sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Biografia do General Aníbal (parte 2/6)


Após a batalha

Aníbal
Caio Terêncio Varrão, junto com um pequeno grupo de cavaleiros aliados, cavalgou para Venusia (atual Venosa) trinta milhas adiante. Políbio comenta que "ele desgraçou a si mesmo com tal fuga; o exercício do seu mandato tinha sido o menos proveitoso possível para o seu país". O mais espantoso é que, ao chegar, por fim, a Roma, foi recebido por uma grande multidão que o congratulava por não ter perdido a esperança na república. Seria essa flexibilidade — a pura força e vitalidade — das instituições políticas de Roma que no fim derrotaria Aníbal. Em Cartago, o destino de um general malsucedido e covarde era bem conhecido — ele era crucificado. Da infantaria sobrevivente um número não especificado conseguiu chegar a Canusio (atual Canosa di Puglia), entre eles um dos tribunos militares, o jovem Cipião. Este era testemunha da genialidade de Aníbal, a qual ele iria estudar e aproveitar. Anos mais tarde, no campo de batalha norte-africano de Zama, ele demonstraria ter absorvido bem as lições. Dez mil homens que haviam sido deixados para guardar o acampamento romano e, se possível, atacar e tomar o acampamento principal dos cartagineses, foram apanhados após a batalha; foram mortos dois mil, e os restantes, aprisionados. A pilhagem do acampamento romano e do campo de Canas foi considerável: armas e armaduras, arreios de cavalos, prata e ouro, cavalos e bagagem. Diz-se que somente os anéis com sinetes de ouro, tirados dos cavaleiros romanos que haviam tombado em batalha, somavam três bushels de peso. Aníbal, como de costume, tentou recuperar os corpos de seus líderes oponentes, mas somente o do cônsul Lúcio Emílio Paulo pôde ser identificado, e a ele foi dado um honroso funeral. Naquele momento de triunfo, quando parecia que seus inimigos estavam irreversivelmente derrotados, dificilmente haveria surpresa se alguns dentre os cartagineses sentissem ter chegado a hora de marchar sobre Roma. Ainda menos surpreendente seria que esse sentimento tivesse sido externado por Maárbal, um comandante de cavalaria sem igual, que com justiça achava que muito do êxito obtido pelos cartagineses desde a chegada à Itália podia ser atribuído aos seus soberbos cavaleiros. É natural para um cavalariano ter o sangue quente e ser cheio de ela, e Maárbal agora clamava ao seu líder para fazer uso da oportunidade que tão devastadora vitória lhe proporcionara. "No quinto dia a partir de agora", ele teria dito, segundo Lívio, "você irá jantar como um vitorioso na colina do Capitólio. Meus cavaleiros irão à sua frente, e os romanos saberão que você chegou, mesmo antes de imaginarem que viria". Aníbal respondeu que, embora tais palavras fossem boas de se ouvir, ele ainda precisava de tempo para considerar. Ao que veio a famosa e irada resposta de Maárbal, ressoando através dos tempos: "Aníbal, vejo que os deuses dão a um homem muitas dádivas, mas não todas. Você sabe como vencer, mas não sabe o que fazer das suas vitórias!" Aníbal não tinha opção. Seu exército não era grande o bastante para investir sobre uma cidade do tamanho de Roma e cerceá-la, e ele não possuía maquinário para um cerco. Os cartagineses, com essa ação (em Canas), tornaram-se, de uma vez por todas, senhores de quase todo o resto da costa. Com Tarento rendendo-se imediatamente, enquanto Argiripa e algumas cidades campanianas convidavam Aníbal para vir até elas (…) Os romanos, por seu lado, devido a essa derrota, abandonaram de vez todas as esperanças de reter sua supremacia na Itália, apreensivos que estavam por sua própria segurança e a de Roma, com a expectativa de que Aníbal aparecesse a qualquer momento”. [Políbio]. As razões pelas quais ele não o fez são conhecidas, mas naquele momento parecia inconcebível para os romanos que ele não seguisse adiante com seu triunfo. As primeiras notícias que chegaram à cidade depois que os mensageiros foram enviados para ver o que tinha acontecido em Canas eram que o exército havia sido destruído e ambos os cônsules mortos. Ainda não se sabia que Caio Terêncio Varrão estava reunindo "algo semelhante a um exército consular" em Canúsio. Não havia sinal do acampamento romano, e o inimigo parecia estar de posse de toda a região. Era como se aquelas orgulhosas legiões novas, que haviam marchado para o sul para destruírem Aníbal de uma vez por todas, terminassem elas próprias varridas da face da Terra. O tratamento de Aníbal a seus prisioneiros diferiu ligeiramente nessa ocasião, uma vez que ele não permitiu de pronto que os aliados retomassem livres para os seus lares. Ele separou uns dos outros, mas ofereceu tanto aos aliados quanto aos romanos a liberdade em troca do pagamento de um resgate — sendo o pagamento imposto aos romanos cinquenta por cento superior ao exigido pelos aliados. Ele já tinha prisioneiros e
Mapa medieval de Canosa di Puglia.
escravos mais do que suficientes e, apesar da riqueza armazenada pelo campo de batalha, sentiu provavelmente ser a hora certa para adquirir tanto dinheiro quanto possível, em vista do futuro pagamento de suas tropas. Ele tomou, uma vez mais, o cuidado de enfatizar aos aliados que sua guerra não era contra eles, mas contra Roma, e permitiu que uma delegação de dez romanos partisse para a cidade deles em companhia de um nobre cartaginês, Cartalão. Quaisquer que fossem as expectativas de Aníbal, ele ficaria desapontado: Cartalão não foi recebido em Roma e, sob advertências, precisou deixar os limites da cidade antes do cair da noite. Se Aníbal esperou com tal generosidade ter uma oportunidade de descobrir o estado do moral romano, o Senado estava igualmente convencido de que ele deveria aprender que não houvera qualquer fraqueza. Após muito debate, decidiu-se que os delegados deveriam ser enviados de volta a Aníbal com a mensagem de que Roma não tinha qualquer intenção de pagar resgates por seus soldados capturados. Nesse momento de desastre, Roma exibia aquela face dura e resistente que faria dela a cabeça de um grande império. Embora pudesse bem ter utilizado esses soldados, sentia-se e proclamava-se que era o dever de um romano morrer a render-se. A cidade abraçara o código espartano. Dificilmente haveria dentro dos muros de Roma uma mãe que não tivesse perdido um marido ou filho nas campanhas de Aníbal: não foi permitido que elas deixassem suas casas de luto. Quinto Fábio Máximo, o
Protelador, uma vez mais sustentou o velho código romano, encarregando-se do moral, bem como do trabalho nas defesas. O luto público foi proibido; o rumor e o falatório foram eliminados pela imposição do silêncio em locais públicos; todos os portadores de notícias vindos de fora da cidade eram imediatamente trazidos à presença dos pretores para que revelassem suas informações (mas não lhes era permitido discuti-las depois disso), e sentinelas foram postados nos portões para impedir que qualquer um deixasse a cidade. A necessidade dessas medidas severas foi reforçada quando as últimas notícias terríveis chegaram: um exército consular no norte da Itália, sob o comando do cônsul eleito Lúcio Postúmio, havia caído numa emboscada armada pelos boios e tinha sido massacrado. Lívio, volvendo o passado nesse momento da história romana, avalia acuradamente a situação: No ano anterior, um cônsul e seu exército foram perdidos em Trasimeno; não se tratava agora meramente de um golpe seguido de outro, mas de uma calamidade muitas vezes mais grandiosa que sucedia a anterior. Dois cônsules e dois exércitos consulares tinham sido perdidos (em Canas) e não havia mais qualquer acampamento romano, ou general, ou soldado. Aníbal era o senhor da Apúlia, do Sâmnio e de quase toda a Itália (…) Seria comparável a isso o desastre das Ilhas Egates, que os cartagineses sofreram no combate marítimo, quando o seu moral foi atingido pela perda da Sicília e da Sardenha e por terem se tornado tributários e pagadores de impostos? Ou à derrota na África, à qual esse mesmo Aníbal mais tarde iria sucumbir? Em nenhum aspecto sequer eles podem ser comparados com essa calamidade, exceto o de terem sido suportado com menos vigor”. [Tito Lívio]. Aníbal não podia investir e destruir Roma, mas Canas lhe permitiu colher os frutos da vitória em termos políticos. Uma quantidade de cidades na Apúlia abriram os portões para ele, incluindo Arpi e Salápia, enquanto
Hannibalszug - 1 (Serie, 6 folhas) de Alfred Rethel
todo o
Brutium (atual Calábria) — com a notável exceção das cidades gregas — e quase toda a Lucânia deixaram a confederação romana para se juntarem aos cartagineses. A maior parte do Sâmnio o fez, seguida no devido curso por Cápua, na Campânia — a segunda maior cidade em toda a península Itálica, a mais rica depois da própria Roma e a mais importante da confederação. Cápua era capaz de comportar um exército de cerca de trinta mil soldados de infantaria e quatro mil cavaleiros, e parecia destinada a ser a capital dessa nova coalizão de Estados que, sob o controle de Aníbal, poderia formar um bloco italiano e expandir-se desde o rio Volturno, a oeste, até o monte Gargano na costa adriática. Contudo, algo significativo — e que dificilmente poderia ter escapado à observação de Aníbal — era que nenhuma das colônias latinas na região tinha aberto seus portões para ele e que as cidades gregas, igualmente, mantinham sua fidelidade a Roma. Esse último fato foi de maior consequência, uma vez que eram os "aliados navais" gregos, como eles eram denominados, que forneciam a espinha dorsal da frota de Roma. Seus portos de Nápoles, Reggio di Calabria, Tarento e Túrio não somente eram prósperos por si, mas também essenciais para o controle do mar Tirreno, dos acessos à Sicília e, certamente, de todo o oeste mediterrâneo. Políbio antecipou os fatos quando se referiu a "Tarento se rendendo imediatamente". Isso aconteceu meses antes de esse grande porto marítimo sulino cair nas mãos de Aníbal, e até o momento ele não tinha nenhum real acesso ao mar. Ele, contudo, conseguiu enviar seu irmão caçula Magão de volta a Cartago com as notícias sobre Canas e um relato da situação geral na Itália. Magão marchou pelo "dedo do pé" da Itália, onde as tribos brútias saudavam qualquer um que os tivesse libertado da intrometida dominação de Roma, e embarcou presumivelmente em alguma embarcação cartaginesa que havia se destacado de uma frota que ainda explorava vigorosamente as defesas da Sicília. Aníbal necessitava muito de reforços, particularmente para a cavalaria e a treinada infantaria norte-africana. A brilhante força escolhida a dedo, com a qual ele havia deixado a península Ibérica dois anos antes, havia sofrido severas perdas — mesmo excluindo os muitos homens perdidos na passagem dos Alpes — e os gauleses e outros aliados não eram substitutos para soldados profissionais. Aníbal também precisava de dinheiro. Os mercenários tinham que ser pagos, e os espólios de Canas e sucessos políticos que se seguiram não vieram sem o lado reverso da moeda: Aníbal precisava, agora, de homens para reforçar guarnições, dinheiro para subornar cidadãos idôneos e, acima de tudo, de um equipamento para sítio. Com seu exército de conquista, ele havia feito uma brilhante demonstração que nunca mais seria repetida na história da guerra. Agora estava frente a algo que nem ele nem seu pai, e certamente ninguém do Senado de Cartago, jamais havia considerado: a exigência de uma consolidação. Não tendo meios para assediar cidades fortificadas e sem tropas disponíveis para guarnecê-las mesmo se elas caíssem, encontrava-se diante de um problema insolúvel: não poderia reter um país inteiro. O pensamento de Aníbal — pensamento cartaginês — estava ultrapassado. Tendo feito o impossível, cruzando os Alpes para atacar o Estado romano por terra e derrotando-o com sucesso no norte, Roma deveria ter-se rendido. Tendo marchado para o sul e aniquilado um exército consular no lago Trasimeno, Roma deveria ter-se rendido. Tendo marchado ainda mais para o sul e destruído completamente os exércitos da república, Roma deveria ter-se rendido. Aníbal e os cartagineses pensavam nos moldes do passado. Pelos séculos de guerra, primeiro tribal e depois extraterritorial, os romanos tinham aprendido que uma batalha não faz uma conquista. Aníbal era um comando-líder, e ele havia alcançado seus objetivos. Ninguém lhe havia dito — nem ele havia previsto — que teria então de comandar um exército de ocupação. O irmão de Aníbal, Magão, deve ter esperado que sua recepção em Cartago fosse, no mínimo, calorosa e estimada. Ele viera para relatar aos senhores de Cartago, e aos do seu senado, que seu general Aníbal, o filho de Amílcar, fundador de seu império na península Ibérica, havia vingado as injúrias da primeira guerra contra Roma, e que a nação que os havia humilhado com os termos de um infame tratado de paz estava agora caída de joelhos. Tinha evidências do campo de batalha — os anéis de ouro dos cavaleiros romanos, entre outras coisas —, dando conta da extensão da vitória que acabara de ser conquistada. Se trouxera esplêndidas notícias, Magão também tinha algumas requisições a fazer. Aníbal precisava muito de reforços na forma de homens de infantaria treinados, de mais cavaleiros númidas e dinheiro. O partido de oposição em Cartago, liderado por Hanão, descendente do Hanão que havia sido obscurecido por Amílcar Barca e representante de uma das mais ricas famílias de Cartago, estava preparado com objeções contra o envio de assistência a Aníbal. Se ele havia alcançado tão grandes vitórias, por que precisava tanto de mais dinheiro e homens? Se ele
Hannibalszug - 2 (Serie, 6 folhas) de Alfred Rethel
fazia semelhantes demandas quando a maioria da Itália estava sob seu poder, o que pediria se tivesse sido derrotado? Agora, certamente, depois de uma vitória tão conclusiva, era a hora de fazer a paz, já que parecia duvidoso que sua posição pudesse de alguma forma ser melhorada para se obter bons termos. Embora frequentemente desacreditado por historiadores subsequentes, o partido da paz tinha marcado sua posição — que os eventos posteriores justificariam. Contudo, não surpreende que ele tenha sido vencido e que se tenha tomado a decisão de enviar a Aníbal substanciais reforços. A maior parte deles, uns vinte mil homens de infantaria, viriam da Espanha, enquanto do território cartaginês foi acertado o envio de quatro mil cavaleiros númidas e quarenta elefantes. Mas a maioria desses reforços jamais alcançou a Itália. A posição na Espanha havia se debilitado seriamente durante os dois anos em que Aníbal se tornara o senhor da arena italiana. Após a derrota de Hanão, em 218 a.C., Públio Cornélio Cipião e seu irmão Cneu haviam partido para combater Asdrúbal, irmão de Aníbal, ao sul do Ebro, e os romanos também ganharam o controle do mar ao longo da costa ibérica. Por todo o ano de 216 a.C., enquanto Aníbal dominava a Itália e concluía a humilhação de Roma em Canas, os romanos tinham consolidado seu domínio no norte da península Ibérica, bem como fomentado a agitação tribal no sul. Asdrúbal, mesmo reforçado por Cartago, tinha dificuldades em manter a suserania cartaginesa ao sul até Guadalquivir, de modo que não poderia dispensar tropas para enviar em assistência a Aníbal na Itália. Frente a isso, contudo, à medida que o ano 216 a.C. se encaminhava para o fim, parecia aos governantes cartagineses que as perspectivas de uma derradeira vitória eram boas. Houve uma revolta na Sardenha contra os romanos, e isso podia ser encorajado; o norte da Hispânia ainda poderia ser reconquistado; Hierão II, governante de Siracusa, aliado de Roma, estava morrendo, e no devido curso tais eventos poderiam oferecer a oportunidade da reconquista de toda a ilha — ou tanto dela quanto lhes fosse conveniente. Os sucessos de Aníbal deram ânimo a um Senado sempre inclinado a julgar as coisas muito mais pela perspectiva de retorno financeiro imediato. Três forças expedicionárias foram despachadas, uma para a Sardenha, e duas para Aníbal, na Itália. Somente a menor delas o alcançou — os númidas e os elefantes, pois a Hispânia, principal fonte dos recursos de Cartago, estava destinada a receber a maior parte. É significativo que os reforços que Aníbal estava para receber, como resultado da decisão cartaginesa tinham que desembarcar em Locros, um pequeno porto no afastado sudoeste da Itália, porque nenhum porto maior estava em suas mãos. Pretendendo capitalizar sua vitória, Aníbal entrou em contato com Filipe V da Macedônia, um governante perspicaz e enérgico que mantinha uma pendência de longa duração com Roma por sua interferência nos assuntos adriáticos, e que viu nos sucessos cartagineses na Itália uma chance de aumentar sua própria posição na Grécia. Para ele, como para tantos outros na Grécia e no leste, Roma era o inimigo, a principal ameaça para a independência de ação, e ele compreendia bem o velho ditado "O inimigo de meu inimigo é meu amigo." No verão de 215 a.C., ele e Aníbal assinariam um tratado (preservado por Políbio) no qual ambas as partes, ainda que de modo algum comprometidas, concordavam com uma aliança contra Roma. O senado romano não tinha motivo senão para estar bastante alarmado nos últimos meses do que seria chamado "O Ano de Canas". A miséria e as trevas que encobriam a cidade levaram o povo daquela região a regredir, de avançada república, para um estado mais sombrio, que remontava às primitivas raízes de uma velha raça camponesa cujo pragmatismo nunca totalmente perdera de vista a religião e as superstições dos etruscos que haviam dominado há tantos anos. Os sagrados Livros Sibilinos foram consultados e uma comitiva enviada para Delfos para aconselhar-se com um dos mais antigos oráculos do mundo mediterrâneo. Assim como aconteceria cerca de dois mil anos mais tarde, em meio a guerras mais sofisticadas, as pessoas achavam que seus erros e pecados haviam trazido a calamidade sobre elas, e os templos ficavam lotados, todos se esforçando para descobrir o motivo da fúria dos deuses — e apaziguá-la. Duas Virgens Vestais, que em outros tempos não teriam seus pecados da carne descobertos, foram reveladas indignas de seu título de celibato: uma cometeu suicídio e a outra foi enterrada viva. Os romanos, mesmo alguns educados no racionalismo da Grécia, voltaram-se aos mais antigos e sombrios dos deuses (tais como aqueles que os cartagineses ainda adoravam) e reverteram à expiação pelo sacrifício humano: dois gregos e dois gauleses foram enterrados vivos para satisfazer essa arcaica sede de sangue.
"Após se aplacar essa erupção, contudo", escreve B. H. Warmington em Carthage, "aquela feroz determinação que havia marcado os romanos nos piores dias da Primeira Guerra Púnica retornou. Quanto à direção da guerra, os eleitores, de agora em diante, escolheriam regularmente candidatos que tivessem o apoio do senado, uma vez que dois dos cônsules escolhidos contra o desejo dele foram, pelo menos em parte, responsáveis pelas derrotas de Trasimeno e Canas. Formidáveis esforços eram demandados deles e dos aliados; o imposto de guerra foi dobrado em 215 a.C., por volta de 212 a.C. havia vinte e cinco legiões em campo, e durante todo o tempo foi mantida uma frota de duzentos navios com cinquenta mil remadores". Roma, que havia se recusado a pagar resgate por seus soldados capturados em Canas, mostrava agora sua disposição de ferro: prisioneiros foram libertados da cadeia com a condição de que se juntassem às legiões e estivessem dispostos a lutar por seu país, e vários milhares de escravos jovens e saudáveis foram comprados de seus proprietários e ganhavam sua liberdade se então se alistassem. Templos e casas particulares foram despojados de armas e armaduras guardadas como troféus de batalha de guerras anteriores, e todos os artífices e artesãos foram recrutados para a fabricação de armamentos. A cidade não tinha esquecido seu dever para com os deuses e não esqueceu sua obrigação com a exigência material de uma guerra até a morte. Um outro ditador, Marco Júnio Pêra, foi escolhido com Tibério Semprônio Graco como seu Chefe de Cavalaria. No Trébia, no Trasimeno e em Canas, os romanos pagaram amargamente por uma política de ação agressiva. Agora demonstravam que foram sábios o bastante para terem aprendido a lição. Quinto Fábio Máximo, o "Protelador", havia-lhes mostrado o correto curso de ação, que passaria doravante a ser seguido. Aníbal começava a assentar, até onde podia, aquele reino do sul que a vitória em Canas parecia ter colocado em seu poder. Cápua era, logicamente, o principal alvo de suas considerações primárias, pois essa cidade rica, embora politicamente dividida, parecia oferecer uma capital da qual ele poderia conduzir sua guerra contra Roma. A cidade não viera até ele sem uma respeitável divergência entre seus líderes, mas o fato decisivo que os levara a fazê-lo talvez tenha sido um pedido de Roma para que os capuenses os ajudassem com dinheiro, grãos e tropas. Diz-se que os capuenses eram um povo auto-indulgente, que se esquivava do fardo de se ligar a uma má causa — especialmente quando o exército de Aníbal estava em seus portões. Por outro lado, logo deixaram claro ao cartaginês que sua amizade não implicava qualquer colaboração mais ativa. Ele não poderia convocar qualquer elemento de suas forças armadas, embora fosse permitido aos capuenses
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serem voluntários para o serviço com ele, e em toda a região da Campânia somente oficiais locais poderiam ter qualquer jurisdição. Da mesma forma, as leis e costumes cartagineses só se aplicariam ao exército de Aníbal; elas não teriam nenhuma autoridade sobre os campanianos. No entanto, Aníbal, que havia esperado pelo grande porto de Nápoles e seu quartel-general, mas tinha sido dissuadido por seus portões fechados e fortes muralhas, encontrara uma cidade-capital adequada e basicamente bem-disposta para sua conquista. Era evidente que todo o conceito da guerra nos limites do qual ele havia aluado era falso. Não era suficiente uma dramática conquista em campo e, então, ditar uma paz que confinaria Roma às suas antigas fronteiras e restauraria ao mundo mediterrâneo o
status quo que prevalecia antes da Primeira Guerra Púnica. Recusando-se a se render mesmo depois de suas retumbantes derrotas, os romanos haviam introduzido um novo elemento na guerra e não cumpriam "as regras" que há muito vigoravam entre as antigas civilizações. Aníbal tem sido frequentemente comparado a Napoleão, mas uma das inovações de Napoleão foi desatrelar sobre os reinos da Europa do século XVIII um novo conceito — a guerra total ou "de povos". Eram os romanos quem agora faziam isso a Aníbal, recusando-se a aceitar que a derrota em campo de batalha implicava derrota na guerra. Ele teve tempo durante o inverno de 216 a.C. para perceber que estava diante de algo totalmente novo: uma guerra de desgaste contra uma república politicamente bem equilibrada. O Alexandre do mundo afro-semita estava diante de um problema que nunca confrontara o grego Alexandre em suas campanhas contra os reinos do leste. A noroeste de Cápua, dominando aquela fértil planície, ergue-se a mil e oitocentos pés o topo de monte Tifato (monte Virgo) que iria servir como uma das principais bases de Aníbal nos anos que viriam. Existia a grande vantagem de que seu cume era um platô adequado para o pasto de cavalos e outros animais, e que ele dominava não somente a planície a oeste mas também o vale do Volturno, rumando para o leste através dos desfiladeiros pelo Sâmnio e pela Apúlia. Seria bastante bom para as tropas, e mesmo para o próprio Aníbal, passar o inverno em Cápua, mas é duvidoso (e ele tinha bons motivos, a crer em Lívio) que ele confiasse na maior parte dos cidadãos de Cápua. Sugerir, como escritores romanos posteriormente o fizeram, que o exército, e mesmo o próprio Aníbal, tivessem sido "corrompidos" pela vida branda no primeiro inverno em Cápua significa dizer que os generais e exércitos romanos que o enfrentaram durante os anos seguintes tenham sido de uma qualidade muito medíocre. O ano de 216 a.C. foi o de maior sucesso de Aníbal na península Itálica; contudo, não seria antes do outono de 203 a.C. que ele deixaria finalmente essas praias. Durante todos aqueles anos, apesar de um ou dois contratempos, ele iria manter seu controle sobre toda essa terra com um exército composto de uma quantidade decadente de norte-africanos e ibéricos, e principalmente de gauleses e nativos do Brutium (atual Calábria) e outras províncias do sul, onde a influência de Roma nunca tinha sido profundamente sentida. Apesar dos mais de dois mil anos que se passaram desde que o reino do sul fora conquistado por Aníbal, é possível sentir que sua sombra ainda pairava sobre toda aquela terra. Africa comincia a Napoli ("A África começa em Nápoles"), dizem os modernos romanos quando querem depreciar todo o território ao sul. É provável que a frase tenha se originado durante aqueles tardios séculos quando os piratas mouros, sarracenos, africanos e otomanos devastavam toda essa área. É tentador, contudo, pensar que a lembrança de Aníbal, que corroeu tão profundamente a consciência romana durante o período clássico, nunca tenha sido totalmente apagada. No início do ano 215 a.C., Aníbal dominava monte Tifato, de onde ele comandava toda a planície campaniana. Os romanos, que apesar de todas as suas perdas possuíam oito legiões em campo, estavam preocupados principalmente em vigiar as rotas ao norte. Assim, Quinto Fábio Máximo, não mais ditador, pois que fora escolhido como um dos cônsules para o ano, estava estacionado com seu exército a cerca de dez milhas ao norte de Cápua, em Cales. O segundo cônsul, Tibério Semprônio Graco, estava próximo da costa ocidental em Sinuessa guardando a Via Ápia para Roma em um ponto estreito onde as colinas a empurravam para a costa. Em Nola, a sudeste de Cápua e guardando as cidades e portos ao redor da baía de Nápoles, estava o procônsul Marcelo com duas legiões. Na Apúlia, protegendo Brundísio (Brindisi) e Tarento — já que se temia, com razão, que Aníbal poderia tentar atacar um ou outro desses valiosos portos marítimos — estava estacionado um quarto exército sob o comando de Marco Valério. Todas as rotas importantes permaneciam guardadas e outros exércitos menores mantinham vigilância na Sicília e Sardenha, ambas as áreas à espera de que os cartagineses fizessem um desembarque. Roma estava totalmente espalhada, e Aníbal, confiante após seu sucesso do ano prévio e em suas negociações com o rei Filipe V da Macedônia, bem como com Siracusa na Sicília, poderia esperar progressos. Vendo o resultado de seu trabalho amadurecendo dessa maneira, Aníbal sentou-se serenamente no cume do Tifato, para irromper como o lampejo de um relâmpago quando a tempestade estivesse totalmente armada”. [Arnold]. Durante aquele ano, Nápoles foi atacada em três ocasiões, mas uma vez mais a situação desprivilegiada de Aníbal — sua falta de equipamento de sítio — ficou evidente para todos. Os romanos não demoraram para notar que qualquer cidade bem murada e bem defendida estaria protegida contra os cartagineses. Sem dúvida, uma igual sensação de alívio foi sentida na própria Roma, muito embora uma parte tão grande da Itália ainda fosse negada a eles. As cidades interioranas de Casilino e Nucéria caíram sob seu domínio — mas através de ataques e não de sítio, enquanto a pequena cidade grega de Petélia, no sudoeste do golfo de Tarento, conseguiu resistir por oito meses antes de render-se. A ela logo se seguiria Cosência e o proveitoso porto de Crotona, outrora a cidade grega que dominava o golfo, a qual, com a derrota e destruição de sua rica rival Síbaris em 510 a.C., havia passado para a história. Pelo fim de 215 a.C., o exército cartaginês no Brutium (a atual Calábria) invadira toda a região sudoeste da Itália, tendo somente o Reggio di Calabria (Reggio), no estreito de Messina, resistido, em lealdade a Roma. Assim como os outros portos importantes de Nápoles e Cumas, contra os quais Aníbal não tinha tido sucesso, o Régio deveu sua resistência não apenas ao resguardo de suas muralhas que confinavam com a terra, mas ao fato de que poderia ser abastecida por mar, e a frota romana tinha o completo domínio daquele importantíssimo canal estreito que divide o continente da Sicília. Nos últimos anos da guerra, quando a força do
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exército cartaginês encontrava-se em declínio e as táticas do "Protelador" eram aplicadas em todos os lugares contra ele, a região do Brútio iria mostrar-se o derradeiro reduto de Aníbal na península Itálica. Nessas etapas relativamente precoces, proporcionou um centro de recrutamento para os cartagineses, agora que estavam tão separados de seus aliados gauleses no norte. Hanão, que estava no comando no sul, é mencionado como tendo conseguido um exército de cerca de vinte mil homens da Calábria, principalmente entre os vigorosos nativos das montanhas, que tinham aversão a Roma e que não se ressentiam dos cartagineses como o faziam os gregos das cidades costeiras. Embora despercebido por qualquer um naquela ocasião, o nível de maré alta do sucesso de Aníbal havia sido atingido, e — tão lentamente a ponto de ser imperceptível por alguns anos — a inexorável maré da fortuna começava a afastar-se dele. A atmosfera em Roma é bem descrita por Lívio, que, embora escrevendo tanto tempo após os acontecimentos, possuía fontes mais recentes e contemporâneas para abastecer-se:
Prodígios em grande número — e quanto mais créditos recebiam de homens simples e devotos, mais eram contados — foram relatados naquele ano: que em Lanúvio os corvos (sempre um pássaro de mau agouro) tinham feito um ninho dentro do templo de Juno Protetora; que na Apúlia uma palmeira verde se incendiara; que em Mântua um lago, transbordado do Rio Míncio, apareceu ensanguentado; e em Cales choveu greda, e sangue em Roma no Mercado de Gado; e que na aldeia Insteio uma fonte subterrânea jorrou com tal volume de água que a força da torrente entornou os jarros, grandes e pequenos, que estavam ali e os levou para longe; que o Átrio Público do Capitólio, o templo de Vulcano na Campua, aquele de Vacuna, e uma rua pública no país Sabino, a muralha e o portão de Gábios foram atingidos por raios. Outras maravilhas circulavam amplamente: que a lança de Marte em Palestrina moveu-se sozinha; que um boi na Sicília falou; que entre os marrucinos um bebê no útero de sua mãe gritou "Salve o Triunfo!"; que em Espoleto uma mulher tinha se transformado em homem; que em Ádria um altar foi visto no céu, e sobre ele as formas de homens em trajes brancos”.[Tito Lívio]. O ano chegou ao fim com alguma vantagem para o lado dos romanos. Um velho e experiente soldado, Torquato, havia debelado com sucesso um levante de inspiração cartaginesa na Sardenha; Cláudio Marcelo, operando de sua base na colina sobre Suéssula, havia desviado as tentativas de Aníbal em Nola, e a captura dos embaixadores de Filipe V da Macedônia pela frota romana no Adriático havia colocado os romanos em guarda contra qualquer ação imediata vinda da aliança entre Aníbal e Filipe. Por outro lado, a morte de Hierão, governante de Siracusa e fiel aliado de Roma, abria uma nova estrada na guerra, pois o reino fora deixado para seu neto, um jovem de quinze anos, que abriu comunicações com Aníbal e prometeu-lhe a ilha inteira em troca de sua assistência. Com o encerramento da estação das campanhas, Aníbal uma vez mais deslocou suas tropas pela costa leste da Itália e armou quartéis de inverno em Arpi, na Apúlia. Monte Tifato era um admirável acampamento de verão, mas inadequado para o inverno, e é provável que ele não desejasse impor seu exército aos habitantes de Cápua uma segunda vez. Cápua, cuja secessão de Roma parecera um triunfo, se mostraria uma pedra de moinho em volta do pescoço de Aníbal, pois sem sua ajuda a cidade não poderia se defender; o general púnico seria conclamado constantemente para auxiliá-la nos anos seguintes. Apesar do continuo brilhantismo de suas táticas, a estratégia completa ora adotada por Roma era superior, e aquele ano marcou claramente a data a partir da qual ele fora compelido a seguir um esquema defensivo. Isso dificilmente agradaria a seu gênio agressivo, embora ele viesse a demonstrar que, mesmo neste papel incompatível, era um mestre. É significativo que, embora os romanos continuassem a segui-lo onde e quando quer que seu exército se movesse, eles não o atacavam quando estava em marcha. Haviam já visto o suficiente de sua excepcional habilidade em desembaraçar-se de situações aparentemente insustentáveis. O conflito na bacia mediterrânea e terras circunvizinhas — coração da civilização ocidental — iria em breve abranger toda a região. No espaço de um ano desde o começo da guerra, a península Ibérica tinha se tornado um rinhadeiro disputado entre os dois antagonistas; a invasão da Itália por Aníbal trouxera Cartago e Roma a um conflito direto, pela primeira vez, em solo romano; a Sicília iria agora se tornar um teatro mais importante na guerra; e a aliança de Filipe V da Macedônia com Aníbal finalmente colocaria os Estados e reinos da Grécia dentro da esfera romana de influência. Nessa guerra, a guerra anibálica, os quatro cantos do Mediterrâneo, em maior ou menor grau, estariam todos envolvidos. O mundo semita e africano ao sul havia desafiado o mundo europeu ao norte — envolvendo o oeste, desde a península Ibérica até o vale do Ródano. Os desfiladeiros dos Alpes haviam sido tomados, e os gauleses da própria Gália e do norte da Itália haviam sido arrastados para dentro do conflito. Em breve, a Primeira Guerra Macedônica iria começar, pois Marco Valério cruzaria o Adriático e destruiria o exército que Filipe preparava para a invasão da Itália, queimando a frota macedônica. Por todo o Mediterrâneo, os estaleiros estariam permanentemente ocupados pelos próximos dez anos, enquanto, da Hispânia até a própria Cartago, Itália e Grécia, as potências visavam estabelecer seu domínio do mar — posição que não poderia ser negligenciada por qualquer adversário, especialmente em um teatro onde tudo dependia das comunicações marítimas e, em última instância, da supremacia naval. Pelo ano de 214 a.C., o Senado decretou que a frota romana deveria somar cento e cinquenta navios de guerra, com a deficiência de material humano na marinha compensada por meio de impostos aos ricos em proporção para a provisão de marinheiros e seu pagamento. Os marinheiros obtidos de acordo com esse edital subiram a bordo armados e equipados por seus chefes, e com rações preparadas para trinta dias. Era a primeira vez que uma frota romana era tripulada com equipes sustentadas por pagamento privado”. [Tito Lívio]. O efeito mais importante desses anos selvagens foi a lenta, porém sistemática, devastação de todo o sul da Itália. À medida que o território mudava de mãos, o novo conquistador — cartaginês ou romano — também o espoliava para alimentar suas tropas ou o devastava para negar sustento ao inimigo. Em 215 a.C., Quinto Fábio Máximo estabeleceu que todas as colheitas de grãos deveriam ser trazidas dos campos para dentro das cidades fortificadas mais próximas no começo de Junho. A recusa em fazê-lo acarretaria a penalidade de destruição da fazenda em questão e a venda forçada de todos os escravos do fazendeiro. No ano seguinte, Aníbal, enfurecido pela falta de resposta das cidades napolitanas à sua causa, devastou todas as terras ao redor delas e tomou o gado e os cavalos. No mesmo ano, Quinto Fábio Máximo destruiu as colheitas e fazendas do território dos irpinos e dos samnitas, como advertência àqueles que quisessem demonstrar amizade aos cartagineses. No decorrer do conflito, toda a face sul da Itália seria mudada, o fazendeiro camponês praticamente eliminado, e o caminho aberto para o longo futuro dos latifúndios — vastas propriedades pertencentes a donos de terra ausentes e trabalhadas por escravos. A força de Roma não residia apenas na estabilidade de suas associações políticas, mas também em seu poderio humano. Ela provou isso colocando em armas, pelo ano de 214 a.C., a melhor parte de seus duzentos e cinquenta mil homens — com a plena contribuição dos aliados. Aníbal, com suas diminutas forças que não deviam somar, numa estimativa deveras otimista, mais de cem mil soldados — a maioria deles gauleses, lucanianos ou brútios — era agora confrontado por não menos do que vinte legiões. É verdade que as
Hannibalszug - 5 (Serie, 6 folhas) de Alfred Rethel
tropas romanas achavam-se espalhadas por toda a península Itálica e Sicília, mas era um formidável esforço de guerra da parte de Roma que Cartago nunca conseguiria igualar. A fúria de Roma pela deserção de Cápua não conheceu limites: estava determinada a ameaçar essa "capital" do cartaginês e levar os capuenses, devidamente castigados, de volta para o curral da aliança no primeiro instante possível. Por um apelo dos capuenses, aterrorizados pela ameaça preparada para ser aplicada contra eles, Aníbal deslocou-se de Arpi, trouxe seu exército até a cidade, expulsou habilmente o cônsul Tibério Semprônio Graco em Lucéria e retornou para o seu quartel-general no platô de monte Tifato. Lívio escreve:
Então, deixando os númidas e espanhóis para defenderem o acampamento e Cápua ao mesmo tempo, desceu com o restante de seu exército para o lago de Averno, sob o pretexto de oferecer sacrifícios, mas tendo na realidade a intenção de atacar Putéolos e a guarnição que estava lá”. O estranho sobre essa afirmação de Lívio é que ele faz supor que Aníbal precisasse de algum pretexto para atacar Putéolos. Ele já havia atacado ou ameaçado muitas cidades da Itália — e não necessitava de desculpas para quaisquer de suas ações, que já tinham levado ao massacre de dezenas de milhares de homens. Por que, então, pode-se perguntar, essa visita a Averno? Averno era um dos mais sagrados locais da Itália. O lago, uma milha e meia ao norte de Baias, ficava próximo das importantes cidades e portos fundados pelos gregos, Nápoles e Cumas. Tinha mais de duzentos pés de profundidade, sendo formado pela cratera de um vulcão extinto. Como os lagos sagrados da América do Sul, onde havia sacrifícios humanos, o Lago Averno era escuro, profundo e, para os comuns, não apenas misterioso, mas impregnado de um muito especial numen.
Os numina eram na religião da Roma Antiga entidades ou forças sobrenaturais que existiam em espaços naturais ou que estavam ligadas a momentos da vida e às atividades humanas. O singular desta palavra é numen, cujo significado é "agir" ou "fazer um movimento". Para os Romanos espaços como grutas, montes, bosques ou fontes eram possuidores de uma espécie de poder abstrato.

Rodeado por altas margens, cobertas por uma densa, e lúgubre floresta consagrada a Hécate (deusa tríplice associada à lua, mas predominante uma deidade do mundo inferior), Averno era a entrada para aquele misterioso mundo das sombras através do qual tanto Ulisses quanto Eneias teriam passado. Vapores pestilentos subiam das águas, segundo a lenda, nenhum pássaro conseguia voar seguramente sobre o lago, donde vem seu nome, que em grego significava "sem pássaros". A exata entrada do mundo inferior era supostamente a caverna da profetisa de Cumas — a última das quais vendera Livros Sibilinos ao rei Tarquínio, o Soberbo, livros esses que Roma, agora, estava habituada a consultar em momentos da mais grave angústia. É muito provável que Aníbal tenha se encaminhado para tal lugar por razão semelhante; ele tinha muito sangue em suas mãos, e também desejava saber o que o futuro lhe reservava. Homens consultam oráculos quando são presas da dúvida e desejam obter alguma indicação divina acerca de qual direção tomar, ou uma confirmação de que o curso que seguem é o correto. Pela primeira vez desde que emergiu no palco da história, parece possível que Aníbal estivesse inseguro. Educado por um instrutor grego, devia estar familiarizado com Homero desde a infância, e sem dúvida havia algum ritual prescrito em um templo que fosse semelhante àquele adotado por Ulisses:
Com minha espada em punho
Eu cavei o poço votivo, e derramei
libações ao seu redor para os incontáveis mortos:
doce leite e mel, depois vinho doce, e por último
água limpa; e espalhei cevada.
Então eu me dirigi aos velados e desalentados mortos (…) [Ulisses].


Pareceu que o sacrifício de Aníbal, nas sombrias regiões do lago escuro, havia dado frutos quando um pequeno grupo de nobres de Tarento veio visitá-lo. Eles lhe disseram que representavam um partido da cidade favorável à causa cartaginesa e que, se ele levasse seu exército para o sul e ficasse à vista das muralhas de Tarento, não haveria demora para a sua rendição. Tarento não era somente o maior rico porto no extremo sul da Itália, mas também apresentava localização ideal para servir de centro de comunicações e base se os cartagineses pudessem trazer uma frota do Norte da África. Mais ainda, na eventualidade de Filipe V da Macedônia deslocar frota e exército através do Adriático para invadir a Itália, Tarento serviria como porto de desembarque e centro de abastecimento. Mas o momento ainda não era oportuno, e embora Aníbal se deslocasse tardiamente no ano — depois de ver o milho colhido e guardado dentro das muralhas de Cápua — os previdentes romanos tinham se antecipado. As muralhas foram equipadas contra ele, e uma vez mais Aníbal retirou-se para o inverno na costa adriática. O que quer que os sombrios deuses dos portões do Hades possam ter dito a Aníbal, é difícil que tenha sido algo confortador — se é que a verdade foi dita. Não somente deixaria de capturar Tarento naquele ano, mas também suas forças sofreriam o primeiro, e único, golpe desastroso jamais recebido em solo italiano. Aníbal enviara ordens para Hanão, com os reforços cartagineses e o exército recém-recrutado de Brutium (atual Calábria)], para marcharem rumo ao norte e se juntaram a ele na Campânia. Com seu exército aumentado, sem dúvida pretendia novamente mediar forças com Nápoles ou Cumas: a falta de um eficiente porto marítimo atalhava toda a sua campanha. Quinto Fábio Máximo, contudo, ordenara que Tibério Semprônio Graco avançasse de sua posição em Lucéria para Benevento e que seu filho tomasse Lucéria em seu lugar. Hanão, que marchava ao norte de Benevento, foi surpreendido pela chegada de Graco e uma batalha extraordinária foi travada, na qual o general de Aníbal sofreu dura derrota. Embora as legiões romanas fossem, em grande parte, compostas de escravos (com a promessa de liberdade se lutassem bem), eram superiores aos até então destreinados recrutas brútios de Hanão, um pequeno grupo de homens de infantaria cartagineses e cavaleiros númidas. O próprio Hanão escapou, mas o exército de reforço com o qual Aníbal contava foi destruído. A vitória de Graco iria dar novo ânimo aos romanos e os levaria a sitiar e finalmente retomar
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Casilino. Subsequentemente, um número de pequenas cidades no Sâmnio e na
Lucânia Basilicata foi atacado e capturado por Fábio, Marcelo e Graco: elas pagaram por sua deserção a Roma com muitas vidas e com severo confisco de propriedades. Aníbal poderia comandar o respeito, a confiança e a admiração das heterogêneas tropas que o seguiram através dos anos, mas não lhe seria possível comandar o dedicado apoio da confederação latina a Roma. A austera vontade e disciplina de Roma foram demonstradas pelo fato de que, embora Graco tivesse derrotado decisivamente a Hanão, achou-se que nem todos os legionários haviam lutado tão bem quanto deveriam. Pelo resto daquele ano ordenou-se que eles fizessem suas refeições noturnas em pé. "Suave Tarento" e "pacífico" era como o poeta Horácio descreveria o porto sulino anos mais tarde nos dias do imperador Augusto. Certamente essa cidade, que em seu apogeu grego havia sido a mais próspera em toda a Magna Grécia, não estava apta a oferecer uma resistência forte contra um ataque determinado. Aqui, na ponta do golfo de Tarento, o indolente mar Jônio e o predominante vento sul não criaram uma raça vigorosa. Em 281, quando os tarentinos haviam resistido ao poder de Roma, eles o tinham feito tão-somente com a ajuda de Pirro, rei do Épiro, cujas atividades em solo italiano haviam dado aos romanos uma remota prelibação do que eles iriam enfrentar nas mãos de Aníbal. Situada em terra baixa e plana, Tarento era um porto de natureza incomum. A bacia principal era larga e protegida do mar por duas ilhotas, mas havia também uma pequena bacia cercada de terras — o Pequeno Mar — que seguia para dentro da terra com uma entrada estreita. Perto da garganta dessa bacia ficava uma pequena elevação, não mais do que setenta pés acima da cidade vizinha, mas suficientemente forte para ter se transformado na cidadela de Tarento. O Pequeno Mar protegia um lado da cidade, o Mediterrâneo o outro, e o terceiro lado, em direção à terra, era fortemente murado e fortificado. Este não era o tipo de lugar que Aníbal sonharia enfrentar sob circunstâncias normais. Os tarentinos, contudo, ao contrário de seus companheiros gregos de Nápoles e Cumas, eram considerados suspeitos pelos romanos, provavelmente em vista de sua conduta anterior, por serem aliados não confiáveis. Por essa razão, tinham sido forçados a enviar reféns a Roma como garantia de seu bom comportamento. Alguns destes foram tolos o bastante para tentarem escapar para sua cidade e, recapturados pelos romanos, foram mortos com grande crueldade — algo que tornou o partido anti-romano em Tarento ainda mais hostil. Eles chegaram à conclusão de que se dariam melhor com o cartaginês, cuja generosidade com outras cidades e aldeias tais como Cápua era bem conhecida a esta altura. Com a abertura da temporada de campanha em 213 a.C., Tarento começou a parecer ainda mais desejável para Aníbal, pois tivera o infortúnio de perder o importante centro de comunicações de Arpi para o cônsul Quinto Fábio Máximo e — um raro golpe em seu ânimo — algumas das guarnições espanholas tinham desertado frente aos romanos. Informado de que havia um partido pró-cartaginês dentro de Tarento, Aníbal moveu-se para o sul mas permaneceu bem distante da cidade. Nessa posição, ameaçava potencialmente não apenas Tarento como também Brundísio (Brindisi), os dois mais importantes portos no sul da Itália e os únicos, com exceção do Régio no estreito de Messina, que ainda permaneciam em mãos romanas. Sabendo da chegada do grande cartaginês, treze jovens nobres tarentinos, liderados por um certo Filêmeno, deixaram a cidade fortificada, cujos portões certamente eram fechados à noite, e encaminharam-se para o acampamento de Aníbal sob o pretexto de estarem numa expedição de caça. Capturados pelas sentinelas nas proximidades do acampamento cartaginês, Filêmeno expôs seu parecer, e o início de um conluio para a traição de Tarento foi tramado. Para fazerem sua ausência parecer plausível após o seu retorno, Aníbal permitiu aos jovens levarem com eles algum gado, que diriam terem encontrado extraviados, arrebanhando-os. O mesmo pretexto foi utilizado em várias outras ocasiões. Sendo Filêmeno bem conhecido como exímio caçador, seu retorno com gado ou caça — alguns dos quais ele tinha o cuidado de dar às sentinelas romanas — era aceito como algo perfeitamente normal. Aníbal, que se fingira doente como desculpa para sua atividade incomum e, assim permanecia em sua tenda, aguardou até que todos os preparativos para a tomada de Tarento tivessem sido concluídos. Ele havia prometido a Filêmeno e seus companheiros conspiradores que os cartagineses nem guarneceriam a cidade nem pediriam qualquer tributo de seus habitantes. Seu exército seria proibido de praticar pilhagens, com a acertada exceção daquelas casas que fossem apontadas a Aníbal como pertencentes a cidadãos romanos ou pró-romanos. Uma vez que a rotina de caça noturna de Filêmeno tornara-se tão constante que as sentinelas romanas não suspeitavam de nada, e prontamente abriam os portões quando ouviam seu assobio de retorno, o momento mostrava-se perfeito para Aníbal agir. Levando dez mil homens de infantaria e alguns cavaleiros com ele, e enviando oitenta cavaleiros númidas para avançarem como escolta, ele deixou o corpo principal de seu exército e moveu-se a uma distância de cerca de quinze milhas de Tarento. Os númidas receberam ordens de matar qualquer pessoa que encontrassem, para que ninguém soubesse do avanço das tropas de Aníbal. Ao mesmo tempo, fariam incursões fortuitas pela zona campestre, para assim confirmarem a crença dos romanos de que não passavam de um grupo de forrageadores, e não anunciariam o avanço de um exército. Lívio reconta os eventos daquela noite: O guia de Aníbal era Filêmeno, com sua usual carga de caça. O resto dos traidores esperava como previamente arranjado. Assim que ele se aproximou do portão, um sinal de fogo foi dado por Aníbal, como tinha sido combinado, e vindo de Nícon outro líder conspirador dentro da cidade o mesmo sinal resplandeceu; então, de ambos os lados, as chamas foram extintas. Aníbal guiou silenciosamente seus homens até o portão. Nícon e seus homens atacaram as sentinelas que dormiam em suas camas, mataram-nas e abriram os portões - a principal entrada de Teminits. Aníbal e sua coluna de infantaria entraram. Enquanto isso, do outro lado da cidade, Filêmeno se aproximava do portão de trás, pelo qual habitualmente ia e vinha. Sua voz bem conhecida e o já familiar sinal acordaram a sentinela; Filêmeno lhe disse que haviam trazido um varrão tão grande que mal podiam carregá-lo. Enquanto dois jovens carregavam o varrão, ele próprio seguiu com um caçador que não trazia carga. No momento em que a sentinela se maravilhava com o tamanho do animal e olhava na direção dos homens que o carregavam, Filêmeno o transpassou com uma lança de caça. Então, cerca de trinta homens armados investiram e, abatendo o restante das sentinelas, abriram o portão adjacente. A coluna cartaginesa surgiu e encaminhou-se silenciosamente para o foro, onde Aníbal foi se juntar a eles. Ele, então, despachou dois mil gauleses, divididos em três unidades, pela cidade, cada grupo acompanhado por dois tarentinos que aluavam como guias. Aníbal ordenou que ocupassem as ruas principais e, quando o tumulto começasse, que matassem os romanos sem exceção, poupando porém os cidadãos de Tarento. Foi dito aos guias que avisassem a todos de seu próprio povo que se mantivessem quietos e não temessem nada”. [Tito Lívio]. Ainda assim houve grande tumulto mas ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. Os tarentinos achavam que os romanos estavam saqueando a cidade, enquanto os romanos acreditavam estar às voltas com algum tipo de levante traiçoeiro iniciado pelo povo da cidade. Seu comandante, despertado logo ao começou do tumulto, fugiu para o ancoradouro, onde foi recolhido por um esquife e navegou rápido para a cidadela. Mais confusão foi causada pelo som de uma trombeta vindo do teatro. Era uma trombeta romana roubada pelos traidores justamente para esse propósito; sendo tocada de modo errado por um grego, ninguém poderia dizer que sinal estava sendo dado, e para quem. Quando rompeu o dia, as armas púnicas e gaulesas foram reconhecidas, o que acabou com a incerteza dos romanos, e ao mesmo tempo os gregos, vendo romanos mortos por toda parte, perceberam que a cidade havia sido capturada por Aníbal. Os romanos que não tinham sido massacrados fugiram para a cidadela e, à medida que a ordem era gradualmente restaurada, Aníbal ordenou a todos os cidadãos, exceto àqueles que haviam seguido os romanos em sua fuga para a cidadela, que se reunissem sem armas. Então, falou-lhes com palavras amistosas, relembrando como libertara os seus concidadãos capturados em Trasimeno ou Canas. Ele invetivou contra o arrogante jugo dos romanos, depois ordenou que...

Continuação:
Biografia do General Anibal-parte-1
Biografia do General Anibal-parte-3 
Biografia do General Anibal-parte-4 
Biografia do General Anibal-parte-5 
Biografia do General Anibal-parte-6 



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