domingo, 4 de agosto de 2013

Biografia de Søren Kierkegaard


Søren Kierkegaard
Søren Aabye Kierkegaard. Filósofo e teólogo dinamarquês. Geralmente é considerado como o Pai do Existencialismo. Ele sustentava a idéia de que o indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida e em vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar da existência de muitos obstáculos e distrações como o desespero, ansiedade, o absurdo, a alienação e o tédio. Nasceu em Copenhague, a 5 de Maio de 1813, e, faleceu nesta mesma cidade a 11 de Novembro de 1855. Kierkegaard criticava fortemente quer o hegelianismo do seu tempo quer o que ele via como as formalidades vazias da Igreja da Dinamarca. Grande parte da sua obra versa sobre as questões de como cada pessoa deve viver, focando sobre a prioridade da realidade humana concreta em relação ao pensamento abstrato, dando ênfase à importância da escolha e compromisso pessoal. A sua obra teológica incide sobre a ética cristã e as instituições da Igreja. A sua obra na vertente psicológica explora as emoções e sentimentos dos indivíduos quando confrontados com as escolhas que a vida oferece. Como parte do seu método filosófico, inspirado por Sócrates e pelos diálogos socráticos, a obra inicial de Kierkegaard foi escrita sob vários pseudônimos que apresentam cada um deles os seus pontos de vista distintivos e que interagem uns com os outros em complexos diálogos. Ele atribui pseudônimos para explorar pontos de vista particulares em profundidade, que em alguns casos chegam a ocupar vários livros, e Kierkegaard, ou outro pseudônimo, critica essas posições. A tarefa da descoberta do significado das suas obras é pois deixada ao leitor, porque "a tarefa deve ser tornada difícil, visto que apenas a dificuldade inspira os nobres de espírito". Subseqüentemente, os acadêmicos têm interpretado Kierkegaard de maneiras variadas, entre outras como existencialista, neo-ortodoxo, pós-modernista, humanista e individualista. Cruzando as fronteiras da filosofia, teologia, psicologia e literatura, tornou-se uma figura de grande influência para o pensamento contemporâneo. Está sepultado no Cemitério Assistens.

Introdução

Estátua de Kierkegaard em Copenhague
Filosoficamente, fez a ponte entre a filosofia hegeliana e aquilo que se tornaria no existencialismo. Kierkegaard rejeitou a filosofia hegeliana do seu tempo e aquilo que ele viu como o formalismo vácuo da igreja luterana dinamarquesa. Muitas das suas obras lidam com problemas religiosos tais como a natureza da fé, a instituição da fé cristã, e ética cristã e teologia. Por causa disto, a obra de Kierkegaard é, algumas vezes, caracterizada como existencialismo cristão, em oposição ao existencialismo de Jean-Paul Sartre ou ao proto-existencialismo de Friedrich Nietzsche, ambos derivados de uma forte base ateística. A obra de Kierkegaard é de difícil interpretação, uma vez que ele escreveu a maioria das suas obras sob vários pseudônimos, e muitas vezes esses pseudo-autores comentam os trabalhos de pseudo-autores anteriores. Kierkegaard é um dos poucos autores cuja vida exerceu profunda influência no desenvolvimento da obra. As inquietações e angústias que o acompanharam estão expressas em seus textos, incluindo a relação de angústia e sofrimento que ele manteve com o cristianismo — herança de um pai extremamente religioso, que cultivava de maneira exacerbada os rígidos princípios do protestantismo dinamarquês, religião de Estado.

Vida

Anos iniciais (1813–1836)


Kierkegaard na casa de café. Esboço em óleo por Christian Olavius ​​Zeuthen (1812-1890), 1843.
Søren Kierkegaard nasceu numa família rica de Copenhagen. A sua mãe, Ane Sørensdatter Lund Kierkegaard, tinha servido como criada na casa da família antes de se casar com o pai, Michael Pedersen Kierkegaard. Ela era uma figura modesta, serena, simples e não formalmente educada. Ela não é referida diretamente nos livros de Kierkegaard, apesar de ter afetado os seus escritos mais tardios. O seu pai era homem melancólico, ansioso, altamente devoto e muito inteligente, que lia a filosofia de Christian Wolff. Com base numa interpretação, biográfica de passagens incluídas em diários não publicados, especialmente um rascunho de uma história denominada "o grande terremoto", que refere, em 19 de Maio de 1838, uma experiência espiritual, alguns primeiros acadêmicos que se debruçaram sobre Kierkeggard argumentaram que Michael acreditava ter recebido a ira de Deus e que nenhum dos seus filhos iria sobreviver mais que ele próprio. Pensa-se que acreditava que os seus pecados pessoais, como amaldiçoar o nome de Deus

manuscrito de Philosophical Fragments.
durante a sua juventude ou ter engravidado a mãe de Kierkegaard antes do casamento, eram merecedores do castigo que Deus lhe tinha dado. Apesar de cinco dos seus sete filhos terem morrido durante a sua vida, Søren e o seu irmão Peter Christian Kierkegaard, presenciaram a morte do pai. Peter, sete anos mais velho que Søren, mais tarde viria a tornar-se bispo na cidade de Aalborg. Esta introdução inicial à noção de pecado e as suas relações com pai e filho, são referidas por biógrafos iniciais como tendo criado os alicerces de muita da obra de Kierkegaard. Não obstante a ocasional melancolia religiosa do seu pai, Kierkegaard e o pai partilhavam uma relação próxima. É referido que Kierkegaard teria aprendido a

manuscrito de The Sickness Unto Death, 1849.
explorar o reino da sua imaginação através de uma série de exercícios e jogos que ambos praticavam juntos, apesar de este particular aspecto da sua relação apenas ter sido descrito por um dos seus pseudônimos, num rascunho de um livro publicado após sua morte, intitulado Johannes Climacus, or de omnibus dubitandum est. Kierkegaard freqüentou a Escola de Virtude Cívica, onde estudou latim e história, entre outras temáticas. Em 1830, foi estudar teologia para a Universidade de Copenhague, mas enquanto estudava derivou a sua atenção mais para a filosofia e literatura. A mãe de Kierkegaard morreu no dia 31 de Julho de 1834, com 66 anos de idade. Uma das primeiras descrições físicas de Kierkegaard provém de Hans Brøchner, convidado para a festa de casamento do irmão Peter, em 1836: "A sua aparência pareceu-me quase cômica. Ele tinha então 23 anos de idade; tinha algo de muito irregular na sua forma e um estranho penteado. O seu cabelo elevava-se quase seis polegadas acima da testa numa crista desgrenhada, dando-lhe uma aparência estranha e desnorteada".


Regine Olsen e graduação (1837–1841)

Um importante aspecto da vida de Kierkegaard, geralmente considerado como uma grande influência no seu trabalho, foi o rompimento do seu noivado com Regine Olsen (1822–1904). Kiekegaard e Olsen conheceram-se a 8 de Maio de 1837, mostrando logo uma atração mútua. Nos seus diários, Kierkegaard escreveu sobre o seu amor para com ela: Vós, soberana do meu coração, guardada na profundeza secreta do meu peito, na plenitude do meu pensamento, ali [...] divindade desconhecida! Ó, posso eu realmente acreditar nas palavras dos poetas, que quando se vê pela primeira vez o objecto do seu amor, imagina já tê-la visto há muito tempo, que todo o amor assim como todo o conhecimento é lembrança, que o amor tem também as suas profecias dentro do indivíduo. Kierkegaard. O pai de Kiekegaard faleceu a 9 de Agosto de 1838, com 82 anos de idade. Antes da sua morte, teria dito a Søren para terminar os seus estudos em teologia. Søren era profundamente influenciado pela experiência religiosa de seu pai e queria cumprir o seu desejo. A 11 de Agosto de 1838, Kiekegaard escreveu: O meu pai faleceu na quarta-feira. Tinha muito desejado que ele tivesse vivido mais alguns anos, e vejo a sua morte como um último sacrifício que fez pelo seu amor para comigo; [...] morreu por mim de maneira a que, se possível, eu me pudesse tornar em qualquer coisa. De tudo o que herdei dele, as minhas lembranças dele, a sua figura transfigurada [...] é a mais querida para mim, e eu serei cuidadoso para preservar [a sua memória] escondida do mundo. Kierkegaard. Em 8 de Setembro de 1840, Kiekegaard formalizou o pedido de noivado a Olsen. No entanto, Kierkegaard logo se sentiu desiludido com as perspectivas de se casar. Quebrou o noivado a 11 de Agosto de 1841, apesar de se acreditar que havia um amor profundo entre eles. Nos seus Diários, Kierkegaard menciona a sua crença que a sua "melancolia" o tornava impróprio para o casamento, mas o motivo exato para o rompimento do noivado permanece pouco claro. Ainda em 1841, Kiekegaard escreveu e defendeu a sua dissertação O Conceito de Ironia, com Referência Continua a Sócrates, que foi considerada pelo painel universitário como um trabalho digno de registo e bem estruturado, mas demasiado informal para uma tese acadêmica séria. Kierkegaard graduou-se na universidade a 20 de Outubro de 1841 com um Magister Artium, que nos nossos dias designaria um Philosophiæ Doctor (Ph.D.). Com a herança da sua família, no valor de 31 mil rigsdaler (moeda dinamarquesa na altura), Kierkegaard pôde custear a sua educação, a sua vida e várias publicações das suas primeiras obras.

Primeira fase como autor e o caso Corsair (1841–46)

Enten - eller
Apesar de Kierkegaard, na sua juventude e nos tempos universitários, ter escrito vários artigos sobre política, a mulher, e entretenimento, muitos acadêmicos, como Alastair Hannay e Edward Mooney, acreditam que a sua primeira obra digna de nota é a sua tese universitária O Conceito de Ironia, com Referência Continua a Sócrates, apresentado em 1841, ou a obra prima e presumivelmente maior trabalho, Enten - Eller, publicado em 1843. Ambas as obras, que focaram grandes figuras do pensamento ocidental, Sócrates na primeira e menos diretamente Hegel e Friedrich von Schlegel na segunda, mostraram o estilo de escrita único de Kierkegaard. Enten - Eller foi escrito quase na sua totalidade durante a estadia de Kierkegaard em Berlim, tendo sido completado no Outono de 1842. Kierkegaard terminou Enten - Eller com as palavras "...apenas a verdade que é construída é verdade para ti". Enten - Eller foi publicado a 20 de Fevereiro de 1843. Posteriormente foram publicados Dois Discursos Edificantes (1843) e Três Discursos Edificantes

Túmulo de Søren Kierkegaard, Assistenskirkegården.
(1843). Estes discursos foram publicados sob seu próprio nome em vez de um pseudônimo. Kierkegaard continuou a publicar discursos, escritos sob um ponto de vista cristão, até ter completado a obra O Conceito de Angústia. Os discursos foram discutidos em relação a Enten - Eller na obra Ponto de Vista Explicativo da Minha Obra de Escritor e nas entradas do seu Diário. No mesmo ano em que Enten - Eller foi publicado, Kiekegaard soube que Regine Olsen se encontrava para se casar com Johan Frederik Schlegel (1817–1896), um funcionário público. Esse fato afetou Kierkegaard e os seus escritos subseqüentes de modo profundo. Em Temor e Tremor, um discurso sobre a natureza da fé publicado no fim de 1843, pode ser interpretada uma passagem da obra como dizendo "Kierkegaard espera que através de um ato divino, Regine possa voltar para si". Em A Repetição, publicado no mesmo dia que Temor e Tremor, é uma exploração do amor, da experiência religiosa e da linguagem, refletida numa série de histórias sobre um jovem que deixa a sua amada. Várias outras obras neste período fazem insinuações sobre a relação entre Kierkegaard e Olsen. Após ter completado A Repetição ele escreveu Quatro Discursos Edificantes (1843), Dois Discursos Edificantes (1844) e Três Discursos Edificantes (1844).

Interpretações

Por Ernest Gellner
Ernest Gellner
Ernest Gellner menciona no seu livro de 1992, Pós-Modernismo, Razão e Religião, Kierkegaard para ilustrar o fundamentalismo religioso. Segundo Gellner, Kierkegaard está associado à idéia de que a religião é, no seu fundamental, não uma persuasão da verdade de uma doutrina, mas sim a dedicação a uma posição que é inerentemente absurda, ou que dá "ofensa", o termo usado por Kierkegaard. Para Kierkegaard, nós obtemos a nossa identidade ao acreditar em algo que ofenda profundamente a nossa mente, o que não é uma tarefa fácil. Para existir, teríamos de acreditar e acreditar em algo que seja ominosamente difícil de acreditar. Esta é a essência do processo existencialista em Kierkegaard, que associa a fé com a identidade.

Por Theodor Adorno
Theodor Adorno
A tese doutoral de Theodor Adorno fala sobre Kierkegaard com a temática A Construção do Estético.











Obras selecionadas

  • Capa de Migalhas Filosóficas (1844), escrito sob o pseudônimo Johannes Clímacus
    (1840) O Conceito de Ironia constantemente Referido a Sócrates
  • (1843) Enten - Eller (Ou isso, ou aquilo: um fragmento de vida) . inclui Diário de um Sedutor
  • (1843) Dois Discursos Edificantes (1843)
  • (1843) Temor e Tremor
  • (1843) Três Discursos Edificantes (1843)
  • (1843) A Repetição
  • (1843) Quatro Discursos Edificantes (1843)
  • (1844) Dois Discursos Edificantes (1844)
  • (1844) Três Discursos Edificantes (1844)
  • (1844) Migalhas Filosóficas
  • (1844) O Conceito de Angústia
  • (1844) Quatro Discursos Edificantes (1844)
  • (1845) Estádios no Caminho da Vida
  • (1846) Post Scriptum Final Não-Científico às Migalhas Filosóficas
  • (1847) Discursos Edificantes em Diversos Espíritos
  • (1847) As Obras do Amor
  • (1848) Discursos Cristãos
  • (1848, publicado em 1859) Ponto de Vista Explicativo da minha Obra como Escritor
  • (1849) O Desespero Humano
  • (1849) Três Discursos para a Comunhão de Sexta-feira
  • (1850) Prática do Cristianismo


Citações
  • "Sem pecado, nada de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História".
- men uden Synden ingen Sexualitet og uden Sexualitet ingen Historie
- "Fire Opbyggelige Taler" [Quatro Discursos Construídos] in: "Søren Kierkegaards samlede værker; udgivne af A.B. Drachmann, J.L. Heiberg og H.O. Lange" - Página 319; de Søren Kierkegaard - Publicado por Gyldendalske boghandels forlag (F. Hegel & søn), 1843; 430 páginas.
  • "É verdade quando a filosofia diz que a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás. No entanto, esqueceram de outra frase: que ela só pode ser vivida olhando-se para a frente".
- Es ist wahr, was die Philosophie sagt, dass das Leben rückwärts verstanden werden muss. Aber darüber vergisst man den andern Satz, dass vorwärts gelebt werden muß.
- Die Tagebücher 1834-1855.
  • "Não há nada em que paire tanta sedução e maldição como um segredo".
- Der er intet andet, der hviler så megen forførelse og så megen forbandelse over som en hemmelighed
- "Enten – Eller. Første del" (1843) texto completo online
  • "Acima de tudo, não se esqueça da obrigação de amar a si mesmo".
- Carta a Hans Peter, primo de Kierkegaard (1848).
  • "A maioria dos homens persegue o prazer com tanta impetuosidade que passa por ele sem vê-lo".
- Most men pursue pleasure with such breathless haste that they hurry past it.
- Parables of Kierkegaard, Princeton paperbacks - página 27, Soren Kierkegaard, editor Thomas C. Oden, Princeton University Press, 1989, ISBN 0691020531, 9780691020532, 216 páginas
  • "Ficar em pé e provar a existência de Deus é bem diferente de ficar de joelhos e agradecê-Lo".
- for to stand on one leg and prove God's existence is a very different thing from going on one's knees and thanking him
- The Journals Of Kierkegaard (1841).
  • "(...) se é uma vantagem, por exemplo, poder-se ser o que se deseja, maior ainda é sê-lo, ou seja, a passagem do possível ao real é um progresso, uma ascensão".
- "O Desespero Humano" (Sygdommen til Döden) - 1849. Tradução: Fransmar Costa Lima.

Atribuídas

  • "Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo".
- citado em "Crítica, uma ciência da literatura‎" - Página 145, Wendel Santos - UFG Editora, 1983, ISBN 8585003138, 9788585003135 - 188 páginas.
  • "Enganar-se a respeito da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade".
- At bedrage sig selv for kærlighed er det forfærdeligste, er et evigt tab, for hvilket der ingen erstatning er, hverken i tid eller evighed
- citado em "Gud er kærlighed: betragtninger over grundtankerne i Søren Kierkegaards "Kjerlighedens gjerninger"‎" - Página 24, H. J. Falk - Aros, 1986, ISBN 8770034869, 9788770034869 - 71 páginas.
Referências

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