sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Biografia do General Aníbal (parte 5/6)


Asdrúbal parte para a Itália

Aníbal
No outono de 208 a.C., Asdrúbal levou suas tropas pela Gália, tendo escapado dos romanos na Hispânia oriental seguindo os vales altos do Tejo e do Ebro. A fama subsequente de Cipião Africano parece ter obscurecido o fato de que ele deixara Aníbal escapar e, em consequência, permitiu que seu país ficasse mais exposto ao perigo do que em qualquer outra ocasião desde que Aníbal cruzara os Alpes. Ele deve ter sabido — pois os rumores haviam se espalhado aos quatro ventos — que o objetivo de Asdrúbal era deixar a Hispânia e cooperar com seu irmão na Itália: o primeiro objetivo do general romano, consequentemente, deve ter sido certificar-se de que Asdrúbal não o enganaria; se não estava suficientemente forte para atacar o inimigo, certamente deveria ter encalçado seu avanço para os Pirenéus e não tê-lo deixado chegar à Gália intacto e sem ser vigiado. Ele não fez nada parecido; cometeu um imenso engano e simplesmente não é verdade que tenha sido obrigado a confrontar os cartagineses com grande força no Ebro, pois Magão e Asdrúbal Gisgão, quando Asdrúbal partiu, deslocaram-se, o primeiro para as Ilhas Baleares e o outro para Portugal, centenas de milhas distante; eles eram claramente incapazes de enfrentar os romanos na Hispânia. [O'Connor Morris]. É uma infelicidade que nossos estudiosos antigos não tenham comentado mais aprofundadamente essa marcha feita por Asdrúbal, a segunda maior realizada pela "ninhada do leão", os filhos de Amílcar, que por tanto tempo ameaçaram e aterrorizaram Roma. Foi uma jornada épica digna de seu irmão. Escapando de Cipião Africano, deixou os romanos vigiando em vão os desfiladeiros dos Pirenéus enquanto ele, a sua infantaria cartaginesa, os iberos, a cavalaria númida e os laboriosos elefantes africanos moviam-se a oeste, passando pela baía de Biscaia e o grande oceano acinzentado que poucos homens mediterrâneos jamais haviam visto. Antes de partir para a Gália reuniu-se com Magão, e este seu irmão mais jovem foi para as Baleares a fim de levantar uma força daqueles formidáveis "fundibulários" que mais tarde cruzariam o mar rumo à Itália. Os três filhos de Amílcar Barca, assim foi planejado, iriam então encontrar-se pela primeira vez em muitos anos e executar a vingança sobre Roma que os votos feitos ao seu pai e aos enfumaçados altares de Cartago há muito demandavam. Aníbal e Asdrúbal sabiam que, com sua situação em declínio na Hispânia, o ano de 207 a.C. deveria ser decisivo na guerra contra Roma. Somente pela união de seus exércitos e a total derrota dos romanos — algo mais devastador até mesmo do que em Canas — poderia ser atingido o objetivo da longa guerra. Desde o início, o grande empreendimento iria mostrar-se arriscado e, numa posterior reflexão, quase impossível. Comandando o centro da Itália, os romanos tinham o benefício de linhas internas de comunicação e eram capazes de posicionar suas forças de modo que uma parte mantivesse os olhos sobre Aníbal ao sul enquanto a outra vigiasse o norte e a esperada chegada de Asdrúbal. Naqueles dias de comunicações primitivas, o grande obstáculo entre os dois irmãos era a extensão territorial da Itália. Asdrúbal invernou na Gália, bem ao oeste, onde não havia qualquer amigo de Roma ou de Massala, e então provavelmente cruzou o rio Ródano comodamente acima, perto de Lyon. Embora não fosse segredo que Asdrúbal pretendia reunir-se ao seu irmão na Itália, nenhuma tentativa, em qualquer caso, poderia ser feita para detê-lo, uma vez que ele tivesse cruzado os Pirenéus e penetrado na Gália. Massala era distante e os chefes gauleses estavam como nunca hostis a Roma. Segundo Lívio, apesar de Asdrúbal ter escapado de Bécula com não mais do que quinze mil homens é provável que ele tenha chegado aos Alpes com quase o dobro desse número. Aníbal, bem distante ao sul, devia ser capaz de reunir um exército de quarenta a cinquenta mil homens, a maioria, porém, de tropas de qualidade bem baixa. Na primavera de 207 a.C., assim que a neve derreteu, Asdrúbal partiu: ele não demorou nem um pouco, como seu irmão havia feito, e nem aparentemente foi incomodado por tribos hostis. Cruzando o território do Arverno seguiu provavelmente o curso do rio Isère e quase certamente não tomou a difícil rota seguida por Aníbal. Tanto Lívio quanto Apiano afirmam que ele o fez, mas parece muito improvável, uma vez que a bacia do Isère segue pelo desfiladeiro do monte Cenis e o historiador romano Caio Terêncio Varrão parece, sem dúvida, descrever o desfiladeiro de Asdrúbal como sendo distinto do de Aníbal, e ao norte dele. O Passo do Monte Cenis corresponde perfeitamente à descrição, e a ideia de que Asdrúbal tenha seguido as pegadas do irmão não é mais do que metáfora. Em todo caso, como Lívio aponta, as tribos alpinas que antes pensaram ter Aníbal intenções quanto ao seu pobre território já haviam tomado conhecimento da "Guerra Púnica, devido à qual a Itália estivera em chamas por onze anos, e perceberam que os Alpes não eram mais do que uma rota entre duas poderosíssimas cidades em guerra uma com a outra (…)". Logo, não havia motivos para atacarem os cartagineses em marcha, nem enganá-los com informações que poderiam levá-los a altos e traiçoeiros desfiladeiros. Asdrúbal rumou para a Itália no tempo exato de um ano, com uma segurança que se traduz pelo fato de nenhum contratempo ter sido atribuído à sua expedição. Os romanos estavam bem cientes de que aquele ano era crucial. A República Romana fortaleceu-se e, sem dúvida, revestiu-se de tão nobre disposição que, mesmo após gerações, isso foi rememorado como inspiração. Embora a notícia de que Asdrúbal estava em marcha tenha produzido cenas em Roma remanescentes do pânico inspirado por Aníbal nos primeiros estágios da guerra, o Senado nunca hesitou em tomar medidas sábias e sensíveis para defender o Estado. Os homens já estavam então acostumados com a guerra, enrijecidos e treinados a ponto de enfrentarem todas as vicissitudes. Em alguns aspectos, também poderiam confortar-se com a situação geral: Cipião Africano, indubitavelmente, obtivera a vantagem na Espanha; não havia ameaça na Sardenha, e a guerra na Sicília havia finalizado satisfatoriamente. O aliado inativo de Aníbal, Filipe V da Macedônia, permanecia na defensiva na Grécia e preparava-se para negociar a paz; por todo o mar Mediterrâneo, a marinha romana navegava triunfante. Os aliados romanos farejaram a mudança dos ventos, e aqueles que antes haviam se mostrado covardes ou traiçoeiros agora tinham aprendido a lição. Logo, era com alguma confiança que, a despeito da dupla ameaça de Aníbal e Asdrúbal, os romanos encaravam aquele ano. Prova disso, e de seu poderio humano disponível, é dada pelo fato de que não menos de vinte e três legiões tinham sido recrutadas. Dessas, somente oito foram requisitadas para serviço fora do país: duas na Sicília, duas na Sardenha e quatro na Hispânia. As quinze restantes ficaram todas na Itália, representando setenta e cinco mil cidadãos romanos aos quais se somava uma igual quantidade de aliados. Não é surpresa, contudo, Lívio observar que o número de jovens aptos para o serviço estivesse começando a decair. Mais difícil do que reunir tropas era encontrar homens para comandá-las. Quinto Fábio Máximo estava agora muito velho e Marcelo, a "Espada de Roma", morto. As perdas sofridas através dos anos, e particularmente em Canas, eram por demais perceptíveis nas fileiras dos líderes de Roma. Após muito debate, Cláudio Nero e Marco Lívio foram finalmente eleitos cônsules, o primeiro assumindo o comando do exército do sul frente a Aníbal em Venúsia, e o outro o comando do exército do norte em Sena Gálica, na costa adriática. Fúlvio Flaco, vitorioso em Cápua, apoiou Nero com um exército no Brútio, e um outro exército estava em Tarento. No norte, Lúcio Pórcio Lícino comandava um exército na Gália Cisalpina, enquanto Caio Terêncio Varrão (ainda popular junto ao povo, apesar de tudo) detinha a instável região da Etrúria. No começo daquela primavera, Asdrúbal rumou para o sul, quase certamente antes do esperado. Se o exército que ele trouxe consigo da Hispânia não estava exausto como o de Aníbal, nem necessitando do mesmo tempo para descanso, também não era da mesma qualidade nem tão forte naquela arma que havia causado tanto estrago aos romanos, a soberba cavalaria da África do Norte. Mesmo assim, reforçado por vários milhares de lígures que haviam se juntado a ele, e agitando uma vez mais o espírito rebelde dos gauleses cisalpinos, Asdrúbal movia-se como uma tenebrosa nuvem de tempestade pela terra da Itália. Cruzando o rio Pó e transpondo o desfiladeiro de Estradela, ele marchou contra Placência. Ali hesitou e perdeu tempo, demorando para sitiar a colônia fiel aos romanos que fechara os portões diante dele, tendo notado que, como Aníbal, ele não possuía equipamentos para executar um sítio. Asdrúbal tem sido criticado, por alguns historiadores, por se demorar em Placência, ao invés de contorná-la e marchar adiante para se encontrar com seu irmão antes que os romanos pudessem concentrar todas as suas forças. Contudo, ele estava diante do fato de que Placência parecia ser uma guarnição forte demais para deixar em sua retaguarda e de que — talvez ainda mais importante — as tribos gaulesas locais demoraram para vir em seu favor. Ele precisava esperar até que número suficiente de lígures tivesse se juntado a ele e tantos gauleses quantos possíveis tivessem sido recrutados. Finalmente, desviando de Placência, ele marchou pelo caminho de Arímino rumo à costa oriental. Pórcio, que não tinha tropas suficientes para resistir a ele, retirou-se. Tais foram os lances iniciais daquela primavera no norte. Aníbal, que tinha passado o inverno na Apúlia como de costume, foi primeiro para a Lucânia levantar mais tropas e então voltou para a sua fortificação no Brútio, sem dúvida para obter a maior quantidade possível de reservas dessa região há tanto tempo fiel à sua causa. De acordo com Lívio, as tropas romanas de Tarento caíram sobre as suas levas enquanto eles estavam em marcha, e no combate que se seguiu ele perdeu cerca de quatro mil homens, com os sobrecarregados cartagineses sendo mortos pelos legionários livres de carga. Enquanto isso, o cônsul Cláudio Nero, com um exército de quarenta e dois mil e quinhentos homens, deslocava-se de Venúsia para barrar a marcha de Aníbal do Brútio para a Lucânia. "Aníbal esperava", diz Lívio, "recuperar as cidades que haviam sucumbido pelo medo aos romanos", mas também tinha que marchar para o norte de modo a encontrar-se com o irmão. A confusão dos movimentos cartagineses se devia às comunicações primitivas da época: Aníbal nada mais sabia além de que Asdrúbal deveria, naquela altura, ter cruzado os Alpes, e Asdrúbal, que já se encontrava na Itália, não sabia nada além de que Aníbal estava em algum lugar ao sul. Os romanos, por outro lado, trabalhando com suas linhas interiores de comunicações e sistemas de suprimentos, achavam-se numa posição admirável para manter os dois inimigos separados e atacá-los um por vez com suas forças superiores. Em Grumento, na Lucânia, os exércitos de Nero e Aníbal se enfrentaram pela primeira vez, algo notável pelo fato de que o cônsul romano, "imitando as artimanhas de seu inimigo", escondeu parte de suas tropas atrás de uma colina de modo a cair sobre a retaguarda cartaginesa no momento adequado do confronto. Era nessas horas que Aníbal sentia a necessidade de suas treinadas tropas púnicas e iberas e cavaleiros númidas, que nunca chegaram a ele de Cartago. Seu agrupamento, forças semi-treinadas — superadas numericamente pelos romanos — não foram páreo para as disciplinadas legiões de Nero. Ainda mais, foi a utilização pelo cônsul do estilo tático próprio de Aníbal, embora desdenhado como "não romano" por Lívio, que lhe assegurou a vitória. Aníbal perdeu, como nos é dito, nove mil homens, nove estandartes e seis elefantes. Ainda assim, não parece ter sido um combate decisivo, pois, ao invés de retroceder, Aníbal continuou sua marcha para o norte em direção a Canúsio, na Apúlia, e é significativo que Nero, enquanto o perseguia, era incapaz de impedir que ele se movimentasse quando e como lhe conviesse.

Batalha de Metauro

Batalhas da Segunda Guerra Púnica - Metauro
A Batalha do Metauro, travada em 207 a.C., próximo ao rio Metauro, na região italiana das Marcas, foi uma batalha da Segunda Guerra Púnica, na qual o comandante cartaginês Asdrúbal, irmão de Aníbal, foi derrotado e morto pelos exércitos romanos combinados dos cônsules Marco Lívio Salinator (que posteriormente receberia o cognome de Salinator, e Caio Cláudio Nero.

Após Metauro

Com a morte de seu irmão, Aníbal perdera a última esperança de derrotar Roma. A cabeça decepada significava o fim do bravo empenho para colocar o maior poderio militar do Mediterrâneo de joelhos por meio de um ataque ao coração da terra romana. Pela primeira vez em doze anos, Aníbal tinha perdido a iniciativa na guerra. Retrocedeu para o Brutium (atual Calábria), região selvagem e montanhosa da qual havia retirado a maioria de seus recrutas nos últimos anos e onde ainda detinha os dois pequenos portos de Crotone e Locros. A tentação de retornar a Cartago deve ter sido quase irresistível, pois Aníbal podia ver que a perda de Asdrúbal e seu exército significava que a guerra na Itália
Rio Metauro, San Angelo in Vado, Itália.
estava chegando ao fim. Sabia, também, que a península Ibérica provavelmente sairia do controle cartaginês, e que o golpe seguinte dos romanos após aquele seria a invasão da terra natal cartaginesa. Ao mesmo tempo, evidentemente concluiu que a sua presença na Itália, mesmo que enfraquecido e com seu exército praticamente ineficaz, restringiria muitas legiões e evitaria que os romanos concentrassem seu poder e sua frota em um ataque à própria Cartago. Deveria permanecer onde estava, representando uma permanente ameaça a Roma. A notícia da batalha do rio Metauro foi recebida com uma alegria que a cidade não havia conhecido em todos aqueles longos anos. Era, como observa o poeta
Horácio, o primeiro dia, desde que Aníbal irrompera dos Alpes, em que a vitória sorria para o povo romano. Ambos os cônsules foram recebidos em triunfo, com maior aclamação merecidamente dada a Cláudio Nero do que a seu companheiro, pois estava claro que sua iniciativa e brilhante decisão — em desobediência a todas as regras e regulamentos — havia lhes proporcionado uma vitória de imensas consequências. A ameaça a Roma estava eliminada e já se tinha evidenciado que Aníbal, por si só, embora general inigualável, não possuía homens ou equipamento para colocar a cidade em perigo. Quatro legiões foram desmobilizadas e nenhuma outra ação realizada naquele ano, a não ser manter vigilância e guarda sobre o cartaginês em sua toca na Calábria. Filipe V da Macedônia, sentindo que a cortina descia sobre o grande empreendimento anibálico, acertou a paz com os etolianos, encerrando, assim, sua curta e trabalhosa aliança com o cartaginês. O ano de 206 a.C. não viu maiores operações na Itália, e os dois cônsules, Quinto Metelo e Lúcio Filo, contentaram-se em manter Aníbal encurralado na Calábria. O centro principal da guerra encontrava-se agora na Hispânia, onde Cipião Africano continuava a demonstrar seu costumeiro brilhantismo, derrotando decisivamente o irmão mais novo de Aníbal, Magão, e Asdrúbal Gisgão em Bécula. Na guerra anterior, outros exércitos sob o comando de Hanão e Magão haviam sido vencidos e estava claro que a Hispânia inteira, todo aquele império cartaginês fundado por Amílcar, fugia do seu domínio. Isso ficou bastante evidente para os próprios iberos e celtiberos, que rapidamente se aliaram quase todos à causa romana. Para os que resistiram, assim como o poderoso chefe tribal Indíbilis, a reação romana foi rápida e sangrenta. Cidades fortificadas, como Áspata e Ilirúrgia, foram destruídas, tribos que haviam conspirado contra o pai e o tio de Cipião foram dizimadas, e Cástulo, a fortaleza onde se diz que Aníbal, muitos anos antes, encontrara uma esposa, rendeu-se às máquinas de sítio e espadas romanas. As ações de Cipião Africano na Hispânia anteciparam a posterior história do Império Romano (que ele tanto ajudou a fundar) como "sendo misericordioso para com os derrotados, porém massacrando os revoltosos". Sua disciplina não foi aplicada somente às tribos selvagens da Hispânia, pois quando irrompeu um motim em uma de suas legiões, este foi esmagado com igual rigor, e seus líderes prontamente aniquilados. Em breve ficaria claro que, com a partida de Asdrúbal para a Itália a fim de se juntar ao seu irmão, a mão unificadora cartaginesa na Hispânia havia sido retirada. A perda do controle cartaginês sobre o país aconteceu ainda mais rapidamente do que sua imposição. Somente Gades (atual Cádiz) permanecia como um último posto avançado do poder cartaginês e, antes do fim de 206 a.C., mesmo esse antigo posto de trocas dos povos púnicos preparava-se para dar as boas-vindas aos romanos. Embora isso tenha ocorrido muitos anos antes que todas as tribos da selvagem e montanhosa península Ibérica fossem pacificadas (um eufemismo para a espada), toda a Hispânia, com efeito, estava em mãos romanas. Após cerca de trinta anos, o domínio estabelecido pela família Barca chegara ao fim. Ainda que Aníbal permanecesse na Itália por mais três anos e nunca fosse derrotado em solo italiano, agora se encontrava privado da base de onde havia partido para sua longa marcha. Além disso ele e seu país perderam a prata e a riqueza mineral da península Ibérica, e mesmo o material humano que abastecera sua gigantesca aventura. Descobriria que a estratégia usada contra os romanos quando ele havia decidido invadir o país seria voltada contra os cartagineses. Todo o tempo Cipião Africano percebera que privar o inimigo de sua fonte de poder era a melhor maneira de derrotá-lo, e tinha atingido seu primeiro objetivo com o sucesso na Hispânia. Ele agora se preparava para seu segundo objetivo — a África. Lívio escreve que Cipião Africano "considerou a conquista da Hispânia algo insignificante comparado com tudo o que imaginava em suas magnânimas esperanças. Seus olhos já estavam sobre a África e a grande Cartago, e para a glória de tamanha guerra (…)". Sua política não ficou sem oposição no Senado e está claro que havia dois partidos principais no debate: um pressionando pela paz primeiro na Itália e pela remoção de Aníbal; e o outro para que se levasse a guerra mar afora. Os fabianos, liderados pelo filho do velho ditador, eram a favor de uma política italiana — colocando sua própria casa em ordem antes de estender a guerra — enquanto Cipião Africano era pela expansão. Seu pai e seu tio haviam morrido na Espanha, e ele finalmente conseguira conquistá-la, mas olhando mais adiante considerava a conquista da África mediterrânea. A maioria do Senado foi contra ele. Naquele décimo terceiro ano da guerra, o país inteiro achava-se exausto, suas terras devastadas, seu poderio humano definhando, e cada cidadão e aliado cambaleava sob uma intolerável carga de impostos. A razão pela qual Cipião Africano conseguiu êxito em seu ambicioso plano foi que seu triunfante retorno a Roma, precedido por centenas de libras de prata e muitos nobres cativos como evidência de seu sucesso, obscureceu os argumentos de seus oponentes. Numa onda de entusiasmo popular ele foi eleito para um mandato consular para o ano de 205 a.C.. Em todo caso, ele já havia começado a fazer sondagens na África, antecipando, assim, a reação dos oponentes.

Cipião propõe invadir a África

Alguns meses antes de seu retorno a Roma, confiante de que tudo estava
Sífax recebendo Cipião, afresco de Alessandro Allori.
terminado na Hispânia, Cipião Africano cruzara rumo à África para encontrar Sífax, o rei númida, com a intenção de trazê-lo a uma aliança com Roma contra Cartago. No porto de Cirta (
Constantina), vizinho ao território cartaginês, Cipião Africano encontrou navios de guerra inimigos e ninguém menos que Asdrúbal Gisgão, o qual, junto com filho de Amílcar, Magão, havia recentemente travado combate com ele. Foi um estranho encontro (possivelmente engendrado pelo ardiloso rei númida), mas, uma vez que aconteceu em território neutro, não havia a possibilidade de qualquer demonstração de hostilidade entre os visitantes romanos e cartagineses. Lívio escreve que "para Sífax pareceu esplêndido — como certamente o era — que os generais dos dois povos mais ricos daquela época tivessem vindo no mesmo dia para pedirem sua paz e amizade". Ele convidou a ambos para jantar com ele, e "(…) na mesmíssima poltrona, assim disposto pelo rei, Cipião Africano e Asdrúbal se sentaram. Além disso, tais eram as galantes maneiras de Cipião Africano, sua esperteza inata em enfrentar cada situação, que com seu modo eloquente de se portar conquistou não apenas a Sífax, o bárbaro ignorante das maneiras romanas, mas também o seu mais amargo inimigo. Asdrúbal mostrou claramente que, ao encontrá-lo face a face, Cipião Africano] pareceu-lhe ainda mais admirável do que em suas atividades na guerra, e que ele não duvidava de que Sífax e seu reino deveriam em breve estar em poder dos romanos; tal era a habilidade daquele homem em converter indivíduos à sua causa". Logicamente, o fato é que o inteligente númida perceberia a direção em que o vento soprava no Mediterrâneo. "Então, Cipião Africano, após fazer um tratado com Sífax, navegou para fora da África (…)". Durante aquele inverno, enquanto Cipião Africano era aclamado em Roma, o irmão de Aníbal, Magão, encontrava-se nas ilhas Baleares. Após realizar uma ousada, porém ineficaz, tentativa de capturar Nova Cartago, ele se desesperara com a situação na Hispânia. Deixara Gades e levara a frota cartaginesa, antes de mais nada, para Pitiússa (Ibiza), uma velha colônia cartaginesa, pretendendo recrutar soldados de infantaria e os famosos fundibulários baleárides entre os ilhéus. Mesmo nessa tardia etapa da guerra, fica claro que Cartago não havia perdido a esperança de vencê-la na Itália. Magão havia recebido ordens de "contratar o maior número possível de jovens gauleses e lígures para se juntarem a Aníbal e não permitir que uma guerra, que havia começado com o maior vigor e ainda maior boa sorte, declinasse agora". O Senado em Cartago havia lhe enviado uma grande soma de dinheiro para esse propósito. A frota de Magão também foi abastecida com ouro e prata de Gades, onde saqueara os templos e o tesouro antes de partir. Havia pilhado até mesmo o famoso e imensamente rico templo de Melcarte, durante séculos, o último onde os marinheiros fenícios faziam as suas oferendas antes de suas jornadas pelo grande oceano. Um cartaginês, descendente dos fenícios fundadores daquele relicário sagrado há cerca de novecentos anos, profanando-o agora, evidenciava o desespero que Magão e seus homens devem ter sentido com a perda da Espanha. Durante aquele inverno, embora repelido em Mallorca, Magão conseguiu recrutar cerca de doze mil soldados e dois mil cavaleiros em Minorca. Com essas tropas faria um ataque na costa lígure na primavera de 205 a.C., no decorrer do qual capturou as importantes cidades de Savo (Savona) e Genoa (Gênova). Naquele estágio de complexidade da guerra anibálica, que envolvia todo o Mediterrâneo central e ocidental e todas as terras adjacentes, é relativamente fácil ver o objetivo de Cipião Africano. Seu colega para o ano era Públio Lícino Crasso, a quem foi confiada a guarda sobre o Brútio e Aníbal, enquanto Cipião Africano ficou na província da Sicília com a previsão de que dali poderia cruzar para a África "se ele julgasse vantajoso para o Estado". Este, a despeito da objeção do partido fabiano a mais envolvimentos além-mar, era um claro convite para que levasse a guerra até as portas de Cartago, pois toda a Sicília estava agora tranquila e subserviente a Roma. Ao mesmo tempo, seus oponentes no Senado fizeram tudo o que podiam para evitar que ele agisse — negando-lhe o direito de levar para além-mar quaisquer legiões da própria Itália por causa da ameaça do Brútio ("Onde está Aníbal, ali está o centro da guerra"). Foi deixado para o próprio arbítrio de Cipião Africano se ele levaria a guerra à África do Norte. Se fracassasse, seria considerado culpado de exceder-se em suas instruções. Enquanto é possível discernir os objetivos romanos naquela altura do longo conflito, é extremamente difícil entender os dos cartagineses. Não existem registros, e Lívio não poderia conhecê-los; Políbio — que bem pode tê-lo feito e é mais confiável como historiador — não pode ajudar, pois essa seção de sua história está perdida. As instruções para Magão avançar até a costa lígure após alistar um pequeno núcleo de um exército nas ilhas Baleares, e então seguir até a Gália Cisalpina alistando mais gauleses, como o fizera Asdrúbal, sugerem que algum tipo de operação duplicada estaria planejada — um voo do norte para juntar-se a Aníbal surgindo do sul. Por outro lado, embora pobres como eram as comunicações naqueles dias, seria surpreendente se o Senado cartaginês não tivesse evidências suficientes de como essa estratégia havia fracassado com Asdrúbal. Eles certamente também devem ter sabido (já que havia espiões cartagineses em toda parte) que a Etrúria estava descontente e potencialmente pronta para uma rebelião contra seus antigos inimigos, os romanos. Se o irmão de Aníbal, Magão, pudesse levantar tropas suficientes entre os lígures e os gauleses cisalpinos para aumentar essa revolta etrusca — e então consolidá-la reunindo-se com os etruscos — Roma, com certeza, estaria ameaçada como nunca desde que Aníbal havia cruzado os Alpes. Em tal momento, Aníbal, deslocando-se do Brútio, revelaria o poder de sua estratégia contra os exércitos que o vigiavam no sul. Cartago e seus governantes (e eles, como Roma, sempre possuíam dois partidos conflitantes, um demandando a paz negociada e o outro a guerra) não falharam a Aníbal ou a Magão mesmo nessa hora tardia. No decorrer daquele ano de 205 a.C., dois grandes comboios foram despachados da África do Norte para a Itália, um destinado a Magão e outro a Aníbal. Era uma evidência da capacidade de construção naval de Cartago que, mesmo depois da sua humilhação desde a Primeira Guerra Púnica, ainda podia enviar frotas para os mares. O comboio designado para reforçar Aníbal no sul jamais chegaria até ele: oitenta navios cartagineses foram capturados naquele verão quando navegavam através dos tranquilos mares da Sardenha. Uma vez mais os romanos mostravam sua superioridade naval e demonstravam o quanto eles compreendiam bem a importância do poderio naval. O comboio para Magão, contudo, alcançou-o e trouxe o reforço de vinte e cinco navios de guerra, seis mil homens de infantaria, oitocentos de cavalaria e sete elefantes. Ele também recebeu uma soma adicional de dinheiro para comprar os serviços de tropas mercenárias. Enquanto seu irmão reunia tropas no norte, Aníbal continuava retido e inativo no Brútio e pouco tomou parte nessa frente, exceto por esparsas pilhagens em território romano. A qualidade dos homens de Aníbal agora era tal que é duvidoso que pudesse ter apresentado um exército capaz de um combate maior. Prova disso pode ser vista nas circunstâncias sob as quais ele perdera Locros, um de seus dois únicos portos (e de longe o melhor), para um ataque marítimo lançado por Cipião Africano de sua base na Sicília. Embora Locros estivesse tecnicamente fora de sua esfera de comando, Cipião Africano percebeu que seu companheiro cônsul ao norte não poderia nunca abrir caminho através do Brútio para capturar a cidade, e então sabiamente agiu por seu próprio julgamento. Três mil homens foram despachados do Régio sob o comando de um dos oficiais de Cipião Africano, Quinto Plemínio, para atacarem Locros por terra, ao mesmo tempo que — da maneira usual — um grupo de dissidentes dentro da cidade se preparava para traí-la. O pequeno porto de Locros ficava protegido entre duas elevações, ambas defendidas por cidadelas. Os romanos conseguiram tomar uma delas, enquanto os cartagineses recuavam para dentro da outra. Ao ouvir as notícias, Aníbal imediatamente marchou do norte, mandando antes dizer aos cartagineses que saíssem com ferocidade assim que vissem seu exército se aproximando. Cipião Africano, prevendo que Aníbal se deslocaria para o resgate da cidade, veio por mar de Messina na Sicília e desembarcou tropas, que esperaram na cidade até que o exército cartaginês fosse avistado. Ao invés de ser recebido pela guarnição cartaginesa, Aníbal encontrou uma frota romana no porto, tropas revigoradas e prontas para a batalha. Sua confiança em Locros foi frustrada, e suas tropas inexperientes foram batidas em um primeiro confronto. Nada mais lhe restava a não ser retroceder. Havia perdido Locros, e agora o único porto que lhe restava era Crotone. Nos dois anos restantes de Aníbal na Itália, essa antiga cidade grega tornou-se sua principal base. Outrora lar do filósofo Pitágoras e do famoso atleta Milo (seis vezes vencedor da luta romana nos jogos olímpicos), Crotone era agora pouco mais do que uma cidade provincial sem importância, com uma pequeno ancoradouro. Sua mais famosa atração era o grande templo da deusa Hera, conhecido como Hera Lacínia por causa do promontório onde se localizava. Por séculos aquele havia sido um dos principais pontos de referência para marinheiros quando se aproximavam da Itália vindos da Grécia, ou quando partiam do sul do golfo de Taranto rumo às ilhas Jônicas. Ali, no meio dos ex-votos de marinheiros, Aníbal mais tarde erigiria a grande placa de bronze (mencionada por Políbio) na qual deixara gravado, em púnico e em grego, a força de seu exército ao cruzar os Alpes e suas ações durante os quinze anos que passou na Itália. Foi em Locros que Aníbal e Cipião Africano encontraram-se pela primeira vez como comandantes. Muitos curiosamente, era com os contingentes de sobreviventes ao desastre romano em Canas (Cipião era um deles) que Cipião Africano agora começava a preparar seu ataque à África. Na Sicília, que ele pretendia utilizar como sua base de invasão, o excelente porto de Lilibeu (Marsala) no oeste era o mais próximo ponto de partida para a região de Cartago. As duas legiões na província tinham sido formadas a partir daqueles desacreditados soldados de Canas, mandados para ali em desgraça após sua derrota, e como a facção anti-Cipião do Senado que se opunha a Cipião Africano sem dúvida pensou, iriam mostrar-se inadequados para qualquer projeto ambicioso que Cipião Africano arquitetasse. Contudo, aqueles legionários, reforçados pelos veteranos de Marcelo vitoriosos em Siracusa, ainda se condoíam por sua humilhação e não queriam outra coisa senão esquecer o passado e levar a guerra ao campo inimigo. Cipião Africano, que sofrera com eles, compreendia seus sentimentos e era o homem certo para liderá-los. Mais do que isso, apelando ao desejo de vingança de seus antigos inimigos, Cipião Africano excitou a ajuda voluntária de várias comunidades da Itália, muitas das quais, tais como os etruscos, sem dúvida ávidas para provarem a Roma sua lealdade, agora que parecia claro que a causa cartaginesa estava arruinada. Lívio relaciona os lugares e detalhes onde o auxílio espontâneo foi prestado ao jovem e ambicioso cônsul quando se preparava para levar a guerra ao território inimigo: "Primeiro, as comunidades etruscas disseram que ajudariam o cônsul, cada qual segundo os seus recursos. Os homens de Cere prometeram alimento para as tropas e suprimentos de todo tipo; os homens de Populônia, ferro; os Tarquínios, linho para as velas; Volaterras, o equipamento do interior dos navios e também grãos (…)". Arécio forneceu três mil escudos e um igual número de elmos; cinquenta mil azagaias, arpões curtos e lanças; também machados, pás, foices, cestos e moinhos manuais suficientes para equipar quarenta navios de guerra; cento e vinte mil sacas de trigo, e pagamento suplementar para suboficiais e remadores. Uma grande quantidade de grãos veio de Perúgia, Clúsio e Ruselas, assim como madeira de pinho para a construção naval. A Úmbria e o distrito Sabino forneceram soldados, enquanto os marsos, pelígnos e marrucinos ofereceram-se voluntariamente em grande número para a frota. A cidade de Caméria enviou uma coorte de seiscentos homens totalmente armados. Vinte quinquerremes e dez quadrirremes, prontos e equipados, foram lançados ao mar "no quadragésimo quinto dia após a madeira ter sido trazida das florestas". Na primavera de 204 a.C., Cipião Africano embarcou em Lilibeu com trinta mil homens em quatrocentos transportes escoltados por quarenta navios de guerra. Não mais cônsul, mas procônsul com comando sobre a Sicília, Cipião Africano levava a vingança da República Romana para dentro da África.

A invasão de Cipião e a estadia de Aníbal na Itália

Durante seu último ano no continente europeu, Aníbal fora capaz de fazer pouco mais do que assegurar que as legiões romanas permanecessem na Itália. Nada além do medo ao próprio Aníbal retinha tantos milhares de homens, pois seu exército, naquele momento, era tão paliativo que, em quaisquer outras mãos, não representaria qualquer ameaça a Roma. O foco de interesse da guerra fora dirigido, primeiramente, para a Espanha e, então, depois que a brilhante estratégia de Cipião Africano desbaratou os cartagineses, voltara-se para a África. Quando se tornou patente que a própria Cartago em breve seria objeto de ataques e que o poder cartaginês enfraquecia por toda parte, as várias tribos habitantes da linha costeira do Mediterrâneo no continente africano começaram a se preparar para romper com sua fidelidade aos seus antigos senhores. Quando Cipião Africano deixou a África, após seu encontro com o rei númida Sífax, pôde ter o gosto de saber que atingira o seu objetivo e que Sífax era agora um aliado de Roma. Cipião Africano sabia, através da guerra na Hispânia e Itália, que uma temível e eficiente parte dos exércitos cartagineses era representada pelos cavaleiros númidas. Esperava poder contar com essa aliança para dar ao seu próprio exército invasor a cavalaria na qual os romanos eram sempre deficientes. Mesmo antes de deixar a Sicília, entretanto, ouviu de Sífax que não poderia contar com qualquer apoio dele e, com certeza, Sífax cautelosamente o advertiu para que não invadisse ou ele encontraria o desastre. O que aconteceu foi que, durante a ausência de Cipião Africano em Roma e na Sicília, Asdrúbal Gisgão havia reconquistado a fidelidade de Sífax a Cartago, oferecendo-lhe em casamento sua bela filha Sofonisba. O rei númida, "enquanto sob a influência do primeiro êxtase do amor", abandonou sua aliança romana e tornou-se um fiel servo de Cartago. Masinissa, outro poderoso rei númida e inimigo mortal de Sífax, após longa luta pelo trono do reino númida, foi derrotado por Sífax e forçado a fugir. Somente uma coisa era certa quando Cipião Africano partiu com sua força de invasão para o norte da África: havia perdido o apoio de Sífax, com o qual contava, mas tão grande era o ódio entre o rei e Masinissa, que este último bem poderia vir a ajudar os romanos, se isso significasse vingança sobre o homem que o havia humilhado. Na primavera de 204 a.C., as tropas de Cipião Africano desembarcaram no cabo Farina (o promontório de Apoio), cabo que formava o braço ocidental da grande baía na qual se situava Cartago. Bem perto, ficava a cidade de Útica, que Cipião Africano esperava utilizar como sua principal base e porto para a campanha africana. A chegada da frota e do exécito romano tão perto de sua cidade causou tal pânico entre os cartagineses que pode ter excedido até mesmo o estado ao qual Roma foi lançada pelas primeiras façanhas de Aníbal. Ao contrário dos romanos, eles não tinham um grande exército fixo, sempre dependendo demasiadamente de mercenários; não possuíam aliados confiáveis, e nenhum grande general para conduzi-los, com Aníbal tão longe, do outro lado do mar, no Brútio. Suspeita-se que mesmo neste início da guerra africana devem ter havido vozes pedindo para chamar de voltar o filho de Amílcar. Os cartagineses só conheciam a reputação dos feitos de Aníbal na Europa, mas devem ter se lembrado de como seu pai os havia salvo antes. Nesse meio tempo, Asdrúbal Gisgão começou a levantar um exército (de qualidade medíocre), enquanto Sífax, ainda enamorado de sua noiva e consequentemente de Cartago, preparava-se para auxiliar com sua cavalaria. Como era de se esperar, seu arqui-inimigo, Masinissa, surgiu no acampamento de Cipião Africano, prometendo a ajuda de seus próprios cavaleiros númidas. Diz-se que o ódio entre os dois reis norte-africanos havia aumentado ainda mais porque Masinissa também tinha sido pretendente da filha de Asdrúbal Gisgão, Sofonisba, e, citando Lívio, "os númidas ultrapassam todos os outros povos bárbaros na violência de seu apetite". Parece que o sexo, assim como o política, desempenhou seu papel na guerra. Tendo atingido seu objetivo, a invasão do território cartaginês com exército e frota adequados, era de se esperar que Cipião Africano agisse com o mesmo ímpeto e determinação que lhe havia rendido Nova Cartago e depois toda a península Ibérica. Em vez disso, parece ter hesitado, quase como se tivesse sido intimidado pela terra estranha e pela vastidão da África do Norte. Ao contrário de Aníbal em sua travessia dos Alpes, Cipião Africano conseguira transportar equipamentos de sítio em seus navios desde a Sicília, e tinha muitos engenheiros treinados para sitiar entre os homens que auxiliaram na captura de Siracusa. Mas Cartago, em sua cintilante baía, era indubitavelmente muito mais assombrosa, e talvez ele não soubesse do miserável estado moral no interior da cidade e desconhecesse suas inadequadas forças. Parece nunca ter considerado a hipótese de atacá-la, mas, em lugar disso, iniciou o sítio a Útica. Também é possível que Cipião Africano estivesse tomado pela lembrança do famoso Régulo que, após um sucesso inicial na mesma região durante a Primeira Guerra Púnica, tinha sido decisivamente derrotado e morrido sob tortura nas mãos dos cartagineses. Fora advertido sobre o destino de Régulo pelos fabianos no Senado e ele sabia quantos dos seus inimigos em Roma ficariam felizes em ver os seus planos desmoronarem. De qualquer modo, Cipião Africano decidiu assegurar sua base em Útica antes de considerar um ataque à capital. Mesmo nesse objetivo, entretanto, não foi bem-sucedido: por aproximadamente quarenta dias, as torres e muralhas de Útica foram atacadas por terra e mar, e ainda assim os defensores resistiram. Então, as forças de resgate, comandadas por Asdrúbal Gisgão e Sífax, chegaram — um exército maior do que o de Cipião Africano e com uma formidável quantia de cavaleiros. Obrigado a levantar o sítio, Cipião Africano retrocedeu suas forças para um acampamento no cabo, onde montou seu quartel-general de inverno. A campanha do primeiro ano em terra inimiga não fora um sucesso e ele ainda estava retido na cabeça-de-praia onde desembarcara tão confiante naquele ano. Enquanto Cipião Africano continuava engajado na África, os dois cônsules para o ano estavam na Itália; um, Cornélio Cetego, vigiando a Etrúria e o norte, no caso de Magão fazer algum movimento, e o outro, Semprônio Tuditamo, guardando o Brútio e Aníbal. Semprônio, ambicioso e ávido para tentar uma definição com o cartaginês, marchou para ameaçar a última fortificação de Aníbal, a cidade de Crotone. No primeiro e confuso embate, enquanto ambos os exércitos pareciam estar em marcha, os romanos foram surrados, perdendo cerca de mil e duzentos homens. Não desejando correr mais nenhum risco, Semprônio convocou o procônsul Públio Lícino com suas duas legiões. Havia, então, quatro legiões romanas e quatro aliadas movendo-se sobre Crotone, e Aníbal, cujas forças naquele momento deveriam consistir em apenas metade dessa quantia, preparou-se para responder à batalha, pela simples razão de que não poderia, naquela altura, abandonar a cidade e o porto. Com uma cavalaria númida insuficiente e praticamente nenhum soldado de infantaria treinado da Hispânia ou de Cartago, seu inábil exército foi forçado a retroceder para dentro dos muros da cidade, perdendo cerca de quatro mil homens. Talvez o cônsul pudesse alegar que fora ele o primeiro a ter expulsado Aníbal do campo de batalha durante todos os seus anos na Itália, mas seu objetivo, Crotone, permanecia nas mãos de Aníbal, que continuava atrás dos portões fechados. Ele só poderia esperar. Tivesse Aníbal sido capaz de se retirar naquele ano com quaisquer exércitos e navios que pudesse angariar e sua aparição na costa da África teria mudado o curso da guerra. O Senado e o povo de Cartago teriam seu ânimo revigorado; apenas seu nome teria reanimado os homens das tribos e cavaleiros em seus milhares; o moral romano teria desmoronado. Cipião Africano havia sido malsucedido em Útica e feito pouco mais do que assolar o campo ao redor; a chegada de Aníbal pelo mar por detrás dele teria colocado os romanos em tal desvantagem que eles poderiam ter sido forçados a se evadir. Porém, nenhuma palavra chegou convocando Aníbal de volta à cidade. O papel de Magão, naquela fase da guerra, não está bem documentado, mas, nas informações disponíveis, consta que Magão não pretendia fazer uma conjunção com Aníbal, e, sim, desviar a atenção romana para o norte, evitando o deslocamento de uma força de invasão romana para a África do Norte. Foi bem-sucedido no recrutamento de líderes para a sua causa, principalmente depois de mostrar como poderia dominar todo o golfo de Gênova pela ocupação dos dois maiores portos e como estava a atividade de sua frota naquela região. Os gauleses cisalpinos, contudo, um tanto relutantes em se unirem a Asdrúbal quando ele descera pelos Alpes, estavam ainda menos desejosos de se juntar a uma causa que já viam como em declínio. Seus pais haviam brandido armas após Aníbal, esperando ver Roma destruída, mas apesar dos sucessos de Aníbal, haviam tombado por toda a Itália, e os poucos que permaneceram com ele continuavam encurralados, centenas de milhas distante, no selvagem Brútio. Os gauleses testemunharam o fracasso de Asdrúbal no rio Metauro, e aquele irmão caçula da família, Magão, dificilmente poderia persuadi-los a enfrentar a fúria de Roma. Eles também tinham visto os benefícios das áreas de agricultura possibilitados pelos romanos, e a guerra homérica de seus pais tornara-se menos atrativa. No verão de 203 a.C., Magão parece ter cruzado a região do Pó, assim concentrando a atenção das legiões romanas ao norte. Esperava evidentemente por um levante na Etrúria contra os romanos. Qualquer que fosse a sua intenção, Magão engajara-se numa grande batalha cornos romanos em solo italiano em 203 a.C.. Parece ter sido uma luta feroz, com perdas consideráveis de ambos os lados, mas com as forças cartaginesas levando a pior. Durante essa ação, o próprio Magão foi seriamente ferido e retirou-se com os outros sobreviventes para a Ligúria. Este seria o último grande combate na Itália entre cartagineses e romanos no decorrer da guerra. Em sua chegada à Ligúria, aguardavam por Magão instruções para que retornasse com seus navios e homens a Cartago. A cidade-mãe, ameaçada por Cipião Africano, estava agora na defensiva. A aventura italiana, para todos os efeitos, seria abandonada. Magão morreu, devido aos ferimentos, quando sua frota passava pela Sardenha — a ilha repleta de madeira e minerais, agora sob controle romano, mas, outrora, uma das maiores das muitas ilhas-colônia cartaginesas que haviam ameaçado Roma. Durante o inverno de 204-203 a.C., enquanto Aníbal permanecia em Crotone e seu irmão Magão preparava-se para a ofensiva de primavera que o levaria à morte, Cipião estava ocupado na África do Norte. Fracassara na captura de Útica, e a abertura de sua campanha não obtivera o sucesso que ele devia ter esperado após sua experiência com os cartagineses na Hispânia, mas nunca deixou de trabalhar em sua estratégia geral — a derrota de Cartago com a incorporação, como derradeiro objetivo, do império norte-africano da cidade ao império de Roma. Nenhum homem pode reclamar para si maior crédito — ou culpa — pela fomentação do império romano do que Cipião Africano, aclamado no século XX pelo historiador militar britânico Basil Henry Lidell Hart como "maior do que Napoleão". Percebendo que o númida Sífax possivelmente era mais importante do que Masinissa, comandando mais forças — forças das quais Cartago dependia bastante — Cipião decidiu tentar demovê-lo de sua aliança. Durante todo o inverno, enviados se deslocaram para lá e para cá entre o romano e o númida, com Cipião Africano fingindo ter uma autoridade que nunca possuíra — a de fazer um tratado de paz sem qualquer consulta a Roma, e Sífax sugerindo um fim para a guerra por meio de um acordo entre Cipião Africano e Aníbal em que um deveria deixar a África e outro a Itália. As negociações foram prolongadas, pois Cipião Africano podia facilmente pressentir que Sífax queria apenas os romanos fora do caminho para que pudesse finalmente destruir seu odiado rival Masinissa e tomar todo o seu reino. Quando os enviados romanos iam visitar os acampamentos de seus inimigos, eram frequentemente acompanhados por centuriões experientes, disfarçados como lacaios e servos, que aproveitavam a oportunidade, enquanto seus "senhores" se reuniam em conferências, para fazerem um cuidadoso estudo dos acampamentos e da disposição dos inimigos. Ao retornarem, relataram que a disciplina estava relaxada, o moral baixo e que os cartagineses estavam abrigados em cabanas de madeira, enquanto os númidas estavam em tendas de junco, muitas das quais nem mesmo ficavam no interior da paliçada do acampamento. No início da primavera de 203 a.C., Cipião Africano estava preparado para sua ofensiva. Enviou uma mensagem para Sífax de que estava prestes a concluir um tratado, embora ainda sofresse alguma oposição — que esperava vencer — por parte de seus oficiais graduados. Isso significava que, no momento, deveria interromper as negociações. Sífax e Asdrúbal Gisgão entenderam isso como se, no devido tempo, Cipião Africano pudesse convencer seus companheiros do bom senso de um tratado, e enviaram uma resposta pela qual, da parte deles, desejavam muito aceitar os termos discutidos. Cipião Africano agora conhecia não apenas a disposição do inimigo, mas também sabia que seu moral estava baixo e que eles ansiavam pela paz. Todo o seu procedimento estava longe de ser conforme a velha tradição romana de boa-fé, que seus historiadores gostavam de contrapor, injustamente, à assim chamada "fé púnica". Com certeza, parecia que os cartagineses com frequência se comportavam mais escrupulosamente do que os romanos. A concepção de Aníbal sobre as honras no campo de batalha, por exemplo, sempre assegurou a prestação das honras devidas ao inimigo morto, enquanto Cláudio Nero, após sua vitória no rio Metauro, havia descido ao ponto de cortar a cabeça do irmão de Aníbal, e guardá-la, para então jogá-la nas linhas de Aníbal na calada da noite. Cipião Africano, tendo induzido um sentimento de relaxamento da guarda entre seus inimigos, começou a se movimentar. Reiniciou o sítio de Útica por terra e mar, enviando sua frota — recém-lançada, após o inverno — para o bloqueio, enquanto as máquinas de guerra principais foram trazidas de seu acampamento para o ataque terrestre. Isso tudo apenas para desviar os cartagineses de sua verdadeira intenção, e possivelmente convencer Sífax e Asdrúbal Gisgão de que ele continuava a atuar numa guerra que não os ameaçava, enquanto esperava que a sua oposição romana fosse convencida de que um tratado de paz deveria ser conseguido. Sua esperta distração funcionou, e os cartagineses e númidas sentiram-se seguros de que ele não mais do que repetia suas táticas do ano anterior. Então Cipião Africano atacou. Numa noite, os oficiais romanos começaram a deslocar seus homens do acampamento assim que o toque de clarim anunciando o cair da noite soou. Havia umas sete milhas entre eles e os acampamentos do inimigo, aonde chegaram por volta da meia-noite. O homem que era o braço direito de Cipião Africano, Lélio, foi designado junto com Massinissa e seus cavaleiros, para atacar o acampamento númida enquanto Cipião Africano atacava os cartagineses. Com as atenções dos líderes cartagineses e númidas concentradas sobre Utica, e relaxando em seus deveres esperando pelas demoradas negociações de paz, como demonstrava o seu despreparo, os acampamentos eram alvos vulneráveis. Os númidas de Massinissa não tiveram dificuldade para invadir o acampamento de Sífax e atear fogo às tendas de junco — eles próprios estavam acostumados a viver nelas e sabiam com que facilidade queimavam. O vento soprava, possivelmente um meridional, naquela época do ano, e logo todo o acampamento ficou em chamas. Quando os sonolentos ocupantes das tendas saíram correndo para fora, pensando tratar-se de não mais que um acidente, eram abatidos pelos cavaleiros de Masinissa. Alertados pelas sentinelas sobre o holocausto no acampamento vizinho, os cartagineses começaram a sair de suas cabanas de madeira — apenas como espectadores desarmados. Assim que o fizeram, os romanos de Cipião Africano (muitos ainda com a lembrança de Canas) caíram sobre eles. O acampamento cartaginês também foi totalmente incendiado, e os cartagineses foram mortos aos milhares. Com este duplo golpe, tão brilhante, ainda que traiçoeiramente executado, Cipião Africano destruíra as forças combinadas do exército cartaginês. Asdrúbal Gisgão e Sífax conseguiram escapar levando apenas uns poucos milhares de homens com eles. Asdrúbal, como comandante geral, tinha sido culpado de grave negligência ao se deixar enganar por um sentimento de segurança. Suas experiências em combates contra Cipião Africano na Hispânia deveriam tê-lo alertado para o fato de que o romano não somente era um grande estrategista, mas também um astuto e duro comandante em campo. Ele, então, prosseguiu com seu ataque noturno, perseguindo Asdrúbal Gisgão e os remanescentes de seu exército, expulsando-o da cidade em que haviam se refugiado e devastando vários povoados locais. Houve medo e confusão em Cartago mas, apesar dos clamores do partido da paz, tomaram a resolução de que a guerra prosseguisse. Imensa riqueza de Cartago foi empregada no envio a Asdrúbal e Sífax do dinheiro necessário para a formação de outro exército. A chegada de quatro mil celtiberos, recrutados na Hispânia, proporcionou um núcleo de combate para a nova força, e em um curto espaço de tempo, Asdrúbal e Sífax haviam levantado um exército de cerca de trinta mil homens que eles reuniram em uma região conhecida como Grandes Planícies no rio Bagradas. Cipião Africano não perdeu tempo e, deixando uma força de sítio ao redor de Útica, marchou rapidamente ao encontro do inimigo. Quando se bateu contra eles, destruiu esse segundo exército em uma magnífica batalha. Mais uma vez, Asdrúbal e Sífax escaparam na confusão geral, o primeiro para Cartago e o outro para Cirta. Cipião Africano, mais do que Aníbal, nunca relaxava após um sucesso, mas procurava consolidar sua vantagem. Avançou sobre um número de cidades da África do Norte, algumas das quais sucumbiram por temor e outras por antigas pendências com Cartago. Depois, Cipião começou o sítio a Útica — dessa vez para valer — com metade de seu exército, enviando a outra metade comandada por Lélio e Massinissa, ao longo da costa norte-africana até a Numídia. Masinissa estava ansioso para acertar as contas novamente com seu inimigo Sífax, tanto para capturar para si Sofonisba quanto para retomar Cirta que, embora fosse agora a capital de Sífax, já havia pertencido ao pai de Masinissa. Numa batalha duramente disputada, ele e sua cavalaria, mais os vigorosos legionários romanos, não apenas destroçaram o exército de Sífax como ainda o capturaram vivo. O triunfo de Masinissa foi completo, pois ele não só reconquistou Cirta mas também, demonstrando um senso de vingança verdadeiramente norte-africano, tomou a esposa de seu inimigo, Sofonisba, para si. Cipião Africano, mais tarde, repreendeu-o por isso, uma vez que Sífax e sua esposa eram prisioneiros de Roma, e para Roma deveriam ir. Sofonisba, para não cair prisioneira e abrilhantar um triunfo romano, envenenou-se. A história dessa jovem da nobreza cartaginesa, enredada pelas guerras e políticas, é curiosa e movimentada. Guardando algumas semelhanças com as histórias de Dido e Cleópatra, essa é outra das tragédias norte-africanas. Os sucessivos desastres na primavera e começo do verão de 203 a.C. haviam alarmado muito toda Cartago. O mesmo Hanão que havia comandado a cavalaria pesada de Aníbal em Canas foi totalmente encarregado da defesa, e emissários cartagineses foram enviados a Roma para tentarem negociar os termos da paz. Como derradeiro golpe na sorte cartaginesa, uma tentativa de livrar Útica falhou. Todos esses desastres sucessivos geraram um clamor em todos os níveis, desde o conselho de Birsa até os lares, oficinas e armazéns da cidade — "Chamem Aníbal de volta!". Infelizmente, como os eventos demonstrariam, eles o haviam feito tarde demais. A despeito da superioridade naval de Roma, três frotas cartaginesas conseguiram cruzar o Mediterrâneo entre a Itália e a África do Norte durante aquele ano. Uma conduzia o moribundo Magão de volta da costa lígure com sua força mista de tropas baleárides, lígures e gaulesas; a segunda foi despachada de Cartago para evacuar Aníbal; e a terceira foi essa mesma frota, aumentada pelos navios que Aníbal possuía em Crotone, trazendo-o de volta para defender Cartago em seu momento de necessidade. O mar é vasto, e nos dias de comunicações primitivas era bastante difícil para os romanos vigiar todas as rotas de navegação. Séculos mais tarde, até mesmo Nelson, que procurava avidamente pela frota de Napoleão, fracassou em avistá-lo enquanto ele navegava triunfantemente em direção ao Egito. A frota de Aníbal, inadequada para suas necessidades, e o exército que finalmente trouxe consigo de volta para a África provavelmente somava não mais do que quinze mil homens (as estimativas se situam entre doze mil e vinte e quatro mil). O exército da Itália era um estranho composto. Deviam existir poucos dos veteranos que cruzaram os Alpes com ele cerca de quinze anos atrás. Os brútios, gauleses e desertores romanos que então compunham a maior parte de suas tropas claramente não eram da mesma qualidade, mas ainda seguiam de bom grado o mesmo homem, seu general cartaginês de um só olho. É evidente que não possuía muitos meios de transporte, pelo fato de que não pôde levar de volta os cavalos que o ajudaram em tantas de suas vitórias e de que ele tanto necessitaria no ano seguinte. Todos tiveram de ser sacrificados para que não ficassem para os romanos. No outono de 203 a.C., Aníbal viu pela última vez o pequeno porto de Crotone e, além da velha cidade, as escarpadas elevações da cordilheira de Sila, cobertas de árvores, uma paisagem de lobo selvagem. Durante os poucos anos antes de partir, teve que fazer daquela região seu lar, mas antes já havia percorrido toda a Itália; do vale do Pó, no extremo norte, à sorridente Etrúria, até a costa oeste e a baía de Nápoles, onde as cidades gregas estavam incrustadas, e daí muitas vezes até as mais selvagens praias do Adriático. Ele conhecia a terra e seus povos como poucos italianos jamais conheceriam: cidades e povoados, as carrancudas muralhas de Roma — as quais nunca havia penetrado — planícies quentes, como Canas, vales domesticados, a indolente Cápua, camponeses e carvoeiros, rudes montanheses e disciplinados romanos — todo um mundo que ele quase havia feito seu. Agora, ele estava indo embora, para uma cidade da qual ele mal podia lembrar-se. Ainda assim, era por Cartago que havia lutado por tanto tempo e sofrido tanto — por Cartago e por um juramento feito por um menino diante de um altar enevoado.

Continuação:
Biografia do General Anibal-parte-1
Biografia do General Anibal-parte-2
Biografia do General Anibal-parte-3
Biografia do General Anibal-parte-4
Biografia do General Anibal-parte-6 


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