segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Biografia de Camilo Castelo Branco


Camilo Castelo Branco, gravura de Francisco Pastor.
Camilo Castelo Branco. (Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco). Nasceu em Lisboa, Encarnação, a 16 de Março de 1825, e, faleceu em Vila Nova de Famalicão, São Miguel de Seide, a 1 de Junho de 1890. Camilo Castelo Branco foi um escritor português, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor. Foi ainda o 1.º visconde de Correia Botelho, título concedido pelo rei D. Luís.




“Numa viagem de São Miguel de Seide para o Porto sofreu um descarrilamento de trem, de que resultou um traumatismo que terminou pela cegueira: a morte de uma neta sua de três anos de idade feriu-o de um desalento invencível; a loucura irremediável de seu filho Jorge, e os desvarios perdulários de Nuno, seu primogênito, acabaram por precipitá-lo num desespero que lhe sugeriu a libertação pelo suicídio”. Órfão de mãe nos nos primeiros meses de vida, foi amamentado por uma pobre mulher mercenária de Coimbra; e não tinha ainda nove anos de idade quando perdeu o pai (1834). Nas Memórias do Cárcere o escritor alude à sua infância tormentosa, quando foi mandado para Vila Real, “a minha primeira paragem depois que a orfandade aos nove anos, com a sua escolta de infortúnios começou a andar comigo de inferno em inferno”. Casou-se aos dezesseis anos de idade (1841). Acuado por dificuldades financeiras (por esse tempo escrevia versos satíricos e burlescos, com que ganhava algum dinheiro), em 1843 matriculou-se na Escola Médica Portuense. Em 1850, escreveu seu primeiro romance, O Anátema. Diz um de seus biógrafos: “Profundos desfalecimentos repentinamente o assaltavam, e em uma dessas crises freqüenta os estudos teológicos no seminário episcopal, de 1850 a 1852, requerendo em 17 de Março desse a no para tomar ordens menores. Uma nova sobreexcitação atrai-o outra vez para o mundo; congraça-se com a forma do drama escrevendo os Espinhos e Flores, e colaborando com artigos religiosos no jornal A Cruz, absorve-se na elaboração do romance. Esta feição literária ultra-romântica acentua-se nos Mistérios de Lisboa, de 1853, no Livro Negro do Padre Diniz, e na Filha do Arcediago, de 1855. Passara-lhe pela mente uma aventura: ir para o Brasil; porém, a aspiração literária dá-lhe já um apoio na vida, em que se equilibra, entregando-se de alma e coração à concepção dos seus romances de costumes portugueses; de 1856 a 1857 ausenta-se do Porto, confina-se em Viana do Castelo, onde escreve os romances Carlota Ângela, as Cenas Contemporâneas, e a obra-prima da sua fase, Onde Está a Felicidade. Em 1862, publicou as Memórias do Cárcere; o Coração, Cabeça e Estômago, as Coisas Espantosas, Estrelas Funestas, As Três Irmãs, brilhando acima de todas o Amor de Perdição. É o período mais intenso da sua atividade; somente em 1863 publicou as Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado, O Bem e o Mal, Estrelas Propícias, A Bruxa do Monte Córdova, Memórias de Guilherme do Amaral, Noites de Lamego, Cenas Inocentes da Comédia Humana e a Vingança. Em 1864, publica o Amor de Salvação, Agulha em Palheiro, Coisas Leves e Pesadas. Em 1865, produz O Esqueleto, a Luta de Gigantes e A Sereia. Em 1866, A Enjeitada, O Judeu, A Queda dum Anjo, O Santo da Montanha e A Doida do Candal, não enumerando os livros arranjados dos seus artigos esparsos. À medida qua a idade avançava, Camilo propendia para a erudição histórica e genealógica, como o indicam os seus livros Cavar em Ruínas, Mosaico, Sentimentalismo e História, Narcóticos e Curso de Literatura. Retirando-se para a Quinta de São Miguel de Seide, ali permaneceu até a morte”.
 

Busto de Camilo em Seide, Famalicão, Portugal.
Camilo Castelo Branco foi um dos escritores mais prolíferos e marcantes da literatura portuguesa. Há quem diga que, em 1846, foi iniciado na Maçonaria do Norte, o que é muito estranho ou algo contraditório, pois há indicações de que, pela mesma altura, na Revolta da Maria da Fonte, lutava a favor dos Miguelistas, que criaram a Ordem de São Miguel da Ala precisamente para combater a Maçonaria. Do mesmo modo, muita da sua literatura demonstra defender os ideais legitimistas e conservadores ou tradicionais, desaprovando os que lhe são contrários. Teve uma vida atribulada, que lhe serviu muitas vezes de inspiração para as suas novelas. Foi o primeiro escritor de língua portuguesa a viver exclusivamente dos seus escritos literários. Apesar de ter de escrever para o público, sujeitando-se assim aos ditames da moda, conseguiu manter uma escrita muito original.



Biografia



Vida

Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, no Largo do Carmo, a 16 de Março de 1825. Oriundo de uma família da aristocracia de província com distante ascendência cristã-nova, era filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco,
Camilo C. Branco
nascido na casa dos Correia Botelho em São Dinis, Vila Real, a 17 de Agosto de 1778 e que teve uma vida errante entre Vila Real, Viseu e Lisboa, onde faleceu a 22 de Dezembro de 1890, tomado de amores por Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira (Sesimbra, Santiago, 27 de Janeiro de 1799 - 6 de Fevereiro de 1827), com quem não se casou mas de quem teve os seus dois filhos. Camilo foi assim perfilhado por seu pai em 1829, como “filho de mãe incógnita”. Ficou órfão de mãe quando tinha um ano de idade e de pai aos dez anos, o que lhe criou um caráter de eterna insatisfação com a vida. Foi recolhido por uma tia de Vila Real e, depois, por uma irmã mais velha, Carolina Rita Botelho Castelo Branco, nascida em Lisboa, Socorro, a 24 de Março de 1821, em Vilarinho de Samardã, em 1839, recebendo uma educação irregular através de dois Padres de província. Na adolescência, formou-se lendo os clássicos portugueses e latinos e literatura eclesiástica e contactando a vida ao ar livre transmontana. Com apenas 16 anos (18 de Agosto de 1841), casa-se em Ribeira de Pena, Salvador, com Joaquina Pereira de França (Gondomar, São Cosme, 23 de Novembro de 1826 - Ribeira de Pena, Friúme, 25 de Setembro de 1847), filha de lavradores, Sebastião Martins dos Santos, de Gondomar, São Cosme, e Maria Pereira de França, e instala-se em Friúme. O casamento precoce parece ter resultado de uma mera paixão juvenil e não resistiu muito tempo. No ano seguinte, prepara-se para ingressar na Universidade, indo estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha. O seu caráter instável, irrequieto e irreverente leva-o a amores tumultuosos (Patrícia Emília do Carmo de Barros (Vila Real, 1826 - 15 de Fevereiro de 1885), filha de Luís Moreira da Fonseca e de sua mulher Maria José Rodrigues, e a Freira Isabel Cândida). Ainda a viver com Patrícia Emília do Carmo de Barros, Camilo publicou n'O Nacional correspondências contra José Cabral Teixeira de Morais, Governador Civil de Vila Real, com quem colaborava como amanuense. Esse posto, segundo alguns biógrafos, surge a convite após a sua participação na Revolta da Maria da Fonte, em 1846, em que terá combatido ao lado da guerrilha Miguelista. Devido a esta desavença, é espancado pelo “Olhos-de-Boi”, capanga do Governador Civil. As suas irreverentes correspondências jornalísticas valeram-lhe, em 1848, nova agressão a cargo de Caçadores. Camilo abandona Patrícia nesse mesmo ano, fugindo para casa da irmã, residente agora em Covas do Douro. Tenta então, no Porto, o curso de Medicina, que não conclui, optando
Ana Plácido
depois por Direito. A partir de 1848, faz uma vida de boêmia repleta de paixões, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses e dedicando-se entretanto ao jornalismo. Em 1850, toma parte na polêmica entre Alexandre Herculano e o clero, publicando o opúsculo O Clero e o Sr. Alexandre Herculano, defesa que desagradou a Herculano. Apaixona-se por Ana Augusta Vieira Plácido e, quando esta se casa, em 1850, tem uma crise de misticismo, chegando a frequentar o seminário, que abandona em 1852. Ana Plácido tornara-se mulher do negociante Manuel Pinheiro Alves, um brasileiro que o inspira como personagem em algumas das suas novelas, muitas vezes com caráter depreciativo. Camilo seduz e rapta Ana Plácido. Depois de algum tempo a monte, são capturados e julgados pelas autoridades. Naquela época, o caso emocionou a opinião pública, pelo seu conteúdo tipicamente romântico de amor contrariado, à revelia das convenções e imposições sociais. Foram ambos enviados para a Cadeia da Relação, no Porto,
Manuel Plácido Alves
onde Camilo conheceu e fez amizade com o famoso salteador Zé do Telhado. Com base nesta experiência, escreveu Memórias do Cárcere. Depois de absolvidos do crime de adultério pelo Juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós (pai de José Maria de Eça de Queirós), Camilo e Ana Plácido passaram a viver juntos, contando ele 38 anos de idade. Entretanto, Ana Plácido tem um filho, supostamente gerado pelo seu antigo marido, que foi seguido por mais dois de Camilo. Com uma família tão numerosa para sustentar, Camilo começa a escrever a um ritmo alucinante. Quando o ex-marido de Ana Plácido falece, a 15 de Julho de 1863, o casal vai viver para uma casa, em São Miguel de Seide, que o filho do comerciante recebera por herança do pai. Em Fevereiro de 1869, recebeu do governo da Espanha a comenda de Carlos III. Em 1870, devido a problemas de saúde, Camilo vai viver para Vila do Conde, onde se mantém até 1871. Foi aí que escreveu a peça de teatro O Condenado (representada no Porto em 1871), bem como inúmeros poemas, crônicas, artigos de opinião e traduções. Outras obras de Camilo estão associadas a Vila do Conde. Na obra A Filha do Arcediago, relata a passagem de uma noite do arcediago, com um exército, numa estalagem conhecida por Estalagem das Pulgas, outrora pertencente ao Mosteiro de São Simão da Junqueira e situada no lugar de Casal de Pedro, freguesia da Junqueira. Camilo dedicou ainda o romance A Enjeitada a um ilustre vilacondense seu conhecido,
Nuno Plácido
o Dr. Manuel Costa. Entre 1873 e 1890, Camilo deslocou-se regularmente à vizinha Póvoa de Varzim, perdendo-se no jogo e escrevendo parte da sua obra no antigo Hotel Luso-Brazileiro, junto do Largo do Café Chinês. Reunia-se com personalidades de notoriedade intelectual e social, como o pai de Eça de Queirós, José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, magistrado e Par do Reino, o poeta e dramaturgo poveiro Francisco Gomes de Amorim, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, entre outros. Sempre que vinha à Póvoa, convivia regularmente com o Visconde de Azevedo (Francisco Lopes de Azevedo Velho da Fonseca) no Solar dos Carneiros. Francisco Peixoto de Bourbon conta que Camilo, na Póvoa, “tendo andado metido com uma bailarina espanhola, cheia de salero, e tendo gasto, com a manutenção da diva, mais do que permitiam as suas posses, acabou por recorrer ao jogo na esperança de multiplicar o anêmico pecúlio e acabou, como é de regra, por tudo perder e haver contraído uma dívida de jogo, que então se chamava uma dívida de honra”. A 17 de Setembro de 1877, Camilo viu morrer na Póvoa de Varzim, aos 19 anos, o seu filho predileto, Manuel Plácido Pinheiro Alves, do segundo
Jorge Camilo
casamento com Ana Plácido, que foi sepultado no cemitério do Largo das Dores. Camilo era conhecido pelo mau feitio. Na Póvoa mostrou outro lado. Conta António Cabral, nas páginas d' “O Primeiro de Janeiro” de 3 de Junho de 1890: “No mesmo hotel em que estava Camilo, achava-se um medíocre pintor espanhol, que perdera no jogo da roleta o dinheiro que levava. Havia três semanas que o pintor não pagava a conta do hotel, e a dona, uma tal Ernestina, ex-atriz, pouco satisfeita com o procedimento do hóspede, escolheu um dia a hora do jantar para o despedir, explicando ali, sem nenhum gênero de reservas, o motivo que a obrigava a proceder assim. Camilo ouviu o mandado de despejo, brutalmente dirigido ao pintor. Quando a inflexível hospedeira acabou de falar, levantou-se, no meio dos outros hóspedes, e disse: - A D. Ernestina é injusta. Eu trouxe do Porto cem mil reis que me mandaram entregar a esse senhor e ainda não o tinha feito por esquecimento. Desempenho-me agora da minha missão. E, puxando por cem mil reis em notas entregou-as ao pintor. O Espanhol, surpreendido com aquela intervenção que estava longe de esperar, não achou uma palavra para responder. Duas lágrimas, porém, lhe deslizaram silenciosas pelas faces, como única demonstração de reconhecimento”. Em 1885 é-lhe concedido o título de 1.º Visconde de Correia Botelho. A 9 de Março de 1888, casa-se finalmente com Ana Plácido. Camilo passa os últimos anos da vida ao lado dela, não encontrando a estabilidade emocional por que ansiava. As dificuldades financeiras, a doença e os filhos incapazes (considera Nuno um desatinado e Jorge um louco) dão-lhe enormes preocupações.




Sífilis, cegueira e suicídio



Desde 1865 que Camilo começara a sofrer de graves problemas visuais (diplopia e cegueira noturna). Era um dos sintomas da temida neurosífilis, o estado terciário da sífilis ("venéreo inveterado", como escreveu em 1866 a José Barbosa e Silva), que além de outros problemas neurológicos lhe provocava uma cegueira, aflitivamente progressiva e crescente, que lhe ia atrofiando o nervo óptico, impedindo-o de ler e de trabalhar capazmente, mergulhando-o cada vez mais nas trevas e num desespero suicidário. Ao longo dos anos, Camilo consultou os melhores especialistas em busca de uma cura, mas em vão. A 21 de Maio de 1890, dita esta carta ao então famoso oftalmologista aveirense, Dr. Edmundo de Magalhães Machado:



Illmo. e Exmo. Sr.,
Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa n’este país durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas. Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Exa. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V. Exa. salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso. Mas poderá V. Exa. dizer-me o que devo esperar d’esta irrupção sanguínea n’uns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue? Digne-se V. Exa. perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimônia por um homem que não conhece.
Camilo Castelo Branco



A 1 de Junho desse ano, o Dr. Magalhães Machado visita o escritor em Seide. Depois de lhe examinar os olhos condenados, o médico com alguma diplomacia, recomenda-lhe o descanso numas termas e depois, mais tarde, talvez se poderia falar num eventual tratamento. Quando Ana Plácido acompanhava o médico até à porta, eram três horas e um quarto da tarde, sentado na sua cadeira de balanço, desenganado e completamente desalentado, Camilo Castelo Branco disparou um tiro de revólver na têmpora direita. Mesmo assim, sobreviveu em coma agonizante até às cinco da tarde. A 3 de Junho, às seis da tarde, o seu cadáver chegava de comboio ao Porto e no dia seguinte, conforme o seu pedido, foi sepultado perpetuamente no jazigo de um amigo, João António de Freitas Fortuna, no cemitério da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa.



Casa de Camilo Castelo Branco



Casa de Camilo

Cama de Camilo

Relógio

Canapé

Sala

Cântaro

Sala de jantar

Escritório

Armadilha para moscas

Escritório

Cozinha

Retrato de Maria Isabel da Costa Macedo



Descendência



Filhos do primeiro casamento:



  • Rosa Pereira de França Botelho Castelo Branco (Ribeira de Pena, Friume, 25 de Agosto de 1843 - 10 de Março de 1848).


Filhos do segundo casamento:



  • Manuel Plácido Pinheiro Alves (Porto, 11 de Agosto de 1858 - Póvoa de Varzim, Póvoa de Varzim, 17 de Setembro de 1877).
  • Jorge Camilo Plácido Castelo Branco (Lisboa, 26 de Junho de 1863 - 10 de Setembro de 1900).
  • Nuno Plácido Castelo Branco (Vila Nova de Famalicão, São Miguel de Seide, 15 de Setembro de 1864), 1.º Visconde de São Miguel de Seide.



Filha natural de Camilo Castelo Branco e de Patrícia Emília do Carmo de Barros:

  • Bernardina Amélia Castelo Branco (Vila Real, São Pedro, 25 de Junho de 1848), casada em Valbom a 28 de Dezembro de 1865 com António Francisco de Carvalho, do Porto, filho de António Francisco de Carvalho Guimarães e de sua mulher Ana de Sousa Loureiro e Oliveira, de quem houve descendência.



Pseudônimos




Durante quase 40 anos, entre 1851 e 1890, escreveu mais de duzentas e sessenta obras, com a média superior a 6 por ano. Prolífico e fecundo escritor, deixou obras de referência na literatura portuguesa. Apesar de toda essa fecundidade, Camilo Castelo Branco não permitiu que a intensa produção prejudicasse a sua beleza idiomática ou mesmo a dimensão do seu vernáculo, transformando-o numa das maiores expressões artísticas e a sua figura num mestre da língua portuguesa. Além dos vários romances, deixou um legado enorme de textos inéditos, comédias, folhetins, poesias, ensaios, prefácios, traduções e cartas – tudo com assinatura própria ou os menos conhecidos pseudônimos, tais como:



  • Manoel Coco
  • Saragoçano
  • A.E.I.O.U.Y
  • Árqui-Zero
  • Anastácio das Lombrigas



Camilo: Realismo ou Romantismo?




Almeida Garrett. (Imagem: Joseolgon).
Terá sido Camilo Castelo Branco predominantemente romântica. Parece incontestável. No entanto, não o é totalmente. Camilo gostaria de se situar acima das escolas literárias. Mas os modelos clássicos vão ter sempre peso na sua produção literária, embora também se deixe impressionar pela literatura misteriosa e macabra de Ann Radcliffe. Foi imensamente influenciado por Almeida Garrett. Contudo, a fidelidade à linguagem e aos costumes populares, ao cheiro do torrão (como aponta Jacinto do Prado Coelho), vai permanecer como uma das suas maiores qualidades. A crítica tem apontado que, se por um lado Camilo, nos enredos das suas novelas, com as suas peripécias mais ou menos rocambolescas, está claramente numa filiação romântica, por outro lado, nas explicações psicológicas, na maneira como analisa os sentimentos e ações das personagens, pelas justificações e explicações dos acontecimentos, pela crítica a determinado tipo de educação, não pode ser considerado simplesmente como romântico. Jacinto do Prado Coelho considera-o “ideologicamente flutuante […] Camilo mantém-se um narrador de histórias românticas ou romanescas com lances empolgantes e situações humanas comoventes” e também diz que “o romantismo de Camilo é um romantismo em boa parte dominado, contido, classicizado” e que há ao “lado do seu alto idealismo romântico a viril contenção da prosa, um bom-senso ligado às tradições e a certo cânones clássicos, um realismo sui generis, de vocação pessoal que parece na razão direta da autenticidade do seu romantismo”. Eça de Queiroz publica a primeira versão de O Crime do Padre Amaro, já depois da sua exposição nas Conferências do Casino acerca do realismo como nova expressão da arte. Isso faz com que Camilo, de certa maneira sentindo-se a perder terreno para o único prosador que podia ser seu rival, enverede em duas novelas, Eusébio Macário e A Brasileira de Prazins, para tentar ser mais realista. E o que é mais extremado do que o realismo? O naturalismo. O resultado é de um certo efeito cômico, porque Camilo, com a sua particular maneira de escrever, não se contém e acaba por fazer uma paródia do naturalismo. No prefácio de Eusébio Macário, Camilo afirma que não tentou ridicularizar a escola realista e alega: “[…] tenho sido realista sem o saber. Nada me impede de continuar”. E ainda: “Eu não conhecia Zola; foi uma pessoa da minha família que me fez compreender a escola com duas palavras: "É a tua velha escola com uma adjetivação de casta estrangeira, e uma profusão de ciência (…) Além disso tens de pôr a fisiologia onde os românticos punham a sentimentalidade: derivar a moral das bossas, e subordinar à fatalidade o que, pelos velhos processos, se imputava à educação e à responsabilidade" compreendi e achei eu, há vinte e cinco anos, já assim pensava, quando Balzac tinha em mim o mais inábil dos discípulos”. Portanto: Camilo tenta apanhar o comboio da nova escola realista e fá-lo de uma maneira que não é isenta de chacota.


Temas recorrentes em Camilo


  • a bastardia
  • a orfandade
  • os direitos do coração por oposição às convenções sociais
  • as relações familiares
  • o sentido metafísico de raiz cristã
  • o anticlericalismo


Principais obras


  • Maria Moisés
  • Anátema (1851)
  • Mistérios de Lisboa (1854)
  • A Filha do Arcediago (1854)
  • Livro negro do Padre Dinis (1855)
  • A Neta do Arcediago (1856)
  • Onde Está a Felicidade? (1856)
  • Um Homem de Brios (1856)
  • O Sarcófago de Inês (1856)
  • Lágrimas Abençoadas (1857)
  • Cenas da Foz (1857)
  • Carlota Ângela (1858)
  • Vingança (1858)
  • O Que Fazem Mulheres (1858)
  • O Morgado de Fafe em Lisboa (Teatro, 1861)
  • Doze Casamentos Felizes (1861)
  • O Romance de um Homem Rico (1861)
  • As Três Irmãs (1862)
  • Amor de Perdição (1862)
  • Memórias do Carcere (1862)
  • Coisas Espantosas (1862)
  • Coração, Cabeça e Estômago (1862)
  • Estrelas Funestas (1862)
  • Cenas Contemporâneas (1862)
  • Anos de Prosa (1863)
    • A Gratidão (incluído no volume Anos de Prosa)
    • O Arrependimento (incluído no volume Anos de Prosa)
  • Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado (1863)
  • O Bem e o Mal (1863)
  • Estrelas Propícias (1863)
  • Memórias de Guilherme do Amaral (1863)
  • Agulha em Palheiro (1863)
  • Amor de Salvação (1864)
  • A Filha do Doutor Negro (1864)
  • Vinte Horas de Liteira (1864)
  • O Esqueleto (1865)
  • A Sereia (1865)
  • A Enjeitada (1866)
  • O Judeu (1866)
  • O Olho de Vidro (1866)
  • A Queda dum Anjo (1866)
  • O Santo da Montanha (1866)
  • A Bruxa do Monte Córdova (1867)
  • A doida do Candal (1867)
  • Os Mistérios de Fafe (1868)
  • O Retrato de Ricardina (1868)
  • Os Brilhantes do Brasileiro (1869)
  • A Mulher Fatal (1870)
  • Livro de Consolação (1872)
  • A Infanta Capelista (1872) (conhecem-se apenas 3 exemplares deste romance porque D. Pedro II, imperador do Brasil, pediu a Camilo para não o publicar, uma vez que versava sobre um familiar da Família Real Portuguesa e da Família Imperial Brasileira)
  • O Carrasco de Victor Hugo José Alves (1872)
  • O Regicida (1874)
  • A Filha do Regicida (1875)
  • A Caveira da Mártir (1876)
  • Novelas do Minho (1875-1877)
  • A viúva do enforcado (1877)
  • Eusébio Macário (1879)
  • A Corja (1880)
  • A senhora Rattazzi (1880)
  • A Brasileira de Prazins (1882)
  • O Assassino de Macario
  • D. Antonio Alves Martins: bispo de Vizeu
  • Folhas Caídas
  • O General Carlos Ribeiro
  • Luiz de Camões
  • Sá de Miranda
  • Salve, Rei!
  • Suicida
  • O vinho do Porto (1884)
  • Vulcões de Lama (1886)
  • Voltareis ó Cristo?
  • Theatro comico: A Morgadinha de Val d'Amores; Entre a flauta e a Viola
  • A espada de Alexandre
  • O Condemnado: drama / Como os anjos se vingam: drama
  • Nas Trevas: Sonetos sentimentais e humorísticos
  • O clero e o sr. Alexandre Herculano (1850)


Citações de Camilo Castelo Branco



  • "O amor é uma luz que não deixa escurecer a vida”.

- "Lágrimas Abençoadas", Livro I, Capítulo XXIV (veja wikisource)

  • "Nos livros aprendi a fugir ao mal sem o experimentar".

- O bem e o mal: romance - Página 19, de Camilo Castelo Branco - Publicado por A.M. Pereira, 1926 - 245 páginas

  • "A candura nem sempre é bela”.

- "Coração, cabeça e estômago: romance" - Página 49, de Camilo Castelo Branco, Adolfo Casais Monteiro - Publicado por Editora Civilização Brasileira, 1961 - 172 páginas

  • "O amor quer o monopólio das faculdades da alma".

- Obras de Camilo Castelo Branco: A sereia. 6. ed., página 157, Volume 73 de Obras de Camilo Castelo Branco, Camilo Castelo Branco, Camilo Castelo Branco, Editora Parceria A. M. Pereira, 1965

  • "Os dias prósperos não vêm acaso; são granjeados, como as searas, com muita fadiga e com muitos intervalos de desalento".

- Obras - Volume 31 - Página 89, Camilo Castelo Branco - Parceria A.M. Pereira., 1965


Referências





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