio, 1882-1955)
  • Léon Brunschvicg (Paris, 1869-1944)
  • Édouard Le Roy (Paris, 1870-1954)
  • René Le Senne (Elbeuf, 1882-1954)
  • Michel Adam (Orléans, 1926-2007)
  • Jean-Louis Vieillard-Baron (1944-)
  • Frédéric Worms (1964-)
  • Gilles Deleuze (1925-1994)


A ocupação da cadeira de filosofia no Collège de France após morte de Bergson foi feita por Édouard Le Roy e depois por Louis Lavelle que fundou com René Le Senne a coleção Philosophie de l'esprit em 1934.


Filosofia


A filosofia de Bergson é a princípio uma negação, isto é, uma crítica às formas de determinismo e “coisificação” do homem. Em outras palavras, a sua pesquisa filosófica é uma afirmação da liberdade humana frente as vertentes científicas e filosóficas que querem reduzir a dimensão espiritual do homem a leis previsíveis e manipuláveis, análogas as leis naturais, biológicas e, como imaginou Auguste Comte, sociais. Seu pensamento está k fundamentado na afirmação da possibilidade do real ser compreendido pelo homem por meio da intuição da duração – conceitos que perpassam toda sua bibliografia. O próprio filósofo chegou a dizer que para compreender a sua filosofia é preciso partir da intuição da duração.


Conceitos


Duração, na obra de Bergson, é o correr do tempo uno e interpenetrado, isto é, os momentos temporais somados uns aos outros formando um todo indivisível e coeso. Oposto ao tempo físico ou sucessão divisível que é passível de ser calculado e analisado pela ciência, o tempo vivido é incompreensível para a inteligência lógica por ser qualitativo, enquanto o tempo físico é quantitativo. Tempo e espaço não pertencem à mesma natureza, tanto que podemos afirmar que a consciência (duração interna) e o “tempo espacializado” se opõem. Esse último é criticado pelo filósofo como uma das expressões da vertente determinista das ciências e filosofias. Tudo o que pertence à faculdade espacial, isto é, à variável t das leis físicas da mecânica clássica, é suscetível de ser repetida, decomposta e traduzida pela lógica científica, como, por exemplo, a medição do tempo por um relógio. Esse tempo físico, comumente confundido com o espaço, como fez Immanuel Kant na Crítica da Razão Pura, não corresponde ao tempo real experimentado pelo espírito. O tempo vivido (ou duração interna ou simplesmente consciência) é o passado vivo no presente e aberto ao futuro no espírito que compreende o real de modo imediato. É um tempo completamente indivisível por ser qualitativo e não quantitativo como o fator t. A duração, não sendo compreendida por meio da inteligência técnica, também não pode, por consequência, ser entendida como sucessão linear de intervalos, pois ela é justamente o oposto disso, haja vista que não há como justapor ou analisar o tempo vivido qualitativo. Ora, se não há como esmiuçar a duração percebida pelo espírito, também não há como prever os momentos temporais da duração interna, apenas a experiência física que se repete facilmente pode ser prevista e repetida, logo, a duração do tempo vivido e experimentado pelo espírito é imprevisível, uma novidade incessante e um fluir contínuo. Ao tentar argumentar em favor de suas ideias filosóficas a respeito do tempo, cometeu diversos erros no que diz respeito à teoria da relatividade de Einstein. Intuição significa para Bergson apreensão imediata da realidade por coincidência com o objeto. Em outras palavras, é a realidade sentida e compreendida absolutamente de modo direto, sem utilizar as ferramentas lógicas do entendimento: a análise e a tradução. Diferencia-se da inteligência que, apropriando-se do mundo através de ferramentas, calcula e prevê intervalos do mesmo plano espaço-temporal; a intuição, ao contrário, penetra no interior da vida coincidindo com o real imediatamente. Dizemos, portanto, que o real passou a ser conhecido pela metafísica como, ao modo de Descartes, numa certeza imanente ao próprio ser do sujeito cognoscente. A intuição é uma forma de conhecimento que penetra no interior do objeto de modo imediato, isto é, sem o ato de analisar e traduzir. A análise é o recorte da realidade, mediação entre sujeito e objeto. A tradução é a composição de símbolos linguísticos ou numéricos que, analogamente a primeira, também servem de mediadores. Ambas são meios falhos e artificiais de acesso a realidade. Somente a intuição pode garantir uma coincidência imediata com o real sem o uso de símbolos nem da repartições analíticas. A intuição pode ser entendida, portanto, como uma experiência metafísica.

"“La durée est le progrès continu du présent qui ronge l’avenir et qui gonfle en avançant”(EC, 498/5)" —Citação de Frédéric Worms em Le vocabulaire de Henri Bergson, Ellipses, Paris, 2000.



Intuicionismo


Bergson foi o expoente da linha de filosofia intuicionista, assim chamada porque afirma constituir o verdadeiro conhecimento não nos conceitos abstratos, do intelecto racionalmente, mas na apreensão imediata, na intuição, como é evidenciado pela experiência interior. Segundo o filósofo, há dois caminhos para conhecer o objeto, duas formas de conhecimento, diversas e de valores desiguais: mediante o conceito e mediante a intuição. A forma mediante o conceito é o caminho dos conceitos, dos juízos, silogismos, análise e síntese, dedução e indução; a segunda forma é o da intuição imediata que nos proporciona o conhecimento intrínseco, concreto, absoluto. Bergson conceitua a intuição como a faculdade suprema do impulso vital (élan vital) e faculdade cognoscitiva do filósofo. Segundo o filósofo, "hoje, só raramente e com grande esforço, podemos chegar à intuição; no entanto a humanidade chegará um dia a desenvolver a intuição de tal modo que será a faculdade ordinária para conhecer as coisas. Então, desaparecerão todas as escolas filosóficas e haverá uma só filosofia verdadeira conhecedora da verdade e do ser absoluto". Bergson foi, também, um dos primeiros a fazer referência ao inconsciente.


Citações


  • "A meditação é um luxo, ao passo que a ação é necessária."
- La spéculation est un luxe, tandis que l'action est une nécessité.
- L'évolution créatrice - Página 47, Henri Bergson - F. Alcan, 1908, 399 páginas
  • "A idéia do futuro, prenhe de uma infinidade de possíveis, é pois mais fecunda do que o próprio futuro, e é por isso que há mais encanto na esperança do que na posse, no sonho do que na realidade."
- Fonte: "Ensaio sobre os dados imediatos da consciência"
  • "É preciso agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação."
- Fonte: Citações da Cultura Universal - Página 329, Alberto J. G. Villamarín, Editora AGE Ltda, 2002, ISBN 8574970891, 9788574970899


Ética


  • "Demoraria muito tornar-se misantropo quem se ativesse à observação de outrem. É notando nossas próprias fraquezas que acabamos por lamentar ou por desprezar o homem. A humanidade da qual nos afastamos então é a que descobrimos no fundo de nós. O mal esconde-se tão bem, o segredo é tão universalmente guardado, que cada um de nós é aqui vítima do logro de todos: por mais severamente que pretendamos julgar os outros homens, cremo-los, no fundo, melhores do que nós. É sobre esta feliz ilusão que assenta uma boa parte da vida social."
- Fonte: "As duas fontes da moral e da religião"


Duração


  • "...o que é duração pura exclui toda ideia de justaposição, de exterioridade recíproca e de extensão"
- Fonte: "Introdução à Metafísica"
  • "...não há estado de alma, por mais simples que seja, que não mude a cada instante, pois não há consciência sem memória, não há continuação de um estado sem adição, ao sentimento presente, da lembrança de momentos passados. Nisto consiste a duração. A duração interior é a vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente, seja porque o presente encerra distintamente a imagem incessantemente crescente do passado, seja, mais ainda porque testemunha a carga sempre mais pesada que arrastamos atrás de nós, à medida que envelhecemos. Sem esta sobrevivência do passado no presente, não haveria duração, mas somente instantaneidade."
- Fonte: "Introdução à Metafísica"


Pensamento


  • "Pensar consiste, ordinariamente, em ir dos conceitos às coisas, e não das coisas aos conceitos."
- Fonte: "Introdução à Metafísica"


Obras principais



  • Essais sur les données immédiates de la conscience (1889)
  • Cours de psychologie de 1892 à 1893 au lycée Henri-IV, inédit à partir de retranscription intégrale du cours, Préface Alain Panero, Ed.: Arche Milan, 2008, Coll.: ANECDOTA
  • Matière et mémoire (1896)
  • Le Rire (1899)
  • L'Évolution créatrice (1907)
  • La philosophie française (La Revue de Paris, livraison du 15 mai 1915, pp. 236-256)
  • L'Énergie spirituelle (1919)
  • Durée et simultanéité, à propos de la théorie dEinstein (1922)
  • Les Deux sources de la morale et de la religion (1932)
  • La pensée et le mouvant (1934)
  • Mélanges


Comentadores



  • Le mobilisme moderne (1908) de Alphonse Chide (1868-1952)
  • Le bergsonisme ou une philosophie de la mobilité (1912) de Julien Benda (1867-1956)
  • Devoir et durée (1912) de Joseph Wilbois (1874-1952)
  • Sur le succès du bergsonisme (1914) de Julien Benda (1867-1956)
  • Note sur M. Bergson et la philosophie bergsonienne. Note conjointe sur M. Descartes et la philosophie cartésienne (1914) de Charles Péguy (1873-1914)
  • La pensée intuitive (1929) de Édouard Le Roy (1870-1954)
  • La fin d'une parade philosophique, le bergsonisme (1929) de Georges Politzer (1903-1942)
  • Henri Bergson (1931) de Vladimir Jankélévitch (1903-1985)
  • Le temps vécu (1933) de Eugène Minkowski (1885-1972)
  • Le temps musical (1945) de Gisèle Brelet (1915-1973)
  • Personnalité, création, combat de Vaclav Cerny
  • La pensée interrogative (1954) de Jeanne Delhomme (1911-1985)
  • Presença e Campo Transcendental: Consciência e Negatividade da Filosofia de Henri Bergson (1965) de Bento Prado Júnior, publicado somente em 1988
  • Le Bergsonisme (1966) de Gilles Deleuze (1925-1995)
  • La pensée et le réel. Critique de l'ontologie (1967) de Jeanne Delhomme (1911-1985)
  • Bergson: Intuição e Discurso Filosófico (1994) de Franklin Leopoldo e Silva
  • Bergson ou le deux sens de la vie (2004) de Frédéric Worms (1964), publicado em português com o título Bergson ou os Dois Sentidos da Vida (2010)
  • Bergson: O método Intuitivo: uma abordagem positiva do Espírito (2008) de Astrid Sayegh
  • "O ator risível: procedimentos para as cenas cômicas" (2010) Fernando Lira Ximenes
  • Bergson: A Consciência Criadora: Metafísica da Ciência (2010) de Astrid Sayegh
  • Derrida-Bergson. Sur l'immédiateté, Hermann, Paris, coll. "Hermann Philosophie", de Pierre-Alexandre Fradet ISBN 9782705688318 (2014)


Referências

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