sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Biografia do General Aníbal (parte 3/6)



Aníbal
...cada cidadão fosse para sua casa e escrevesse na porta a palavra "tarentino". Após essa assembleia ter sido desfeita e todas as portas marcadas, Aníbal permitiu que suas tropas saqueassem as casas dos romanos, e o espólio foi considerável. As táticas de comando de Aníbal, auxiliado por sua quinta coluna de dentro dos muros, asseguraram a ele um grande porto e uma próspera cidade, embora sua vitória tivesse sido, de certo modo, anulada pelo fato de que a guarnição romana e seus simpatizantes ainda detinham a cidadela, e não seriam desalojados dali. Um ataque a ela falhou, e Aníbal foi forçado a tentar efetuá-lo com um trabalho por terra. Isso se mostrou sem efeito, pois a posição da cidadela num promontório dominando a entrada para o porto interno significava que a guarnição e seus demais convivas poderiam ser reforçados e alimentados por mar aberto, onde a frota romana possuía superioridade naval. Ainda mais, todos os navios tarentinos estavam, agora, retidos no porto interno, no Pequeno Mar, e à primeira vista pareciam permanentemente presos. Aníbal resolveu o problema trazendo os navios para terra firme, transportando-os então pelas ruas de Tarento sobre rodas, para depois lançá-los novamente ao mar pelo porto externo. A traição e a captura da cidade, e mesmo o engenhoso método de livrar os navios, tudo tinha a marca de Aníbal. O fato de que Tarento caíra por traição seria um dos argumentos mais tarde utilizados pelos romanos para acusarem Aníbal de "fé púnica" ou conduta desonesta. Resta dizer que, ao longo de toda a história da guerra, a traição de uma cidade feita no seu interior por um partido favorável aos sitiantes foi sempre prática comum. A história primitiva da Grécia e abundante em relatos de tais estratagemas. Não há nada de modo algum peculiarmente "púnico" a esse respeito. Deixando que os próprios cidadãos tratassem do problema da guarnição na cidadela, Aníbal retirou suas tropas (como ele havia prometido aos tarentinos) e pouco depois levou-as de volta aos quartéis de inverno. O Metaponto, no golfo de Tarento e ligeiramente a oeste, em breve caiu sob seu poder enquanto Túrio, outro porto grego, do outro lado do golfo, caiu frente a um exército comandado por Hanão e Magão, com o povo da cidade abrindo seus portões aos cartagineses. Apesar da perda de Arpi, o ano finalmente se mostrava favorável a Aníbal, e os únicos grandes portos no sul da Itália, abaixo da baía de Nápoles, que ainda permaneciam nas mãos dos romanos eram Brundísio, na costa adriática, e o Régio, no estreito de Messina. O comentário de Políbio, de tudo que sobreveio aos romanos e aos cartagineses, a causa foi um homem e uma mente — Aníbal”, estava claramente justificado. Quase todo o mundo mediterrâneo, com a exceção da Grécia, onde Filipe V da Macedônia hesitava, estava agora envolto em chamas. O principal evento na Sicília tinha sido a ascensão ao reinado de Siracusa do jovem Jerônimo, que de pronto, declarara-se favorável aos cartagineses — somente para ser quase imediatamente assassinado pelo partido pró-romano. Isso, por sua vez, fez com que os siracusanos que favoreciam Cartago matassem ou expulsassem os ricos mercadores e outros que favoreciam Roma. É significativo que ali, e em toda a Itália, era o partido popular — hostil àqueles que enriqueceram graças às suas conexões romanas — que favorecia Aníbal. Os pobres e sem posses viam nele um líder que os libertaria da pesada mão de Roma, mas que, depois disso, não se preocuparia muito, se o fizesse, com o modo como governariam suas cidades. E, talvez, curioso ver o autocrático senhor da guerra ser bem-vindo pelos plebeus, mas vemos isso acontecer vez por outra ao longo da história. Na Hispânia a guerra estava indo bem para as armas romanas, de tal modo que um dos principais aliados de Cartago, o rei númida Sífax, agora voltava sua fidelidade em prol de Roma. Uma vez que os cartagineses dependiam tão grandemente da habilidade e superioridade dos cavaleiros númidas, este era um amargo golpe, mas que seria compensado por mais variações de apoios políticos. A guerra, agora, espalhava-se pelo Norte da África, e um outro rei númida, Gaia, da Argélia oriental, encorajou-se a marchar contra seus companheiros e impedir os romanos de garantirem uma base no continente. O filho de Gaia, o jovem príncipe Masinissa, teria grande participação na história posterior às campanhas de Aníbal. Em combinação com o irmão de Aníbal, Asdrúbal, que havia sido compelido a levar suas tropas para a África a fim de acabar com a ameaça em sua retaguarda, destruiu o rebelde Sífax, permitindo assim a Asdrúbal retornar à Espanha para enfrentar a ameaça romana naquelas paragens. A guerra explodia agora na Sicília. Não pode haver dúvidas de que Aníbal, embora constantemente engajado na Itália contra a sempre crescente maré de armas romanas, nunca deixava de perceber o quanto seria importante para sua causa um triunfo cartaginês naquela rica e poderosa região do sul. A Sicília tinha sido, por séculos, o pomo da discórdia entre gregos e cartagineses, e a perda da Sicília para os romanos — não por culpa de seu pai Amílcar — havia levado à humilhante paz que concluíra a Primeira Guerra Púnica. Dois emissários de Aníbal, Hipócrates e Epícides, encontraram-se, então, com o governo da grande cidade e porto de Siracusa após a expulsão do partido pró-romano. Era essencial para sua estratégia global que os cartagineses não apenas detivessem o poder sobre Siracusa, mas também ganhassem o controle sobre a maior parte da ilha. Com os portos e embarcadouros que uma vez tinham sido seus — particularmente no oeste — tinham uma chance de quebrar o domínio romano sobre o mar entre a Sicília e a própria Cartago. A real dificuldade era que, tendo os romanos conquistado a supremacia sobre a área que já fora sinónimo do nome Cartago, eles não iriam nunca cedê-la. Como sua cidade, a Rainha do Mar, nunca fosse capaz de mandar-lhe reforços convenientes, nem de desafiar os romanos com sucesso, todos os anos que Aníbal passaria na Itália resultariam inúteis ao fim. A influência do poderio marítimo sobre a história nunca havia sido mais claramente demonstrada do que nesta grande guerra entre Cartago e Roma. Siracusa havia sido, uma dia, a mais próspera e importante cidade do Mediterrâneo central. No século V a.C., à época das guerras greco-persas — que determinaram o destino do oeste — Siracusa seria capaz de colocar em campo mais homens de infantaria armados com armas pesadas e mais navios do que toda a Grécia. Agora, embora ainda importante, tornara-se uma espécie de força represada, porém enriquecida pelo dinheiro e pelos tesouros artísticos da mais grandiosa era de seus antepassados gregos. Os romanos que visitavam a cidade deslumbravam-se com a beleza da arquitetura, a visível riqueza, o grande teatro e a soberba posição do local. A aliança com o governante anterior, Hierão, dera aos romanos não apenas uma promessa de estabilidade em uma ilha sempre atormentada, mas também uma relação com os ricos tesouros da Grécia colonial. O grande porto, com aproximadamente cinco milhas de circunferência, havia testemunhado a destruição do poderio ateniense em 413. O pequeno porto, que ficava entre a ilha de Ortígia e a capital, era capaz de abrigar uma frota. Sua importância para os romanos como base naval na guerra contra Cartago era bastante óbvia; porém sua perda, caso ela fosse ocupada por uma frota cartaginesa, seria um duro golpe para Roma, e um triunfo da maior valia para Aníbal. Se os cartagineses pudessem garantir e reter Siracusa, teriam uma linha aberta até sua capital e uma importantíssima base de suprimentos para o exército de Aníbal. Por essas razões, o cônsul Cláudio Marcelo foi enviado à Sicília. Na confusão que se seguiu à morte de Hierão, um número de cidades voltou-se para a causa cartaginesa, notavelmente Leonte, um pouco ao norte de Siracusa, que dominava a mais rica e fértil área da ilha. Marcelo era um soldado notável e vigoroso, a quem Aníbal aprendera a respeitar como o homem que por várias vezes o havia bloqueado na Campânia, sempre que ele se movia de Monte Tifato. Absolutamente destemido, Marcelo, em seu primeiro consulado, em 222 a.C., pessoalmente se batera com um chefe tribal gaulês, matando-o com suas próprias mãos. Dedicou, então, seus espólios, os spolia opima, no templo de Júpiter Ferétrio — a terceira e última vez na história romana em que tão proeminente oferenda foi feita. Impiedoso para com os derrotados e na imposição da lei militar, Marcelo era amado por suas tropas devido à sua preocupação com o bem-estar delas. Após retomar Leonte, onde ele mandou degolar cerca de dois mil homens da tropa oponente por sua rebeldia contra Roma, deslocou-se para o sul a fim de sitiar Siracusa por terra e mar. Os romanos eram mestres em guerras de sítio e Marcelo tinha todas as razões para estar confiante. As defesas de Siracusa eram muito extensas, particularmente ao norte da ilha-fortaleza de Ortígia, onde uma ampla área triangular pouco habitada era cercada por maciças muralhas que necessitariam de muito mais homens para sua defesa do que ora possuía. Aníbal, inteiramente ciente da importância do combate que acontecia ao sul dele, mantinha correspondência com Cartago a respeito da necessidade de se desembarcar um exército na Sicília para auxiliar na insurreição. Com a Sicília em mãos cartaginesas, a dominação romana do estreito de Messina estaria ameaçada — revertendo, assim, o processo da Primeira Guerra Púnica e fornecendo a base garantida a partir da qual poderia tomar as cidades da baía de Nápoles. Enquanto a Sicília fosse basicamente pró-romana, sua posição no sul da Itália estaria constantemente ameaçada. Alguns historiadores pósteros têm-se referido ao mau uso de navios e homens cartagineses na campanha siciliana, argumentando que eles teriam sido melhor empregados como reforços para Aníbal. É muito duvidoso que ele próprio visse o problema dessa forma. Aníbal não somente era um mestre da tática, mas também um respeitado estrategista: a Sicília constituía a chave para seu derradeiro sucesso na Itália, uma vez que o auxílio que esperava de seu irmão Asdrúbal não parecia prestes a chegar. Com Tarento assegurado e com os romanos relutando em desafiá-lo em qualquer campo de batalha, aparentemente poderia manter sua posição na Itália por anos, se necessário (o que ele de fato iria fazer). Demandava agora um sucesso no sul: conquistar a Sicília, terra rica como um celeiro e com excelentes portos para o uso da frota cartaginesa. Com tal base firme a respaldá-lo, seria capaz de se deslocar para o norte na ocasião oportuna, após assegurar Nápoles e Cumas, e eliminar a ameaça naval romana em sua retaguarda, confrontando, finalmente, o coração do adversário — Roma e a confederação latina que, estava claro, jamais seria destruída em um único campo de batalhas. Por esses motivos, a frota cartaginesa, ao chegar, não se dirigiu ao grande porto de Tarento, mas, em vez disso, rumou para as longas praias do sul da Sicília, onde, por muitas milhas de território quase inabitado, a frota romana não poderia manter permanente vigília e proteção. O porto de Heracleia Minoa, na foz de um pequeno rio, foi escolhido como ponto de desembarque, e ali o almirante Himilcão trouxe à terra vinte e cinco mil homens de infantaria, três mil de cavalaria, e doze elefantes — força grande o suficiente, em aparência, para assegurar todo o sul da ilha antes do deslocamento para render Siracusa. Tudo parecia ir bem a princípio e a mais importante cidade do sul, Agrigento, caiu sob os invasores. Mas generais da envergadura de Amílcar e seus filhos sempre foram raros entre os cartagineses, e esse exército iria, na devida ocasião, confrontar Marcelo. O sítio de Siracusa, empreendido com tanta confiança, iria se prolongar: em grande parte devido a um só homem. Entre os habitantes da cidade, encontrava-se o grande matemático e cientista grego Arquimedes. Educado na escola matemática alexandrina, na época em que Euclides lá ensinava, Arquimedes (amigo, se não parente, de Hierão) enriquecera a cidade com suas dádivas intelectuais, e
Arquimedes, pintura de Domenico Fetti (1620)
construíra para os governantes numerosos e incomuns engenhos de guerra. Como Leonardo da Vinci, séculos mais tarde, ele pagava pelo ócio e pela liberdade de especular com o trabalho prático que poderia garantir a segurança de seu protetor. Marcelo tinha decidido atacar a cidade pelo lado do mar de Acradina, subúrbio da velha cidade no lado norte. A própria Ortígia parecia quase inexpugnável. Arquimedes havia equipado as muralhas com uma artilharia tão poderosa que esmagava os romanos antes mesmo que se aproximassem o suficiente para que seus projéteis fossem eficazes; e quando eles chegavam mais perto, descobriram que toda a parte inferior da muralha estava equipada com seteiras: seus homens eram derrubados, com fatal pontaria, por um inimigo que não podiam ver, e que atirava suas setas em perfeita segurança. Se eles ainda perseveravam, tentando colocar escadas nas muralhas do lado do mar, subitamente viam longos postes saindo do topo da muralha como os braços de um gigante, de onde eram atiradas sobre eles pedras enormes e grandes massas de chumbo que faziam suas escadas em pedaços e quase afundavam os seus navios. Em outras ocasiões, máquinas como guindastes projetadas da muralha, com um arpão de ferro afixado na ponta de uma alavanca, eram baixadas sobre os navios romanos. A descrição de Lívio inspirou inúmeros artistas em séculos posteriores:
Tão logo o arpão se enganchasse, a outra ponta da alavanca era forçada para baixo por grandes pesos e o navio erguia-se da água até ficar quase em pé sobre a popa; então, o arpão era subitamente solto, e o navio caía na água com violência tal que ou era virado ou se enchia de água (…) Os soldados romanos, valentes como eram, ficavam tão atemorizados diante desses estranhos e irresistíveis dispositivos, que bastava porém os olhos em algo como uma corda ou pau pendurado ou projetado de uma parede para que se virassem e saíssem correndo, gritando "Arquimedes vai usar um de seus engenhos contra nós!" [Tito Lívio]. Este foi um dos primeiros exemplos, na história da guerra, de um inimigo superior em quantidade e determinação, sendo frustrado e vencido por tecnologia superior. "Assim, o gênio de um homem, Arquimedes, derrotou os esforços de inumeráveis mãos". A tenaz perseverança, com a qual Roma iria construir o seu império, finalmente triunfou sobre a engenhosidade científica grega e suas defesas muradas, que tornavam os siracusanos confiantes de estar numa "cidade inconquistável". Rechaçado no seu ataque marítimo, Marcelo voltou sua atenção para a terra e — numa noite em que se sabia que os siracusanos estariam celebrando uma grande festa de Ártemis — invadiu as débeis fortificações do norte, atacando a cidade. Esta pagou caro por ter descuidado do confronto com os romanos, como países desde a Pérsia até a Bretanha iriam aprender nos séculos seguintes. O combate que se seguiu foi longo e complicado. Uma frota cartaginesa estacionada no porto retirou-se de modo irresoluto quando parecia que iria ser encurralada ali pelos navios romanos vindos do mar. Parte do exército cartaginês que desembarcara no sul, incapaz de reforçar as defesas da cidade, foi compelida a aquartelar-se no pantanoso delta do rio Anapo, que chegava até o grande porto. Como havia acontecido anteriormente na longa história de Siracusa, o delta impregnado da febre do Anapo, cobrou seu preço do exército acampado ali, matando milhares de soldados e dois generais cartagineses. Um emissário de Aníbal, Epícides, que vinha conduzindo a defesa da cidade, percebeu que tudo estava perdido e fugiu para Agrigento, ao sul. Em 212 a.C., a cidade de ouro e mármore caiu frente a Marcelo e seus romanos — homens que haviam absorvido a coragem de Esparta, sem a destreza dos atenienses, mas que possuíam uma disciplina organizada que faltava à maioria dos gregos. Allcroft e Masom resumiram assim a conclusão do sítio a Siracusa — conclusão, pode-se dizer, de séculos de colonização grega da Sicília, a grande ilha que pareceu aos primeiros navegantes gregos a "terra recém-descoberta", perfeita e rica além de suas expectativas: No outono, um oficial espanhol abriu os portões de Ortígia e Acradina, e os romanos tornaram-se senhores de Siracusa, após um sítio de mais de dois anos. As usuais atrocidades marcaram sua queda; a cidade foi pilhada, e muitos de seus tesouros de arte levados embora para Roma. Arquimedes foi morto por um soldado romano. A guerra na Sicflia durou mais dois anos devido à energia de Mutino, oficial líbio que financiou uma guerra de guerrilha contra os romanos, até que as repetidas desfeitas de um colega invejoso o levaram, em vingança, a trair Agrigento, em 210 a.C. Depois disso, a ilha tornou-se uma vez mais uma província pacífica, cujo destino seria produzir milho para seus senhores e submeter-se pacientemente às extorsões dos governadores, coletores de impostos e agiotas da vitoriosa Roma”. [Allcroft e Masom]. O padrão da ilha, pode-se dizer, estava se configurando para toda a sua história futura, e a natureza do temperamento siciliano se estabelecia irrevogavelmente num molde de ressentimento e de determinação a esquivar-se das leis de qualquer conquistador por quaisquer meios possíveis. Marcelo havia dado ordens para que Arquimedes fosse poupado a qualquer custo, mas, segundo a lenda, o grande matemático estava tão absorvido em resolver algum problema em um tabuleiro de areia que, quando os soldados invadiram seu quarto e ele ignorou suas ordens para que declarasse sua identidade, foi transpassado por uma lança. Ele não foi a única grande perda de Siracusa, pois incontáveis tesouros de arte eram agora despachados para Roma. Diz-se que esta primeira grande introdução da arte grega foi, de algum modo, responsável pelo crescimento da subsequente admiração romana e emulação da cultura helênica. De um modo muito semelhante, séculos mais tarde, os despojos de Constantinopla iriam adornar Veneza e fertilizar a imaginação dos artistas e artesãos daquela cidade. As consequências da queda de Siracusa foram estrategicamente muito prejudiciais para Aníbal. Com os romanos de posse do grande porto, e com seu domínio sobre o estreito de Messina fortalecendo seu controle das vias marítimas para a Sicília e Itália, Aníbal e seu exército ficaram ainda mais isolados de sua cidade-mãe, Cartago. A menos que reforços chegassem até ele da Hispânia por meio dos Alpes, ele estaria mais ou menos abandonado na Itália. Somente o seu gênio militar e o temor que suas vitórias anteriores haviam infundido nos romanos poderiam salvá-lo da derrota. Na primavera do ano seguinte, Aníbal preocupava-se muito com o destino de Cápua, onde quatro exércitos romanos posicionaram-se com a intenção de subjugar a cidade por sítio e não através de ataque. O usual pedido de ajuda dos capuenses já havia chegado até ele. Uma vez que ele próprio ainda se encontrava na região de Tarento, enviara Hanão de Brutium (Calábria) para Benevento para tentar livrar a cidade. Hanão, tendo evitado brilhantemente o exército de Graco na Lucania (Basilicata), assim como o de Nero em seu flanco, havia conseguido escapulir e estabelecer um acampamento fortificado que transformou em depósito de grãos. Foi pedido aos capuenses que enviassem cada carroça e animal disponível para transportar o cereal que ele havia coletado. Fatalmente sujeitos à inércia e à incapacidade, os capuenses somente conseguiram obter quatrocentas carroças, ao que Hanão exclamou: "Nem mesmo a fome, que estimula animais estúpidos a se esforçarem, pode instigar os capuenses a alguma atividade". Os capuenses foram enviados de volta com ordens de conseguir mais transporte; mas, no momento em que retornavam com duas mil carroças, os romanos, que haviam tomado conhecimento da atividade, esperavam preparados. Enquanto Hanão estava fora com um grupo de forrageadores, eles atacaram o acampamento e, apesar de uma empenhada resistência dos cartagineses remanescentes, a posição foi tomada e os grãos, as carroças e outros depósitos capturados. Hanão e seu grupo conseguiram
Aníbal jurando ódio aos romanos, pintura de Claudio Francesco Beaumont.
escapar, retirando-se frustrados para o Brútio. Cápua, não por culpa de seus aliados cartagineses, foi ainda deixada sem suprimentos. Ao ouvir as notícias, Aníbal despachou dois mil númidas para irem em socorro a Cápua, ordem que esses admiráveis cavaleiros do deserto executaram, esquivando-se do cerco à cidade, conseguindo adentrar Cápua de noite. Animados por essa evidência de apoio, os capuenses saíram a cavalo quando os confiantes romanos juntavam o milho fora da cidade. À frente deles cavalgavam os númidas. Quinze centenas de romanos foram mortos nessa investida e os restantes, desmoralizados pela inesperada chegada da grande arma de cavalaria de Aníbal, buscaram refúgio detrás de suas fortificações. Ao mesmo tempo, sofreram um choque adicional. Graco, a ponto de deixar sua província para vir reforçar o bloqueio de Cápua, foi colhido numa emboscada e morto. Aníbal, tradicionalmente atento às cortesias de guerra, deu ao cadáver do líder romano um honroso funeral. Ele enviara seus númidas adiante apenas para que atuassem como força de avanço, e isso não ocorreu muito antes de o cônsul, Fúlvio Flaco, ser informado de novidades muito desagradáveis. monte Tifato estava lotado de homens, e seu topo plano fora uma vez mais ocupado. Aníbal, movendo-se do sul da Itália com extraordinária velocidade (mais rápido do que a cavalaria romana que havia sido convocada da Lucânia, local relativamente próximo), surgira em cena mais uma vez. Adentrou Cápua em triunfo, pois os dois exércitos consulares se retiraram antes dele — evidência do temor ainda sentido pelos romanos diante de sua presença, bem como de algum acordo velado entre eles para aderirem a Quinto Fábio Máximo, ainda que este último não mais ocupasse um alto cargo. Aníbal, todavia, não podia aquartelar seu exército na cidade por causa da falta de suprimentos e quando os exércitos romanos se retiraram, seguiu a tropa que estava sob o comando de Apio Cláudio que rumava para a Lucânia, de modo a ameaçar o sul da Itália. Tão logo o exército cartaginês se retirou, Flaco retornou para investir contra Cápua; não muito depois, Cláudio despistou Aníbal e também retornou para a cidade. Ao fim do ano, seis legiões romanas encontravam-se em Cápua para iniciarem a prática romana de circunvalação; cercando o local sitiado com terraplenagens e trincheiras, impediam os habitantes de saírem e as forças de auxílio de entrarem. Aníbal voltou a Tarento, onde a guarnição romana na cidadela ainda resistia; ele, sem dúvida, esperava que, terminados os meses de inverno, pudesse conseguir desalojá-la, já que os tarentinos haviam falhado. Talvez o grande cartaginês tenha se desesperado com a qualidade dos aliados tarentinos e capuenses em tempos de guerra. Era evidente que somente os pouco corajosos e os que nutriam rancor contra Roma vieram até ele. Nenhum membro da confederação latina desertou de sua velha aliança e, se os gauleses e os brútios lutaram bem ao seu lado, eram porém povos indisciplinados e semi-selvagens que não poderiam ser utilizados contra Roma até que tivessem sido treinados por seus oficiais e homens cartagineses — e assim mesmo de modo tosco, para servirem como "bucha de canhão", enquanto as reais infantaria e cavalaria fizessem o serviço profissional.
Aníbal encerrou um ano que, se não havia sido muito satisfatório para ele, tinha certamente sido infeliz para Roma. Em sua rota de volta a Tarento cruzou com um exército romano que barrava seu caminho. Superior em cavalaria — e largamente superior devido às qualidades de seus númidas — ele os dispôs cuidadosamente nos flancos. Os romanos, avançando à sua velha (e a essa altura já ultrapassada) maneira, confiantes na força de suas legiões blindadas, foram feitos em pedaços, e o general, Marco Sentênio Pênula, morto. Como se não fosse suficiente para um invasor estrangeiro em sua marcha de volta para os quartéis de inverno, após a conclusão de uma temporada de campanha bem-sucedida, Aníbal soube que Herdônia, na costa leste da Apúlia, estava sendo sitiada pelo irmão do cônsul, Fúlvio Flaco, e voltou seu exército para o nordeste da Itália. Chegou para pegar os desavisados romanos pela retaguarda e, tendo colocado uma típica armadilha anibálica no flanco em direção do qual ele deduziu que os romanos deveriam se voltar, aniquilou o inimigo. Dois mil — ou menos — desse exército escaparam, e Aníbal assegurou sua posição territorial, novamente voltando para o sul para garantir às suas tropas suprimentos adequados e bons abrigos para o inverno. Dois exércitos romanos foram destruídos e dois generais mortos — tudo em uma campanha feita às pressas. Algum país, ou mesmo o Senado de Cartago, poderia demandar mais de um homem — sem nenhum auxílio e longe de casa? O ano seguinte, 211 a.C., provaria ser um dos mais singulares e alarmantes da história romana. Aníbal dividia-se entre o desejo de capturar a cidadela em Tarento, a qual ainda impedia os cartagineses de utilizar o porto como base de frota e suprimento para a campanha italiana, e a necessidade de assegurar Cápua. Como escreve Lívio: “Contudo, prevaleceu o cuidado com Cápua, uma cidade na qual viu que a atenção de todos os seus aliados e inimigos se concentrava, destinada a ser um exemplo notável, qualquer que fosse o resultado de sua revolta contra os romanos. Consequentemente, deixando na terra dos brútios grande parte de sua bagagem e toda arma pesada, com infantaria e cavalaria selecionada, precipitou-se pela Campânia na melhor condição possível para uma marcha rápida. A despeito de sua movimentação veloz, trinta e três elefantes conseguiram acompanhá-lo. [Fizera a mesma coisa antes, em sua marcha pela margem leste do Ródano.] Ele acampou em um vale fechado atrás de Tifato (…) Quando ele se aproximou, capturou primeiro o forte de Galátia, subjugando sua guarnição, e então dirigiu sua marcha contra os sitiantes de Cápua. Mandando comunicar antecipadamente a Cápua a ocasião em que pretendia atacar o acampamento romano, de modo a dar-lhes tempo de se prepararem para uma investida conjunta, irrompendo ao mesmo tempo de todos os portões, ele inspirou grande rebuliço. Assim, de um lado ele próprio atacaria, de outro todos os capuenses, cavalaria e infantaria, irromperiam para fora, e com eles a guarnição cartaginesa comandada por Bóstar e Hanão”.[Tito Lívio]. Na batalha que se seguiu, a franqueza da posição de Aníbal ficou patente: eles não poderiam transpor uma posição defendida. Embora seus rígidos homens de infantaria iberos tivessem rompido as linhas romanas, eles foram incapazes de forçar caminho até Cápua, sendo detidos e mortos. A cavalaria cartaginesa permaneceu, como sempre, suprema em combate, mas isso não era suficiente quando em ataque contra legionários romanos em suas trincheiras. Aníbal fez tudo o que pôde para provocar a saída dos romanos para uma batalha aberta, mas eles não cederam. Haviam aprendido a lição nos primeiros dois anos de campanhas na Itália. Políbio, ele próprio um comandante de cavalaria, reconhece que mesmo essa poderosa arma era inútil quando se tratava de desalojar um tenaz e entrincheirado inimigo. Além do mais, a operação coordenada com os capuenses mostrou uma lúgubre falha, sendo seus aliados facilmente rechaçados pelos romanos, determinados a fazer a cidade de renegados pagar o preço por sua deserção da aliança latina. Aníbal atirou todas as forças à sua disposição no ataque às linhas romanas, menos seus númidas e iberos, que "irromperam dentro do acampamento romano inesperadamente". Os elefantes foram à carga com eles e "em seu caminho pelo acampamento iam devastando as tendas com um barulho terrível, e fazendo os animais de carga romperem seus cabrestos e fugirem". Lívio concluiu: "(…) os elefantes foram tirados de suas posições mediante o uso de fogo. Seja lá como tenha começado ou acabado, esta foi a última batalha antes da rendição de Cápua". Os romanos descobriram que os elefantes possuíam suas fraquezas; o fogo era uma, e a outra era deixá-los ir em desatino através das linhas e então atacá-los por trás. Com o benefício da visão posterior aos eventos, parece-nos hoje que Aníbal havia cometido um erro estratégico em sua tentativa de livrar Cápua. Trouxera contra as posições romanas um peso de forças que teriam se desempenhado melhor contra a guarnição de Tarento, libertando, assim, aquele grande porto para a frota cartaginesa. Por outro lado, elefantes e superioridade numérica significavam pouco contra uma cidadela fortificada, com um suprimento interno de água e um grande depósito de grãos. É por isso que as cidadelas, guarnições e castelos sobreviveram por milhares de anos na história da guerra. Somente projéteis explosivos e métodos científicos de colocação de minas ameaçariam o "ponto forte". Suficientemente rápido para perceber seu erro após essa fracassada operação combinada para livrar Cápua, Aníbal recuou. Só lhe restara um lance estratégico, que tem sido usado por muitos grandes capitães, inclusive Napoleão (o qual aprendeu muito com Aníbal). Este era levar suas forças embora e ameaçar a peça principal do tabuleiro de xadrez — Roma. Ele devia saber, em vista de seu fracasso contra cidades menos fortificadas, que só constituiria uma ameaça, nada mais, mas estariam as legiões romanas ao redor de Cápua totalmente confiantes de que a capital sobreviveria ao ataque do grande cartaginês? A marcha de Aníbal sobre Roma, um acontecimento tão aterrorizante que continuava a ser lembrado por poetas e historiadores mesmo séculos mais tarde, levanta a interessante questão da rota que ele teria tomado. Lívio é pouco claro, afirmando que ele se utilizou da grande Via Latina nas últimas etapas de sua marcha, enquanto Fúlvio Flaco tomou a Via Apia mais para o oeste, chegando a Roma antes dele. Políbio — muito mais confiável no que se refere a assuntos militares — mostra Aníbal levando seu exército diretamente através do Sâmnio para leste e descendo sobre Roma, vindo do nordeste. Conhecendo, por suas outras manobras, a inclinação de Aníbal pelo inesperado, essa rota parece a mais provável. Sir Gavin de Beer acrescenta um ponto: "Marchando através do Sâmnio para Sulmona, e então através de regiões hostis a Roma, Aníbal passou por Alba, onde sua passagem foi marcada por dois elefantes de pedra toscamente esculpidos, inequivocamente africanos, dado o grande tamanho de suas orelhas". Queimando e pilhando, com os númidas devastando o campo adiante de seu exército, Aníbal suscitou um pânico tal que a cidade nunca antes conhecera. Finalmente, ele acampou na margem direita do rio Ânio, e a apenas três milhas de Roma — os cavaleiros do deserto, a infantaria pesada cartaginesa, os selvagens gauleses e brútios, todos visíveis aos observadores nas muralhas. Após uma inconsequente escaramuça de cavalaria, na qual Flaco parece ter se saído melhor, os dois exércitos confrontaram-se, tendo a cidade como o prêmio da aposta. Mas, como Lívio conta, "depois que os exércitos se posicionaram (…) um grande aguaceiro, misturado a uma chuva de pedras, confundiu de tal modo as linhas de batalha que, agarrando-se às suas armas com dificuldade, eles retornaram ao acampamento". Aconteceu de a terra na qual acampara o cartaginês estar à venda e, mesmo enquanto o exército de Aníbal a ocupava, diz-se que a negociação prosseguiu — e sem qualquer redução no preço. Tais histórias não devem ser verdadeiras — elas exaltam os romanos das gerações posteriores, exibindo confiança igual à de seus ancestrais, mas permanece o fato de que, em nenhum momento a defesa romana acreditou que a cidade estivesse em grande perigo. Era sempre a mesma história — sem equipamento de sítio, Aníbal não pôde tomar Cumas ou Nápoles, logo era impossível para ele capturar a que era talvez a mais rigidamente fortificada e bem defendida capital do mundo mediterrâneo. Depois de mais um dia em que a violência do clima novamente fez com que ambos os exércitos se retirassem para seus acampamentos, Aníbal recuou para uma posição seis milhas atrás. Ele tinha visto Roma; é bem possível, como diz a lenda, que tenha atirado uma azagaia na Porta Colina para zombar da impotência de seus defensores. Mas nunca adentrou a cidade de seus inimigos, e nunca mais a veria novamente. Um entusiasta sem igual de Aníbal foi Sigmund Freud, o qual
Sigmund Freud
idolatrava o cartaginês tão fervorosamente que por muitos anos foi incapaz de entrar em Roma — porque Aníbal nunca havia colocado os pés ali. A tentativa de Aníbal de livrar Cápua ameaçando Roma havia falhado. Nenhum exército romano tinha se deslocado de Cápua para verificar sua ameaça; os dois cônsules permaneciam em Roma e, com eles, duas, possivelmente mais, legiões por detrás das resistentes fortificações. Ele aproveitou sua marcha ao máximo, contudo, saqueando todo o campo ao redor, violando o antigo relicário de Ferônia, onde oferendas de ouro e prata datados de tempos imemoriais iriam pagar o serviço de seus mercenários. Deve-se lembrar sempre que o magnífico exército poliglota de Aníbal tinha de ser pago, pois ele não consistia numa corporação de cidadãos, como o de Roma, e não tinha qualquer fidelidade a não ser para com um único homem. Cápua, evidentemente, estava perdida, e Aníbal sabia disso quando voltou de Roma. Inevitavelmente, ele foi seguido em sua marcha, e alguns na sua "cauda", carregados com bagagem e saques, foram mortos. Fracassando em Roma, manteve-se intacto porém seu usual espírito indomável; voltando-se de novo contra os romanos em ataque noturno, castigou-os tão severamente que eles nunca mais o acossaram em sua marcha. Em muitos aspectos, assemelhava-se a um grande e nobre animal saído da África, sempre forte o suficiente para, volvendo-se, atacar selvagemente os predadores em seu encalço. Aníbal moveu-se para o leste em direção ao Adriático e, então, fez uma falsa investida contra Tarento, onde a indômita guarnição romana ainda resistia, antes de deslocar-se rapidamente para sudeste, através do Brútio, chegando inesperadamente ao Régio. É provável que fossem se unir a novas tropas que haviam invernado em
Brutium (atual Calábria); de qualquer modo, sua marcha é considerada uma das mais rápidas e memoráveis da história da guerra. No entanto, ainda que tenha chegado subitamente à cidade, de modo a capturar muitos dos habitantes ainda trabalhando fora nos campos, tratando-os com cortesia, na esperança de causar uma impressão favorável, o Régio fechou seus portões e permaneceu fiel a Roma. Apesar de sua impressionante sequência de marchas, apesar de seu castigo aos romanos no ataque noturno e da rapidez de seus movimentos, que sempre os deixava confusos quanto às intenções dele, a campanha da primavera de 211 a.C. não rendeu coisa alguma. Cápua estava condenada a cair, junto com o sonho de Aníbal de uma federação italiana independente de Roma. Politicamente, ele havia falhado, e as esperanças cartaginesas de isolar Roma para então destruí-la quase com tranquilidade, se despedaçaram. Assim que os capuenses souberam que Aníbal havia se retirado de Roma e se deslocado para o sul, deram conta de seu destino. Um decreto do senado romano de que as vidas de todos os capuenses que se rendessem a Roma seriam poupadas caiu em descrédito, pois os que agiram na conspiração perceberam que nada além da morte os aguardava. Cercados pelas legiões, à beira da fome, não lhes restava nada a fazer a não ser abrirem os portões. Vinte e oito dos senadores que haviam votado contra a resolução cometeram suicídio por veneno e pela espada. Estavam certos em crer que Roma desejava vingar-se: setenta dos que haviam se comprometido na decisão de receber Aníbal foram executados, junto com muitos outros cidadãos líderes. A secessão de Roma foi encarada como o que de fato era: conspiração com o inimigo. Embora Cápua não tivesse sido saqueada, todos o seus edifícios e terras públicas foram declarados propriedade do povo romano. Cápua deixou de existir como entidade independente, e os senhores romanos da Campânia iriam, dali em diante, ver aquelas terras ricas e férteis trabalhadas para o benefício de seus senhores romanos. Toda a Itália, salvo o extremo sul e Brutium (atual Calábria), estremeceu; e as cidades e fazendas que haviam recebido as forças cartaginesas, em algumas das quais Aníbal havia posicionado pequenas guarnições, tornaram-se pró-romanas outra vez e voltaram a hostilizar o invasor. De um só golpe, Aníbal ficou desprovido de suas conexões com o Sâmnio e a Apúlia e mais ou menos confinado ao Brútio e ao litoral sul. Assim, com seu fracasso no Régio e sua incapacidade de subjugar a guarnição em Tarento, ele foi deixado com pouco campo para manobras. Sem um porto adequado e com os romanos controlando o mar, restavam-lhe poucas esperanças de receber reforços. A queda de Cápua e a captura de Siracusa pareciam indicar um desastroso ano para os cartagineses. A única boa notícia, talvez, a alcançar Aníbal na região que se tornaria sua derradeira fortaleza na Itália foi o triunfo de seu irmão Asdrúbal na Espanha — um triunfo tão grande que quase eclipsou essas outras perdas. O dois Cipiões haviam avançado pelo coração da Espanha, ao sul do Ebro, conseguindo, a princípio, considerável sucesso. Públio Cornélio Cipião em particular foi hábil em conquistar a lealdade de muitos espanhóis e incorporá-los em uma aliança com Roma. Mas o retorno de Asdrúbal, após debelar a revolta marroquina, e sua união com Asdrúbal Gisgão e Magão foram fatais para a sorte dos irmãos Cipião. A influência de Asdrúbal sobre os celtiberos em breve se mostraria valorosa e os Cipiões viram-se privados de linhas de comunicação, e mais ou menos abandonados por seus aliados espanhóis. Aparentemente incapazes de unir suas forças, os dois generais romanos envolveram-se em ações separadas. Seus exércitos foram feitos em pedaços, sendo ambos os Cipiões mortos. O desastre com as armas romanas e a morte desses dois destacados generais contribuíram muito para reverter o equilíbrio da grande guerra anibálica contra Roma. Enquanto isso, o próprio Aníbal, embora sem apoio, permaneceu sem derrotas, na terra italiana. Uma constante ameaça a Roma e contínua preocupação para seus generais, ele ainda permaneceria ali por mais sete anos. O ritmo da guerra só poderia diminuir. As perdas sofridas por ambos os lados foram suficientes para enfraquecê-los tanto pelo sangue derramado quanto pela falta de determinação. O exército que Aníbal trouxera para a Itália pelas montanhas há muito havia mudado seu temperamento e constituição; nove anos não poderiam deixar de exigir um alto preço daqueles veteranos da Espanha, França e Alpes, que tinham um dia contemplado de cima das montanhas, com muita expectativa, o rico prêmio: a Itália. Não existem registros, e apenas pode-se presumir que, após tantos embates, a força original dos cartagineses encouraçados tenha-se exaurido bastante — embora vitoriosos em todas as suas principais batalhas. Fica claro que a cavalaria númida fora reforçada por transporte da África. Esta brigada ligeira de cavalaria permanece em evidência até o fim da longa guerra mas, muito curiosamente, não há mais referências à brigada pesada de cavaleiros — embora seja possível que Políbio e Lívio simplesmente suponham que eles estiveram sempre presentes. O corpo principal da infantaria havia certamente se transformado sem medida, sendo os espanhóis substituídos por gauleses e estes, por sua vez, pelos brútios. Também é possível que houvesse muitos fugitivos do acampamento romano — desertores (não o melhor dos soldados), etruscos que há muito odiavam a cidade que arruinara seu próprio Estado e, desde a queda de Cápua, campanianos que não mais ousavam retornar à sua própria terra. Era uma força heterogénea a ser lançada contra aquele formidável composto de Estados que Roma reunira. Aníbal, com a queda de Cápua, também havia perdido seus aliados e existia pouca ou nenhuma probabilidade de que fossem substituídos. Roma demonstrara o quão cruel era seu julgamento contra os desertores, e somente outra vitória da amplitude de Canas poderia convencer os Estados da Itália de que Aníbal seria o potencial governante de toda a península. Roma também se ressentia do esforço de sustentar uma guerra por tanto tempo. A fadiga da guerra, evidente do lado romano, assim como a carga dos pesados impostos, para o que parecia não haver fim, contribuíram para uma atmosfera geral de derrotismo. “Queixas começaram a ser ouvidas entre os latinos e seus aliados em suas reuniões: já era o décimo ano em que eles se exauriam com as levas de tropas e seu pagamento; e quase todos os anos sofriam alguma derrota desastrosa. Alguns, diziam eles, foram mortos em batalhas, outros caíram por doença. O aldeão alistado pelos romanos estava perdido para eles mais completamente do que um homem capturado pelos cartagineses. Pois, sem demandar resgate, o inimigo o mandava de volta para sua cidade nativa; os romanos o transportavam para fora da Itália (…) Se os soldados antigos não retornassem a seus locais de origem, e novos soldados continuassem a ser recrutados, em breve não haveria mais nenhum. Conseqüentemente, o que a situação demandasse de recursos deveria ser recusado ao povo romano, sem que se esperasse chegar ao extremo da desolação e da pobreza. Se os romanos vissem os aliados unânimes nisso, certamente pensariam em fazer a paz com os cartagineses. De outro modo, nunca, enquanto Aníbal vivesse, estaria a Itália livre da guerra”. [Tito Lívio]. Doze colônias romanas, das trinta que compunham o Estado romano, revoltaram-se em 209 a.C., informando aos cônsules de que não tinham meios de fornecer mais soldados ou dinheiro. A fim de pagar os exércitos, até mesmo o tesouro sagrado de Roma, recurso que só deveria ser usado na mais grave das emergências, teve de ser desprovido de seu ouro. Os senadores foram solicitados — e atenderam — a trazer ouro, prata e jóias particulares de suas famílias de modo a reabastecer os cofres do Estado. Nunca em sua história Roma se reduzira a tal penúria, e parecia que a ameaça representada por Aníbal e seu exército de modo algum retrocederia. Embora as cidades que haviam se voltado aos cartagineses fossem reintegradas à aliança romana — Salápia, na Apúlia, primeiro, e Meles e Maroneia, no Sâmnio — a temível sombra do invasor ainda assombrava grandes áreas da Itália. Quando os romanos eram imprudentes o bastante para enfrentá-lo, como acontecera em Herdônia, aprendiam a costumeiramente sangrenta lição. Ali o procônsul Fúlvio Centumalo havia acampado contra a cidade, enquanto negociava com um partido pró-romano dentro das muralhas. Quando Aníbal soube da ameaça, deslocou-se do Brútio por marchas forçadas e enfrentou as duas legiões de Centumalo; sua cavalaria atacou a retaguarda das legiões, enquanto sua infantaria pesada os segurava pela frente. O resultado foi outra daquelas mortíferas derrotas romanas que, até o fim da guerra na Itália, fizeram cada general romano ver estremecida sua reputação quando confrontados pelo cartaginês. Marcelo, que havia retornado de sua vitória sobre Siracusa na Sicília, era um dos cônsules para o ano de 210 a.C. e um dos generais romanos por quem Aníbal demonstrava verdadeiro respeito, dizendo sobre ele: "Marcelo é o único general que, quando vitorioso, não dá descanso ao seu inimigo, e, quando derrotado, não dá descanso a si mesmo". O modo sarcástico e impessoal de Aníbal expressar-se é revelado numa comparação, a ele atribuída, entre Quinto Fábio Máximo, o Protelador, e Marcelo: "Fábio era um professor a quem eu respeitava, mas Marcelo era um virtuoso inimigo: o primeiro não me deixou causar qualquer dano, mas o outro me fez sofrê-lo". Marcelo iria participar de parte da campanha de 209 a.C., na qual Aníbal perderia sua última possessão importante na Itália, a cidade portuária de Tarento. O outro cônsul para o ano era o velho Quinto Fábio Máximo, que pela primeira vez ganharia algum predomínio sobre o homem que o havia desafiado com sucesso em ocasiões prévias. Enquanto Quinto Fábio Máximo trazia suas forças o norte e prosseguia em marcha para Tarento, Marcelo acossava Aníbal e perseguia suas pegadas, marchando no verdadeiro estilo "fabiano". Além desses dois exércitos, Roma colocou em campo, naquele ano, mais um, sob o comando de Fúlvio Flaco, para subjugar as cidades na Lucânia e no Sâmnio que se mostrassem favoráveis aos cartagineses. A campanha de abertura de Aníbal, que esteve tão próxima do sucesso, fora projetada para quebrar o espírito de Roma por uma série de vitórias maciças em campo. Ele havia conseguido as vitórias, mas Roma teimosamente ainda recusava-se a se render. Sua segunda campanha, com fins políticos, tinha sido projetada para quebrar o espírito dos aliados de Roma e, ao fazê-lo, destruir a confederação latina com a qual Roma necessariamente teria que contar para obter dinheiro e poderio humano. Todavia, após mais de nove anos de guerra, dezoito dos trinta aliados continuavam fiéis a Roma e os doze que a haviam renegado só o fizeram porque seu poderio humano se exaurira e seus tesouros encontravam-se vazios. Dois fatores principais sempre afligiram Aníbal desde que percebera que deveria lutar uma guerra de desgaste em solo inimigo. O primeiro era a falta de um equipamento de sítio e o segundo a falta de infantaria pesada treinada, que somente poderia vir da própria Cartago ou da Espanha. O comando romano do mar, estabelecido na Primeira Guerra Púnica, havia demonstrado claramente que um Estado como o cartaginês, tão dependente de negócios ultramarinos, deve comandar o mar ou perecer. Esta foi uma lição que os estadistas e comandantes britânicos, educados nos clássicos, haviam absorvido bem na época de suas guerras contra a França no século XVIII.

Continuação:
Biografia do General Anibal-parte-1
Biografia do General Anibal-parte-2
Biografia do General Anibal-parte-4 
Biografia do General Anibal-parte-5 
Biografia do General Anibal-parte-6 


 
Referências

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.