sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Biografia do General Aníbal (parte 6/6)


Conclusão da Segunda Guerra Púnica (203-201)

O retorno de Aníbal

No outono de 203 a.C., antes de Aníbal deixar a
Aníbal
Itália, os termos de um tratado proposto por Cipião aos cartagineses já haviam sido aceitos por eles e enviados a Roma para discussão. Em vista da longa amargura da guerra, e da desolação que causaram a grandes regiões da Itália, foram moderados. Primeiramente, todas as forças cartaginesas deveriam deixar a Itália, e a Hispânia deveria ser abandonada. Todos os desertores, escravos fugitivos e prisioneiros de guerra deveriam ser enviados de volta a Roma. Todos os navios de guerra cartagineses, exceto vinte, deveriam ser entregues. Uma quantidade muito grande de trigo e cevada seria fornecida para alimentar as tropas romanas e, finalmente, uma pesada indenização seria paga. Não é surpresa que Cartago aceitasse tais termos, que eram favoráveis se comparados aos da Primeira Guerra Púnica, e um armistício fosse concluído, restando uma ratificação do tratado por parte de Roma. Cipião também enviou Massinissa para Roma em companhia de Lélio, o primeiro para obter o reconhecimento de seu reinado númida e o outro, que conhecia as ideias de Cipião Africano, para aumentar os termos propostos e agir como porta-voz dos interesses de Cipião no tratado. É significativo que Masinissa fosse a Roma para a confirmação de seu reinado. No passado, Cartago havia sido o centro natural de autoridade para todos os reis locais e suas tribos. A ação de Cipião Africano já havia garantido o domínio de Roma sobre a África do Norte. Mais ainda, ele presenteava seus inimigos fabianos com um fait accompli[fato consumado], e tornava Roma responsável pelos assuntos norte-africanos. No mesmo ano em que Aníbal deixou a Itália, seu velho e honorável oponente Quinto Fábio Máximo faleceu, o homem que havia feito mais do que qualquer outro para ensinar aos romanos que o único modo de desgastar — e finalmente derrotar — tamanho gênio militar era à maneira do "Protelador". Os romanos, exceto em umas poucas desastrosas ocasiões, haviam seguido os seus preceitos até manter Aníbal confinado na selvagem terra do sul, e, por fim, em uma estreita área ao redor de Crotone. A notícia de que Aníbal havia finalmente deixado sua terra naturalmente trouxe regozijo a Roma e uma efusão de esperança, mas ainda persistia uma grande ansiedade, como relata Lívio: “Os homens não sabiam se começavam a regozijar-se por Aníbal ter-se retirado da Itália após dezesseis anos, deixando o povo romano livre para apossar-se dela, ou se ficavam ainda apreensivos com o fato de ele ter seguido para a África com seu exército intacto. Sem dúvida, mudara o local, pensavam eles, mas não o perigo. Prenunciando aquele poderoso conflito, Quinto Fábio Máximo, recentemente falecido, havia frequentemente predito, não sem razão, que em sua própria terra Aníbal seria um inimigo mais terrível do que em um país estrangeiro. E Cipião teria que lidar (…) com Aníbal, que nascera, pode-se dizer, no quartel-general de seu pai, o mais bravo dos generais, e fora criado e educado em meio às armas; aquele que ainda na infância já era um soldado e na tenra mocidade um general; que, envelhecendo como um vitorioso [Aníbal tinha cerca de quarenta e cinco anos], havia coberto as terras espanholas e gálicas, e a Itália dos Alpes aos Estreitos, com a evidência de suas poderosas façanhas. Ele estava no comando de um exército cujas campanhas se igualavam às suas próprias em quantidade; endurecera-se por esforços tão grandes que dificilmente pode-se acreditar que seres humanos tivessem resistido; havia sido salpicado por sangue romano centenas de vezes e carregado os espólios, não só de soldados -mas de generais. Muitos homens que enfrentariam Cipião em batalha haviam matado com suas próprias mãos pretores, generais comandantes, cônsules romanos; haviam sido condecorados com coroas por bravura ao escalar muralhas de cidades e de acampamentos protegidos; haviam vagueado por campos e cidades capturadas dos romanos. Todos os magistrados do povo romano juntos não tinham, naqueles tempos, tantas faces (símbolos de autoridade) quanto Aníbal poderia ostentar à sua frente, por tê-los capturado de generais caídos”. [Tito Lívio]. Esse relato, ao mesmo tempo que revela o grande pavor que Aníbal ainda infligia aos romanos, engana-se na descrição de seu exército. Lívio, ou suas fontes, fala do exército que marchou pelos Alpes, e que há muito tinha desaparecido. Aníbal agora tinha sob seu comando a esfarrapada e mista força que ocupara Crotone durante os poucos anos passa dos. Todavia, sua chegada à África, trazendo qualquer exército que fosse, teve tanto efeito sobre o moral cartaginês que o partido bárcida começou quase imediatamente a buscar um recomeço da guerra. Aníbal desembarcou em Léptis, perto de Adrumeto, onde montou acampamento para o inverno e começou a reorganizar suas forças e recrutar mais soldados e cavaleiros. Ali foi reforçado pelos remanescentes do exército de Magão e soube que seu irmão caçula estava morto. Deve haver pouca dúvida de que Aníbal tivesse aceitado os termos de paz de Cipião como a melhor coisa para Cartago, muito embora pouco soubesse das facções políticas e intrigas da cidade. Porém, era astuto demais para não ver que a situação geral cartaginesa era sem esperança, em vista da perda da Hispânia, do crescente poder de Roma por mar e terra e do poderio humano nativo que abastecia suas legiões. Havia derrotado os romanos muitas vezes em batalha, é verdade, mas sabia que os romanos eram vigorosos e bravos soldados e que eles já estavam — perigosamente — começando a aprender suas táticas, adotando métodos mais flexíveis no campo de batalha. Em seus primeiros anos na Itália, tirara proveito dos desatualizados sistemas por meio dos quais os cônsules eram automaticamente encarregados das legiões e, uma vez que eles eram mudados a cada ano, nunca tinham tempo para aprender a perícia profissional ou adaptar suas táticas. Ele também tinha sido capaz de fazer uso de conhecidas divisões e diferenças de temperamento entre dois cônsules. Mas viu claramente no surgimento de Cipião a sombra do futuro, onde outros generais, à sua própria maneira surgiriam — homens totalmente dedicados à guerra, aprendendo pela experiência em campo de batalha e familiarizando-se não somente com a natureza do terreno de batalha, mas com a qualidade e caráter racial de seus adversários. Seja lá o que Aníbal possa ter pensado sobre aceitar as condições de paz, a facção de guerra de Cartago, fazendo uso de seu nome e fama, havia agora assumido o controle.

Recomeça a guerra

No inverno de 203 a.C., um comboio de provisões da Sicília destinado às forças de Cipião Africano foi colhido numa tempestade e encalhou na região de Cartago, e navios de guerra cartagineses foram enviados para capturá-lo e trazer as provisões para a cidade. Isso era totalmente contrário à trégua, e Cipião Africano despachou enviados por mar para registrar um protesto. Em sua viagem de volta, os navios transportando os enviados foram traiçoeiramente atacados por trirremes cartagineses, mandados para esperá-los e por pouco escaparam com vida. Cipião Africano acertadamente viu isso como uma declaração de que a trégua estava acabada e a guerra reiniciada. Aqui, certamente, se evidenciava a fé púnica, embora seja muito duvidoso que Aníbal, setenta milhas distante em Adrumeto, tivesse qualquer conhecimento disso. Foi uma ação tola, algo a que ele não era propenso. Cipião Africano recomeçou a guerra e atacou todos os povoados da região ainda sob jurisdição de Cartagox. Por todo o verão de 202 a.C., enquanto Aníbal, percebendo que uma batalha maior era agora inevitável, continuava a reunir e treinar mais recrutas para o seu exército, Cipião sitiava as cidades cartaginesas, não demonstrando qualquer piedade quando elas sucumbiam, e escravizando os habitantes. Estava determinado a mostrar aos cartagineses que aqueles que quebravam tratados colocavam-se fora das considerações normais da guerra. Também estava ciente de que o teste final ainda estava por vir, e que Cartago não poderia ser forçada a se render até que ele e Aníbal se enfrentassem no campo de batalha, estabelecendo conclusivamente o resultado da guerra. Masinissa, tendo retornado de Roma com a confirmação de seu reinado, estava longe, na Numídia, consolidando seu poder sobre o país; recebeu uma convocação urgente de Cipião Africano para arregimentar todos os homens que pudesse e reunir-se aos romanos. Aníbal, então, recebeu ordens de Cartago para marchar e desafiar Cipião antes que fosse tarde demais. O conselho e a cidade estavam profundamente preocupados com a devastação de sua terra, que ocorria desenfreadamente, e com a perda de cidades e povoados pagadores de tributos: testemunhavam a destruição de terras férteis que por séculos haviam sustentado a grande cidade mercantil. Aníbal recusou-se a se apressar e respondeu que lutaria quando estivesse preparado. Tinha um bom motivo para tal resposta, uma vez que ainda aguardava reforços de sua cavalaria, ainda muito deficiente, e ele sabia suficientemente bem que grande parte de suas ações bem-sucedidas se devia aos númidas. Ele tentava suprir aquela deficiência com o treinamento de elefantes e, à época da batalha final, possuía cerca de oitenta deles em seu exército. Eram, contudo, animais novos, que nunca haviam estado em ação e, como os fatos mostraram, constituíam mais um risco do que um recurso. A verdade é que, muito embora os próprios romanos viessem a utilizar elefantes séculos mais tarde, essa já era uma arma de guerra obsoleta. Os elefantes haviam obtido sucesso no passado através do pavor que causavam quando soltos em grandes bandos sobre povos primitivos e fileiras indisciplinadas de infantaria. Mas os romanos na Itália já haviam tomado suas providências e descoberto que, quando atacados por chuvas dos formidáveis pium, eles quase sempre se voltavam para trás e disparavam para dentro de seu próprio exército.

Os piuns são mosquitinhos chatos, quase imperceptíveis a olho nu, porém com picadas incômodas que coçam como o diabo. Eles parecem entidades etéreas, você só percebe que algum esteve na sua pele quando é tarde demais.

Elefantes semi-treinados, que eram tudo o que Aníbal tinha sido capaz de conseguir, iriam provar essa verdade na batalha crucial. Alguns historiadores têm comentado que Aníbal cometeu um erro tático ao contar com eles, mas a verdade é que ele fora obrigado a fazê-lo em vista da falta de cavalaria. Ele, todavia, recebera no fim daquele verão alguns reforços úteis na forma de dois mil cavaleiros de um príncipe númida, Tiqueu, rival de Masinissa e que, sem dúvida, esperava fazer a Masinissa o que este havia feito a Sífax, e então tomar o reino para si próprio. Essas rivalidades e intrigas norte-africanas, ainda que difíceis de se decifrar depois de tanto tempo, não obstante desempenharam um grande papel na batalha que estava por decidir o destino do mundo ocidental. O exército que Aníbal finalmente conduziu para combater Cipião era ainda mais heterogêneo do que de costume: baleárides, lígures, brútios, gauleses, cartagineses, númidas, e (muito estranhamente nesse momento tardio) alguns macedônios enviados pelo rei Filipe que, talvez, por fim, tenha percebido que a derrota de Roma era importantíssima para a liberdade de seu próprio país. Deixando Adrumeto, Aníbal marchou para oeste na direção de uma cidade chamada Zama, que provavelmente se identifica com a posterior colônia romana Zama Régia, noventa milhas a oeste de Adrumeto. Chegaram até ele relatos de que Cipião Africano incendiava vilarejos, destruindo colheitas e escravizando os habitantes de toda aquela fértil região da qual Cartago dependia para seus cereais e outros alimentos. Só pode ter sido tal necessidade imperiosa o que fez Aníbal marchar atrás de Cipião, pois aparentemente seria mais lógico que ele levasse seu exército na direção de Cartago e se interpusesse entre Cipião e a cidade. Mas a sistemática destruição de cidades e vilarejos por este último, e suas atividades no interior cartaginês, claramente impediam que a cidade pudesse alimentar um adicional de quarenta mil ou mais homens, junto com seus cavalos e elefantes, bem como as suas próprias e prolíferas massas. Logo, a principal causa para que a batalha tivesse lugar onde ocorreu surgiu de uma urgência de suprimentos para a capital. Cipião sabia o que estava fazendo, e havia deliberadamente atraído Aníbal para longe da cidade de modo a decidir o resultado da guerra numa região escolhida por ele próprio. É irônico que o grande cartaginês não conhecesse seu próprio país, nada tendo visto dele desde os nove anos de idade, ao passo que Cipião e os romanos, a essa altura, já
Busto de Aníbal.
estavam bem familiarizados com o terreno cartaginês. Mas Cipião não deixava de ter suas preocupações: seu exército, provavelmente um tanto menor que o de Aníbal, embora bem treinado e experiente no clima e condições da África do Norte, ainda carecia de uma arma de cavalaria. Ele aguardava desesperadamente a chegada de Masinissa e seus númidas, sem os quais dificilmente poderia engajar-se numa batalha maior — particularmente contra um adversário como Aníbal. Ao alcançar Zama, Aníbal, como era bastante natural, enviou adiante espiões para tentarem descobrir a natureza e quantidade do exército romano: em particular, deve ter se preocupado em tentar descobrir quão forte era a cavalaria de Cipião Africano. Esses homens foram descobertos e levados perante o general romano, que os recebeu, mostrou-lhes todo o acampamento, e então libertou-os para que reportassem tudo ao seu chefe. Alguns historiadores têm colocado em dúvida a veracidade disso, mencionando entre outras coisas que a mesma história é contada por Heródoto sobre Xerxes e os espiões gregos, anterior à grande invasão persa da Grécia. Não há nada propriamente improvável nisso, porém, e o fato é atestado por Políbio, o que lhe dá uma certa autenticidade. Cipião Africano, sem dúvida, desejava deixar seu inimigo saber que ele estava supremamente confiante no resultado da batalha iminente. Havia outra coisa que aquele astuto romano deve ter desejado revelar a Aníbal: Masinissa e seus númidas não se encontravam no acampamento. Era isso, logicamente, o que Aníbal desejava descobrir mais do que tudo, e a notícia de que Cipião estava enfraquecido em sua cavalaria deve ter sido encorajadora. O que ele desconhecia, é claro, e Cipião indubitavelmente sabia muito bem, era que Masinissa e seus númidas encontravam-se a apenas dois dias de cavalgada. Sem desconfiar que Masinissa se aproximava, e pensando que ele ainda se ocupava em estabelecer seu domínio um tanto precário sobre o reino númida, Aníbal possivelmente sentiu que estava numa posição de superioridade frente aos romanos. Aquele seria um bom momento, então, para tentar negociar e ver se ele poderia obter condições favoráveis para Cartago — termos similares àqueles que Cipião Africano havia dado previamente aos cartagineses porém, se possível, algo melhorados. Assim, enviou uma mensagem para Cipião solicitando-lhe um encontro pessoal para discutirem termos, com o que este concordou. À parte de qualquer outra coisa, deve ter existido considerável curiosidade de ambos os lados a respeito da natureza e mesmo da aparência do adversário. Os dois homens nunca haviam visto um ao outro antes, embora em três ocasiões, nos últimos anos, tivessem ficado próximos no campo de batalha. Primeiro, o jovem Cipião havia estado presente na batalha de Ticino, logo depois de Aníbal irromper na Itália (quando Cipião havia logrado salvar seu pai ferido do campo de batalha); depois, estivera em Canas e testemunhara toda a ira e a genialidade do cartaginês como tempestade contra as legiões romanas; por último, havia iniciado o bem-sucedido avanço contra o porto de Locros no sul da Itália, quando frustrara as tentativas de Aníbal para recuperá-lo. Tivera três oportunidades, assim, de confrontar o grande inimigo de Roma, e em cada ocasião havia tido a perspicácia de observar exatamente como Aníbal reagia perante cada situação determinada. O cartaginês, por outro lado, nunca se conscientizara do penetrante par de olhos de um jovem a observá-lo nas proximidades. Era como se um velho mestre de xadrez estivesse para encontrar, em breve, um aluno que por anos estudara seus "lances", detectado suas fraquezas, decidindo implementar as jogadas do mestre. Aníbal, por sua vez, só conhecia por meio de relatos os triunfos do jovem na guerra ibérica, embora fosse suficientemente estrategista e tático para reconhecer como era brilhante aquele que capturara Nova Cartago e vencera vários combates contra homens tão capazes quanto seu falecido irmão Asdrúbal, seu falecido irmão Magão e Asdrúbal, o filho de Gisgão. Ele havia observado como os romanos estavam mudados, aprendendo a se mover sem o velho comando consular e adquirindo flexibilidade no campo de batalha, e estava provavelmente tão curioso quanto Cipião para encontrar seu oponente cara a cara. Os relatos factícios, tanto de Políbio quanto de Lívio, compostos muitos anos após os eventos, devem ser considerados suspeitos, mas não deve restar dúvidas quanto ao resultado do encontro entre os comandantes — dois dos mais distintos soldados não só do mundo antigo, mas de todos os tempos. Aníbal, além da habilidade de falar púnico, vários dialetos ibéricos e gálicos, também sabia falar grego e latim fluentemente; Cipião Africano, além de falar latim, foi também educado no grego. Os dois homens bem poderiam ter escolhido tanto latim quanto grego como linguagem de conversação, mas (como muitos líderes modernos) eles preferiram fazer uso de seus intérpretes de modo a terem flexibilidade e tempo para elaborarem suas respostas. Se nós ignorarmos a retórica de Lívio, o conteúdo de seu encontro foi breve e direto. Aníbal ofereceu a Cipião Africano "a entrega de todas as terras outrora em disputa entre as duas potências, especialmente a Sardenha, Sicília e Hispânia", juntamente com um acordo segundo o qual Cartago nunca mais faria guerra contra Roma. Ele também ofereceu todas as ilhas "localizadas entre a península Itálica e a África", isto é, as ilhas Égadi ao largo da Sicília ocidental as ilha Lípara, lugares como Lampedusa, Linosa, Gozo e Malta — mas não incluiu as ilhas Baleares ocidentais, que haviam se mostrado tão úteis a Cartago. Ele não fez menção de indenizações, nem de controle sobre quase toda a frota, nem de retorno de prisioneiros e fugitivos romanos. Cipião dificilmente se impressionaria com a oferta, e disse "se, antes de os romanos rumarem para a África, você tivesse se retirado da Itália, haveria esperança para suas proposições. Mas agora a situação está manifestadamente mudada (…) Nós estamos aqui e você foi relutantemente forçado a deixar a Itália (…)". Cipião Africano não poderia aceitar termos inferiores para a rendição cartaginesa àqueles que haviam sido aceitos por Cartago antes da recente traição do tratado. Nada mais havia para ser dito. Cipião havia ganho um inestimável tempo com o seu encontro com Aníbal: sabia que Masinissa e seus cavaleiros númidas vinham cruzando o terreno rapidamente para estar ao seu lado quando o grande embate acontecesse. O retardamento havia propiciado a garantia da chegada de Masinissa a tempo para a batalha. Era Aníbal quem estava aturdido com a imensidão da África, e não Cipião Africano, e era Aníbal — acostumado por tantos anos ao relativo tamanho da Itália — que tivera seu serviço de inteligência enganado pela ausência da cavalaria de Masinissa no acampamento de Cipião, e pela falta de conhecimento sobre os eventos na Numídia. O encontro entre Aníbal e Cipião tem sido comparado àquele entre Napoleão Bonaparte e Alexandre I da Rússia, dois mil anos mais tarde. "A admiração mútua deixou-os mudos", escreveu Lívio. É duvidoso que Aníbal tivesse ficado mudo, pois ele certamente sentia-se confiante, enquanto Cipião, por seu lado, sabia que o grande expatriado cartaginês estava desejoso de fazer a paz, e saber que o adversário tem algo mais em seu coração do que a vitória é sempre um considerável conforto em qualquer disputa.

Batalha de Zama

A Batalha de Zama, travada em 19 de Outubro de 202 a.C., foi uma batalha decisiva da Segunda Guerra Púnica. O exército da República Romana, liderado por Cipião Africano, derrotou as forças de Cartago lideradas por Aníbal. Logo após essa derrota, o senado de Cartago assinou um tratado de paz, terminando assim uma guerra de quase vinte anos.


Final da Guerra

Depois da Guerra

Aníbal correu de Adrumeto para Cartago para comunicar ao conselho que, o que quer que se dissesse, não haveria mais esperança de sucesso em prolongar a guerra. Muitos dos cartagineses, cientes de que sua cidade ainda era a mais rica do mundo e permanecia relativamente intocada pela guerra, acharam difícil de acreditar que tudo estava perdido. Uma história típica conta que Aníbal, presente em uma reunião na qual um jovem nobre incitava seus concidadãos para que guarnecessem suas defesas e recusassem os termos romanos, subiu no palanque do discursante e atirou-o ao chão. Desculpou-se imediatamente, dizendo que estivera longe por muito tempo e, acostumado à disciplina dos acampamentos, não estava familiarizado com as regras de um parlamento. Ao mesmo tempo, pediu-lhes, agora que estavam à mercê dos romanos, que aceitassem "termos tão clementes quanto os que lhes foram oferecidos, e orassem para os deuses que o povo romano ratificasse o tratado". Achava que os termos que Cipião Africano propusera quando de sua chegada diante das muralhas de Cartago eram melhores do que se poderia esperar de um conquistador que lidava com um povo que já havia traído um tratado anterior. O conselho reconheceu as palavras de Aníbal como "sábias e acertadas, e eles concordaram em aceitar o tratado nas condições romanas, despachando emissários com ordens de concordar com ele". Vendo que o grande general dos cartagineses e seu último exército estavam derrotados, e que a cidade jazia indefesa — muito embora o sítio tenha sido longo e difícil, como a Terceira Guerra Púnica um dia iria mostrar — as condições de Cipião Africano para a paz eram razoáveis. Como antes, todos os desertores, prisioneiros de guerra e escravos deveriam ser entregues, mas dessa vez os navios de guerra seriam reduzidos a não mais do que dez trirremes. Cartago, por outro lado, poderia manter seu território inicial na África, e suas próprias leis dentro dele, mas
A morte de Aníbal
Masinissa teria total controle de seu reino, e Cartago nunca mais poderia fazer guerra com quem quer que fosse, tanto dentro da África quanto fora, sem permissão romana. Isso efetivamente garantia que o reino númida cresceria às custas de Cartago, algo que um dia provocaria a última Guerra Púnica. Uma vez que haviam quebrado a trégua, a indenização de guerra original foi dobrada, embora lhes fosse permitido pagar em parcelas anuais durante cinquenta anos. Todos os elefantes cartagineses deveriam ser entregues, e nunca mais treinados, enquanto, ao mesmo tempo, uma centena de reféns, escolhidos por Cipião Africano, seriam despachados para Roma. Desse modo, ele se garantiria contra quaisquer atentados a traição. Como antes, o exército romano deveria ser suprido com cereal por três meses e receber seu pagamento durante o tempo em que o tratado de paz era ratificado. Poderia se esperar que Roma exigisse a rendição do próprio Aníbal, considerando tudo o que ele havia causado por tantos anos. Não teria sido uma condição incomum após a conclusão de uma guerra como aquela, e o fato de não ter sido feita só pode ser atribuído ao próprio Cipião Africano que, como muitos generais sob circunstâncias de algum modo similares, havia adquirido uma enorme admiração e respeito por seu oponente. Em todo caso, deve ter ficado claro para Cipião Africano que a condição de Cartago era tal que, sem um homem forte no comando, todo aquele edifício mercantil iria se transformar em ruínas. Viria o tempo, dentro de pouco mais de cinquenta anos, em que esse seria o desejo de Roma, mas no momento a república estava exaurida demais para juntar os pedaços. Para garantir que Cartago cumpriria os termos, pagaria as reparações e se acomodaria tranquila outra vez na África do Norte, era necessário um homem que reconhecesse totalmente como a cidade havia sido afortunada por lhe serem permitidos termos tão aceitáveis. Esse homem era Aníbal. Havia, com certeza, considerável oposição em Roma aos termos aparentemente brandos impostos aos derrotados. Isso era bastante compreensível, pois Roma, na primavera de 201 a.C., quando o tratado foi finalmente ratificado, sofrera dezessete anos de guerra incessante. Cipião Africano, um jovem, desaprovado por muitos de seus oponentes, o homem que havia conseguido suas vitórias em países estrangeiros muito distantes da desolação da Itália, dizia aos desolados e quase falidos senadores que eles não deveriam pressionar Cartago — na frase de uma guerra de séculos mais tarde — "até o último grito". Mas pela instigação dos partidários de Cipião Africano|Cipião]], a decisão foi encaminhada do senado para a Assembléia Popular, e o povo quis a paz. Em Cartago, as coisas seguiram quase o mesmo padrão; os ricos do conselho se apavoraram quando perceberam que o dinheiro para a primeira parcela das reparações teria que vir de seus próprios bolsos; e o povo, sentindo que Cartago havia sofrido o suficiente, queria mais do que tudo um fim para a guerra. Eles eram extremamente afortunados por terem encontrado em Aníbal um estadista capaz e incorruptível em tempos de paz, assim como havia sido um grande líder na guerra. Enquanto Cipião Africano e seu exército embarcavam para Roma, Aníbal, que tinha sido indicado Magistrado Chefe de Cartago, começou sua gigantesca tarefa de reconstrução. Apesar de todos os anos de guerra, a prosperidade comercial da cidade nunca havia sido colocada em perigo seriamente, mesmo depois da perda da Espanha. Uma das razões para isso era que o comércio entre o Levante e o Mediterrâneo ocidental sempre havia continuado a fluir ao longo da costa norte-africana, onde os romanos pouco podiam interferir. Inevitavelmente, desde o começo de sua tarefa Aníbal defrontou-se com o ódio de seus inimigos — o partido da paz, que sempre havia declarado que o comércio, e não a guerra, era o negócio de Cartago. Eles ignoravam deliberadamente o fato de que a expansiva Roma nunca deixaria sua cidade em paz. Ironicamente (algo que tem acontecido em guerras posteriores), os vencidos se encontravam na posição de não terem nada para se preocupar, a não ser reconstruir suas fábricas e fortunas, enquanto os vitoriosos se confrontaram imediatamente com uma série de problemas que exigiam quase toda a sua atenção. Roma iria, agora, envolver-se numa guerra contra
Filipe V da Macedônia, com problemas no Egito, revoltas entre muitas das tribos da Hispânia e a crescente resistência dos gauleses na Itália, bem como na própria Gália. Haviam descoberto que um império não é algo que possa ser facilmente controlado, e sim um vulcão em irrefreável expansão até que alguma fraqueza em suas bordas permita que o fogo transborde — vindo, em seguida, um derradeiro colapso e inércia. Quando Cipião Africano retornou a Roma naquele ano, foi naturalmente recebido em triunfo. Seus feitos na África haviam sido formidáveis, e nem mesmo seus inimigos poderiam negar que ele havia levado a guerra a uma conclusão triunfante. À frente de suas tropas conquistadoras, ele cavalgou através de ruas enfeitadas, enquanto os elefantes de guerra da África, que haviam sido trazidos de Cartago, assombravam o povo com sua estranheza e seu barrido. A Cipião foi dado o cognome "Africano", "O primeiro general que era distinguido por um nome derivado do país que ele havia conquistado". Compreensivelmente, era o herói do momento e provavelmente teria sido feito cônsul perpétuo ou mesmo ditador, como Júlio César, cento e cinquenta anos mais tarde. Sabiamente, recusou quaisquer dessas honrarias e parece ter se contentado em viver a vida de um cavalheiro ocioso, entregando-se à sua paixão pela literatura grega e pela boa conversação, ambas características que devem ter ficado evidentes quando esteve em Siracusa e que o haviam tornado suspeito para uma geração mais velha e mais obstinada de romanos. Desde o fim da guerra e pelos sete anos que se seguiram, Aníbal dedicou-se aos assuntos de seu país e a reconstruir a prosperidade mercantil de Cartago. Não sendo mais o grande expatriado, devotava-se exclusivamente aos assuntos domésticos cartagineses e a garantir que seu país mantivesse sua palavra junto aos romanos. Pode-se questionar se ele ainda nutria ou não pensamentos de vingança, pois a base de poder de Cartago na península Ibérica estava perdida, eles não tinham marinha, e os romanos controlavam o mar, bem como dominavam a bacia do Mediterrâneo por terra. Ao mesmo tempo, deve ter mantido um olho sobre o progresso romano no leste, onde a batalha de Cinoscéfalas, em 197 a.C., deu a Roma sua grande vitória sobre Filipe V da Macedônia, destruindo o poder macedônio para sempre. Filipe foi forçado a entregar sua frota, suas possessões na Grécia, e a pagar uma grande indenização de guerra, como Cartago havia feito e ainda fazia. Foi provavelmente a habilidade financeira de Aníbal que garantiu que Cartago saldasse os seus compromissos — compromissos que os romanos esperavam não serem cumpridos, o que lhes daria motivos para uma invasão — e isso fez com que o ódio dos romanos por ele revivesse. Tinha, também, muitos inimigos entre os cidadãos ricos da casa, pois havia denunciado muitos oficiais de altos postos cujo peculato descobrira.

Aníbal deixa Cartago

A família Barca, por todos os seus serviços a Cartago, sempre havia tido rivais e inimigos, e também havia aqueles que se apraziam em colocar a culpa pela recente guerra inteiramente sobre Aníbal.
Francisco de Goya, Aníbal vencedor contempla
pela primeira vez a Itália desde os Alpes, 1771.
O reaquecimento comercial de Cartago, inspirado e dirigido por ele, havia então levantado ciúmes e ressentimento em Roma. Não seria surpresa, assim, que essas duas facções se aliassem no desejo de vê-lo removido do cargo. Foi Cipião Africano quem interveio em favor de seu antigo inimigo, lembrando a eles que não lhes diziam respeito os assuntos puramente cartagineses, mas o ressentimento contra Aníbal não poderia ser contido permanentemente. Em 195, uma comissão foi enviada de Roma a Cartago alegando que Aníbal estava favorecendo um inimigo de Roma. Esse inimigo era Antíoco, o Grande, da Síria, cuja ambição era recriar o império oriental de Alexandre, o Grande, e que quase havia estabelecido seu domínio sobre a Palestina, Fenícia e Chipre. E mais do que provável que Aníbal vira em Antíoco o único governante do leste capaz de desafiar Roma e de restaurar um equilíbrio de poder no Mediterrâneo que permitiria a Cartago, uma vez mais, assegurar sua antiga supremacia sobre a península Ibérica, a Sicília e as outras ilhas centrais do mar. Se houve ou não qualquer correspondência entre eles é algo que nunca será conhecido. Certamente os romanos afirmavam que sim, e foi por isso que seus enviados rumaram para Cartago. Catão, o Ancião, que havia servido a Cipião Africano na Sicília e que invejava profundamente sua fama e posição, era agora cônsul e estava determinado a arrastar Aníbal para Roma. Quando soube do que se passava, Aníbal não teve qualquer ilusão de que seus inimigos em Cartago não viessem a traí-lo junto aos romanos. Conseguiu deixar o país através de uma série de evasões notáveis, fruto de sua habilidade no campo de batalha. Tendo recebido os enviados romanos e os escoltado aos seus quartéis em Birsa, ele foi visto pela cidade, como de costume, durante o dia. Ao cair da noite, contudo, sob pretexto de sair para uma cavalgada no frescor da noite, ele escapuliu para uma vila sua não muito longe de Adrumeto, onde tinha um navio preparado, com seus pertences pessoais e fortuna particular já embarcados, e uma tripulação fiel aguardando por ele. Chegando no dia seguinte à ilha de Cercina, não muito distante da costa, Aníbal foi surpreendido com a presença de outros navios ali a caminho de Cartago, e ele logicamente foi reconhecido pelas tripulações dos navios. Tendo convidado os capitães e tripulações dos navios para jantar consigo, sugeriu que eles, então lisonjeados pelo convite, trouxessem para a terra as velas e mastros de seus navios para que fossem usados como proteção para o sol. O entretenimento durou todo o dia e adentrou a noite, quando Aníbal silenciosamente embarcou e se pôs a caminho. Quando os convidados acordaram no dia seguinte, seu anfitrião havia partido, e, mesmo se eles tivessem alguma intenção de segui-lo e soubessem de seu destino, teriam levado algum tempo para reequipar os navios e segui-lo. Algumas semanas mais tarde, Aníbal desembarcou no velho lar dos fenícios, Tiro, berço de Dido e cidade-mãe de Cartago. Os treze anos restantes da vida de Aníbal são tristes de se contemplar, embora não tão vazios quanto os últimos anos de Napoleão, pois Aníbal permaneceu em liberdade até o dia em que deu cabo de sua própria vida. Foi no ano de 195 a.C., quando o grande herói do Mediterrâneo oriental colocou os pés no berço de sua raça, para ser aclamado por todos aqueles do Levante e da Ásia Menor que viram sua liberdade ameaçada pela sombra de Roma. Logo após a derrota de Filipe V da Macedônia, Roma proclamou-se protetora da Grécia — um ato judicioso que agradou aos gregos e ao mesmo tempo garantiu sua servidão. Somente em Antíoco Aníbal podia ver alguma esperança para o ressurgimento de uma guerra contra a Itália. Antíoco, porém, não desejava envolver-se numa guerra distante no Mediterrâneo central; só estava preocupado em assegurar e ampliar seu império oriental. Ambicionava ser reconhecido na Grécia, mas uma pequena força que enviou para lá foi severamente castigada naquele desfiladeiro de memória clássica, Termópilas, e ele mal conseguiu assegurar a Ásia Menor para si. A reputação de Aníbal não o fazia popular entre os militares e conselheiros que cercavam o rei sírio, e nunca lhe foram dadas a frota e as tropas que pedira para invadir a Itália. Antíoco, com certeza, possuía muitos homens e armas, mas não eram do calibre dos romanos sob nenhum aspecto. Em 189, na Batalha de Magnésia, ele foi conclusivamente derrotado e forçado a desistir da maior parte da Ásia Menor, deixando-a para os romanos e seus aliados. Numa prévia revista ao exército do rei, ainda que fosse aproximadamente duas vezes maior que o exército do inimigo, Aníbal respondera secamente quando perguntaram sua opinião sobre tal grande hoste: "Sim, isso será suficiente para os romanos, mesmo ávidos como eles devem estar". Umas poucas anedotas sobre Aníbal sobreviveram nesses anos em que partiu como exilado de seu próprio país e um declarado "inimigo do povo romano", através das cortes e insignificantes reinos do leste. O seu estilo era lacônico, ou imperatória brevistas, revelado antes em observações como "Roma tem seu Aníbal em Fábio" e "Marcelo era um bom soldado, mas um general imprudente". Convidado em certa ocasião para escutar uma conferência de um velho acadêmico especializado em estudos militares, ele não fez qualquer comentário até que sua opinião fosse especificamente solicitada, quando ele observou tranquilamente: "Em minha vida eu tenho tido que ouvir alguns velhos tolos, mas esse supera a todos eles". Houve um segundo encontro entre Aníbal e Cipião Africano algum tempo antes de Antíoco começar a guerra no leste. Foi enviada uma missão a Éfeso, vinda de Roma, para tentar descobrir a atitude do governante sírio e suas intenções. Cipião Africano, que a liderava, mandou perguntar a Aníbal se ele desejava encontrá-lo, ao que este prontamente assentiu. Os relatos a esse respeito descrevem os dois homens falando de velhos tempos, e Cipião Africano perguntando a Aníbal quem ele pensava ser o maior general da história. "Alexandre, o Grande", Aníbal respondeu, acrescentando que com somente uma pequena força ele derrotou exércitos muito maiores em quantidade do que o seu próprio, e que ele chegara até as mais remotas regiões da Terra. Perguntado sobre quem ele achava ser o próximo, Aníbal pensou por um momento e respondeu: "Pirro" (o rei do Épiro, que havia invadido a Itália em 280), citando seu brilhante julgamento ao escolher o terreno e a cuidadosa disposição de tropas. O romano (era visível que Cipião Africano buscava um elogio) insistiu: "E o terceiro?" "Eu mesmo, sem dúvida." Cipião Africano riu: "E o que você teria dito se tivesse me vencido?" "Então", replicou o cartaginês, "eu teria me colocado como o primeiro de todos os comandantes". Isso se tornou um agradável elogio que sem dúvida deleitou Cipião Africano, o que é o provável motivo de ter sido citado tanto por Lívio quanto por Plutarco. Desses dois grandes soldados-estadistas Arnold comenta que Cipião Africano parecia "o Aquiles de Homero, a mais alta concepção do herói individual, confiante em si e eficiente. Mas o mesmo poeta que concebeu o caráter de Aquiles também concebeu o de Heitor; do herói verdadeiramente nobre porque altruísta, que emprega seu gênio para o bem de outros, que vive para suas relações, seus amigos e seu país. E como Cipião Africano vivia para si mesmo, assim como Aquiles, então a virtude de Heitor é merecidamente representada pela vida de seu grande rival, Aníbal, que, da sua infância até a última hora, na guerra ou na paz, através da glória e do esquecimento, entre vitórias e desapontamentos, sempre se lembrou do propósito ao qual seu pai o havia devotado, e não se rendeu a qualquer pensamento, desejo ou feito que o desviasse do serviço que prometera ao seu país". Esses dois destacados homens, tão semelhantes em muitos aspectos, tão dessemelhantes em outros, terminaram suas vidas no exílio. Cipião Africano, a quem Catão havia sempre odiado — por seu amor pela cultura grega quase acima de tudo — foi acusado por esse último e seus amigos no senado de negligência nos fundos públicos. Cipião Africano, em resposta, trouxe seus livros de anotações perante o senado, rasgou-os e disse aos seus acusadores que rastejassem procurando provas entre os pedaços. Ele, então, disse que milhares de talentos de prata haviam adentrado o erário público sob sua representação, e que suas vitórias haviam dado a Roma não somente a Hispânia, mas a África, e agora a Ásia (pois ele também havia atuado em Magnésia). Ele deixou Roma com grande amargura e nunca mais retornou. Aníbal, após a derrota de Antíoco e a conclusão de um tratado de paz entre o rei e Roma, sem dúvida presumiu, e acertadamente, que tal tratado conteria uma cláusula exigindo a sua entrega aos vitoriosos. Rápida e secretamente, partiu de navio para Creta, então uma ilha selvagem e indomada, lar de piratas e de homens que não reconheciam qualquer monarca ou Estado. Ainda ali, não seria deixado em paz. Roma, à medida que se expandia para o leste, e que suas rotas de navegação se tornavam mais extensas, preocupava-se crescentemente com a segurança de sua marinha mercante. Era natural que, no devido tempo os romanos ficassem interessados naquela grande ilha entre o Egeu e o Egito, potencialmente próspera e útil, mas àquela época infestada de piratas. Aníbal havia se estabelecido em Cortina, uma antiga cidade, só perdendo em importância para Cnossos, nos tempos antigos, e situada perto de um pequeno rio cerca de três milhas distante da costa sul. Uma divertida, mas possivelmente apócrifa história, conta como Aníbal, quando ali construiu seu lar, fez questão de depositar abertamente seu tesouro no templo local de Ártemis. Corretamente suspeitando da honestidade cretense (como o apóstolo Paulo, alguns séculos mais tarde), o "tesouro" que ele enviou para ser guardado no templo era não mais que uma decepção; grandes vasos de argila cheios de chumbo com um punhado de moedas de ouro espalhadas bem visivelmente por cima. O grosso de sua fortuna restante foi escondido em algumas estátuas de bronze ocas no jardim de sua casa. No devido tempo, um esquadrão romano visitou Creta em disfarces de piratas, investigando o potencial dos recursos e portos da ilha. Aníbal, em seu retiro, permanecia imperturbável, mas sabia que era questão de tempo até que os romanos soubessem do rico cartaginês vivendo em retiro em Cortina, e descobrissem seu nome. Como ele havia feito em Cartago, e como fizera na corte de Antíoco, Aníbal partiu secreta e rapidamente. Com ele foram as estátuas do seu jardim. Quando os sacerdotes cretenses de Artemis ou os soldados romanos abriram os jarros guardados no templo, pode-se imaginar sua risada irônica ecoando ao vento. Então, Aníbal foi para a remota Bitínia, para o reino de Prúsias. Mesmo a sua morte não colocou fim à sua influência. Sua memória iria atormentar Roma por todos os séculos da existência do império. Certa vez, estivera próximo aos portões da cidade; certa vez, chegara perto de subjugar o Estado que agora comandava praticamente todo o mundo conhecido. Historiadores e poetas nunca o esqueceram; mesmo os mais ásperos, como Juvenal, lembravam-se daquele horrendo brado: "Aníbal está aos portões!".



Lista de batalhas

218 a.C.

- Novembro: Batalha de Ticino - Aníbal derrota os romanos sob Cipião Africano numa pequena luta de cavalaria.
- Dezembro: Batalha do Trébia - Aníbal derrota os romanos sob Tibério Semprônio Longo, que atacou de forma inconsequente.

217 a.C.

- Batalha do Lago Trasimeno - Aníbal destrói o exército romano de Caio Flamínio numa emboscada, matando Gaius.

216 a.C.

- Agosto: Batalha de Canas - Aníbal destrói o exército romano liderado por Lúcio Emílio Paulo e Caio Terêncio Varrão naquilo que foi considerada uma das obras-de-arte em estratégia militar.
- Primeira Batalha de Nola - O general romano Marco Cláudio Marcelo contém um ataque de Aníbal.

215 a.C.

- Segunda Batalha de Nola - Marcelo repulsa novamente um ataque de Aníbal.

214 a.C.

- Terceira Batalha de Nola - Marcellus trava nova batalha, desta vez inconclusiva, contra Aníbal.

212 a.C.

- Primeira Batalha de Cápua - Aníbal derrota os cônsules Q. Fulvius Flaccus e Ápio Cláudio, mas o exército romano consegue escapar.
- Batalha do Silarus - Aníbal destrói o exército do pretor M. Centenius Penula.
- Primeira Batalha de Herdónia - Aníbal destrói o exército romano do pretor Cneu Fúlvio.

211 a.C.

- Batalha de Baetis - Públio e Cneu Cornélio Cipião Calvo são mortos na batalha com os cartagineses sob o irmão de Aníbal, Asdrúbal.
- Segunda Batalha de Cápua - Aníbal falha em quebrar o cerco da cidade de Roma.

210 a.C.

- Segunda Batalha de Herdónia - Aníbal destrói o exército romano de Fulvius Centumalus, que morre em batalha.
- Batalha de Numistro - Aníbal derrota Marcelo mais uma vez.

209 a.C.

- Batalha de Asculum - Aníbal derrota novamente Marcelo, numa batalha indecisiva.

208 a.C.

- Batalha de Bécula - Na Hispânia, os romanos sob Cipião Africano derrotam Asdrúbal Barca.

207 a.C.

- Batalha de Grumento - O general romano Caio Cláudio Nero trava uma batalha indecisiva contra Aníbal, e marcha para norte para confrontar-se com o irmão, Asdrúbal, que entretanto invadiu a Itália.
- Batalha do Metaurus - Asdrúbal é derrotado e morto pelos exércitos combinados de Livius e Nero.

206 a.C.

- Batalha de Ilipa - Cipião Africano destrói as forças cartaginesas que restavam na Hispânia; nesta batalha usou a versão inversa da formação usada por Aníbal na batalha de Canas.

204 a.C.

- Batalha de Crotone - Aníbal trava uma batalha inconclusiva com o general Semprônio, no Sul da Itália.

203 a.C.

- Batalha de Bagbrades - Os romanos sob Cipião Africano derrotam o exército cartaginês de Asdrúbal Gisco e Sífax. Aníbal é chamado a África.

202 a.C.

- Batalha de Zama (19 de Outubro) - Cipião Africano derrota definitivamente Aníbal no Norte de África, terminando a Segunda Guerra Púnica.
 


 

Legado

 

Ano
Filme
Notas
2008
Hannibal the Conqueror
Filme estadunidense dirigido e protagonizado por Vin Diesel no papel de Aníbal.

2006
Hannibal - Le pire cauchemar de Rome
Filme produzido pela BBC com Alexander Siddig no papel de Aníbal.
2005
Hannibal V Rome
Documentário televisivo produzido por Richard Bedser e veiculado pelo National Geographic Channel com Tamer Hassan no papel de Aníbal

2005
The True Story of Hannibal
Documentário televisivo produzido por Mark Hufnail com Benjamin Maccabee no papel de Aníbal.
2001
Hannibal: The Man Who Hated Rome
Filme britânico produzido por Patrick Fleming.

1997
The Great Battles of Hannibal
Documentário britânico.
1959
Annibale
Filme italiano produzido por Edgar George Ulmer e Carlo Ludovico Bragaglia com Victor Mature no papel de Aníbal.
1955
Jupiter's Darling
Produzido por George Sidney com Howard Keel no papel de Aníbal.

1937
Scipione l'africano
Filme italiano.
1914
Cabiria
Filme mudo produzido por Giovanni Pastrone com Emilio Vardannes no papel de Aníbal.


Referências

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