segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Obras de Platão


Academia de Platão

A Academia de Platão em Atenas Mosaico em Pompéia, ca. séc. I.
A Academia de Platão (também chamada de Academia Platônica, Academia de Atenas ou Academia Antiga) é uma academia fundada por Platão, aproximadamente em 384 a.C./383 a.C. em Estagira, nos jardins localizados no subúrbio de Atenas. Durante muito tempo, considerou-se a criação da Academia fora para ser uma associação religiosa consagrada às Musas, dado que as leis do Estado ateniense não contemplavam a possibilidade de um estabelecimento semelhante ao que Platão queria construir, assim o filósofo escolhe a única forma de abrir juridicamente e legalmente seu espaço: fez reconhecer sua Academia como comunidade consagrada ao culto das Musas de Apolo.

Localização

Antes da Akademia ser uma foi uma escola, e mesmo antes de Cimon cercá-las com muros, no seu terreno havia um bosque sagrado de oliveiras dedicados a Atena, a deusa da sabedoria, fora das muralhas da cidade antiga de Atenas. O nome arcaico do local era (em grego antigo: Ἑκαδήμεια Hekademia), que depois evoluiu para Akademia, esse nome foi explicado pelo menos no início do século 6 a.C., ligando-o a um herói ateniense, o lendário Academo. O local da Academia foi dedicado a Atena e a outros imortais, o local abrigou seu culto religioso desde a Idade do Bronze, um culto que foi, talvez, também associado aos herói-deuses Dioscuri (Castor e Pólux), o herói Akademos associado ao local foi creditado por ter revelado aos gêmeos divinos onde Teseu tinha escondido Helena de Troia. Por respeito à sua longa tradição e da associação com a Dioscuri, os espartanos não devastaram o bosque quando invadiram a Ática. Havia também pórticos e altares consagrados às Musas, às Graças, ao Amor, a Prometeu onde ardia a chama eterna em homenagem a Atena.

A Academia

O que mais tarde viria a ser conhecido como a escola de Platão provavelmente se originou quando Platão adquiriu a propriedade herdada com a idade de trinta anos, com encontros informais que incluiu Teeteto, Arquitas de Tarento, Leodamas de Tasos e Neoclides. De acordo com Debra Nails, Espeusipo "se juntou ao grupo cerca de 390." Ela afirma: "Até Eudoxo de Cnido chegar em meados da década de 380, Eudemo de Rhodes não reconhece formalmente a Academia". Não há registros históricos do momento exato em que a escola foi fundada oficialmente, mas estudiosos modernos geralmente concordam que foi entre 380, provavelmente em algum momento depois de 387, quando Platão supostamente retorna de sua primeira visita à Itália e Sicília. Originalmente, o local das reuniões era a propriedade de Platão, muitas vezes o ginásio próximo da Academia, o que assim permaneceu durante todo o século IV. Embora o clube Acadêmico fosse exclusivo e não aberto ao público, pelo menos durante a época de Platão, não cobrava mensalidades para a adesão. Portanto, provavelmente não havia naquela época uma "escola" no sentido de uma clara distinção entre professores e alunos, ou mesmo um currículo formal. Houve, no entanto, uma distinção entre membros seniores e juniores. Duas mulheres são conhecidas por terem estudado com Platão na Academia, Asioteia de Filos e Lastênia de Mantineia. Pelo menos durante o tempo de Platão, a escola não tinha qualquer doutrina especial para ensinar, em vez disso, Platão (e provavelmente outros associados da dele) passavam problemas a serem estudados e resolvidos pelos outros. Há evidências das aulas dadas, principalmente a palestra de Platão "Do Bem", mas, provavelmente, o uso de dialética era mais comum. De acordo com uma história não verificável, datada de cerca de 700 anos após a fundação da escola, acima da entrada para a Academia estava inscrita a frase "Que ninguém exceto os geômetras entrem aqui". Muitos imaginaram que o currículo acadêmico se assemelhava muito ao descrito em A República de Platão. Outros, porém, argumentam que tal quadro ignora os arranjos peculiares óbvios da sociedade ideal imaginada nesse diálogo. Os objetos do estudo quase certamente incluíam matemática, bem como os temas filosóficos com os quais o diálogo platônico trabalha, mas há pouca evidência confiável. Há alguma evidência para o que hoje seria considerado uma investigação estritamente científica: Simplício da Cilícia relata que Platão havia instruído os outros membros para descobrirem a explicação mais simples do observável movimento irregular dos corpos celestes: "ao hipotetizar que movimentos uniformes e ordenados são possíveis de se salvar das aparências relacionadas com os movimentos planetários". A Academia de Platão muitas vezes é dito ter sido uma escola para os futuros políticos do mundo antigo e teve muitos alunos ilustres. Em uma pesquisa recente de evidência, Malcolm Schofield, no entanto, afirmou que é difícil saber até que ponto a Academia estava interessada em política prática (ou seja, não-teórica), pois grande parte das nossas provas "reflete uma polêmica antiga a favor ou contra Platão".

História posterior da Academia

Diógenes Laércio dividiu a história da Academia em três épocas: Antiga, Média e Nova. Na liderança da Antiga, ele colocou Platão, à frente da Média Academia, Arcesilau, e na Nova Academia Lácides de Cirene. Sexto Empírico enumerou cinco divisões dos seguidores de Platão. Ele definiu Platão, o fundador da primeira Academia; Arcesilau da segunda, Carnéades da terceira, Filon de Larissa e Charmadas (ou Charmides) da quarta, Antíoco de Ascalão da quinta. Cícero (Marco Túlio Cícero) reconheceu apenas duas academias, a velha e a nova, e definiu a última começando por Arcesilau.

Academia Antiga

Os sucessores imediatos de Platão como "escolarcas" da Academia foram Espeusipo (347–339 a.C.), Xenócrates (339–314 a.C.), Polemo (314–269 BC) e Crates de Atenas (c. 269–266 a.C.). Outros membros notáveis da Academia incluem Aristóteles, Heráclides do Ponto, Eudoxo de Cnido, Filipo de Opunte e Crantor de Cilícia.

Academia Média

Cerca de 266 a.C. Arcesilau tornou-se escolarca. Sob Arcesilau (c. 266-241 a.C.), a Academia enfatizou fortemente o ceticismo Acadêmico. Arcesilau foi sucedido por Lácides de Cirene (241-215 a.C.), Evandro e Télecles (em conjunto) (. 205 - c 165 a.C.) e depois Hegésino (c. 160 a.C).

Academia Nova

A Academia Nova ou terceira começa com Carnéades, em 155 a.C., o quarto escolarca em sucessão a partir de Arcesilau. Ele ainda foi um grande cético, negando a possibilidade de se conhecer a verdade absoluta. Carnéades foi seguido por Clitômaco (129 - c 110 a.C.) e * Filon de Larissa ("o último mestre indiscutível da Academia," c 110-84 a.C.). De acordo com Jonathan Barnes, "Parece provável que Filon foi o último platônico geograficamente ligado à Academia". Cerca de 90 a.C., o então estudante de Filon, Antíoco de Ascalão começou a ensinar sua própria versão rival ao platonismo rejeitando o Ceticismo e defendendo o estoicismo, o que iniciou uma nova fase conhecida como médio platonismo.


Platonismo

O Platonismo é uma corrente filosófica baseada no pensamento de Platão. Indica a filosofia de Platão e da sua escola, isto é, os filósofos que viveram entre o século IV a.C. e a primeira metade do século I a.C. Cerca de um século depois da morte de Platão, em 348 a.C., a escola enveredou para o ceticismo sob a direção de Arciselau (século III a.C.).

A Academia de Platão

A Academia platônica assemelhava-se a uma congregação religiosa, consagrada a Apolo e às Musas. Platão afirmava a existência de uma verdade suprema: as idéias das formas ideais, eternas, imutáveis e incorruptíveis, das quais se origina o mundo sensível, tal como o percebemos, e que é sujeito ao devir, à corrupção e à morte. A Academia foi fundada por Platão em 387 a.C.. Seu nome é alusivo ao herói de guerra (Academo), que havia doado aos atenienses um terreno, nos arredores de Atenas, onde se construiu um jardim aberto ao público.
De uma maneira geral, os elementos centrais do pensamento platônico são:
  • A doutrina das idéias, onde os objetos do conhecimento se distinguem das coisas naturais;
  • A superioridade da sabedoria sobre o saber, uma espécie de objetivo político para a filosofia;
  • A Dialética, enquanto procedimento científico.

Períodos

O platonismo é geralmente dividido em três períodos:
  • Platonismo antigo propriamente dito;
  • Médio platonismo, que remonta aos séculos I-II d.C.;
  • Neoplatonismo, desenvolvido no final da Antiguidade no período helenístico: mais que um período do platonismo, é considerado por muitos como uma verdadeira corrente filosófica propriamente dita.


Esta subdivisão foi operada por estudiosos dos tempos recentes. Todos, médio ou neoplatônicos, embora ampliando e modificando o significado originário da filosofia de Platão, pretendiam estar em linha de continuidade com a doutrina do mestre. Consideravam-se sobretudo como simples exegetas, mais do que inovadores. Assim como todos os pensadores que, ao longo dos séculos, filiaram-se ao pensamento platônico (Plotino, Agostinho de Hipona, Marsílio Ficino), os neoplatônicos eram convencidos de que a verdade fosse algo que se descobria e não se inventava. Portanto o modo mais autêntico de fazer filosofia consistiria na reflexão sobre as verdades eternas, imutáveis e universais das Ideias - primeiramente descobertas por Platão. Pode-se dizer, portanto, que o platonismo foi sempre entendido pelos platônicos como uma única corrente filosófica, que sempre permaneceu fiel a si mesma, ora como forma de interpretação e reelaboração do pensamento de Platão.


A República

Página título do antigo manuscrito: Paris, Bibliothèque Nationale, Gr. 1807.
A República (em grego: Πολιτεία, transliteração Politeía) é um diálogo socrático escrito por Platão. Todo o diálogo é narrado, em primeira pessoa, por Sócrates. O tema central da obra é a justiça. No decorrer da obra é imaginada uma república na cidade de Calípole, Kallipolis, que significa "cidade bela". O diálogo tem uma extensão considerável, articulada pelos tópicos do debate e por elementos dramáticos, muitos dos tópicos foram retirados propositalmente da obra, por isso, não dando a consistência Real da obra de Platão, que é notável, escrita em contínuo por Aristóteles, identificando esse último como Monarquia dos Justos, segundo M. H. Simonsen. Exteriormente, está divido em dez livros, subdividida em capítulos e com a numeração de páginas do humanista Stéphanus da tradição manuscrita e impressa, em diversas línguas. Alguns historiadores políticos como Mario Henrique Simonsen, identificam a cidade da República por Atlântida ou Esparta antes da derrota ante Atenas, em seu livro Legitimação da Monarquia no Brasil onde são questionados os assuntos da organização social (teoria política, filosofia política), dessa forma defendendo a monarquia - imperial - esclarecida, através da aristocracia, de Maria I, a chamada Dama de Platina.

Organização da obra

A organização do diálogo em 12 seções, assinaladas no texto Grego, deve-se a estudiosos da escola alemã, sobretudo Kurt Hildebrandt e também a Francis Cornford e Eric Voegelin, e pode ser assim sumariada:



Prólogo


I.1
327a-328b
Descida ao Pireu.
I.2-I.5
328b-331d
Céfalo. Justiça segundo os mais velhos.
I.6-I.9
331e-336a
Polemarco. Justiça segundo a meia idade.
I.10-I.24
336b-354c
Trasímaco. Justiça segundo os Sofistas.
Introdução

II.1 - II.10
357a-369b
Questão: a justiça é preferível à corrupção?
Parte I

O Paradigma da Cidade-Estado (Esparta, mais provável por M.H. Simonsen)
1.II.11-II.16
369b-376e.
Origem da cidade
2.II.7-III.18
376e-412b.
Educação dos responsáveis
3.III.19-IV.5
412b-427c.
Constituição da Cidade-Estado
4.IV.6-IV.19
427c-445e.
Justiça na cidade
Parte II

A encarnação do Paradigma
5.V.1-V.16
449a-471c
Unidade somática da cidade e dos Gregos
6.V.17-VI.14
471c-502c
Governo dos filósofos
7.VI.15-VII.5
502c-521c
A ideia do Bem
8.VII.6-VII.18
521c-541b
Educação dos filósofos
Parte III

O Declínio da Cidade -Estado
9. VIII.1 -VIII.5
543a-550c
Timocracia
10. VIII.6 -VIII.9
550c-555b
Oligarquia
11. VIII.10-VIII.13
555b-562a
Demagogia
12. VIII.14-IX.3
562a-576b
Tirania
Conclusão

IX.4-IX.13
576b-592b.
Resposta. Justiça melhor que corrupção
Epílogo

X.1-X.8
595a-608b.
Rejeição da arte mimética
X.9-X.11
608b-612a
Imortalidade da alma
X.12
612a-613e
Recompensa dos Justos em vida
X.13-X.16
613e-631d
Julgamento dos mortos


A ordem da cidade é uma incorporação na realidade histórica da ideia do bem, o agathon. A incorporação deve ser levada a cabo pela pessoa que contemplou o agathon e deixou que a sua consciência fosse ordenada pela visão, o filósofo. Na parte central do diálogo, Platão trata do governo dos filósofos e da visão do Bem, na famosa Alegoria da Caverna. A parte central é antecedida e seguida pelo debate dos meios que asseguram a substância fisiológica e anímica adequada a uma cidade bem ordenada. A Parte II trata do casamento, da comunidade de bens mulheres e filhos entre os guardiões e das restrições da guerra entre os Gregos. A Parte II,4 trata da educação filosófica dos governantes que irão preservar a ordem na existência. A Parte II, a incorporação da Paradigma é precedida pela construção genética da ordem justa para a cidade na Parte I; e é seguida pela análise na Parte III das fases do declínio sofrido pela ordem justa após a sua instauração. As três partes em conjunto formam o corpo principal do diálogo com a discussão da ordem justa, a incorporação, a sua gênese e o seu declínio. O conjunto das três partes é enquadrado por uma Introdução e uma Conclusão. O debate da ordem justa surge a propósito da questão sobre se a justiça é melhor que a injustiça ou se o homem injusto terá uma vida mais regalada que a do justo. Após a questão e o debate prolongado sobre a ordem justa, surge a resposta conclusiva de que a justiça é preferível à corrupção. O corpo principal do diálogo bem como a introdução e conclusão são enquadrados pelo prólogo que constitui um curto diálogo aporético sobre a justiça em que se debatem as opiniões correntes doxai e o epílogo que levanta questões respondidas com o mito da salvação. A República usa uma argumentação dialética. O pensamento dialético caracteriza-se por apreender a realidade à luz de posições contraditórias, entre Platão do Mestre e Aristóteles, discípulo, vide M.H.Simonsen, uma das quais acaba por ser compreendida como verdadeira e a outra falsa, a verdade suplantando a mentira pela síntese. A imagem correspondente é a do confronto entre luz, sol, claridade e trevas, escuridão e caverna. Ou seja a Hipótese, o Desenvolvimento, a Tese, a Antítese, a Dialética e finalmente a Síntese de Aristóteles A dialética ascendente apresenta a ideia por confronto com os pontos de partida empíricos; a dialética descendente verifica a Corrupção da idéia devido à sua incorporação numa situação empírica, prática em Esparta e no reinado de Alexandre o Magno. É particularmente interessante notar como as ideias do livro viriam a influenciar os autores posteriores, entre os chamados Césares e/ou Monarcas do Império Romano.


Teoria das Idéias

A teoria das idéias ou teoria das formas é um corpo de conceitos filosóficos criado por Platão, na Grécia Antiga. Esta teoria assevera que a realidade mais fundamental é composta de ideias ou formas abstratas, mas substanciais. Para ele estas ideias ou formas são os únicos objetos passíveis de oferecer verdadeiro conhecimento. A teoria foi desenvolvida em vários de seus diálogos como uma tentativa de resolver o problema dos universais. As idéias ou formas residiriam no mundo inteligível, fora do tempo e do espaço, e não no mundo sensível ou material. Sua natureza era perene e imutável. Os objetos do mundo comum organizam suas estruturas conformes a estas idéias ou formas primordiais, mas não são capazes de revelá-las em sua plenitude, sendo apenas imitações imperfeitas. Também princípios abstratos eram considerados idéias ou formas segundo esta teoria, tais como igualdade, diferença, movimento e repouso. A formulação da teoria era intuitiva, e suas limitações foram analisadas pelo próprio Platão no diálogo Parmenides.


Alegoria da Caverna

A alegoria da caverna, também conhecido como parábola da caverna, mito da caverna ou prisioneiros da caverna, foi escrito por Platão e encontra-se na obra intitulada no Livro VII de A República. Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade, onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal.

Alegoria da caverna

Ilustração da Alegoria da Caverna.
Imaginemos todos os muros bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali. Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade. Imagine que um dos prisioneiros consiga se libertar e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza. Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomarão por louco e inventor de mentiras. Platão não buscava as verdadeiras essências na simples Phýsis, como buscavam Demócrito e seus seguidores. Sob a influência de Sócrates, ele buscava a essência das coisas para além do mundo sensível. E o personagem da caverna, que por acaso se liberte, como Sócrates correria o risco de ser morto por expressar seu pensamento e querer mostrar um mundo totalmente diferente. Transpondo para a nossa realidade, é como se você acreditasse, desde que nasceu, que o mundo é de determinado modo, e então vem alguém e diz que quase tudo aquilo é falso, é parcial, e tenta te mostrar novos conceitos, totalmente diferentes. Foi justamente por razões como essa que Sócrates foi morto pelos cidadãos de Atenas, inspirando Platão à escrita da Alegoria da Caverna pela qual Platão nos convida a imaginar que as coisas se passassem, na existência humana, comparavelmente à situação da caverna: ilusoriamente, com os homens acorrentados a falsas crenças, preconceitos, ideias enganosas e, por isso tudo, inertes em suas poucas possibilidades. A partir da leitura do Mito da Caverna, é possível fazer uma reflexão extremamente proveitosa e resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além disso, ajuda na formulação do senso crítico e é um ótimo exercício de interpretação de texto.

O diálogo de Sócrates e Glauco


Trata-se de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade.
Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco – Estou vendo.
Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates — Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco — Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates — E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco — Sem dúvida.
Sócrates — Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco — É bem possível.
Sócrates — E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco — Sim, por Zeus!
Sócrates — Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco — Assim terá de ser.
Sócrates — Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco - Muito mais verdadeiras.
Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco - Com toda a certeza.
Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco - Concordo.
Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco - Por certo que sim.
Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida.
Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.
Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.
(Platão. A República. Livro VII).

Interpretação da alegoria


O mito da caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz respeito à importância do conhecimento filosófico e à educação como forma de superação da ignorância, isto é, a passagem gradativa do senso comum enquanto visão de mundo e explicação da realidade para o conhecimento filosófico, que é racional, sistemático e organizado, que busca as respostas não no acaso, mas na causalidade. Segundo a metáfora de Platão, o processo para a obtenção da consciência, isto é, do conhecimento abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis (eikasia e pístis) e o domínio das idéias (diánoia e nóesis). Para o filósofo, a realidade está no mundo das idéias - um mundo real e verdadeiro - e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo das coisas sensíveis - este mundo -, no grau da apreensão de imagens (eikasia), as quais são mutáveis, não são perfeitas como as coisas no mundo das ideias e, por isso, não são objetos suficientemente bons para gerar conhecimento perfeito.

Exemplos

Este tema - realidade ou aparência - foi retomado ao longo da história da cultura ocidental por muitos filósofos e alguns escritores, embora com perspectivas distintas. Um deles Calderón de la Barca na obra A Vida é um Sonho. Exemplos mais modernos podem ser a série Persons Unknown, o livro Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), o filme Matrix (Irmãos Wachowski, 1999) e também A Ilha livro de (Aldous Huxley), dirigido no cinema por Michael Bay de 2005. Outro autor que utilizou, parodicamente, essa parábola platônica foi o autor José Saramago, em seu livro A Caverna.


Epistemologia platônica

A epistemologia platônica sustenta que o conhecimento é inato, de tal modo que a aprendizagem seria o desenvolvimento das idéias escondidas na alma, que aflorariam como resultado de um interrogatório amistoso. Platão acreditava que a alma existia antes do nascimento sob a "forma de Deus", com perfeito conhecimento de tudo. Assim, quando algo é aprendido, na verdade é apenas "lembrado".

Mito da caverna

No seu mais famoso diálogo, A República, Platão faz uma analogia entre as sensações humanas e as sombras que são projetadas no fundo de uma caverna - uma alegoria conhecida como Mito da Caverna.


Referências

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