sexta-feira, 19 de julho de 2013

Biografia de Sêneca

Sêneca
Lucius Annaeus Sêneca. Filósofo estóico e Poeta romano. Nascido em Córdoba (hoje Espanha), 4 a.C., morreu em Roma, 65d.C.: por ordem do Imperador Nero (seu discípulo) cortou as próprias veias. Filho de um mestre de Retórica (Marcus Annaeus, chamado Sêneca, o Retórico), ficou conhecido como Sêneca, o Filósofo. Em 41 foi exilado por Claudio, por manter relações de muita intimidade com Júlia, irmã de Germânico. Em 49 foi chamado do exílio por Agripina e nomeado tutor do jovem Nero, sobre o qual exerceu influência benéfica nos primeiros anos de reinado. Por ocasião da morte de Agripina, Sêneca foi afastado da corte. Filiou-se à corrente filosófica dos estóicos e deixou as seguintes obras: Espistolae Morales ad Lucilium, Naturales Quoestiones, ambas escritas para seu amigo Lucilus, o Moço; Dialogi, De Clementia, De Beneficiis, Apocolocyntosis. Exerceu grande influência na literatura ocidental com suas tragédias: Hércules Furens, Medea, Troades, Phaedra, Agamenon, Phoenissae etc. Sob acusação de conspiração foi levado a suicidar-se por ordem de Nero. Costuma dizer que se considerava mais que um rei, pois podia julgar os próprios soberanos. Dotado de pronta decisão e grande conhecedor de retórica, o que na época definia um bom advogado, não tardou em se distinguir no foro, atraindo a atenção e a simpatia de Calígula. Os escritos e a filosofia de Sêneca, moderadamente estóicos, foram largamente utilizados pelos primeiros padres e teólogos da igreja católica. Seu pensamento sincero e corajoso, bem como sua projeção política, fez dele o mais importante pensador ocidental dos primeiros séculos da Era Cristã.

Vida

Oriundo de família ilustre, era o segundo filho de Hélvia e de Marco Aneu Sêneca (Sêneca, o Velho). O pai era um orador eloquente e muito abastado. O irmão mais velho de Lúcio chamava-se Lúcio Júnio Gálio e era procônsul (administrador público) na Aqueia, onde, em 53, se encontrou com o apóstolo cristão Paulo. Sêneca, o Jovem, foi tio do poeta Lucano. Ainda criança (três anos), foi enviado a Roma para estudar oratória e filosofia. Com a saúde abalada pelo rigor dos estudos, passou uma temporada no Egito para se recuperar e regressou a Roma por volta do ano 31. Nessa ocasião, iniciou carreira como orador e advogado e logo chegou ao senado. Em 41, foi acusado por Messalina, esposa do imperador Cláudio, de ter cometido adultério com Júlia Livila, sobrinha do imperador. Como consequência, foi exilado para a Córsega. No exílio, em meio a grandes privações materiais, Sêneca dedicou-se aos estudos e redigiu vários de seus principais tratados filosóficos. Entre eles, os três intitulados Consolationes ("Consolos"), em que expõe os ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais e busca da tranquilidade da alma mediante o conhecimento e a contemplação. Por influência de Agripina, a Jovem, sobrinha do imperador e uma das mulheres com quem este se casou, Sêneca retornou a Roma em 49. Agripina tornou-o preceptor de seu filho, o jovem Nero, e elevou-o a pretor em 50. Sêneca contraiu matrimônio com Pompeia Paulina e organizou um poderoso grupo de amigos. Logo após a morte de Cláudio, ocorrida em 54, o escritor vingou-se com um escrito que foi considerado obra-prima das sátiras romanas, Apocolocyntosis divi Claudii ("Transformação em abóbora do divino Cláudio"). Nessa obra, Sêneca critica o autoritarismo do imperador e narra como ele é recusado pelos deuses. Seu irmão, Lúcio Júnio Gálio, também ridicularizou Cláudio, fazendo uma analogia com as pessoas executadas, que eram levadas ao Fórum Romano puxadas por ganchos: ele disse que Cláudio havia sido elevado aos céus puxado por um gancho. Quando Nero, aos dezessete anos, tornou-se imperador, Sêneca continuou a seu lado, porém não mais como pedagogo e sim como seu principal conselheiro (ajudado por Afrânio Burro, prefeito do Pretório). Sêneca procurou orientar para uma política justa e humanitária. Se, durante os primeiros sete anos, o governo de Nero lembra o de Augusto, o mérito exclusivo é desses dois homens que, na realidade, governaram ao lado do jovem príncipe. A índole de Nero foi mitigada, corrigida, freada. Mais tarde, porém, a malvadez de Nero teve o predomínio. Sêneca, durante algum tempo, exerceu influência benéfica sobre o jovem, mas, aos poucos, foi forçado a adotar atitudes de complacência. Chegou mesmo a redigir uma carta ao Senado na qual se alega que tentou justificar a execução de Agripina em 59. Sêneca sabia que a maior culpa por sua morte havia sido da própria Agripina, que pretendia imperar e que se tornara hostil por ambição, capricho e corrupção; sua raiva crescente só fez aumentar a vingança matricida de Nero, que não deu mais ouvidos às palavras severas de seus dois conselheiros. Sêneca foi, então, muito criticado pela fraca oposição à tirania e à acumulação de riquezas de Nero, incompatíveis com as concepções estoicas. Conforme concluiu o emérito professor Giulio Davide Leoni, o destino foi, em parte, malvado para com Sêneca, fazendo chegar até nós as acusações e perdendo as defesas. Da leitura atenta de suas páginas, do modo como aceitou e caminhou para a morte, como Sócrates, surge um juízo sincero que as reticências dos historiadores e estudiosos, muitas vezes, acabam por ofuscar. Em De Beneficiis (II,18), Sêneca lembra que "às vezes, mesmo contra a nossa vontade, devemos aceitar um benefício, quando é dado por um tirano cruel e iracundo, que reputaria injúria que tu desdenhasses seu presente. Não deverei aceitar?" Assim, mais importante do que saber que Sêneca era rico, é saber se ele era ávido de riquezas, se viveu no fausto e na opulência. Conforme suas Epistulae Morales ad Lucilium, 18, seu pensamento era este: é lícito ser rico, contudo é preciso viver de tal modo que se possa, em cada contingência, bastar a si próprio e renunciar a qualquer bem que a sorte pode dar, mas também tirar. Rico, Sêneca viveu com um certo conforto, mas, conforme acreditava e pregava, sempre de maneira modesta. Tem razão o professor G.D. Leoni, da Sedes Sapientiae, quando afirma, no seu estudo introdutivo ao volume XLIV da Biblioteca Clássica da Atena Editora, São Paulo, 1957, que, sem dúvida, a posteridade foi injusta, recolhendo, contra esse homem, somente as invejosas acusações dos seus inimigos. Mas a perfeita intuição dos poetas define aquilo que os críticos se esforçam por esclarecer mas amiúde ofuscam. Dante, no limbo, vê, entre os sumos escritores e heróis antigos - Sócrates, Platão, Demócrito, Diógenes, Anaxágora, Tales de Mileto, Empédocles, Heráclito, Zenão, Dioscórides, Orfeu, Cícero, Lino e "Sêneca morale". Sêneca, diferente de um filósofo, é um entusiasta da filosofia, estudioso apaixonado, informado de todas as correntes filosóficas do seu tempo, mas contrário a encerrar-se em qualquer sistema ou fórmula. Nele, a filosofia era viva, era a própria vida. "A prosa adere ao pensamento, uniformiza-se adapta-se a ele; e muitas vezes um subentendido produz um jogo de luzes e sombras cheios de profunda beleza, amiúde a frase breve produz inesperadas imagens pictóricas, outras vezes antíteses, ou as anedotas enriquecem as sentenças austeras, a argúcia atenua a trágica solenidade do assunto". Poeta, humanista, mais que filósofo, o elemento preponderante em suas obras são os sentimentos, mais do que as idéias, com as quais, na origem, pouco contribuiu. Entretanto, na história do pensamento, nunca ninguém foi tão compenetrado do sentimento da nobreza do espírito humano, e soube tão bem e poderosamente transmitir esse sentimento em palavras." Sua prosa é vivaz, variada, alegre, moderna, eterna; como quando procura mostrar como as desventuras pelas quais passam os bons, devem ser encaradas como provas para melhor evidenciar suas virtudes, ajudar o próximo: "Os deuses põem à prova a virtude e exercitam a força de espírito dos bons, que devem seguir seu destino preestabelecido: o sábio, por isso, nunca será infeliz". Sêneca retirou-se da vida pública em 62. Entre seus últimos textos, estão a compilação científica Naturales Quaestiones (Problemas Naturais); os tratados De Tranquillitate Animi (Sobre a Tranquilidade da Alma), De Vita Beata (Sobre a Vida Beata) e, talvez sua obra mais profunda, as Epistolae Morales, dirigidas a Lucílio, em que reúne conselhos estoicos e elementos epicuristas na pregação de uma fraternidade universal mais tarde considerada próxima ao cristianismo. No ano 65, Sêneca foi acusado de ter participado da conspiração de Pisão, na qual o assassínio de Nero teria sido planejado. Sem qualquer julgamento, foi obrigado a cometer o suicídio. Na presença dos seus amigos, cortou os pulsos com o ânimo sereno que defendia em sua filosofia. Tácito relatou a morte de Sêneca e da mulher, que também cortou os pulsos. Nero, com medo da repercussão negativa dessa dupla morte, mandou que médicos a tratassem, e ela sobreviveu ao marido alguns anos.

Contemporâneo de Cristo

Apesar de ter sido contemporâneo de Cristo, Sêneca não fez quaisquer relatos significativos de fenômenos milagrosos que aparentemente anunciavam o despoletar de uma poderosa nova religião; entretanto, segundo Jerónimo ("De Viris Illustribus", xii), Sêneca teria trocado correspondências com Paulo (apóstolo com cidadania romana, também conhecido por Saulo). Constata-se que os cristãos, por intermédio de Lucius Annaeus Sêneca, assimilaram os princípios estoicos, utilizando, inclusive, as mesmas metáforas estoicas na Bíblia. Um fato tanto mais curioso é que Sêneca, como filósofo, interessou-se por todos os fenômenos da natureza, resultando nas cartas intituladas posteriormente "Questões da Natureza", como observou Edward Gibbon, historiador do iluminismo do século XVIII, perito na história do Império Romano e autor do livro História do Declínio e Queda do Império Romano.

A filosofia de Sêneca

Sêneca ocupava-se da forma correta de viver a vida (ou seja, da ética), da física e da lógica. Via o sereno estoicismo como a maior virtude, o que lhe permitiu praticar a imperturbabilidade da alma, denominada ataraxia (termo utilizado pela primeira vez por Demócrito em 400 a.C.). Juntamente com Marco Aurélio e Cícero, conta-se entre os mais importantes representantes da intelectualidade romana. Sêneca via, no cumprimento do dever, um serviço à humanidade. Procurava aplicar a sua filosofia à prática. Deste modo, apesar de ser rico, vivia modestamente: bebia apenas água, comia pouco, dormia sobre um colchão duro. Sêneca não viu nenhuma contradição entre a sua filosofia estóica e a sua riqueza material: dizia que o sábio não estava obrigado à pobreza, desde que o seu dinheiro tivesse sido ganho de forma honesta. No entanto, devia ser capaz de abdicar da riqueza. Sêneca via-se como um sábio imperfeito: "Eu elogio a vida, não a que levo, mas aquela que sei que deve ser vivida". Os afetos (como relutância, vontade, cobiça, receio) devem ser ultrapassados. O objetivo não é a perda de sentimentos, mas a superação dos afetos. Os bens podem ser adquiridos, à condição de não deixarmos que se estabeleça uma dependência deles. Para Sêneca, o destino é uma realidade. O homem pode apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo. Se o aceitar de livre vontade, goza de liberdade. A morte é um dado natural. O suicídio não é categoricamente excluído por Sêneca. Sêneca influenciaria profundamente o pensamento de João Calvino. O primeiro livro de Calvino foi um comentário ao De Clementia, de Sêneca.

A obra literária de Sêneca

Ao se analisarem os escritos de Sêneca, é possível perceber a forma pela qual alcançou o conhecimento e desenvolvimento da ideia de fluxo de energia, que advém, segundo ele, de algum "princípio ativo" (termo utilizado em seu livro "Questões Naturais"), o qual sujeita à regra geral: "causa e efeito", ou "ação e reação", de tal forma que sugeria, em uma de suas cartas a Lucílio, que só tem domínio de si aquele que não faz de seu corpo um peregrinador por outros corpos. Sêneca destacou-se como estilista literário. Numa prosa coloquial, seus trabalhos exemplificam a maneira de escrever retórica, declamatória, com frases curtas, conclusões epigramáticas e emprego de metáforas. A ironia é a arma que emprega com maestria, principalmente nas tragédias que escreveu, as únicas do gênero na literatura da antiga Roma. Versões retóricas de peças gregas, elas substituem o elemento dramático por efeitos brutais, como assassinatos em cena, espectros vingativos e discursos violentos, numa visão trágica e mais individualista da existência.

Diálogos
(40) Ad Marciam, De consolatione
(41) De Ira - Estudo sobre as consequências e sobre o controlo da ira
(42) Ad Helviam matrem, De consolatione
(44) De Consolatione ad Polybium
(49) De Brevitate Vitæ ("Sobre a brevidade da vida")
(62) De Otio ("Do ócio")
(63) De Tranquillitate Animi ("Sobre a tranquilidade da alma")
(64) De Providentia ("Sobre a Providência")
(55) De Constantia Sapientis
(58) De Vita Beata

Referências

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