sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Biografia de Anaximandro


Anaximandro.
Anaximandro. Filósofo pré-socrático, geógrafo, matemático, astrônomo, e político grego da Escola Jônica (cerca de 610- 547 a.C.). Foi discípulo de Tales de Mileto. Os antigos atribuíam-lhe grande número de invenções, entre as quais a da esfera, do gnômon (relógio solar), das cartas geográficas e dos globos celestes. Foi o primeiro a ensinar a obliqüidade da eclíptica, e conseguiu provar quase rigorosamente que a Terra é redonda e que é do Sol que a Lua recebe a sua luz. “Procurou como seu mestre, Tales de Mileto, descobrir o princípio do Mundo, mas não o conheceu como um elemento determinado, tal como a água, o ar, etc. Designou-o por infinito (ápeiron), termo negativo que indicava o que não está determinado nem em qualidade, nem em relação. O infinito de Anaximandro é imperecível e incorruptível; não pode haver princípio porque não há fim”. Anaximandro afirmou que toda a vida na Terra se desenvolveu a partir de seres anfíbios. Os relatos doxográficos nos dão conta de que escreveu um livro intitulado “Sobre a Natureza”; contudo, essa obra se perdeu. Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do Gnômon (relógio solar) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Anaximandro acreditava que o princípio de tudo (o arché das coisas) era o apéiron, isto é, uma matéria infinita da qual todas as outras se cindem. Esse apeiron é algo insurgido (não surgiu nunca, embora exista) e imortal. Além de definir o princípio, Anaximandro se preocupa com os "comos e porquês" das coisas todas que saem do princípio. Ele diz que o mundo é constituído de contrários, que se auto-excluem o tempo todo. O tempo é o "juiz" que permite que ora exista um, ora outro. Por isso, o mundo surge de duas grandes injustiças: primeiro, da cisão dos opostos que "fere" a unidade do princípio; segundo, da luta entre os princípios onde sempre um deles quer tomar o lugar do outro para poder existir.


O Universo de Anaximandro



Representação do possível
mapa mundial de Anaximandro.
Anaximandro considerava que a Terra tinha o formato de um cilindro e que era circundada por várias rodas cósmicas, imensas e cheias de fogo. O Sol era um furo, numa dessas rodas cósmicas, que deixava o fogo escapar. À medida que essa roda girava, o Sol também girava, explicando-se assim o movimento do Sol em torno da Terra. Eclipses se deviam ao bloqueio total ou parcial desse furo. A mesma explicação era dada para as fases da Lua, que também era um furo em outra roda cósmica. E finalmente, as estrelas eram pequenos furos em uma terceira roda cósmica, que se situava mais perto da Terra, do que as rodas do Sol e da Lua. "Anaximandro…, representa a passagem da simples designação de uma substância como princípio da natureza para uma idéia desta, mais aguda e profunda, que já aponta para os traços que irão caracterizá-la em toda a filosofia pré-socrática." (Julian Marías, 'História da Filosofia', Martins Fontes, 1ª edição, 2004, pg.17).


A Cosmologia de Anaximandro



Relevo que representa Anaximandro. Provavelmente uma cópia romana de um original grego. Esta é a única imagem de Anaximandro do mundo antigo.
Em seu livro - Física, o pensador Simplício nos relata: “Dentre os que afirmam que há um só princípio, móvel e ilimitado, Anaximandro, filho de Praxíades, de Mileto, sucessor e discípulo de Tales de Mileto, disse que o a-peiron (ilimitado) era o princípio e o elemento das coisas existentes. Foi o primeiro a introduzir o termo princípio. Diz que este não é a água nem algum dos chamados elementos, mas alguma natureza diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos (…) É manifesto que, observando a transformação recíproca dos quatro elementos, não achou apropriado fixar um destes como substrato, mas algo diferente, fora estes. Não atribui então a geração ao elemento em mudança, mas à separação dos contrários por causa do eterno movimento”. Para Anaximandro, o Universo era eterno e infinito. Um número infinito de mundos existiram antes do nosso. Após sua existência, eles se dissolveram na matéria primordial (o a-peiron) e posteriormente outros mundos tornaram a nascer. Anaximandro, contudo, não acreditava em nenhum deus, para ele todos os ciclos de criação, evolução e destruição eram fenômenos naturais, que ocorriam a partir do ponto em que a matéria abandonava e se separava do a-peiron. O a-peiron era a realidade primordial e final de todas as coisas e, consequentemente, continha toda a natureza do divino em si próprio. Tudo o que existe, somente existe em função de uma emancipação do ser eterno e portanto ao se separar deste, é digno de castigo. “De onde as coisas têm seu nascimento, ali também devem ir ao fundo. Segundo a necessidade, pois têm de pagar penitência e de ser julgadas por suas injustiças, conforme a ordem do Tempo”. Tudo o que nasce, um dia vai morrer. Tudo o que é quente, um dia vai esfriar. Tudo o que é grande, pode ser quebrado em pedaços menores. Fogo pode ser combatido com água, e como resultado, fogo e água deixam de existir. Assim, Anaximandro conclui que a essência de todas as coisas não pode possuir essas propriedades determinadas que sucumbem ao longo do Tempo. Daí, seu conceito de a-peiron, ser algo ilimitado, infinito, indefinido e eterno.


Mapa do Universo de Anaximandro.


Ilustração dos modelos de Universo de Anaximandro. À esquerda, durante o dia no verão; à direita, durante à noite no inverno. (Imagem: Dirk L. Couprie).


Xilogravura de Crônicas de Nuremberg.


Anaximandro (Obra de Pietro Bellotti - 1625-1700).


Anaximandro e a Física Moderna


Algumas de suas idéias são muito semelhantes a opiniões e teorias da Física atual:

  • sua idéia de um mundo que sustenta-se por um equilíbrio de forças é muito semelhante à gravidade e à força centrípeta, forças que mantêm a Terra girando em torno do Sol;
  • sua idéia de que a ação do Sol faz surgirem as criaturas de estrutura simples na água, que depois migram para a terra e adquirem estrutura mais complexa se parece com a teoria da evolução das espécies;
  • sua idéia dos opostos se parece com a teoria de que o vácuo produz partículas (se supõe que, logo depois do Big-Bang, o vácuo tenha produzido pares de partículas e anti-partículas que se exterminavam ao se encontrarem, pois o espaço ainda era muito pequeno e os pares sempre se encontravam); as únicas diferenças entre as teorias são que, para Anaximandro, os pares eram de coisas com propriedades determinadas como frio e calor, e para a Física, aqueles pares eram algo como energia concentrada;
  • para Anaximandro, os contrários revezam-se no tempo, e para os cientistas, os pares se auto-exterminavam - pois eram como +1 (matéria) e -1 (anti-matéria) e, ao se encontrarem, precisavam “saldar” sua dívida de energia.


Se pode sempre supor que Anaximandro tenha chegado, em sua época, às mesmas conclusões a que muitos cientistas chegaram hoje, ainda que por meios diferentes (pois Anaximandro dispunha apenas de sua observação e de sua reflexão); assim como se pode supor que tais teorias físicas tenham sido inspiradas na leitura, por parte dos cientistas, de Anaximandro. Em qualquer das hipóteses, pode-se notar que o filósofo era uma pessoa notável.


Bibliografia

  • HEIDEL, William. O Livro de Anaximandro. trad. Katsuzo Koike. São Paulo: Ixtlan, 2011.
  • SPINELLI, Miguel. Filósofos Pré-Socráticos. Primeiros Mestres da Filosofia e da Ciência Grega. 2ª edição. Porto Alegre: Edipucrs, 2003, pp. 15–92.



Referências


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