terça-feira, 31 de julho de 2012

Biografia do General Aníbal (parte 1/6)


Aníbal
Aníbal. Filho de Amílcar Barca; Cartago, 248 a.C. - Bitínia, 183 ou 182 a.C., conhecido comumente apenas como Aníbal (em púnico: ḤNBʻL, Ḥannibaʻal ou Ḥannibaʻl, lit. "Ba'al é/foi bondoso" ou "Graça de Baal" ou "recebi a graça de Baal", talvez também nas formas Ḥannobaʻal, ou ʼDNBʻL, ʼAdnibaʻal, lit. "Ba'al é meu senhor"; em em grego: Ἁννίβας, Hanníbas) foi um general e estadista cartaginês considerado por muitos como um dos maiores táticos militares da história. Seu pai, Amílcar Barca (Barca, "raio"), foi o principal comandante cartaginês durante a Primeira Guerra Púnica, travada contra Roma; seus irmãos mais novos foram os célebres Magão e Asdrúbal, e seu cunhado foi Asdrúbal, o Belo. Sua vida decorreu no período de conflitos em que a República Romana estabeleceu supremacia na bacia mediterrânea, em detrimento de outras potências como a própria Cartago, Macedônia, Siracusa e o Império Selêucida. Foi um dos generais mais ativos da Segunda Guerra Púnica, quando levou a cabo uma das façanhas militares mais audazes da Antiguidade: Aníbal e seu exército, onde se incluíam elefantes de guerra, partiram da Hispânia e atravessaram os Pirenéus e os Alpes com o objetivo de conquistar o norte da península Itálica. Ali derrotou os romanos em grandes batalhas campais como a do lago Trasimeno ou a de Canas, que ainda se estuda em academias militares na atualidade. Apesar de seu brilhante movimento, Aníbal não chegou a capturar Roma. Existem diversas opiniões entre os historiadores, que vão desde carências materiais de Aníbal em máquinas de combate a considerações políticas que defendem que a intenção de Aníbal não era tomar Roma, senão obrigá-la a render-se. Não obstante, Aníbal conseguiu manter um exército na Itália durante mais de uma década, recebendo escassos reforços. Por causa da invasão da África por parte de Cipião, o Senado púnico lhe chamou de volta a Cartago, onde foi finalmente derrotado por Públio Cornélio Cipião Africano na Batalha de Zama. O historiador militar Theodore Ayrault Dodge o chamou "Pai da Estratégia". Foi admirado inclusive por seus inimigos — Cornélio Nepos o batizou como “o maior dos generais”—, assim sendo, seu maior inimigo, Roma, adaptou certos elementos de suas táticas militares a seu próprio arsenal estratégico. Seu legado militar o conferiu uma sólida reputação no mundo moderno, e tem sido considerado como um grande estrategista por grandes militares como Napoleão ou Arthur Wellesley, o duque de Wellington. Sua vida tem sido objeto de muitos filmes e documentários. Bernard Werber lhe rende homenagem através do personagem do “Libertador”, e de um artigo em L’Encyclopédie du savoir relatif et absolu mencionada em sua obra Le Souffle des dieux.

História

Antecedentes e início de carreira

Antecedentes históricos

Em meados do século III a.C., a cidade de Cartago,
Ruínas de Cartago
onde nasceu Aníbal, estava fortemente influenciada pela cultura helenística derivada dos vestígios do império de Alexandre Magno. Cartago ocupava então um lugar importante nos intercâmbios comerciais da bacia mediterrânea, e em particular nos empórios da Sicília, Sardenha e nas costas da Ibéria e da África do Norte. A cidade dispunha igualmente de uma importante frota de guerra que protegia suas rotas marítimas, que transportavam o ouro procedente do Golfo da Guiné e o estanho procedente das costas britânicas. A outra potência mediterrânea da época era Roma, com a qual Cartago entrou em guerra durante vinte anos em um conflito conhecido como a Primeira Guerra Púnica, a primeira guerra de grande envergadura em que Roma saiu vitoriosa. Este enfrentamento entre a República Romana e Cartago foi provocado por um conflito secundário em Siracusa, e se desenvolveu por terra e mar, em três fases: combates na Sicília (264-256 a.C.), combates na África (256-250 a.C.) e de novo na Sicília (250-241 a.C.). Durante esta última fase, e sobretudo com a guerra, nasceu a fama de Amílcar Barca, pai de Aníbal, que dirigia a guerra contra Roma desde o ano 247 a.C.. Com a grande derrota naval nas ilhas Égadi, ao noroeste da Sicília, os cartagineses se viram obrigados a firmar um tratado na primavera de 241 a.C. com o cônsul Caio Lutacio Cátulo. Entre os termos impostos a Cartago por este tratado se encontravam a cessão dos territórios da Sicília e Sardenha, e o desmantelamento de sua frota. Ao final da Primeira Guerra Púnica, apesar das precauções adotadas por Amílcar Barca, Cartago encontrou problemas na hora de dispersar seus
Guerra dos Mercenários
regimentos armados de mercenários, que não tardaram em assaltar à cidade e provocar um conflito da envergadura de uma guerra civil. Este episódio histórico é conhecido como a Guerra dos Mercenários. Amílcar conseguiu reprimir esta rebelião depois de três anos, depois de vencer aos rebeldes no rio Bagradas e de novo, com um grande derramamento de sangue, no desfiladeiro da Serra. Políbio o nomeia como o "desfiladeiro da serra", mas Gustave Flaubert, que utiliza a tradução de Vincent Thuillier, o chama "o desfiladeiro do machado". Da sua parte, Roma havia aproveitado a falta de oposição para tomar a Sardenha, anteriormente em mãos dos cartagineses. Para compensar esta perda, Amílcar marchou à Ibéria, onde se apoderou de vastos territórios no sudeste do país. Durante uma década, Amílcar dirigiu a conquista do sul da Ibéria, apoiado militar e logisticamente por seu genro Asdrúbal. Esta conquista restabelecia a situação econômica de Cartago, graças à exploração das minas de prata e estanho.


Juventude


Caricatura do juramento que fez Aníbal
a seu pai de ser sempre inimigo de Roma.
Aníbal Barca era o filho mais velho do general Amílcar Barca e de sua mulher ibérica. Ainda que "Barca" não era um sobrenome, senão um apelido (de barqä, "raio" em língua púnica), foi adotado como tal por seus filhos. Os historiadores designam à família de Amílcar com o nome de Bárcidas, a fim de evitar a confusão com outras famílias cartaginesas com os mesmos nomes (Aníbal, Asdrúbal, Amílcar, Magón, etc.). Sobre a educação de Aníbal é pouco o recolhido pelos autores greco-romanos. É sabido que aprendeu de um preceptor espartano, chamado Sosilos, as letras gregas, a história de Alexandre Magno e a arte da guerra. Assim adquiriu o modo de raciocínio e de ação que os gregos chamavam Métis, fundado na inteligência e a astúcia. Depois de haver incrementado seu território, Amílcar enriqueceu sua família e, por extensão, Cartago. Ao perseguir tal objetivo, Amílcar se apoiou na cidade de Gadir (atual Cádiz, Espanha), próxima ao Estreito de Gibraltar, e começou a submeter as tribos iberas. Naquele momento, Cartago se encontrava em tal estado de empobrecimento que sua marinha era incapaz de transportar o exército à Hispânia. Amílcar se viu, pois, obrigado a fazê-lo marchar até as Colunas de Hércules a pé, para cruzar ali em barco o Estreito de Gibraltar, entre o que atualmente seriam Marrocos e Espanha. O historiador romano Tito Lívio menciona que quando Aníbal foi ver ao seu pai e lhe rogou que o permitisse acompanhá-lo, este aceitou com a condição de que jurasse que durante toda sua existência nunca seria amigo de Roma. Outros historiadores referem que Aníbal declarou a seu pai: Juro que enquanto a idade me permita […] empregarei o fogo e o ferro para romper o destino de Roma”.[Aníbal]. Seu aprendizado tático começou sobre o terreno, baixo a égide de seu pai. Continuou aprendendo de seu cunhado, Asdrúbal, o Belo, quem sucedeu a Amílcar, morto no campo de batalha contra os rebeldes iberos em 229 a.C. ou em 230 a.C., momento em que o nomeia chefe da cavalaria. Neste domínio, Aníbal revela de imediato sua resistência e seu sangue frio, e sua capacidade para se fazer apreciar e admirar por seus soldados. Asdrúbal perseguiu uma política de consolidação dos interesses ibéricos de Cartago. Para isso, casou Aníbal com uma princesa ibera de nome Imilce, com a qual teve um filho. No entanto, esta aliança matrimonial é considerada improvável e não está atestada por todos. Por outro lado, Asdrúbal assinou em 226 a.C. um tratado com Roma pela qual a Península Ibérica ficava dividida em duas zonas de influência. O rio Ebro constituía a fronteira: Cartago não devia expandir-se mais ao norte deste rio, na mesma medida que Roma não se estenderia ao sul do curso fluvial. Em 221 a.C., Asdrúbal fundou a nova capital, Qart Hadasht, hoje Cartagena, situada no que é atualmente a província de Múrcia (ao sudeste da Espanha). Porém, um pouco mais tarde, um escravo gaulês, que acusou Asdrúbal de haver assassinado seu amo o assassinou por sua vez em torno do ano 221 a.C..

Governo da Hispânia

Após ter assumido o comando, Aníbal passou dois anos consolidando suas aquisições e completando a conquista da Hispânia ao sul do Ebro. Contudo, Roma, temendo a força crescente de Aníbal na Ibéria, fez aliança com a cidade de Sagunto, que fica a uma distância considerável ao sul do rio Ebro e proclamou a cidade como seu protetorado. Aníbal entendeu isso como um rompimento do tratado assinado com Asdrúbal, fazendo assim um cerco na cidade, que caiu após oito meses. Roma reagiu a essa aparente violação do tratado e demandou justiça de Cartago. Em vista da grande popularidade de Aníbal, o governo cartaginês não repudiou as ações de Aníbal, e a guerra que ele buscava foi declarada no final do ano. Aníbal agora estava determinado a levar a guerra até o coração da Itália com uma rápida marcha através da Hispânia e sul da Gália.


Segunda Guerra Púnica na Itália (218–203 a.C.)

Preparativos para atacar Roma

A missão romana retorna ciente da hostilidade da Hispânia, da neutralidade dos gauleses e do apoio de Massilía. Quando os dois novos cônsules foram
Aníbal e seus homens cruzando os Alpes.
escolhidos, Cipião foi incumbido de considerar a Hispânia como sua "província", e que desenvolvesse uma nova frota, pois o sítio e a pilhagem de Sagunto não poderia ser tolerado, sob a pena de abalar sua reputação entre gauleses e iberos.
Os cartagineses iberos possuíam apenas alguns navios de guerra para a proteção da navegação entre a península Ibérica e a África do Norte. Cientes de sua supremacia marítima, os romanos se prepararam para transportar suas legiões, via Massilía, para uma invasão dos territórios de Nova Cartago ao sul do Ebro. Contudo, Aníbal não se preparava para defender seus novos territórios, nem planejava cruzar o rio para prosseguir com sua campanha ao norte. Os próprios romanos também não consideravam o ataque pelos Alpes, pois tal jornada implicaria nada menos do que quinze centenas de milhas. Aníbal instruiu Asdrúbal para assumir o comando na Hispânia caso se ausentasse durante um ataque romano, além de conseguir o apoio da maior parte da Península Ibérica, deixou seu irmão comandando o forte e nova cidade-porto e ainda reuniu a tropa que julgava necessária. Devido à sua estratégia, a guerra havia sido declarada pelos romanos, que seriam vistos como causadores do rompimento do tratado com Cartago. Isso foi mostrado às tribos gaulesas como um exemplo da falta de palavra de Roma. Aníbal dispôs tropas para salvaguardar tanto a África quanto a península Ibérica, e para assegurar-se de que seu irmão não enfrentaria problemas de lealdade enquanto ele estivesse distante, adotou a política de transferir tropas iberas para a África e tropas africanas para a Ibéria. Na primavera de 218 a.C. as tropas foram deslocadas dos quartéis de inverno para o norte onde cruzaram o rio Ebro com doze mil cavaleiros e noventa mil soldados de infantaria. Na Catalunha, entre o
Rota da invasão de Aníbal.
Ebro e os Pirenéus, encontraram resistentes tribos das montanhas. Sua passagem foi fortemente impedida, e muitas aldeias precisaram ser arrasadas antes que eles conseguissem prosseguir. Essa resistência não era esperada, contudo, ficou claro que ele havia partido com uma força maior do que a pretendida para a campanha, haja vista que deixara encarregados do novo território e de manter guarda sobre os desfiladeiros entre a península Ibérica e a Gália mil cavaleiros e dez mil soldados de infantaria, sob o comando de seu irmão
Hanão. Contornando o porto grego de Ampúrias, o exército foi em direção aos Pirenéus. Após Aníbal ter exposto seu plano de campanha às tropas, qualquer demora mais prolongada do que o necessário à conclusão das preparações finais para a marcha deveria ser evitada, pois possuía informações de que a época ideal para transpor os Alpes era o verão. Contudo, o tempo necessário para alcançá-los foi maior do que o pretendido. Apesar de contar com grande número de cavaleiros, as tropas também levavam 37 elefantes que seguiram desde a península Ibérica, através dos Pirenéus e do rio ródano, sobre os Alpes, até à península Itálica. Não há
Monte Cenis
registro de que algum deles tenha morrido durante a marcha, mas está escrito que, quando o Aníbal chegou ao destino, seus elefantes ainda permaneciam com ele. A utilização de elefantes de guerra era bastante antiga no oriente, embora só tivessem sido mencionados nas campanhas de Alexandre, o Grande, quando em 313 a.C. derrotou Dario III da Pérsia, que tinha quinze elefantes em seu exército na batalha de Gaugamela. O que não era esperado era que os gauleses boios, no norte da Itália, entusiasmados pela notícia de que Aníbal estava em marcha, se rebelassem contra Roma e, conclamando seus aliados, os ínsubres, para se unirem a eles, invadissem a terra que os romanos haviam colonizado. Os gauleses, valendo-se de seu habitual poder de fogo, apanharam os romanos desprevenidos, obrigando-os a revisar seus planos prévios. As legiões que partiriam para a península Ibérica não poderiam ser dispensadas até que o problema na Gália Cisalpina fosse contornado. O retorno dos cavaleiros númidas teria sido suficiente para confirmar a pressa de Aníbal. Em sua jornada de reconhecimento, eles haviam encontrado uma força de trezentos cavaleiros de Cipião, enviados numa missão similar. Após esse encontro, os númidas, que se saíram mal, bateram em retirada seguidos pelos romanos. Acuados por dois fogos, eles se puseram a correr desordenadamente. Aníbal cuidou deles com rapidez, e é significativo que em suas campanhas tenha utilizado mão-de-obra gaulesa de um modo cínico, exaltando sua bravura mas nunca os colocando num posto onde não estivessem cercados por tropas treinadas, tampouco sem uma retaguarda que os detivesse se eles resolvessem desertar e fugir. Os gauleses fugiram assim que a força total dos cartagineses desembarcou. Aníbal havia estabelecido sua cabeça-de-praia na margem oriental do Ródano, e as outras tropas ficaram para seguirem assim que um transporte regular por balsas foi organizado. Enquanto os últimos preparativos eram feitos e a travessia dos elefantes realizada, Aníbal se reunia com chefes tribais das planícies do Pó, que haviam lutado contra os romanos e que agora insistiam para que não atrasasse sua passagem para a Itália. Cipião regressou para Massília com suas legiões. Mas a Hispânia lhe fora designada como sua esfera de operações, assim como toda a península Ibérica ainda permanecia sendo a chave de toda a guerra. Com Aníbal e seu exército afastados, os romanos poderiam alcançar a vitória e destruir o poder cartagineses. Quanto a ele, estava claro que deveria retornar à Itália para se encarregar pessoalmente das tropas ao norte. Ele enviou sua frota e seu exército à Hispânia sob o comando de seu irmão Cneu e embarcou para a Itália. Se as tropas de Aníbal conseguissem atravessar os Alpes, elas o encontrariam à sua espera. Com os elefantes e uma retaguarda de cavalaria seguindo o corpo principal das tropas, o exército deslocava-se ao longo do rio Ródano no sentido
Monte Montgenèvre
ascendente, marchado o mais rápido possível, de modo a escapar dos romanos. Há um corredor escarpado na provável rota de Aníbal durante os estágios iniciais de seu avanço em direção aos Alpes que tem sido aceitavelmente identificado ao lugar onde os cartagineses tiveram seu primeiro conflito com os gauleses das montanhas. É o desfiladeiro de Gás, que por ser muito estreito era potencialmente uma armadilha mortal, e se foi através dessa rota que o exército passou, é possível supor que Aníbal não havia feito qualquer reconhecimento e fora enganado por seus guias, ou que ele simplesmente resolveu arriscar. Nenhuma dessas suposições parece provável, mas a geografia da rota de Aníbal tem originado inúmeros livros e teses, nenhum com efetiva comprovação, a menos que algum dia alguma evidência arqueológica seja encontrada para provar que "os cartagineses um dia passaram por esse caminho"; o máximo que se pode dizer é "devem tê-lo feito". À luz do dia, o exército começou a se posicionar para a passagem através da garganta. A essa altura, os alóbrogos já haviam descoberto que seus pontos estratégicos tinham sido ocupados durante a noite.
Aníbal estava agora a meio caminho de seu destino, aproximadamente, numa travessia dos Alpes que ninguém jamais pensara que um grande exército pudesse realizar. De modo a não deixar o comboio de animais de carga e bagagens indefeso na retaguarda, Aníbal, rápida e cuidadosamente, posicionou-o atrás do corpo principal da cavalaria, na vanguarda; depois vinha o grosso do exército, seguido da nata da infantaria pesada como retaguarda. É quase certo que, se não tomasse essas sábias providências, teria perdido todo o seu exército. Dois dias de marcha adiante, os gauleses, que silenciosamente haviam se concentrado nas montanhas ao redor, prepararam seu ataque. O exército passava através de uma estreita garganta, seguindo a trilha que acompanhava o curso de um pequeno e rápido rio (possivelmente o rio Guil), que deságua no rio Durance, o qual haviam deixado para trás. Era Outubro, e naquela tardia estação do ano os cartagineses talvez tivessem pouca noção de direção básica — sem contar que desconheciam a área específica daquele território. Aníbal sabia que a Itália ficava em algum lugar a sudeste, mas mesmo coordenadas elementares, tais como o nascer e o pôr-do-sol, eram mascaradas pelas montanhas. Os guias, como ele suspeitava todo o tempo, provaram ser traiçoeiros. Então, finalmente, "após uma subida de nove dias, Aníbal atingiu o cume (…)". Lá embaixo se revelava o território verde-escuro da Itália. Para isso muitos tinham morrido, e somente a impossibilidade de retorno e a impetuosa inspiração de seu líder haviam mantido esse exército multirracial e poliglota em movimento através da imensidão dos Alpes. Ele esperou por dois dias no ponto onde a trilha não ia mais acima. Consta que Aníbal saiu de Cartagena aproximadamente na metade de junho de 218 a.C. e passou cinco meses entre Cartagena e as planícies do Pó. Portanto, foi em meados de outubro que ele se deteve ante a linha divisória de águas acima da Itália e fitou o sul. Contrariando o otimismo expressado no discurso de Aníbal, a descida desde a linha d'água foi até mesmo pior do que a longa subida até ali. O inimigo não era mais o gaulês das montanhas, mas sim as condições impostas pelo inverno — a queda de neve nas primeiras nevascas daquele ano, sob a qual, naquela altitude, jazia a dura e
Monte Clapier
compacta neve do ano anterior. A cavalaria deteve-se ali — parecia-lhes que haviam finalmente alcançado o fim da estrada, uma posição sem chances de avanço — e foi comunicado a Aníbal que o caminho era intransponível. Não somente um deslizamento de terra, mas também o volume de neve acumulada bloqueavam o exército. A neve fresca encobrindo as velhas trilhas fazia com que os animais, quando rompiam a superfície, afundassem as patas no leito mais abaixo, enquanto a neve mole se fechava ao redor deles, segurando-os como uma garra gelada. Os homens se saíam pouca coisa melhor: quando tentavam erguer-se sobre as mãos e joelhos, eles não conseguiam apoio na neve velha e profundamente congelada, e escorregavam pelas escarpas que serviam como degraus. Aníbal percebeu que não havia como fazer qualquer desvio, mas que o estreito desfiladeiro da montanha podia ser reforçado e toda a trilha nivelada. Por qual desfiladeiro Aníbal conduziu seu exército na descida até as planícies do rio Pó é pergunta que tem gerado muita controvérsia no decorrer dos séculos e ocasionado vários escritos diferentes, de muitos monógrafos. Alguns desfiladeiros, tais como o Grande St. Bernard e o Pequeno St. Bernard, são relativamente fáceis de se descartar, uma vez que eles não levam ao país habitado pelos taurinos — tribo em cujo território as forças de Aníbal emergiram em sua descida dos Alpes. O que é perfeitamente claro nos relatos da travessia de Aníbal pelos Alpes é que o desfiladeiro utilizado por ele está entre os altos e perigosos que conduziam de modo íngreme à Itália. Após verificarmos todos os dados, sem contar as teorias, os quatro mais cotados continuam sendo o monte Cenis (tornado famoso por Carlos Magno e Napoleão), o passo Clapier, o Montgenèvre e o passo de Traversette. O desfiladeiro Monte Cenis e o Passo Clapier possuem ambos locais próximos ao cume onde o exército poderia ter acampado, mas o Passo Clapier tem preferência, sendo um desfiladeiro alto e rústico. Ele também possui uma saliente espora no início de sua descida em direção à Itália, de onde se tem uma esplêndida vista das planícies abaixo. O Montgenèvre, que através dos anos ganhou muitos partidários, oferece um bom local para acampamento, mas é o mais baixo de todos os desfiladeiros e não está de acordo com o retrato da perigosa rota tomada por Aníbal. O desfiladeiro mais alto de todos os quatro, o passo de Traversette, preenche quase todos os requisitos das narrativas, mas falta um local de acampamento adequado. Fortes argumentos podem ser, e têm sido, adaptados para cada uma dessas quatro rotas de acesso. A escolha final parece recair entre o desfiladeiro de Clapier e o de Traversette, com ligeira diferença em favor do passo Clapier.
Para que não possam restar dúvidas, quando chegaram as notícias a Roma de que o impossível acontecera — Aníbal e seu exército cartaginês haviam irrompido tal qual uma águia nos desfiladeiros dos Alpes — houve pânico na cidade. Era, contudo, uma águia esfarrapada e magra, que então alisava suas asas sob a pálida luz do sol de inverno do norte italiano e tentava tirar algum proveito do que restou da horrível marcha. Reunidas uma vez mais em uma terra que fornecia pasto, cereais e animais para abate, as tropas, que em aparência e condição mais se assemelhavam a animais do que a homens, poderiam, pela primeira vez em muitos meses, desfrutar de algum conforto — ainda que não por muito tempo — e recuperar suas forças. Aníbal podia agora proceder a uma cuidadosa análise e saber com exatidão o que o seu inacreditavelmente arriscado empreendimento havia lhe custado. Pela vantagem da surpresa e para assegurar a ligação da sua causa à dos gauleses na Itália, ele havia pago tão caro que a maioria dos generais teria considerado a campanha já perdida. De acordo com Políbio, a mais notável autoridade no assunto, ele havia cruzado o Ródano com cerca de cinquenta mil soldados de infantaria e nove mil cavaleiros e, uma vez que não há registro de quaisquer perdas após ou durante a travessia do Ródano, presume-se que fora com um número aproximado — levando-se em conta as perdas naturais devido a acidentes e doenças — que ele tenha iniciado sua subida aos Alpes. Quinto Fábio Pictor, primeiro dos historiadores latinos, conhecido como o "Pai da História Romana", lutou contra Aníbal na guerra que estava para começar e reconheceu que naquele período os romanos e seus Estados aliados eram capazes de mobilizar setecentos e cinquenta mil homens. Aníbal sabia, pois fora avisado previamente pelos gauleses na Itália, que muitos milhares deles iriam se sublevar, aclamando-o como libertador, e se uniriam às suas forças na guerra contra Roma. Ele conhecia a bravura deles (bem como sua falta de disciplina), mas o que não poderia saber, enquanto contemplava seu maltratado exército recuperando-se no sopé dos Alpes, era quantos deles exatamente se uniriam sob seu estandarte. Havia subjugado as tribos do norte da Hispânia, e tudo o que precisavam da península Ibérica constituía agora colônia cartaginesa; cruzara os Pirenéus e o rio Ródano; e podia olhar para trás em direção aos luzentes picos alpinos, que conquistara com tão severas perdas, como a última grande aventura entre ele e seu objetivo. Porém agora deveria enfrentar os fortes e disciplinados exércitos de Roma — e naquele momento ele tinha não mais do que vinte mil semi-definhados soldados, seis mil cavaleiros em esqueléticos cavalos, e trinta e sete extenuados elefantes. Era muito pouco com que medir forças contra o maior poderio do mundo mediterrâneo.

Primeiras batalhas contra os romanos


Rota da Batalha de Ticino.
A batalha de Ticino, travada em Novembro de 218 a.C., foi uma batalha da Segunda Guerra Púnica, na qual Aníbal derrotou os Romanos sob Públio Cornélio Cipião numa luta de cavalaria. A batalha do Trébia deu-se em dezembro do ano 218 a.C., junto das margens do rio Trébia, na atual região italiana da Emília-Romanha, na qual o general romano Públio Cornélio Cipião foi derrotado pelo exército cartaginês comandado por Aníbal, em um dos sucessos bélicos mais importantes das Guerras Púnicas onde se confrontaram romanos e cartagineses. A batalha do Lago Trasimeno, travada na primavera de 217 a.C., foi uma batalha da Segunda Guerra Púnica, na qual Aníbal destruiu o exército romano de Caio Flamínio numa emboscada, matando-o.

A ditadura de Fábio

Estátua de Quinto Fábio Máximo, ditador romano durante a Segunda Guerra Púnica.
A derrota de Caio Flamínio no lago Trasimeno, deixou Roma à mercê de Aníbal. Esperava-se que o cartaginês, em seguida, investisse contra a cidade para tomá-la e terminar, vitoriosamente, a guerra. Diante dessa séria ameaça, o senado romano decidiu nomear um ditador para dirigir a defesa, e a escolha recaiu sobre o senador e ex-cônsul, Fábio Máximo, que já exercera essa função extraordinária, anteriormente. Supondo que Aníbal marcharia contra Roma, Fábio concentrou seus esforços em preparar a cidade e seus cidadãos para a resistência ao invasor. Mas como o exército cartaginês não aparecesse, ele concluiu que Aníbal não dispunha dos equipamentos necessários para cerco e assalto, e que esperava que os romanos reunissem suas últimas reservas, para esmagá-las em campo de batalha. Mas o ditador não se dispôs a dar a Aníbal o que ele queria. Ao contrário, consciente da superioridade militar do inimigo, decidiu evitar uma nova batalha campal, preferindo fustigar as forças púnicas, numa guerra de desgaste. Para tanto, ordenou que todas as pessoas residentes na linha de marcha de Aníbal abandonassem suas casas e fazendas, queimassem todas as suas propriedades e destruíssem suas colheitas, para privar os invasores de quaisquer meios locais de manutenção. Por adotar essa tática, tão estranha à tradição militar romana, Fábio foi apelidado, pejorativamente, de "cunctator" (contemporizador), sendo alvo de muitas críticas por parte de seus concidadãos e, sobretudo, de seus adversários políticos. Quando Aníbal moveu-se para o sul, Fábio o seguiu, mantendo seus homens no sopé dos Apeninos, de onde ele poderia despachar grupos de ataque para isolar forrageadores e acossar os flancos do inimigo. E todas as vezes que o cartaginês lhe ofereceu uma oportunidade de combate, ele, cautelosamente, a ignorou. Nem mesmo quando Aníbal atacou Cápua, esperando que Fábio usasse suas legiões para defender a cidade, nem assim o ditador abandonou a estratégia que decidira adotar. Quando se esgotou o tempo (limitado) de sua ditadura, Fábio Máximo devolveu o comando aos cônsules Servílio e Régulo (que havia substituído Flamínio). Pouco tempo depois, foram eleitos os cônsules de 216 a.C.: Lúcio Emílio Paulo, membro de uma renomada família patrícia, e Caio Terêncio Varrão, um plebeu de opiniões radicais, que se tornara um dos maiores críticos da estratégia contemporizadora de Fábio Máximo. Eles dariam a Aníbal o que Fábio lhe negara: uma grande batalha, que talvez decidisse a guerra.

Canas

 
Na primavera de 216 a.C., Aníbal começou a movimentar-se. Os suprimentos de
Aníbal contando os anéis dos cavaleiros romanos caídos na Batalha de Canas (216 a.C.). Mármore de 1704 esculpido por Sébastien Slodtz, atualmente exposto no Museu do Louvre.
Gerônio estavam quase esgotados e não havia mais nada a ser tirado da terra conquistada. Enquanto os romanos mantinham um firme sistema de suprimento para os seus exércitos em campo, Aníbal sempre era forçado a capturar algum rico depósito ou deixar o país, uma desvantagem que ele iria sentir ao longo de suas campanhas. Marchou para o sul e, cruzando o Rio Aufido (
Ofanto), desceu sobre a cidade de Canas. Apesar de ser um lugar sem importância em si, era um dos principais depósitos de grãos que os romanos usavam para abastecer o exército. A cidade situava-se em uma colina que se erguia abruptamente de uma indistinta planície, através da qual o Aufido fluía de modo tortuoso para o Adriático, cerca de seis milhas distante. Apoderando-se de Canas, Aníbal privara o exército romano de uma importante fonte de suprimentos, assegurando, além disso, alimentação mais do que adequada para seu próprio exército. Depois, o precoce milho da Apúlia estava amadurecendo e ele encontrava-se, assim, em posição de isolar os romanos dessas futuras colheitas. Servílio e Atílio, os cônsules do ano anterior que ainda estavam com o exército, defrontavam-se com um dilema. Até que fossem rendidos pelos dois novos cônsules, Lúcio Emílio Paulo e Caio Terêncio Varrão, estavam tecnicamente no comando. Eles certamente não tinham o desejo de travar batalha contra o formidável cartaginês, particularmente porque sabiam que o exército que iria se juntar a eles significava, praticamente, a única esperança que os romanos possuíam de derrotar o inimigo. Fora a batalha, suas únicas opções reais eram seguir Aníbal a uma distância segura e conseguir seus suprimentos de armazéns distantes, ou retirar o exército inteiramente até que fossem reforçados pelas novas legiões. O senado havia determinado aquele ano para a batalha. Eles tinham o apoio não só do povo como também dos equites, a cavalheiresca casta aristocrática. Todos os segmentos da população, embora houvesse grande divisão entre eles — divisão fomentada por homens como Varrão — estavam decididos a vingar as derrotas que Roma sofrera nas campanhas dos dois anos prévios, e apagar o desprezo lançado sobre o nome romano pela presença desse general cartaginês e seu exército improvisado nas terras da Itália. Não apenas sua honra e suas tradições os exortavam a oferecerem seus serviços, mas consta que tanto
Estratégia arquitetada por Aníbal para destruir o exército romano durante a Batalha de Canas, cortesia do Departamento de História da Academia Militar dos Estados Unidos.
plebeus quanto aristocratas perceberam que Roma, não só a cidade mas também todo o conceito da Roma eterna, havia chegado a um ponto crítico. Embora ainda fosse uma república, era fato que a Roma imperial já havia começado a despontar — e nenhum império pode sobreviver se não consegue lidar com os invasores de sua própria terra. Era essencial, para manter o respeito dos países sob seu poder, e dos que ainda viriam a estar, que o invasor fosse aniquilado. Determinado, então, a uma decisiva batalha em larga escala, o Senado deu ordens para os procônsules permanecerem com o exército existente e não fazerem qualquer movimento até que fossem reforçados pelos cônsules Lúcio Emílio Paulo e Caio Terêncio Varrão — e o novo exército de 216 a.C.. Contra eles, Aníbal colocou quarenta mil homens de infantaria e dez mil de cavalaria. Parte da discussão a respeito do número exato de romanos engajados em Canas parece ter vindo do fato de os comentadores não aceitarem de bom grado a possibilidade de tamanha desproporção entre a extensão dos dois exércitos: no máximo, os romanos teriam o dobro de homens que o inimigo e, na pior das hipóteses, seriam um quarto mais numerosos. Porém, exemplos suficientes existem, ao longo dos tempos, de pequenas forças triunfando sobre grandes, e em Canas havia muitas vantagens do lado de Aníbal que de longe sobrepujavam qualquer superioridade numérica ostentada pelos romanos. Sucede que ele não era somente um gênio da guerra, mas também estava num comando solitário e sem divisões. Ademais, seus outros comandantes eram excepcionalmente brilhantes, tinham trabalhado e lutado juntos em muitos campos de batalha, e conheciam e respeitavam a qualidade de seu líder. (Como o "bando de irmãos" de Nelson, eles não necessitavam de quaisquer ordens, uma vez que a ação tivesse iniciado, pois se entendiam completamente.). Não bastasse isso, o exército cartaginês, embora misto, consistia inteiramente de soldados experientes, que gozavam de completa confiança, vantagem que os sucessos prévios lhe proporcionaram, enquanto a maioria dos romanos e seus aliados, por outro lado, era formada de inexperientes grupos. Ainda um último fator de vantagem, de modo algum menos importante, foi terem chegado primeiro ao local; assim tiveram tempo de se refazer e explorar a área inteira ao redor de Canas e do rio Aufido, ao passo que os romanos vinham de uma longa marcha por um lugar estranho, e com comandantes em discordância um com o outro. Apesar da desproporção numérica, portanto, a verdadeira desigualdade agia em favor do cartaginês e é improvável que Aníbal tenha ficado mais intranquilo do que qualquer general que estivesse prestes a mandar seu exército para a batalha. Aníbal primeiro acampou às escondidas ao sul da colina de Canas. Ao ouvir sobre a aproximação dos romanos, deslocou suas tropas através do Aufido e montou um novo acampamento na margem oeste. Uma vez que a terra, daquele lado, era ainda mais plana e adequada para a cavalaria, ele esperava poder enfrentá-los onde a superioridade de seus cavaleiros mais facilmente se fizesse sentir. No dia em que os dois exércitos, pela primeira vez, ficaram à vista um do outro, Lúcio Emílio Paulo estava no comando e, reconhecendo que a terra adiante favorecia claramente uma ação de cavalaria, alertou Caio Terêncio Varrão de que as legiões levariam maior vantagem se elas se deslocassem para um solo mais acidentado. Varrão não concordou e, no dia seguinte, estando no comando, decidiu levar as legiões pelo Aufido e enfrentar Aníbal do outro lado da planície. Embora Políbio atribua o pronunciamento às tropas a Paulo, não pode haver dúvidas de que as palavras, a seguir, refletiam a opinião de
Varrão: (…) Seria estranho ou certamente impossível que, após enfrentarem seus inimigos em termos de igualdade em tantas escaramuças diferentes, e na maioria dos casos saindo vitoriosos, agora que vão confrontá-los com suas forças unidas, as quais superam as deles em mais de dois por um, vocês fossem batidos.Varrão estava bastante consciente de que o novo exército tinha sido enviado para conquistar uma grande vitória e livrar Roma do cartaginês de uma vez por todas. Ele não utilizava qualquer tática ao gosto de Quinto Fábio Máximo, o Protelador, e falar sobre deslocamento por solo acidentado só o deixava mais determinado a descer até a planície. Então, todo o exército romano moveu-se para a margem oeste do Aufido, onde estabeleceram seu acampamento principal, em frente às tropas de Aníbal, cerca de duas milhas distante deles ao norte. Ao mesmo tempo, parte do exército foi enviada através de um vau para estabelecer um acampamento secundário menor na margem oriental do rio. Quando os romanos estavam em coluna de marcha, foram atacados por alguns dos cavaleiros ligeiros númidas, sofrendo algumas poucas baixas. Esse encontro não foi de grande consequência e os númidas retiraram-se quando se viram frente à cavalaria pesada romana reforçada pelas legiões. Quando muito, os romanos ficaram com a vantagem nesse primeiro choque, o que deve ter gerado certo otimismo, "não tendo os cartagineses alcançado o sucesso que esperavam". No dia seguinte, Lúcio Emílio Paulo reassumiu o comando e "vendo que os cartagineses em breve teriam que trocar de acampamento de modo a obter suprimentos, permaneceu imóvel, após garantir seus dois acampamentos com forças de cobertura." Nisso ele estava totalmente correto, pois, deslocando-se
O escudo de Henrique II de França representando a vitória de Aníbal em Canas, uma ilusão do conflito da França com o Sacro Império Romano Germânico durante o século XVI.
através do rio, Aníbal estava agora do outro lado de Canas e de seus suprimentos. Ele novamente enviou os númidas, que tinham ordens de acossar os destacamentos romanos de abastecimento de água ocupados em trabalho fora do acampamento menor, no lado leste do rio. Os romanos tiveram seu moral desgastado quando viram aquele acampamento distante assediado por esquadrões volantes de cavaleiros e seus suprimentos de água negados. Era junho. O quente verão se instalara; a água era importantíssima, e a planície ao redor do rio Aufido começava a rachar com o calor. Durante aquela noite, ou no começo do dia seguinte, o vento mudou para o sul e um siroco (conhecido localmente como Volturno) começou a soprar. Bafejando preguiçosamente ao longo do Adriático, e atingindo os dois exércitos acampados milha após milha através da Itália, do mar Jônio e do distante golfo de Taranto chegava o ar úmido, trazendo a poeira da terra consigo. Vento desgastante, o siroco deixa uma cobertura de poeira e umidade mesmo sobre o viajante sem cargas; as novas legiões, pouco acostumadas a levar armas e armaduras, ao contrário dos veteranos de Aníbal, suavam à medida que subia o sol. Já era o cruel "sol leão" de verão e os homens teriam que se defrontar não apenas com o adversário, mas também com o maior inimigo de todos nas terras sulinas, o calor do meio-dia. Naquele dia, o quarto desde que os exércitos haviam se avistado, era a vez de Caio Terêncio Varrão assumir o comando, "e logo após nascer o sol começou a deslocar-se, com suas forças, de ambos os acampamentos". Cruzou o rio com a parte principal do exército e reuniu-se ao acampamento menor na margem leste. Suas razões para agir assim não foram investigadas pelos historiadores primitivos e, todavia, esse movimento que determinou o local do campo de batalha é logicamente importante. Em primeiro lugar, o segundo acampamento fora inicialmente estabelecido de modo a prover um local para abastecimento de água de um vau adequado, e a água seria crucial num dia de verão. Em segundo, movendo-se pelo lado em que se elevava a colina de Canas e seus celeiros, Caio Terêncio Varrão ameaçava os suprimentos de alimento de Aníbal. Em terceiro lugar, sendo o primeiro a mover-se e a ter forças dispostas em linha diante do calor do dia que se iniciava, deve ter esperado surpreender Aníbal e, antevendo que as forças deste último naturalmente se deslocariam para enfrentar os romanos, pilhar o exército cartaginês enquanto ainda estivesse em desordem após ter atravessado o rio. Finalmente, a terra na margem leste do Aufido, embora bastante plana, possuía uma quantidade de ondulações e irregularidades que tornariam as coisas difíceis para a cavalaria. Varrão não agiu com estupidez precipitada. Tão logo viu os romanos a mover-se naquele tórrido dia, Aníbal enviou suas tropas com armas leves — os fundibulários e os lanceiros — através do rio. Ele sabia quem estava no comando do exército romano e que, mesmo antes de o corpo principal das tropas oponentes começar a desfilar em direção do rio, após uma longa demora, ele havia trazido o corpo principal das armas romanas para a batalha. Desde o lago Trasimeno esperava por esse momento, e o ano de espera — sempre frustrado pela inteligente temperança de Quinto Fábio Máximo talvez agora pudesse ser levado à necessária e dinâmica conclusão. Os romanos posicionaram-se em formação de batalha quando Aníbal e a corporação de seu exército cruzaram o Aufido em dois locais separados e entraram no padrão tático que seu general lhes havia designado. Se estivesse lutando na margem oeste do Aufido, teria colocado os cavaleiros ligeiros númidas em seu flanco esquerdo, onde sua mobilidade poderia ser melhor utilizada, e sua cavalaria pesada à sua direita, bem próximo do rio, onde não importaria tanto se seu ataque fosse restrito. Como estava, posicionando seu exército na terra abaixo da colina de Canas, colocou os númidas no seu flanco direito, onde eles novamente poderiam fazer uso do terreno aberto, e a brigada pesada, consistindo de iberos e gauleses, à sua esquerda, perto do sinuoso rio. Eles estariam de frente para a cavalaria da ala direita romana e ele esperava que sua maior habilidade e a superioridade numérica o capacitassem a enfrentar os romanos na margem do rio. Próximo a eles, estacionou metade de seus veteranos africanos, a infantaria de armas pesadas locupletada de equipamento bélico tomado dos romanos em Trasimeno. No centro, onde ele próprio comandava, posicionou o corpo de suas tropas, os iberos e gauleses, com a outra metade dos africanos à sua direita, e além deles os cavaleiros númidas. Os africanos "estavam armados à moda romana.
Os escudos dos iberos e dos celtas eram muito similares, mas suas espadas eram inteiramente diferentes: as dos iberos trespassavam mortalmente devido ao seu corte, mas as gaulesas eram apenas capazes de talhar, precisando de um longo movimento para fazê-lo. Do modo como estavam dispostos em companhias alternadas, com os gauleses despidos e os iberos em túnicas curtas bordadas em púrpura, sua vestimenta nacional, eles representavam uma estranha e impressionante visão”. [Políbio]. O irmão de Aníbal, Magão, estava junto dele no comando do núcleo; Asdrúbal, oficial da equipe de Aníbal, comandava a esquerda cartaginesa; Hanão, à direita, com o grande comandante da cavalaria Maárbal liderando os cavaleiros númidas. Enquanto isso, o maior exército que Roma jamais enviou a campo estava disposto contra ele do modo convencional, com a cavalaria em cada uma das alas, os cavaleiros aliados à esquerda, de frente para os númidas, e os romanos à direita, próximo do rio, enfrentando a cavalaria pesada de Aníbal. No centro estavam as legiões, fileira após fileira: "os manipules, mais próximos um do outro do que de costume, fazendo com que a profundidade de cada um muitas vezes excedesse sua frente". Era esperado que, como em
Monumento Batalha de Canas
muitos campos de batalha, o peso blindado dos disciplinados legionários abrisse um buraco através do núcleo de Aníbal. Emílio Paulo, relutante porém apto para essa ação que ele considerava imprudente, comandava a cavalaria romana, enquanto Caio Terêncio Varrão liderava a cavalaria aliada. Gemino Servílio, o cônsul do ano anterior, comandava o núcleo romano composto pelas legiões. Naquele instante, quando ambos os exércitos se encararam e o abrupto peso e superioridade numérica dos romanos ficaram evidentes aos olhos de todos, deve ter ocorrido um momento de tremor entre os cartagineses, e entre o pequeno grupo de oficiais de comando em volta de Aníbal.
O pequeno grupo, então, desatou a rir, a tensão foi quebrada, e as fileiras atrás deles sentiram sua confiança restaurada pelos risos dos líderes ecoando no ar do verão. No momento em que os exércitos colocaram-se em ordem de batalha — as tropas com armas leves, fundibulários, atacantes e lanceiros, avançando para iniciarem os primeiros ataques — o sol estava a pino. Assim que começou a inclinar-se para o sul, os romanos ficaram com o sol nos olhos, e os cartagineses, de costas para ele. O siroco começou a soprar mais fortemente à medida que o dia avançava, "um vento", como Lívio diz, "que sopra nuvens de poeira sobre a seca aridez das planícies". Levantando-se sobre a terra atrás das linhas cartaginesas, soprou rispidamente no rosto dos romanos e de seus aliados. Quando o trote de milhares de homens e cavalos, o alarido de armaduras e espadas, o relincho dos cavalos e os brados de comando de oficiais e centuriões haviam acalmado, os dois exércitos se defrontaram no penoso semi-silêncio que precede uma tempestade. Ao som das trombetas de bronze, as tropas leves avançaram através do ar denso para desferirem seus primeiros golpes exploratórios umas contra as outras, como boxeadores procurando por uma brecha. Assim que os exércitos começaram a mover-se, foi notável que o núcleo cartaginês se lançasse à frente numa curiosa disposição em formato de um crescente, com a cúspide desse crescente projetando-se em direção ao inimigo, "a linha das companhias laterais ficando mais afilada à medida que se prolongava". Aníbal abriu a batalha propriamente dita com os iberos e gauleses, deixando os africanos armados com armas pesadas como reservas em cada ala. Eles formavam, por assim dizer, fortes retângulos flanqueando o saliente crescente. Sombrias e tenebrosas, equipadas com armas romanas, as tropas africanas eram como sombras em cada lado da sanguinária meia-lua guerreira que se projetava além deles. O verdadeiro combate começou com os cavaleiros iberos e gauleses e a cavalaria pesada romana, ambos constringidos pelo rio. Somente um ataque frontal poderia sobrevir, e os romanos — os cavaleiros de armadura ávidos para provar sua virtude e patriotismo, à frente dos legionários plebeus — tinham a desvantagem de, ao contrário dos seus oponentes, não terem vivido e lutado na sela por vários meses, para não dizer anos. "Ambas as partes investiram direto à frente", escreve Lívio, "e assim que os cavalos pararam, emaranhados na multidão, os cavaleiros se atracaram com seus inimigos e os arrastaram para fora das selas. Combatiam, agora, em sua maioria, sobre seus pés (…)". Os romanos, há apenas cerca de uma semana fora dos quartéis de inverno, muitos deles pacatos homens da cidade, não foram páreo para seus inimigos. "(…) Mesmo tendo sido severa, a batalha logo terminara, e a derrotada cavalaria romana voltou-se e fugiu". A cavalaria pesada atacou através da lacuna deixada pelo colapso da ala direita romana. O cônsul Lúcio Emílio Paulo, que estava no comando, escapou incólume dessa selvagem ação e cavalgou para o núcleo, onde se colocou na vanguarda dos legionários, "encorajando e exortando seus homens". Ele era da velha linhagem romana, conservador, porém preparado para lutar mesmo onde ele próprio não teria travado batalha. À direita cartaginesa os númidas tinham agora entrado em ação contra os cavaleiros aliados de Roma com os africanos usando o espaço livre do terreno além deles para impedir qualquer ataque frontal, mas dando a volta e atacando seu inimigo em turnos de mergulhos e retiradas, como aves de rapina. Enquanto isso, os corpos principais dos dois exércitos, as esforçadas infantarias, haviam entrado em colisão. Aníbal, "que havia estado nessa parte do campo desde o início da batalha", despreocupado, como sempre, com sua própria segurança, liderava as mesmas tropas que ele enviara ao sacrifício. A linha estreita de iberos e gauleses não suportaria muito mais tempo os golpes duros como de clavas que a densa massa das legiões em avanço desferiam contra ela. Vagarosa, mas constantemente, a cúspide do crescente sucumbia e retrocedia, primeiramente em corte, e depois em forma de U. As legiões, bastante amontoadas desde o início e sem a mobilidade que sua formação aberta de manipulo normalmente lhes proporcionava, começavam agora a afluir para trás, uma após a outra, de modo que pareciam uma torrente de armaduras arrebentando-se sobre um dique em desmoronamento. Mas em ambos os lados do núcleo que recuava as muralhas de ferro dos africanos permaneciam firmes. Ao contrário dos legionários que lideraram o ataque e dos legionários que os seguiam (comprimidos, ombro a ombro, dificilmente capazes de erguerem os braços armados com espadas), os africanos não tinham até agora tomado parte na luta. Na ala direita cartaginesa, os númidas haviam triunfado da cavalaria aliada romana, não sendo essa última páreo para os mais habilidosos cavaleiros do mundo, que agora perseguiam o inimigo enquanto este dispersava. Entre os que fugiam estava o cônsul Caio Terêncio Varrão, o homem cuja confiança mal direcionada havia levado a esse sangrento encontro no campo de Canas. Durante todo o tempo, as legiões romanas continuavam a forçar o núcleo de Aníbal. Elas haviam penetrado tão fundo que a infantaria africana nos flancos projetava-se de cada lado como margens cercando um movimentado rio de
Gravura da Batalha de Canas
armaduras. Asdrúbal, oficial da equipe de Aníbal, à frente da cavalaria pesada cartaginesa, tinha, enquanto isso, destroçado completamente a ala direita romana e, em seguida, guiou seus cavaleiros para trás das legiões romanas, atacando a cavalaria aliada em seu flanco esquerdo. Já em desordem, ou em fuga diante dos númidas, esse trovão da cavalaria pesada em sua retaguarda completava o colapso da ala esquerda romana. Uma trombeta soou. O momento havia chegado. A tática de Aníbal de duplo envolvimento das legiões romanas estava concluída. As tropas africanas, pesadamente armadas, disciplinadas e robustas, fizeram seu movimento: "os da ala direita volvendo para a esquerda, e os da ala esquerda, volvendo para a direita (…)". Sobre a massa de romanos que se debatia entre os cartagineses, agora apanhados no núcleo das tropas, os africanos se movimentaram como os dois lados de um torno se fechando. Para completar essa terrível armadilha dentro da qual as legiões haviam mergulhado na perseguição ao núcleo de Aníbal em colapso, suas linhas de retaguarda agora viam-se atacadas. A cavalaria pesada, tendo completado a destruição da cavalaria aliada, havia deixado que os númidas os perseguissem enquanto fugiam, para surpreender a retaguarda das legiões romanas. Cercados, uma vez que os iberos e gauleses que formavam o núcleo de Aníbal ainda lutavam ferozmente, disputando cada pedaço de solo, os romanos foram totalmente atingidos pelo arrocho das duas alas formadas pelos africanos. Por toda aquela tarde quente, a planície abaixo da colina de Canas se transformara num matadouro. Lívio escreve que quarenta e cinco centenas de soldados de infantaria e dois mil e setecentos cavaleiros foram mortos numa proporção quase igual de cidadãos e aliados. Apiano e Plutarco dão um total de cinquenta mil homens; Quintiliano, sessenta mil homens, e Políbio eleva o grande total de romanos mortos a setenta mil. Os cartagineses perderam aproximadamente quatro mil gauleses, mil e quinhentos iberos e africanos, e duzentos cavaleiros. Assim como o cônsul Lúcio Emílio Paulo, os dois cônsules dos anos anteriores, Servílio e Atílio, foram ambos mortos, além de Minúcio, o chefe dos cavaleiros de Quinto Fábio Máximo|Fábio. Oitenta senadores, dois questores (tesoureiros do Estado) e vinte e nove tribunos militares — mais da metade do total daqueles descendentes de sangue nobre romano — morreram naquele dia.


Continuação:

Biografia do General Anibal-parte-2 
Biografia do General Anibal-parte-3 
Biografia do General Anibal-parte-4
Biografia do General Anibal-parte-5 
Biografia do General Anibal-parte-6  



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