sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Biografia do General Aníbal (parte 4/6)


Aníbal
... Era aterrador que Aníbal, com seu pequeno corpo de oficiais cartagineses e seus definhados grupos de soldados profissionais, tivesse sido capaz de utilizar a força humana de rudes gauleses e primitivos brútios para tal. Ao mesmo tempo, enquanto seu próprio exército, mesmo com Hanão e outros recrutando substitutos, declinava em força, os romanos recrutavam homens em quantidade na extensa e relativamente próspera terra da Itália. Somente um grande reforço de vigorosos e treinados soldados poderia devolver a Aníbal a iniciativa que ele havia tido quando adentrara a Itália, e que havia subsequentemente confirmado em Canas. Os reforços deveriam vir ou pelos Alpes, da Hispânia, ou pelo mar, de Cartago, para o sul da Itália. Os romanos da república haviam aprendido muito com seus erros anteriores em campo contra um gênio da guerra e tinham agora adotado permanentemente as táticas de desgaste contra ele. Eles também tinham aprendido muito da estratégia necessária para lidar com uma guerra englobando uma grande área — neste caso toda a bacia mediterrânea. Enquanto enfrentavam o inimigo na Espanha, calcularam que a primeira coisa a ser feita na península italiana era impedir que Aníbal recebesse qualquer reforço da Grécia ou de Cartago. A chave para isso era Tarento, onde a guarnição romana na cidadela havia impedido a plena utilização do porto pelo cartaginês. Enquanto Marcelo seguia o exército de Aníbal e tentava atraí-lo para o norte rumo à Apúlia, distraindo-o o suficiente para fazê-lo virar de lado em pelo menos duas ocasiões, Quinto Fábio Máximo deslocava-se velozmente para o antigo porto marítimo grego. No final das contas, Aníbal voltou-se e atacou Marcelo, obrigando seu exército a se retirar para seu quartel em Venúsia. Marcelo conseguira seu objetivo e, enquanto Aníbal o enfrentava, o exército do cônsul Quinto Fábio Máximo chegava diante das muralhas de Tarento. Como os cidadãos de Cápua, os tarentinos não haviam se empenhado muito pela causa cartaginesa (ambos estavam simplesmente à espera de uma vida fácil e de menos impostos) e fracassaram visivelmente contra a, cidadela sob domínio romano. É evidente que Aníbal, naquele ano, esperava reforços da África do Norte, pois ele agora se desviara do problema de Tarento por um sítio do porto de Caulônia, na extremidade sudeste do Brútio, executado por tropas que se desincumbiram da ação na Sicília. Após castigar Marcelo tão duramente que ele foi obrigado a se retirar, Aníbal marchou diretamente através do centro do Brútio e acabou com o sítio de Caulônia. Teria agido melhor se antes olhasse para Tarento, mas pode-se presumir que ele havia designado Caulônia como o ponto de desembarque para as tropas cartaginesas, uma vez que aquele era um obscuro e insignificante porto no extremo sul, bem no meio de território amigo. Havia espiões por todos os lados naqueles dias e, assim como os cartagineses possuíam seus próprios agentes dentro das muralhas de Roma, em cada porto onde mercadores iam e vinham havia provavelmente olhos atentos que forneciam informação para um lado ou outro nessa luta pelo mundo mediterrâneo. Com a posse do estreito de Messina e sua ocupação de Siracusa, os romanos estavam numa boa posição para saber quando e onde uma frota cartaginesa deveria ser esperada. Aníbal não recebeu nenhum reforço naquele ano, por mar ou terra. Estava para perder seu último e único grande porto, Tarento. Deixando Caulônia restituída às mãos dos cartagineses e seus simpatizantes, Aníbal marchou de volta ao longo do "pé", do sul da Itália, e ao redor do grande Golfo de Tarento — para alcançar a cidade logo após a sua queda. Apesar de seu contratempo contra Marcelo no norte e do desvio adicional para livrar Caulônia no sudeste, ele estava há apenas cinco milhas da cidade quando Tarento foi traída por elementos do próprio local. As tropas de Quinto Fábio Máximo, que nunca haviam sido capazes de enfrentar Aníbal com alguma firmeza de ânimo em campo, agora, das muralhas, contemplavam e zombavam do seu inimigo. Cartalão, o comandante cartaginês, havia sido morto na luta que se seguiu à invasão dos romanos, assim como os dois tarentinos principais responsáveis pela traição anterior da cidade. Assim que ele ficou visível das muralhas, diz-se que Aníbal teria sido avisado por um batedor sobre os acontecimentos e feito o frio comentário: "Então, os romanos também possuem um Aníbal. Eles tomaram Tarento, como nós". Tarento permaneceria como mais um monumento à determinação romana; todos deveriam saber que acolher o cartaginês era inútil. Soldados chacinavam homens em toda parte, tanto os armados como os desarmados, fossem cartagineses ou tarentinos. Por toda a parte, brútios também eram mortos, muitos deles, por engano, por velhos rancores inatos ou a fim de apagar a ideia de traição, para que Tarento parecesse ter sido capturada pela força das armas. Então, da matança partiram ao saque da cidade. Trinta mil escravos, diz-se, foram capturados, uma imensa quantidade de prata, trabalhada e cunhada, três mil e oitenta libras de ouro, estátuas e pinturas de modo a quase superar os adornos de Siracusa”. [Tito Lívio]. É notável que Lívio, descrevendo a história e grandeza de sua cidade e sua ascensão ao poder, não omita tais detalhes da crueldade ferrenha que finalmente asseguraria o império romano. Quando Aníbal capturou a cidade, tivera o cuidado de assegurar que houvesse o mínimo de derramento de sangue e que somente as casas dos tarentinos pró-romanos fossem saqueadas. Ele, então, seguiu em retirada na direção do Metaponto, através da baía de Tarento, onde ordenou a um grupo de cidadãos destacados que fossem até Quinto Fábio Máximo e oferecessem a traição de sua cidade se os romanos se movessem contra ela. Aníbal escondera seu exército de cada lado da estrada para o Metaponto e resta pouca dúvida de que, se Quinto Fábio Máximose deslocasse, teria caído numa típica armadilha anibálica — da qual nem ele nem seu exército teriam escapado. Nessa ocasião, contudo, os romanos foram salvos por suas observâncias religiosas, pois Quinto Fábio Máximo, um homem da velha escola, nunca marcharia sem verificar os presságios, e o sacerdote, na ocasião, após analisar o sacrifício, achou-os desfavoráveis e avisou Quinto Fábio Máximo] de que ele deveria estar em guarda "contra o ardil de um inimigo". Conhecendo a relutância de uinto Fábio Máximo em fazer qualquer movimento que pudesse expor seus homens a perigos desconhecidos, é mais do que provável que ele próprio tenha tomado parte na interpretação dos sacrifícios. Suas suspeitas foram confirmadas quando, tendo os cidadãos do Metaponto retornado numa segunda ocasião para inquirirem por que os romanos demoravam em avançar contra a cidade deles, foram presos e ameaçados com torturas, confessando o plano. A perda de Cápua e agora a perda de Tarento foram acuradamente interpretadas por Aníbal como desastrosas. Dele é dito ter observado aos seus oficiais: "A menos que possamos adquirir nova força, nós perdemos a guerra na Itália". Ele havia esperado que Tarento servisse como porto de desembarque para reforços de Cartago, assim como para o uso de seu aliado macedônio. Com sua perda, restava-lhe ainda menos esperança de incitar Filipe a deslocar tropas através do Adriático para apoiar a invasão da Itália. Ele permanecia sem derrotas no campo, mas isso, em si, pouco significava. Só poderia olhar em direção da Espanha e de seu irmão Asdrúbal — mas as notícias vindas da Hispânia eram más.

Cipião, o mais jovem

Cipião
O homem que então despontava como um dos maiores soldados da Roma republicana vinha de uma ilustre família patrícia à qual Roma devia mais gratidão do que qualquer outra pelo império mundial. Como a tumba dessa família nos revela, os Cipiões haviam sido homens da maior distinção na história romana desde o remoto século IV a. C., uma sequência de cônsules com uma longa série de méritos em campos de batalha e em assuntos civis. Públio Cornélio Cipião era filho do Públio que recentemente havia sido morto junto com seu irmão Cneu Servílio, durante a luta na Hispânia. Ainda jovem, aos dezessete anos, salvara a vida de seu pai quando este fora ferido na batalha de Ticino, a primeira grande vitória de Aníbal na Itália. Dois anos mais tarde, após o desastre de Canas, tinha sido um dos poucos sobreviventes que não arrefeceu, ajudou a reagrupar os demais e persuadiu alguns dos jovens nobres a não fugirem do país em desespero, como se preparavam para fazer. Sua experiência era em alguns aspectos semelhante à de Aníbal — aristocrata e rico, vigoroso e inteligente — e ele havia tido a oportunidade, a partir do momento em que Aníbal irrompeu sobre a Itália, de estudar as táticas e estratégias de seu grande oponente. Outro curioso ponto de semelhança que iria manifestar-se era o fato de que, se a família Barca, desde a chegada de Amílcar Barca na península Ibérica, parece ter considerado aquela terra quase como uma província particular de sua propriedade, os Cipiões também adquiriram uma associação de algum modo semelhante com aquela terra quente e estranha — provavelmente selada pelo sangue dos dois irmãos que recentemente ali tombaram. Cipião, o mais jovem, havia sido eleito aedile(um dos magistrados de Roma) três anos depois de Canas, embora fosse extremamente jovem para a posição e tivesse a ferrenha oposição de muitos dos tribunos, aparentemente por causa de sua pouca idade, mas na verdade porque eles defendiam os interesses de outras famílias patrícias. Em 210 a.C., Cipião, embora com pouco mais de vinte anos, foi escolhido para assumir o comando na Hispânia. Houve aqueles que quase imediatamente acharam imprudência designar um homem tão jovem para tão importante posto (ele tinha aproximadamente a mesma idade de Aníbal quando este último reuniu seu exército para a invasão da Itália), ainda que essa decisão em breve mostrasse ter sido uma das mais sábias que Roma jamais tomara. Chegando à península Ibérica no final de 210 a.C. com onze mil reforços, Cipião Africano imediatamente se deslocou para Tarraco (Tarragona). Durante todo aquele inverno, encontrou-se com tantos representantes das tribos ibéricas quanto possível, homens confusos com a constante variação de sorte na guerra entre Cartago e Roma, mas que parecem ter ficado seguros com o ar confiante e as invariáveis boas maneiras de Cipião Africano. Como o próprio Aníbal, ele parece ter possuído uma habilidade inata para tratar com o povo nativo de outros países: nenhum desses dois aristocratas mostrava a arrogância dos generais comuns ou a jactância dos políticos plebeus. Assim, o brilhantismo de Cipião Africano, como em breve se mostraria, não repousava apenas no campo da guerra, mas também em um tratamento de estadista para s com os habitantes locais. As tribos ibéricas, passionais, orgulhosas e sensíveis a desprezos, já portavam a inequívoca marca da nação que havia se desenvolvido na península através dos séculos. Durante aquele primeiro inverno, Cipião Africano aprendeu a compreender sua natureza, a fazer amigos entre seus chefes e a colocar a pedra fundamental naquela poderosa e próspera província que viria a ser no final a Hispânia romana. Na primavera de 209 a.C., ele cruzou o Ebro com trinta mil homens e marchou ao sul para Cartagena, com seu exército sendo acompanhado ao longo da costa por uma frota romana. Era uma bem planejada operação anfíbia e Cipião Africano não se movera sem boas perspectivas de sucesso. Ele soube por seus informantes que as forças cartaginesas estavam divididas em três e posicionadas bem distantes umas das outras: uma sob o comando de Asdrúbal, perto de Sagunto; outra comandada por Magão, no interior; e a terceira de Asdrúbal Gisgão, a sudoeste, em Gades. Essa separação de comando deveu-se não somente a ambições rivais entre os líderes, mas também à própria natureza do país. Não havia, naquela época, uma única região onde grande concentração de homens pudesse fixar base e se sustentar da terra. "A Espanha", como Henrique IV da França observaria séculos mais tarde, "é um país onde grandes exércitos morrem de fome e pequenos exércitos são batidos". Cipião Africano deslocou-se com a segurança que Wellington [Arthur Wellesley] iria um dia demonstrar quando confrontado por marechais franceses igualmente vorazes e em desavença uns com os outros. A guarnição de Cartagena, pequena mas confiante por causa da suposta inexpugnabilidade da cidade, lançou uma brava investida contra o exército romano, mas foi repelida. A frota cartaginesa bloqueou-os pelo mar, e Cipião Africano, fazendo uso do conhecimento do local, descobrira que uma lagoa que protegia a capital cartaginesa a oeste poderia ser escoada através de certos baixios com o vento do norte, diminuindo seu nível em um pé ou mais. Totalmente confiantes na proteção proporcionada por essa lagoa, os cartagineses haviam deixado as muralhas daquele lado bem menos fortificadas do que as da ponta de terra peninsular, onde Cartagena então se situava (a garganta dessa península há muito foi encoberta e não é mais discernível). Tendo testado a força das muralhas principais e descoberto que eram altas demais e muito bem definidas para um assalto bem-sucedido, Cipião Africano] esperou até que um forte vento soprasse do norte e, então, enquanto a guarnição mantinha-se ocupada do lado da terra, fez com que parte do exército atacasse Cartagena através da lagoa. A manobra foi bem-sucedida, os romanos irromperam dentro da cidade e logo abriram os portões para o corpo principal de seu exército. O comandante cartaginês retirou-se para a cidadela, enquanto a cidade era entregue à usual rapina e ao massacre. Então, vendo que a situação estava perdida tanto em terra quanto no mar — a frota atacante havia logrado destruir e capturar os navios no porto — ele se rendeu. Nova Cartago, a capital da rica província da Hispânia que consolidara tão amplamente os esforços de guerra de Aníbal, estava perdida. Naquele momento, o controle de Cipião Africano sobre as tropas, tão diferente do de Marcelo em Siracusa, foi acionado de imediato: as tropas obedeceram totalmente e daí em diante Cipião Africano exibiu sua cortesia junto aos conquistados, especialmente os iberos, que se tornaria o símbolo de seu sucesso. "(…) Da população masculina livre, cerca de dez mil foram capturados. Desses, Cipião Africano libertou os cidadãos de Nova Cartago e restituiu-lhes sua cidade, bem como todas as propriedades que a guerra lhes havia tirado". Lívio prossegue relatando como vários milhares de artesãos treinados foram declarados escravos do povo romano, mas foram encorajados a continuar trabalhando com a perspectiva de liberdade no futuro próximo se eles se empenhassem na fabricação de armamentos. Eram também muito necessários na manutenção das docas e na construção naval. Cartagena era um grande prêmio em todos os sentidos. Além da pilhagem, dividida entre os soldados romanos, havia uma imensa quantidade de ouro e prata que reabasteceu além do suficiente os cofres vazios do tesouro romano. Havia, também, um vasto estoque de cevada e trigo, quantidades de bronze e ferro, e todas as reservas necessárias para sustentar uma frota — bem como a frota em si. Dezoito navios de guerra cartagineses foram capturados e Cipião Africano arrolou muitos dos escravos para servirem como remadores. Sessenta e três navios mercantes com toda sua carga intacta também estavam no porto. Os romanos, indubitavelmente, estenderam seu controle das rotas marítimas do Mediterrâneo, e agora dominavam as regiões central e ocidental, bem como o Adriático e o Jônio. Entre a extensa quantidade de material de guerra que caiu em mãos romanas achavam-se cerca de cem catapultas de tipo grande, bem como instrumentos de arremesso de rochas e arpões, além de todo o equipamento para um grande comboio de sítio — aquilo que havia faltado para Aníbal em todos os seus anos na Itália e que os cartagineses nunca foram capazes de transportar através do mar dominado pelos romanos. Cipião Africano tirou bom proveito político dos reféns espanhóis tomados em Cartagena como garantia para um bom comportamento de suas tribos. "Aprendendo os nomes de seus Estados, ele fez uma lista dos cativos, mostrando quantos pertenciam a quais povos, e enviou mensageiros aos seus lares, propondo que cada homem viesse e recuperasse seus próprios filhos. Se acontecesse de embaixadores de quaisquer Estados se encontrarem lá, os reféns seriam devolvidos diretamente a eles". Quando a cunhada de Indíbilis, príncipe da importante Ilergetes, caiu em prantos a seus pés suplicando que garantisse a segurança de suas lindas e jovens filhas, Cipião Africano "confiou-as a um homem de comprovada integridade" e ordenou que ele as protegesse como a si mesmo. "Então", prossegue Lívio, "foi trazida a ele uma donzela de tal beleza que, onde quer que ela fosse, atraía os olhares de todos". Os companheiros oficiais de Cipião Africano sabiam muito bem o quanto ele era afeiçoado às mulheres e pensaram que lhe estavam dando um presente mais do que adequado. Cipião Africano, contudo, não se esquecera de que era não somente o conquistador de Cartagena, mas também o homem de quem dependia a futura política dos novos interesses de Roma na Hispânia. Tendo inquirido sobre o parentesco da jovem e descoberto que ela estava prometida a um jovem celtibero de certa importância, ele o convocou à sua presença e confiou a ele sua futura noiva, esclarecendo que não queria qualquer agradecimento, mas que o jovem deveria ser um amigo do povo romano. Os pais dela, entretanto, pensando resgatá-la, trouxeram para Cipião Africano uma grande quantidade de ouro: ele, por sua vez, deu o ouro ao jovem nobre como presente de casamento. Esta, e outras ações semelhantes, contribuíram em grande parte para assegurar a transferência aos romanos da lealdade das tribos que, até então, tinham fornecido tantos dos homens do exército cartaginês. Grandes levas de tribos que serviam no exército de Asdrúbal Barca desertaram dos cartagineses ao longo dos meses que se seguiram. Tendo mostrado sua habilidade como general e estadista, Cipião Africano voltou-se para os aspectos práticos imediatos da guerra. Observara na Itália e na Hispânia as vantagens da espada ibérica, que poderia ser usada tanto para cortar como para perfurar, sobre os gládios romanos, adequados principalmente para perfurar. Durante aquele inverno, enquanto as armarias de Cartagena ressoavam com batidas de martelos, Cipião Africano exercitava as legiões em táticas mais flexíveis do que o velho ataque frontal romano, que contava em demasia com o peso abrupto das legiões. Ele presenciara o fracasso em Canas. Ao mesmo tempo, não negligenciou a frota, e os remadores e marinheiros eram exercitados regularmente em batalhas simuladas sempre que o clima permitia.

A morte dos cônsules

Dez anos se passaram desde que Aníbal assolara a Itália para desmantelar os exércitos romanos e fazer com que as primeiras dúvidas surgissem entre seus aliados sobre Roma ser a senhora e futura governante do Mediterrâneo. Por volta de 208 a.C., contudo, com o ímpeto de seu assalto há muito passado e as rachaduras na confederação latina consertadas, Aníbal vislumbrava um cenário muito diferente. Cápua estava perdida, e Tarento também. As cidades no Sâmnio e na Campânia que haviam abjurado da aliança romana voltando-se para o que parecia ser a estrela nascente de Cartago estavam agora renegando-a, e muitas outras começavam a pensar em seguir seu exemplo, porque observavam a maneira como Roma punia qualquer desertor. Aníbal não tinha portos dignos do nome para manter ligações marítimas com Cartago, e a importantíssima Ilha da Sicília estava irreversivelmente perdida. A Sardenha nunca conseguira se libertar de Roma e todas as proximidades da Itália estavam vigiadas e guardadas por vitoriosas frotas romanas. Filipe V da Macedônia, quase convencido, após Canas, de que valeria a pena desembarcar assistência aos conquistadores cartagineses, logo se lembrou do controle romano do Adriático. (Ele estava agora engajado na Grécia contra os etolianos que, com o apoio de Roma, iriam mante-lo ocupado em casa até que a ameaça de Aníbal estivesse acabada.)
Filipe V da Macedônia
Aníbal certamente não obteria qualquer conforto das notícias vindas da Espanha, onde seu irmão Asdrúbal seria batido em Bécula naquele ano pelo jovem Cipião Africano. Ele tinha pouco para sustentá-lo e às suas tropas, além do reconhecimento de que ainda estava na Itália após tantos anos — e ainda não fora derrotado. Ainda assim, o ano de 208 a.C., que deve ter parecido sinistro para os cartagineses, iria se encerrar com uma extraordinária inversão na sorte romana. Os cônsules para o ano de 208 a.C. eram o duro e velho soldado Marcelo, agora no seu quinto mandato, e Tito Qüíncio Crispino, que tinha sido o braço direito de Marcelo na captura de Siracusa. Cada um estava no comando de duas legiões. Crispino iniciou as campanhas daquele ano com ataque a Locros, um dos poucos portos ainda nas mãos de Aníbal, no sul, onde ele ainda poderia esperar reforços pelo mar, vindos de Cartago. Forçado a desistir do sítio por Aníbal, recuou para o norte até a cidade de Venúsia, onde ele e Marcelo acamparam com os seus exércitos separados apenas por poucas milhas. Disposto a trazê-los para a batalha se, como ele tinha motivos para suspeitar, os romanos tivessem recobrado suficientemente sua coragem para enfrentá-lo em campo aberto, Aníbal dirigiu-se a norte deles. Em seu caminho, soube que uma legião de Tarento tinha sido enviada para marchar até Locros e recomeçar o sítio, com a esperança de capturar a cidade-porto em sua ausência. Ele armou uma típica armadilha anibálica abaixo da colina de mil pés de altura de Petélia, ocultando seus cavaleiros e infantaria de cada lado da estrada — o tipo de laço no qual ele antes havia esperado pegar as tropas de Quinto Fábio Máximo. Os romanos, presumindo que Aníbal estava distante ao norte, avançaram descuidadamente e sem quaisquer batedores à frente, e aprenderam a lição que já deveria há muito ter sido absorvida por todos os comandantes inteligentes: "Nunca subestimar o cartaginês". A armadilha foi acionada; dois mil romanos foram mortos, mil e quinhentos aprisionados; o restante fugiu de volta para Tarento, felizes ao ver os portões da cidade abertos para deixá-los entrar. Quando Aníbal finalmente chegou a uma posição não muito distante de Venúsia e dos exércitos romanos, armou acampamento e preparou-se para o que prometia ser um duro combate. Como narra Lívio, "ambos os cônsules estavam com um espírito feroz e saíam diariamente pela linha de batalha com a esperança certa de que, se o inimigo viesse a arriscar uma batalha, com dois exércitos consulares unidos, seria possível finalizar a guerra". Entre os dois exércitos ficava uma pequena colina coberta de vegetação que os romanos, posicionados muito antes da chegada de Aníbal, certamente deviam ter tomado. O mestre da guerra não perdeu tempo; durante a noite, enviou um número de esquadrões da cavalaria númida para verem se a colina estava ocupada e, se não, se esconderem lá e permanecerem sem qualquer movimentação durante as horas de luz do dia. Decidira que, por seu formato e tamanho, a colina era mais adequada para alguma forma de emboscada do que para um acampamento do exército. Como de costume, seu modo de pensar deixou-o um passo à frente do oponente. "No acampamento romano", escreve Lívio, "havia um clamor geral de que a colina devia ser ocupada e defendida por um forte, de modo que eles não tivessem o inimigo sobre seus pescoços, o que aconteceria se a colina fosse ocupada por Aníbal". Não sabendo o que já havia acontecido à legião saída de Tarento, nem que as tropas de Aníbal estavam cheias de disposição e confiança, e nem lembrando, pelos fatos passados, que somente os ignorantes e tolos tratariam a presença de Aníbal sem o devido cuidado, Marcelo e seu companheiro cônsul Crispino decidiram sair a cavalo e dar pessoalmente uma olhada na colina. Talvez as notícias da Espanha e a situação geral do Mediterrâneo tenham insuflado neles uma descuidada confiança. Levando não mais do que duzentos e vinte cavaleiros com eles, junto com uns poucos homens de infantaria e alguns oficiais da equipe, inclusive Marco Marcelo, filho do cônsul, eles cavalgaram para fora do campo. Quando deixaram o acampamento, Marcelo deu ordens para que os soldados ficassem preparados e, se a colina fosse considerada adequada para o estabelecimento de um acampamento ou posto de observação, deveriam deslocar-se para lá imediatamente. O sinal para que fizessem isso jamais viria. Os númidas, esperando poder capturar uns poucos homens que saíssem em busca de forragem ou lenha, ficaram atônitos ao verem os mantos militares vermelhos e as brilhantes armaduras de oficiais graduados movendo-se através da pequena planície na sua direção e adentrando as rudes escarpas. Imaculadamente disciplinados, esperaram até que todo o grupo estivesse ao seu alcance e, então, como sombras à retaguarda dos romanos e nos seus flancos, os cavaleiros da África do Norte fizeram seu movimento. "Aqueles que, de frente para o inimigo, teriam de irromper da encosta não se mostraram antes que os que isolariam a estrada em sua retaguarda voltassem para os flancos do inimigo. Então, surgiram ao mesmo tempo, de todos os lados e, com um grande brado, fizeram seu ataque". Marcelo foi quase de imediato atingido por uma lança e caiu morto de seu cavalo; Crispino, ferido por duas azagaias, conseguiu escapar, enquanto o jovem filho de Marcelo, também ferido, juntou-se a ele na fuga dos sobreviventes — uns poucos oficiais da equipe e um punhado de cavaleiros etruscos que parecem ter tido pouca coragem para o confronto. O súbito alarido vindo da colina colocou ambos os exércitos em alerta, sendo os romanos os primeiros a saber de seus ensanguentados sobreviventes o que acontecera naquele dia ensolarado de verão. Aníbal, tão logo soube das notícias por um dos númidas, moveu seu exército adiante e ocupou a colina. Ele próprio cavalgou pelos arbustos até encontrar o corpo de Marcelo; cremou-o com as devidas honras e enviou as cinzas para o filho do falecido em uma urna de prata. Ele havia respeitado Marcelo como oponente enquanto estava vivo e prestou-lhe, depois de morto, como sempre foi de seu costume para com oponentes abatidos, os sinais de respeito devidos a um homem digno de honra. Enquanto Crispino, seriamente ferido, encarregava-se dos exércitos consulares e deslocava-se pelas montanhas "para um lugar alto que fosse seguro de todos os lados", Aníbal cogitava seu próximo movimento. Ele tinha agora, em seu poder, o anel do cônsul morto: seu selo e autoridade para qualquer mensagem enviada. Aníbal imediatamente pensou em Salápia na costa adriática da Apúlia; Salápia, que havia rompido sua aliança cartaginesa e se bandeado para Roma. Ele precisava de uma guarnição segura na costa leste, já que aparentemente soube que Asdrúbal, seu irmão na Hispânia, pretendia a qualquer momento cruzar os Alpes e juntar-se a ele para uma investida final contra Roma. Os acontecimentos daquele ano iriam confirmar o pessimismo de Asdrúbal quanto à posição cartaginesa na Espanha e ele via claramente que somente uma combinação de Aníbal com ele próprio, e seus dois exércitos, um cheio de sangue novo e ávido por conquistas, outro talhado pela experiência, poderiam salvar Cartago por meio de um ataque direto ao coração de Roma. Para Salápia, então, Aníbal enviou um mensageiro com a autenticação do selo de Marcelo dizendo que este chegaria na noite seguinte e que os portões da cidade deveriam ser abertos para recebê-lo. Era um artifício engenhoso e poderia ter funcionado, não fosse o fato de Crispino, mesmo estando à morte, ter-se antecipado a ele e enviado mensageiros para todas as cidades próximas dizendo que Marcelo estava morto, e que não se confiasse em qualquer mensagem que ostentasse o seu selo. Os homens de Salápia enviaram de volta o mensageiro de Aníbal, um desertor romano, dizendo que tudo estaria preparado para Marcelo quando ele chegasse. Quando Aníbal aproximou-se de Salápia à noite, enviou adiante um grupo avançado de desertores romanos, todos falando latim e portando armas romanas, marchando como os legionários que haviam sido um dia, de modo a convencer o povo de Salápia de que o cônsul estava chegando. As sentinelas dos portões, ouvindo seu chamado, fingiram estar preparadas para darem as boas-vindas e levantaram a porta de grade levadiça. Mas quando várias centenas dos desertores haviam adentrado a cidade, a porta de grade fechou-se atrás deles e o grupo avançado foi massacrado. Derrotado pela primeira vez por uma inteligência tão aguçada quanto a sua própria, Aníbal abandonou a tentativa de tomar a cidade para a esperada chegada de seu irmão e retirou-se para o sul. Tinha descoberto que Locros estava novamente sitiada e era muito importante para ele manter aquela linha de comunicação com Cartago aberta. A sempre versátil cavalaria númida chegou à frente das colunas de Aníbal em marcha, surpreendeu o exército romano que fazia o sítio pela retaguarda, e Locros foi salva. Tito Qüíncio Crispino morreu pouco tempo depois devido aos ferimentos recebidos naquela emboscada fatal na colina. "Assim, dois cônsules — e isso nunca acontecera numa guerra anterior — perdendo a vida sem ser numa batalha notável, haviam deixado o Estado, por assim dizer, despojado". Em Trasimeno e em Canas, Aníbal matara um dos cônsules então no cargo, e já havia matado muitos generais romanos, cavaleiros, inúmeros oficiais de Estado-Maior e outros valorosos cidadãos de Roma. Mas agora, no ano que parecia ter iniciado com a mais tenebrosa das perspectivas, ainda cavalgava pela paisagem da Itália — uma figura implacável, vingadora, que os romanos nunca haviam derrotado.
 

Cipião e Asdrúbal na Hispânia

Do outro lado do Mediterrâneo, na península Ibérica, seu irmão Asdrúbal, ávido para reunir-se a Aníbal na Itália há vários anos, teve sua escolha resolvida por ele. Se vacilara, no passado, dividido entre a necessidade de preservar o império cartaginês e auxiliar no ataque de Aníbal, agora receberia o golpe que traria a decisão. Em Bécula, guardando as importantíssimas minas de prata de Cástulo, Asdrúbal foi colocado em apuros por Cipião. A guerra anibálica, como todas as outras, girava em torno de metais e dinheiro — metais para os materiais de guerra e dinheiro para manter as tropas em campo e pagar pelo apoio dos aliados. Amílcar havia fundado seu império ibérico para reabastecer os cofres de Cartago depois da desastrosa paz que se seguiu à Primeira Guerra Púnica, e foi a riqueza mineral da península Ibérica o que encorajara Cartago a apoiar a assombrosa aventura de Aníbal contra o Estado romano. A última batalha de Asdrúbal na Hispânia foi significativa pelo fato de que ele foi derrotado pela utilização, por Cipião Africano, de uma tática de aproximação na qual nenhum outro comandante romano no passado teria pensado, e possivelmente nem mesmo o próprio Cipião Africano, se ele não tivesse estado presente em Canas. Asdrúbal se posicionara abaixo da cidade de Bécula, numa cordilheira que tinha um pequeno rio abaixo dela. Para chegar até o inimigo, Cipião Africano teria que vencer o rio e então fazer um ataque frontal subindo por uma escarpa: duas desvantagens que comandantes romanos anteriores teriam enfrentado, contando com o peso das legiões para abrir caminho através das defesas do inimigo. Contudo, Cipião Africano tinha observado que, em qualquer dos lados do platô, havia valas secas descendo desde o topo. Depois de suas tropas cruzarem o rio, subitamente deslocou o peso principal de seu ataque, enviando uma grande corporação de tropas leves escarpa acima para enfrentar o inimigo de frente, enquanto ele e seu segundo-no-comando levavam as legiões pesadamente armadas pelas valas de ambos os lados. Ao fazer isso, imitou Aníbal em Canas, com suas tropas ligeiras e aliados espanhóis retendo o choque no centro, enquanto seus veteranos armados com armas pesadas cerravam fileiras nos flancos para a matança. "E não mais", escreve Lívio, "restou espaço aberto, nem mesmo para fuga (…) a entrada do acampamento foi obstruída pela fuga do general e oficiais-chefes e, mais ainda, pelo pânico dos elefantes, aos quais, quando apavorados, eles temiam muito mais do que ao inimigo. Cerca de oito mil homens foram mortos". Restou o fato de que Asdrúbal, colocado à prova em muitos campos de batalha, conseguiu evadir-se com o núcleo principal de seu exército — todas as suas tropas pesadas, assim como a cavalaria e também trinta e dois elefantes. Como o próprio Aníbal, e como Cipião Africano, ele era impiedoso no sacrifício de suas tropas locais quando chegava à ação principal. E para Asdrúbal, tendo decidido que a Espanha deveria ser finalmente abandonada, mesmo que apenas a curto prazo —o mais importante ato seria deslocar suas forças para a Itália.

Continuação:
Biografia do General Anibal-parte-1
Biografia do General Anibal-parte-2
Biografia do General Anibal-parte-3
Biografia do General Anibal-parte-5 
Biografia do General Anibal-parte-6 



Referências

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