quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Biografia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel


Hegel
Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Filósofo alemão (1770-1831). Nascido em Stuttgart, morreu em Berlim. Estudou na Universidade de Tübingen. Lecionou em Berna e ocupou-se de filosofia religiosa (escreveu inclusive uma Vida de Jesus), publicada em 1795, e uma Crítica da Idéia Religiosa Positiva, em 1796. Sua obra principal é a Ciência da Lógica (1812-1816), onde expõe sua doutrina (posteriormente fez aparecer um resumo do seu ensino na Enciclopédia das Ciências Filosóficas), o Hegelianismo, o fim do idealismo alemão. O hegelianismo exerceu influência sobre todo o pensamento moderno, nas mais diversas formas. Baseia-se na premissa de que a realidade pode ser compreendida racionalmente, porque o universo em si é racional e que a razão compreende a essência suprema do mundo, a realidade absoluta e a realidade não é mais que a manifestação da razão. O sistema filosófico de Hegel interpreta o mundo como um progresso incessante de tese e antítese e síntese. A consciência passa do espírito subjetivo ao objetivo e, finalmente, à sua culminação, o espírito absoluto. Afirma, ainda, que toda a História constitui um processo evolutivo, cuja meta é a verdadeira liberdade, elemento básico do espírito, especificando que esta liberdade somente é possível num estado, pois neste o homem atinge sua dignidade como ser independente. Diz um crítico: “A
Hegel com seus alunos.
idéia de que tudo quanto é real é racional levou-o a esta definição: a história é o desenvolvimento do espírito universal no tempo. O Estado representa a idéia; é a substância de que os cidadãos são o acidente; é ele quem confere os direitos aos indivíduos, não por eles, mas para chegar mais seguramente à realização da sua idéia. As lutas entre os povos são outros tantos caminhos para a realização da idéia. A força triunfa, mas não é senão um símbolo, o sinal visível do Direito. Esta concepção da História leva à negação da liberdade individual, à glorificação do fato consumado e à divinização do êxito”
. Hegel foi um dos criadores do idealismo alemão e naturalmente da gênese do que é chamado de hegelianismo. Seu cômputo historicista e idealista da realidade como uma Filosofia europeia completamente revolucionada denota que foi, de fato, um importante precursor da Filosofia continental e do marxismo. Hegel desenvolveu uma estrutura filosófica abrangente (ou "sistema") do Idealismo Absoluto a fim de referir, mediante um modo integrado e desenvolvido, a relação entre mente e natureza, sujeito e objeto do conhecimento, psicologia, Estado, História, Arte, Religião e Filosofia. Particularmente, ele desenvolveu o conceito de que a mente (ou espírito) – "Geist" – manifesta-se em um conjunto de contradições e oposições que, ultimamente, integram-se e se unem, sem eliminar qualquer dos polos ou reduzir um ao outro. Exemplos de tais contradições incluem aqueles entre natureza e liberdade e entre imanência e transcendência. Hegel influenciou escritores de posições largamente díspares, incluindo seus admiradores (Strauss, Bauer, Feuerbach, Stirner, T. H. Green, Marx, F. H. Bradley, Dewey, Sartre, Küng, Kojève, Fukuyama, Žižek, Brandom, Iqbal) e seus detratores (Schopenhauer, Schelling, Kierkegaard, Nietzsche, Peirce, Popper, Russell, Heidegger). Suas concepções influentes são de lógica especulativa ou "dialética", "idealismo absoluto", "Espírito", negatividade, "Aufheben" / "Aufhebung" ('sublimação', 'levantar', 'abolir', 'transcender', 'preservar'), dialética "Senhor/Escravo", "vida ética" e importância da história. Era fascinado pelas obras de Spinoza, Kant e Rousseau, assim como pela Revolução Francesa. Muitos consideram que Hegel representa o ápice do idealismo alemão do século XIX, que teve impacto profundo no materialismo histórico de Karl Marx. Sistema hegeliano: "O que Schelling havia começado esforçando-se por conciliar o eu e o não-eu na Natureza e no Absoluto, Hegel levou-o a cabo plenamente. Permanecendo, aliás, puro idealista e, neste sentido, subjetivista, constrói um sistema mais objectivo no qual a consciência ou o eu se encontra mais no seu lugar, já não ao centro, mas num momento da evolução universal: Novo ensaio para justificar a solução panteísta do problema filosófico, (...) o sistema demonstra-se desenvolvendo-se. Mas importa primeiro apreender exatamente o sentido do princípio fundamental que é a alma de todas as deduções e lhes constitui a unidade profunda; veremos depois a aplicação em um tríplice domínio: lógico e ontológico; – físico, – moral e religioso". Hegel propõe um grande sistema filosófico em que o mundo, como Espírito, se encontraria em um processo histórico contínuo de racionalidade e perfeição cada vez maiores. A teleologia proposta por Hegel será explicitada tanto na análise da totalidade do universo, quanto nos diversos processos e desenvolvimentos que o constituem, através do método dialético, em que as tendências contrárias (tese e antítese) se entrechocam resultando em uma síntese, por definição mais perfeita e completa que as anteriores. Hegel tem como mérito a criação de uma nova tendência na filosofia: a de abordar os diversos assuntos a partir da investigação de sua gênese ao longo da história. Em seu sistema filosófico, Hegel aborda o mundo físico, os animais e a humanidade de uma maneira evolutiva, em que, respectivamente, o espírito toma uma consciência cada vez maior de si mesmo.



Formação

Local onde Hegel nasceu, hoje o Museu de Hegel.
Hegel estudou no seminário de Tubinga com o poeta Friedrich Hölderlin e o filósofo Schelling. Os três estiveram atentos (embora muitas vezes discordassem) ao desenvolvimento da Revolução Francesa e colaboraram em uma crítica das filosofias idealistas de Immanuel Kant e de seu seguidor, Fichte. Depois de ter se tornado tutor em Berna e em Frankfurt, Hegel começou a lecionar na Universidade de Jena, onde permaneceu de 1801 a 1806. Após a vitória de Napoleão, Hegel abandonou Jena e se tornou "professor das ciências filosóficas preparatórias" do Ginásio de Nuremberg em 1808, sendo seu reitor em 1809. Em 1816 ocupou uma cátedra na Universidade de Heidelberg. Sucedeu Fichte como professor de filosofia na Universidade de Berlim em 1818, posto que ocupou até sua morte. Estudou gramática até dezoito anos, enquanto estudante, fez uma vasta coleção de extratos de autores clássicos,artigos de jornal,trechos de manuais e tratados usados na época.


Obra

A primeira e a mais importante das obras maiores de Hegel é sua Fenomenologia do Espírito. Em vida, Hegel ainda viu publicada a Enciclopédia das Ciências Filosóficas, a Ciência da Lógica, e os Princípios (Elementos da) Filosofia do Direito. Várias outras obras sobre filosofia da história, religião, estética e história da filosofia foram compiladas a partir de anotações feitas por seus estudantes, tendo sido publicadas postumamente.


Teoria

Filósofo da totalidade, do saber absoluto, do fim da história, da dedução de toda
Hegel

a realidade a partir do conceito, da identidade que não concebe espaço para o contingente, para a diferença; filósofo do estado prussiano, que hipostasiou o Estado - todas essas são algumas das recepções da filosofia de Hegel na contemporaneidade. É difícil dizer até que ponto essas qualificações são justas para com a filosofia hegeliana. Ademais, as obras de Hegel possuem a fama de serem difíceis, devido à amplitude dos temas que pretendem abarcar. Diz a anedota (possivelmente verdadeira) que, quando saiu a tradução francesa da Fenomenologia do Espírito, muitos estudiosos alemães foram tentar estudar a Fenomenologia pela tradução francesa, para "ver se entendiam melhor" o árido texto hegeliano. O fato é que sua filosofia é realmente difícil, embora isso não se deva necessariamente a uma confusão na escrita. Afinal, Hegel era crítico das filosofias claras e distintas, uma vez que, para ele, o negativo era constitutivo da ontologia. Neste sentido, a clareza não seria adequada para conceituar o objeto. Introduziu um sistema para compreender a história da filosofia e do mundo mesmo, chamado geralmente dialética: uma progressão na qual cada movimento sucessivo surge como solução das contradições inerentes ao movimento anterior. Gonçal Mayos examina a evolução da dialética da periodização da história: Hegel mudou o seu ideal grego juvenil e, gradualmente, vê a realização do princípio da reconciliação não mais na Revolução francesa, mas na Reforma protestante. A Revolução Francesa, precisamente por sua novidade absoluta, é também absolutamente radical: por um lado, o aumento abrupto da violência que fez falta para realizar a revolução, não pode deixar de ser o que é, e, por outro lado, já consumiu seu oponente. A revolução, por conseguinte, já não pode voltar-se para nada além de seu resultado: a liberdade conquistada com tantas penúrias é consumida por um brutal Reinado do Terror. A história, não obstante, progride aprendendo com seus erros: somente depois desta experiência, e precisamente por causa dela, pode-se postular a existência de um Estado constitucional de cidadãos livres, que consagra tanto o poder organizador benévolo (supostamente) do governo racional e os ideais revolucionários da liberdade e da igualdade. Segundo Umberto Padovani e Luis Castagnola, em "A história da Filosofia": "A Lógica tradicional afirma que o ser é idêntico a si mesmo e exclui o seu oposto (principio da identidade e de contradição); ao passo que a lógica hegeliana sustenta que a realidade é essencialmente mudança, devir, passagem de um elemento ao seu oposto". De todo modo, a dialética é uma das muitas partes do sistema hegeliano que foi objeto de má compreensão ao longo do tempo. Possivelmente, uma das razões para isto é que, para Hegel, é preciso abandonar a ideia de que a contradição produz um objeto vazio de conteúdo. Ou seja, Hegel dá dignidade ontológica à contradição, bem como ao negativo. Por outro lado, Hegel não queria com isso dizer que absurdos como, por exemplo, pensar que um quadrado redondo fosse possível. Talvez um melhor exemplo da dignidade ontológica da contradição é pensarmos nos conceitos aristotélicos de potência e ato (um ser que é ao mesmo tempo potência e ato) ou então na concepção dos objetos como unos e múltiplos ao mesmo tempo. Nas explicações contemporâneas do hegelianismo - para os estudantes universitários, por exemplo - a dialética de Hegel geralmente aparece fragmentada, por comodismo, em três momentos chamados: tese(em nosso exemplo, a revolução), antítese(o terror subsequente) e a síntese(o estado constitucional de cidadãos livres). No entanto, Hegel não empregou pessoalmente essa classificação absolutamente; ela foi criada anteriormente por Fichte em sua explicação mais ou menos análoga à relação entre o indivíduo e o mundo. Os estudiosos sérios de Hegel não reconhecem, em geral, a validade desta classificação, ainda que possivelmente tenha algum valor pedagógico. Hegel utilizou-se deste sistema para explicar toda a história da filosofia, da ciência, da arte, da política e da religião, mas muitos críticos modernos assinalam que Hegel geralmente parece analisar superficialmente as realidades da história a fim de encaixá-las em seu modelo dialético. Karl Popper, crítico de Hegel em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, opina que o sistema de Hegel constitui uma justificação velada do governo de Frederico Guilherme III e da idéia de que o objetivo ulterior da história é chegar a um Estado semelhante à Prússia dos anos 1830. Esta visão de Hegel como apologista do poder estatal e precursor do totalitarismo do século XX foi criticada minuciosamente por Herbert Marcuse em Razão e Revolução: Hegel e o Surgimento da Teoria Social. Segundo Marcuse, Hegel não fez apologia a nenhum Estado ou forma de autoridade, simplesmente porque existia: para Hegel, o Estado tem que ser sempre racional. Já Arthur Schopenhauer desprezou Hegel por seu historicismo e tachou a obra de Hegel de pseudo-filosofia. Como se vê, a obra hegeliana é fonte de inúmeras controvérsias, mas, sem dúvida, a filosofia, na maior parte dos casos, não deixa de se referir a Hegel - mesmo quando é anti-hegeliana. Por outro lado, várias vertentes filosóficas inserem-se no legado hegeliano - embora em geral não se autointitulem hegelianas - a exemplo do Pragmatismo, da Escola de Frankfurt e do Marxismo.


Pensamento

As obras de Hegel têm fama de difíceis graças à amplitude dos temas que
Monumento de Hegel, Berlin. (Imagem: Angela Monika Arnold, Berlin).
pretendem abarcar. Hegel introduziu um sistema para entender a história da filosofia e o próprio mundo, chamado amiúde de "dialética": uma progressão na qual cada movimento sucessivo surge como solução das contradições inerentes ao movimento anterior. Por exemplo, a Revolução Francesa constitui, para Hegel, pela primeira vez na história, a introdução da verdadeira liberdade nas sociedades ocidentais. Entretanto, precisamente por sua novidade absoluta, é também absolutamente radical: por um lado, o aumento abrupto da violência – que fez falta para realizar a revolução – não pode deixar de ser o que é; e, por outro lado, já consumiu seu oponente. A revolução, por conseguinte, já não tem mais para onde volver-se além de seu próprio resultado: a liberdade conquistada com tantas penúrias é consumida por um brutal Reinado de Terror. A história, não obstante, progride aprendendo com seus próprios erros: somente depois desta experiência, e precisamente por ela, pode se postular a existência de um Estado constitucional de cidadãos livres, que consagra tanto o poder organizador benévolo (supostamente) do governo racional e os ideais revolucionários da liberdade e da igualdade. "A liberdade reside no pensamento". Nas explicações contemporâneas do hegelianismo – para as classes pré-universitárias, por exemplo –, a dialética de Hegel frequentemente aparece fragmentada, por comodidade, em três momentos, chamados: tese (em nosso exemplo, a revolução), antítese (o terror subsequente) e síntese (o estado constitucional de cidadãos livres). Contudo, Hegel não empregou pessoalmente esta classificação em absoluto; na verdade, ela foi criada anteriormente, por Fichte, em sua explicação mais ou menos análoga da relação entre o indivíduo e o mundo. Os estudiosos sérios de Hegel não reconhecem, genericamente, a validez desta classificação, conquanto provavelmente tenha algum valor pedagógico (vide: Tríade dialética). O historicismo cresceu significativamente durante a filosofia de Hegel. Da mesma maneira que outros expoentes do historicismo, considerava que o estudo da História era o método adequado para abordar o estudo da ciência da sociedade, já que revelaria algumas tendências do desenvolvimento histórico. Em sua filosofia, a história não somente oferece a chave para a compreensão da sociedade e das mudanças sociais, como também é considerada tribunal de justiça do mundo. A filosofia de Hegel afirmava que tudo o que é real, é também racional; e, por corolário, tudo o que é racional, é real. O fim da história era, para Hegel, a parusia do espírito; e o desenvolvimento histórico podia ser equiparado ao desenvolvimento de um organismo (os componentes têm funções definidas, sendo que enquanto trabalham, afetam o restante). Hegel acredita em uma norma divina, fulcrada no princípio de que em tudo se encontra a volição de Deus, a qual é conduzir o homem para a liberdade; porquanto é panteísta. Justifica, então, a desgraça histórica: todo o sangue e a dor, a pobreza e as guerras, constituem "o preço" necessário a ser pago para alcançar a liberdade da humanidade. Hegel valeu-se deste sistema para explicar toda a história da filosofia, da ciência, da arte, da política e da religião; no entanto, muitos críticos modernos assinalam que Hegel constantemente parece ignorar as realidades da história a fim de fazê-las encaixar em seu molde dialético. Karl Popper, crítico de Hegel em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, opina que o sistema de
Hegel
Hegel constitui uma justificação vagamente dissimulada do governo de Frederico Guillermo III e da idéia hegeliana de que o objetivo ulterior da história é chegar a um Estado que se aproxima ao da Prússia do decênio de 1831. Esta visão de Hegel como apólogo do poder estatal e precursor do totalitarismo do século XX foi criticada minuciosamente por Herbert Marcuse em Razão e Revolução: Hegel e o Surgimento da Teoria Social, arguindo que Hegel não foi apólogo nem do Estado nem da forma de autoridade, simplesmente porque estes existiram; para Hegel, o Estado deve ser sempre racional. Arthur Schopenhauer desprezou Hegel por seu historicismo e tachou sua obra de pseudofilosofia. A filosofia da história de Hegel está também marcada pelos conceitos da "astúcia da razão" e do "escárnio da história". A história conduz os homens que crêem se conduzir de per si, como indivíduos e como sociedades, castigando suas pretensões, de modo que a história-mundo, ao fazer troça deles, produz resultados exatamente contrários e paradoxais aos pretendidos por seus autores, a despeito de, nos períodos finais, a história se reordenar e, em um cacho fantástico, retroceder sobre si mesma e, com sua gozação sarcástica e paradoxal convertida em mecanismo de criptografia, cria também ela mesma, sem querer, realidades e símbolos ocultos ao mundo e acessíveis tão-somente aos cognoscentes, id est, àqueles que querem conhecer.



Princípio fundamental

Tudo é inteligível para o ser que, idêntico no seu fundo com o Espírito ou a Ideia infinita, se manifesta no universo concreto graças ao movimento dialéctico: tese, antítese, síntese. A intuição fundamental de Hegel, fiel ao panteísmo idealista, é que, no universo, todas as riquezas de fenômenos e de indivíduos concretos,
Monumento Hegel, Berlin. (Imagem:
Angela Monika Arnold, Berlin).

com a humanidade e todos os acontecimentos da sua história, são apenas as manifestações necessárias, inteligíveis a priori, duma realidade única: o Espírito infinito que, sendo de ordem ideal, não pode conter elemento algum irracional ou inexplicável, de direito: "Todo o real, diz ele, é racional". A sua filosofia não foi senão um esforço para esclarecer até nos seus mínimos pormenores esta vista central. Para isso, Hegel escolheu judiciosamente como ponto de partida o Ser, a noção mais simples e mais abstrata, luz inteligível que ilumina todas as outras ideias; e conforme o postulado panteísta quer mostrar que a lei fundamental deste ser, única realidade, o leva necessariamente a manifestar-se nos múltiplos objetos e fenômenos concretos tais como os verificam a nossa experiência e as nossas ciências positivas. Aliás, não dá a esta dedução o sentido duma teogonia ou duma emanação real, como se pretendesse que "o mais sai do menos" e que "o abstrato engendra o concreto": quer simplesmente libertar a lei ideal que torna inteligível o universo concreto desenvolvido sob o nosso olhar, mostrando como cada um dos seus pormenores decorre inevitavelmente da única realidade subjacente às múltiplas aparências: o Espírito ou Ideia que é o ser absoluto (*). As noções muito gerais que constituem as primeiras fases da dedução têm pois a sua origem nos factos mais ricos e mais reais, como a ideia abstrata é tirada do concreto; e é preciso distinguir duas séries; uma ideal, descrita em filosofia, a outra, real, verificada nas ciências positivas. Notemos, contudo, que o idealismo torna precária e pouco inteligível esta distinção; porque afirma a coincidência entre a ideia e a realidade. "Tudo o que é racional é real", diz ainda Hegel. Mas, a seu parecer, basta para isso que a correspondência perfeita entre o sistema a priorie a experiência se verifique no termo da dedução, sem exigir, em todas as fases, um paralelismo total entre as ideias e os fatos. Ora a lei cujo desenvolvimento necessário engendra todo o universo é a da dialéctica, segundo a qual toda ideia abstrata, a começar pela de ser, considerada no seu estado de abstração, afirma necessariamente a sua negação, a sua antítese, de modo que esta contradição exige para se resolver a afirmação de uma síntese mais compreensiva que constitui uma nova ideia, rica, ao mesmo tempo, do conteúdo das duas outras. Esta marcha para diante, segundo Hegel, não é arbitrária; está inserida na própria essência da noção abstrata bem analisada; e enquanto a ideia sintética assim obtida guardar um lado abstrato, manifesta à reflexão uma nova identidade com o seu contrário, uma nova exigência de progresso, até que enfim a última síntese exprime o facto de experiência concreto, único a existir realmente. Trata-se pois, para o filósofo, de abranger num só olhar o imenso desenvolvimento das realidades concretas que formam o universo, de remontar daí, por mil caminhos diversos mas convergentes, através das fases cada vez mais abstratas até a origem comum do ser ou do Espírito absoluto; e, terminada esta análise preliminar, o sistema consiste em tomarmos posse do desenvolvimento a priori destas cascatas de noções caindo umas das outras por trilogias, com uma necessidade lógica tão rigorosa como a dedução dos modos em Spinozismo. Hegel teve a audácia de tentar esta síntese, depois de se ter abundantemente documentado sobre o estado de todas as ciências positivas do seu tempo cujo conteúdo experimental devia ser incorporado no seu sistema; e concebeu este num sentido evolucionista, graças ao método dialético. Esta "dialética" bem compreendida não parece ser, como se disse, a negação do princípio de contradição; é, pelo contrário, esforço para escapar à contradição passando à noção sintética que reconcilia a tese com a antítese; mas, nestas fases preliminares, Hegel é de opinião que o nosso espírito pensa verdadeiramente a contradição; e tal é bem o caso, efetivamente de toda ideia abstrata, se a interpretarmos segundo o idealismo absoluto. Para o mostrar, tomemos o exemplo da primeira trilogia da qual todas as outras são apenas uma aplicação; a do ser, a do não-ser e a do devir. O ser puramente abstrato, que não é senão ser, sem qualquer precisão, nem qualidade nem relação, não é mais que a forma vazia da afirmação. É "aquilo por que" tudo o que é real é real; mas em si mesmo nada é pois que se identifica ao mesmo tempo com realidades que se excluem: o círculo é ser e o quadrado também; o branco e o negro são ser; a árvore viva é ser e a pedra inerte também; e o ser é o que constitui, ao mesmo tempo, a realidade de cada um deles. Como a matéria-prima não é ato algum, mas sim potência pura, porque pode tornar-se todas as coisas corporais, assim o ser não é ser algum, porque pode tornar-se todos os seres. Pensá-lo é pensar, ao mesmo tempo, o nada absoluto: a própria contradição. "Em tomismo, escapa-se a esta contradição notando que a natureza pensada, conquanto ficando a mesma em si, se encontra em dois estados diferentes e opostos: no estado de natureza concreta no real individual, por exemplo, a natureza animal neste cão; - e no estado de natureza abstrata na ideia universal, por exemplo, no conceito de animalidade. Assim, a natureza de ser, ficando o que é (notando que aqui o conteúdo da ideia é uma natureza abstrata imperfeitamente que se realiza dum modo análogo somente nos seus inferiores, e não univocamente, como a natureza animal), esta natureza pode identificar-se efetivamente com os modos de ser os mais diversos e os mais exclusivos e isso ao mesmo tempo e sem contradição, porque de si ela é indiferente: indiferente, por exemplo, ao infinito e ao finito, à vida e à morte; para ser não é necessário ter a vida nem excluí-la, mas pode exigir-se (se se é árvore, por exemplo) ou excluí-la (se se é pedra). O estado ideal ou abstrato desta natureza de ser, isto é, o que lhe convém como pensada por nós permite-lhe esta indiferença que não pode ter se a tomamos no seu estado real, no ser atualmente existente". Mas estas distinções que definem a teoria do realismo moderado, tão conforme ao bom senso, perdem todo o valor em idealismo onde o real e o ideal são a mesma coisa. Se nesta hipótese tentamos pensar o ser abstrato, devemos necessariamente concebê-lo como idêntico realmente a objetos que se excluem, o que é a própria contradição. Contudo, o nosso pensamento não pode instalar-se na contradição: é psicologicamente impossível; por isso, pensar no ser, idêntico a tudo, é não pensar em nada: a tese arrasta a antítese e o ser muda-se em não-ser. Hegel conclui daqui que o que realmente é ser é uma síntese destas duas contraditórias. O que já é, sem ser ainda plenamente, é o que devém. O fundo do universo não é, pois, uma realidade estática, mas dinâmica; não é o ser, mas o devir que vai pôr ordem na multidão formigante dos modos de ser contraditórios, todos idênticos ao ser abstrato e que vai torná-los todos inteligíveis indicando o seu lugar no inflexível desenrolar das virtualidades do ser. É a análise deste desenrolar que Hegel chama a "dedução das categorias (**) do ser"; cada uma das três fases da trilogia fundamental será fonte de numerosas aplicações, onde encontraremos todas as ciências humanas interpretadas segundo o idealismo absoluto e distribuídas em um triplo domínio: o da lógica, que é também uma ontologia; o da natureza; o da moral e da religião. (**) Alusão à dedução transcendental das categorias de Kant; mas este não fizera este trabalho senão para as ciências positivas, enquanto Hegel quer fazê-lo para todo o saber humano: substitui o idealismo absoluto ao idealismo transcendental, mais moderado, de Kant.
[F.-J. Thonnard, A. A. Compêndio de História de Filosofia]



Falecimento

Túmulo de Hegel, em Berlin. (Imagem: User: Kiko2000).
Hegel faleceu em 14 de Novembro de 1831. Encontra-se sepultado em Dorotheenstädtischer and Friedrichswerder Cemetery, Berlim na Alemanha.














Seguidores

Após a morte de Hegel seus seguidores dividiram-se em dois campos principais e
Ludwig Feuerbach
contrários. Os hegelianos de direita, discípulos diretos do filósofo na Universidade de Berlim, defenderam a ortodoxia evangélica e o conservadorismo político do período posterior à restauração napoleônica. Os hegelianos de esquerda, chamados jovens Hegelianos, interpretaram Hegel em um sentido revolucionário, o que os levou a se aterem ao ateísmo na religião e ao socialismo na política. Entre os hegelianos de esquerda encontra-se Ludwig Feuerbach, David Friedrich Strauss, Max Stirner e, o mais famoso, Karl Marx. Os múltiplos cismas nesta facção levaram, finalmente, ao individualismo egoísta de Stirner e à versão marxiana do comunismo. No século XX a filosofia de Hegel experimentou um grande renascimento: tal fato deveu-se em parte por ter sido descoberto e reavaliado como progenitor filosófico do marxismo por marxistas de orientação filosófica, em parte devido a um ressurgimento da perspectiva histórica que Hegel colocou em tudo, e em parte ao crescente reconhecimento
Karl Marx
da importância de seu método dialético. Algumas figuras que relacionam-se com este renascimento são Georg Lukács, Herbert Marcuse, Theodor Adorno, Ernst Bloch, Alexandre Kojève e Gotthard Günther. O renascimento de Hegel também colocou em relevo a importância de suas primeiras obras, ou seja, as publicadas antes da Fenomenologia do Espírito. Mas não só os teóricos da escola de Frankfurt viram um renascimento da filosofia hegeliana, como também muitos filósofos na França, em geral após o curso hoje famoso de Kojève. Dentre estes, podemos citar Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Lacan, Hippolyte entre outros. Do mesmo modo, os teóricos pragmatistas como Robert Brandon, aproveitaram os aspectos comunitaristas da filosofia hegeliana. Na verdade, esta apropriação de Hegel pelos pragmatistas começou com os primeiros filósofos pragmatistas.



Principais obras

  • Fenomenologia do Espírito (Phänomenologie des Geistes), 1807
  • Ciência da Lógica (Wissenschaft der Logik), 1812-1816
  • Enciclopédia das Ciências Filosóficas, 1817-1830
  • Elementos da Filosofia do Direito (Grundlinien der Philosophie des Rechts), 1817-1830

  

Citações de Hegel
  • "A mulher pode ser educada, mas sua mente não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e algumas das artes".
- Frauen können wohl gebildet seyn, aber für die höheren Wissenschaften, die Philosophie und fir gewisse Produktionen der Kunst, die ein Allgemeines fordern, sind sie nicht gemacht.
- Werke - Volume 8 - Página 225, Georg Wilhelm Friedrich Hegel - Duncker und Humblot, 1840.
  • "Tudo o que é racional é real e tudo o que é real é racional".
- citado em "Dicionário Enciclopédico Brasileiro: Ilustrado‎" - Página 1499, de Alvaro Magalhães - Publicado por Editôra Globo, 1957.
  • "O verdadeiro é o todo".
- prólogo da "Fenomenologia do Espírito", conforme citado em "Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin: ensaio crítico sôbre a escola neohegeliana de Frankfurt" - página 101, Por José Guilherme Merquior, Publicado por Ed. Tempo Brasileiro, 1969, 311 páginas.
  • "Quem quer algo de grande, como diz Goethe, deve saber limitar-se. Quem, pelo contrário, tudo quer, nada, em verdade, quer e nada consegue".
- Wer etwas Großes will, der muß sich, wie Goethe sagt, zu beschränken wissen. Wer dagegen alles will, der will in der Tat nichts und bringt es zu nichts.
- Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse, Werke in 20 Bänden, Suhrkamp Verlag, 1970, §80, Band 8, Seite 169.
  • "Nada de grande no mundo foi realizado sem Paixão".
- nichts Großes in der Welt ohne Leidenschaft vollbracht worden ist.
- Hegel; Werke: Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte, Volume 9‎ - Página 28, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Philipp Konrad Marheineke, Heinrich Gustav Hotho - Duncker und Humblot, 1837 - 446 páginas.

Atribuídas

  • "Napoleão é o espírito do mundo a cavalo".
- Hegel citado em "Cadernos do Cárcere", Volume 1 - Página 386, Antonio Gramsci, Carlos Nelson Coutinho - Editora Record, 2001, ISBN 852000511X, 9788520005118 - 496 páginas.

De terceiros sobre Hegel

  • "Hegel, um charlatão banal, vácuo, repugnante e ignorante, que mistura insanidade e disparates com uma arrogância sem precedentes, o que os seus partidários transmitem como se tratasse de sabedoria imortal tida como verdade por idiotas... condenou à ruína toda uma geração de intelectuais".
- Arthur Schopenhauer, Prefácio de "O Mundo Como Vontade e Representação".
  • "...um estilo apropriadamente elevado e intimidante, incompreensível e no entanto sugestivo. O equivalente verbal de trompetes".
- Ernest Gellner, "Reason and Culture".

Notas

Nota (A):Até 1850 todos os escritores alemães tinham as suas obras publicadas em francês, pois até mesmo eles consideravam a língua bárbara, por conta de toda a influência napoleônica. Até o presente ano, a Alemanha não estava unificada e tudo o que existia eram vários dialetos de um futuro "alemão". Daí a tradução francesa.
Nota (B):O próprio tomismo não faz outra coisa quando parte, também ele, do princípio que tudo é inteligível pelo ser; mas porque distingue nitidamente o mundo real do mundo ideal evita os equívocos e as dificuldades do hegelianismo.
 
Assinatura de Hegel



Referências

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