quarta-feira, 26 de março de 2014

Epistemologia


O conhecimento como um conjunto
de crenças verdadeiras.
Epistemologia. (do grego ἐπιστήμη [episteme] - ciência; λόγος [logos] - estudo de), também chamada teoria do conhecimento, é o ramo da filosofia que trata da natureza, das origens e da validade do conhecimento. Relaciona-se com a metafísica, a lógica e a filosofia da ciência, pois, em uma de suas vertentes, avalia a consistência lógica de teorias e suas credenciais científicas. Este facto torna-a uma das principais áreas da filosofia (à medida que prescreveria "correções" à ciência). A sua problemática compreende a questão da possibilidade do conhecimento - nomeadamente, se é possível ao ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno, dos limites do conhecimento (haveria realmente uma distinção entre o mundo cognoscível e o mundo incognoscível?) e da origem do conhecimento (Por quais faculdades atingimos o conhecimento? Haverá conhecimento certo e seguro em alguma concepção a priori?).


Origem

Platão
Pode-se dizer que a epistemologia se origina em Platão. Ele opõe a crença ou opinião (δόξα, em grego) ao conhecimento. A crença é um determinado ponto de vista subjetivo. O conhecimento é crença verdadeira e justificada. A teoria de Platão abrange o conhecimento teórico, o saber que. Tal tipo de conhecimento é o conjunto de todas aquelas informações que descrevem e explicam o mundo natural e social que nos rodeia. Este conhecimento consiste em descrever, explicar e predizer uma realidade, isto é, analisar o que ocorre, determinar por que ocorre dessa forma e utilizar estes conhecimentos para antecipar uma realidade futura. Há outro tipo de conhecimento, não abrangido pela teoria de Platão. Trata-se de um conhecimento técnico, o saber como. A epistemologia também estuda a evidência (entendida não como mero sentimento que temos da verdade do pensamento, mas sim no sentido forense de prova), isto é, os critérios de reconhecimento da verdade. Ante a questão da possibilidade do conhecimento, o sujeito pode tomar diferentes atitudes:


  • Dogmatismo: atitude filosófica pela qual podemos adquirir conhecimentos seguros e universais por inspiração, e ter fé disso.
  • Cepticismo (Acordo Ortográfico de 1990: ceticismo): atitude filosófica oposta ao dogmatismo, a qual duvida de que seja possível um conhecimento firme e seguro, sempre questionando e pondo à prova as crenças, e dependendo dos resultados afirmativos destas provas as crenças podem se tornar convicção ou certeza. Esta postura foi defendida por Pirro de Élis.
  • Relativismo: atitude filosófica defendida pelos sofistas que nega a existência de uma verdade absoluta e defende a ideia de que cada indivíduo possui sua própria verdade, que é em função do contexto histórico do indivíduo em questão.
  • Perspectivismo: atitude filosófica que defende a existência de uma verdade absoluta, mas pensa que nenhum de nós pode chegar a ela senão a apenas uma pequena parte. Cada ser humano tem uma visão parcial da verdade. Esta teoria foi defendida por Friedrich Nietzsche e notam-se nela ecos de platonismo.

 

Conhecimento

Saber que, saber como e conhecimento por familiaridade

Em geral, a epistemologia discute o conhecimento proposicional ou o "saber que".
Bertrand Russell
Esse tipo de conhecimento difere do "saber como" (know-how) e do "conhecimento por familiaridade". Por exemplo: sabe-se que 2 + 2 = 4 e que Napoleão Bonaparte foi derrotado na Batalha de Waterloo; e essas formas de conhecimento diferem de saber como andar de bicicleta ou como tocar piano, e também diferem de conhecer uma determinada pessoa ou estar "familiarizado" com ela. Alguns filósofos consideram que há uma diferença considerável e importante entre "saber que", "saber como" e "familiaridade" e que o principal interesse da filosofia recai sobre a primeira forma de saber. Em seu ensaio Os "Problemas da Filosofia", Bertrand Russell distingue o "conhecimento por descrição" (uma das formas de saber que) do "conhecimento por familiaridade". Gilbert Ryle dedica atenção especial à distinção entre "saber que" e "saber como" em seu O Conceito de Mente. Em “Personal Knowledge”, Michael Polanyi argumenta a favor da relevância epistemológica do saber-como e do saber-que. Usando o exemplo do equilíbrio envolvido no ato de andar de bicicleta, ele sugere que o conhecimento teórico da física na manutenção do estado de equilíbrio não pode substituir o conhecimento prático sobre como andar de bicicleta. Para Polanyi, é importante saber como essas duas formas de conhecimento são estabelecidas e fundamentadas. Essa posição é a mesma de Ryle, que argumenta que, se não consideramos a diferença entre saber-que e saber-como, somos inevitavelmente conduzidos a um regresso ao infinito. Mais recentemente, alguns epistemólogos (Ernest Sosa, John Greco, Jonathan Kvanvig, Linda Trinkaus Zagzebski) argumentaram que a epistemologia deveria avaliar as propriedades das pessoas (isto é, suas virtudes intelectuais) e não somente as propriedades das proposições ou das atitudes proposicionais da mente. Uma das razões é que as formas superiores de processamento cognitivo (como, por exemplo, o entendimento) envolveriam características que não podem ser avaliadas por uma abordagem do conhecimento que se restrinja apenas às questões clássicas da crença, verdade e justificação.

Estudos recentes

Segundo Pierre André Lalande, trata-se de uma filosofia das ciências, mas de modo especial, enquanto: “É essencialmente o estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências, destinado a determinar sua origem lógica, seu valor e seu alcance objetivo”. Para Lalande, ela se distingue, portanto, da teoria do conhecimento, da qual serve, contudo, como introdução e auxiliar indispensável. Portanto, temos que epistemologia é o estudo sobre o conhecimento científico, ou seja, o estudo dos mecanismos que permitem o conhecimento de determinada ciência. Hilton Japiassu distingue dois tipos de Epistemologia:

  • a Epistemologia global ou geral que trata do saber globalmente considerado, com a virtualidade e os problemas do conjunto de sua organização, quer sejam especulativos, quer científicos;
  • a Epistemologia específica que trata de levar em conta uma disciplina intelectualmente constituída em unidade bem definida do saber e de estudá-la de modo próximo, detalhado e técnico, mostrando sua organização, seu funcionamento e as possíveis relações que ela mantém com as demais disciplinas.
Segundo Trindade: Todo conhecimento torna-se, devido à necessária vinculação do meio ao indivíduo que pertence ao próprio meio, um auto-conhecimento. Essa interação faz-se cogente pela gênese unívoca entre os muitos integrantes do mundo da vida, sem olvidar que o homem é um desses integrantes [...] Ocorre, deste modo, um acoplamento estrutural entre o sistema nervoso do observador e o meio, proporcionando, assim, uma mútua transformação/adaptação. O ser é modificado pelo meio ao qual o próprio ser pertence e modifica." (2007, p. 97).
Evan autor determinado acrescenta epistemologia específica possui caráter positivo obrigatório, enquanto epistemologia global é divergente, sendo intuitiva, epistêmica, principalmente se contrária a opinião pública.


Anarquismo epistemológico

Paul Feyerabend
O Anarquismo epistemológico é uma teoria epistemológica criada pelo filósofo da ciência austríaco Paul Karl Feyerabend que argumenta não existirem regras metodológicas úteis ou livres de exceções que dirijam o progresso científico ou o desenvolvimento dos conhecimentos. Segundo esta epistemologia a ideia de que ciência pode ou deve operar de acordo com regras fixas e universais é irrealista e perniciosa, indo contra a própria ciência. O uso do termo anarquismo no nome reflete a prescrição de pluralismo metodológico desta teoria; tal como o pretendido método científico não possui o monopólio da verdade ou resultados palpáveis, a abordagem pragmática é uma atitude de "vale tudo" dadaísta com relação às metodologias. A teoria considera as leis inamovíveis da ciência como uma ideologia tal como a religião, magia e mitologia, e considera a dominação da ciência sobre a sociedade autoritária e injustificável. A proposição desta teoria rendeu a Paul Karl Feyerabend o título de “o pior inimigo da ciência” conferidos por seus opositores.

Outros proponentes

Terence McKenna foi um admirador de filósofos tais como Paul Feyerabend e Thomas Kuhn. Ele abraçou o pluralismo metodológico mas se opôs ao monoteísmo, indo longe o bastante para definir a tradição Judeu-Cristã como ignorância.

Referências

Um comentário:

  1. Epistemologia. É sobre este pilar que todas as diferentes filosofias e a ciência se erguem. Tal é a importância deste estudo antes do homem aventurar-se em suas teorias. Penso que antes, devemos responder a seguinte pergunta: o homem pode conhecer? E mais, se existe a possibilidade do homem “conhecer” e qual a “origem” deste conhecimento.
    Penso ser esta a apreensão que nos é proposta neste texto de Eziel. É útil como uma introdução para um estudo mais profundo.
    Sem dúvida, este texto sobre a Epistemologia nos incita a curiosidade sobre este tema básico para todos.
    Parabéns e obrigado por introduzir-nos neste fascinante mundo do conhecimento.
    Um grande abraço, Eziel!

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