quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Biografia de Anton van Leeuwenhoek


Anton van Leeuwenhoek
Anton van Leeuwenhoek. Nasceu em Delft, a 24 de Outubro de 1632, e, faleceu também em Delft, a 26 de Agosto de 1723. Leeuwenhoek foi um comerciante de tecidos, cientista e construtor de microscópios holandês. Anton van Leeuwenhoek é conhecido pelas suas contribuições para o melhoramento do microscópio, além de ter contribuído com as suas observações para a biologia celular (descreveu a estrutura celular dos vegetais, chamando as células de "glóbulos"). Desde 1674 ele fez muitas descobertas que foram conhecidas por sua correspondência com a Royal Society, em Londres. Utilizando um microscópio feito por si mesmo (possuía a maior coleção de lentes do mundo, cerca de 250 microscópios), foi o primeiro a observar e descrever fibras musculares, bactérias, protozoários e o fluxo de sangue nos capilares sanguíneos de peixes. O microscópio utilizado por Leeuwenhoek para as suas descobertas era constituído por uma lente biconvexa que tinha a capacidade de aumentar a imagem cerca de 200 vezes. A ele é atribuída a descoberta dos micro-organismos.

Biografia

Vista de Delft, de Johannes Vermeer (1660-1661). Van Leeuwenhoek passou toda sua vida na cidade de Delft.
Leeuwenhoek era filho de um casal comerciantes de cestas menonitas, Philips Teunisz Leeuwenhoek e Margriete Jacobsdr van den Berch, casados nessa mesma cidade em 30 de Janeiro de 1622, e viviam em uma rica casa da rua Leeuwenpoort. Antes de completar seis anos de idade, duas de suas irmãs mais novas e seu pai haviam falecido, e sua mãe se casou novamente em 1640; van Leeuwenhoek foi enviado para um internato no povoado de Warmond, perto de Leiden e pouco despis foi morar com um tio em Benthuizen, um povoado situado a nordeste de Delft. Aos dezesseis anos de idade, seu padrasto faleceu e, sua mãe o enviou para Amsterdã como aprendiz no tratamento de tecidos e, após o seu aprendizado, trabalhou como contador e caixa na casa de seu professor. Em 1653, van Leeuwenhoek viu o primeiro microscópio simples, uma lupa montada em um pequena banca que era usada pelos comerciantes têxteis, com capacidade de ampliação de três aumentos e que ele adquiriu para seu próprio uso. Em 1654, ele regressou para Delft, onde viveu o resto de sua vida, e montou seu próprio comércio de tecidos e armarinhos, de cuja atividade comercial transcendeu muito pouco. Em 11 de Julho se casou com Berber (Bárbara) de Mey, filha de um comerciante de tecidos. Quatro de seus cinco filhos morreram jovens. Em 1660 obteve o cargo de camareiro do Lord Regente de Delft. Em 1669, se tornou um agrimensor e à partir de 1679
Lápide de Leeuwenhoek. (imagem: Maarten Jansen).
desempenhou o cargo de inspetor e controlador de vinhos; o que indica que alcançou uma posição social próspera. Acredita-se que ele abandonou seu negócio de tecidos pouco depois de 1660, porque em suas correspondências não se menciona isso, e, aparentemente, os seus encargos municipais lhe permitiam dedicar um tempo considerável para a microscopia. Em 1666 sua esposa faleceu, e, em 1671, ele se casou em segundas núpcias com Cornelia Swalmius; que também veio a falecer em 1694, deixando-o a cargo de Maria, a única sobrevivente de seus cinco filhos. Suas finanças estavam sanadas. Uma indicação da sua fortuna é a herança que ele deixou para sua filha Maria após a sua morte em 1745, e, que representa 90.000 guinéus (guinea: foi a primeira moeda de ouro britânica feita à máquina), uma soma considerável para aquela época. No entanto, alguns autores indicam que van Leeuwenhoek “ocupou um modesto emprego municipal até a sua morte”. O poeta Constantijn Huygens (1596-1687) escreveu: "Pode-se ver como o bom Leeuwenhoek não se cansava de remexer por todas as partes até onde seu microscópio alcançava, e se boa parte de muitos outros sábios estudiosos tivessem dedicado o mesmo esforço, o descobrimento de belas coisas teriam ido muito mais longe". Apesar de observações como esta despertarem a admiração dos cientistas contemporâneos, posteriormente foi criticado pela falta de preparação científica acadêmica, além do seu desconhecimento das línguas estrangeiras. No entanto, esta carência de conhecimentos científicos lhe permitiu realizar suas observações à partir de uma nova perspectiva, livre dos preconceitos dos anatomistas de sua época. Deixou uma imensa obra apenas constituída de cartas (algumas publicadas em Philosophical Transactions of the Royal Society), mais de 300, totalmente escritas em holandês e a maioria enviadas para a Royal Society. Em uma carta dirigida à Henry Oldenburg, datada de 30 de Outubro de 1676, ele escreve que espera receber de seus correspondentes
Oude Kerk, igreja em que repousa o restos mortais de Leeuwenhoek. (imagem: Ferditje).
as objeções às suas observações, e que se compromete a corrigir seus erros. Por outro lado, ele também responde aos primeiros sinais de ceticismo que marcam o início de suas observações por uma evidente confiança em si mesmo. Suas observações foram o suficientemente famosas como para receber a numerosos visitantes à altura da rainha Maria II de Inglaterra (1662-1694), Pedro I da Rússia, o Grande (1672-1725) ou Frederico I da Prússia (1657-1713), além de filósofos e sábios, médicos e eclesiásticos. Van Leeuwenhoek realizou para eles numerosas demonstrações: ele mostrou a Pedro, o Grande, a circulação sanguínea na cauda de uma enguia. Faleceu em 26 de Agosto de 1723 em Delft, com a idade de 90 anos. Em 31 de Agosto foi enterrado na igreja Oude Kerk da cidade. Durante sua vida fabricou mais de 500 lentes. Seu desenvolvimento do microscópio foi utilizado e melhorado por Christiaan Huygens para a sua própria investigação sobre microscopia. Ele também se destacou pela influência que exerceu sobre a Monadologia de Gottfried Wilhelm Leibniz.


Suas observações microscópicas: abre um novo campo de conhecimento


Ao desenvolver seu trabalho como comerciante de tecidos, construiu para a observação da qualidade dos tecidos, lupas de melhor qualidade do que as que se podiam conseguir nesse momento, depois de aprender por conta própria a soprar e polir vidro. Desenvolveu fixações para pequenas lentes biconvexas montadas sobre placas de latão, que se apoiavam muito próximo do olho, tal como os óculos atuais, como estruturas do tipo microscópio na que se podiam fixar tanto a lente como o objeto a ser observado. Através delas, ele podia observar objetos colocados sobre a cabeça de um alfinete, ampliando-os até trezentas vezes (potência visual que excedia em muito a dos primeiros microscópios de lentes múltiplas). O médico e anatomista holandês Regnier de Graaf (1641-1673) foi quem apresentou as primeiras observações de van Leeuwenhoek para a Royal Society em 1673. Nelas, ele descreve a estrutura do mofo [bolor] e do ferrão da abelha. Começa assim uma intensa troca de cartas entre van Leeuwenhoek e os membros da sociedade científica londrinense, correspondência que prosseguiria durante quase 40 anos, até sua morte em 1723. A Royal Society o admitiu como membro em 1680, e a Academia de Ciências de Paris o admitiu como membro correspondente em 1699. Realizou suas observações utilizando microscópios simples que ele mesmo construiu. Ao morrer, legou 26 microscópios para a
Desenho dos microscópios de van Leeuwenhoek realizado por Henry Baker.
Royal Society que nunca foram utilizados e que, um século mais tarde, se haviam perdidos. Em 29 de Maio de 1747, dois anos depois da morte de sua filha Maria, vendeu-se um lote de mais de 350 de seus microscópios, assim como 419 lentes. Duzentos e quarenta e sete microscópios estavam completos, muitos ainda mantêm conservado a última espécime observada. Dois destes instrumentos tinham duas lentes e um contava com três. Seus melhores aparatos conseguiam mais de 200 aumentos. Ele não deixou nenhuma indicação sobre seus métodos de fabricação das lentes, e tivemos que esperar varias décadas para dispor de novos aparatos tão potentes. Não se sabe como iluminava os objetos observados assim como sua potência. O mais potente de seus instrumentos mantidos nos dias de hoje tem uma taxa de ampliação de 275 vezes e um poder de resolução de 1,4 mícrons. Embora tenha dado muitos de seus microscópios para seus amigos, nunca vendeu nenhum. Estima-se que apenas uma dezena dos microscópios que construiu se conservam na atualidade. Van Leeuwenhoek manteve durante toda a sua vida que havia aspectos da construção de seus microscópios que “guardava para si mesmo”, em particular o seu segredo mais importante, a forma como ele criava as lentes. Durante muitos anos, ninguém foi capaz de reconstruir suas técnicas de desenho. Finalmente, nos anos de 1950 C. L. Stong usou um fio delgado de cristal fundido ao invés de polonês, e criou com êxito algumas amostras funcionais de um microscópio do desenho de van Leeuwenhoek.


A descoberta dos protozoários


Animáculos observados por Leeuwenhoek.
Leeuwenhoek, provavelmente, foi a primeira pessoa a observar bactérias e outros micro-organismos. Em uma carta datada de 7 de Setembro de 1674, cita pela primeira vez as minúsculas formas de vida que observou nas águas de um lago próximo de Delft. Depois de haver mencionado novamente estas criaturas em duas cartas, uma de 20 de Dezembro de 1675 e outra de 22 de Janeiro de 1676, em uma extensa carta de dezessete folhas, datada de 9 de Outubro de 1676, descreve o que atualmente denominamos de protozoários, especialmente os ciliados que se alimentam de algas (Euglena e Volvox). Descreve numerosos organismos cuja determinação é mais ou menos possível na atualidade: Vorticella campanula, Oicomonas termo, Oxytrichasp., Stylonychiasp., Enchelys, Vaginicola, Coleps. Em uma carta de 1 de Junho de 1674 enviada a Henry Oldenburg, secretário da Royal Society, van Leeuwenhoek anexa algumas amostras dos organismos que havia observado. Mas, estas observações são recebidas com ceticismo pelos cientistas da época, portanto, anexa à uma carta de 5 de Outubro de 1677 o testemunho de oito pessoas (pastores, juristas, médicos), que afirmam terem visto esses numerosos e variados seres vivos. Também recebe o apoio de Robert Hooke (1635-1703), que, em sua Micrographia, oferece a primeira descrição publicada de um micro-organismo, e que, na sessão de 15 de Novembro de 1677 da Royal Society, afirma a veracidade das observações de van Leeuwenhoek. O tradutor das cartas que aparecem na revista Philosophical Transactions, publicação da Royal Society, denomina estes organismos como animálculos.


A descoberta dos espermatozóides


Diagrama de um espermatozóide humano.
Em 1677, Leeuwenhoek menciona pela primeira vez os espermatozóides em uma carta enviada para a Royal Society, na qual ele fala de animálculos muito numerosos no esperma. Leeuwenhoek estava ciente de que suas observações, que mostravam que nas sementes contidas nos testículos estavam o princípio da reprodução dos mamíferos, indo se chocar com o paradigma de sua época, porque suas observações eram contrárias às teses desenvolvidas por grandes sábios da época, como William Harvey (1578-1657) ou Regnier de Graaf (1641-1673).




Leeuwenhoek e a geração espontânea

Jan Swammerdam
Van Leeuwenhoek também é conhecido por ser contrário à teoria, na época em vigor, da geração espontânea. Juntamente com o italiano Francesco Redi (1626-1697) e outro holandês, Jan Swammerdam (1637-1680), fez inúmeras observações sobre os insetos e sobre a sua reprodução. Apesar de no início de suas observações não parecer estar contra esta teoria, realizando alguns estudos em meados dos anos 1670, disseca piolhos e observa pequenas crias destes insetos nos ovos que se encontram no corpo das fêmeas. Realiza experiências similares com pulgas e seus ovos, mas não logra reconhecer as pulgas ao ver suas larvas, apesar das observações publicadas por Swammerdam alguns anos antes. Anos mais tarde voltaria a estudar estes animais. Leeuwenhoek esteve interessado, no início de 1679, pela presença de um verme (Fasciola hepatica) no fígado de cordeiro, e, como Redi e Swammerdam, não compreende o complexo ciclo vital do animal, que não iria ser elucidado até muitos anos depois.


Outras observações

  • Desenho realizado por van Leeuwenhoek de uma seção de madeira de freixo vista pelo microscópio.
    O interesse de van Leeuwenhoek era dirigido para objetos variados, e aparentemente não segue um plano predefinido. Suas observações no campo da zoologia são numerosos, mas também em botânica, química, microbiologia, física, fisiologia e medicina.
  • Leeuwenhoek observou que o verme do vinagre (Anguillula aceti) é vivíparo, outra prova que confirma sua oposição à teoria da geração espontânea.
  • Estudou os glóbulos vermelhos de numerosos animais e do ser humano, assim como o fluxo sanguíneo e os capilares da cauda dos girinos, das patas das rãs, da nadadeira caudal das enguias e da asa dos morcegos.
  • Descreveu a estrutura de diversos apêndices: plumas de várias espécies de aves, pelos e pele de urso e escamas de peixes.
  • Como outros microscopistas de sua época, estudava a anatomia de numerosos insetos como as abelhas, moscas pequenas, pulgas, percevejos e bicho-da-seda. Foi o primeiro em observar as diferentes posturas das larvas dos mosquitos (Culex e Anopheles).
  • Em botânica, estudou a estrutura das folhas e da madeira de diversas espécies. Se interessou pela relação entre a estrutura de diversas espécies e seu sabor (café, pimenta, chá, noz-moscada, gengibre, sálvia, etc.
  • Nem todas as observações de van Leeuwenhoek eram dirigidas aos seres vivos. Estudou e descreveu a pólvora antes e depois de sua combustão, ou a estrutura de diversos metais assim como pedras, cristais, sais e outros objetos.
  • Van Leeuwenhoek, em uma carta datada de 25 de Abril de 1679, oferece o que é, provavelmente, a primeira estimativa da população máxima que pode atingir a Terra. Ele se baseou na densidade da Holanda em sua época (120 pessoas por quilômetro quadrado), e considerou que a Terra poderia acolher até 13,4 bilhões de seres humanos.


Opinião dos historiadores


Julius von Sachs
Julius von Sachs (1832-1897) em sua História da Botânica disse que: “Todos estes trabalhos de botânica estão marcados de um carácter superficial que comprova ocupações puramente acidentais e passageiras; o interesse que manifestava para os problemas da filosofia da natureza que reinava na época da qual falamos, em particular aos que tocam o domínio da teoria da evolução, a curiosidade pura e o desejo de abordar questões misteriosas e inacessíveis para a maioria, levaram Leeuwenhoek a empreender os estudos dos quais falamos. Mas não soube coordenar os resultados de suas observações para tornar-se uma idéia exata da estrutura vegetal em conjunto”. Sachs reconhece, no entanto, a qualidade das observações de van Leeuwenhoek que demonstram, segundo ele, a grande potência das lentes realizadas pelo sábio holandês.


Julius Viktor Carus
Para Julius Viktor Carus (1823-1903) em sua História da Zoologia: “Foi de alguma maneira o primeiro destes aficionados que não procura do microscópio mais do que um tranqüilo entretenimento. [...] Quase não há sistemas anatômicos que Leuwenhœck [sic] não tenha enriquecido com atos importantes”. Para Carus, “Nós não fizemos progressos desde ele até Otto Friedrich Muller.


Embora existia a crença de que van Leeuwenhoek trabalhava de uma maneira que era essencialmente indisciplinada, utilizando métodos pouco ortodoxos e falhos de refinamento e objetividade, ou até mesmo pondo em dúvida a atribuição de algumas de suas observações, as investigações atuais mostram que, pelo contrário, realizava seus trabalhos com consciência, registrava suas observações com meticulosa diligência e tinha clara habilidade para estabelecer procedimentos experimentais racionais para sua época e contava ainda com boa vontade para elevar-se sobre as opiniões existentes e abandonar crenças anteriores à luz da evidência.

Medalha Leeuwenhoek


Desde 1877 a Real Academia Holandesa das Artes e das Ciências (Koninklijke Nederlandse Akademie van Wetenschappen, KNAW) outorga em sua honra a Medalla Leeuwenhoek. Se concede a cada dez anos ao cientista que tenha realizado a contribuição mais significativa para a microbiologia durante a década anterior.

Assinatura de Leeuwenhoek


Referências


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